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No informe labirinto da poesia com Fernando Pessoa

Escrever poesia tem como pontos de partida e chegada uma utilização virtuosa da língua, facto que hoje ilustro com dois poemas de Fernando Pessoa (1888-1935) num fascinante exercício de criatividade poética.
Partindo de um verso com as mesmas palavras — Dormi. Sonhei. No informe labirinto — e — Dormi, sonhei. No informe labirinto — Pessoa constrói dois poemas de diferente análise emocional. Desde logo, na pontuação destes versos: num, a pausa do ponto final em Dormi. seguido de Sonhei., identificando duas realidades específicas: dormir e sonhar; no outro verso Dormi, sonhei. separados por vírgula, mostrando um sonhar dormindo. E isso mesmo revelam os segundos versos de cada poema:

 

Dormi. Sonhei. No informe labirinto
Que há entre a vida e a morte me perdi.

 

Dormi, sonhei. No informe labirinto
Que há entre o mundo e o nada me perdi.

 

 

Se no primeiro poema citado, de 7/7/1930, é para o tempo de uma vida que o poeta remete, sendo este o informe labirinto que a percorre, no segundo poema, sem data, é o impalpável do sonho e o seu desnorte que envolve o narrador, aspectos que surgem clarificado nos restantes versos das primeiras quadras de cada poema:

 

Dormi. Sonhei. No informe labirinto
Que há entre a vida e a morte me perdi.
E o que, na vaga viagem, eu senti
Com exacta memória não o sinto.

 

Dormi, sonhei. No informe labirinto
Que há entre o mundo e o nada me perdi.
Em bosques de mim mesmo me embebi,
Misto indeciso do que vejo e sinto.

 

 

O primeiro poema termina com a consciência do engano das palavras na possibilidade de ganhar com elas o conhecimento de si:


Se quero achar-me em mim dizendo-o, minto.

 

No segundo poema, um soneto, há uma leitura menos taxativa do eu, remetendo o desenrolar do poema para a sua complexidade.

E assim, pela criatividade poética, o símil de um verso se desdobra numa multiplicidade de sentidos.

 

Eis os poemas na totalidade:

*
Dormi. Sonhei. No informe labirinto
Que há entre a vida e a morte me perdi.
E o que, na vaga viagem, eu senti
Com exacta memória não o sinto.

Se quero achar-me em mim dizendo-o, minto.
A vasta teia, estive-a e não a vi.
Obscuramente me desconcebi.
7-7-1930

 

 

**
Dormi, sonhei. No informe labirinto
Que há entre o mundo e o nada me perdi.
Em bosques de mim mesmo me embebi,
Misto indeciso do que vejo e sinto.

Estagno incorpóreo. No infiel recinto
Leio o transtorno do que nunca li,
E o labirinto nunca está em si,
Nem há mundo no incerto e abstracto plinto.

Minha alma é um ser que a verdade engana,
Memória da partida dos navios
Na praia que de espuma se engalana.

Não voltaram dos longes os sombrios
Barcos, e o luar mole deixa ver
A praia com a espuma a escurecer.
s/d

 

Poemas transcritos de Fernando Pessoa, Novas Poesias Inéditas, Ática, Lisboa, 1973.

Abre o artigo a imagem de uma obra de Roy Liechtenstein (1923-1997).

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Um improviso sobre a saudade pela Marquesa de Alorna e o poema de Borges de Barros

Hoje transcrevo uma glosa sobre a saudade escrita pela Marquesa de Alorna (1750-1839), com pretexto num elegante poema de 1814, A flor saudade, da autoria de Domingos Borges de Barros (1780-1855), Visconde de Pedra Branca. São ambos daqueles poemas que os homens perderam o gosto de escrever e os leitores de ler. Encontrei-os num livro chamado Poesias oferecidas às Senhoras Brasileiras por um Bahiano, editado em Paris em 1825 da autoria do Visconde de Pedra Branca.

 

Medida de um tempo de convencionalismo no trato e elegantes gentilezas de sociedade, eles são por um lado o reflexo cultural de um viajado barão brasileiro, senhor de engenho, formado em Coimbra e alto funcionário da corte do imperador D. Pedro I, e por outro, a ilustração da poesia sensível da Marquesa de Alorna, temperada numa experiência de vida por vezes dolorosa. De caminho podemos medir a distância entre uma poesia graciosa e uma dolorosa meditação existencial pela poesia.

 

 

Improviso da Marqueza de Alorna sobre o poema A flor saudade, lançado quando da sua leitura num serão:

 

MOTE

Do Doutor Domingos Borges de Barros.

 

Tu és minha companheira,
Ó triste e animosa flor!
Se tens de saudade o nome
Da saudade eu tenho a dor.

 

 

Glosa

A Parca em seu fuso enrola
Os meus aflitos instantes,
Põe-me os prazeres distantes,
E a fatal tesoura amola.
Nem ao menos me consola
Memorar a vida inteira;
Como exalação ligeira
Tudo fugiu: que me resta?
Tu, meditação funesta.
Tu és minha companheira.

Contemplando a natureza,

Os astros, a terra, o céu,
Tudo, tudo esmoreceu,
Tudo amortece a tristeza.
Murchou do campo a beleza,
As boninas não têm cor
Só tu conservas vigor,
Saudade, que açouta o vento;
Símbolo do meu tormento,
Ó triste e mimosa flor.

Flor funesta! que não sentes

O que à vista significas,
Que hipocritamente explicas
O que insensível desmentes.
Não insultes descontentes
Que a dor aguda consome;
Teme que vingança tome
O céu desse atrevimento,
E que te desfolhe o vento,
Se tens de saudade o nome.

Nome que difere tanto

Da cruel realidade,
Como a sombra da verdade,
O céu dos sítios do pranto.
Se gemo, se a voz levanto,
Se inspiro aos mortais terror,
É que o meu sedento ardor
De Tântalo a sede excede;
Com meu mal algum se mede,
Da saudade eu tenho a dor.

