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Um milhão e meio de visitas ao blog

Ultrapassaram ontem o milhão e meio as visitas ao blog na contagem do WordPress.

Partindo da ideia feita de que a poesia não tem leitores, milhão e meio de visitas em menos de dez anos, a um blog votado à poesia sem propósitos de divulgação ou outros que não o prazer de escrever e partilhar um gosto ecléctico, que não conhece fronteiras ou tabus, é no mínimo motivo de espanto e sinalização.

Para a história da vida do blog, aqui fica um gráfico, e respectiva tabela, da evolução do número de visitas e visitantes ao longo destes 10 anos:

                   Gráfico do nº de visitas e visitantes desde o início do blog

                         Tabela do nº de visitas ao blog desde o seu início

Começado o blog em testes em Out/2009, a partir de Jan/2010, dei início à publicação de artigos com incerta regularidade. Hoje totalizam 950 os artigos publicados, este incluído.

Em média os visitantes do Brasil têm sido o dobro dos visitantes em Portugal, e os visitantes dos EUA são cerca de metade dos visitantes em Portugal. De muitos outros países chegam visitantes sem nunca atingirem números expressivos.

Estamos de parabéns todos: os poetas que produziram o mais importante que aqui se mostra, e os leitores que visitam, regressam e partilham o que no blog lhes agrada.

Por mim, obrigado por lerem, eu que escrevo para o leitor ideal, o meu eu-outro, que me conhece as intenções, decifra a escrita sub-liminar e detecta as intenções e ironias que cada artigo sempre contem. Daqui a alguns dias regresso com mais poesia.

Até lá…

Carlos Mendonça Lopes 

Notas iconográficas

A imagem inicial, icon festivo, foi realizada a partir de um original encontrado na net.

O gráfico e a tabela são os fornecidos pelo WordPress ao administrador do site.

 

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A Noite e Cançonetas Báquicas para a Mesa escritas por Bocage

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Regresso à ligeireza e despreocupação, com o mundo da poesia neo-clássica e o poema A Noite, cançoneta anacreontica, escrito por Bocage (1765-1805). 

Trata-se de um poema inserido na tradição anacreontica, embora de muito maior extensão que o habitual. Esta tradição respeita a uma poesia codificada, com assunto e forma perfeitamente delineados pela convenção, e inspirada na colecção de poesias anacreonticas gregas de autores desconhecidos, provavelmente do periodo helenístico, cantando a despreocupação e uma atitude edonista perante a vida, privilegiando os prazeres do amor e da boa mesa. A colecção foi por longo tempo atribuída a Anacreonte, daí o nome genérico do género. Em A Noite, Bocage foge a este quadro temático, dando antes conta de uma traição de amor e do seu efeito devastador, mantendo no entanto, o ambiente da natureza como cenário, e a população mitológica como protagonista. 

Com um desenvolvimento e vocabulário em desuso, comecemos por conhecer a história relatada no poema para contornar eventuais dificuldades de leitura.

Na natureza, passava da noite a metade e a tranquilidade instalava-se. O lobo dormia, a rã rouquejava, esvoaçavam insectos e o mocho piava. O vento suave (favónio) amainara, era a hora de saciar o amor. O sussurro do rio desfazia a tristeza da noite sombria.

Um namorado trocado, sózinho, aos penedos clamava dos seus desgostos. Alagado em suores frios e da vida desiludido, alto pedia o fim ao destino: De que me aproveita / Viver desta sorte? / A vida é aos tristes / Mais agra*, que a morte. 

E vem agora a história do porquê de tão grande desgosto: Feliza, depois de promessas de fidelidade, trocou o poeta (Elmano) por um Vaqueiro que agora a acaricia, a beija, e ela retribui, e mais: Cedendo aos assaltos / De impuras carícias, / Também lhe franqueias / Vedadas delícias! 

Percebemos com facilidade o que acontece e o poeta com as Vedadas delícias eufemisticamente refere.

No auge do desespero pede o enamorado aos céus que o vinguem, e desmaia. Os ecos destes clamores chegaram aos deuses e estes, condoídos, levaram-nos à morada do deus Amor. Encontraram-no que dormia risonho, no regresso de uma aventura em que causara a humanos, sofrimentos de amor. Afastados aguardavam e vigiavam: desdéns, esperanças, sorrisos, prantos e mordazes suspeitas (afinal a panóplia de sentimentos contraditórios que amor inspira). Esperam que o deus Cupido com os clamores de Elmano acorde, mas o deus não desperta. É então que esses ecos dos clamores do desdenhado amante:

 pasmados 

O corpo lhe abalam, 

E apenas o acordam,

D’esta arte lhe falam: 

 

— É crível, Menino, 

Que durmas em paz 

Ao som de um gemido, 

Que penhas desfaz?

 

— Deixai-me, importunos, 

(Lhes brada o Travesso) 

Que ao som de suspiros 

É que eu adormeço.

 

 

Temos, pois, como lição nesta história de desespero de amor (q.b.) que resumi, como Amor só sossega quando faz suspirar, e Bocage conta, com o encanto da poesia anacreontica, usando a elegância e mestria versificatória que são suas. 

Segue o poema em ortografia modernizada.

 

 

A Noite 

 

A deusa, que esmalta 

De estrelas o céu, 

Ja tinha dobrado 

Metade do véu; 

 

O fero Inimigo 

Da ovelha medrosa 

Jazia ululando 

Na serra fragosa: 

 

A rã rouquejava 

No túrbido lago, 

Carpia entre as moitas 

O mocho aziago: 

 

De alados insectos 

Nos ares vagava 

Caterva lustrosa, 

Que as sombras doirava:

 

Os lassos favónios 

Dormiam nas flores, 

Enquanto velavam

Famintos amores: 

 

Susurro aprazível, 

Que o Tejo fazia, 

Coarctava a tristeza 

Da noite sombria. 

 

Então, solitário, 

Seu mal, seus segredos 

O lânguido Elmano 

Contava aos penedos. 

 

De gélidas gotas 

O rosto orvalhado, 

De zelos mordido, 

Da vida enjoado, 

 

Destinos! (clamava) 

Que assim retardais 

O termo infalível, 

Que imploram meus ais. 

 

De que me aproveita 

Viver desta sorte? 

A vida é aos tristes 

Mais agra(*), que a morte. 

 

Feliza deixou-me, 

Fugiu-me a perjura, 

Depois de votar-me 

Perene ternura: 

 

Fugiu-me, deixou me 

Curtindo a ansiedade, 

Que geram, que nutrem 

Ciúme, e saudade: 

 

Entre estes dois males 

Meu peito se sente, 

Qual entre dois lobos 

Cordeiro inocente. 

 

Ah céus! Tu, minha alma 

Tu, idolo meu, 

Manchando teus olhos 

No torpe Silêu! *

 

A mão, que no peito 

Me abriu funda chaga, 

Nojoso vaqueiro 

Te beija, te afaga! 

