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Um poema de Manuel Paço D’Arcos

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A poesia com Deus pelo caminho é hoje pouco apreciada. E, no entanto, a presença de um qualquer sentimento religioso é um universal, ainda que umas vezes difuso e outras intelectualmente rejeitado.

Num curioso e fascinante livro, A Criação do Sagrado, Walter Burkert argumenta sobre uma possível raiz biológica do sentimento religioso, sem base outra que o seu conhecimento dos mitos e da história das religiões, afirmando que: Poderemos continuar a conceber a religião, paralela à linguagem e à arte e, acima de tudo, em estreita simbiose com ambas, como um híbrido de grande longevidade entre as tradições culturais e biológicas.

Os surpreendentes estudos em neurociência identificando a simbiose biologica de emoções, sentimentos e cultura, que prosseguem, certamente nos darão noticia num futuro próximo do quão fundamentada pode ser a tese do Professor Burkert.

Não sei que caminhos levam à necessidade de Deus, ou à sua revelação, sendo certo que se trata sempre de um percurso que é matéria de fé, onde a razão está ausente e a alegria interior se procura. O que segue é que o sentimento de Deus tem dado lugar a muita poesia.
Hoje recupero de um esquecido Manuel Paço D’Arcos (????-????) o poema que a seguir transcrevo, o qual convida exactamente a esse caminho místico:

Esquece tudo que foi um engano profundo,
Um errado caminho.
Traz contigo somente os sonhos de criança
E vamos todos, numa turba imensa,
Com os olhos no Céu,
E na alma a esperança,

E o poema prossegue num caminhar para Deus depois de, a abrir, convidar o leitor a virar costas mundo em que vive:

Homem,
Larga a ruina fumegante do teu mundo

concluindo como o papel redentor da religião é o guia para Edificar a Cidade do Amor.

 

Eis o poema integral:

 

Homem,
Larga a ruina fumegante do teu mundo
E vem comigo para o meu País do Sul
Onde a terra é virgem e o céu é sempre azul.
Esquece tudo que foi um engano profundo,
Um errado caminho.
Traz contigo somente os sonhos de criança
E vamos todos, numa turba imensa,
Com os olhos no Céu,
E na alma a esperança,
Levando Deus em nós e na sua presença,
E só em seu louvor,
Edificar a Cidade do Amor,
No meu País do Sul,
Lá, onde a terra é virgem e o Céu é sempre azul!

Transcrito de Manuel Paço D’Arcos, A Ilha e o Mar, Edições Ática, Lisboa, 1952.

 

Notas iconografia e bibliográfica

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Anselm Kiefer (1945), Bohemia Lies by the Sea, de 1996, pertencente ao MET de Nova York.
O pintor foi buscar este título a um poema do mesmo nome da austríaca Ingeborg Bachmann (1926 – 1973), no qual esta reflecte sobre a necessidade de conhecer e ter o que não existe, traduzida no poema pela metáfora do território da Europa central, a Bohemia, existir à beira-mar.
A pintura dá-nos a ver esse caminho de gente e coisas para lado nenhum, talvez em busca do sonho, ou de qualquer desejo inominado.

O poema de Ingeborg Bachmann pode ser encontrado no original, Böhmen liegt am Meer, e em tradução inglesa, Bohemia Lies by the Sea, no livro Darkness Spoken, The Collected Poems, Zephir Press, 2006.

A Criação do Sagrado, Walter Burkett, Edições 70, Lisboa, 2001.

 

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Coisas da Terra — um poema de Irene Lisboa

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Estava há dias a ler a poesia de Adília Lopes (1960) e dei comigo a pensar quanto aqueles relatos da trivialidade dos dias e do existir são filhos directos da poesia de Irene Lisboa (1892-1958). Não evidentemente o afogueamento sexual que a certa altura atravessou a poesia de Adília Lopes, e lhe trouxe a notoriedade aureolada de escândalo, mas os tantas vezes comoventes incidentes da vida que acabam por determinar uma individualidade. Se outro dia irei à poesia de Adília Lopes, hoje transcrevo um poema de Irene Lisboa, Coisas da Terra, denso dessas implicações, em que as circunstâncias do existir ditam uma vida. Na economia da sua enunciação, lemos como a envolvente exterior determina quem afinal somos.