 

 

Leia-se agora o poema/pretexto deste improviso:

 

 

A flor saudade

Tu és minha companheira,
Ó triste e animosa flor!
Se tens de saudade o nome
Da saudade eu tenho a dor.

Recebe este frio beijo,

Beijo de melancolia,
Tem de amor toda a doçura,
Mas não de amor a alegria.

Onde te pegou Marília?

Dize, onde um beijo te deu?
Mostra o lugar, nele quero,
Dar-te eu outro beijo meu.

Se Marília quer que exprimas

O que ela sente por mim,
Porque murchas? Não me lembres
Que amor também passa assim.

Marília em tudo te iguala,

Linda e delicada flor,
Mas infeliz se em seu peito,
Quanto duras, dure amor!

Tu venturosa cuidavas,

Quando o meu bem te colheu,
Que morreras em seu seio,
Qual morri outrora eu.

Longe d’haste, em que Favónio

Ia contigo brincar,
Em vez de orvalho te sentes,
Só de lágrimas banhar.

Flor infeliz!… Porém eu,

Quanto mais infeliz sou!…
Nada te disse Marília
Quando ela a mim te enviou?

Ah! Se tu saber puderas

Quanto amor, quanta ternura,
Se souberas das delícias
Julgaras da desventura.

Mas que digo! Não me creias,

Não me vás atraiçoar,
Saudade, é crime de amor
Seus mistérios divulgar.

Domingos Borges de Barros

Como também era de uso, o livro do Visconde de Pedra Branca recolhe poesias de outros. Entre esses, inclui uma colecção de poemas em que várias opiniões se cruzam sobre o que é amor, amizade, e casamento. Num outro poema, uma senhora agradece ao poeta ter interferido a favor dos direitos das mulheres. Em que circunstâncias e extensão não ficamos a saber.
O livro de Borges de Barros, fazendo uso das variadas formas poéticas de regra ao tempo, da ode ao epigrama, no seu conteúdo leve adequa-se ao que seria de bom tom uma senhora ler à época. Se algum pensamento mais atrevido surge, logo vem a desculpa de ter sido um sonho, coisa que nenhum humano pode impedir, como se sabe. O madrigal seguinte é disso retrato. Nele o poeta apenas sonhou beijar a jovem, e acariciá-la sob as vestes, o que o faz reclamar de ter acordado:

 

 

A um sonho, madrigal

Endeusado nos teus lábios
Néctar divino bebi,
Aos céus de amor em teus braços
Entre delícias subi.

Do níveo ninho das graças
Iludiu mão atrevida,
Do véu a avareza, dos olhos
Tirana, ao pejo querida.

E vivo!… Lília perdoa
Foi sonhando que o ousei;
Se a alma pode gozar tanto
Dormindo, porque acordei?

 

Escrito em New York em 1811.

 

 

Nota bibliográfica

 

O improviso da Marqueza de Alorna sobre o poema A flor saudade, lançado quando da sua leitura num serão, foi transcrito de Obras Poéticas de D. Leonor D’Almeida Portugal Lorena e Lencastre, Marqueza d’Alorna, conhecida entre os poetas portugueses pelo nome de Alcipe, Lisboa, Imprensa Nacional, 1844.

O Poema A flor saudade foi transcrito de Parnaso Lusitano vol 3 e confrontado com a versão do livro de Borges de Barros, Poesias oferecidas às Senhoras Brasileiras por um Bahiano. Esta edição encontra-se disponível on-line no site da Biblioteca Nacional de Lisboa (purl). Nela o poema vem incompleto, pois uma página que lhe corresponde (158) encontra-se em branco.
Entre as divergências nestas duas edições do poema, em Parnaso Lusitano vol 3 e Poesias oferecidas…, adoptei as soluções que me pareceram mais coerentes para a inteligência do poema, conhecida que é a proliferação de gralhas menores nestas edições antigas.

A separação num poema de Heinrich Heine e a paráfrase de Gonçalves Crespo

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Nem todos reagimos da mesma forma aos acontecimentos. A exteriorização dos sentimentos que nos assaltam é nuns matéria de reserva, noutros histriónica manifestação. No entanto, para algumas situações tipo há sempre reações que social e psicologicamente se esperam, permitindo aos outros medir a extensão do efeito em nós do que nos atinge, seja na alegria como no desgosto. Para um par apaixonado, forçado à separação, o visível desgosto, se não desespero, tristeza ou desolação, é o que se espera que mostrem.
É nessa expectativa, e no seu não acontecer, que o poema de Heinrich Heine (1797–1856) que escolhi, e a correspondente paráfrase por Gonçalves Crespo (1846-1883) se desenvolvem.
Na primeira quadra os poemas referem a expectativa comum numa separação de apaixonados indivíduos, na segunda quadra os poemas remetem para um tempo posterior à separação o aflorar da sua dor que a separação traz.

 

O poema de Heinrich Heine é o número XLIX de Lyrisches Intermezzo 1822–1823. A paráfrase de Gonçalves Crespo ao poema desenvolve e explícita o que o curto poema de Heine trazia implícito. No final acrescento uma minha transposição rimada do poema para português, tanto quanto possível fiel ao original, para permitir identificar os acréscimos introduzidos por Gonçalves Crespo na sua paráfrase.

 

 

Paráfrase de Gonçalves Crespo a um poema de Heinrich Heine

 

No momento do adeus sucede que os amantes
Se abraçam, a chorar, com vozes soluçantes.
Força é força partir; a mão prende-se à mão,
E uma infinda tristeza inunda o coração.

Para nós, meu amor, nessa hora de agonia
Não houve o padecer que as almas excrucia;
Foi grave o nosso adeus e frio, e só agora
É que a dor nos subjuga, e a angústia nos devora.

 

 

 

Poema original de Heinrich Heine

 

Wenn zwei voneinander scheiden,
So geben sie sich die Händ,
Und fangen an zu weinen,
Und seufzen ohne End.

