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vicio da poesia

Category Archives: Poetas e Poemas

Culinária no blog com A Boa Dieta + A VIDA de José Lino Grünewald

22 Sábado Nov 2014

Posted by viciodapoesia in Culinária, Poesia Antiga, Poetas e Poemas

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Friedrich von Logau, José Lino Grünewald

No tempo depois do amor, quando a fome aperta mas a vontade de largar o abraço não existe, nada como ter à mão a possibilidade de cozinhar algo que, sendo feito pelos dois, permite prolongar o prazer na partilha de uma intimidade conivente. É com esse propósito que vos faculto a receita para um delicioso prato de frango com queijo e laranja. Prepara- se em menos de cinco minutos se os ingredientes estiverem à mão. Será mais demorado se, como me aconteceu ontem, for necessário ir ao supermercado comprar azeite. Mas o prazer pode sempre ser retomado.

Basta de conversa e vamos então à receita para duas pessoas:

Ingredientes

Pelo menos três peitos de frango, dependendo do tamanho dos peitos e da fome;
Um queijo fresco médio + um queijo mozzarela fresco médio;
Salada pré-lavada de agrião ou rúcola ou mista

Para o tempero:
Azeite,
Dentes de alho a gosto,
Sumo de meia laranja grande ou de uma laranja média,
Sal ou flor de sal

Execução:

1 – Queijo, salada e mesa

Cortam-se os queijos em cubos para um prato de servir.
Coloca-se a salada noutro prato de servir (pré-lavada em pacote é mais fácil), depois de passar por água da torneira.
Põem-se na mesa, dois pratos e respectivos talheres, guardanapos, copos para água e vinho.
Abre-se a garrafa de vinho (pode ser branco verde, ou maduro branco ou tinto, do Dão, ou  do Douro), e já está.

2 – Frango

Numa tábua cortam-se os peitos de frango em cubos pequenos e temperam-se com um pouco de sal. Se se lavarem antes os peitos de frango (questão de gosto), ou estiverem húmidos de descongelar, secam-se com papel de cozinha antes de cortar.

Numa frigideira colocam-se os dentes de alho descascados, laminados, e cobre-se o fundo com azeite.
Acende-se o fogo e deixam-se os alhos fritar em fogo baixo ou moderado para não queimar.
Quando o azeite estiver bem quente acrescenta-se o frango em cubos (cuidado que o azeite pode espirrar) e saltei-se (mexe-se com colher) até perder a cor de cru. A operação não deve demorar mais de 2 minutos para que o frango fique suculento.

Quando o frango estiver pronto deita-se sobre o queijo no prato de servir.
Rega-se com um pouco do azeite da fritura, a gosto, e espreme-se sobre o frango a meia laranja.

Dá-se a volta para envolver e está pronto a comer.

Agora é só sentar, brindar e saciar a fome que existir.

A soneca(?) depois desta refeição pode ser deliciosa.

Por motivos óbvios não há fotos da comida.

Agora um conselho poético para continuar esta boa dieta:

A BOA DIETA

Carlota dissera ao seu doutor
Que lhe agradava, de manhã, fazer amor,
Embora à noite a coisa fosse mais sadia.
Sendo ela prudente, resolveu
Fazê-lo duas vezes ao dia:
De manhã, por prazer
De noite, por dever.

Poema de Friederich von Logau (1604-1655) em tradução de João Paulo Paes.

Friederich von Logau (1604-1655)  foi um notável poeta do barroco alemão, período de onde nos chegaram fascinantes poesias visuais, algumas das quais magistralmente traduzidas por João Barrento na Antologia do Barroco Alemão, O Cardo e a Rosa.

Para uma vez mais dar conta das continuidades poéticas que atravessam o mundo, é com um herdeiro brasileiro dessa poesia visual que termino – José Lino Grünewald(1931-2000) – Zelino para os amigos, poeta e tradutor brasileiro, talvez apenas conhecido em Portugal pela sua tradução de OS CANTOS de Erza Pound.

Figura de proa da vanguarda poética brasileira, com os irmãos Campos, Augusto e Haroldo, e Décio Pignatari, à sua poesia regressarei. Por agora fiquemos com a vida

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Três poemas de José Gomes Ferreira

19 Quarta-feira Nov 2014

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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José Gomes Ferreira

XXXVII

Ah! Se eu imitasse a alegria das árvores e do vento

que riem sem motivo

 

Mas não. Ando triste.

 

Já não me contento em sentir-me vivo…

(E que outro destino existe?)

 

 

LIV

Pobre mendigo!

Queres uma mulher nua,

mas só tens a lua

para dormir contigo.

 

A lua – imagina –

que nem a um poeta

satisfaz!

– Sonâmbula mulher incompleta

com cabeça de menina

e corpo de gás…

 

 

LXIV

Sim, a morte vazia,

sem anjos na paisagem,

nem a dor duma estrela

no silêncio medonho.

 

Só a morte vazia

e esta coragem

de não querer enchê-la

de sonho.

 

 

Três poemas de José Gomes Ferreira (1900-1985) sem mais comentário. Apenas a magia da poesia.

