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A alma do vinho segundo Baudelaire

E de novo, mais um contributo para um cancioneiro do vinho que vou arquivando no blog.
Desta vez Charles Baudelaire (1821-1867) e um poema de Fleurs du Mal, L’âme du vin, que assim abre:

 

Nas garrafas cantou, uma noite, a alma do vinho:
“Homem, pra ti exalo, ó caro deserdado,
Nesta prisão de lacre vermelho e de vidro,
Um canto cheio de luz e de fraternidade!

 

Ao dar voz à alma do vinho já engarrafado, o poema, percorre o itinerário do vinho entre produzi-lo e bebê-lo:

Sobre a colina em fogo, sei quanto é preciso
De esforço, de suor e de sol bem ardente
Pra me engendrar a vida e me criar o espírito;

 

 

É um pouco o que Pablo Neruda fará um século mais tarde na sua Ode ao Vinho, de forma mais desenvolvida e ideologicamente não tão distante quanto isso, a qual em tempos transcrevi no blog, e que a segunda versão que transcrevo de L’âme du vin torna mais explícita:

 

“Ó homem querido deserdado”

Não penses que ignoro quanto trabalho suor e sol a pique
Foi preciso reunir nas colinas em chama
Para fazer de mim um daimon actuante —
Estou-te grato. Não te farei mal.

L’âme du vin integra em Fleurs du Mal um pequeno ciclo de cinco poemas, cada um abordando convívios e consequências diferentes com o vinho. Em A Alma do Vinho, a sua finalidade é confortar e alegrar o homem comum:

Porque imensa alegria sinto ao ir caindo
Na goela de um homem gasto plo trabalho
E o seu peito quente é um sepulcro suave
Que me agrada bem mais do que as adegas frias.

Não ouves ressoar os refrãos domingueiros
E no meu peito ansioso a esperança a gorjear?
Cotovelos na mesa e manga arregaçada,
Irás glorificar-me e estarás satisfeito;

 

 

No passo final do poema vem a dimensão mística do vinho ao qual cabe inspirar no poeta composições dignas da divindade:

Sou uma ambrosia vegetal, eu sei.
Uma semente preciosa lançada pelo Semeador
Em ti cairei para que do nosso enlace nasça a flor rara do poema —
Falarás, de igual para igual, com esse Criador.

 

Citei fragmentos das duas versões do poema que a seguir transcrevo. Uma, de Fernando Pinto do Amaral, tanto quanto possível próximo do original; outra, uma reinterpretação do poema por Maria Gabriela Llansol, dando dele em português uma belíssima versão. Seguem ambas na íntegra rematadas pelo poema original.

A Alma do Vinho

Nas garrafas cantou, uma noite, a alma do vinho:
“Homem, pra ti exalo, ó caro deserdado,
Nesta prisão de lacre vermelho e de vidro,
Um canto cheio de luz e de fraternidade!

“Sobre a colina em fogo, sei quanto é preciso
De esforço, de suor e de sol bem ardente
Pra me engendrar a vida e me criar o espírito;
Porém, não quero ser ingrato ou malevolente,

“Porque imensa alegria sinto ao ir caindo
Na goela de um homem gasto plo trabalho
E o seu peito quente é um sepulcro suave
Que me agrada bem mais do que as adegas frias.

“Não ouves ressoar os refrãos domingueiros
E no meu peito ansioso a esperança a gorjear?
Cotovelos na mesa e manga arregaçada,
Irás glorificar-me e estarás satisfeito;

“Da tua esposa encantada acenderei os olhos;
Devolverei a força e as cores ao teu filho
E serei pra tão frágil atleta da vida
O óleo que enrijece aos lutadores os músculos.

“Em ti hei-de cair, vegetal ambrosia,
Precioso grão que sempre o eterno Semeador
Lança, pra que do nosso amor nasça a poesia
Que brotará pra Deus como uma rara flor!”

 

Tradução de Fernando Pinto do Amaral
in Baudelaire, As Flores do Mal, Assírio & Alvim, Lisboa, 1992.

 

 

O Daimon do Vinho

“Ó homem querido deserdado”
Cantava pela tarde o daimon do vinho nas garrafas
“Da minha prisão de vidro e de lacre
Te envio uma canção de luz e de fraternidade;
Não penses que ignoro quanto trabalho suor e sol a pique
Foi preciso reunir nas colinas em chama
Para fazer de mim um daimon actuante —
Estou-te grato. Não te farei mal.
É imensa a alegria que sinto
Quando deslizo pelas goelas do trabalhador cansado,
O seu peito quente é uma jazida muito mais do meu agrado
De que as caves frias onde me conservo.

Não ouves as canções de domingo passando de boca em boca
E a esperança que chilreia no meu seio palpitante?
De cotovelos na mesa e de mangas arregaçadas
Teu júbilo crescente à minha gloria canta.

Darei luz aos olhos da tua mulher rediviva
A teu filho, força e cores vitais — serei para esse frágil atleta da vida
O óleo que endurece seus músculos de lutador.

Sou uma ambrosia vegetal, eu sei.
Uma semente preciosa lançada pelo Semeador
Em ti cairei para que do nosso enlace nasça a flor rara do poema —
Falarás, de igual para igual, com esse Criador.

 

Versão de Maria Gabriela Llansol
in Charles Baudelaire, As Flores do Mal, Relógio d’Água, Lisboa, 2003.