Wir haben nicht geweinet,
Wir seufzten nicht weh und Ach!
Die Tränen und die Seufzer,
Die kamen hintennach.

 

Poema XLIX de Lyrisches Intermezzo 1822–1823.

 

 

Transposição rimada para português do poema de Heinrich Heine

Intermezzo lírico XLIX

Ao separar-se, as mãos
costumam dar-se os amantes
e desfazerem-se em prantos
e suspiros incessantes.

Mas entre nós não chorámos
nem ais nem queixas lançámos
só bem mais tarde chegaram
as lágrimas e o desgosto.

 

Transposição por Carlos Mendonça Lopes.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura do italiano Francesco Hayez (1791-1882), O Beijo de 1859.

 

Deste-me a beber, com a distância, a amargura — alguns poemas de Ibn Sahl de Sevilha

Sabereis do fogo da paixão por alguns poemas de Ibn Sahl de Sevilha (1212-1251), poeta judeu convertido ao islão no Al-Andaluz, e que hoje transponho para português.

Estes poemas tratam, aparentemente, de uma paixão alimentada na distância e sem correspondência. Dando conta da beleza e atrativo físico do ser amado, os poemas transmitem simultaneamente uma atmosfera febril de desejo e amargura onde a insónia se instala.

Do ser amado sabemos que:

*
Se a lua visse o seu rosto, prostrar-se-ia;
se o quarto crescente visse a sua face,
enrubesceria de vergonha.

 

Tamanha beleza incendeia os sentidos do nosso poeta, que o relata neste belo e conciso poema:

**
Esperava a concessão dos teus favores
deste-me a beber, com a distância, a amargura;
por Deus, acalma o ardente amor em meu peito
deixa-me beber tua saliva de mel.

 

Como a paixão não acalma, no seu fogo arde insone o poeta:

***
A doença da paixão de minha alma não tem outra cura
que beijar os lábios vermelho de tua bela boca.
Por Deus, pergunta pela minha sede aos teus dentes de pérolas,
e à tua fresca saliva de mel por meu fogo.
Que vai acontecer-me à alma, que por teu amor pereceu,
se não aceitas ouvir-me as queixas?
Cortaste-me as noites com a espada da insónia a tal ponto
que me converti pela mirada de teus olhos negros
num escravo ladrão.

 

A febre da paixão pode ter tomado proporções excessivas, a ponto de ser preciso ao poeta desculpar-se perante os outros:

****
Deixai de reprovar-me a paixão e desculpai-me,
emprestai-me vossas lágrimas se choro,
não censureis sua paixão a alguém como eu,
louco de amor. Sentísseis vós o que eu sinto,
mandar-me-íeis ignorar o sono:
pois eu, pela paixão, estou privado dele.
Vós conheceis o sono, mas meus olhos,
na amargura do tempo, não conhecem a união com o descanso.
Amigos, dizei-me a verdade,
que sabor tem o sono, que eu já o esqueci?

 

Antes que o poeta se consuma e acabe em cinzas, terminemos.
Estas paixões poéticas alheadas da vida de todos os dias, seus avatares e limitações, são alimento de alma sem consequência de maior, felizmente…

 

Versão portuguesa dos poemas por Carlos Mendonça Lopes.

 

Abre o artigo a imagem de uma miniatura persa de autor e época não identificados.

Fernando Pessoa no país dos sonhos

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Procurar o sonho na poesia de Fernando Pessoa(1888-1935) é uma viagem emocionalmente arriscada. Ele está lá, mas no deslaçado da existência no mundo da sua poesia, ele é o outro lado a que a vida não chega e do qual uma nostalgia às vezes sobrevive.

 

Ainda muito jovem, Fernando Pessoa na sua poesia desencantava-se da vida e do lugar onde a viver, em termos de pungente desolação:

 

 

Às vezes, em sonho triste
Nos meus desejos existe
Longinquamente um país
Onde ser feliz consiste
Apenas em ser feliz.

Vive-se como se nasce
Sem o querer nem saber.
Nessa ilusão de viver
O tempo morre e renasce
Sem que o sintamos correr.

O sentir e o desejar
São banidos dessa terra.
O amor não é amor
Nesse país por onde erra
Meu longínquo divagar.

Nem se sonha nem se vive:
É uma infância sem fim.
Parece que se revive
Tão suave é viver assim
Nesse impossível jardim.
21-11-1909

 

 

 

Mais de vinte anos passados, e porque o sonho, embora triste, existiu, o poeta escreve ainda, metaforicamente, a esperança de que sobre o negro do girassol da vida, o seu amarelo lhe dê o calor que a infância espera dela:

 

 

Guardo ainda, como um pasmo
Em que a infância sobrevive,
Metade do entusiasmo
Que tenho porque já tive.

Quase às vezes me envergonho
De crer tanto em que não creio.
É uma espécie de sonho
Com a realidade ao meio.

Girassol do falso agrado
Em torno do centro mudo
Fala, amarelo, pasmado
Do negro centro que é tudo.
18-4-1931

 

 

Adulto, e consciente de si, mesmo assim o sonhar não traz um sentido diferente à existência, conduzindo-a pelo caminho que vontade e desejo podem traçar:


Ver claro! Quantos, que fatais erramos,
Em ruas ou em estradas ou sob ramos,
Temos esta certeza e sempre e em tudo
Sonhamos e sonhamos e sonhamos.
 …

 

e ainda, no outro poema a seguir transcrito refere:


Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.

 

 

Eis os poemas citados:

 

 

*
Olhando o mar, sonho sem ter de quê.
Nada no mar, salvo o ser mar, se vê.
Mas de se nada ver quanto a alma sonha!
De que me servem a verdade e a fé?
 
Ver claro! Quantos, que fatais erramos,
Em ruas ou em estradas ou sob ramos,
Temos esta certeza e sempre e em tudo
Sonhamos e sonhamos e sonhamos.
 