Os poemas pertencem a Eléctrico, tal como publicados em Poesia III, Portugália, 1961

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Os erros de Eros com E.M. de Melo e Castro

08 Sábado Nov 2014

Posted by viciodapoesia in Erótica, Poetas e Poemas

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E.M. de MELO e Castro, Picasso

Picasso desenho de colecção particularOs erros de Eros no percurso amoroso de cada um nunca foram pretexto para parar a pesquisa, e das técnicas de engate ao longo dos tempos se fez eco a poesia.

Exprimir o sexo tem sido invenção de alguns poemas aqui deixados. Desde a longínqua Idade Média com as Cantigas d’Amigo, às vezes ganhando uma forma híbrida a resvalar para o Escárnio e Mal-dizer, aos transportes suicidários da poesia romântica, passámos por um vasto corpus poético onde avulta o soneto de inspiração petrarquista com expoentes em português entre o chamado soneto maneirista. Despedindo-se a poesia, no século XX, do romantismo, as vanguardas ganharam o gosto do corpo na sua enunciação explicita.

Numa visita a um expoente das vanguardas poéticas desde os anos 50, é à poesia de E.M. de Melo e Castro (n. 1932) que hoje convido.

A escolha poética entre a sua poesia decorre de uma ideia de síntese acrescentando nova perspectiva às questões de língua antes afloradas, qual seja:


e de repente a língua se liberta

do peso que teve.

água corre na água.

o corpo livre

e abrem-se os sentidos

no orgasmo da luz

ver e não ver

ouvir e não ouvir

tocar e não tocar

cheirar e não cheirar

sabor e não sabor

tudo é saber

da mesma forma o peso

do não peso

o dar do receber

a posse do poder

como se de repente

as mãos o peito

os pés as pernas

fossem sexos unidos

ou os sextos sentidos

somados divididos

no momento de vir.

Abertos os sentidos no orgasmo da luz,  percorreremos questões de língua e outras num arco temporal até à Idade Média e geográfico até ao Japão.

Comecemos por esta síntese da fala do sexo:

FALA

falar do falo

é uma fácil falácia


do príapo é mais própria

a prosápia


quanto ao caralho

não é pau de carvalho


mas engrossa a piça

o chouriço enchoiriça

e a piça incha e estica


mas o tesão

não se compra nem se vende


a cona destes versos

é que o fode!

Refere o poeta, cheio de razão que … o tesão / não se compra nem se vende, sabe quem sente e o poeta num gesto secular ecoa nesta  CANTIGA DE COR-TESÃO


CANTIGA DE COR-TESÃO

Quanto mais amo

minha amo

mais mama

mamo


– é assim é que é


Quanto mais como

tua cama

mais cono

como


– é assim é que é


Quanto mais cavo

no teu cu

mais cravo

sou


– é assim é que é


Quanto mais é assim

mais me venho

a mim


-é assim é que é


e o pé?


Os argumentos indutores de tesão condensa E.M. de Melo e Castro num rasgo de inspiração japonesa neste Haiku Erótico:

Haiku Erótico – 1994

mamilos ilhas

do mar elástico

flores

na pele do peito

.

negro loiro

o perfume volume

clitóris

da face do êxtase

.

vento oscilando

cúpula no mastro

glande

rubra de neve

.

na pele do deserto

areia movediça

cetim

de dedos cactus

.

fundo e claro

o obscuro fluxo

canto

do olho aberto

.

figura esguia

peixe na água

lava

por fenda fina

.

a saliva sabe

do sol o toque

beijo

eixo na boca

.

voo no ritmo

das asas duplas

cópula

única é a ave

.

volume ocupando

o espaço da mão

flecha

redonda logo

.

olhos abertos

na cor da noite

voláteis

cristais de luz

.

na onda anda

um outro lugar

vulva

volume vago

.

o ambiguo dizer

pedra de toque

pénis

no calor dos olhos

.

caricia outra

leve fluir

língua

o toque ácido

.

total orgasmo

nulo de nada

luz

sobre a iluminação

Aberto que está o caminho para o  total orgasmo / nulo de nada / luz / sobre a iluminação, eventualmente conduzido pelo  vento oscilando / cúpula no mastro até a glande / rubra de neve convidar ao repouso, aqui fica, quando tal acontecer, a sugestão de leitura com um soneto maneirista do autor, imitação de um género tão ao gosto do blog.


LEITURA

é lendo que eu aprendo o que já sei

é vendo que eu entendo o que me rói

é tendo que eu vendo o que me dei

é na merda do nada que o cu dói


como não quer a coisa quero a coisa

o coiso quer a coisa quer a casa

em que penetre o coiso como poisa

no peixe a água e a ave bate a asa


e como como o cono como a cona

e quando como a cona como a cama

de pé de costas ou no bico da mama


mas é vindo que eu vou até ficar

ouvindo e vendo e lendo o mar:

como é belo o que me dás de cu pró ar!


Notícia bibliográfica:

Os poemas transcritos foram retirados do livro Sim… Sim! Poemas Eróticos, de E.M. de Melo e Castro publicado por VEGA EDITORA em 2000.