 

 

Poema original

 

 

L’âme du vin

Un soir, l’âme du vin chantait dans les bouteilles :
« Homme, vers toi je pousse, ô cher déshérité,
Sous ma prison de verre et mes cires vermeilles,
Un chant plein de lumière et de fraternité !

Je sais combien il faut, sur la colline en flamme,
De peine, de sueur et de soleil cuisant
Pour engendrer ma vie et pour me donner l’âme ;
Mais je ne serai point ingrat ni malfaisant,

Car j’éprouve une joie immense quand je tombe
Dans le gosier d’un homme usé par ses travaux,
Et sa chaude poitrine est une douce tombe
Où je me plais bien mieux que dans mes froids caveaux.

Entends-tu retentir les refrains des dimanches
Et l’espoir qui gazouille en mon sein palpitant ?
Les coudes sur la table et retroussant tes manches,
Tu me glorifieras et tu seras content ;

J’allumerai les yeux de ta femme ravie ;
A ton fils je rendrai sa force et ses couleurs
Et serai pour ce frêle athlète de la vie
L’huile qui raffermit les muscles des lutteurs.

En toi je tomberai, végétale ambroisie,
Grain précieux jeté par l’éternel Semeur,
Pour que de notre amour naisse la poésie
Qui jaillira vers Dieu comme une rare fleur ! »

 

Charles Baudelaire, Les Fleurs du Mal, 1857.

 

 

Depois de tão veemente e certeira glorificação do vinho talvez se imponha alguma reflexão filosófica. Sendo eu um moderado bebedor: limito-me habitualmente a um copo de vinho à refeição, esforço-me por ter presente a máxima de Epicuro (341a.C. – ~270 a.C.):
Nenhum prazer é em si mesmo mau. Contudo, as coisas que produzem alguns prazeres trazem consigo perturbações que são muito maiores que os prazeres.*

Esta máxima que levou à danação dos epicuristas, transparece em Montaigne (1533-1592) em várias reflexões nos seus ensaios. No segundo ensaio do seu livro II de Ensaios, Sur l’Ivrognerie, desenvolve o filósofo interessantes considerações não tanto sobre embriaguês ocasional, mas espraiando-se sobre as vantagens da temperança, tem em conta a expressão de Plinio o Velho (23-79)in vino vertias,  in aqua sanitasa verdade está no vinho, na água está a saúde. Aproveita o filósofo para deambular sobre o vinho e os seus efeitos conforme a idade. Como que conversando com os autores greco-latinos, o ensaio é um saboroso percurso de erudição e reflexão. Aqui fica a nota.
Deixemos para outra ocasião o casamento entre vinho e volúpia para não desautorizar tão séria meditação.

* Epicuro, Cartas, Máximas e Sentenças, tradução de Gabriela Baião, Edições Sílabo,
Lisboa, 2009.

Acompanham o artigo três iluminuras do manuscrito medieval Codex Vindobonensis, series nova 2644 conservado na Biblioteca Nacional da Áustria. Mostram elas a apanha da uva e feitura do vinho, a refeição de quem trabalha e com pão e vinho para ganhar forças, e ainda, a abrir, o caminho para a embriaguês de um bebedor ocioso e solitário. Este Codex dá conta em 206 deliciosas iluminuras, de uma arte de viver na Idade Média por vezes surpreendente no registo de um como fazer campestre tão presente ainda nas sociedades rurais.

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Luís Pignatelli — alguns poemas

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É curta a obra poética (1953-1993) de Luís Pignatelli (1935-1993) tal como reunida na edição &etc publicada em 1999, preparada e anotada por Zetho Cunha Gonçalves.

Além das experiências poéticas acompanhando diferentes movimentos de vanguarda do século XX, quando o poeta recorre a formas tradicionais de expressão, a obra revela uma poesia de desolada serenidade, agarrada aos detalhes do quotidiano. É das questões da existência que nos fala: do amor, da morte e da enorme aventura de estar vivo.

Tratando-se da poesia de um artista multifacetado, cuja variada obra está por descobrir, a escolha dos poemas a seguir transcritos não é, sequer, representativa da diversidade da sua obra conhecida.
Talvez quem me lê conheça a canção cantada por José Afonso, Era de noite e levaram. O poema é de Luís Pignatelli, ainda que surja no disco Contos Velhos Rumos Novos atribuído a L. Andrade, uma das muitas assinaturas do poeta. Ou o poema Cantiga de Amigo, tornado canção famosa por Adriano Correia de Oliveira, ao tempo do marcelismo, e mais tarde cantado também por Vitorino, afinal poemas que muitos conhecem por memória, sem fazer a ligação a outros trabalhos do poeta.

Despeço-me com uma escolha de três poemas:

 

 

ars amatoria *

Pela sombra desatado
pela lua desperto
está na cama teu corpo
assim exposto:
se a minha mão o toca
um veio de água aberto
irrompe de tua boca
morre em meu rosto

Lentamente morre
à flor da carne desejada
para logo renascer
em fresco voo repetido
para logo repousar
ave ferida
na rama bem amada
de meu corpo apetecido

Um ao outro apetecendo
como neve derretida
na cintura
desta liana quebrada
onde a selva mais escura
do teu corpo vai morrendo
em meu corpo
incendiada

 

* este poema, com alterações mínimas mas significativas, repete um outro poema do livro, os amantes, cantado e gravado por Janita Salomé.

