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Tamayo Rufino - Homem e mulher 1981Esconde-se no relato do trivial que o quotidiano contém, e constitui a substância aparente da poesia de Adélia Prado (1935), uma sabedoria dos seres e da vida que em cada poema, numa volta da história contada, salta para uma compreensão profunda do que é existir.

Poesia que de morte e vida se constrói, e do sentimento de o viver, em seres humanos crentes de Deus e do inexplicável mistério que o mundo consigo carrega.

Mais que interrogar-se, cada poema constata perspectivas diversas do mosaico humano que no mundo passa, e a quem lê transmite uma como que verdade essencial.

Alguns fragmentos um pouco ao acaso:

Tamayo Rufino - A janela indiscreta 1975

No erotismo contido do poema Bairro:

com aquela cara de invencível fraqueza

para os pecados capitais.

 

 

Na memória da mulher que uma vez o foi no poema O Vestido:

Eu o quis com paixão e o vesti como um rito,

meu vestido de amante.

Ficou meu cheiro nele, meu sonho, meu corpo ido.

 

Na morte de quem amamos em As mortes sucessivas:

Quando meu pai morreu, nunca mais me consolei.

Busquei retratos antigos, procurei conhecidos,

parentes, que me lembrassem sua fala,

seu modo de apertar os lábios e ter certeza.

 

Na identificação de pertença ao mundo que nos coube no poema Linhagem:

Todos extremamente pecadores, arrependidos

até à pública confissão de seus pecados

que um deles pronunciou como se fosse todos:

‘Todo homem erra. Não adianta dizer eu

porque eu. Todo homem erra.

Quem não errou vai errar.’

 

 

Numa espécie de oração popular de aflição em Responsório:

 

Santo António

procurai para mim a carteira perdida,

vós que estais desafadigado,

gozando junto de Deus a recompensa dos justos.

Estão nela a paga do meu trabalho por um mês,

documentos e um retrato

onde apareço cansada, com uma cara

que ninguém olhará mais de uma vez

 

Poderia continuar por aí fora. Deixo-vos os poemas citados.

Tamayo Rufino - Homem e a sua sombra 1971Bairro

 

O rapaz acabou de almoçar

e palita os dentes na coberta.

O passarinho recisca e joga no cabelo do moço

excrementos e casca de alpiste.

Eu acho feio palitar os dentes,

o rapaz só tem escola primária

e fala errado que arranha.

Mas tem um quadril de homem tão sedutor

que eu fico amando ele perdidamente.

Rapazes desses

gostam muito de comer ligeiro:

bife com arroz, rodela de tomate,

e ir ao cinema

com aquela cara de invencível fraqueza

para os pecados capitais.

Me põe tão íntima, simples,

tão à flor da pele o amor,

o samba-canção,

o facto de que vamos morrer

e como é bom a geladeira,

o crucifixo que mamãe lhe deu,

o cordão de ouro sobre o frágil peito

Ele esgravata os dentes com o palito,

esgravata é meu coração de cadela.

 

in O coração disparado, 1978

Tamayo Rufino - Mulher compondo o cabelo 1944

O Vestido

 

No armário do meu quarto escondo de tempo e traça

meu vestido estampado em fundo preto.

É de seda macia desenhada em campânulas vermelhas

à ponta de longas hastes delicadas.

Eu o quis com paixão e o vesti como um rito,

meu vestido de amante.

Ficou meu cheiro nele, meu sonho, meu corpo ido.

É só tocá-lo, e volatiliza-se a memória guardada:

eu estou no cinema e deixo que segurem minha mão.

De tempo e traça meu vestido me guarda.

 

in Bagagem, 1976

Tamayo Rufino - Três personagens 1970

As mortes sucessivas

 

Quando minha irmã morreu eu chorei muito

e me consolei depressa. Tinha um vestido novo

e moitas no quintal onde eu ia existir.

Quando minha mãe morreu, me consolei mais lento.

Tinha uma perturbação recém-achada:

meus seios conformavam dois montículos

e eu fiquei muito nua,

cruzando os braços sobre eles é que eu chorava.

Quando meu pai morreu, nunca mais me consolei.

Busquei retratos antigos, procurei conhecidos,

parentes, que me lembrassem sua fala,

seu modo de apertar os lábios e ter certeza.

Reproduzi o encolhido do seu corpo

em seu último sono e repeti as palavras

que ele disse quando toquei seus pés:

‘deixa, tá bom assim’.

Quem me consolará desta lembrança?

Meus seios se cumpriram

e as moitas onde existo

são pura sarça ardente de memória.

 

in Bagagem, 1976

Tamayo Rufino - Familia brincando 1971

Linhagem

 

Minha árvore genealógica

me transmitiu fidalguias,

gestos memoráveis:

meu pai, no dia do seu próprio casamento,

largou minha mãe sozinha e foi pro baile.

Minha mãe tinha um vestido só, mas

que porte, que pernas, que meias de seda mereceu!

Meu avô paterno negociava com tomates verdes,

não deu certo. Derrubou mato pra fazer carvão,

até ao fim da vida, os poros pretos de cinza:

‘Não me enterrem na Jaguara. Na Jaguara, não.’

Meu avô materno teve um pequeno armazém,

uma pedra no rim,

sentiu cólica e frio em demasia,

no cofre de pau guardava queijo e moedas.

Jamais pensaram em escrever um livro.

Todos extremamente pecadores, arrependidos

até à pública confissão de seus pecados

que um deles pronunciou como se fosse todos:

‘Todo homem erra. Não adianta dizer eu

porque eu. Todo homem erra.

Quem não errou vai errar.’

Esta sentença não lapidar, porque eivada

dos soluços próprios da hora em que foi chorada,

permaneceu inédita, até eu,

cuja mãe e avós morreram cedo,

de parto, sem discursar,

a transmitisse a meus futuros,

enormemente admirada

de uma dor razão alta,

de uma dor dão funda,

de uma dor tão bela,

entre tomates verdes e carvão,

bolor de queijo e cólica.

 

in O coração disparado, 1978

Tamayo Rufino - Anuncio de cortesia 1934

Responsório

 

Santo António

procurai para mim a carteira perdida,

vós que estais desafadigado,

gozando junto de Deus a recompensa dos justos.

Estão nela a paga do meu trabalho por um mês,

documentos e um retrato

onde apareço cansada, com uma cara

que ninguém olhará mais de uma vez

a não ser vós, que já em vida

vos apiedáveis dos tormentos humanos:

sumiu a agulha da bordadeira,

sumiu o namorado,

o navio no alto-mar,

sumiu o dinheiro no ar.

Tenho que comprar coisas, pagar contas,

dívidas de existir neste planeta convulso.

Prometo-vos uma vela de cera,

um terço do meu salário

e outro que rezarei

pra entoar vossos louvores, ó Martelo dos Hereges,

cuja língua restou fresca

entre vossos ossos intacta.

Servo do Senhor, procurai para mim a carteira perdida

e, se tal aprouver a Deus para a salvação da minha alma,

procurai antes me ensinar

a viver como vós,

como um pobre de Deus,

Amen!

 

in O Pelicano, 1987

Tamayo Rufino - Duas mulheres em repouso 1984

Termino com uma peculiar visão de como Deus é a medida de tudo:

 

Tamayo Rufino - Cabeça que sorri 1973

Parâmetro

 

Deus é mais belo que eu.

E não é jovem.

Isto, sim, é consolo

 

in A faca no peito, 1988

Tamayo Rufino - Fantasma 1982

Acompanham o artigo imagens de pintura de Rufino Tamayo (1899-1991).

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