O título do artigo foi também emprestado pelo autor, pois OS ERROS DE EROS, foi além de título de poema no mesmo livro, o título pensado pelo autor para o livro de poesia erótica que veio a chamar-se CARA LH AMAS e foi publicado em 1975.

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CONVERSA DE CINEMA E A INVENÇÃO DE EROS NO FINAL

01 Sábado Nov 2014

Posted by viciodapoesia in Crónicas, Poetas e Poemas

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Vitor matos e Sá

Do mundo servido na televisão temos tido noticia, suponho. Falam sempre de qualquer coisa e a criativa prática de fazer seguir as noticias de debates com especialistas de lugares comuns deixa-me irremediavelmente um pouco melancólico.

Medito a sublimidade

enquanto um ar abstracto

absorve a informação

sobre insectos e verduras

vendidos na televisão.

Seguem-se então os champôs com sabor de lucia-lima

e chás de sabão azul

cuecas para a cintura

viagens ao universo

e corridas para o lixo

separado em varias cores conforme a sua função.

Ministros em digressão cacarejam comentários

com grande satisfação.

Ficam de fora os perfumes com o cheiro a pintassilgo

e as frutas enlatadas em caixas de telemóvel

com garantia de um ano sem fazer a digestão.

 

E ontem, depois de uma destas experiências resolvi ver um filme.

Felizmente o dvd trouxe de volta as ásperas belezas do cinema italiano que incendiavam a minha imaginação adolescente naquele barracão onde vi cinema três vezes por semana.

O efeito destas experiências consegue medir-se pela visão da alegoria de Fellini em Amarcord, quando o protagonista adolescente é literalmente afogado nas imensas, descomunais, mamas da vendedoura de cigarros, a ponto de ficar febril. Mas não foram essas que afinal fui visitar.

Lembrei-me que mesmo as suaves belezas de Holywood ganham uma rugosidade especial ao chegar a Itália. É talvez do clima, ou do ar que se respira, mais provavelmente.

Veja-se Julia Roberts num filme há anos exibido em Lisboa. Como chega anémica a Itália e parte para o Oriente outra, muito mais mulher. Já lhe tinha acontecido semelhante no fabuloso musical de Woody Allen, Toda a gente diz que te amo, de tal maneira que ao olharmos os Tintoretto da Scuola di San Rocco depois do filme, os vemos de outra maneira (gosto mais de pensar isto que aceitar simplesmente tal transformação como o resultado da limpeza e restauro a que foram submetidos os frescos entre a primeira e a segunda vez que os vi).

Mas a outras aconteceu semelhante. Por exemplo Ingrid Bergman quando foi transportada para Itália por Rossellini, sobretudo naquele inesquecível Viagem em Itália, ganha uma densidade madura de mulher, ausente, por exemplo, da maneira como Hitchcock a filmou em Notorious, Difamação em português.

É este mesmo Hitchcock que permite ver a transformação italiana em Shirley MacLaine, aquela beleza sempre um pouco espantada de si, Sweet Charity de todos os desamparados, e que aqui me traz.

(Nota erudita: Este Sweet Charity foi a versão americana de Bob Fosse de As noites de Cabíria, de Fellini).

Filmou-a Hitchcock em The Trouble with Harry, em português chamado O terceiro tiro, uma desconcertante comédia onde o macabro do enterra /desenterra nos faz rir a bom rir, e onde a beleza impávida, serena, e de desarmante ingenuidade camufalda da MacLaine não tem menor responsabilidade. Esta Shirley MacLaine filmada em Itália por Vittorio De Sicca é toda ela outra criatura.

Tinha há algum tempo para ver um filme de sketch de Vittorio De Sicca, Sete Vezes Mulher, por ela protagonizado e por uma vasta lista de actores célebres. Gosto dos filmes de Vittorio De Sicca. Falta-lhes sempre um quantum para serem geniais, variando o tamanho do quantum de filme para filme.

O filme, vi-o com o desenfado que me estava a apetecer, e nos altos e baixos inevitáveis da fórmula do sketch surgem algumas pérolas, como o intelectual strepe-tease de MacLaine, lendo poesia nua e filosofando em redor do quarto, muito à anos sessenta, perante um quase incontrolado Vitorio Gassman. De antologia. Ver surgir numa curta intervenção a maliciosa Anita Ekberg, de que só recordo o banho na Fontana Trevi em Dolce Vita, foi um inesperado prazer.

Acabado o filme interroguei-me que poema escolheria eu para fazer ler a uma qualquer Shirley naquele preparo, e escolhi uma INVENÇÃO DE EROS que aqui transcrevo.

INVENÇÃO DE EROS

Fui procurar-te para ser contigo

quando colhi das horas que invadias.

Colhi da própria dor um nome antigo

que fosse o nome exacto em que virias.


Da límpida substância dos teus risos

fui-te inventando dentro dos meus braços

e os sóis mais densos puros e precisos

vieram dar-me a sombra dos teus passos.


E já não eram meus senão de erguê-los,

a tua face e os lábios e os cabelos

e o teu olhar para ninguém voltado.


Mas quem, o pleno amor de que nascias

se o deus que a ti igual encontrarias

ficou, pelo teu olhar, desabitado?