 

 

Coisas da Terra

A Engrácia e a mãe
chegaram numa tarde de domingo.
A Engrácia é minha sobrinha
e a mãe,
que eu ainda só vira duas vezes,
minha irmã.
Minha irmã…
uma pobre mulher,
uma simpática desconhecida
que vem ao hospital ver o marido.

Esta é minha gente.
Penso da mulher:
parecemo-nos.
Temos os mesmos olhos e boca,
o mesmo nascimento de cabelos.

Oito filhos teve já a minha irmã.
Uma filha que lhe morreu
levou o meu nome.
Este mistério que sou!
Filha de outro pai,
noutra terra criada,
lá vivida!

Dou pão com manteiga à Engrácia,
que não diz nada.
A mãe fala.
É o campo toda ela,
o seu cheiro até
e a sua resignação.
Conta coisas do António,
o meu sobrinho mais velho,
com o seu exame feito
e tão amigo de ler…
Mãe! coitada, penso.
Oiço-a,
esquecida do nosso parentesco.
As duas ali estão:
a criança vestidinha à cidade,
a mulher humilde e amável.
Tudo tão natural e pobre!

 

Assinado João Falco
Publicado pela primeira vez em Seara Nova, 1940.
Transcrito de Irene Lisboa, Folhas Soltas da Seara Nova (1929-1955), Antologia, prefácio e notas de Paula Mourão, INCM, Lisboa, 1986.

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Bela Kadar (1877-1955).

João Cabral de Melo Neto — A mulher e a casa

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Sentir a casa como mulher, descobri-la aos poucos, e desejá-la cada vez mais, é o originalíssimo feito de João Cabral de Melo Neto (1920-1999) no poema A mulher e a casa:

pelos espaços de dentro: / seus recintos, suas áreas,
organizando-se dentro / em corredores e salas,

os quais sugerindo ao homem / estâncias aconchegadas,
paredes bem revestidas / ou recessos bons de cavas,

exercem sobre esse homem / efeito igual ao que causas:
e vontade de corrê-la / por dentro, de visitá-la.

 

Talvez apenas uma paixão simultânea de engenheiro e poeta conduza a um poema assim, mas é de todos o simultâneo prazer de descoberta e aconchego, quando acontece o encontro com uma casa que se cola a nós como segunda pele, qual mulher a quem o amor nos entregou para sempre.

Ao longo da vida vivemos diferentemente as casas por onde passamos, tal como é diferente a vivência com cada uma das mulheres que encontrámos. De todas fica um sabor que nos acompanha, e fez de nós umas vezes seres gregários, outras vezes leves penas transportadas pelo vento.

 

A mulher e a casa

Tua sedução é menos
de mulher do que de casa:
pois vem de como é por dentro
ou por detrás da fachada.

Mesmo quando ela possui
tua plácida elegância,
esse teu reboco claro,
riso franco de varandas,

uma casa não é nunca
só para ser contemplada;
melhor: somente por dentro
é possível contemplá-la.

Seduz pelo que é dentro,
ou será, quando se abra:
pelo que pode ser dentro
de suas paredes fechadas;

pelo que dentro fizeram
com seus vazios, com o nada;
pelos espaços de dentro,
não pelo que dentro guarda;

pelos espaços de dentro:
seus recintos, suas áreas,
organizando-se dentro
em corredores e salas,

os quais sugerindo ao homem
estâncias aconchegadas,
paredes bem revestidas
ou recessos bons de cavas,

exercem sobre esse homem
efeito igual ao que causas:
e vontade de corrê-la
por dentro, de visitá-la.

 

Poema transcrito de A educação pela pedra e depois, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1997.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Geza Voros (1897-1957), Mulher num quarto com blusa de riscas.

 

O Sultão e a Cristã — Imitação de Victor Hugo por Henrique O’Neill

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Na poesia de Victor Hugo (1802-1885), o livro Les Orientales marca o aparecimento da sensualidade como assunto poético, para escândalo de alguns contemporâneos, como a história literária regista. Essa sensualidade, suposta em sociedades distantes e de algum modo misteriosas, tornou aceitável que sobre ela se escrevesse, tendo ganho enorme popularidade, e desencadeou a vaga orientalizante que até meados do século permeou a sociedade francesa, da pintura à moda, levando a sua influência ao resto da Europa.

