Décimo Magno Ausónio a sua mulher

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vallotton_felix-intimidade-interior-com-casal-500pxA vida e os afectos cruzam-se de forma sinuosa, umas vezes desfazendo sonhos, outras permitindo que escolhas felizes permaneçam no tempo.
Se a insatisfação desenvolve o desejo de variedade, a felicidade faz aspirar à constância. Num casal,  provavelmente a maior prova de amor será o desejo de envelhecer juntos, vendo-se felizes quando as limitações da idade chegam e a vida é mais memória que futuro. Desse desejo de velhice acompanhada pelo amor fala o poema de Décimo Magno Ausónio (c. 310-c. 395) que a seguir transcrevo em tradução de Jorge de Sena.

 

A sua mulher

Amor, vivamos como sempre, não esqueçamos
os doces nomes ditos na primeira noite,
e nunca venha o dia que nos veja velhos:
eu sempre o jovem teu, e tu a minha noiva.
Que mais do que Nestor provecto eu seja em anos.
e tu na idade venças a senil Sibila.
De tão extrema velhice ignoraremos tudo:
menos as ciências dela no escapar do tempo.

 

Transcrito de Poesia de 26 Séculos, antologia, tradução, prefácio e notas de Jorge de Sena, edição Fora do Texto, Coimbra, 1993.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Felix Vallotton (1865-1925).

 

Macaroni e um enigma setecentista em verso atribuído a Curvo Semedo

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macaroni-ingles-2-500pxO reino das massas alimentícias, originárias de Itália, é, como se sabe, universo de paixão e de prodígios (culinários, evidentemente), onde até em Nápoles a pizza portuguesa pode ser considerada a melhor do mundo (noticia a imprensa).

Em massas, a infinita variação culinária é quase igual à diversidade de apresentação, e embora as massas frescas sejam de popularidade recente entre nós, algumas variedades de massa seca foram de longa data adoptadas pela culinária portuguesa, qual seja, por exemplo, o macarrão, indispensável para um bom feijão com massa.

Este macarrão já conhecido por cá no século XVIII, gozaria certamente de grande popularidade à época, a tal ponto que foi assunto de um sofisticado enigma poético atribuído a Belchior Curvo de Semedo (1766-1838), e que a seguir vos dou a conhecer.

 

Enigma
É grosso, longo, e furado,
Pinga, mas não se derrete,
Enxuto, e duro, se mete,
Tira-se mole, e molhado.
É à cobra assemelhado,
Mas tem seu quê com a espiga,
Penetra até à barriga,
Sacia a vontade à gente;
Porém ser cousa indecente
Não se creia, nem se diga.

 

E não se creia, não, senhores.

Tudo isto quer dizer mui simplesmente macarrão!

 

In Poesias Lyricas de Belchior Manuel Curvo de Semedo – Belmiro Transtagano, ed. 1890.

macaroni-ingleses-1-450pxEsta leitura do macarrão está longe do que sucedeu à palavra em terras de sua majestade britânica.

Por alturas da composição deste poema, ou um pouco antes (anos 60 do século XVIII), o macarrão, maccherone em italiano, transformou-se em Inglaterra num epíteto, acompanhando o sucesso local à época das massas italianas, macaroni.

macaroni-ingleses-sala-de-vestir-500pxAplicou-se em Inglaterra o epíteto de macaroni aos elegantes, sobretudo jovens aristocratas ou de posses, regressados da sua viagem cultural ao continente (Grand Tour), trajando  de forma original e espaventosa. A coisa ganhou proporção tal no espavento que foi motivo de retumbante sucesso em caricaturas da época, das quais alguns exemplos acompanham o artigo.

macaroni-ingles-1-450pxO amaneiramento em que a originalidade se tornou fez com que em alguns anos, o termo se tornasse sinónimo de efeminado. A vertigem da moda seguiu outros caminhos e por eles desapareceram os macaroni.

Um poema/conselho vindo da Índia antiga

picasso-gravura-500pxA vida coloca-nos todos os dias interrogações, e o sentido do que fazer como destino participa desse questionar. Se umas vezes as opções escasseiam, outras o leque é vasto. O acerto na decisão a tomar é tantas vezes motivo de angústia ou ansiedade que, procurando colmatar em algum leitor certa perplexidade sobre o que fazer, deixo a quem tal acontecer um conselho transmitido a partir da Índia antiga na forma de um poema, em versão de Jorge Sousa Braga.