 


Noticia bibliográfica: O soneto é de Vitor Matos e Sá (1926–1975) e foi publicado no seu segundo livro O Silêncio e o Tempo em 1956.

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Fernando Pessoa — algumas meditações sobre o existir

16 Quinta-feira Out 2014

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Camões, Fernando Pessoa, Sá de Miranda

carlosmfernandes - Oleo 078 - 2004 - óleo sobre tela 80x80cmA dolorosa meditação do eu na poesia de Fernando Pessoa atinge frequentemente o sublime:

 

Cai amplo o frio e eu durmo na tardança

De adormecer —

Sou, sem lar, nem conforto, nem esperança,

Nem desejo de os ter.

 

E um choro por meu ser me inunda

A imaginação.

Saudade vaga, anónima, profunda,

Náusea da indecisão.

 

Frio do inverno duro, não se tira

Agasalho ou amor.

Dentro em meus ossos teu tremor delira.

Cessa, seja eu quem for!

19-01-1931

 

Questionando a verdade interior do eu na duplicidade do agir, ao ler esta poesia é sempre uma interrogação de nós o que fazemos, ou não fora, como o poeta escreveu, … quem lê versos lê só a própria alma… (17-03-1931).

 

As coisas que errei na vida

São as que acharei na morte,

Porque a vida é dividida

Entre quem sou e a sorte.

 

As coisas que a Sorte deu

Levou-as ela consigo,

Mas as coisas que sou eu

Guardei-as todas comigo.

 

E por isso os erros meus,

Sendo a má sorte que tive,

Terei que os buscar nos céus

Quando a morte tire os véus

À inconsciência em que estive.

21-08-1934

 

Por último, um poema menos perfeito (última quadra) e onde os versos

Falhei a tudo, mas sem galhardias, / Nada fui, nada ousei e nada fiz,

 

remetem para as reflexões de Tabacaria (15-01-1928):

Falhei em tudo. / Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada. /…

 

Este poema de 02-07-1931 afasta-se da interrogação em Tabacaria (aquele talvez) e desenvolve reflexões pela afirmativa onde os belíssimos versos:

…

Nem colhi nas urtigas dos meus dias, / A flor de parecer feliz.

…

espelham a dualidade do ser e do parecer com as imagens do amargo dos dias referidos como urtigas, e a felicidade simulada, pela flor de parecer feliz.

 

Bem, hoje que estou só e posso ver

Com o poder de ver do coração

Quanto não sou, quanto não posso ser,

Quanto, se o for, serei em vão.

 

Hoje, vou confessar, quero sentir-me

Definitivamente ser ninguém,

E de mim mesmo, altivo, demitir-me

Por não ter procedido bem.

 

Falhei a tudo, mas sem galhardias,

Nada fui, nada ousei e nada fiz,

Nem colhi nas urtigas dos meus dias,

A flor de parecer feliz.

 

Mas fica sempre, porque o pobre é rico

Em própria casa, se procurar bem,

A grande indiferença com que fico

É um sonho… Leve-o quem o trate bem.

02-07-1931

 

Em nota final, refiro quanto o verso de abertura do poema inicial

Cai amplo o frio e eu durmo na tardança / …

me ecoa, apesar da variação na abordagem, o soneto de Sá de Miranda

 

O sol é grande, caem co’a calma as aves / …

 

e outro dia transcreverei.

 

No segundo poema de Pessoa, o verso As coisas que errei na vida / …, leva-me direitinho para o soneto de Camões:

Erros meus, má fortuna, amor ardente / Em minha perdição se conjuraram / …

E assim, neste deambular poético lá vou para o multifacetado da vida, na variedade das reflexões que a poesia induz.

Seria matéria de vasta prosa perambular pelas afinidade e oposições entre estes quatro poemas, o que não cabe no formato do blog, obviamente.

 

Poemas transcritos de Fernando Pessoa, Poesia 1931-1935, edição de Manuela Parreira da Silva ed al., Assírio & Alvim, Lisboa, Julho 2006.

Abre o artigo a imagem de uma pintura (óleo s/tela) que fiz pelo ano de 2004.

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Alguma poesia de Adélia Prado

24 Domingo Ago 2014

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Adélia Prado, Rufino Tamayo

Tamayo Rufino - Homem e mulher 1981Esconde-se no relato do trivial que o quotidiano contém, e constitui a substância aparente da poesia de Adélia Prado (1935), uma sabedoria dos seres e da vida que em cada poema, numa volta da história contada, salta para uma compreensão profunda do que é existir.

Poesia que de morte e vida se constrói, e do sentimento de o viver, em seres humanos crentes de Deus e do inexplicável mistério que o mundo consigo carrega.

Mais que interrogar-se, cada poema constata perspectivas diversas do mosaico humano que no mundo passa, e a quem lê transmite uma como que verdade essencial.

Alguns fragmentos um pouco ao acaso:

Tamayo Rufino - A janela indiscreta 1975

No erotismo contido do poema Bairro:

…

com aquela cara de invencível fraqueza

para os pecados capitais.