 

 

no verão a rosarosa

langue a língua fone
funil de sombra
na tua boca áspera à espera
da gota gótica levedando leve
a neve
     cúpula de cópula
      árida areia raia
      marinha morta sobre
o peito salobre da praia paina
      de vento no cristal
      de letra cintilante:

      rosaurata

      rosasáurio

      rosaurífera

      rosafera

      em letra viva

na esfera da tua boca furna de prata
onde morre o verão de língua cortada
      íngua rebentando
      na luz de agosto

      ROSAROSAROSAROSA

 

sonetilho para uma adolescente **

Que vento norte
Na manhã do mar
Sopra teus seios
De flores de morte

Que nuvem arde
Sobre o teu corpo
Teu corpo aberto
À tempestade

Que vaga lua
Virá de noite
Doce tanagra

Pôr-te mais nua
Que a nua praia
Doce e amarga

** poema cantado e gravado por Vitorino

 

Poemas transcritos de Luís Pignatelli, Obra Poética 1953-1993, organização, prefácio e notas de Zetho Cunha Gonçalves, &etc, Lisboa, 1999.
A edição, modelar como habitual nas edições &etc, inclui além de desenhos de outros, alguns saborosos desenhos do poeta, um dos quais abre o artigo.

 

O desejo de ser outro num poema de Ruy Belo

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Sinto saudades de alguém
lido ou sonhado por mim
em sítios onde não estive

Ter a vida que não temos; viver a vida que não vivemos: humaníssimo desejo que aos contentes de si não assalta. Aos outros, a fantasia da imaginação ou o estímulo da literatura são o veículo para, por momentos, nos transportarmos para outra vida, outro indivíduo:

Há uma parte de mim que me abandona
e me edifica nesse vulto que
cheio de ser visto por mim
é o maior acontecimento
da tarde de domingo

É certamente desejo fugaz que acontece acontecer-nos, criaturas imperfeitas e insatisfeitas:

Ei-lo que avança e desaparece
E estou de novo comigo
sobre o asfalto onde quero estar.

Desse desejo nos fala o poema de Ruy Belo (1933-1978), Ah poder ser tu, sendo eu!, que antes, fragmentado, citei:

Ah poder ser tu, sendo eu!

Ei-lo que avança
de costas resguardadas pela minha esperança
Não sei quem é. Leva consigo
além do sob o braço o jornal
a sedução de ser seja quem for
aquele que não sou
E vai não sei onde
visitar não sei quem
Sinto saudades de alguém
lido ou sonhado por mim
em sítios onde não estive
Há uma parte de mim que me abandona
e me edifica nesse vulto que
cheio de ser visto por mim
é o maior acontecimento
da tarde de domingo
Ei-lo que avança e desaparece
E estou de novo comigo
sobre o asfalto onde quero estar

Poema publicado em Aquele Grande Rio Eufrates, 1961.
Transcrito de Ruy Belo, Todos os Poemas, Assírio & Alvim, Lisboa, 2000.

Abre o artigo a imagem de uma pintura (acrílico sobre fotografia) de Helena Almeida (1934-2018).
São poema e pintura duas formas complementares de mostrar o irreprimível desejo de ser outro que por vezes nos atravessa. Na pintura, procurar esconder-se no profundo azul, metáfora de paraíso, no poema, partir com quem passa rumo a destino desconhecido: afinal em ambos a insaciável busca de si.

 

No informe labirinto da poesia com Fernando Pessoa

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Escrever poesia tem como pontos de partida e chegada uma utilização virtuosa da língua, facto que hoje ilustro com dois poemas de Fernando Pessoa (1888-1935) num fascinante exercício de criatividade poética.
Partindo de um verso com as mesmas palavras — Dormi. Sonhei. No informe labirinto — e — Dormi, sonhei. No informe labirinto — Pessoa constrói dois poemas de diferente análise emocional. Desde logo, na pontuação destes versos: num, a pausa do ponto final em Dormi. seguido de Sonhei., identificando duas realidades específicas: dormir e sonhar; no outro verso Dormi, sonhei. separados por vírgula, mostrando um sonhar dormindo. E isso mesmo revelam os segundos versos de cada poema:

 

Dormi. Sonhei. No informe labirinto
Que há entre a vida e a morte me perdi.

 

Dormi, sonhei. No informe labirinto
Que há entre o mundo e o nada me perdi.

 

 

Se no primeiro poema citado, de 7/7/1930, é para o tempo de uma vida que o poeta remete, sendo este o informe labirinto que a percorre, no segundo poema, sem data, é o impalpável do sonho e o seu desnorte que envolve o narrador, aspectos que surgem clarificado nos restantes versos das primeiras quadras de cada poema:

 

Dormi. Sonhei. No informe labirinto
Que há entre a vida e a morte me perdi.
E o que, na vaga viagem, eu senti
Com exacta memória não o sinto.

 

Dormi, sonhei. No informe labirinto
Que há entre o mundo e o nada me perdi.
Em bosques de mim mesmo me embebi,
Misto indeciso do que vejo e sinto.

 

 

O primeiro poema termina com a consciência do engano das palavras na possibilidade de ganhar com elas o conhecimento de si:


Se quero achar-me em mim dizendo-o, minto.

 

No segundo poema, um soneto, há uma leitura menos taxativa do eu, remetendo o desenrolar do poema para a sua complexidade.

E assim, pela criatividade poética, o símil de um verso se desdobra numa multiplicidade de sentidos.

 

Eis os poemas na totalidade:

*
Dormi. Sonhei. No informe labirinto
Que há entre a vida e a morte me perdi.
E o que, na vaga viagem, eu senti
Com exacta memória não o sinto.