Neste vão e flutuante mundo
O que resta a um homem?
Pode dedicar-se à oração
Mas se isso porventura não resulta
O melhor é refugiar-se entre os seios de uma mulher
Acariciar as suas coxas quentes
E possuir o que entre elas se oculta

Transcrito de Os Cinquenta poemas do amor furtivo e outros poemas eróticos da Índia antiga, introdução e versões de Jorge Sousa Braga, Assírio & Alvim, Lisboa, 2004.

Abre o artigo a imagem de uma gravura de Picasso (1881-1973).

Da incontinência fotográfica dos nossos dias ao burkini

beduína 500pxPerante a incontinência fotográfica dos nossos dias, parece desnecessário um Dia Mundial da Fotografia.
Cada humano com acesso à tecnologia de hoje, possui uma câmara fotográfica, se não duas, três, ou mais. Olha, dispara, fotografa-se a si, fotografa ao redor, e fica feliz.

Poucos gestos com a tecnologia na mão darão mais prazer que o gesto de fotografar, daí o seu sucesso. E é acumular fotografias até à mais absoluta indiferença, sobre o que foi um prazer sobreposto a outros.
Passear, olhar em redor, desfrutar do que se vê? Não! Fotografar para ver mais tarde em quadradinho o que podia ter sido contemplado na magnificência do real. Deste fenómeno hodierno, turistas japoneses e chineses são o requinte máximo.


Há tempos, numa pausa de passeio, enquanto bebericava uma cerveja, duas amigas que me acompanhavam, mostravam-se fotos. As fotos passavam, trá-lá-lá, e a certa altura diz uma:
— Isto nunca mais acaba. Só neste telemóvel tenho mais de oito mil fotos!
Responde a outra com um misto de inferioridade e inveja na voz:
— Eu pouco mais tenho que seis mil!


A fotografia familiar como preservação de memória é uma aquisição tecnológica preciosa para as nossas vidas. Já a memória fotográfica dos lugares nos moldes correntes hoje, com o pico Facebook que se conhece, tenho dúvidas. E não falo dos casos extremos que o NYT referia há dias em crónica, de gente que se faz fotografar em férias por fotógrafos pagos, com o propósito de obter fotos glamorosas e publicá-las no Facebook para amigo ver, mas do vai aqui, foto no Facebook, vai ali, foto no Facebook!

 

Acontece que o fotografar turístico pode ter consequências sociais e políticas sérias como o que recentemente aconteceu em praias francesas. Ao que li na imprensa, a reacção francesa ao uso de burkini nas praias, com a sua proibição em algumas, decorreu dos tumultos desencadeamos em praia da Córsega quando turistas fotografaram mulheres banhistas em burkini.
Este burkini enquanto vestimenta de banho nada tem a ver com a burqa, a qual, como traje de ofensa pública, pode ser discutida nos mesmos termos que o circular nu em locais públicos coloca: que limites aceitamos no convívio social entre desconhecidos.
O burkini, no entanto, é a meu ver, elegante e sexy. Quando agarrado ao corpo, desenhando as formas de mulher, permite expôr uma elegância equivalente a um traje de surf ou pesca submarina, quando o corpo a tem. Bastante melhor que as camisas de noite qua ainda hoje as festeiras do dia de São João da Degola levam para o mar e depois do banho permanecem molhadas e agarradas ao corpo em sedutoras formas rugosas. Literariamente Manuel Teixeira-Gomes dá desta festa na Praia da Rocha, em Portimão, no Algarve, uma voluptuosa descrição, penso que em Inventário de Junho, mas aqui em férias não o posso confirmar.

Se esta festa de S. João da Degola era dos momentos mais esperados em finais de Agosto nas férias na praia da minha adolescência, a primeira vez que me cruzei com mulheres em burkini, foi bastante mais tarde, há alguns anos apenas, numas férias no Egipto. Do meu ponto de vista, estes burkinis contribuem para dar variedade à paisagem humana das praias introduzindo uma nova ocupação do olhar naquele nada que fazer que é estar à beira-mar.

 

Num meio caminho entre a burqa e o burquini, deixo-vos a fotografia de abertura desta conversa de férias onde espreita o olhar atrevido de uma bela egípcia que fotografei ao tempo dessas férias no Egipto.

beduína- o olhar

Paixão que teima num soneto da Viscondessa de Balsemão

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Tamara de Lempicka - Mulher à guitarra (detalhe) 600pxAbro um parêntesis no sobressalto dos dias para trazer mais uma perspectiva sobre o amor, desta vez sobre a escravidão da paixão, aqui num relato da Viscondessa de Balsemão (1749-1816):

 


Só por ti vivo, só por ti respiro;
Sairá com a minha alma em pranto envolto,
Teu nome unido ao último suspiro.