…

 

 

Na memória da mulher que uma vez o foi no poema O Vestido:

…

Eu o quis com paixão e o vesti como um rito,

meu vestido de amante.

Ficou meu cheiro nele, meu sonho, meu corpo ido.

…

 

Na morte de quem amamos em As mortes sucessivas:

…

Quando meu pai morreu, nunca mais me consolei.

Busquei retratos antigos, procurei conhecidos,

parentes, que me lembrassem sua fala,

seu modo de apertar os lábios e ter certeza.

…

 

Na identificação de pertença ao mundo que nos coube no poema Linhagem:

…

Todos extremamente pecadores, arrependidos

até à pública confissão de seus pecados

que um deles pronunciou como se fosse todos:

‘Todo homem erra. Não adianta dizer eu

porque eu. Todo homem erra.

Quem não errou vai errar.’

…

 

 

Numa espécie de oração popular de aflição em Responsório:

 

Santo António

procurai para mim a carteira perdida,

vós que estais desafadigado,

gozando junto de Deus a recompensa dos justos.

Estão nela a paga do meu trabalho por um mês,

documentos e um retrato

onde apareço cansada, com uma cara

que ninguém olhará mais de uma vez

…

 

Poderia continuar por aí fora. Deixo-vos os poemas citados.

Tamayo Rufino - Homem e a sua sombra 1971Bairro

 

O rapaz acabou de almoçar

e palita os dentes na coberta.

O passarinho recisca e joga no cabelo do moço

excrementos e casca de alpiste.

Eu acho feio palitar os dentes,

o rapaz só tem escola primária

e fala errado que arranha.

Mas tem um quadril de homem tão sedutor

que eu fico amando ele perdidamente.

Rapazes desses

gostam muito de comer ligeiro:

bife com arroz, rodela de tomate,

e ir ao cinema

com aquela cara de invencível fraqueza

para os pecados capitais.

Me põe tão íntima, simples,

tão à flor da pele o amor,

o samba-canção,

o facto de que vamos morrer

e como é bom a geladeira,

o crucifixo que mamãe lhe deu,

o cordão de ouro sobre o frágil peito

Ele esgravata os dentes com o palito,

esgravata é meu coração de cadela.

 

in O coração disparado, 1978

Tamayo Rufino - Mulher compondo o cabelo 1944

O Vestido

 

No armário do meu quarto escondo de tempo e traça

meu vestido estampado em fundo preto.

É de seda macia desenhada em campânulas vermelhas

à ponta de longas hastes delicadas.

Eu o quis com paixão e o vesti como um rito,

meu vestido de amante.

Ficou meu cheiro nele, meu sonho, meu corpo ido.

É só tocá-lo, e volatiliza-se a memória guardada:

eu estou no cinema e deixo que segurem minha mão.

De tempo e traça meu vestido me guarda.

 

in Bagagem, 1976

Tamayo Rufino - Três personagens 1970

As mortes sucessivas

 

Quando minha irmã morreu eu chorei muito

e me consolei depressa. Tinha um vestido novo

e moitas no quintal onde eu ia existir.

Quando minha mãe morreu, me consolei mais lento.

Tinha uma perturbação recém-achada:

meus seios conformavam dois montículos

e eu fiquei muito nua,

cruzando os braços sobre eles é que eu chorava.

Quando meu pai morreu, nunca mais me consolei.

Busquei retratos antigos, procurei conhecidos,

parentes, que me lembrassem sua fala,

seu modo de apertar os lábios e ter certeza.

Reproduzi o encolhido do seu corpo

em seu último sono e repeti as palavras

que ele disse quando toquei seus pés:

‘deixa, tá bom assim’.

Quem me consolará desta lembrança?

Meus seios se cumpriram

e as moitas onde existo

são pura sarça ardente de memória.

 

in Bagagem, 1976

Tamayo Rufino - Familia brincando 1971

Linhagem

 

Minha árvore genealógica

me transmitiu fidalguias,

gestos memoráveis:

meu pai, no dia do seu próprio casamento,

largou minha mãe sozinha e foi pro baile.

Minha mãe tinha um vestido só, mas

que porte, que pernas, que meias de seda mereceu!

Meu avô paterno negociava com tomates verdes,

não deu certo. Derrubou mato pra fazer carvão,

até ao fim da vida, os poros pretos de cinza:

‘Não me enterrem na Jaguara. Na Jaguara, não.’

Meu avô materno teve um pequeno armazém,

uma pedra no rim,

sentiu cólica e frio em demasia,

no cofre de pau guardava queijo e moedas.

Jamais pensaram em escrever um livro.

Todos extremamente pecadores, arrependidos

até à pública confissão de seus pecados

que um deles pronunciou como se fosse todos:

‘Todo homem erra. Não adianta dizer eu

porque eu. Todo homem erra.

Quem não errou vai errar.’

Esta sentença não lapidar, porque eivada

dos soluços próprios da hora em que foi chorada,

permaneceu inédita, até eu,

cuja mãe e avós morreram cedo,

de parto, sem discursar,

a transmitisse a meus futuros,

enormemente admirada

de uma dor razão alta,

de uma dor dão funda,

de uma dor tão bela,

entre tomates verdes e carvão,

bolor de queijo e cólica.