Se quero achar-me em mim dizendo-o, minto.
A vasta teia, estive-a e não a vi.
Obscuramente me desconcebi.
7-7-1930

 

 

**
Dormi, sonhei. No informe labirinto
Que há entre o mundo e o nada me perdi.
Em bosques de mim mesmo me embebi,
Misto indeciso do que vejo e sinto.

Estagno incorpóreo. No infiel recinto
Leio o transtorno do que nunca li,
E o labirinto nunca está em si,
Nem há mundo no incerto e abstracto plinto.

Minha alma é um ser que a verdade engana,
Memória da partida dos navios
Na praia que de espuma se engalana.

Não voltaram dos longes os sombrios
Barcos, e o luar mole deixa ver
A praia com a espuma a escurecer.
s/d

 

Poemas transcritos de Fernando Pessoa, Novas Poesias Inéditas, Ática, Lisboa, 1973.

Abre o artigo a imagem de uma obra de Roy Liechtenstein (1923-1997).

Um improviso sobre a saudade pela Marquesa de Alorna e o poema de Borges de Barros

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Hoje transcrevo uma glosa sobre a saudade escrita pela Marquesa de Alorna (1750-1839), com pretexto num elegante poema de 1814, A flor saudade, da autoria de Domingos Borges de Barros (1780-1855), Visconde de Pedra Branca. São ambos daqueles poemas que os homens perderam o gosto de escrever e os leitores de ler. Encontrei-os num livro chamado Poesias oferecidas às Senhoras Brasileiras por um Bahiano, editado em Paris em 1825 da autoria do Visconde de Pedra Branca.

 

Medida de um tempo de convencionalismo no trato e elegantes gentilezas de sociedade, eles são por um lado o reflexo cultural de um viajado barão brasileiro, senhor de engenho, formado em Coimbra e alto funcionário da corte do imperador D. Pedro I, e por outro, a ilustração da poesia sensível da Marquesa de Alorna, temperada numa experiência de vida por vezes dolorosa. De caminho podemos medir a distância entre uma poesia graciosa e uma dolorosa meditação existencial pela poesia.

 

 

Improviso da Marqueza de Alorna sobre o poema A flor saudade, lançado quando da sua leitura num serão:

 

MOTE

Do Doutor Domingos Borges de Barros.

 

Tu és minha companheira,
Ó triste e animosa flor!
Se tens de saudade o nome
Da saudade eu tenho a dor.

 

 

Glosa

A Parca em seu fuso enrola
Os meus aflitos instantes,
Põe-me os prazeres distantes,
E a fatal tesoura amola.
Nem ao menos me consola
Memorar a vida inteira;
Como exalação ligeira
Tudo fugiu: que me resta?
Tu, meditação funesta.
Tu és minha companheira.

Contemplando a natureza,

Os astros, a terra, o céu,
Tudo, tudo esmoreceu,
Tudo amortece a tristeza.
Murchou do campo a beleza,
As boninas não têm cor
Só tu conservas vigor,
Saudade, que açouta o vento;
Símbolo do meu tormento,
Ó triste e mimosa flor.

Flor funesta! que não sentes

O que à vista significas,
Que hipocritamente explicas
O que insensível desmentes.
Não insultes descontentes
Que a dor aguda consome;
Teme que vingança tome
O céu desse atrevimento,
E que te desfolhe o vento,
Se tens de saudade o nome.

Nome que difere tanto

Da cruel realidade,
Como a sombra da verdade,
O céu dos sítios do pranto.
Se gemo, se a voz levanto,
Se inspiro aos mortais terror,
É que o meu sedento ardor
De Tântalo a sede excede;
Com meu mal algum se mede,
Da saudade eu tenho a dor.

 

 

Leia-se agora o poema/pretexto deste improviso:

 

 

A flor saudade

Tu és minha companheira,
Ó triste e animosa flor!
Se tens de saudade o nome
Da saudade eu tenho a dor.

Recebe este frio beijo,

Beijo de melancolia,
Tem de amor toda a doçura,
Mas não de amor a alegria.

Onde te pegou Marília?

Dize, onde um beijo te deu?
Mostra o lugar, nele quero,
Dar-te eu outro beijo meu.

Se Marília quer que exprimas

O que ela sente por mim,
Porque murchas? Não me lembres
Que amor também passa assim.

Marília em tudo te iguala,

Linda e delicada flor,
Mas infeliz se em seu peito,
Quanto duras, dure amor!

Tu venturosa cuidavas,

Quando o meu bem te colheu,
Que morreras em seu seio,
Qual morri outrora eu.

Longe d’haste, em que Favónio

Ia contigo brincar,
Em vez de orvalho te sentes,
Só de lágrimas banhar.

Flor infeliz!… Porém eu,

Quanto mais infeliz sou!…
Nada te disse Marília
Quando ela a mim te enviou?

Ah! Se tu saber puderas

Quanto amor, quanta ternura,
Se souberas das delícias
Julgaras da desventura.

Mas que digo! Não me creias,

Não me vás atraiçoar,
Saudade, é crime de amor
Seus mistérios divulgar.