 

 

 

A Viscondessa de Balsemão figura entre a legião de poetas pré-românticos cuja obra se encontra esquecida entre manuscritos inéditos e edições da época inacessíveis. Entre esta herança poética, serão muitos os poemas banais ou dignos do silêncio do esquecimento, mas entre eles surgem por vezes algumas pérolas, como o soneto que hoje transcrevo.
Nele se dá conta do absoluto da paixão amorosa, mesmo quando a relação se quebra:

 

 

Inda existe, cruel, inda em meu peito
Se nutre da paixão o fogo activo;
Inda contra o meu gosto por ti vivo,
Fazendo o sacrifício mais perfeito.

 

 

A seguir refere o soneto como ela se agarra à pele e não larga, fazendo o apaixonado rebolar-se no prazer da sua dor:

 


Inda te adoro, ainda te respeito
Vendo em ti de meus males o motivo,
Porém o coração de amor cativo,
No cativeiro vive satisfeito.

 

 

Mais à frente regista o poema como naquele vai-vem do querer e não querer se alimenta o fogo da paixão:

 


Se às vezes contra ti queixumes solto,
Do que fiz insensato então me admiro
E aos meus antigos sentimentos volto.

 

 

Percorridos que estão os caminhos que o(a) apaixonado(a) atravessa quando escravo(a) da paixão, resta a leitura integral do soneto:

 

 

Inda existe, cruel, inda em meu peito
Se nutre da paixão o fogo activo;
Inda contra o meu gosto por ti vivo,
Fazendo o sacrifício mais perfeito.

Inda te adoro, ainda te respeito
Vendo em ti de meus males o motivo,
Porém o coração de amor cativo,
No cativeiro vive satisfeito.

Se às vezes contra ti queixumes solto,
Do que fiz insensato então me admiro
E aos meus antigos sentimentos volto.

Só por ti vivo, só por ti respiro;
Sairá com a minha alma em pranto envolto,
Teu nome unido ao último suspiro.

(Misc. Poética. Jornal de poesias inéditas, p15)

 

 

Transcrito de Zenóbia Collares Moreira, O Lirismo Pré-Romântico da Viscondessa de Balsemão,  Edições Colibri, Lisboa, 2000.

 

 

 

Abre o artigo a imagem do detalhe de uma pintura de Tamara de Lempicka (1898-1980)Mulher à guitarra.

Da Morte em dois poemas de Emily Dickinson

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Rousseau, Henri (1844-1910) - Guerra 600pxFelizmente, o meu ânimo prazenteiro sobrepõe-se rápido aos desastres da vida, e quando me sento a escrever para o blog são as coisas agradáveis que me apetecem, ainda que uma ou outra mais negra por vezes se introduza.
A política não nos larga, e a pretexto dela, ou seja, de um ou alguns pretenderem escolher por nós o que nos fará felizes, esses mesmos vão semeando a morte nas calçadas. Acreditam no que este poema Emily Dickinson (1830-1886) refere:

 


Morrer — sem ser Morrendo
E sem a Vida — viver
O mais árduo Milagre
Que se propõe a Fé.

 


Pensar na morte, reflectir sobre o efémero dos dias, sobre a fragilidade do que até há pouco tomámos por seguro, é hoje uma inevitabilidade. E no entanto, a força da vida rapidamente nos tenta a levantar cabeça, e num encolher de ombros seguir em frente. Felizes os que o conseguem.

Num outro doloroso poema Emily Dickinson regista lapidarmente a sucessão entre a morte e o esquecimento dela, e que viveremos passadas as primeiras emoções:


Um Laço mais escuro — por um dia —
Um crepe no Chapéu —
E vem então a bela luz do sol —
E ajuda-nos a esquecer —

 

Neste poema, em três curtas quadras percorremos o quadro, no que à morte respeita, da dor pessoal, da vida em sociedade, e do mistério da fé cristã:

 


Morrer — é muito breve —
Dizem que não dói —
É só desfalecer — a pouco e pouco —
Depois — nada se ver —

Um Laço mais escuro — por um dia —
Um crepe no Chapéu —
E vem então a bela luz do sol —
E ajuda-nos a esquecer —

A criatura — mística — e distante —
Que só por nosso amor —
Fora dormir — nesse perfeito tempo —
E de cansaço ausente —

 

in Emily Dickinson, Duzentos Poemas, tradução, belíssima, posfácio organização e de Ana Luísa Amaral, Relógio D’Água Editores, Lisboa 2014.