 

in O coração disparado, 1978

Tamayo Rufino - Anuncio de cortesia 1934

Responsório

 

Santo António

procurai para mim a carteira perdida,

vós que estais desafadigado,

gozando junto de Deus a recompensa dos justos.

Estão nela a paga do meu trabalho por um mês,

documentos e um retrato

onde apareço cansada, com uma cara

que ninguém olhará mais de uma vez

a não ser vós, que já em vida

vos apiedáveis dos tormentos humanos:

sumiu a agulha da bordadeira,

sumiu o namorado,

o navio no alto-mar,

sumiu o dinheiro no ar.

Tenho que comprar coisas, pagar contas,

dívidas de existir neste planeta convulso.

Prometo-vos uma vela de cera,

um terço do meu salário

e outro que rezarei

pra entoar vossos louvores, ó Martelo dos Hereges,

cuja língua restou fresca

entre vossos ossos intacta.

Servo do Senhor, procurai para mim a carteira perdida

e, se tal aprouver a Deus para a salvação da minha alma,

procurai antes me ensinar

a viver como vós,

como um pobre de Deus,

Amen!

 

in O Pelicano, 1987

Tamayo Rufino - Duas mulheres em repouso 1984

Termino com uma peculiar visão de como Deus é a medida de tudo:

 

Tamayo Rufino - Cabeça que sorri 1973

Parâmetro

 

Deus é mais belo que eu.

E não é jovem.

Isto, sim, é consolo

 

in A faca no peito, 1988

Tamayo Rufino - Fantasma 1982

Acompanham o artigo imagens de pintura de Rufino Tamayo (1899-1991).

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Dos Deveres em política — um poema de Salvador Espriu

15 Sexta-feira Ago 2014

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas, Prosa

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Cícero, Grécia, Platão, Salvador Espriu

Ambrogio LORENZETTI - efeitos do bom governo na cidade 1

Terá talvez havido um tempo em que a política era entendida generalizadamente como o serviço dos outros. É escassa a memória histórica de tal. Mas lembrar o que deve ser nunca é perda de tempo. Escreveu-o o romano Cícero (106-43 a. C.) em Dos Deveres com quem inicio o artigo, citando o grego Platão (428/7-328/7a. C.),  e lembra-o Salvador Espriu (1913-1985), o poeta catalão, de quem depois transcrevo o poema XXIV de A Pele de Touro em tradução de Manuel de Seabra.

 

... os que se preparam para governar a república ( Res publica) devem observar dois preceitos de Platão. Um é que devem cuidar tanto dos interesses dos seus concidadãos que todos os seus actos se devem aferir por esta medida, esquecendo o seu próprio bem-estar; o outro, é que cuidem de todo o corpo da Res publica, a fim de, ao tratarem de uma parte, não abandonarem as restantes. Pois tal como a tutela, assim a administração da Res publica deve ser conduzida, não para vantagem daqueles a quem está entregue, mas daqueles que lhes foram confiados.

(Cícero, Dos Deveres I.25.85)

 

A Pele de Touro — poema XXIV

 

Se te chamam a guiar

um breve momento

do caminhar milenário

das gerações,

afasta o oiro,

o sono e o nome.

Também a pompa

vã das palavras,

a vergonha do ventre

e das honrarias.

Imporás

a verdade

até à morte,

sem a ajuda

de nenhum consolo.

Não esperes nunca

deixar lembrança,

porque és apenas

o mais humilde

dos servidores.

O desvalido

e o que sofre

sempre serão

os teus únicos senhores.

Excepto Deus,

que te pôs

debaixo dos pés

de todos.

 

Salvador Espriu, A Pele de Touro, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1975.

 

O fragmento de Cícero, em tradução de Maria Helena da Rocha Pereira, foi transcrito de Romana, Antologia da Cultura Latina, 6ª edição aumentada, Babel, Lisboa, 2010.

A obra encontra-se integralmente traduzida em Edições 70, Lisboa.

 

Abre o artigo uma imagem do fresco de Ambrogio Lorenzetti (c. 1290-1348), Alegoria do Bom e do Mau Governo, no Palácio Cívico de Siena, mostrando os efeitos do bom governo na vida da cidade.

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Janelas de Matisse para o poema Varanda de Sophia

13 Quarta-feira Ago 2014

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Matisse, Sophia de Mello Breyner Andresen

Matisse - janela 1

Noutra varanda assim num Setembro de outrora

Que em mil estátuas e roxo azul se prolongava

Amei a vida como coisa sagrada

E a juventude me foi eternidade

Matisse - janela 2Acontece-me com frequência associar o intenso lirismo de poemas de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) à aparente fragilidade  das pinturas de Matisse (1869-1964) onde a indecisão do desenho se casa com a intensidade tantas vezes eufórica do colorido.

Matisse - janela 3São pintura de uma perene alegria e de alguém que certamente amou a vida como coisa sagrada para tomar o verso de Sophia do poema Varandas, pretexto desta visita a Matisse.