As árvores longínquas da floresta
Parecem, por longínquas, estar em festa.
Quanto acontece porque se não vê!
Mas do que há ou não há o mesmo resta.
 
Se tive amores? Já não sei se os tive.
Quem ontem fui já hoje em mim não vive.
Bebe, que tudo é líquido e embriaga,
E a vida morre enquanto o ser revive.
 
Colhes rosas? Que colhes, se hão-de ser
Motivos coloridos de morrer?
Mas colhe rosas. Porque não colhê-las
Se te agrada e tudo é deixar de o haver?
20-1-1933

 

 

**
Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: «Fui eu?»
Deus sabe, porque o escreveu.
24-8-1930

 

 

 

O confronto entre o eu poético de Fernando Pessoa e o mundo é sempre desencantado, se não mesmo amargo, e sonhos de que o futuro traga dias melhores não existem:

 

Lá fora a vida estua e tem dinheiro.
Eu, aqui, nulo e afastado, fico
O perpétuo estrangeiro
Que nem de sonhar já sou rico.

 

Ou como refere noutro poema:


Dentro em breve (poucos anos
É quanto vive quem vive),
Eu, anseios e enganos,
Eu, quanto tive ou não tive,
Deixarei de ser visível
Na terra onde dá o Sol,

 

Estes são fragmentos de complexos poemas que transcrevo a seguir, interpeladores da existência, do estado do mundo, do papel do indivíduo nele, onde sonhos não têm lugar:

 

 

***
Se penso mais que um momento
Na vida que eis a passar,
Sou para o meu pensamento
Um cadáver a esperar.

Dentro em breve (poucos anos
É quanto vive quem vive),
Eu, anseios e enganos,
Eu, quanto tive ou não tive,
Deixarei de ser visível
Na terra onde dá o Sol,
E, ou desfeito e insensível,
Ou ébrio de outro arrebol,
Terei perdido, suponho,
O contacto quente e humano
Com a terra, com o sonho,
Com mês a mês e ano a ano.

Por mais que o Sol doire a face
Dos dias, o espaço mudo
Lembra-nos que isso é disfarce
E que é a noite que é tudo
1-5-1931

 

 

****
Lá fora a vida estua e tem dinheiro.
Eu, aqui, nulo e afastado, fico
O perpétuo estrangeiro
Que nem de sonhar já sou rico.

Não sou ninguém, o meu trabalho é nada
Neste enorme rolar da vida cheia,
Vivo uma vida que nem é regrada
Nem é destrambelhada e alheia.

E um século depois terá esquecido
Tudo quanto estuou e foi ruído
Nesta hora em que vivo. E os bisnetos
Dos opressores de hoje, desta louca luta
Saberão, mas vagamente, a data
— E claramente os meus sonetos.
2-9-1922

 

 

Em todos estes poemas pressente-se o desejo de uma vida que não se viveu, e o medo de a sonhar traz consigo a dura e desencantada consciência do seu vazio, algo que o poema com que termino eloquentemente enuncia:

 

*****
Deslembro incertamente. Meu passado
Não sei quem o viveu. Se eu mesmo fui,
Está confusamente deslembrado
E logo em mim enclausurado flui.
Não sei quem fui nem sou. Ignoro tudo.
Só há de meu o que me vê agora —
O campo verde, natural e mudo
Que um vento que não vejo vago aflora.
Sou tão parado em mim que nem o sinto.
Vejo, e onde [o] vale se ergue para a encosta
Vai meu olhar seguindo o meu instinto
Como quem olha a mesa que está posta.
13-9-1934

 

Poemas transcritos de Fernando Pessoa, Novas Poesias Inéditas, Edições Ática, 1973.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Magritte (1898-1967).

 

Pelo Natal com poemas de Miguel Torga

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Ao longo das páginas dos XVI volumes do Diário (1941-1993) tem Miguel Torga (1907-1995) espalhado um Cancioneiro de Natal. Não livro temático deliberado, mas poemas/apontamentos reflexivos e sentimentais sobre a data e o seu significado pessoal. Se em muitos poemas é a memória e o sentir próprio que se reflectem, noutros é a leitura social do significado da crença, o que encontramos.

Destes vinte e tal poemas explicitamente assinalados, e espalhados ao longo dos últimos cinquenta anos da vida do poeta (do Natal de 1940 ao Natal de 1991), transcrevo a seguir cinco. Se o consolo da fé não surge evocado, a esperança que a mitologia da data encerra nas suas múltiplas possibilidades, está sempre presente, à mistura com a amargura de que o mundo não seja o lugar de paz e harmonia que a cada nascimento se promete.

 

Loa

É nesta mesma lareira,
E aquecido ao mesmo lume,
Que confesso a minha inveja
De mortal
Sem remissão
Por esse dom natural,
Ou divina condição,
De renascer cada ano,
Nu, inocente e humano
Como a fé te imaginou,
Menino Jesus igual
Ao do Natal
Que passou.

S. Martinho da Anta, 24 de Dezembro de 1969.

 

 

Natal

Todos os anos, nesta data exacta,
Momentos antes
De fechar o cartório
De poeta
— Um registo civil ultra-real —,
O mago desse arquivo de presságios
Regista de antemão o mesmo nome
No seu livro de assentos:
— Jesus… — repete com melancolia,
A consumar a morte prematura
Do nascituro,
E a lamentar que a mãe, Virgem Maria,
Humana criatura,
Continue a ter filhos no futuro
Condenados à mesma desventura.

S. Martinho da Anta, 24 de Dezembro de 1973.

 

 

Natal

Soa a palavra nos sinos,
E que tropel nos sentidos,
Que vendaval de emoções!
Natal de quantos meninos
Em nudez foram paridos
Num presépio de ilusões.

Natal da fraternidade
Solenemente jurada
Num contraponto em surdina.
A imagem da humanidade
Terrenamente nevada
Dum halo de luz divina.