Domingos Borges de Barros

Como também era de uso, o livro do Visconde de Pedra Branca recolhe poesias de outros. Entre esses, inclui uma colecção de poemas em que várias opiniões se cruzam sobre o que é amor, amizade, e casamento. Num outro poema, uma senhora agradece ao poeta ter interferido a favor dos direitos das mulheres. Em que circunstâncias e extensão não ficamos a saber.
O livro de Borges de Barros, fazendo uso das variadas formas poéticas de regra ao tempo, da ode ao epigrama, no seu conteúdo leve adequa-se ao que seria de bom tom uma senhora ler à época. Se algum pensamento mais atrevido surge, logo vem a desculpa de ter sido um sonho, coisa que nenhum humano pode impedir, como se sabe. O madrigal seguinte é disso retrato. Nele o poeta apenas sonhou beijar a jovem, e acariciá-la sob as vestes, o que o faz reclamar de ter acordado:

 

 

A um sonho, madrigal

Endeusado nos teus lábios
Néctar divino bebi,
Aos céus de amor em teus braços
Entre delícias subi.

Do níveo ninho das graças
Iludiu mão atrevida,
Do véu a avareza, dos olhos
Tirana, ao pejo querida.

E vivo!… Lília perdoa
Foi sonhando que o ousei;
Se a alma pode gozar tanto
Dormindo, porque acordei?

 

Escrito em New York em 1811.

 

 

Nota bibliográfica

 

O improviso da Marqueza de Alorna sobre o poema A flor saudade, lançado quando da sua leitura num serão, foi transcrito de Obras Poéticas de D. Leonor D’Almeida Portugal Lorena e Lencastre, Marqueza d’Alorna, conhecida entre os poetas portugueses pelo nome de Alcipe, Lisboa, Imprensa Nacional, 1844.

O Poema A flor saudade foi transcrito de Parnaso Lusitano vol 3 e confrontado com a versão do livro de Borges de Barros, Poesias oferecidas às Senhoras Brasileiras por um Bahiano. Esta edição encontra-se disponível on-line no site da Biblioteca Nacional de Lisboa (purl). Nela o poema vem incompleto, pois uma página que lhe corresponde (158) encontra-se em branco.
Entre as divergências nestas duas edições do poema, em Parnaso Lusitano vol 3 e Poesias oferecidas…, adoptei as soluções que me pareceram mais coerentes para a inteligência do poema, conhecida que é a proliferação de gralhas menores nestas edições antigas.

A separação num poema de Heinrich Heine e a paráfrase de Gonçalves Crespo

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Nem todos reagimos da mesma forma aos acontecimentos. A exteriorização dos sentimentos que nos assaltam é nuns matéria de reserva, noutros histriónica manifestação. No entanto, para algumas situações tipo há sempre reações que social e psicologicamente se esperam, permitindo aos outros medir a extensão do efeito em nós do que nos atinge, seja na alegria como no desgosto. Para um par apaixonado, forçado à separação, o visível desgosto, se não desespero, tristeza ou desolação, é o que se espera que mostrem.
É nessa expectativa, e no seu não acontecer, que o poema de Heinrich Heine (1797–1856) que escolhi, e a correspondente paráfrase por Gonçalves Crespo (1846-1883) se desenvolvem.
Na primeira quadra os poemas referem a expectativa comum numa separação de apaixonados indivíduos, na segunda quadra os poemas remetem para um tempo posterior à separação o aflorar da sua dor que a separação traz.

 

O poema de Heinrich Heine é o número XLIX de Lyrisches Intermezzo 1822–1823. A paráfrase de Gonçalves Crespo ao poema desenvolve e explícita o que o curto poema de Heine trazia implícito. No final acrescento uma minha transposição rimada do poema para português, tanto quanto possível fiel ao original, para permitir identificar os acréscimos introduzidos por Gonçalves Crespo na sua paráfrase.

 

 

Paráfrase de Gonçalves Crespo a um poema de Heinrich Heine

 

No momento do adeus sucede que os amantes
Se abraçam, a chorar, com vozes soluçantes.
Força é força partir; a mão prende-se à mão,
E uma infinda tristeza inunda o coração.

Para nós, meu amor, nessa hora de agonia
Não houve o padecer que as almas excrucia;
Foi grave o nosso adeus e frio, e só agora
É que a dor nos subjuga, e a angústia nos devora.

 

 

 

Poema original de Heinrich Heine

 

Wenn zwei voneinander scheiden,
So geben sie sich die Händ,
Und fangen an zu weinen,
Und seufzen ohne End.

Wir haben nicht geweinet,
Wir seufzten nicht weh und Ach!
Die Tränen und die Seufzer,
Die kamen hintennach.

 

Poema XLIX de Lyrisches Intermezzo 1822–1823.

 

 

Transposição rimada para português do poema de Heinrich Heine

Intermezzo lírico XLIX

Ao separar-se, as mãos
costumam dar-se os amantes
e desfazerem-se em prantos
e suspiros incessantes.

Mas entre nós não chorámos
nem ais nem queixas lançámos
só bem mais tarde chegaram
as lágrimas e o desgosto.

 

Transposição por Carlos Mendonça Lopes.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura do italiano Francesco Hayez (1791-1882), O Beijo de 1859.

 

Deste-me a beber, com a distância, a amargura — alguns poemas de Ibn Sahl de Sevilha

Sabereis do fogo da paixão por alguns poemas de Ibn Sahl de Sevilha (1212-1251), poeta judeu convertido ao islão no Al-Andaluz, e que hoje transponho para português.

Estes poemas tratam, aparentemente, de uma paixão alimentada na distância e sem correspondência. Dando conta da beleza e atrativo físico do ser amado, os poemas transmitem simultaneamente uma atmosfera febril de desejo e amargura onde a insónia se instala.