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Henri Rousseau (1844-1910), Guerra.

Um poema de A Primavera de Francisco Rodrigues Lobo

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HILLIARD, Nicholas 1547-1619 - miniatura sobre pergaminho 1588 300pxSabemos todos que as horas não têm sempre a mesma duração. E se as horas de prazer voam ligeiras, as de espera, ansiedade, desgosto ou desengano, de dilatadas, parecem eternidade.
Dessa variabilidade da duração do tempo em função de estados de alma nos fala o poema de Francisco Rodrigues Lobo (1580-1621) que a seguir transcrevo.
Se esta reflexão poética é de todos os tempos, as quatro oitavas que seguem têm a particularidade de glosar o primeiro quarteto de um soneto arqui-popular à época — Horas breves do meu contentamento — de autoria desconhecida, e a certa altura também atribuído a Camões, e no qual, com algumas nuances, esta mesma reflexão se escreve.
Ao soneto e às suas variadas versões irei proximamente. Por agora entrego-vos ao poema de Francisco Rodrigues Lobo.

 

 

Se sois, horas, da mesma natureza
Do tempo vão que passa e não se sente,
Como só no meu mal tendes firmeza
E tomais natureza diferente?
Como assim não fugis desta tristeza
E desta vida em tudo descontente,
Se mais leves fugis que o leve vento,
Horas breves do meu contentamento?

Quanto para saber-vos me faltava
Naquele breve espaço que vos vi!
Como do tempo então me descuidava,
Cuidei que todo fosse sempre assi.
Quanto fugia o bem e o mal durava
Pareceu-me depois que vos perdi.
Porque amor a meu mal tudo encaminha,
Nunca me pareceu quando vos tinha.

Ai duros, rigorosos desenganos,
A que tempo cortais minha esperança!
Saber que em tanta pena, em etantos danos
O mal só dura, o bem nunca descansa!
Horas que para o mal durais mil anos
E em meu gosto fazeis logo mudança,
Quão mal imaginara esta alma minha
Que vos visse mudada tão asinha!

Tudo em vós se trocou, tudo é mudado,
A vida, o gosto e o desejo dela,
O rosto , o parecer, o trajo, o gado,
E também se mudou a minha estrela.
Mudar-se tudo, enfim, me era forçado,
Que juízo não vale, força ou cautela
Pera sustentar sempre um sofrimento
Em tão compridos anos de tormento.

 

Transcrito de Francisco Rodrigues Lobo, A Primavera, edição de Maria Emília Gonçalves Pires, Vega Editora, Lisboa, 2003.

Abre o artigo a imagem de uma pintura miniatura (aguarela sobre pergaminho) por Nicholas Hilliard (1547-1619), feita em 1588, contemporânea próxima do poema. A atitude do jovem pintado reflecte admiravelmente o espírito que a meditação do poema transporta.

A pintura pertence à colecção do museu Victoria and Albert de Londres. A ficha da obra disponibilizada pelo museu on-line lê-se com proveito.

Piquenique ao tempo de Hesíodo

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A ceifa do trigo detalhe 500pxNuma daquelas reportagens de encher tempo de antena, um canal televisivo dava conta dos propósitos e ementa de uma família portuguesa para aproveitar o calor de um dia de verão: fazer piquenique ao almoço e gozar os prazeres do descanso à sombra e ao ar livre.

 

O gosto de ir ao encontro da natureza em dias de verão é de todos os tempos e dele a literatura tem feito abundante eco. Para ler com enorme prazer e enfrentar o calor, podem servir as narrativas do Decameron de Bocaccio, mas para poesia, e por forma a dar uma dimensão razoável ao artigo, recuo bastante mais no tempo, às origens gregas da poesia, com a narrativa que Hesíodo (sec. VIII a.C.) faz em Trabalhos e Dias, do desejo de piquenique no calor de um dia de verão.

