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Eugénio Lisboa — alguns poemas de O Ilimitável Oceano

Ao ler alguns poemas do livro O Ilimitável Oceano de Eugénio Lisboa (1930), ocorre-me a expressão com que o filósofo Immanuel Kant (1724-1804) deu formulação definitiva à radical diferença entre o eu que pensa e o mundo que nos envolve, no epílogo da sua Crítica da Razão Prática:
Duas coisas enchem o ânimo de admiração e veneração sempre novas e crescentes, quanto mais frequentemente e com maior assiduidade delas se ocupa a reflexão: O céu estrelado sobre mim e a lei moral em mim.”(*)

E de sempre, é na aproximação do eu ao mundo que a humanidade reflecte em cada criação cultural, procurando a ligação que permita integrar o indivíduo nessa envolvente que, estranha, surge tanto bela e amistosa, como hostil.

Nos poemas que a seguir transcrevo é dessa interrogada perplexidade que se fala, aqui no questionamento do homem no cosmos levado a cabo por alguns astrólogos famosos, e que moldaram por gerações o pensar de como a humanidade via o seu lugar no universo.

 

 

No túmulo de um Astrónomo

Amei demasiado as estrelas
do céu nu que percorri a dedo,
para que a noite, onde brilham, belas,
em mim seja surto de algum medo.

 

 

Ptolomeu

Como todos, sou mortal:
minha vida é um dia.
Mas quando sigo, fatal,
no céu que nos alumia,
a multidão das estrelas,
sinto, deslumbrado nelas,
meus pés, do chão, levantar.

 

 

Copérnico

O céu que viste era o céu
de Ptolomeu. Mas diferente
foi a forma de o olhar.
No modo de julgar, teu,
a Terra, astro movente,
demitiu-se de pensar
que era o centro do mundo:
assim ver, que abalo fundo!

 

 

Kepler

O mundo próximo, à volta, apodrece.
Fome, mortal conflito e pestilência
turvam o dia que mal amanhece.
Segura-se à pureza da ciência:
o curso aparente das estrelas,
seguindo matemática divina,
deriva, das rigorosas tabelas
do vasto cosmo, a curva sibilina.

 

Poemas transcritos de O Ilimitável Oceano, Quasi Edições, Março de 2001, Vila Nova de Famalicão.

O livro O Ilimitável Oceano faz, em curtos poemas, uma reflexão sintética sobre a obra singular de alguns génios, partindo da criação do mundo e concluindo com o pós apocalipse nuclear. Leitura evidentemente simplista da complexa relação entre a vida da humanidade e o conhecimento científico, é tão só ponto de partida para a reflexão sobre os limites e consequências da investigação científica, algo que deverá, evidentemente, ser procurado noutro lugar.

(*) in Immanuel Kant, Crítica da Razão Prática, tradução de Artur Morão, edições 70, Lisboa, 1986.

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Que caminho seguir para o amor segundo Agátias o Escolástico

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Numa inventariação exaustiva das relações amorosas, suas implicações sociais, morais, e mesmo legais, Agátias, o Escolástico (536-582 d. C.) dá conta num epigrama recolhido na Antologia Grega (302 do vol. 5) de uma visão masculina do sexo onde o sentimento está ausente, e apenas a satisfação do desejo imperioso se procura.

 

Epigrama

Que caminho seguir para o amor? Nas ruas,
lamentarás a luxúria ávida da mulher lasciva.
Se te aproximares do leito de uma virgem, espera-te
um casamento legal ou o castigo reservado aos sedutores.
Sustentar o amor insípido duma mulher legítima
quem o suportaria, se ela o exigisse como coisa devida?
O leito do adultério é detestável e estranho ao amor,
e dormir com os rapazes é igual perversidade.
A viúva corrupta toma por amante o primeiro que aparece
e enche a cabeça de pensamentos lúbricos.
A pudica, ainda mal se entregou ao amor,
é picada pelo ferrão de um cruel arrependimento
e sente horror do seu acto; e, movida por um resto de pudor,
bate em retirada, com o anúncio do fim da ligação amorosa.
Se tiveres uma relação com a tua escrava,
resigna-te a tornares-te a ti próprio um escravo.
Se for a escrava de outro, a lei aplicar-te-á uma marca infamante,
por atentares contra um ser que pertence a outro.
Diógenes evitou tudo isto, ele que cantava
o hino nupcial com a mão, sem necessitar de Laís.