 

A imitação do poema Sultan Achmet do livro Les Orientales por Henrique O’Neill (1823-1889) publicada em O Trovador no início dos anos 1850, e a seguir transcrita, é dela um exemplo.
A versão de O’Neill suaviza a sensualidade explícita do poema de Victor Hugo com a utilização de descrições ou vocábulos mais neutros que o original, p.ex: em vez de a abrir o poema como Victor Hugo escreve:

À Joana, a Granadina, / Sempre cantante e ladina, /

temos em O’Neill:

Nobre filha de Granada / Para ver um leve riso / Nessa face descorada /“;

ou então o termo debochado a meio do poema de Hugo, que desaparece na imitação de O’Neill, entre muitos outros exemplos.

Henrique O’Neill acrescenta ainda uma segunda sextilha, que o original não contém, para nos dizer que o sultão daria a vida para da bela apenas ouvir a voz; satisfazendo com esta declaração platónica o pudor de quem o lê.

 

Trata-se de um curioso exercício de assimilação e adaptação a um gosto puritano, de um poema transgressor, permitindo a sua leitura em português sem grande escândalo das boas consciências de leitoras e leitores da época.

 

 

O Sultão e a Cristã imitação de Victor Hugo por Henrique O’ Neill

— Nobre filha de Granada
Para ver um leve riso
Nessa face descorada
Dera meus paços doirados
E meus negros beduínos
Sobre camelos montados.

— Para tua voz ouvir
Com palavras de ternura
O que quiseras pedir
To dera, cristã gentil:
Dera a vida, a alma dera,
E mil céus, se fossem mil.

— Senhor, faze-te cristão,
Sou cristã, não posso ouvir
Juramentos dum sultão:
Se me queres por amante
Põe em vez da meia lua
Uma cruz nesse turbante.

— Anjo, demónio, mulher,
Muito mais do que me pedes
Aqui te juro fazer,
Se prometes de me dar
Os teus braços por cilícios
E por contas teu colar.

 

 

 

O Sultão Achmet 

poema de Victor Hugo em tradução de Manuela Parreira da Silva

À Joana, a Granadina,
Sempre cantante e ladina,
Disse o sultão com ardor:
— Eu daria sem favor
O meu reino por Medina,
Medina por teu amor.

— Faz-te cristão, rei sublime!
Pois não é bom que se afirme
O prazer ter encontrado
Nos braços de um debochado.
Não quero fazer um crime:
Já me basta um pecado.

— Com as pérolas cuja graça,
Minha rainha, realça
Do teu colo o branquear,
Eu farei por te agradar,
Se quiseres que eu faça
Rosário do teu colar

Outubro de 1828

 

 

 

Sultan Achmet original de Victor Hugo

À Juana la grenadine,
Qui toujours chante et badine,
Sultan Achmet dit un jour :
— Je donnerais sans retour
Mon royaume pour Médine,
Médine pour ton amour.

— Fais-toi chrétien, roi sublime !
Car il est illégitime,
Le plaisir qu’on a cherché
Aux bras d’un turc débauché.
J’aurais peur de faire un crime.
C’est bien assez du péché.

— Par ces perles dont la chaîne
Rehausse, ô ma souveraine,
Ton cou blanc comme le lait,
Je ferai ce qui te plaît,
Si tu veux bien que je prenne
Ton collier pour chapelet.

                  Octobre 1828

 

 

 

Notícia bibliográfica

O poema de Victor Hugo (1802-1885) é o poema XXIX do livro  Les Orientales, e pode ser encontrado em variadas edições de bolso.

A imitação do poema de Victor Hugo Sultan Achmet por Henrique O’Neill (1823-1889), O Sultão e a Cristã, foi publicada na revista O Trovador.

A tradução rimada do poema original por Manuela Parreira da Silva, foi transcrita de Victor Hugo, Poemas, Assírio & Alvim, Lisboa, 2002.

O assunto do poema de Victor Hugo ecoa um Ghazal de Hafez de Chiraz, o nº3. Leitores curiosos encontram a poesia de Hafez de Chiraz (séc. XIV), Le Divan, traduzida do persa e comentada em francês por Charles-Henri de Fouchécour, em Éditions Verdier, 2006.