 

C’os bracos macios, 

Apoio das graças, 

O colo rugoso 

Lhe amimas, lhe enlaças 

 

Consentes-lhe, ingrata, 

Que libe, que empeste 

Nos teus doces lábios 

O néctar celeste! 

 

Cedendo aos assaltos 

De impuras carícias, 

Também lhe franqueias 

Vedadas delícias! 

 

Ah! Vinguem-me, estorvem 

Seus júbilos ternos 

Com raios, com fúrias 

Os céus, e os infernos. 

 

Aqui os sentidos 

Nas asas de um ai 

Lhe escapam, lhe fogem, 

E o mísero cai. 

 

Nas grutas os ecos 

Ao grito espertaram, 

E, dele doídos, 

A Amor, o levaram. 

 

Voando ao fragrante 

Vergel de Cythera, 

Por ti frequentado, 

Louçã Primavera, 

 

Encontram Cupido, 

Que há pouco voltara 

De empresa brilhante, 

Que ufano acabara. 

 

Folgavam do numen 

As carne mimosas

Em mole alcatifa 

De goivos, e rosas; 

 

Dormia, e na ideia 

Morfeo Ihe pintava 

Sanguíneos triunfos, 

Que o mundo chorava; 

 

Não longe, em silêncio, 

Pousavam encantos, 

Desdens, esperanças, 

Sorrisos, e prantos; 

 

Mordazes suspeitas, 

Que o deus vigiavam, 

Raivando, em si mesmas: 

Os dentes cevavam; 

 

Do tronco de um mirto 

Pendia o luzente 

Carcaz, salpicado 

De sangue inda quente; 

 

Nas pontas ervadas 

Dos áureos arpões 

Ainda arquejavam

Fiéis corações. 

 

A gárrula turma 

Rodeia cupido, 

Repete, anelante, 

De Elmano o gemido. 

 

Eis fremem os ventos, 

Eis aves alerta, 

Convulsos os montes, 

E Amor não desperta. 

 

Os Ecos, pasmados 

O corpo lhe abalam, 

E apenas o acordam,

D’esta arte lhe falam: 

 

— É crível, Menino, 

Que durmas em paz 

Ao som de um gemido, 

Que penhas desfaz?

 

— Deixai-me, importunos, 

(Lhes brada o Travesso) 

Que ao som de suspiros 

É que eu adormeço.

 

*

agra — amarga

Silêu — por facínora (Cf. mitologia os trabalhos de Heracles exigidos por Onfala).

 

Porque a vida são dois dias, e traições de amor que as leve o vento, passemos a algumas Cançonetas Báquicas para a Mesa escritas também por Bocage. Fazem elas a associação entre o amor e o vinho:

Amor, oh Baco, 

Tem por costume 

Juntar seu lume 

Com teu ardor. 

 

Inocentes brincadeiras poéticas, agora sim no espírito padrão da poesia anacreontica amplamente cultivada pelos poetas neo-clássicos do século XVIII português, nestes poemas elogiam-se os prazeres de beber vinho, e de caminho elucidam-nos da vantagem da sua associação ao amor:

Ambos se adorem 

Com igualdade, 

Tenha a vontade 

Mais de um Senhor. 

   Baco triunfe,

   Triunfe Amor.

 

Este Ambos se adorem / Com igualdade, / Tenha a vontade / Mais de um Senhor. com que a terceira canção acaba, é o resumo da postura edonista que esta poesia advoga como essencial numa filosofia de vida.

Eis as canções:

 

 

I

 

Amor é fonte 

De riso, e graça, 

Porém não passa 

De um só sabor: 

   O doce Baco 

   Tempera Amor. 

 

 

II

Baco entre o coro 

Das lindas Graças 

Exaure as taças 

De almo elixir: 

   Dum deus o exemplo 

   Cumpre seguir. 

 

 

III

Descuida-se Jove 

Na olímpica mesa 

Da suma grandeza, 

Do eterno poder; 

 

Consente um sorriso 

Nos lábios, que molha, 

E humano se antolha 

No gesto, no ser; 

 

A monotonia 

Dos bens, em que impera,

O néctar lhe altera, 

Lhe faz esquecer: 

 

O néctar, que adoça 

Mortais azedumes, 

Até entre os numes 

Matiza o prazer. 

   Se Jupiter. bebe, 

   Não hei-de eu beber? 

 

De Baco opulento 

Compõe-se o tesoiro, 

De pérolas, de oiro, 

Topázio, rubi. 

 

Do néctar sentindo 

Nas fauces o travo,

Misérrimo escravo 

Desdenha o Sufi. 

 

Lustrosas quimeras 

Lhe vagam na mente, 

Do mundo é contente, 

Contente de si. 

 

Amigos, libemos 

O pico sagrado, 

Tão mal condenado 

Na seita de Ali. 

 

Teimosos cuidados, 

Caterva importuna, 

Visões da fortuna, 

Deixai-nos, fugi.

   O nosso universo 

   Não passa daqui. 

 

Em torno a Baco 

Sussurra, adeja, 

Ri-se, graceja, 

Cintila Amor. 

 

Ao deus Idálio*

Baco é preciso, 

Dobra-lhe o riso, 

Lhe acende a cor. 

 

Amor, oh Baco, 

Tem por costume 

Juntar seu lume 

Com teu ardor. 

 

Ambos se adorem 

Com igualdade, 

Tenha a vontade 

Mais de um Senhor. 

   Baco triunfe,

   Triunfe Amor.

 

* deus Idálio — deus do Amor. Idálio, cidade de Chipre onde se praticou o culto a Afrodite, deusa do amor, e mãe de Eros.

Poemas transcrito de Rimas de Manoel Maria Barbosa du Bocage, Tomo I, segunda edição corrigida e aumentada, na Officina de Simão Thaddeo Ferreira, Lisboa, 1800.

Modernizei a ortografia.

Carlos Mendonça Lopes

Abre o artigo a imagem do pormenor de uma pintura atribuída a Charles André van Loo (1705-1765), Mercúrio e Argus.

As madonas de Fra Filippo Lippi e sonetos de Diogo Bernardes

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Imagem em tudo rara e peregrina, / Retrato de beleza virginal, / Se tão bela te fez a mão mortal, /Que tal faria a própria mão divina? / …

A idealização da mãe de Jesus como modelo de beleza absoluta é uma das características-chave do culto Mariano entre católicos, e é da Virgem como essa imagem da beleza absoluta que no final do século XVI fala o poema de Diogo Bernardes (1530-1605), Soneto a Uma Imagem da Virgem, que citei a abrir à frente transcrevo integralmente.

No poema de Diogo Bernardes colhido entre a sua poesia religiosa, a enunciação dessa beleza representada: … / Se tanta luz uns cegos olhos tem, / Se tal espírito morta formosura, / …, como se leu, não se materializa nos seus atributos físicos, antes se refere a um difuso conceito de belo:

Mas serão sombras, onde a sombra é tal

Que a vista no conceito desatina.

 

Ficam os mais retratos sombra escura

Diante ti, …

A humanidade católica sempre sentiu a necessidade da representação visível desta beleza absoluta,  e durante séculos, muito do trabalho encomendado a pintores foram cenas da vida da Virgem Maria. A sua beleza ideal foi sendo captada e representada consoante os valores estéticos de cada época e os respectivos padrões da beleza feminina quando jovem.