Agátias, o Escolástico

 

A objectividade de inventário é a marca de água deste poema, dispensando considerações de psicologia e estados de alma, mostrando, numa modernidade compatível com os nossos dias, como lidar com o desejo do corpo, procurando sexo não problemático. Como se lê, depois de enumerar as consequências nefastas das variadas situações, o nosso poeta termina recomendando a masturbação [cantava o hino nupcial com a mão] como saída para esse desejo que queima:

Diógenes evitou tudo isto, ele que cantava
o hino nupcial com a mão, sem necessitar de Laís.

Dizendo tudo o que pretende, em matérias onde a linguagem com facilidade foge ao decoro, Agátias, o Escolástico, e com ele o tradutor Albano Martins, conseguem a elegância de um poema revelador de uma particular mentalidade e tempo, que em diferentes pontos toca o nosso.

Poema transcrito de “do mundo grego outro sol”, Antologia Palatina e Antologia de Planudes. Seleção, tradução e notas de Albano Martins. Edições ASA, Porto 2002.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Bernard van Orley (1491/2-1542).
Bernard (ou Bernaert ou Barend) van Orley, nasceu e morreu em Bruxelas. Em vida conhecido como o Rafael do Norte, foi sobretudo pintor de assuntos religiosos e retrato. Foi também autor de cartões para tapeçarias, e conhecem-se algumas suas pinturas profanas com laivos do erotismo presente em pinturas da Flandres e Alemanha da época.

Um poema de e. e. cummings pela Semana Santa

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Neste tempo em que o mundo católico publicamente medita nos últimos dias da vida de Jesus em manifestações colectivas, muitas vezes de pasmar, arquivo no blog um singelo poema de  e. e. cummings (1894-1962) tentando captar o mistério da crença na sua relação individual.
Se a fé religiosa é sempre matéria íntima e de encontro pessoal, a sua exteriorização colectiva mantém através dos tempos um apelo continuado, e no mundo católico as celebrações da Semana Santa são um pico anual. Questioná-las no seu significado por um exercício da razão, apenas adensa os mistérios da crença e dos caminhos por onde cada um a encontra.

 

Poema 92

não há muito tempo
ou antes uma vida
andando no escuro
encontrei Cristo

Jesus) meu coração
saltou-me do peito
e ficou quieto
enquanto ele passou (tão

perto como estou de ti
sim mais perto
feito de nada
excepto solidão

Tradução de Carlos Mendonça Lopes

 

Poema original

 

poem 92

no time ago
or else a life
walking in the dark
i met christ

jesus)my heart
flopped over
and lay still
while he passed(as

close as i’m to you
yes closer
made of nothing
except loneliness

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura atribuída a um seguidor de Hieronymus Bosch (1450-1516), Cristo carregando a Cruz, e pintada presumivelmente no início do século XVI. Guarda-se no Museu de Belas Artes de Ghent na Bélgica.
É no contraste acentuado da linguagem facial que reside todo o fascínio desta pintura, ilustrando com eloquência a serena aceitação por Jesus do seu destino, mensagem central do Cristianismo, e a bestialidade das paixões humanas que anima todo o cortejo de gente afastada da fé, e leva Jesus para a morte.

Enigma — poema de Haroldo de Campos

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Olhar e ver são gestos sensoriais que por si só desencadeiam a emoção, com uma pequena nuance: ver contém uma intermediação intelectual que apenas no olhar não existe. E nesta intermediação intelectual reside o mundo que nos faz seres sensíveis aos outros, ao outro, ao que nos rodeia.
No modo de olhar o outro que nos olha reside muitas vezes o enigma do mundo para lá dos detalhes em redor.

Os objectos criados sem propósito funcional, que pela sua especial capacidade de desencadear a emoção ao olhar e ver, chamamos obras de arte, tocam-nos tanto mais, desencadeando emoções de profundidade variável, quanto os instrumentos de saber e reflexão que possuímos. Para os poetas eles são, por vezes, simultaneamente, desafios de expressão emocional, e poucas vezes os poemas conseguem viver sem a companhia da obra de arte que os viu nascer. Dos raros, Ode a Uma Urna Grega de Jonh Keats é um deles, que outro dia aqui virá.