Abre o artigo a imagem de um pormenor da pintura de Alexandre-Marie Cole (1798-1873), La belle orientale.

Um Estranho no Meu Túmulo — poema de Inês Dias

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Entre a avalanche de palavras à procura da poesia, às vezes fulge o poema capaz de entrar em nós e aí ficar colado pela verdade extrema da sua perfeição. Hoje refiro-me ao poema Um Estranho no Meu Túmulo de Inês Dias, que a seguir transcrevo. Nele, cada verso é um absoluto na verdade do sentimento que transmite, e o todo dá conta do complexo desencanto de uma paixão que viveu da sua possibilidade entrevista.

Começamos uma relação, e toda a expectativa da felicidade por vir nos acompanha. Às vezes “Chegámos tarde a nós.” como escreve a abrir o poema Inês Dias, e essa é a evidência à posteriori do progressivo desaparecer da felicidade esperada.

No poema acompanhamos o desencanto revelado nos sinais exteriores do viver comum. E em vez do circunstanciado desenvolvimento do que sucedeu, é a mestria poética de Inês Dias que constrói num curto poema o relato da desilusão deste viver.

 

Um estranho no meu túmulo

Chegámos tarde a nós.
Eu tinha a pele gasta, o coração no fio.
Tu eras um longo muro de cimento areado
em que deixava a carne inteira
a caminho do encontro.

A primavera ficava-nos sempre
à esquerda e tu cada vez mais
dentro de mim até não sentir nada,
até estares já do outro lado.
Para trás, a cova matinal na almofada,
o postal entre a leitura suspensa,
o número a chamar de um fantasma.

Se apagar as marcas de onde pousaste
a cabeça sobre a minha vida,
se ganhar novo espaço para o fôlego,
faz-me só um favor:
nunca mais me reconheças.

Transcrito de In Situ, Língua Morta, Abril de 2012.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Christian Schad (1894-1982), Auto-retrato de 1927. A pintura pertence a uma coleção privada.

David Mourão-Ferreira — Música de cama X

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A poesia sobre o amor, se é desabafo de desgosto, grito de dor, ou desespero de ausência, também é registo do instante que se faz eternidade no gozo supremo da sua felicidade, ou como escreve David Mourão-Ferreira (1927-1996):

… de nos teus olhos
tão perto dos meus
descobrir o modo
de beber o céu

A estas práticas do amor tem a humanidade entregado engenho e saber, recusando tantas vezes moralidades e interditos de questionável finalidade. E depois da experiência, ou paralela a ela, temos a arte e a poesia a levar-nos a imaginação pelos caminhos que o prazer desbrava.

Não é de hoje, mas de sempre, esse registo literário e artístico do prazer experimentado. Há uns anos, a propósito do acto de amor hoje descrito por  David Mourão-Ferreira, transcrevi num artigo, [A propósito de cavalo de Heitor com Ovídio e Apuleio] como na antiguidade a encontramos referida. Cavalo de Heitor lhe chamavam. Hoje um poema de David Mourão-Ferreira recorda as delícias de tal prática:

 

 X

Sobre mim cavalgas
cingindo-me os flancos
Colhes à passagem
a luz do instante

De dentes cerrados
ondulas   avanças
retesas os braços
comprimes as ancas

Depois para a frente
inclinas-te olhando
o que entre dois ventres
ocorre entretanto

e o próprio galope
em que vais lançada
Que lua te empolga
Que sol te embriaga

Lua e sol tu és
enquanto cavalgas
amazona e égua
de espora cravada

no centro do corpo
Centauresa alada
com os seios soltos
como feitos de água

Queria bebê-los
quando mais te dobras
Os cabelos   esses
sorvê-los agora

Mas de cada vez
que o rosto aproximas
já é outra a sede
que me queima a língua

A de nos teus olhos
tão perto dos meus
descobrir o modo
de beber o céu

in David Mourão-Ferreira, Música de Cama, antologia erótica com um livro inédito, Editorial Presença, Lisboa, 1994.

Abre o artigo a imagem de uma escultura de Étienne-Maurice Falconet (1716-91).

Representa Cúpido. Pede silêncio para não perturbarmos os amantes entregues ao sublime prazer de Eros.