Natal do que prometeu,
Só bonito na lembrança.
Natal que aos poucos morreu
No coração da criança,
Porque a vida aconteceu
Sem nenhuma semelhança.

Coimbra, Natal de 1974.

 

 

Natal

Ninguém o viu nascer.
Mas todos acreditam
Que nasceu.
É um menino e é Deus.
Na Páscoa vai morrer, já homem,
Porque entretanto cresceu
E recebeu
A missão singular
De carregar a cruz da nossa redenção.
Agora, nos cueiros da imaginação,
Sorri apenas
A quem vem,
Enquanto a Mãe,
Também
Imaginada,
Com ele ao colo,
Se enternece
E enternece
Os corações,
Cúmplice do milagre, que acontece
Todos os anos e em todas as nações.

Coimbra, 25 de Dezembro de 1983.

 

 

Natal

Menino Jesus feliz
Que não cresceste
Nestes oitenta anos!
Que não tiveste
Os desenganos
Que eu tive
De ser homem,
E continuas criança
Nos meus versos
De saudade
Do presépio
Em que também nasci,
E onde me vejo sempre igual a ti.

Coimbra, 24 de Dezembro de 1988.

 

 

Poemas transcritos de Miguel Torga, Poesia Completa, 2 volumes, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2007.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Master Francke, presumivelmente de 1424. Mestre Francke foi pintor activo no norte da Alemanha nos primórdios do século XV, e de cuja vida e obra hoje pouco se sabe.

 

Dia de Outono — O poema de Rainer Maria Rilke

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Rainer Maria Rilke (1875-1926) dá-nos no poema Herbsttag, Dia de Outono, o pretexto para a reflexão sobre o caminho do crepúsculo, não o do ciclo das estações com a sua esperança de eterno retorno, mas o da vida, fazendo meditar no doce/amargo da plenitude vivida e da solidão do fim. Longa a vida, apenas o é quando surge o cansaço dela:

Senhor: é tempo. Foi muito grande o verão.
Nos relógios de sol estira as tuas sombras,
deixa que pelo prado os ventos vão.

E mesmo assim, ainda é tempo para o desejo de gozar dos frutos apetecidos:

Manda aos últimos frutos a espessura,
dá-lhes do sul ainda mais dois dias,
força a plenitude neles, vê se envias
ao vinho forte a última doçura.

Apenas a solidão dá pretexto ao desalento:

Quem não tem casa agora, já não constrói nenhuma,
quem agora está só, vai ficar só, sombrio,
perder o sono, ler, escrever cartas a fio,
e a um ir e vir inquieto nas áleas se acostuma,
vagueando enquanto as folhas lá vão num rodopio.

Transcrevo a seguir a admirável versão portuguesa do poema por Vasco Graça Moura que acima citei em fragmentos. Completo-a com duas outras versões: uma por Paulo Quintela, outra por Maria João Costa Pereira trazida da sua tradução de O Livro das Imagens, a que o poema pertence. No final incluo o poema original.

Dia de Outono

Senhor: é tempo. Foi muito grande o verão.
Nos relógios de sol estira as tuas sombras,
deixa que pelo prado os ventos vão.

Manda aos últimos frutos a espessura,
dá-lhes do sul ainda mais dois dias,
força a plenitude neles, vê se envias
ao vinho forte a última doçura.

Quem não tem casa agora, já não constrói nenhuma,
quem agora está só, vai ficar só, sombrio,
perder o sono, ler, escrever cartas a fio,
e a um ir e vir inquieto nas áleas se acostuma,
vagueando enquanto as folhas lá vão num rodopio.

Tradução de Vasco Graça Moura
in Rainer Maria Rilke, Elegias de Duíno, Os Sonetos a Orfeu, Bertrand Editora, Lisboa, 2007.

Dia de Outono

Senhor: é tempo. O Verão foi muito longo.
Lança a tua sombra sobre os relógios de sol
e solta os ventos sobre as campinas.
Manda que os últimos frutos se arredondem;
dá-lhes inda dois dias mais meridionais,
leva-os à perfeição e faze entrar
a última doçura no vinho pesado.

Quem agora não tem casa, já não vai construí-la.
Quem agora está só, longo tempo o será.
Fará vigílias, e lerá, escreverá longas cartas
e vagueará, de cá para lá, nas alamedas,
agitado, quando o vento arrasta as folhas.

Tradução de Paulo Quintela,
in Rainer Maria Rilke, Poemas, As Elegias de Duíno, Sonetos a Orfeu, Porto, 2001.

Dia de Outono

Senhor: é tempo. O Verão foi muito longo.
Lança a tua sombra sobre os relógios de sol
e solta os ventos sobre os campos.

Ordena aos últimos frutos que amadureçam;
dá-lhes ainda dois dias meridionais,
apressa-os para a plenitude e verte
a última doçura no vinho pesado.

Quem agora não tem casa, já não vai construí-la.
Quem agora está só, assim ficará por muito tempo,
velará, lerá, escreverá longas cartas
e vagueará inquieto pelas alamedas acima e abaixo,
quando caírem as folhas.

Tradução de Maria João Costa Pereira,
in Rainer Maria Rilke, O Livro das Imagens, Relógio d’Água, Lisboa, 2005.

Poema original

Herbsttag

Herr: es ist Zeit. Der Sommer war sehr gross.
Leg deinen Schatten auf die Sonnenuhren,
und auf den Fluren lass die Winde los.
 
Befiehl den letzten Früchten voll zu sein;
gib ihnen noch zwei südlichere Tage,
dränge sie zur Vollendung hin und jage
die letzte Süsse in den schweren Wein.
 
Wer jetzt kein Haus hat, baut sich keines mehr.
Wer jetzt allein ist, wird es lange bleiben,
wird wachen, lesen, lange Briefe schreiben
und wird in den Alleen hin und her
unruhig wandern, wenn die Blätter treiben.