 

Se a nossa família portuguesa ia carregada de carne, enchidos, porco para grelhar, e vinho para beber, a ementa desejada por Hesíodo difere tão só na qualidade das proteínas escolhidas, fazendo dela uma refeição mais próxima do dietecticamente recomendável pelos padrões de hoje. Vistos os quase três mil anos que os separam, desejos e seu conteúdo, quão pouco mudou no que de essencial a natureza humana tem. Se não, leiam:

 

 

 

O verão

Quando o cardo floresce e a ruidosa cigarra
pousada nas árvores espalha o seu canto estridente,
com o contínuo bater das asas, nos penosos dias de verão,
as cabras estão então mais gordas e é melhor o vinho,
mais lascivas as mulheres e mais frágeis os homens,
quando Sírio esquenta a cabeça e os joelhos
e, sob o efeito do calor, a pele se torna seca.
Pudesse ao menos eu ter a sombra dum rochedo
e vinho bíblino, uma bolacha e leite
das cabras que não aleitam os filhos, um pedaço
de carne de vitela alimentada nos bosques,
que ainda não teve crias, e de cabrito
recém-nascido. E, por cima, para saborear
o vinho flamejante, que possa deitar-me à sombra,
com o coração saciado de comida e o rosto
voltado contra o forte sopro do Zéfiro,
tirar três vezes água duma fonte cristalina
e misturar-lhe uma quarta parte de vinho.

Trabalhos e Dias, 582-596

 

Transcrito de Antologia da Poesia Grega Clássica, tradução e notas complementares de Albano Martins, Edições Afrontamento, 2011.

 

 

Abre o artigo a imagem do detalhe de uma pintura  Pietr Bruegel o Velho (1525-1569) conhecido por Colheita de Trigo.

 

Há anos (2012), por esta época, transcrevi aqui no blog este mesmo fragmento de Hesíodo mas numa tradução de José Ribeiro Ferreira. As ligeiras diferenças nas opções de vocabulário não alteram o mérito de qualquer das traduções.

Cantiga do campo — poema de Gomes Leal para canção dos Madredeus

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Millet 1857 500pxA música de Pedro Ayres Magalhães e Rodrigo Leão para o poema de Gomes Leal (1848-1921) Cantiga do Campo capta a atmosfera luminosa deste, simultaneamente ensolarada e fresca, qual a da natureza pelo verão, servida por uma refinada orquestração.

Jean-Francois Millet 09 500px

O mundo rústico de que o poema fala está extinto, mas o desejo do contacto com a natureza assalta as gentes urbanas nestes dias de verão que incendeiam corpos e almas, levando multidões atrás da música em festivais com a paisagem silvestre quase intocada por cenário.

A música no seu mistério de devolver a harmonia ao humano é o catalisador destes parêntesis numa vida por demais enfeudada à vertigem das exigências de todos os dias.

Woodstock poster

Antes de transcrever o poema, registo além das variadas versões pelos Madredeus a belíssima e original interpretação da canção por Mylene, cantora brasileira que em 2007 gravou um esplêndido disco com diversas canções dos Madredeus.

As canções tanto nas interpretações dos Madredeus como de Mylene encontram-se on-line nos lugares do costume.

Jean-Francois Millet 02 450px

 

Cantiga do Campo

 

 

Por que andas tu mal comigo

Ó minha doce trigueira?

Quem me dera ser o trigo

Que, andando, pisas na eira!

 

Quando entre as mais raparigas

Vais cantando entre as searas,

Eu choro ao ouvir-te as cantigas

Que cantas nas noites claras!

 

Os que andam na descamisa

Gabam a viola tua,

Que, às vezes, ouço na brisa

Pelos serenos da lua.

 

E falam com tristes vozes

Do teu amor singular

Àquela casa onde cozes,

Com varanda para o mar.

 

Por isso nada me medra,

Ando curvado e sombrio!

Quem me dera ser a pedra

Em que tu lavas no rio!

 

E andar contigo, ó meu pomo

Exposto às chuvas e aos sois!

E uma noite morrer como

Se morrem os rouxinóis!

 

Morrer chorando, num choro

Que mais as magoas consola,

Levando só o tesouro

Da nossa triste viola!

 

Por que andas tu mal comigo?

Ó minha doce trigueira?

Quem me dera ser o trigo

Que, andando, pisas na eira!

 

in Gomes Leal, Claridades do Sul, Braz Pinheiro Editor, Lisboa, 1875.

Modernizei a ortografia.

Jean-Francois Millet 03 500px

 

Acompanham o artigo imagens de pinturas de Jean-Francois Millet (1814-1875) entremeadas com a imagem do poster original do Festival de Woodstock em 1969, pontapé de saída para os festivas de verão em ambiente rural.