Do ser amado sabemos que:

*
Se a lua visse o seu rosto, prostrar-se-ia;
se o quarto crescente visse a sua face,
enrubesceria de vergonha.

 

Tamanha beleza incendeia os sentidos do nosso poeta, que o relata neste belo e conciso poema:

**
Esperava a concessão dos teus favores
deste-me a beber, com a distância, a amargura;
por Deus, acalma o ardente amor em meu peito
deixa-me beber tua saliva de mel.

 

Como a paixão não acalma, no seu fogo arde insone o poeta:

***
A doença da paixão de minha alma não tem outra cura
que beijar os lábios vermelho de tua bela boca.
Por Deus, pergunta pela minha sede aos teus dentes de pérolas,
e à tua fresca saliva de mel por meu fogo.
Que vai acontecer-me à alma, que por teu amor pereceu,
se não aceitas ouvir-me as queixas?
Cortaste-me as noites com a espada da insónia a tal ponto
que me converti pela mirada de teus olhos negros
num escravo ladrão.

 

A febre da paixão pode ter tomado proporções excessivas, a ponto de ser preciso ao poeta desculpar-se perante os outros:

****
Deixai de reprovar-me a paixão e desculpai-me,
emprestai-me vossas lágrimas se choro,
não censureis sua paixão a alguém como eu,
louco de amor. Sentísseis vós o que eu sinto,
mandar-me-íeis ignorar o sono:
pois eu, pela paixão, estou privado dele.
Vós conheceis o sono, mas meus olhos,
na amargura do tempo, não conhecem a união com o descanso.
Amigos, dizei-me a verdade,
que sabor tem o sono, que eu já o esqueci?

 

Antes que o poeta se consuma e acabe em cinzas, terminemos.
Estas paixões poéticas alheadas da vida de todos os dias, seus avatares e limitações, são alimento de alma sem consequência de maior, felizmente…

 

Versão portuguesa dos poemas por Carlos Mendonça Lopes.

 

Abre o artigo a imagem de uma miniatura persa de autor e época não identificados.

Fernando Pessoa no país dos sonhos

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Procurar o sonho na poesia de Fernando Pessoa(1888-1935) é uma viagem emocionalmente arriscada. Ele está lá, mas no deslaçado da existência no mundo da sua poesia, ele é o outro lado a que a vida não chega e do qual uma nostalgia às vezes sobrevive.

 

Ainda muito jovem, Fernando Pessoa na sua poesia desencantava-se da vida e do lugar onde a viver, em termos de pungente desolação:

 

 

Às vezes, em sonho triste
Nos meus desejos existe
Longinquamente um país
Onde ser feliz consiste
Apenas em ser feliz.

Vive-se como se nasce
Sem o querer nem saber.
Nessa ilusão de viver
O tempo morre e renasce
Sem que o sintamos correr.

O sentir e o desejar
São banidos dessa terra.
O amor não é amor
Nesse país por onde erra
Meu longínquo divagar.

Nem se sonha nem se vive:
É uma infância sem fim.
Parece que se revive
Tão suave é viver assim
Nesse impossível jardim.
21-11-1909

 

 

 

Mais de vinte anos passados, e porque o sonho, embora triste, existiu, o poeta escreve ainda, metaforicamente, a esperança de que sobre o negro do girassol da vida, o seu amarelo lhe dê o calor que a infância espera dela:

 

 

Guardo ainda, como um pasmo
Em que a infância sobrevive,
Metade do entusiasmo
Que tenho porque já tive.

Quase às vezes me envergonho
De crer tanto em que não creio.
É uma espécie de sonho
Com a realidade ao meio.

Girassol do falso agrado
Em torno do centro mudo
Fala, amarelo, pasmado
Do negro centro que é tudo.
18-4-1931

 

 

Adulto, e consciente de si, mesmo assim o sonhar não traz um sentido diferente à existência, conduzindo-a pelo caminho que vontade e desejo podem traçar:


Ver claro! Quantos, que fatais erramos,
Em ruas ou em estradas ou sob ramos,
Temos esta certeza e sempre e em tudo
Sonhamos e sonhamos e sonhamos.
 …

 

e ainda, no outro poema a seguir transcrito refere:


Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.

 

 

Eis os poemas citados:

 

 

*
Olhando o mar, sonho sem ter de quê.
Nada no mar, salvo o ser mar, se vê.
Mas de se nada ver quanto a alma sonha!
De que me servem a verdade e a fé?
 
Ver claro! Quantos, que fatais erramos,
Em ruas ou em estradas ou sob ramos,
Temos esta certeza e sempre e em tudo
Sonhamos e sonhamos e sonhamos.
 
As árvores longínquas da floresta
Parecem, por longínquas, estar em festa.
Quanto acontece porque se não vê!
Mas do que há ou não há o mesmo resta.
 
Se tive amores? Já não sei se os tive.
Quem ontem fui já hoje em mim não vive.
Bebe, que tudo é líquido e embriaga,
E a vida morre enquanto o ser revive.
 
Colhes rosas? Que colhes, se hão-de ser
Motivos coloridos de morrer?
Mas colhe rosas. Porque não colhê-las
Se te agrada e tudo é deixar de o haver?
20-1-1933

 

 

**
Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: «Fui eu?»
Deus sabe, porque o escreveu.
24-8-1930

 

 

 

O confronto entre o eu poético de Fernando Pessoa e o mundo é sempre desencantado, se não mesmo amargo, e sonhos de que o futuro traga dias melhores não existem:

 

Lá fora a vida estua e tem dinheiro.
Eu, aqui, nulo e afastado, fico
O perpétuo estrangeiro
Que nem de sonhar já sou rico.