 

A Adormecida — poema de Paul Valery

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A poesia, na miríade de cintilações que consegue provocar nas palavras, tem uma espécie de epítome na versão de Augusto de Campos do soneto de Paul Valery (1871-1945) La Dormeuse, A Adormecida em português. Pela palavra, nele lemos magia e encanto associados na contemplação da bela adormecida:


Tua forma ao ventre puro, que veste um fluido braço,
Vela. Tua forma vela, e meus olhos: abertos.

A adormecida

Que segredo incandesces no peito, minha amiga,
Alma por doce máscara aspirando a flor?
De que alimentos vãos teu cândido calor
Gera essa irradiação: mulher adormecida?

Sopro, sonhos, silêncio, invencível quebranto,
Tu triunfas, ó paz mais potente que um  pranto,
Quando de um pleno sono a onda grave e estendida
Conspira sobre o seio de tal inimiga.

Dorme, dourada soma: sombras e abandono,
De tais dons cumulou-se esse temível sono,
Corça languidamente longa além do laço,

Que embora a alma ausente, em luta nos desertos,
Tua forma ao ventre puro, que veste um fluido braço,
Vela. Tua forma vela, e meus olhos: abertos.

1920

Tradução de Augusto de Campos (1931).
Poema publicado em LINGUAVIAGEM, Editora Schwarcz, S. Paulo, 1987.

 

 

Poema original de Paul Valery (1871-1945)

 

La Dormeuse

Quels secrets dans mon coeur brûle ma jeune amie,
Âme par le doux masque aspirant une fleur?
De quels vains aliments sa naïve chaleur
Fait ce rayonnement d’une femme endormie?

Souffles, songes, silence, invincible accalmie,
Tu triomphes, ô paix plus puissante qu’un pleur,
Quand de ce plein sommeil l’onde grave et l’ampleur
Conspirent sur le sein d’une telle ennemie.

Dormeuse, amas doré d’ombres et d’abandons,
Ton repos redoutable est chargé de tels dons,
Ô biche avec langueur longue auprès d’une grappe,

Que malgré l’âme absente, occupée aux enfers,
Ta forme au ventre pur qu’un bras fluide drape,
Veille; ta forme veille, et mes yeux sont ouverts.

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura do pintor húngaro Pandy Lajos (1895-1957), Nu reclinado.

João de Deus e um poema “dadaísta”

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Circular pelo normal padronizado às vezes exige fugas. Fugas que a literatura permite e a imaginação propicia.
Esse desarticular literário da normalidade padrão teve no início do século XX uma expressão maior com o movimento Dadaísta a que outras vanguardas sucessivamente se foram juntando.
Esta subversão do aceite como norma que ganhou corpo de grupo e movimento transnational com os primeiros dadaístas, foi, no entanto, expressa de forma ocasional aqui e acolá através dos tempos, permitindo exprimir a criatividade que desde sempre os espíritos livres sentiram necessidade ou vontade de manifestar, usando a ductilidade da língua de forma inventiva e irreverente.
Exemplo populares são os trava-línguas tão ao gosto da infância. Outros, e expressivos, são os anfiguri, de que já trouxe ao blog uma amostra com a transcrição de um poema de Filinto Elísio (1734-1819). Hoje ocupo-me de um caso singular sem filiação tipológica, um poema de João de Deus (1830-1896), Versos Quaisquer (Pedidos com instância).
O poema procurou ser uma sátira à mania de pedir versos aos poetas, frequente nos séculos XVIII e XIX. Podemos lê-lo hoje como um poema dadaísta avant la lettre. Nele é apenas o gozo de alinhar palavras num discurso rimado e ritmado incoerente o que lemos. É na verdade um delicioso exercício literário de virtuosismo sobre as palavras e a língua, e faz reflectir sobre o sentido da lógica intrínseca a qualquer discurso escrito, por um lado, e por outro, no ritmo que a poesia introduz na linguagem escrita antes da sua intelecção.

Trata o poema de um personagem e de uma sua aventura, onde o significado global desaparece, pois as palavras que a descrevem são ou vazias de significado, ou sem relação causal entre si. Ei-lo:

 

Versos quaisquer
(Pedidos com instância)

Havia na Transilvânia,
Ao pé de casco de rolhas
Um rei chamado dencolhas,
Imperador da circania;
Tinha por ceptro a catânea
Com que cortava o presunto,
E não gostava de assunto
Que não fosse de manérea
Que aquela cabeça aérea
Se risse e sorrisse muito.