Matisse - janela 4

VARANDAS

 

É na varanda que os poemas emergem

Quando se azula o rio e brilha

O verde-escuro do cipreste — quando

Sobre as águas se recorta a branca escultura

Quasi oriental quasi marinha

Da torre aérea e branca

E a manhã toda aberta

Se torna irisada e divina

E sobre a página do caderno o poema se alinha

 

Noutra varanda assim num Setembro de outrora

Que em mil estátuas e roxo azul se prolongava

Amei a vida como coisa sagrada

E a juventude me foi eternidade

Matisse - janela 5À feérica paleta junta-se a poesia de harmonia entre a intimidade do eu e a beleza do mundo exterior que pelas janelas abertas nos é mostrado. São mundos onde o frenético da existência está ausente e ganhamos, ao vê-los, a certeza de que é seguramente possível viver de outra maneira.

Matisse - janela 6Matisse - janela 7

Matisse - janela 8O poema foi inicialmente publicado no livro O Búzio de Cós e Outros Poemas, 1997, e transcrito de Obra Poética, Editorial Caminho, 2ª edição, Lisboa 2001.

Matisse - janela 9

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Ruy Belo — a interrogação define a nossa livre condição

07 Quinta-feira Ago 2014

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Grécia, Ruy Belo

IMG_20130520_155832 B

Em síntese, apanágio da poesia, Ruy Belo (1933-1978) dá conta no poema Do sono da desperta Grécia, de quanto somos devedores hoje, da herança grega:

 

… / Em busca da verdade o homem chega / às noções de justiça e liberdade / …

 

Poderia citar todo o poema, o que era evidentemente uma redundância. Destaco apenas alguns versos que pela penetração da ideia e formulação poética, se tornam exemplares:

 

… / Pela primeira vez o homem se interroga / sem livro algum sagrado sob a sua inteligência / …

 

… E nós ainda hoje nos interrogamos / a interrogação define a nossa livre condição / …

 

Sobre a herança cultural diz o poeta:

 

… sófocles roubando / aos dias desse tempo intemporais conflitos / chegados até nós na força do teatro

 

… / e a tragédia a arte o pensamento / desvendam o destino a divindade o universo / …

 

… / O desafio de antígona e de prometeu / é hoje ainda o nosso desafio / embora como um rio o tempo haja corrido / …

 

A eles irei, a Antígona e a Prometeu Agrilhoado, por estes dias.

 

Antes de vos deixar, acrescento a tradução que Maria Helena da Rocha Pereira (MHRP) fez do Epitáfio das Termópilas de Simónides de Ceos (séc VI-V a. C.) incluído no poema, a qual evidencia a diferença entre uma aproximação literal e a aproximação poética ao original noutra língua:

 

“Diz em lacedemónia ó estrangeiro

que morremos aqui para servir a lei”

 

escreveu o poeta. E agora a tradução de MHRP (frg. 92 Diehl):

 

Estrangeiro, vai contar aos Lacedemónios que jazemos

      aqui, por obedecermos às suas normas.

 

in Helade, 8ª edição, ASA Editores, 2003.

 

Do sono da desperta Grécia

 

Nenhuma voz em esparta nem no oriente

se dirigira ainda aos homens do futuro

quando da acrópole de atenas péricles hierático

falou: “ainda que o declínio as coisas

todas humanas ameace sabei vós ó vindouros

que nós aqui erguemos a mais célebre e feliz cidade”

Eram palavras novas sob a mesma

abóbada celeste outrora aberta em estrelas

sobre a cabeça do emissário de argos

que aguardava o sinal da rendição de tróia

e sobre o dramaturgo sófocles roubando

aos dias desse tempo intemporais conflitos

chegados até nós na força do teatro

Apoiada na sua longilínea lança

a deusa atenas pensa ainda para nós

Pela primeira vez o homem se interroga

sem livro algum sagrado sob a sua inteligência

e a tragédia a arte o pensamento

desvendam o destino a divindade o universo

Em busca da verdade o homem chega

às noções de justiça e liberdade

Após quatro milénios de uma sujeição servil

o homem olha os deuses face a face

e desafia a força do tirano

E nós ainda hoje nos interrogamos

a interrogação define a nossa livre condição

O desafio de antígona e de prometeu

é hoje ainda o nosso desafio

embora como um rio o tempo haja corrido

“Diz em lacedemónia ó estrangeiro

que morremos aqui para servir a lei”

“E se esta noite é uma noite do destino

bendita seja ela pois é condição da aurora”

Palavras seculares vivas ainda agora

Uma grécia secreta dorme em cada coração

na noite que precede a inevitável manhã

Poema publicado pela primeira vez em Transporte no Tempo, Livraria Moraes Editores, Lisboa, 1973.

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Poesia, meu amargo rio — Carlos de Oliveira

27 Domingo Jul 2014

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Carlos de Oliveira, Turner

Turner sun-setting

As palavras / cintilam / … / e o seu rumor / … / ágil e esquivo / como o vento / fala de amor / e solidão: / …

 

Com este fragmento de um poema de Carlos de Oliveira (1921-1981) abro uma curta visita à sua poesia.

 

Dormir / mas o sonho / repassa / duma insistente dor / a lembrança / da vida / …

 

Sonhos, memória, observação atenta da vida, tudo isto atravessa esta poesia contida, onde o peso da cada palavra é tal que por si só constitui frequentemente um verso.