Abre o artigo a imagem de uma minha pintura digital de 2004.
Carlos Mendonça Lopes

O que parte não volta ainda que regresse — poemas de José Emilio Pacheco

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Numa preciosa obra-prima, a novela As Batalhas no Deserto, o poeta mexicano José Emilio Pacheco (1939-2014) faz um exercício de memória dando conta de como nos anos 50 e mesmo inícios de 60 do século XX, se antecipava, por lá, e por cá, o ano 2000 e o século XXI:


Diziam os jornais: O mundo atravessa momento angustiante. O espectro da guerra final projecta-se no horizonte. O símbolo sombrio do nosso tempo é o cogumelo atómico. No entanto, havia esperança. Os nossos livros da escola afirmavam: Visto no mapa o México tem forma de cornucópia ou corno da abundância. Para o impensável ano 2000 augurava-se — sem especificar como íamos consegui-lo — um futuro de plenitude e bem-estar universais. Cidades limpas, sem injustiça, sem pobres, sem violência, sem engarrafamentos, sem lixo. Para cada família uma casa ultramoderna e aerodinâmica (palavras da época). Não faltaria nada a ninguém. As máquinas fariam todo o trabalho. Ruas repletas de árvores e fontes, cruzadas por veículos sem fumo nem barulho nem possibilidade de colisões. O paraíso na terra. A utopia por fim conquistada.

 

Sabemos hoje quanto esta fantasia se transformou na perplexa realidade que nos cerca um pouco por todo o mundo. Mudou o mundo, mudámos nós com ele. E de nós no mundo falam alguns dos poemas de José Emilio Pacheco  que a seguir ofereço em tradução minha.

 

 

O Amanhã

Aos vinte anos disseram-me: “Há
Que sacrificar-se pelo amanhã”.

E oferecemos a vida no altar
Do deus que nunca chega.

Gostaria de me encontrar já no final
Com os velhos mestres desse tempo.

Teriam que dizer-me se de verdade
Todo o horror de hoje era o amanhã.

 

Original publicado no livro Como la lluvia [2001-2008].

 

 

Houve a vida, e outros poemas em que o desacerto entre realidade e sonho ou promessa se debatem. Primeiro já com o século XX a terminar, a dúvida entre a realidade e a fidelidade da memória:

 

 

Memória

Não tomes muito a sério
O que te diz a memória.

Provavelmente essa tarde não existiu,
Talvez tudo tenha sido auto-engano.
A grande paixão só existiu no teu desejo.

Quem te diz que não são ficções o que te contas
Para alongar o adiamento do fim
E sugerir que tudo isto
Teve ao menos algum sentido.

 

Original publicado em La arena errante [1992-1998].

 

 

Depois o confronto entre o indivíduo que sonhámos ser, e o homem que na vida se fez, com aquele belíssimo verso que escolhi para título do artigo — O que parte não volta ainda que regresse. — admirável formulação de quanto o passar do tempo nos modifica:

 

Aquele outro

Hoje veio ver-me o que não fui:
Aquele outro
Já para sempre não existência pura,
Ardil verbal para fôra,
Forma atenuada de dizer não fui.

Agora o entendo:
Quem não fui triunfou,
A realidade não o manchou, não teve
Que adaptar-se à eterna sordidez.
Jamais capitulou ou vendeu a alma
Por uma onça de sobrevivência.

O que não fui foi-se como se nada.
Já nunca voltará, já é impossível.

O que parte não volta ainda que regresse.

 

Original publicado em La edad de las tinieblas [2009].

 

 

No intervalo deste tempo entre dúvidas de memória e certezas de vida, esteve sempre a frieza da morte que tudo ronda ou:


Quem sabe se interpreto mal:
É compaixão
O que mostram estas caras lívidas.

 

 

Embora pareça circunscrito a um povo, o poema Moralidades é de toda a humanidade: a morte dos outros obriga sempre a olharmos quem somos, seja na compunção, no sentir a tragédia, ou na indiferença:

 

 

Moralidades

O nosso povo pratica a moral
E faz de cada acto uma lição ética.

Aqui nunca enterramos os mortos.
Deixamo-los apodrecer na praça pública

Para que esta humilhação final
Nos obrigue a olharmo-nos como somos.

 

Original publicado no livro Como la lluvia [2001-2008].

 

 

Falar da morte é sempre falar de nós e das interrogações que nos assaltam. Termino esta curta viagem com esse enigma:

 

 

Morgue

Não faz calor neste anexo do inferno.

Os mortos regressaram à idade do gelo.

Talvez se os deixássemos aqui
Se tornassem imortais.

Horror a vida desde o iglô da morte.

Para isto nascemos?,
Perguntamo-nos
Ao profanar a morgue com nossos olhos
E ver
Um gesto de reprovação nos cadáveres.

Quem sabe se interpreto mal:
É compaixão
O que mostram estas caras lívidas.

 

Original publicado no livro Como la lluvia [2001-2008].

 

 

Originais lidos em Tarde o Temprano [Poemas 1958-2009], Tusquets Editores, Barcelona, 2010.
Tradução dos poemas por Carlos Mendonça Lopes.
Novela As Batalhas no Deserto, Oficina do livro, Cruz Quebrada —Dafundo, 2006.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma fotografia de Loretta Lux (1969), fotógrafa alemã nascida na antiga Alemanha de Leste. Como sabemos, país desaparecido, onde o paraíso na terra, ou algo próximo, chegou a ser declarado.

Uma mulher espera por mim — um poema de Walt Whitman

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Entre adesão e controvérsia, a poesia de Walt Whitman (1819-1892) continua hoje, cento e cinquenta anos passados, a trazer ao leitor o confronto entre o sentir e a biologia, no que a abrir o poema Uma mulher espera por mim, este regista, a saber, o papel fundamental do sexo na vida de todos nós:


O sexo contém tudo, corpos, almas,
Intenções, provas, pureza, delicadeza, resultados, promulgações,
Canções, ordens, saúde, orgulho, mistério da maternidade, o leite seminal
Todas as esperanças, benefícios, concessões, todas as paixões, amores, belezas, delícias da terra,
Todos os governos, juízes, deuses, os que para nós são como ídolos
Tudo isto está contido no sexo como partes e justificações dele mesmo.