Hoje ocupo-me do poema Enigma de Haroldo de Campos (1929-2003), sobre o busto esculpido da rainha egípcia Nefertiti.
Depois de uma descrição visual da escultura na sua aparência, o poeta detém-se sobre a mutilação que o tempo trouxe à escultura e a representação enigmática da cegueira que ela acaba por mostrar:


o direito
o tempo milenar cegou-o:
 esbranca-se no gesso
fitando em alvo o nada
de dentro da moldura
oval-amêndoa
do rimel

seu enigma está aí —
nesse branco esgazeado
que turba há (quantos?)
séculos o semblante
irretocável de rainha

Ao vê-la naquela tarde, na solidão da cave de um museu recheado de beleza, foram outros ou pensamentos que me assaltaram: a mutilação do corpo, como a olhamos, como viveremos com ela se nos acontece? Procuramos a beleza do corpo, hoje tanto ou mais que noutras épocas. Se a mutilação nos calha passamos a ser menos belos? De que beleza falamos? E voltamos a Platão e à beleza que está na alma. Mas uma alma mutilada é ainda a mesma e idêntica antes e depois da mutilação? Porque é sempre do que sentimos nos outros e pelos outros com quem nos relacionamos que o enigma reside.

 

enigma

a rainha nefertiti
lábios de desenho perfeito
perfeita a linha do nariz
cútis bronzeada pelos raios
ultra-violeta de aton-ra o sol
jubilante do egito
uma elegante tiara trapezoide
azul-grafite
encimando-lhe a testa
sobre uma faixa de ouro
(e deixando se ainda listar
por uma outra banda áurea
com engastes de vermelho safira
e o símbolo — dourado sempre —
do poder real: o cetro
verticalmente inscrito
de alça dupla)

seu
pescoço delgado de modelo de dior
orna-o tripla fileira de colares de cor
as sobrancelhas e pálpebras
delineadas com meticuloso
traço rímel-negro
por hábil mão maquiladora
e nos olha
a rainha nos olha
(que a olhamos)
impassível:
quase-sorriso na carnação
túmida dos lábios
fixa-nos pupila
castanho-verde
do olho esquerdo

o direito
o tempo milenar cegou-o:
 esbranca-se no gesso
fitando em alvo o nada
de dentro da moldura
oval-amêndoa
do rimel

seu enigma está aí —
nesse branco esgazeado
que turba há (quantos?)
séculos o semblante
irretocável de rainha
Berlim 14 out. 1998

in haroldo de campos, entremilênios, Editora Perspectiva S. A., São Paulo, 2009.

Abre o artigo uma imagem da escultura do busto da rainha egípcia Nefertiti, que se guarda no Neues Museum de Berlim.

Partiu-se em tristeza um olhar — poemas de Salette Tavares

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Salpicada de belos versos, qual este que dá título ao artigo, a poesia de Salette Tavares(1922-1994), nas suas multímodas manifestações, é um permanente desafio a medir o peso de cada palavra na expressão precisa do eu e o mundo.
Muitos dos poemas são poemas de despedida: despedida dos sonhos, despedida do amor, despedida da felicidade entrevista. E neles cada palavra tem a carga dos múltiplos sentidos que a linguagem consegue extrair da vida, dando-lhe a cada momento a significação que as nossas limitações permitem.

 

[Foi tão de ave o meu chegar aqui]

Foi tão de ave o meu chegar aqui
que de ti a mim sem que soubesse
no que de ouvido espanto comovi
posei canto silêncio todo prece.

Pousei e levantei secreta chama
envolta no brasio de teu vinho
contra o crime do céu tu me derramas
silenciosa doçura no caminho.

Chamei por ti, tão solitária eu
sem que me dessem outros mais de mim
e dura espada na hora que bateu
em tua mão segura me acolhi.
3.XI.1959

 

[Sobra-me o que te deste]

Sobra-me o que te deste
             no parado desta hora
olhar largo que me veste
             inquiete brisa demora.

Espreitam anjos insónia
              esquina pedra de sonhos
bordam a sombra que mora
              dura mágoa nos meus olhos.

Abro vidros ao luar
              ponho fora do meu peito
desfolho delas no mar
               navegado do meu leito.

Onda oceano em que me alongo
               grito esguio, uivo inferno
hoje perco o longe onde
               me queimarei desespero.

 

[Morre de ar e suspiro]

Morre de ar e suspiro
                     meu outro cansar de penas
que longo caminho longe
                     esquina o dia de brilho.

Escuto, medito e teço
                       arrasto vagar de panos
mão fugitiva no fio
                      rasgando branco de medos.

Entranço negro cabelos
                       enredo olhos de frio
e no cansaço dos dedos
                       escorre-se a noite rio.
23.X.1959

 

[Para dizer o que dizer não posso]

Para dizer o que dizer não posso
abri-me toda ausência
e embarquei
em seus olhos a flor do meu olhar.

De calma e de sorriso outra me dei
entre dedos doçura
e minha brisa
seus lábios avizinham a beijar.

É o luxo saber do que se ignora
bebendo noite escura,
àquela hora
pelo cabelo expande-se o luar.

 

[De triste o sol me levou]

De triste o sol me levou
à beira da praia verde
colhi seco, beijei pedra
perdi caminho, gemi
poente de sol nascente.

De triste me abandonou
vaga de ar pela serra,
troncos de pinho torcido
fecham penumbra na terra,
ai como choram por mim!

De triste o saibro mostrou
seu grão de terra vermelha
gigante areia centelha
do sangue que simulou
molhou-me a sombra de treva.
16.X.1960

 

[Quando os dias são iguais e tristes]

Quando os dias são iguais e tristes
gosto de beber
para galgar a distância
que me separa do ser.
As veias levam o álcool
e o álcool embebeda-se no tanto que percorre.

Sabendo no corpo os caminhos todos
mistura-lhes o fora
dos quartos
das salas
da paisagem casa
da atmosfera inteira.

Fico tonta de universo,
e vibro               e julgo
que os dias já não são iguais nem tristes.
1.I.1970

 

Poemas transcritos de Salette Tavares, Obra Poética 1957-1971, INCM, Lisboa, 1992.

Esta edição inclui um prefácio de Luciana Stegagno Picchio que que de forma breve dá conta do percurso criativo da autora, e mais relevante, uma penetrante análise de Gillo Dorfles à sua poesia, a qual foi o prefácio da edição italiana do livro LEX ICON.

Encontra o leitor curioso outros poemas de Salette Tavares aqui no blog, nas ligações:

Salette Tavares – uma aproximação

Roupa — poema de Salette Tavares

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Oskar Schlemmer (1888-1943), Bauhaus Stairway, 1932.

Table talk — poema de Wallace Stevens em várias versões

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No seu desenho aforístico, o poema Table Talk de Wallace Stevens (1879-1955) põe-nos perante a evidência do papel do acaso e ausência de determinismo no que à vida respeita.
Diz-nos ele que a vida é, em grande medida, coisa de acontecer gostarmos, não de dever —  Life, then, is largely a thing / Of happens to like, not should. E sugere-nos que, no seu correr, sem interrogações, gostemos do que acontecer gostarmos: One likes what one happens to like. Sem mais. Pois, a vida quando acaba, é para sempre: Granted, we die for good.
E assim, com a despreocupação de uma conversa de café, somos levados a pensar quanto o sem sentido de muitas das angústias que nos atravessam a existência.

Seguem-se três interessantes exercícios de tradução sobre este poema. Elas dão-nos conta, de forma lapidar, quanto o exercício de tradução em poesia é reinterpretação do poema original para além das consabidas alterações de métrica e ritmo inerentes às diferenças linguísticas. A reinterpretação revela-se logo na tradução do título, Table talk. E temos de Conversa à mesa a Conversa Familiar, e Conversa de café. Depois, ao longo do poema, as diferenças nas opções de tradução abundam. A começar pela primeira palavra do poema, Granted, Concedido. Temos alteração do tempo verbal para Concedo, ou então Claro, ou ainda com inversão na posição de Granted no verso, e a sua tradução por é certo.
Poderia continuar quase palavra a palavra, o que seria sobremaneira enfadonho, pelo que lhe deixo, a si, leitor, o exercício de fruir outras diferenças e sentir como as variadas opções de tradução encaminham a leitura do poema em diferentes direcções.

 

 

 

Conversa de café

Claro, morremos para sempre.
A vida, então, é em grande parte uma coisa
De acontecer gostar-se, não de ter de.

E isso, também, claro, porque é que
Acontece eu gostar de arbustos vermelhos,
Relva cinzenta, e céu cinzento-esverdeado?

Que mais resta? Mas vermelho,
Cinzento, verde, porquê essas de entre todas?
Isso não é o que eu disse:

Não essas de entre todas. Mas essas.
Gosta-se do que acontece gostar-se
Gosta-se do modo como o vermelho cresce.

Não tem nenhuma importância.
Acontecer gostar-se é um
Dos modos como as coisas acontecem calhar.

Tradução de Luísa Maria Queiroz de Campos
in Wallace Stevens, Ficção Suprema, Assírio & Alvim, Lisboa, 1991.

 

 

 

Conversa à mesa

Morremos de vez, é certo.
Por isso, a vida é uma coisa,
De que acontece, ou não, gostar.

Mas, sendo assim, porque me acontece
Gostar do mato vermelho,
Da erva cinzenta, e do céu verde-cinza?

E que mais? Mas vermelho,
Cinzento, verde, porquê, especialmente?
Não foi isso o que eu disse:

Não esses, especialmente. Apenas, esses.
Gostamos do que acontece gostarmos.
Gostamos da maneira como o vermelho cresce.

Não tem nenhuma importância.
Acontecer gostar é uma das maneiras
Que as coisas têm de acontecer.

Tradução de Maria Andersen de Sousa
in Wallace Stevens, Antologia, Relógio d’Água, Lisboa.

 

 

 

Conversa Familiar

Concedo: quando se morre é para sempre.
E a vida é em grande parte coisa
De acontecer gostar, não de o dever.

E concedido também isto, porque acontece que eu
Goste do mato vermelho,
De relva cinzenta, da cinza verde do céu?

Que mais resta? Mas porquê de entre todos esses,
O vermelho, o cinzento, o cinzento verde?
Não foi isso o que eu disse:

Gosta-se do que gostar nos acontece.
Não de entre todos esses. Mas esses.
Gosta-se da maneira como o vermelho cresce.

Importante não deverá ser.
Acontecer gostar é uma
Das coisas que acontece acontecer.

Tradução de Victor Palla
in Poemas do Inglês, Ler Editora, Lisboa, 1985.

 

 

 

Table talk

Granted, we die for good.
Life, then, is largely a thing
Of happens to like, not should.

And that, too, granted, why
Do I happen to like red bush,
Grey grass and green-gray sky?

What else remains? But red,
Gray, green, why those of all?
That is not what I said:

Not those of all. But those.
One likes what one happens to like.
One likes the way red grows.

It cannot matter at all.
Happens to like is one
Of the ways things happen to fall.

1935?

in Opus Posthumous, 1957
Transcrito de Wallace Stevens, Collected Poetry & Prose, The Library of America, 1997.

 

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Pierre-Auguste Renoir (1841-1919), Almoço de barqueiros.

Réplica — poema de William Carlos Williams

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Amor, água, e poesia, trilogia para limpar o mundo, e fazê-lo à nossa medida, é o postulado de William Carlos Williams(1883-1963) no poema Riposte. São parte do essencial da vida, como o ar que respiramos, e por isso, o poeta nos aconselha a que os fechemos under lock and key, para que não se percam.
A tradução de José Manuel Mendes acompanha de forma precisa o original, dando-nos em português um poema magnífico.

 

 

Réplica

 

O amor é como a água,
queridos concidadãos:
purifica e dissipa os gases nocivos.
É como a poesia também
e pelas mesmas razões.

O amor é um tesouro de tal modo valioso,
queridos concidadãos,
que, no vosso lugar,
a sete chaves o guardaria…
como o ar ou o Atlântico ou
como a poesia!

Tradução de José Manuel Mendes
in Cinzas da Véspera, Ed. do Autor, 2012.

 

 

 

Poema original

 

 

Riposte

Love is like water or the air
my townspeople;
it cleanses, and dissipates evil gases.
It is like poetry too
and for the same reasons.
Love is so precious
my townspeople
that if I were you I would
have it under lock and key—
like the air or the Atlantic or
like poetry!

 

Publicado pela primeira vez no livro Al Que Quiere! A Book of Poems, 1917.
Transcrito de The Collected Poems of William Carlos Williams, vol.I 1909-1939, New Directions, 1991.

 

 

Abre o artigo a imagem de um detalhe de uma pintura de Richard Diebenkorn (1922-1993), Ocean Park #79.

 

Um poema de Manuel Paço D’Arcos

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A poesia com Deus pelo caminho é hoje pouco apreciada. E, no entanto, a presença de um qualquer sentimento religioso é um universal, ainda que umas vezes difuso e outras intelectualmente rejeitado.

Num curioso e fascinante livro, A Criação do Sagrado, Walter Burkert argumenta sobre uma possível raiz biológica do sentimento religioso, sem base outra que o seu conhecimento dos mitos e da história das religiões, afirmando que: Poderemos continuar a conceber a religião, paralela à linguagem e à arte e, acima de tudo, em estreita simbiose com ambas, como um híbrido de grande longevidade entre as tradições culturais e biológicas.

Os surpreendentes estudos em neurociência identificando a simbiose biologica de emoções, sentimentos e cultura, que prosseguem, certamente nos darão noticia num futuro próximo do quão fundamentada pode ser a tese do Professor Burkert.

Não sei que caminhos levam à necessidade de Deus, ou à sua revelação, sendo certo que se trata sempre de um percurso que é matéria de fé, onde a razão está ausente e a alegria interior se procura. O que segue é que o sentimento de Deus tem dado lugar a muita poesia.
Hoje recupero de um esquecido Manuel Paço D’Arcos (????-????) o poema que a seguir transcrevo, o qual convida exactamente a esse caminho místico:

Esquece tudo que foi um engano profundo,
Um errado caminho.
Traz contigo somente os sonhos de criança
E vamos todos, numa turba imensa,
Com os olhos no Céu,
E na alma a esperança,

E o poema prossegue num caminhar para Deus depois de, a abrir, convidar o leitor a virar costas mundo em que vive:

Homem,
Larga a ruina fumegante do teu mundo

concluindo como o papel redentor da religião é o guia para Edificar a Cidade do Amor.

 

Eis o poema integral:

 

Homem,
Larga a ruina fumegante do teu mundo
E vem comigo para o meu País do Sul
Onde a terra é virgem e o céu é sempre azul.
Esquece tudo que foi um engano profundo,
Um errado caminho.
Traz contigo somente os sonhos de criança
E vamos todos, numa turba imensa,
Com os olhos no Céu,
E na alma a esperança,
Levando Deus em nós e na sua presença,
E só em seu louvor,
Edificar a Cidade do Amor,
No meu País do Sul,
Lá, onde a terra é virgem e o Céu é sempre azul!

Transcrito de Manuel Paço D’Arcos, A Ilha e o Mar, Edições Ática, Lisboa, 1952.

 

Notas iconografia e bibliográfica

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Anselm Kiefer (1945), Bohemia Lies by the Sea, de 1996, pertencente ao MET de Nova York.
O pintor foi buscar este título a um poema do mesmo nome da austríaca Ingeborg Bachmann (1926 – 1973), no qual esta reflecte sobre a necessidade de conhecer e ter o que não existe, traduzida no poema pela metáfora do território da Europa central, a Bohemia, existir à beira-mar.
A pintura dá-nos a ver esse caminho de gente e coisas para lado nenhum, talvez em busca do sonho, ou de qualquer desejo inominado.

O poema de Ingeborg Bachmann pode ser encontrado no original, Böhmen liegt am Meer, e em tradução inglesa, Bohemia Lies by the Sea, no livro Darkness Spoken, The Collected Poems, Zephir Press, 2006.

A Criação do Sagrado, Walter Burkett, Edições 70, Lisboa, 2001.

 

Coisas da Terra — um poema de Irene Lisboa

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Estava há dias a ler a poesia de Adília Lopes (1960) e dei comigo a pensar quanto aqueles relatos da trivialidade dos dias e do existir são filhos directos da poesia de Irene Lisboa (1892-1958). Não evidentemente o afogueamento sexual que a certa altura atravessou a poesia de Adília Lopes, e lhe trouxe a notoriedade aureolada de escândalo, mas os tantas vezes comoventes incidentes da vida que acabam por determinar uma individualidade. Se outro dia irei à poesia de Adília Lopes, hoje transcrevo um poema de Irene Lisboa, Coisas da Terra, denso dessas implicações, em que as circunstâncias do existir ditam uma vida. Na economia da sua enunciação, lemos como a envolvente exterior determina quem afinal somos.

 

 

Coisas da Terra

A Engrácia e a mãe
chegaram numa tarde de domingo.
A Engrácia é minha sobrinha
e a mãe,
que eu ainda só vira duas vezes,
minha irmã.
Minha irmã…
uma pobre mulher,
uma simpática desconhecida
que vem ao hospital ver o marido.

Esta é minha gente.
Penso da mulher:
parecemo-nos.
Temos os mesmos olhos e boca,
o mesmo nascimento de cabelos.

Oito filhos teve já a minha irmã.
Uma filha que lhe morreu
levou o meu nome.
Este mistério que sou!
Filha de outro pai,
noutra terra criada,
lá vivida!

Dou pão com manteiga à Engrácia,
que não diz nada.
A mãe fala.
É o campo toda ela,
o seu cheiro até
e a sua resignação.
Conta coisas do António,
o meu sobrinho mais velho,
com o seu exame feito
e tão amigo de ler…
Mãe! coitada, penso.
Oiço-a,
esquecida do nosso parentesco.
As duas ali estão:
a criança vestidinha à cidade,
a mulher humilde e amável.
Tudo tão natural e pobre!

 

Assinado João Falco
Publicado pela primeira vez em Seara Nova, 1940.
Transcrito de Irene Lisboa, Folhas Soltas da Seara Nova (1929-1955), Antologia, prefácio e notas de Paula Mourão, INCM, Lisboa, 1986.

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Bela Kadar (1877-1955).

João Cabral de Melo Neto — A mulher e a casa

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Sentir a casa como mulher, descobri-la aos poucos, e desejá-la cada vez mais, é o originalíssimo feito de João Cabral de Melo Neto (1920-1999) no poema A mulher e a casa:

pelos espaços de dentro: / seus recintos, suas áreas,
organizando-se dentro / em corredores e salas,

os quais sugerindo ao homem / estâncias aconchegadas,
paredes bem revestidas / ou recessos bons de cavas,

exercem sobre esse homem / efeito igual ao que causas:
e vontade de corrê-la / por dentro, de visitá-la.

 

Talvez apenas uma paixão simultânea de engenheiro e poeta conduza a um poema assim, mas é de todos o simultâneo prazer de descoberta e aconchego, quando acontece o encontro com uma casa que se cola a nós como segunda pele, qual mulher a quem o amor nos entregou para sempre.

Ao longo da vida vivemos diferentemente as casas por onde passamos, tal como é diferente a vivência com cada uma das mulheres que encontrámos. De todas fica um sabor que nos acompanha, e fez de nós umas vezes seres gregários, outras vezes leves penas transportadas pelo vento.

 

A mulher e a casa

Tua sedução é menos
de mulher do que de casa:
pois vem de como é por dentro
ou por detrás da fachada.

Mesmo quando ela possui
tua plácida elegância,
esse teu reboco claro,
riso franco de varandas,

uma casa não é nunca
só para ser contemplada;
melhor: somente por dentro
é possível contemplá-la.

Seduz pelo que é dentro,
ou será, quando se abra:
pelo que pode ser dentro
de suas paredes fechadas;

pelo que dentro fizeram
com seus vazios, com o nada;
pelos espaços de dentro,
não pelo que dentro guarda;

pelos espaços de dentro:
seus recintos, suas áreas,
organizando-se dentro
em corredores e salas,

os quais sugerindo ao homem
estâncias aconchegadas,
paredes bem revestidas
ou recessos bons de cavas,

exercem sobre esse homem
efeito igual ao que causas:
e vontade de corrê-la
por dentro, de visitá-la.

 

Poema transcrito de A educação pela pedra e depois, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1997.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Geza Voros (1897-1957), Mulher num quarto com blusa de riscas.