 

É uma poesia fora de moda, nos antípodas dos detalhados relatos pessoais que agora são sucesso. Aqui, na poesia de Carlos de Oliveira, temos a palavra que liberta a imaginação do leitor, fazendo sua a experiência poética que lê, e com isso atingindo a intima emoção que a arte desencadeia.

Abro com o prodigioso poema Infância, contraste e síntese entre o tamanho dos sonhos que ela nos deixa, enormes como cedros, e o calor que no inverno da memória trazem, lenha / da melancolia.

 

Infância

 

Sonhos

enormes como cedros

que é preciso

trazer de longe

aos ombros

para achar

no inverno da memória

este rumor

de lume:

o teu perfume,

lenha

da melancolia.

 

Passemos a um dos poemas transcritos a abrir:

 

Sono

 

Dormir

mas o sonho

repassa

duma insistente dor

a lembrança

da vida

água outra vez bebida

na pobreza da noite:

e assim perdido

o sono

o olvido

bates, coração, repetes

sem querer

o dia.

 

A escolha que segue, Soneto, dá conta da reflexão paralela entre a expressão poética do sentir,

…

o dicionário que me coube em sorte

folheei-o ao rumor do sofrimento:

…

 

e a adequação da palavra precisa à sua transmissão, permitindo no final a existência de poesia:

 

Rudes e breves as palavras pesam

mais do que as lajes ou a vida, tanto,

que levantar a torre do meu canto

é recriar o mundo pedra a pedra;

…

 

No resultado, surgem versos de beleza inexcedível, quais sejam:

…

ó palavras de ferro, ainda sonho

dar-vos a leve têmpera do vento.

Turner procession

Soneto

 

Rudes e breves as palavras pesam

mais do que as lajes ou a vida, tanto,

que levantar a torre do meu canto

é recriar o mundo pedra a pedra;

mina obscura e insondável, quis

acender-te o granito das estrelas

e nestes versos repetir com elas

o milagre das velhas pederneiras;

mas as pedras do fogo transformei-as

nas lousas cegas, áridas, da morte,

o dicionário que me coube em sorte

folheei-o ao rumor do sofrimento:

ó palavras de ferro, ainda sonho

dar-vos a leve têmpera do vento.

 

E quando o poema surge, vem numa espécie de milagre como em Tarde se lê:

…

quando vi

o poema organizado nas alturas

reflectir-se aqui,

em ritmos, desenhos, estruturas

duma sintaxe que produz

coisas aéreas como o vento e a luz.

Turner distant

Tarde

 

A tarde trabalhava

sem rumor

no âmbito feliz das suas nuvens,

conjugava

cintilações e frémitos,

rimava

as tênues vibrações

do mundo

quando vi

o poema organizado nas alturas

reflectir-se aqui,

em ritmos, desenhos, estruturas

duma sintaxe que produz

coisas aéreas como o vento e a luz.

 

No poema Vento, o mesmo estro poético mostra como as palavras cintilam ao falar de amor e solidão:

 

Vento

 

As palavras

cintilam

na floresta do sono

e o seu rumor

de corsas perseguidas

ágil e esquivo

como o vento

fala de amor

e solidão:

quem vos ferir

não fere em vão,

 

Entre tantos, mais alguns belos versos no Soneto da chuva:

…

aqueles versos de água onde os direi,

cansado como vou do teu cansaço?

…

Deixem chover as lágrimas que eu crio:

menos que chuva e lama nas estradas

és tu, poesia, meu amargo rio.

Turner rain-steam-speed

Soneto da chuva

 

Quantas vezes chorou no teu regaço

a minha infância, terra que eu pisei:

aqueles versos de água onde os direi,

cansado como vou do teu cansaço?

Virá abril de novo, até a tua

memória se fartar das mesmas flores

numa última órbita em que fores

carregada de cinza como a lua.

Porque bebes as dores que me são dadas,

desfeito é já no vosso próprio frio

meu coração, visões abandonadas.

Deixem chover as lágrimas que eu crio:

menos que chuva e lama nas estradas

és tu, poesia, meu amargo rio.

 

Da precisa lei da matéria: na natureza nada se cria, tudo se transforma, descoberta por Lavoisier, surge o poema com o nome do químico, dando conta que similmente,

 

Na poesia,

natureza variável

das palavras,

nada se perde

ou cria,

tudo se transforma:

cada poema,

no seu perfil

incerto

e caligráfico,

já sonha

outra forma.

 

Termino com Salmo, poema eivado de sabedoria:

A vida / é o bago de uva / macerado / nos lagares do mundo … a dor é vã / e o vinho / breve.

 

Salmo

 

A vida

é o bago de uva

macerado

nos lagares do mundo

e aqui se diz

para proveito dos que vivem

que a dor é vã

e o vinho

breve.

Turner sea-monsters

Poemas transcritos de Obras de Carlos de Oliveira, Editorial Caminho, Lisboa, 1992.

 

Vai o artigo acompanhado das imagens de pinturas de William Turner (1775-1851).

 

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