Hoje, e para acompanhar o soneto de Diogo Bernardes, escolho algumas das imagens da Virgem pintadas por Fra Filippo Lippi (1406-1469), o mais requisitado pintor de imagens representando a Virgem Maria, na Florença da sua época, capital cultural do ocidente em pleno renascimento italiano. 

Espelho das ideias da época sobre os cânones de beleza humana colhidos na herança greco-latina, nessas pinturas encontramos plasmada a ideia platónica de que a beleza da alma se estampa na beleza física do rosto, num canon de suavidade de linhas e harmonia de proporção. E assim, estas pinturas simbolicamente representando Maria entregam à eternidade dos mais belos rostos femininos que a pintura antiga nos deixou.

Soneto a Uma Imagem da Virgem

 

Imagem em tudo rara e peregrina,

Retrato de beleza virginal,

Se tão bela te fez a mão mortal,

Que tal faria a própria mão divina?

 

Belezas nunca vistas imagina

Quem bem te vê no próprio original,

Mas serão sombras, onde a sombra é tal

Que a vista no conceito desatina.

 

Ficam os mais retratos sombra escura

Diante ti, tu menos ante quem

Tão branda representas, tão formosa.

 

Se tanta luz uns cegos olhos tem,

Se tal espírito morta formosura,

Qual sereis vós, oh Virgem piedosa?

 

O aspecto simbólico do retrato religioso passa hoje ao lado da maior parte dos apreciadores de pintura antiga. Retirados do contexto de ritual e devoção, enchem as galerias dos museus de arte antiga, oferecendo ao visitante o espectáculo do seu esplendor estético e mestria de factura, e com isso ganham uma outra vida, ensinando a quem olha e vê, o sublime que o belo pode conter. 

Não ocorrerá hoje a nenhum crente, perante uma pintura da virgem Maria numa sala de museu, dirigir-lhe uma oração de qualquer tipo, ainda que na sua origem, o propósito dessa pintura fosse exactamente o de desencadear no seu observador esse sentimento de contrição, como ainda hoje pode acontecer num local reservado ao culto, público ou privado, onde uma imagem equivalente se mostre. Com essa componente de devoção, em presença ou ausência de imagens alegóricas, transcrevo mais dois sonetos de Diogo Bernardes. 

 

Num primeiro poema, Soneto a Nossa Senhora,  pede-se um genérico perdão por pecados não explicitados:

Virgem cheia de graça, e de humildade,

Por cuja intersecção, por cujo meio

Perdão o pecador contrito alcança:

 

Posto que me vejais de culpas cheio,

Pondo olhos em mim com piedade,

Vereis que sempre em vós tive esperança.

No último soneto que transcrevo, é a intersecção da Virgem para que o liberte do cárcere o que o poeta solicita (Diogo Bernardes ficou preso em Marrocos quando de derrota portuguesa em Alcácer-Quibir, onde o rei D. Sebastião encontrou a morte), num quadro comum de devoção religiosa e seu socorro face às dificuldades, usando não a formulação trivial da oração mas o precioso da palavra poética:

Mereça-vos, Senhora, isto, que peço,

Um coração contrito, humilde, e pronto

A vos servir, podendo, com mil vidas.

 

Eis os poemas:

Soneto a Nossa Senhora

Formosa Virgem, que do sol vestida,

De estrelas coroada, ao sol puro

Tanto aprouveste neste vale escuro,

Que sua luz em vós trouxe escondida:

Virgem das Virgens, flor, fonte de vida,

Deste mundano mar porto seguro,

Rodeado jardim de forte muro,

Antes do mundo ser já escolhida.

Virgem cheia de graça, e de humildade,

Por cuja intersecção, por cujo meio

Perdão o pecador contrito alcança:

Posto que me vejais de culpas cheio,

Pondo olhos em mim com piedade,

Vereis que sempre em vós tive esperança.

 

 


Soneto a Nossa Senhora estando cativo

Oh do meu doce amor doce cuidado,

Oh defensora minha em paz, e em guerra,

Em cuja mão todo o poder se encerra,

Em cujo ventre andou Deus encerrado.

Abrí um dia já alvo, e dourado,

Em que deixando atrás est’alta serra,

Passando o bravo mar, abrace a terra,

Onde nele se crê crucificado.

Mereça-vos, Senhora, isto, que peço,

Um coração contrito, humilde, e pronto

A vos servir, podendo, com mil vidas.

Ou seja, se por mim o não mereço,

À conta das mercês que não têm conto,

Que tendes para todos merecidas.

Poemas transcritos de Diogo Bernardes, Várias Rimas ao Bom Jesus e à Virgem Gloriosa sua Mãe, e a Santos Particulares, edição de Marques Braga, Livraria Sá da Costa Editora, Lisboa, 1946.

Acompanham o artigo imagens com detalhes de pinturas de Fra Filippo Lippi.

Me lo decía mi abuelito — poema de José Agustín Goytisolo

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A humanidade não passa sem ar, sem água e sem dinheiro.

No nosso tempo, à medida que a busca pelo dinheiro não abranda, o ar respirável e a água que precisamos para viver estão a ficar cada vez mais escassos.

Se a ênfase de quem mais consciência tem da premência do problema é posta na necessidade de alteração nos padrões de consumo de cada um, há um modelo de crescimento económico baseado no aumento do consumo individual para o qual ter sempre mais dinheiro é indispensável, o que nos leva ao assunto do poema de José Agustín Goytisolo (1928-1999), Me lo decía mi abuelito, que no final transcrevo. 

Este consumo desenfreado, exponenciado pela barata produção industrial chinesa dos últimos anos, de baixa qualidade e curta vida, é fonte de poluição desmedida, e encaixou na perfeição no modelo de crescimento baseado no aumento constante do consumo das sociedades ocidentais que todo o mundo procura, levando ao enriquecimento efectivo de alguns na sociedade chinesa.

Acontece que ter mais dinheiro sem ar ou sem água de pouco servirá.

Recordo-me de, no início do século, numa conversa com um jovem à beira dos 18 anos, este tentar convencer-me da indispensabilidade para ele de ter um automóvel. Procurei convencê-lo a adiar o desejo do carro dizendo-lhe simbolicamente o óbvio à época, e que hoje, embora sem ainda lá termos chegado, é verdadeiramente trágico: o mundo não aguenta um carro por cada chinês ou dizendo de outra maneira, o mundo não aguenta mais poluição automóvel, a que todas as outras do consumo supérfluo se acrescentam.

A argumentação dele em parte era verdade: a organização da vida de todos os dias, ainda hoje, em Portugal, é função da posse de um automóvel, sem o qual atender em tempo compromissos diversos é inviável. Felizmente, no país onde agora vive, o carro é não só quotidianamente dispensável, como o seu uso dissuadido, e ele quando precisa, aluga um. Entre nós, eu que tomei a opção de viver sem carro próprio, vejo como todos os dias isso torna a vida difícil.