La foule — canção por Piaf e o poema de Jorge de Sena

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Piaf500pxJe revois la ville en fête et en délire [Revejo a cidade em festa e em delírio]
Suffoquant sous le soleil et sous la joie [Sufocando sob o sol e sob a alegria

Não, não são sobre o delírio do futebol observado em Lisboa a pretexto da vitória contra a França na final do EURO2016, os versos transcritos acima. São o início de uma canção popular — La foule — que Edit Piaf (1915-1963) cantou, frequentemente, de forma fabulosa.
Fala a canção de um encontro de acaso entre um homem e uma mulher desconhecidos,  empurrados para os braços um do outro por uma multidão em festa (o que bem pode ter acontecido a alguém naqueles eufóricos festejos). Enlaçados, os desconhecidos voam levados pelo turbilhão das gentes. Surge súbito a paixão na faísca de um sorriso para logo, na voragem da festa, a multidão os separar e não mais se encontrarem.
Segue a canção, e ao júbilo do amor adivinhado sucede a raiva na voz magoada que ainda hoje toca quem alguma vez entreviu por momentos a paixão, e esta sem remédio se esfumou perante a indiferença do mundo que continuou imperturbável no seu giro.
Desta, como de outras canções, a variada amálgama de sentimentos que a voz de Edit Piaf continua a destilar em quem a ouve, fala de forma superlativa o poema de Jorge de Sena (1919-1978) que a seguir transcrevo.

A Piaf

Esta voz que sabia fazer-se canalha e rouca,
ou docemente lírica e sentimental,
ou tumultuosamente gritada para as fúrias santas do “Ça irá”,
ou apenas recitar meditativa, entoada, dos sonhos perdidos,
dos amores de uma noite que deixam uma memória gloriosa,
e dos que só deixam, anos seguidos, amargura e um vazio ao lado
nas noites desesperadas da carne saudosa que se não conforma
de não ter tido plenamente a carne que a traiu,
esta voz persiste graciosa e sinistra, depois da morte,
como exactamente a vida que os outros continuam vivendo
ante os olhos que se fazem garganta e palavras
para dizerem não do que sempre viram mas do que adivinham
nesta sombra que se estende luminosa por dentro
das multidões solitárias que teimam em resistir
como melodias valsando suburbanas
nas vielas do amor
e do mundo.

in Jorge de Sena, Obras Completas, Poesia 1, edição de Jorge Fazenda Loureirio, Babel, 2013.

 

A canção encontra no YouTube quem tiver curiosidade. No entanto, para mim, a melhor interpretação disponível encontra-se no Disque d’or saído em 2012 e que pode ser ouvido no Spotify.
Para quem leia francês fica a seguir a respectiva letra. Na Wikipédia encontram os leitores a longa história dos variados sucessos da canção.

La Foule

Je revois la ville en fête et en délire
Suffoquant sous le soleil et sous la joie
Et j’entends dans la musique les cris, les rires
Qui éclatent et rebondissent autour de moi
Et perdue parmi ces gens qui me bousculent
Étourdie, désemparée, je reste là
Quand soudain, je me retourne, il se recule,
Et la foule vient me jeter entre ses bras…

Emportés par la foule qui nous traîne
Nous entraîne
Écrasés l’un contre l’autre
Nous ne formons qu’un seul corps
Et le flot sans effort
Nous pousse, enchaînés l’un et l’autre
Et nous laisse tous deux
Épanouis, enivrés et heureux.

Entraînés par la foule qui s’élance
Et qui danse
Une folle farandole
Nos deux mains restent soudées
Et parfois soulevés
Nos deux corps enlacés s’envolent
Et retombent tous deux
Épanouis, enivrés et heureux…

Et la joie éclaboussée par son sourire
Me transperce et rejaillit au fond de moi
Mais soudain je pousse un cri parmi les rires
Quand la foule vient l’arracher d’entre mes bras…

Emportés par la foule qui nous traîne
Nous entraîne
Nous éloigne l’un de l’autre
Je lutte et je me débats
Mais le son de sa voix
S’étouffe dans les rires des autres
Et je crie de douleur, de fureur et de rage
Et je pleure…

Entraînée par la foule qui s’élance
Et qui danse
Une folle farandole
Je suis emportée au loin
Et je crispe mes poings,
Maudissant la foule qui me vole
L’homme qu’elle m’avait donné
Et que je n’ai jamais retrouvé…