 

O indivíduo de quem Walt Whitman fala na sua obra poética é um ser ideal, encarnação e portador de um modelo de humanidade futura. E se o homem é o objecto da sua reflexão, fazendo a defesa das relações homoeróticas como condição da masculinidade viril, no poema Uma mulher espera por mim, a mulher surge numa situação de igualdade desde que preencha condições de virilidade:


Agora afasto-me das mulheres insensíveis
Irei ficar com aquela que me espera, e com aquelas mulheres que são quentes e suficientes para mim,
Vejo que elas me compreendem e não me recusam,
Vejo que elas me merecem, serei o marido robusto dessas mulheres.

Nelas nada é inferior a mim
Têm o rosto bronzeado pelos sóis brilhantes e pelos ventos que sopram
A sua carne tem a antiga elasticidade e força divinas
Sabem nadar, remar, montar, lutar, atirar, correr, combater, recuar, avançar, resistir, defender-se
São irevogáveis quanto aos próprios direitos — são calmas, claras, em plena posse de si mesmas.

 

No tom proclamatório de toda a poesia de Walt Whitman, este Uma mulher espera por mim é o poema genesíaco que cria a humanidade nova:


Sobre vós, enxerto os enxertos do que há de mais querido em mim e na América,
As gotas que destilo sobre vós farão crescer raparigas impetuosas e atléticas, novos artistas, músicos e cantores,
As crianças que gero em vós hão-de gerar, por sua vez, crianças,
Dos meus dispêndios amorosos exigirei homens e mulheres perfeitos,
Esperarei que eles se interpenetrem noutros como eu e vós nos interpenetramos agora,

 

Numa América penetrada pela leitura da Bíblia, é interessante confrontar esta visão darwiniana do cruzamento dos mais fortes conduzindo a uma humanidade melhor, e verificar em que extensão o “acessório biológico” que é a mulher no poema de Walt Whitman se afasta da visão da mulher proclamada no Provérbio 31 do Livro dos Provérbios.
No final do artigo transcrevo uma sua versão literária da Vulgata, para confronto.

Folhas de Erva, livro que reúne a produção poética essencial do autor, foi inicialmente publicado em 1855, e teve sucessivas revisões e adições.
A secção Filhos de Adão onde o poema Uma mulher espera por mim se integra, foi acrescentada à obra na edição de 1856, juntamente com a secção Cálamo.

Este poema, Uma mulher espera por mim, foi pretexto para a 6.ªedição do livro, em 1881-82 ser acusada de obscenidade.

 

Uma mulher espera por mim

Uma mulher espera por mim, tem tudo, nada lhe falta,
Todavia, tudo faltaria se o sexo faltasse, ou se a seiva do homem certo faltasse,

O sexo contém tudo, corpos, almas,
Intenções, provas, pureza, delicadeza, resultados, promulgações,
Canções, ordens, saúde, orgulho, mistério da maternidade, o leite seminal
Todas as esperanças, benefícios, concessões, todas as paixões, amores, belezas, delícias da terra,
Todos os governos, juízes, deuses, os que para nós são como ídolos
Tudo isto está contido no sexo como partes e justificações dele mesmo.

Sem vergonha o homem de quem gosto sabe e reconhece delícia do seu sexo
Sem vergonha a mulher de quem gosto sabe e reconhece a sua.

Agora afasto-me das mulheres insensíveis
Irei ficar com aquela que me espera, e com aquelas mulheres que são quentes e suficientes para mim,
Vejo que elas me compreendem e não me recusam,
Vejo que elas me merecem, serei o marido robusto dessas mulheres.

Nelas nada é inferior a mim
Têm o rosto bronzeado pelos sóis brilhantes e pelos ventos que sopram
A sua carne tem a antiga elasticidade e força divinas
Sabem nadar, remar, montar, lutar, atirar, correr, combater, recuar, avançar, resistir,    defender-se
São irevogáveis quanto aos próprios direitos — são calmas, claras, em plena posse de si mesmas.

Atraio-vos para mim, vós, mulheres,
Não posso deixar-vos partir, quero fazer-vos bem,
Sou para vós, e vós sois para mim, não só por nós, mas pelos outros,
Envoltos em vós dormem os maiores heróis e bardos
Recusam despertar ao contacto de qualquer homem que não seja eu.

Sou eu, vós, mulheres, que abro o caminho
Sou severo, amargo, grande, inflexível, mas amo-vos,
Não vos faço sofrer mais do que necessitais
Derramo o fluido para criar filhos e filhas que sirvam estes Estados, forço com um     músculo lento e rude
Torno-me duro com eficácia, surdo a quaisquer súplicas,
Não me atrevo a retirar sem depositar o que durante longo tempo se acumulou dentro de mim.

Através de vós esgotam-se os meus reprimidos rios,
Em vós venho guardar milhares de anos futuros
Sobre vós, enxerto os enxertos do que há de mais querido em mim e na América,
As gotas que destilo sobre vós farão crescer raparigas impetuosas e atléticas, novos artistas, músicos e cantores,
As crianças que gero em vós hão-de gerar, por sua vez, crianças,
Dos meus dispêndios amorosos exigirei homens e mulheres perfeitos,
Esperarei que eles se interpenetrem noutros como eu e vós nos interpenetramos agora, Contarei com os frutos das suas exuberantes bátegas como conto com os frutos das minhas exuberantes bátegas agora derramadas.
Procurarei colheitas de amor a partir dos nascimentos, da vida, da morte, da imortalidade que com tanta ternura agora planto.

Tradução de Maria de Lourdes Guimarães
in Walt Whitman, Folhas de Erva, vol 1, Relógio d’Água, Lisboa, 2002.
O poema original encontra-se facilmente na internet.