Esta divagação procura ilustrar onde reside grande parte do problema das alterações climáticas que nos atinge e assusta, ou seja: na organização social, e em nós.

A ambição de ter dinheiro para possuir o que gostaríamos, móbil generalizado do viver, é o assunto do poema Me lo decía mi abuelito, em tempos cantado por Paco Ibañez(1934), que prometi antes e a seguir transcrevo. Dá ele conta como essa ambição nos chega desde a mais tenra idade na educação em casa, estimulando o passar por cima dos outros a qualquer preço para o conseguir, e simultaneamente, como essa ideia inculcada pode ser contrariada e esquecida pela vontade individual. Exista ela.  

Escrito à época como acerba crítica ao egoísmo individual por oposição a um pensamento que incluísse os outros, nas condições precisas dos nossos dias ganha uma acutilância de actualidade para além da componente ideológica original.

 

[Me lo decía mi abuelito]

 

Me lo decía mi abuelito,

me lo decía mi papá,

me lo dijeron muchas veces

y lo olvidaba muchas más.

 

Trabaja niño no te pienses

que sin dinero vivirás.

Junta el esfuerzo y el ahorro

ábrete paso, ya verás,

como la vida te depara

buenos momentos. Te alzarás

sobre los pobres y mezquinos

que no han sabido descollar.

 Me lo decía mi abuelito

me lo decía mi papá

me lo dijeron muchas veces

y lo olvidaba muchas más.

 

La vida es lucha despiadada

nadie te ayuda, así, no más,

y si tú solo no adelantas,

te irán dejando, atrás, atrás.

¡Anda muchacho y dale duro!

La tierra toda, el sol y el mar,

son para aquellos que han sabido

sentarse sobre los demás.

Me lo decía mi abuelito

me lo decía mi papá

me lo dijeron muchas veces

y lo he olvidado siempre más.

 

 

Embora suponha que o original é inteligível para a generalidade dos leitores do blog, a seguir deixo uma minha tradução do poema, à qual falta claramente a musicalidade do original, e por isso não me satisfaz.

 

 

[Dizia-me o meu avôzinho]

 

Dizia-me o meu avôzinho,

dizia-me o meu papá,

disseram-me muitas vezes

e eu esquecia muitas mais.

 

Trabalha menino, tu não penses 

que sem dinheiro viverás.

Junta o esforço ao aforro

abre caminho, já verás

como na vida bons tempos 

alcançarás. Subirás sobre

pobres e mesquinhos

que ficaram para trás.

Dizia-me o meu avôzinho

dizia-me o meu papá,

disseram-me muitas vezes

e eu esquecia muitas mais.

 

A vida é luta cruel

ninguém te vai ajudar,

e se por ti não avanças

deixar-te-ão para trás.

Anda rapaz, dá-lhe duro!

A terra inteira, o sol e o mar

são para aqueles que souberam

sentar-se sobre os demais.

Dizia-me o meu avôzinho,

dizia-me o meu papá,

disseram-me muitas vezes

e eu esqueci sempre mais.

 

Tradução de Carlos Mendonça Lopes

Abre o artigo uma foto em Pequim numa das situações críticas de poluição atmosférica na cidade. A foto circulou na imprensa e não encontrei o nome do fotógrafo a quem a creditar.

Almeida Garrett – Vivamos livres, ou morramos homens

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Numa recolha de poesias para celebrar a derrota da Martinhada a 17 de Novembro de 1820, em sessão da Universidade de Coimbra a 21 e 22 do mesmo mês, encontro um veemente e empolgante poema de Almeida Garrett (1799-1854), então jovem estudante e já fogoso liberal. 

Panfleto de crítica política e social, ditado pelos acontecimentos da época, o poema é, lido hoje, uma vigorosa defesa da liberdade e dos direitos dos desfavorecidos, assumindo que os intelectuais também fisicamente lutarão em sua defesa, se preciso for, como foi o caso na Revolução Liberal, com Garrett e Herculano entre eles:

E veja o mundo com terror, e espanto

Em cada filho de Minerva um Marte.

Tremam, caiam perversos aristocratas.

 

Mudemos aristocratas por autocratas, e Isto que um jovem estudante proclamava há 200 anos, é de novo a luta travada hoje pelos jovens em Hong-Kong e a que, à distância, assistimos nas televisões, aspirando eles ao mesmo que o nosso poeta com os restantes liberais à época alcançaram:

… Jugo de ferro, que pesava outrora / Sobre nossas cabeças, já desfeito /A pedaços caiu; / …

 

Voltando ao poema, a sessão recolhe testemunhos poéticos de alguns estudantes na altura, entre eles António Feliciano de Castilho e o irmão Augusto Frederico Castilho. Chegada a vez de Garrett, eis o que tem a dizer o moço de vinte anos:

 

Ergo tardia voz, mas ergo-a livre

Ante vós, ante os céus, ante o universo;

Se os céus, se o mundo minha voz ouvirem.

 

E esta voz ergue-se para increpar poderosos e submissos à arbitrariedade do poder absoluto. 

Depois de invocar como no passado a poesia cantou os feitos Portugueses, continua:

Não posso tanto, não me atrevo, ó sócios;

Mas tenho um coração, que é Lusitano;

Mas tenho um coração, que é livre, e é d’homem.

Livres, como ele, minha voz, meu brado

O que a alma sente vos espalhe n’alma,

E o grito da razão troveje ao mundo.

Livres! … Ah! livre um Português foi sempre.

Sim: que essa infame sórdida caterva,

Esse rebanho vil de vis escravos,

Que ao ceptro da ignorância incensam curvos,

Esses … esses … ó Lusa academia,

Do nome Português vergonha, opróbrio.

Portugueses não são, jamais o foram.

 

Para que não restem dúvidas, enumera a quem se refere: todos os beneficiários do antigo regime absolutista:

Esses pérfidos monstros, que enfatuados

Das sociais distinções usurpam glória,

Julgam virtude o mérito da sorte,

Do feudalismo atroz cruéis sectários,

Aristocratas bárbaros, insanos,

Que em si pretendem concentrar direitos,

Que ao povo inteiro, que à nação pertencem,

Réus do crime maior, que a terra há visto,

Réus do crime maior, que o céu punira,

Réus do crime maior, que urdiu o inferno;

Estes, Lusos serão, ou serão homens?

E o nome Português, o nome augusto,

Ante quem se prostrou de rojo o mundo 

O nome Português cabe em tais monstros?

 

Refere a seguir como o rei se encontra cego por esta corte que vive à sua volta e impedido de ver o sofrimento do povo:

… 

[O nome Português]

Cabe nos monstros, que afumando ao trono

O torpe incenso de venal lisonja,

Abjectos, vis, aduladores, pérfidos,

Olhos no interesse, ao paternal soberano

Lhe impedem ver as públicas desgraças,

Gemer nos males de seu povo aflito?