Pescava às vezes nos mares
Com anzóis de caparrosa,
E tinha sempre uma cousa
No pensamento elevádeo:
Era que o imenso rádio,
Que o Sol descreve nas márcheas
Exerce sobre as enxárcias
Influência tamanha,
Que só cabeça tacanha
Ainda põe em problêmea
Se acaso banhos de sêmea
Curam sezões na Alemanha.

Ele tinha o cabelo áureo
A modo de flor sulfúrea,
Cor um pouco, um tanto espúria
Mas de beleza nevrálgica.
E como na fronte mágica
Lhe brincava a estrela fausta,
Um dia uma dama causta
De encontros superfinórios
Pôs-se com tais avelórios
A cativar-lhe os dois lúzios,
Que foram como dois búzios
À busca de promontórios.

No cabo da Boa Esperança
Se acaso a esperança tem cábeo,
É que ele viu no astrolábio,
Sua coragem hercúlea;
Mas com a face cerúlea
Tinha não sei que fatídico
Na mesma cerúlea fácea,
Agarrado à Musa Engrácia
Partiu no vapor Magnífico.

Nunca mais voltou das plagas
A que aportou, como é histórico;
Mas um monumento dórico
Erguido à sua memória
Reza assim: Esta é a história
Daquele monarca búzio
Que depois de macambúzio
Longos anos, longas épocas,
Agora: Titire, recubas
Sub tegmine f… úzio.

in Campo de Flores, Sátiras.

 

Abre o artigo a imagem de uma das Montagens Dada de Erwin Blumenfeld (1897-1969). Nela podemos ver um rosto atribuído a uma Anna Blume, talvez a destinatária de um poema dadaísta de Kurt Schwitters (1887-1948) que já transcrevi no blog em tradução de Jorge de Sena. Lendo o desenho, podemos imaginar ao centro o poeta escrevendo o poema, e ao cimo à esquerda o rei da Transilvânia gozando a aventura que este lhe atribui. Os outros serão o mundo à volta, talvez, ou a opinião da crítica, quem sabe?.

1.000.000 de visitas ao blog

Foi ultrapassado o milhão de visitas ao blog, contagem do WordPress, neste dia 22 de Novembro de 2017.

Começado o blog num tempo de particulares circunstâncias pessoais, a vida mudou e foi-me mudando, disso dando conta nos seus altos e baixos os mais de 800 artigos escritos nestes sete anos e alguns meses de existência.

Num crescimento exponencial de audiência, de duas mil e tal visitas no primeiro ano de vida do blog, para mais de duzentas e cinquenta mil já este ano, estes números são bem a medida da expansão da internet na vida de cada um. Em 2010 eram em média sete ou oito visitas por dia, hoje são em média cerca de mil. Talvez o prazer maior deste crescimento seja a audiência escolar que o blog ganhou, chegando a milhares de jovens que voltam uma e outra vez. E se há todos os dias alguns leitores do mundo inteiro, na relação entre leitores brasileiros e portugueses tem vindo a aumentar o peso daqueles: são hoje cerca de três a quatro leitores do Brasil por cada leitor de Portugal. Isto faz-me pensar quanto a língua nos une, sendo eu português, sentindo-me como tal, e escrevendo no português de Portugal, como lhe chamam.

Muito escrevi, muito ficou para trás. Talvez parte do que queria escrever ainda aqui apareça. Na incógnita do futuro caminharemos: eu, o blog, e, espero, alguns leitores que, fiéis, de há anos me acompanham, acrescentados de outros que entretanto venham chegando. A multidão não me diz nada. É cada leitor em particular que prezo: no respeito pela sua inteligência, cultura, e gosto de ler. É sobretudo cada um deles que, por existir, me força a retomar este escrever, quando, sem vontade, ou falho de inspiração, tudo se conjuga para desistir. E volto, uma vez e outra, sempre com algo que pelo menos não me desagrade de todo, e talvez goste de reencontrar mais tarde, quando o esquecimento da memória o levar. Por isso, leitores, continuemos …


 So long as men can breathe, or eyes can see,
 So long lives this, and this gives life to thee.

(Shakespeare, soneto XVIII)