 

Ou como refere noutro poema:


Dentro em breve (poucos anos
É quanto vive quem vive),
Eu, anseios e enganos,
Eu, quanto tive ou não tive,
Deixarei de ser visível
Na terra onde dá o Sol,

 

Estes são fragmentos de complexos poemas que transcrevo a seguir, interpeladores da existência, do estado do mundo, do papel do indivíduo nele, onde sonhos não têm lugar:

 

 

***
Se penso mais que um momento
Na vida que eis a passar,
Sou para o meu pensamento
Um cadáver a esperar.

Dentro em breve (poucos anos
É quanto vive quem vive),
Eu, anseios e enganos,
Eu, quanto tive ou não tive,
Deixarei de ser visível
Na terra onde dá o Sol,
E, ou desfeito e insensível,
Ou ébrio de outro arrebol,
Terei perdido, suponho,
O contacto quente e humano
Com a terra, com o sonho,
Com mês a mês e ano a ano.

Por mais que o Sol doire a face
Dos dias, o espaço mudo
Lembra-nos que isso é disfarce
E que é a noite que é tudo
1-5-1931

 

 

****
Lá fora a vida estua e tem dinheiro.
Eu, aqui, nulo e afastado, fico
O perpétuo estrangeiro
Que nem de sonhar já sou rico.

Não sou ninguém, o meu trabalho é nada
Neste enorme rolar da vida cheia,
Vivo uma vida que nem é regrada
Nem é destrambelhada e alheia.

E um século depois terá esquecido
Tudo quanto estuou e foi ruído
Nesta hora em que vivo. E os bisnetos
Dos opressores de hoje, desta louca luta
Saberão, mas vagamente, a data
— E claramente os meus sonetos.
2-9-1922

 

 

Em todos estes poemas pressente-se o desejo de uma vida que não se viveu, e o medo de a sonhar traz consigo a dura e desencantada consciência do seu vazio, algo que o poema com que termino eloquentemente enuncia:

 

*****
Deslembro incertamente. Meu passado
Não sei quem o viveu. Se eu mesmo fui,
Está confusamente deslembrado
E logo em mim enclausurado flui.
Não sei quem fui nem sou. Ignoro tudo.
Só há de meu o que me vê agora —
O campo verde, natural e mudo
Que um vento que não vejo vago aflora.
Sou tão parado em mim que nem o sinto.
Vejo, e onde [o] vale se ergue para a encosta
Vai meu olhar seguindo o meu instinto
Como quem olha a mesa que está posta.
13-9-1934

 

Poemas transcritos de Fernando Pessoa, Novas Poesias Inéditas, Edições Ática, 1973.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Magritte (1898-1967).

 

Pelo Natal com poemas de Miguel Torga

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Ao longo das páginas dos XVI volumes do Diário (1941-1993) tem Miguel Torga (1907-1995) espalhado um Cancioneiro de Natal. Não livro temático deliberado, mas poemas/apontamentos reflexivos e sentimentais sobre a data e o seu significado pessoal. Se em muitos poemas é a memória e o sentir próprio que se reflectem, noutros é a leitura social do significado da crença, o que encontramos.

Destes vinte e tal poemas explicitamente assinalados, e espalhados ao longo dos últimos cinquenta anos da vida do poeta (do Natal de 1940 ao Natal de 1991), transcrevo a seguir cinco. Se o consolo da fé não surge evocado, a esperança que a mitologia da data encerra nas suas múltiplas possibilidades, está sempre presente, à mistura com a amargura de que o mundo não seja o lugar de paz e harmonia que a cada nascimento se promete.

 

Loa

É nesta mesma lareira,
E aquecido ao mesmo lume,
Que confesso a minha inveja
De mortal
Sem remissão
Por esse dom natural,
Ou divina condição,
De renascer cada ano,
Nu, inocente e humano
Como a fé te imaginou,
Menino Jesus igual
Ao do Natal
Que passou.

S. Martinho da Anta, 24 de Dezembro de 1969.

 

 

Natal

Todos os anos, nesta data exacta,
Momentos antes
De fechar o cartório
De poeta
— Um registo civil ultra-real —,
O mago desse arquivo de presságios
Regista de antemão o mesmo nome
No seu livro de assentos:
— Jesus… — repete com melancolia,
A consumar a morte prematura
Do nascituro,
E a lamentar que a mãe, Virgem Maria,
Humana criatura,
Continue a ter filhos no futuro
Condenados à mesma desventura.

S. Martinho da Anta, 24 de Dezembro de 1973.

 

 

Natal

Soa a palavra nos sinos,
E que tropel nos sentidos,
Que vendaval de emoções!
Natal de quantos meninos
Em nudez foram paridos
Num presépio de ilusões.

Natal da fraternidade
Solenemente jurada
Num contraponto em surdina.
A imagem da humanidade
Terrenamente nevada
Dum halo de luz divina.

Natal do que prometeu,
Só bonito na lembrança.
Natal que aos poucos morreu
No coração da criança,
Porque a vida aconteceu
Sem nenhuma semelhança.

Coimbra, Natal de 1974.

 

 

Natal

Ninguém o viu nascer.
Mas todos acreditam
Que nasceu.
É um menino e é Deus.
Na Páscoa vai morrer, já homem,
Porque entretanto cresceu
E recebeu
A missão singular
De carregar a cruz da nossa redenção.
Agora, nos cueiros da imaginação,
Sorri apenas
A quem vem,
Enquanto a Mãe,
Também
Imaginada,
Com ele ao colo,
Se enternece
E enternece
Os corações,
Cúmplice do milagre, que acontece
Todos os anos e em todas as nações.

Coimbra, 25 de Dezembro de 1983.

 

 

Natal

Menino Jesus feliz
Que não cresceste
Nestes oitenta anos!
Que não tiveste
Os desenganos
Que eu tive
De ser homem,
E continuas criança
Nos meus versos
De saudade
Do presépio
Em que também nasci,
E onde me vejo sempre igual a ti.

Coimbra, 24 de Dezembro de 1988.

 

 

Poemas transcritos de Miguel Torga, Poesia Completa, 2 volumes, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2007.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Master Francke, presumivelmente de 1424. Mestre Francke foi pintor activo no norte da Alemanha nos primórdios do século XV, e de cuja vida e obra hoje pouco se sabe.

 

Dia de Outono — O poema de Rainer Maria Rilke

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Rainer Maria Rilke (1875-1926) dá-nos no poema Herbsttag, Dia de Outono, o pretexto para a reflexão sobre o caminho do crepúsculo, não o do ciclo das estações com a sua esperança de eterno retorno, mas o da vida, fazendo meditar no doce/amargo da plenitude vivida e da solidão do fim. Longa a vida, apenas o é quando surge o cansaço dela:

Senhor: é tempo. Foi muito grande o verão.
Nos relógios de sol estira as tuas sombras,
deixa que pelo prado os ventos vão.

E mesmo assim, ainda é tempo para o desejo de gozar dos frutos apetecidos:

Manda aos últimos frutos a espessura,
dá-lhes do sul ainda mais dois dias,
força a plenitude neles, vê se envias
ao vinho forte a última doçura.

Apenas a solidão dá pretexto ao desalento:

Quem não tem casa agora, já não constrói nenhuma,
quem agora está só, vai ficar só, sombrio,
perder o sono, ler, escrever cartas a fio,
e a um ir e vir inquieto nas áleas se acostuma,
vagueando enquanto as folhas lá vão num rodopio.

Transcrevo a seguir a admirável versão portuguesa do poema por Vasco Graça Moura que acima citei em fragmentos. Completo-a com duas outras versões: uma por Paulo Quintela, outra por Maria João Costa Pereira trazida da sua tradução de O Livro das Imagens, a que o poema pertence. No final incluo o poema original.

Dia de Outono

Senhor: é tempo. Foi muito grande o verão.
Nos relógios de sol estira as tuas sombras,
deixa que pelo prado os ventos vão.

Manda aos últimos frutos a espessura,
dá-lhes do sul ainda mais dois dias,
força a plenitude neles, vê se envias
ao vinho forte a última doçura.

Quem não tem casa agora, já não constrói nenhuma,
quem agora está só, vai ficar só, sombrio,
perder o sono, ler, escrever cartas a fio,
e a um ir e vir inquieto nas áleas se acostuma,
vagueando enquanto as folhas lá vão num rodopio.

Tradução de Vasco Graça Moura
in Rainer Maria Rilke, Elegias de Duíno, Os Sonetos a Orfeu, Bertrand Editora, Lisboa, 2007.

Dia de Outono

Senhor: é tempo. O Verão foi muito longo.
Lança a tua sombra sobre os relógios de sol
e solta os ventos sobre as campinas.
Manda que os últimos frutos se arredondem;
dá-lhes inda dois dias mais meridionais,
leva-os à perfeição e faze entrar
a última doçura no vinho pesado.

Quem agora não tem casa, já não vai construí-la.
Quem agora está só, longo tempo o será.
Fará vigílias, e lerá, escreverá longas cartas
e vagueará, de cá para lá, nas alamedas,
agitado, quando o vento arrasta as folhas.

Tradução de Paulo Quintela,
in Rainer Maria Rilke, Poemas, As Elegias de Duíno, Sonetos a Orfeu, Porto, 2001.

Dia de Outono

Senhor: é tempo. O Verão foi muito longo.
Lança a tua sombra sobre os relógios de sol
e solta os ventos sobre os campos.

Ordena aos últimos frutos que amadureçam;
dá-lhes ainda dois dias meridionais,
apressa-os para a plenitude e verte
a última doçura no vinho pesado.

Quem agora não tem casa, já não vai construí-la.
Quem agora está só, assim ficará por muito tempo,
velará, lerá, escreverá longas cartas
e vagueará inquieto pelas alamedas acima e abaixo,
quando caírem as folhas.

Tradução de Maria João Costa Pereira,
in Rainer Maria Rilke, O Livro das Imagens, Relógio d’Água, Lisboa, 2005.

Poema original

Herbsttag

Herr: es ist Zeit. Der Sommer war sehr gross.
Leg deinen Schatten auf die Sonnenuhren,
und auf den Fluren lass die Winde los.
 
Befiehl den letzten Früchten voll zu sein;
gib ihnen noch zwei südlichere Tage,
dränge sie zur Vollendung hin und jage
die letzte Süsse in den schweren Wein.
 
Wer jetzt kein Haus hat, baut sich keines mehr.
Wer jetzt allein ist, wird es lange bleiben,
wird wachen, lesen, lange Briefe schreiben
und wird in den Alleen hin und her
unruhig wandern, wenn die Blätter treiben.

Abre o artigo a imagem de uma minha pintura digital de 2004.
Carlos Mendonça Lopes