 

O poema continua apelando directamente ao rei:

… / Oh rei! oh pai! oh suspirado! oh caro! / Ah! rompe duma vez da intriga as malhas; / … para já no final se congratular com a conquista da liberdade:

Oh flor da pátria! oh mimo de seus filhos!

Oh Lusitana, ilustre juventude!

Jugo de ferro, que pesava outrora

Sobre nossas cabeças, já desfeito

A pedaços caiu; e a mão soberba,

Que os insofridos lábios nos tapava,

Ao golpe audaz jazeu da liberdade.

 

A capacidade empolgante da palavra poética na língua portuguesa vive neste poema de forma ímpar:

Pode, mais do que a espada, a voz, e a pena;

Sejamos sempre heróis, e sempre livres;

Sejamos, como sempre, Portugueses;

Vivamos livres, ou morramos homens.

 

 

São história a sociedade e o tempo de que no poema se fala. Mas esta língua que é nossa, continua viva para nos fazer entender o mundo em redor, e também aquele mundo que conheceu quem antes de nós a usou e burilou, e com ela nos deixou conta das lutas e experiências da vida que lhe coube viver.

 

 

Eis o poema integral:

 

 

Ao Corpo Académico

 

Ergo tardia voz, mas ergo-a livre

Ante vós, ante os céus, ante o universo;

Se os céus, se o mundo minha voz ouvirem.

 

Inda a braços co’a esquálida doença,

Mal posso o brado alçar débil, e frouxo,

Subir aos cumes de estremada glória,

Heróis cantar, que a impulsos formidáveis

De pujante valor, de ardido esforço

Ao chão baquearam bárbaros colossos

Do despotismo atroz, da tirania,

Que a máscara perversa enganadora

Da hipocrisia vil do fanatismo

Com destra mão impávidos rasgaram;

Tão nobres feitos, tão sublime arrojo. 

Assaz dos vates resoou na lira

De sobejo entre vós cisnes do Pindo

Com louro eterno no porvir c’roaram;

Nos peitos vossos de sobejo, há muito

Em caracteres se gravou de fogo.

 

Não posso tanto, não me atrevo, ó sócios;

Mas tenho um coração, que é Lusitano;

Mas tenho um coração, que é livre, e é d’homem.

Livres, como ele, minha voz, meu brado

O que a alma sente vos espalhe n’alma,

E o grito da razão troveje ao mundo.

Livres! … Ah! livre um Português foi sempre.

Sim: que essa infame sórdida caterva,

Esse rebanho vil de vis escravos,

Que ao ceptro da ignorância incensam curvos,

Esses … esses … ó Lusa academia,

Do nome Português vergonha, opróbrio.

Portugueses não são, jamais o foram.

Esses pérfidos monstros, que enfatuados

Das sociais distinções usurpam glória,

Julgam virtude o mérito da sorte,

Do feudalismo atroz cruéis sectários,

Aristocratas bárbaros, insanos,

Que em si pretendem concentrar direitos,

Que ao povo inteiro, que à nação pertencem,

Réus do crime maior, que a terra há visto,

Réus do crime maior, que o céu punira,

Réus do crime maior, que urdiu o inferno;

Estes, Lusos serão, ou serão homens?

E o nome Português, o nome augusto,

Ante quem se prostrou de rojo o mundo 

O nome Português cabe em tais monstros?

Cabe nos monstros, que afumando ao trono

O torpe incenso de venal lisonja,

Abjectos, vis, aduladores, pérfidos,

Olhos no interesse, ao paternal soberano

Lhe impedem ver as públicas desgraças,

Gemer nos males de seu povo aflito?

 

Oh rei! oh pai! oh suspirado! oh caro!

Ah! rompe duma vez da intriga as malhas;

Denso negrume, que te ofusca o ceptro;

Com o ceptro punidor dissipa, e vinga.

JOÃO! . . . Quanto este nome é caro aos Lusos!

JOÃO! . . . Deslembra alguém tão sacro nome?

E cumpre à prepotência a nós lembrá-lo!

E cumpre ao orgulho suscitá-lo aos peitos!

A nós, a Portugueses, quais nós somos,

A filhos de Minerva!… A ofensa é crua,

Barbara a afronta, pérfido o conselho,

Indigna… Ah! perdoemos, sócios caros;

Generoso perdão se outorgue à infâmia:

Das dádivas do céu disponham Lusos.

 

Oh flor da pátria! oh mimo de seus filhos!

Oh Lusitana, ilustre juventude!

Jugo de ferro, que pesava outrora

Sobre nossas cabeças, já desfeito

A pedaços caiu; e a mão soberba,

Que os insofridos lábios nos tapava,

Ao golpe audaz jazeu da liberdade.

Anos de escravidão vingue um só dia;

Séculos ganhem fugitivas horas:

Em livres brados à virtude à gloria

O frouxo peito aos cidadãos movamos.

 

Pode, mais do que a espada, a voz, e a pena;

E, se a espada cumprir, cinja-se a espada;

E veja o mundo com terror, e espanto

Em cada filho de Minerva um Marte.

Tremam, caiam perversos aristocratas.

Sejamos sempre heróis, e sempre livres;

Sejamos, como sempre, Portugueses;

Vivamos livres, ou morramos homens.

 

João Baptista da Silva Leitão d’Almeida Garrett

 

in Collecção das Poesias recitadas na Salla dos Actos Grandes da Universidade de Coimbra nas noites do dia 21 e 22 de Novembro em pública demonstração de regosijo pelo feliz resultado do dia 17, 1820, COIMBRA. NA REAL IMPRENSA DA UNIVERSIDADE, 1821.

Modernizei a ortografia do poema.

Abre o artigo a imagem de uma foto de Anthony Kwan mostrando uma das recentes manifestações em Hong-Kong.

Vozes femininas na poesia japonesa do século XX

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Yoshino Yoshiko (1915)

*

Como quem remenda

peúgas, remendo a mente

e prossigo a vida.

A partir das versões de Haiku japoneses recriados em português por Luísa Freire (ver nota bibliográfica), escolho alguns poemas onde para além do tempo e lugar, uma infinita melancolia passa, e é apenas sentida porque se é humano e as circunstâncias da vida a desencadeiam. São poemas escritos na primeira metade do século XX, e por detrás deles vive a conturbada história do Japão nesse meio século.

Na conhecida multiplicidade de leituras que cada poema permite, lemos quase sempre o contraste entre as vicissitudes do eu e a indiferente vida da natureza, ou então as disposições do espírito sublinhadas por aspectos do mundo natural.

Não têm qualquer ligação com as pessoas das poetisas, as imagens que acompanham os poemas. Representam jovens que, sem dificuldade, podemos associar à vivência das emoções  que os poemas destilam.

Takeshita Shizunojo (1887-1951)

 

*

Meu marido partiu — 

flocos de neve e céu azul

nesta Primavera.

 

*

Cheirando a suor,

aquele povo sem voz —

vou juntar-me a eles.

Hashimoto Takako (1899-1966) 

 

*

O forte nevão —

morro, sem ter descoberto

outras mãos que as do marido.

 

*

Uma lua

e um lago gelado

reflectem-se um ao outro.

 

*

Num dia de neve,

meu corpo no banho — amo tudo,

da cabeça aos pés.

Mitsuhashi Takajo (1899-1972)

 

*

Folhas a cair,

Folhas e folhas caindo

também na minha cama.

 

*

Ali o balão

insuflado de tristeza,

subindo no ar.

 

*

Suas vidas duram

só enquanto estão a arder — 

mulher e pimenta.

 

*

Pelo gelo fino

minha sombra a deslizar

até que mergulha.

Katsura Nobuko (1914)

 

*

Noite de Natal —

desde quando esta tristeza

por estar casada?

 

*

Dois seios entre os ombros

e esta melancolia —

a chuva sem fim.

 

*

Neve na janela —

um corpo faz a água quente

vazar da banheira.

Inahata Teiko (1931)

 

*

Como se a felicidade

esperasse o novo ano

pelo calendário!

 

*

Murmúrio das ondas

a que os narcisos do campo

não dão atenção.

Uda Kiyoko (1935)

 

*

Aperto nos braços

a alma, os seios e tudo o mais

ao chegar Outono.

 

Nota bibliográfica

in O Japão no Feminino II, Haiku, séculos XVII a XX, Assírio & Alvim, Lisboa, 2007.

Organização e versão portuguesa de Luísa Freire, recriadas a partir da versão em inglês de Makoko Ueda, Haiku by Japanese Women: Far Beyond the Field, Columbia University Press, 2003].

Acompanham os poemas imagens de detalhes de gravurs japonesas do século XX conhecida como shin-hanga, de dois dos seus artistas mais representativos, Goyō Hashiguchi (1880-1921), o iniciador do movimento de revivalismo da ukiyo-e do período Edo, e Torii Kotongo (1900-1976), mostrando belas mulheres (bijinga).

A mestria técnica na capacidade de fazer o desenho transmitir emoção, aliada à expressividade que se desprende do rosto e atitudes destas belas mulheres, fazem destas gravuras obras-primas do retrato.

Definições do Amor em alguns poemas setecentistas

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É Amor, ó mortais, um pensamento / Que se cria nos braços da incerteza, / …

(José Daniel)

 

Sentir e viver o amor é e terá sido atributo do género humano, mas a manifestação cultural da sua vivência é espelho das condicionantes culturais de cada tempo e lugar. Atenho-me à poesia, e em partícula ao soneto no rigor da sua forma, e trago quatro sonetos do século XVIII português sobre como definir o amor. São eles espelho da convencionalidade da época, embora todos se façam eco da perplexidade e ambivalência sentimental que o amor gera e é independente do quadro cultural em que é vivido.

Abro com um poema do início do século por João Cardoso da Costa (n. 1693) onde os ecos camonianos ainda se fazem sentir, na doçura da linguagem que amor inspira e na conflitualidade de sentimentos que desencadeia e … traz entre o pesar contentamento:

          Definição do amor

 

SONETO XXV

 

Um não sei quê de glória, e de tormento,

Um és, não és, de gosto, e de alegria,

Uma paixão, que engana a fantasia,

Me traz entre o pesar contentamento.

 

Uma aflição cruel entre o lamento,

Uma doudice em um, e outro dia,

Uma doce esperança em que se fia,

Me dá conforto ao bem no pensamento.

 

Um tal desassossego, que me rende

Uma valente dor, que me não cansa,

É a que mais me mata, e não me ofende.

 

Isto é amor, que posto em fiel balança,

Se a cousa amada com mais fé se atende,

Nunca se sabe o fim a uma esperança.

 

in João Cardoso da Costa (n. 1693) – Musa pueril, Lisboa, na oficina de Manuel Rodrigues, 1736.

 

 

Agora dois Sonetos de um Anónimo autor recolhidos na colectânea poética A Fenix Renascida

Dá-nos o poeta conta em mais uma Definição, o que é amor, e também do seu reverso, numa linguagem de ressonância barroca. 

Na Definição do amor mostra as contradições em que o apaixonado se vê envolvido:

É um querer ser livre e estar atado,

É um viver alegre e enfadado,

É por fim um não sei quê, que não entendo.

 

Depois de manifestar este desentendimento, o nosso poeta proclama no poema Negação do amor:

Quem cuida haver amor vive enganado,

Traidor ao coração que se lhe entrega.

Fuji, homens, fuji deste aleivoso,

 

 

Entrego-o, leitor, à fruição destes conselhos nos poemas completos:

 

 

   Definição do Amor

 

                 SONETO

 

É um nada amor que pode tudo,

É um não se entender o avisado, 

É um querer ser livre e estar atado,

É um julgar o parvo por sisudo.

 

É um parar os golpes sem escudo,

É um cuidar que é e estar trocado,

É um viver alegre e enfadado, 

É não poder falar e não ser mudo.

 

É um engano claro e mui escuro 

É um não enxergar e estar vendo 

É um julgar por brando ao mais duro.

 

É um não querer dizer e estar dizendo.

É um no mor perigo estar seguro 

É por fim um não sei quê, que não entendo.

 

Anónimo

in A Fenix Renascida ou Obras Poéticas dos melhores engenhos portugueses, IV Tomo, Lisboa, 1746.

 

 

  Negação do amor 

 

                 SONETO

 

Quem cuida haver amor vive enganado,

Engana-se quem tem tal pensamento,

São cuidados de amor torres de vento,

Que em fim o vento leva este cuidado.

 

Fundei-me no amor fiquei frustrado,

Que em tudo falso é o seu fundamento,

Não há no mundo amor que tenha assento,

E todo o bem da terra é bem sonhado.

 

É cego para o bem, como bem o cega,

E para o mal, fútil e cauteloso, 

Traidor ao coração que se lhe entrega.

 

Fuji, homens, fuji deste aleivoso,

Que trata com rigor quem se lhe chega,

Fugi, que quem mais foge é venturoso.

 

Anónimo

in A Fenix Renascida ou Obras Poéticas dos melhores engenhos portugueses, IV Tomo, Lisboa, 1746.

 

Termino com um soneto escrito no final do século XVIII dando conta de como à época também se via o amor em mais uma sua definição, agora do prolífico José Daniel Rodrigues da Costa (1757-1832)

Soneto já de filiação pré-romântica, encontramos nele as primícias do que virá a ser o amor sofrido dos românticos:

É mal que o mundo tem contaminado, 

Só o julga por bem quem o pretende, 

Enquanto se não chama desgraçado…

e a explicitação da sua natureza labiríntica, que desde que o mundo é mundo põe numa roda-viva os humanos:

É amor finalmente em todo o estado 

Labirinto, no qual ninguém se entende.

 

 

  Definição do Amor

 

    SONETO

 

É Amor, ó mortais, um pensamento

Que se cria nos braços da incerteza, 

É cadeia que traz a vida presa…

Fabricada nas mãos do fingimento…

 

É dos olhos pestífero alimento,

É golpe que não pode ter defesa, 

Tardio desengano d’alta empresa, 

Edifício com pouco fundamento.

 

É mal que o mundo tem contaminado, 

Só o julga por bem quem o pretende, 

Enquanto se não chama desgraçado…

 

E porque o mesmo mundo o não compreende, 

É amor finalmente em todo o estado 

Labirinto, no qual ninguém se entende.

 

in Rimas de José Daniel Rodrigues da Costa, Oficina de Simão Tadeu Ferreira, Lisboa, 1795.

 

 

São estes poemas tão só amostras das variadas leituras que o universal sentimento amoroso desencadeia na fase de o descrer. Gotas nesse vasto mundo da criação poética que o amor provoca e os jovens leitores do blog constantemente dão notícia.

 

 

Apêndice 

Conhecem os amantes de ópera, como em O Barbeiro de Sevilha de Rossini (1792-1868), baseada na peça homónima de Beaumarchais (1732-1799), a criada Berta também nos transmite esta perplexidade, tão ao gosto do século XVIII, em parte da sua ária Il vecchiotto cerca moglie:

Ma che cosa è questo amore

che fa tutti delirar?

Egli è un male universale,

una smania, un pizzicore …

un solletico, un tormento …

Poverina, anch’io lo sento,

né so come finirà.

 

Tradução:

Mas que coisa é este amor

que faz todos delirar?

Ele é um mal universal,

uma mania, um formigueiro …

umas cócegas, um tormento …

Pobrezinha, também eu o sinto,

nem sei como acabará.

Carlos Mendonça Lopes

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Antoine Watteau (1684-1721), O embarque para Cítera, de 1717. A obra pertence à colecção do museu do Louvre.

Prontos para o amor, os mais variado casais aprestam-se para embarcar nas suas delícias, ou como metaforicamente o título da pintura refere, embarcar para Cítera, ou seja, para a ilha onde o culto a Afrodite, deusa do amor, se pratica.

O medo e um poema de Ostap Slyvynsky

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O medo, essa presença ocasional, ou nem tanto, que nos tolhe a acção, ou desenvolve a coragem ao vencê-lo, é o tema num poema de Ostap Slyvynsky (1978), ucraniano de quem pouca poesia conheço. 

Evocando um amuleto de infância, uma fisga ou funda, acessório precioso para vencer o medo infantil ao atravessar a floresta, é o adulto, que possuído de outros medos a recorda, no desejo de com ela os vencer de novo.

Quanto destes medos não conhecemos, adultos, e tão bom seria esconjurá-los com um amuleto de infância.

 

 

A fisga (*)

 

Algo escuro, um pouco maior

que a mão de uma criança. Parece

uma moldura para a vida mesquinha de alguém.

Olho-a por algum tempo

e então percebo que já sei o que é —

uma fisga!  Uma fisga de castanheiro, 

a única coisa que meu pai me fez, 

pois eu tinha medo de andar pela floresta à noite.

A minha primeira e única arma 

que por meses aqueci no meu bolso suado.

— Agora, disse,

Trá-la contigo enquanto estiveres com medo.

E mesmo quando já não tiveres, não a jogues fora,

guarda-a num lugar seguro.

Diz-me, funda, apareceste por

me reconhecer?  Sentiste que tivemos 

um passado comum?  Cheiraste-me como um cão abandonado

que se arrasta atrás de alguém, treinado para proteger?

Sim funda, tenho medo outra vez.

 

Tradução de Carlos Mendonça Lopes a partir da versão inglesa do poema por Anatoly Kudryavitsky.

 

 

The sling (versão do poema em inglês)

 

Something dark, slightly bigger 

that a child’s hand. Resembles 

a frame for somebody’s petty life. 

I examine it for quite some time, 

but then realize that I already know what it is — 

a sling! A chestnut sling, the only thing my father 

made for me, as I was afraid 

to walk through the forest at night.

My first and only weapon 

that I was warming four months in my sweaty pocket.

“Here” my father said 

“Carry it while you’re still afraid.

And even when you are not, don’t throw it away, 

hide it somewhere safe.” 

Tell me, sling, did you turn up because you 

recognized me? Felt that we had had a common 

past? Sniffed me out like an abandoned dog 

that drags behind you, trained to protect? 

Yes sling, I’m scared again.

 

in The Frontier, 28 contemporary ukrainian poets, edited and translated from the Ukrainian by Anatoly Kudryavitsky, Glagoslav Publications, London. 2017.

(*) Fisga — Arma primitiva, construída com forquilha de madeira ou de metal, munida de tiras elásticas, com que se atiram pequenas pedras, ou outros pequenos projéteis. É conhecido também por diversos outros nomes no Brasil, entre eles baladeira, baleeira, beca, badogue ou badoque, bodoque, funda, peteca, seta, setra; (dos dicionários).

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Pierre Soulages (1919), Pintura, de 1951.

 

Seios — um poema de Charles Simic

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Eu amo seios, duros / Seios cheios, coroados /  Por um botão. / …

Assim começa o poema Seios de Charles Simic (1938) que hoje transcrevo no blog acompanhado por uma tradução minha.

No filme Sexo e a Cidade, a certa altura uma protagonista diz para o marido qualquer coisa como isto:

Não percebo porque vocês homens andam sempre tão obcecado com seios de mulher. São algo que existe em cerca de metade da humanidade… E é aqui que reside o mistério, e confesso-me incapaz de desvendar: não é a raridade dos seios que faz a sua atracção e apelo irresistível:

Insisto que uma miúda

 Despida até à cintura

 É o primeiro e último milagre,

 Que o velho porteiro no seu leito de morte

 Ao pedir para ver os seios da esposa

 Uma última vez

 É o maior poeta que já viveu.

 

E entre poesia e milagre, entremos por este mistério com a companhia do poema de Charles Simic

Experiência física onde a razão sossobra, falar deles é enumerar o seu efeito sensorial.  

Como chegar até eles? O poeta sugere:

Gosto de ir até eles

 De baixo, como uma criança

 Que sobe a uma cadeira

 Para alcançar o doce proibido.

 

A eles chegados, há que os sentir:

Suavemente, com os lábios,

Solto o botão.

Tê-los soltos entre as mãos

Como duas recém-tiradas canecas de cerveja.

 

Ao toque dos mamilos, embalam os sentidos quais:

Grãos de inaudíveis suspiros,

Vogais de deliciosa clareza

Para a pequena e rubra escola das nossas bocas.

 

E agora, quem puder, aproveite para … / saborear cada seio / Como densa e escura uva / …

 

Entrego-o, leitor, ao poema, com esta derradeira citação:

Cuspo nos tolos que não incluem

Os seios na sua metafísica

Astrónomos que não os enumeraram

Entre as luas da terra …

 

 

Seios

 

Eu amo seios, duros

 Seios cheios, coroados

 Por um botão.

 

 Vêm pela noite.

 Os bestiários dos antigos

 Que incluem o unicórnio

 Deixaram-nos sair.

 

 Perlados, como o oriente

 Uma hora antes do sol nascer,

 Dois fornos da única

 Pedra filosofal

 Que merece a nossa atenção.

 

 Trazem nos seus mamilos

 Grãos de inaudíveis suspiros,

 Vogais de deliciosa clareza

 Para a pequena e rubra escola das nossas bocas.

 

 Algures, a solidão

 Faz outra entrada sombria

 Na sua lage, a miséria

 Toma outra taça de arroz.

 

 Eles aproximam-se: Presença

 Animal.  No celeiro

 O leite estremece no balde.

 

 Gosto de ir até eles

 De baixo, como uma criança

 Que sobe a uma cadeira

 Para alcançar o doce proibido.

 

 Suavemente, com os lábios,

 Solto o botão.

 Tê-los soltos entre as mãos

 Como duas recém-tiradas canecas de cerveja.

 

 Cuspo nos tolos que não incluem

 Os seios na sua metafísica

 Astrónomos que não os enumeraram

 Entre as luas da terra …

 

 Eles dão a cada dedo

 A forma verdadeira, a sua alegria:

 Sabão novo, espuma

 Onde as nossas mãos se limpam.

 

 E como a língua honra

 Esses dois pãezinhos azedos,

 Pois a língua é uma pena

 Mergulhada em gema de ovo.

 

 Insisto que uma miúda

 Despida até à cintura

 É o primeiro e último milagre,

 Que o velho porteiro no seu leito de morte

 Ao pedir para ver os seios da esposa

 Uma última vez

 É o maior poeta que já viveu.

 

 Oh minha doce, melancólica gaitas de foles.

 Olha, toda a gente está dormindo na terra.

 Agora, na absoluta imobilidade

 Do tempo, puxando para mim

 A cintura de quem eu amo,

 

 Vou saborear cada seio

 Como densa e escura uva

 Dentro da colmeia

 Desta minha lânguida boca.

 

Tradução do inglês por Carlos Mendonça Lopes

 

Poema original

 

Breasts

I love breasts, hard

Full breasts, guarded

By a button.

 

They come in the night.

The bestiaries of the ancients

Which include the unicorn

Have kept them out.

 

Pearly, like the east

An hour before sunrise,

Two ovens of the only

Philosopher’s stone

Worth bothering about.

 

They bring on their nipples

Beads of inaudible sighs,

Vowels of delicious clarity

For the little red schoolhouse of our mouths.

 

Elsewhere, solitude

Makes another gloomy entry

In its ledger, misery

Borrows another cup of rice.

 

They draw nearer: Animal

Presence. In the barn

The milk shivers in the pail.

 

I like to come up to them

From underneath, like a kid

Who climbs on a chair

To reach the forbidden jam.

 

Gently, with my lips,

Loosen the button.

Have them slip into my hands

Like two freshly poured beer-mugs.

 

I spit on fools who fail to include

Breasts in their metaphysics

Star-gazers who have not enumerated them

Among the moons of the earth …

 

They give each finger

Its true shape, its joy:

Virgin soap, foam

On which our hands are cleansed.

 

And how the tongue honors

These two sour buns,

For the tongue is a feather

Dipped in egg-yolk.

 

I insist that a girl

Stripped to the waist

Is the first and last miracle,

That the old janitor on his deathbed

Who demands to see the breasts of his wife

For the one last time

Is the greatest poet who ever lived.

 

O my sweet, my wistful bagpipes.

Look, everyone is asleep on the earth.

Now, in the absolute immobility

Of time, drawing the waist

Of the one I love to mine,

 

I will tip each breast

Like a dark heavy grape

Into the hive

Of my drowsy mouth.

 

in Charles Simic, New and Selected poems (1962-2012), Houghton Mifflin Harcourt, New York, 2013.

 

 

Nota final

Num tempo em que a intervenção plástica nos seios é frequente, seja por desagrado com a sua evolução biológica, seja em resultado de doença, (e o cancro da mama afecta estatisticamente cerca de um terço da mulheres), os prazeres sentidos com eles, e de alguma forma descritos no poema, não sofrem a mais pequena beliscadura, estejam ausentes preconceitos ou constrangimento mental. Sem eles, os preconceitos, é tão só entregarmo-nos aos prazeres mútuos da sua fruição.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura minha, Nu Azul, óleo s/tela, feita em 2004.

 

Cartas de amor, frio e morto papel — Soneto de Elizabeth Barrett Browning

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Fernando Pessoa (1888-1935) deixou escrito sobre as cartas de amor provavelmente a visão definitiva do seu paradoxo: por um lado, as expressões da ternura nas Cartas a Ofélia, e por outro a lucidez de quem se sente incapaz de amar, no poema de Álvaro de Campos: Todas as cartas de amor são / Ridiculas. / Não seriam cartas de amor se não fossem / Ridiculas. / …

Não ficou por aqui o poeta e acrescentou-lhe a pungente visão de quem ama sem esperança na Carta da corcunda para o serralheiro.

Não se esgota em Pessoa a leitura poética das cartas de amor, e pelo blog aqui e ali exemplos há. Hoje é num soneto de Elizabeth Barrett Browning (1806-1861), em inspirada tradução do poeta Manuel Bandeira (1886-1968) que podemos ler:

 

As minhas cartas! Todas elas frio,

Mudo e morto papel! No entanto agora

Lendo-as, entre as mãos trêmulas o fio

Da vida eis que retomo hora por hora.

 

Encontrar as cartas de amor de uma paixão que existiu, desencadeia em catadupa as emoções de um tempo em que a felicidade se julgava possível para sempre, e a sua leitura faz reviver o desengano. Ei-lo contado por Elizabeth Barrett Browning. Primeiro na versão de Manuel Bandeira, e a seguir, o poema original:

 

 

Soneto

 

As minhas cartas! Todas elas frio,

Mudo e morto papel! No entanto agora

Lendo-as, entre as mãos trêmulas o fio

Da vida eis que retomo hora por hora.

 

Nesta queria ver-me — era no estio —

Como amiga a seu lado,,, Nesta implora

Vir e as mãos me tomar… Tão simples! Li-o

E chorei. Nesta diz quanto me adora.

 

Nesta confiou: sou teu, e empalidece

A tinta no papel, tanto o apertara

Ao meu peito, que todo inda estremece!

 

Mas uma… Ó meu amor, o que me disse

Não digo. Que bem mal me aproveitara,

Se o que então me disseste eu repetisse…

 

Tradução de Manuel Bandeira

in Manuel Bandeira, Estrela da Vida Inteira, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1993.

 

 

Sonnets from the Portuguese 28

 

My letters! all dead paper, … mute and white ! —

And yet they seem alive and quivering

Against my tremulous hands which loose the string

And let them drop down on my knee to-night.

This said, … he wished to have me in his sight

Once, as a friend: this fixed a day in spring

To come and touch my hand … a simple thing,

Yet I wept for it! — this, … the paper’s light …

Said, Dear, I love thee; and I sank and quailed

As if God’s future thundered on my past.

This said, I am thine — and so its ink has paled

With lying at my heart that beat too fast.

And this … O Love, thy words have ill availed,

If, what this said, I dared repeat at last!

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Edvard Munch (1863-1944), Noite de verão, Inger na praia, 1889.