 

Livro dos Provérbios
Provérbio 31
Versículos 10-31

Mulher exemplar não é fácil de encontrar;
ela vale muito mais que as jóias!
O seu marido confia inteiramente nela,
não lhe faltando com nada.
Ela só lhe dá satisfação e nunca desgostos,
todos os dias da sua vida.
Ela procura lã e linho
e trabalha de boa vontade com as suas mãos.
Tal como um navio mercante,
ela traz as suas provisões de muito longe.
Levanta-se antes de romper o dia,
prepara de comer para a família
e distribui as tarefas pelas suas criadas.
Examina um terreno e compra-o
e planta uma vinha com o produto do trabalho.
Põe-se ao trabalho com toda a energia;
os seus braços nunca estão parados.
Vigia bem os seus negócios;
durante a noite, a sua lâmpada mantém-se acesa.
As suas mãos trabalham com a roca de fiar
e os seus dedos, com o fuso.
Estende a mão segura aos infelizes
e é generosa para com os pobres.
Não receia a neve para os seus familiares,
porque todos eles trazem roupa suficiente.
Ela faz as suas próprias mantas
e os tecidos de linho e púrpura com que se veste.
O seu marido é conhecido e considerado na assembleia,
quando toma assento no conselho dos anciãos da terra.
Ela faz tecidos de linho fino para vender
e fornece cintos aos mercadores.
Reveste-se de força e dignidade
e sorri a pensar no futuro.
Fala sempre com sabedoria
e dá concelhos com bondade.
Vigia tudo o que se passa na sua casa
e não prova o pão da ociosidade.
Os seus filhos levantam-se para a felicitar
e o seu marido, para a elogiar:
“Muitas mulheres foram exemplares,
 mas tu és a melhor de todas.”
Encantos são enganos e beleza é ilusão,
mas uma mulher que respeita o SENHOR é digna de elogio.
Recompensem-na com o fruto das suas mãos
e louvem-na diante da assembleia pelo seu trabalho.

in a BÍBLIA para todos, edição literária, edição Temas e Debates e Circulo de Leitores, Lisboa, 2009.

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura, Auto-retrato, de Alice Neel (1900-1984), realizada em 1980. A pintura integra a colecção da National Portrait Gallery de Washington.
Confrontar vigor, beleza física ideal, e humanidade no tempo, é o propósito de associar esta imagem ao artigo.
O papel da arte é também o de nos levar a sensibilidade ao encontro do pensamento.

Ruy Belo — Orla marítima

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o tempo é a maré que leva e traz
o mar às praias onde eternamente somos

 

O eco de um verso de António Nobre [Ó suaves e frescas raparigas,](1) no início do poema Orla marítima de Ruy Belo (1933-1978) leva-me a abrir o artigo com a imagem de uma pintura de Claude Monet (1840-1926), evocativa de um tempo de harmonia e encanto que à uma atravessam tanto este poema como o soneto nº4 do livro de António Nobre (1867-1900).

 

Orla marítima conduz-nos por uma densa reflexão sobre a vida, o que deixámos para trás,  meditado … / ao sol dos solitários dias de dezembro / .
Repleto de belos versos, … / Ali fica o retrato destes dias / gestos e pensamentos tudo fixo / …, dando-nos conta de como … / Sabemos agora em que medida merecemos a vida.

Melhor que qualquer comentário, são as palavras do poeta para o dizer.

 

Orla marítima

O tempo das suaves raparigas
é junto ao mar ao longo da avenida
ao sol dos solitários dias de dezembro
Tudo ali pára como nas fotografias
É a tarde de agosto o rio a música o teu rosto
alegre e jovem hoje ainda quando tudo ia mudar
És tu surges de branco pela rua antigamente
noite iluminada noite de nuvens ó melhor mulher
(E nos alpes o cansado humanista canta alegremente)
«Mudança possui tudo»? Nada muda
nem sequer o cultor dos sistemáticos cuidados
levanta a dobra da tragédia nestas brancas horas
Deus anda à beira de água calça arregaçada
como um homem se deita como um homem se levanta
Somos crianças feitas para grandes férias
pássaros pedradas de calor
atiradas ao frio em redor
pássaros compêndios da vida
e morte resumida agasalhada em asas
Ali fica o retrato destes dias
gestos e pensamentos tudo fixo
Manhã dos outros não nossa manhã
pagão* solar de uma alegria calma
De terra vem a água e da água a alma
o tempo é a maré que leva e traz
o mar às praias onde eternamente somos
Sabemos agora em que medida merecemos a vida

 

* Tenho dúvidas que a palavra impressa na edição que possuo seja a correcta no contexto do poema. Inclino-me para que em vez de pagão a palavra correcta seja pregão e os versos seriam:
[Manhã dos outros não nossa manhã / pregão* solar de uma alegria calma].
Poema transcrito de Ruy Belo, Todos os Poemas, Assírio & Alvim, Lisboa, 2000.

 

 

(1) Para quem o não conheça, deixo o soneto nº4 do livro de António Nobre:

Soneto nº4
Ó virgens que passais, ao sol-poente,
Pelas estradas ermas, a cantar!
Eu quero ouvir uma canção ardente,
Que me transporte ao meu perdido Lar.

Cantai-me, nessa voz omnipotente,
O Sol que tomba, aureolando o Mar,
A fartura da seara reluzente,
O vinho, a Graça, a formosura, o luar!

Cantai! cantai as límpidas cantigas!
Das ruínas do meu Lar desaterrai
Todas aquelas ilusões antigas

Que eu vi morrer num sonho como um ai…
Ó suaves e frescas raparigas,
Adormecei-me nessa voz… Cantai!
Porto 1896

in António Nobre, Poesia Completa, Círculo de Leitores, 1987.

 

 

A imagem da pintura de Claude Monet que abre o artigo, Jardim em Sainte-Adresse, feita em 1867, num tempo em que a pincelada brusca que caracterizou a sua última pintura começava a surgir, pertence à colecção do Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque.