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O Labirintodonte e para que serve a Poesia

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Bebo, logo existo, foi o título escolhido por um filósofo que leio com agrado, Roger Scruton, para desenvolver uma reflexão sobre pensar o vinho. Matéria de prazer, pensar e existir, afinal aquilo que faz o homem e nem sempre fácil de praticar. Que o diga o meu interlocutor imaginário:
— Isto de existir tem que se lhe diga. Estudar, o emprego, a família, a saúde: adoro queijo, será que tenho colesterol alto? Engordei, não me serve a roupa, conseguirei ir pelo menos três vezes ao ginásio esta semana? Uff! E ainda vêm com poesia… Amor!, coisas do género:

 

Amar ou odiar: ou tudo ou nada! / O meio termo é que não pode ser
A alma tem d’estar sobressaltada / P’ra o nosso barro se sentir viver.
… (*)

 

Bah!… Esta gente terá noção do que é viver todos os dias? Ainda se falassem de sexo. De sexo uma pessoa gosta.
— Pois é, digo eu, a vida não é fácil!…
— E então a poesia para que serve?
— Distrai-nos, quem sabe? Às vezes ajuda a viver melhor, a sua companhia. Mas isto é opinião suspeita.
Deixo-lhe, céptico(a) leitor(a), uma pequena amostra:

 

Viver sempre também cansa.

Tudo é igual, mecânico e exacto.

Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.

E obrigam-me a viver até à Morte!

Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois,
achando tudo mais novo?
… (**)

 

Que tal a sugestão do poeta: morrer por um bocadinho, / de vez em quando, / e recomeçar depois, / achando tudo mais novo? Já tinha pensado nisso? Lá se acabavam os Uff!

E agora, o que dizer do sexo? É do que mais a poesia fala, às escondidas, ou às claras. Depende de como correm os tempos:

 


Quando ela surgiu diante de meus olhos, o manto caído aos pés,
no corpo inteiro nem uma só mácula se me mostrou:
Que ombros! Que braços eu vi e toquei!
A beleza dos seios, como se pôs a jeito dos meus afagos!
Como era liso, abaixo da linha do peito, o ventre!
Que grandiosidade e perfeição nas coxas! Que frescura nas pernas!
Que mais minúcias direi? Nada vi que não mereça elogio,
e foi a nudez do seu corpo que apertei contra o meu.
O resto, quem o não sabe? Depois da fadiga, repousámos ambos.
Assim possam correr muitas vezes as minhas tardes!
(***)

 

Quem não o deseja?
Isto escreveu Ovídio há mais de 2000 anos, pois terá morrido por volta do ano 17 ou 18, ainda Cristo vivia. De então para cá é falar do mesmo sempre de diferentes formas. E esse é um dos mistérios da poesia: do velho fazer o novo.

Os poemas, às vezes, até libertam a imaginação, e despertam para o que nunca pensámos, fazendo-nos olhar o mundo de outra maneira. E a Poesia é cheia de mistérios, como sabe quem a lê. Quem não a lê não os conhece. Um dos mistérios que revelo hoje é a existência do Labirintodonte, para benefício de quem lê poesia uma vez por ano. Oxalá consiga o(a) leitor(a) decifrar o seu mistério.

 

Vamos então ao Labirintodonte. Sabemos o que não é:
1) não é uma ave;
2) não é um elefante;
3) não é um réptil;

 

Então o que é?
a) anda de pé como o chimpanzé;
b) é o pretendente de la vache qui rit;
c) é um bicho de seu natural pensativo.

 

O mistério está quase a nu, e assim não vale. Há que ler até ao fim para, talvez, desvendar o enigma. Afinal, o que é a vida sem mistérios? Apenas acrescento que o demiurgo, autor de tão extraordinária criatura na forma escrita, foi Alberto Pimenta (1937), e deu-nos a conhecer um ser que só se pensar sabe que está vivo, se não é apenas carne. Pronta para o matadouro(?).

 

 

O Labirintodonte

O Labirintodonte
não é uma ave
de emigração
como o porfirião
nem um
mamífero petulante
como o elefante
nem um
réptil repelente
como a serpente
o labirintodonte
anda de pé
como o
chimpanzé
e o sagui
e é o pretendente
de
la vache qui rit
é um bicho
de seu natural pensativo
pois precisa
de pensar
para saber
que está vivo.

in O Labirintodonte, edição do autor, 1970.

 

E por hoje terminamos com poesia. Para o ano haverá novo Dia. Felicidades.

Notas
(*) Fausto Guedes Teixeira, encontra-o aqui.
(**) José Gomes Ferreira, encontra-o aqui.
(***) O poema de Ovídio encontra-o aqui, e aqui, em várias versões.

Abre o artigo a imagem de um outro ser imaginário, O Homem da terra, desta vez o demiurgo foi Karel Appel (1921-2006). Deu-lhe existência em 1960, antes, portanto, de o Labirintodonte ser concebido, mas o labirinto da vida já surgia a seus pés. Só não sabemos se já precisava pensar para saber que estava vivo, e por isso, lia poesia.

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O amor e o corpo num poema de Irene Lisboa

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As pernas são belas, 

quando juntas. 

Que beleza a das pernas!

De alto a baixo 

um veio as desune, 

as distingue, 

as separa e arredonda 

como a dois esbeltos, firmes corpos… 

 

 

Apesar do título, e deste início, não é o erotismo o que associamos à poesia de Irene Lisboa (1892-1958), e também não é do que trata o poema que escolhi trazer ao blog. Fala ele do corpo, sim, mas do seu envelhecimento, e da perda de préstimo para o amor.

 

Que é um corpo? 

Um dom que se oferece… 

Que é um corpo? 

Um dom… 

Ai, não é!

Os corpos, 

como as flores, as bravas, 

murcham, muitas vezes, 

ao Deus dará… 

 

 

Começa o poema numa ilusória narrativa, dando conta da volúpia daquelas manhãs, quando, ao despertar, o mundo parece perfeito…

 

Há pouco, 

ainda deitada, 

tinha, de um lado, 

a palizez do céu, 

e do outro 

uma espécie de labaredas 

sem cor…

umas vassouradas de sol.

Quedo-me a gozar 

esta doçura… 

esta vaga esplêndida 

de luz…

 

e neste langor chega a reflexão:

Desentorpeço-me. 

Arredo de mim a roupa.

Olho-me.

Que é um corpo? 

Um dom? 

Não, um castigo!

 

 

Esta exclamação explica a leitura do amor feita por Irene Lisboa:

Amor! 

Quanto te encantas 

com as graças recatadas

dos gestos,

das formas,

da vida do corpo…

Com tudo te prendes! 

Amor! 

Que é para ti o corpo?

Uma violenta sedução, 

de que logo te enfastias… 

Amor, tão cruel! 

Passas e não deixas sinal… 

Amor! 

 

 

Esclarecido, mas não convencido (ver nota iconográfica), levo-o(a), leitor(a), ao poema que ao longo da conversa retalhei:

outro dia

 

Que quietação 

depois destas manhãs

e destas tardes de vento! 

Quedo-me a gozar 

esta doçura… 

esta vaga esplêndida 

de luz…

 

Há pouco, 

ainda deitada, 

tinha, de um lado, 

a palizez do céu, 

e do outro 

uma espécie de labaredas 

sem cor…

umas vassouradas de sol.

 

Desentorpeço-me. 

Arredo de mim a roupa.

Olho-me.

Que é um corpo? 

Um dom que se oferece… 

Que é um corpo? 

Um mar morto… 

Que é um corpo? 

Um tronco, 

uma planta de pé delgado, 

que alarga

e lança de si dois ramos,

os braços…

 

As pernas são belas, 

quando juntas. 

Que beleza a das pernas!

De alto a baixo 

um veio as desune, 

as distingue, 

as separa e arredonda 

como a dois esbeltos, firmes corpos… 

 

Que é um corpo? 

Um dom… 

Ai, não é!

Os corpos, 

como as flores, as bravas, 

murcham, muitas vezes, 

ao Deus dará… 

Como os seixos, 

rolados e confundidos 

entre algas e outros seixos, 

passam despercebidos… 

Um dom? 

Não, um castigo!

 

Amor! 

Quanto te encantas 

com as graças recatadas

dos gestos,

das formas,

da vida do corpo…

Com tudo te prendes! 

Amor! 

Que é para ti o corpo?

Uma violenta sedução, 

de que logo te enfastias… 

Amor, tão cruel! 

Passas e não deixas sinal… 

Amor! 

 

O pobre seixo, 

a flor que não animaste,

vivem

com aquela beleza 

e aquela tristeza 

dos sempre esquecidos…

Vivem!

 

in Poesia I, um dia e outro dia… e outono havias de vir, Editorial Presença, Lisboa 1991.

 

 

Nota iconográfica

 

Abre o artigo a imagem de uma obra de K B Brehmer (1938-1997), Aufsteller 13, de 1965. Trata-se de uma impressão sobre cartão laminado e dobrado, acrescentado de uma caixa.

O corpo feminino como escultura, vendido em embalagem de cartão, é uma outra medida da ilusão entre corpo, amor/desejo, e o seu uso.

É recorrente trazer ao blog abordagens de amor, desejo, beleza física, e a conveniência da lucidez sobre o seu valor. De modo nenhum acontece o que diz o poema:

Que é para ti o corpo?

Uma violenta sedução, 

de que logo te enfastias… 

Amor, tão cruel! 

Passas e não deixas sinal… 

Amor! 

 

Só mais um exemplo: no filme The Wife, agora em circulação, ele, amor e desejo, são subjacentes à história. Lamentavelmente, uma boa história, e porque cinematograficamente mal contada, apesar da excelente interpretação de Glenn Close, um filme falhado.

 

 

 

Vida num amor e Amor numa vida — poemas de Robert Browning

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Na variedade do amor vivido parece que tudo cabe: da expectativa e esperança do início, ao êxtase da consumação, e desgaste ou perda final. Varia a natureza humana e varia a forma como cada um vive etape a etape a vida de um amor. Confiante ou temeroso, exaltado ou apaziguado, em desespero ou fúria, o leque de sentimentos que o amor arrasta é extenso. E deles tem dado a poesia, e continua a dar, bastos exemplos: adolescente que embarque nas primeiras excitações ou desgostos amorosos dá poeta de seguida.

Depois dos anseios de amor total, suspirados por Elizabeth Barrett Browning (1806-1861), que há dias transcrevi no blog, trago hoje a contraparte do marido Robert Browning (1812-1889) revelando as dissemelhanças no sentir do amor, entre um par que a lenda reclama o ter vivido em entrega total.

 

Vida num amor
(Life in a love)

Escapares de mim?
Nunca —
Meu amor!
Enquanto eu seja eu e essa alma for tua,
Enquanto o mundo, aos dois, nos contiver —
Eu te querendo e tu sem nada quereres —
Se há um que hesita, o outro continua.
Temo ser minha vida algum erro, por fim —
Antes parece uma fatalidade!
Quase nada consigo, na verdade —
Mas que fazer, se não atinjo o fim?
Há que manter os nervos em tensão,
Os olhos enxugar em cada ruína,
Se malogrado, erguer-me em repelão —
Assim, na caça, a presa se elimina.
No entanto, olha uma vez dessa distância,
Para mim, tão no fundo, em poeira e negrume;
Mal cai por terra uma velha esperança,
Renascido, visando o mesmo lume,
Tomo feitio —
Sempre
Transmudado.

 

Life in a love

Escape me?
Never—
Beloved!
While I am I, and you are you,
So long as the world contains us both,
Me the loving and you the loth,
While the one eludes, must the other pursue.
My life is a fault at last, I fear:
It seems too much like a fate, indeed!
Though I do my best I shall scarce succeed.
But what if I fail of my purpose here?
It is but to keep the nerves at strain,
To dry one’s eyes and laugh at a fall,
And, baffled, get up and begin again,—
So the chase takes up one’s life, that’s all.
While, look but once from your farthest bound
At me so deep in the dust and dark,
No sooner the old hope goes to ground
Than a new one, straight to the self-same mark,
I shape me—
Ever
Renoved!

 

Amor numa vida
(Love in a life)

I
Sala após sala,
Corro por toda a casa
Que habitamos os dois.
Não receies, coração, porque, meu coração, hás-de encontrá-la
Doutra vez; ela mesmo — e não somente o frémito que fica.
Depois, no reposteiro; nem o aroma do leito.
O florão da moldura de novo floresceu, quando roçou por ela.
Aquele espelho, ali, resplandeceu ao reflectir-lhe as plumas.

II
No entanto o dia gasta-se
E sucedem-se, às portas, outras portas.
Tento de novo a sorte —
Percorro a casa enorme das alas para o centro,
E sempre o mesmo acaso! Ela sai quando eu entro!
Consumo todo o dia a procurá-la — que importa?
Mas vê que é lusco-fusco e tanto por buscar,
Tantos quartos a ver, tanta alcova a tentar!

 

Love in a life

I
Room after room,
I hunt the house through
We inhabit together.
Heart, fear nothing, for, heart, thou shalt find her—
Next time, herself!—not the trouble behind her
Left in the curtain, the couch’s perfume!
As she brushed it, the cornice-wreath blossomed anew:
Yon looking-glass gleamed at the wave of her feather.

II
Yet the day wears,
And door succeeds door;
I try the fresh fortune—
Range the wide house from the wing to the centre.
Still the same chance! she goes out as I enter.
Spend my whole day in the quest,—who cares?
But ‘tis twilight, you see,—with such suites to explore,
Such closets to search, such alcoves to importune!

Traduções de A. Herculano de Carvalho,
in oiro de vário tempo e lugar, Asa Editores, Porto, Janeiro de 2003.

Poemas originais transcritos de Robert and Elizabeth Barrett Browning, Poems and Letters, Everyman’s Library, Londres, 2003.

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Rufino Tamayo (1899-1991), Dois personagens, de 1981.

Recepções de Inverno — Um quadro aristocrático pelo Conde de Monsaraz

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A vida mundana e de sociedade alta, mesmo na poesia antiga, não foi pretexto para invenções poéticas frequentes. De Gomes Leal (1848-1921) temos o fabuloso retrato da Senhora Duquesa de Brabante, mais psicológico que mundano. António Macedo Papança (1852-1913), mais tarde Conde de Monsaraz, rapaz e homem rico, a quem a fortuna, e aproveitar as suas benesses, não parece ter perturbado, deixou na sua obra poética pontuais retratos aristocráticos, alguns em grande voga à época, como A Arquiduquesa, por exemplo.

Mundo extinto de que hoje apenas a literatura dá conta, recupero entre a poesia do Conde de Monsaraz um quadro aristocrático: Recepções de Inverno.

 

Recepções de Inverno

Em Dezembro é na estufa que a Marquesa
                Recebe às quintas-feiras,
Sob os leques dormentes das palmeiras,
No ambiente abafadiço dos fogões,
As pessoas de suas relações.

A estufa é alta, quadrilonga e clara;
Os bustos e as estátuas de Carrara,
Tocadas pelo escopro florentino,
Branquejam na folhagem verde-escura;
Adivinha-se o gosto e a compostura
Dum paladar meticuloso e fino.

As orquídeas de rútilos matizes,
Os cóleos e as begónias do equador,
Fartas de seiva e imóveis no torpor
              Dos vegetais felizes,

As avencas do norte e os largos fetos
              Duma suprema graça,
Onde se aninha o beijo que esvoaça
Na sombra dos recantos predilectos,

Revelam no salão por toda parte
               A distinção, a arte
               E a verve sedutora
               Dessa gentil senhora.

Nas festas da Marquesa toda a gente
               Se esforça por mostrar
Que é íntimo da casa, ou que é parente
               Da ilustre titular.

E ela passa por entre os convidados,
               Risonhos e curvados
               Defronte do espelhos,
Prodigamente desfolhando frases
Que animam os desejos dos rapazes
               E as ilusões dos velhos!

O busto firme e decotado; o rosto
               É uma graça vê-lo!
Nunca teve na vida um só momento
Em que o toldasse a sombra dum desgosto
Ou o fantasma trágico e sangrento
               De qualquer pesadelo.

As mulheres odeiam-na; pudera!
               A inveja corrói-as,
Ante essa apetecida Primavera
De colo nu, a transbordar de jóias,
E que arrasta, ondulando como as cobras,
A longa cauda de insolentes dobras.

Não lhe perdoam essas três virtudes:
O espírito, a beleza e a mocidade;
               Três coisas, na verdade,
                Que mordem, como abelhas,
As feias, as estúpidas e as velhas.

A Marquesa, porém, pouco lhe importa
                Que a boca da calúnia
                 Lhe vá gritar à porta;
Ela encara-a de frente, à luz do dia,
O seu olhar fulmina-a, e a ironia
                 Do seu sorriso pune-a!

Que lindas festas no palácio dela!
E é das mais procuradas distinções
                A entrada nos salões
Dessa mulher, tão caprichosa e bela.

                Ali nunca se dança,
                O que muito incomoda
As raparigas cujas mães consentem
Que andem nas salas de cabeça à roda
                E apertadas nos braços
Duns  jovens e finíssimos devassos!

Conversa-se e discute-se entre as flores;
Um quinteto de exímios professores
               À distância executa
Trechos da mais correcta procedência
               Que pulsam na regência
Duma ardente e fantástica batuta.

A estufa comunica por arcadas
               Com os vastos salões,
Galerias de telas afamadas,
               Apenas admiradas
Por um ou outro artista que frequenta
               Aquelas recepções .

Dispersas sobre os móveis, em vitrinas,
Mil coisas antiquíssimas e raras:
As velhas jóias da família, as rendas,
Os esmaltes, as pratas estupendas
               E as porcelanas caras.

Ao fundo a sala do bufete. As portas
               Abrem-se geralmente
À meia noite; e toda aquela gente
A invade num tropel que se baseia
Nessa suprema aspiração: — a ceia!

………………………………………………………

Mas nessas noites, que a Marquesa esmalta
Duma antiga e fidalga polidez,
Falta alguém, que afinal nunca faz falta:
Um fantoche tristíssimo — o Marquês!

in Poesias, 1892.

 

Acompanha o artigo a imagem de uma pintura de John Singer Sargent (1856-1925), Retrato de Madame X, pintado em 1883-84, e pertença da colecção do Metropolitan Museum of New York. A dama pintada é Madame Gautreau.

Vale a pena fazer um pouco da história da pintura e da modelo.
A pintura, exibida no Salon de Paris de 1884, como retrato de MadameXXX, não iludiu ninguém sobre a identidade da retratada, dama da alta sociedade. Considerado ousado para o cânone do retrato de sociedade à época, foi tal o escândalo — “rodeado por cardumes de atónitas e repugnadas mulheres” nas palavras de Vernon Lee (*)—, que o pintor, americano em Paris, deixou a França definitivamente, partindo para Inglaterra onde teve retumbante sucesso entre a sociedade vitoriana. Conservou o quadro consigo até o vender ao Metropolitan Museum em 1916, pedindo ao museu que não identificasse a modelo. Ficou por isso a pintura conhecida como retrato de Madame X.

Madame Gautreau (1859-1915), de solteira Virginie Avegno, nasceu na Louisiana. Por morte do pai na guerra civil, aos três anos a mãe deixou definitivamente os EUA e instalou-se em Paris com as duas filhas. Em 1881 Virginie casou com o banqueiro Pierre Gautreau.
Era à época uma celebrada beleza. Leiamos o que sobre ela escreveu um americano, Edward Simmons, estudante em Paris ao tempo: Lembro-me de ver Madame Gautreau, a famosa beleza da altura, e não conseguir resistir a segui-la silenciosamente como se segue um veado. Andava como Vergílio fala das deusas — deslizando — e parecia não dar passos. A cabeça e o pescoço ondulavam como uma jovem corsa, e qualquer coisa nela dava-nos a impressão de proporção infinita, infinita graça, e infinito balanço. Todos os artistas a queriam plasmar em mármore ou pintura (*).

(*) Americans in Paris (1860-1900), National Gallery Company Limited, London, 2006.

Saudade! Gosto amargo de infelizes

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Saudade, que vos farei?
Pois vos não posso deixar,
por descanso vos busquei:
achei-vos para cansar.

(*)

 

A saudade, esse impalpável desejo do que se perdeu, por nós anda, associado à tristeza e ao desgosto.
Subtil e imprecisa, é a palavra perfeita para o complexo de sentimentos que nos assaltam no tempo, ao avivar de recordações e memórias, de pessoas, acontecimentos e lugares, com quem e onde fomos felizes.

Ó sino da minha aldeia,

A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.
(**)

 

A saudade passa na poesia sem cessar, por vezes de forma consciente e explícita. São sem fim os poemas onde ela transparece.
Se titulei o artigo com um verso de um poema de Almeida Garrett (1799-1854):

Saudade! Gosto amargo de infelizes.
Delicioso pungir de acerbo espinho,
Que me estás repassando o íntimo peito
Com dor que os seios d’alma dilacera,
— Mas dor que tem prazeres — Saudade!

 

agora recuo um pouco no tempo, à poesia de métrica precisa, melodia irresistível, e pendor filosofante da Marquesa de Alorna (1750-1839), de quem não há muito trouxe ao blog uma glosa sobre a saudade.

 

Marquesa de Alorna — Sem título

Sozinha no bosque
com meus pensamentos,
calei as saudades,
fiz trégua a tormentos.

Olhei para a lua,
que as sombras rasgava,
nas trémulas águas
seus raios soltava.

Naquela torrente
que vai despedida
encontro, assustada,
a imagem da vida.

Do peito em que as dores
já iam cessar,
revoa a tristeza,
e torno a penar.

 

Quando a memória o consente, nem sempre a saudade será tristeza, o que Sebastião da Gama (1924-1952) capta no poema Lembrança:

 

Lembrança

Foi naquela tarde,
já distante…

Mas foi tão nítido e tão vivo,
Amor!, o beijo que me deste,
que não consegue ser saudade.

Flor cálida, vermelha flor tenrinha
que nos lábios contentes me deixaste…

Triste, já o Outono se avizinha.

Só essa flor não quer tombar da haste…

 

Deixo-o agora, leitor, com dois poemas em que saudade e melodia do verso se enlaçam, ajudando com isso a sossegar as almas que a saudade atravessa.

Primeiro um poema de Bernardo de Passos (1876-1930), deliciosa brincadeira à volta da palavra pena: pena (desgosto) e pena (revestimento das aves):

 

Saudades…

Saudades de amor são penas
que nascem do coração…
É como a pena das aves,
quanto mais, mais brandas são!

Meu coração fez um ninho
como o das aves, perfeito,
juntando todas as penas
de que ele me encheu o peito…
E nesse ninho, a sonhar,
dorme, assim, horas serenas,
como dorme um passarinho
sobre o seu ninho de penas…

 

E por fim, uma canção de António Botto (1897-1959) escrita com uma mestria de sabor popular:

 

Canção

De saudades vou morrendo
E na morte vou pensando;
Meu amor, porque partiste
Sem me dizer até quando?
Na minha boca tão triste
Ó alegrias cantai!
Mas quem acode ao que eu digo?
— Enchei-vos d’água meus olhos,
Enchei-vos d’água, chorai!

 

Encerro este longo artigo com esperança, esperança de que, qual flor, a saudade há-de murchar como anseia a Marquesa de Alorna neste poema final:

 

Saudade

A uma flor chamam Saudade,
Que é primor da natureza;
Mas a que nasce em meu peito
É produção da tristeza.

Enquanto a saraiva, os Notos
Destes gelados países
Açoutam as plantas, cresce,
Lança profundas raízes;

Mas se um dia, transplantada,
Outro terreno buscar,
Alívio terá meu peito,
E a saudade há-de murchar.

 

Notas:
(*) Atribuído a Bernardim Ribeiro no manuscrito da Biblioteca Nacional de Lisboa, (cód. 11353).
(**) Fernando Pessoa, 1ª publ. in Renascença. Lisboa: Fev. 1924.
Os restantes poemas encontra-os o leitor em A Saudade na Poesia Portuguesa, seleção e prefácio de Urbano Tavares Rodrigues, Portugália editora, 1967.

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Geza Voros (1897-1957), Mulher em vermelho, de 1933.

Jornal de domingo — um poema de Luiza Neto Jorge

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Usando as palavras com uma precisão cirúrgica, a poesia de Luiza Neto Jorge (1939-1989) corta o inócuo das aparências como lâmina de bisturi, expondo o complexo biológico e social humano:

 

Viver, entretanto, é ver, e ir vendo
e também ver inclui dormir
sem que nada se desfaça se exclua
no interior dos sonhos.

do poema Recanto 2

 

 

Transcrevo a seguir, desta poesia de dilaceração, o poema Jornal de domingo:


Na casa não há domingo
há um fio de amor partido
que sangra pingo por pingo

 

 

Poema dentro do poema, simultaneamente lemos o que do mundo faz o recreio nas notícias do jornal de domingo:

 

Na página aberta
do jornal de hoje
um anúncio traz
a mulher bela
com poros de pele
um cabelo que são
letras soltas

Todos nós esperamos
que ao dobrar a página
se leia isto aquilo
a emoção de ler

e se leia tudo

do pensar na fêmea
a fêmea esgotada
desde o púbis à cor
do riso

se leiam as coisas
nas conversas
que entre si não têm
nos obstáculos
que entre si não saltam

Com letras maiores
aparece o nome
de um amante morto
com o crânio calvo
de ave sonhadora

 

e lemos depois um quadro doméstico onde o lido se reflecte:


Acontece então
um homem sentir
a água escorrer
dentro do pescoço
e fazer-lhe um nó
como de gravata

que lhe vai bem

nesse fato inútil
vestido à pressa
para ler o jornal
para matar a fêmea
que o recusou

 

 

A violência doméstica hoje vivida concentra-se de forma alegórica e lapidar neste poema, a lembrar a realidade terrível vivida no presente pelas vítimas mortais, e candidatas a sê-lo, de um quadro social que desculpabiliza e consente o ciúme e a sua corte de valores, como legítima justificação de opressão até ao assassínio.

 

 

 

Jornal de domingo

Na página aberta
do jornal de hoje
um anúncio traz
a mulher bela
com poros de pele
um cabelo que são
letras soltas

sua boca é um selo

na resposta à carta
que lhe pede a mão
e o seu sexo louro
e o rosto liso
na fotografia
como um peixe rindo

Todos nós esperamos

que ao dobrar a página
se leia isto aquilo
a emoção de ler

e se leia tudo

do pensar na fêmea
a fêmea esgotada
desde o púbis à cor
do riso
quando se ergue
e o vento recua
quando se deita
e se esquece nisso

se leiam as coisas

nas conversas
que entre si não têm
nos obstáculos
que entre si não saltam
homens objetos
anões fadas peixes
gulodices

Com letras maiores

aparece o nome
de um amante morto
com o crânio calvo
de ave sonhadora
que outrora poisou
de amor em amor
dentro dos domingos

*


Domingo é o espaço

onde todos cabem
sem lhes ser preciso
fazer vénia ao sol

Acontece então

um homem sentir
a água escorrer
dentro do pescoço
e fazer-lhe um nó
como de gravata

que lhe vai bem

nesse fato inútil
vestido à pressa
para ler o jornal
para matar a fêmea
que o recusou

e se lhe afeiçoa

o fato depois da vingança
e o faz igual
a alguém que dança

Aranha ao de leve

arranha no corpo
e o homem não lê
porque está esquecido
— a pensar em quê?

— Mais um domingo —

é o que dirá
se não o matarem
por qualquer razão
mil punhais salobros
saídos do chão

se voltar a casa

é o que dirá

Na casa não há domingo

há um fio de amor partido
que sangra pingo por pingo

 

in Luiza Neto Jorge, poesia, Assírio & Alvim, Lisboa, 1993.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Heinrich Maria Davringhausen (1894-1970), der lustmörder, o prazer assassino.

 

À esquerda uma mulher jaz numa cama, degolada e nua. Ao centro, sentado à mesa, navalha pousada, garrafa e copo, e algo na mão, o assassino olha, reflexivo, inexpressivo quanto à tragédia que provocou, transmitindo de forma eloquente quanto já perdeu do que um dia o aproximou de um ser humano digno.

 

Quadro banhado a vermelho, alegoria simultânea do sangue derramado e do inferno de uma vida, pelas janelas entra a luz do mundo exterior, dia e noite, no seu caminhar indiferente a esta tragédia humana entre quatro paredes.

Devolvo à tarde triste a luz que me entristece — Coimbra em poemas de Miguel Torga

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Para o indizível encanto das cidades que nos prendem busca a poesia resposta. Vã tentativa ou problemático sucesso. O mundo de cheiros, vistas, sabores e memórias não cabe por inteiro nas palavras. Apenas uma aproximação se consegue, às vezes em belos e comoventes poemas.

Coimbra como cidade universitária, lugar de experiências e memórias juvenis de tantos poetas, foi frequentemente o alvo da expressão desse encanto que às palavras foge.

Hoje deixo de fora delíquios e amores estudantis, ora contados em tom sério, ora risonhos ou irónicos, e transcrevo alguns poemas de Miguel Torga (1907-1995), quase uma espécie de poeta da cidade, pois aí exerceu profissionalmente, longos anos, como médico. São poemas onde o pitoresco se transcende para uma meditação do eu no quadro do lugar que o envolve:

 

Devolvo à tarde triste a luz que me entristece,
E vou entristecendo
O largo,
O rio,
O campo
E, mais além, a linha do horizonte.

 

 

Comecemos com uma espécie de epifania numa tarde de Abril quando  … uma alegria incontida / Sorri no rosto de tudo.

 

 

Boletim

Tarde limpa,
De pureza comungada.
No rio, corre, parada,
A paisagem reflectida;
Há não sei que voz traída
No silêncio do que é mudo;
A luz parece despida;
E uma alegria incontida
Sorri no rosto de tudo.

Coimbra, 17 de Abril de 1969.
in Diário XI, 1973.

 

 

Abril, mês de Primavera, quando o tempo afecta os sentidos, tanto a alegria pode ser esfuziante como o desalento pode chegar, e num registo melancólico aí o temos ao crepúsculo: E uma sombra de mudo / Desalento / Começa a desfazer as rugas animadas / Do próprio sofrimento / Cada vez mais informe nas calçadas.

 

Crepúsculo

Caiu a tarde, e nem sequer ficou
A colorir a talha de alguns versos
Uma réstia do sol que o dia inteiro
Iluminou a praça.
Foi-se a graça
De tudo.
E uma sombra de mudo
Desalento
Começa a desfazer as rugas animadas
Do próprio sofrimento
Cada vez mais informe nas calçadas.

Coimbra, 8 de Abril de 1975.
in Diário XII, 1977.

 

 

E, contudo, é bonito / O entardecer. / A luz poente cai do céu vazio / Sobre o tecto macio / Da ramagem / E fica derramada em cada folha. São as palavras do poeta para estes diferentes findar dos dias em Abril, na cidade, quando …  o rumor citadino / Ondula nos ouvidos / Distraídos / Dos que vão pelas ruas caminhando / Devagar / E como que sonhando / Sem sonhar…

 

 

Vesperal

E, contudo, é bonito
O entardecer.
A luz poente cai do céu vazio
Sobre o tecto macio
Da ramagem
E fica derramada em cada folha.
Imóvel, a paisagem
Parece adormecida
Nos olhos de quem olha.
A brisa leva o tempo
Sem destino.
E o rumor citadino
Ondula nos ouvidos
Distraídos
Dos que vão pelas ruas caminhando
Devagar
E como que sonhando
Sem sonhar…

Coimbra, 28 de Abril de 1984.
in Diário XIV, 1987.

 

 

Terminada esta curta viagem por Coimbra em Abril na poesia de Miguel Torga, concluo com o poema que citei a abrir, Expectação. Desejo de poeta que anseia A luz de um novo dia./ Um dia alegre, / Limpo, / Singular, / … / Miraculosamente amanhecido / Nas sílabas de um verso enfeitiçado, / A ressoar, medido e desmedido, / Na concha do ouvido / Deslumbrado.

 

 

Expectação

Devolvo à tarde triste a luz que me entristece,
E vou entristecendo
O largo,
O rio,
O campo
E, mais além, a linha do horizonte.
Mas repreendo os olhos e regresso
À página vazia
Onde, possesso,
Aguardo que desponte
A luz de um novo dia.

Um dia alegre,
Limpo,
Singular,
De nenhuma semana,
De nenhum mês,
De nenhum ano,
Miraculosamente amanhecido
Nas sílabas de um verso enfeitiçado,
A ressoar, medido e desmedido,
Na concha do ouvido
Deslumbrado.

Coimbra, 9 de Julho de 1975.
in Diário XII, 1977.

 

Poemas transcritos de Poesia Completa, 2 volumes, Publicações D. Quixote, Lisboa, 2007.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de James Holland (1799-1870), imagem de Coimbra ao tempo em que moços estudantes/poetas aí pululavam, do desabrochar do romantismo ao seu estertor, ou seja, entre António Feliciano de Castilho e Antero de Quental, e foram uma plêiade. Não já a cidade pintada nos poemas que transcrevi acima.

 

Teresa Rita Lopes — O Mar da Memória

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Do trabalho notável de Teresa Rita Lopes (1937) de desvendar a poesia de Fernando Pessoa temos nós todos beneficiado: os portugueses e o mundo. Presença frequente no blog por via da obra de Fernando Pessoa, hoje é à sua poesia que vou.
No livro cicatriz respigo:


                  Hoje sei que só se é feliz
quando não se dá por isso

do  ciclo de 3 poemas Retratos de Família

 

 

e ainda dois poemas:

 

 

O primeiro de
Mais dois sonetos breves

I
Há dias em que
toda a maré negra
dos medos da infância
dá à costa

Então é fechar os olhos
e deixar
que a onda alta rebente

e passe
e se canse
de nos fustigar

e nos arremesse
à praia
Exaustos

10/12/1995

 

 

Retratos de Família

 I

Olha
aqui a avó!
Com o avô
Ao lado a tia o tio a outra
tia
E a mãe    a minha

Morreram todos já

Seguro na mão
esse raminho
de rosas-chá

Cheiro-as:
a cada uma
o seu perfume

Apenas isso são
agora
na lembrança

 

 

Ressuma nos poemas dos livros que hoje leio: cicatriz e Afectos, de Teresa Rita Lopes, uma memória de lugares, cheiros e coisas que me é cara porque familiar, a par da sensibilidade tocante com que evoca a mãe, a meninice e o intangível que nos envolve, e ao crescermos nos faz.

 

 

O Mar da Memória

Acarinho cada vez mais essas palavras
que se dizem ou diziam na minha terra
e as pessoas da minha cidade nem conhecem de nome
Fecho os olhos
abandono-me
deixo-as vir
ao de cima de mim
como uma onda
Dão à costa do fundo do mar da memória
Oiço-as na voz da minha Mãe

 

 

Vão-se Esfumando

Vão-se esfumando como retratos velhos
alguns desses amores
que foram parte de mim
e me deixaram decepada
mutilada
quando um dia partiram

Depois o corpo foi-se custosamente habituando
refazendo a sua unidade

Pouco a pouco foram ficando ausentes
inócuos
estrangeiros

Agora já lhes sorrio de leve
Nem já preciso de lhes perdoar

Só tu
Mãe
desde que te foste
és cada vez mais presente
Mais precisa
Mais preciosa

 

Meu Corpo Teu

Não me ensinaste a envelhecer
Mãe
Nem reparei sequer que envelhecias
Uma vez impacientei-me por não me ouvires bem
e tu disseste simplesmente: “Não vez que a tua Mãe
está a ficar velha?!”
Não via nunca tinha reparado protestei
não aceitei
Só agora compreendo
Agora que envelheces com meu corpo teu
ou que envelheço com teu corpo meu
Habituei-me a ver-te correr ligeira
à frente dos automóveis
a atravessar as ruas fora do risco dos peões
E de repente
sem avisar
a velhice caiu-me em cima

Envelhecias sem reparar
ou não querias pensar nisso
ou não consentias ao corpo esse vagar?

Agora aprendo à minha custa
sem a tua companhia
o que é envelhecer
Se calhar só através desta escrita
me vais ensinando
o que nunca aprendeste

 

 

Apascentando os Caracóis da Inês

A Inês chegou feliz ao quintal de Cacela
com dois caracóis que apanhou na horta:
pousou-os na mesa e ficou-se a contemplar.
Eu também.
                     Mas a primavera lá fora à solta
desencaminhava-a para jogos mais árduos.
Então pediu-me: “Vou ali já volto. Se eles
fugirem chama-me, sim?”
                                             Enquanto apascento
os dois caracóis da minha neta não toco flauta
mas vou escrevinhando estes versos:

         Que bom reencontrar a minha velha amiga
         mesa
                   seu velho tampo de madeira
         nem sequer polido
                                          acariciar seu áspero
         piso
               companheiro de tão calados júbilos
               em sua madeira nua sem pintura sem
               vernizes têm envelhecido os meus versos
               que vou guardando nem sei para que brinde
               especial
                               a um futuro dia incógnito

 

 

Termino a curta viagem pela singularidade desta poesia com quatro poemas da sequência Adagiário incluídos no livro A Fímbria da Fala:

 

Adagiando

  4

Cortar rente
a planta
e o amor doente

Se seiva houver
hão-de brotar
outros e os mesmos

 

 

Adagiando

5

Sofrer
o prazer
como se fosse
eterno

                        viver
                        o sofrer
                        como se fosse
                         breve

 

 

Adagiando

  23

A cada dor seu grito
a cada amor sua ferida
a cada nossa idade
um jeito de sofrer
e de amar

A cada fome seu fruto
a cada fruto seu grumo
e seu sumo
a cada desejo
seu fundo
e fino gume

 

Adagiando

24

Tudo o que
existe
rima
com triste

Tudo o que
é vida
rima
com ferida

Tudo o que
foi
rima
com dói

 

 

Chegado ao fim destes três livros de poesia saio deles com uma sensação de alma lavada pela sinceridade da escrita, como depois de um filme de John Ford, daqueles onde pressentimos ter captado a vida no seu mosaico de alegrias, desgostos, e coisas simples que lhe dão sentido:

Crepúsculo de Setembro em Cacela

Um ar tão doce como se
estivesse dizendo o último
adeus a alguém

 

 

E para coda uma reflexão essencial sobre como amar alguém:

 

 

Perder alguém

Cuidado!
Parar
escutar
olhar
             longamente
             o ser
              amado
Tão fácil
perder
alguém
             pela algibeira
             rota
             da nossa
             desatenção
in A Fímbria da Fala

 

 

Nota bibliográfica

 

Teresa Rita Lopes, cicatriz, Editorial Presença, Lisboa, 1996.
Teresa Rita Lopes, Afectos, Editorial Presença, Lisboa, 2000.
Teresa Rita Lopes, A Fímbria da Fala, Prefácio de António Ramos Rosa, Desenhos de Mário Botas, Editora Ausência, Porto, 2002.

 

 

Abre o artigo a imagem de um desenho de Mário Botas (1952-1983), a qual ilustra a capa do livro  Fímbria da Fala na edição acima registada.

 

António de Sousa — alguns poemas e um retrato por Natália Correia

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(Pela face das nuvens passa, breve,
o apelo da tarde que desmaia,
e, leve, a espuma no debrum da praia
borda o lençol do mar a flores de neve.)

 

 

António de Sousa (1898-1981), o poeta que se fez esquecer, nas certeiras palavras de Natália Correia (1923-1993) numa evocação biográfica do homem (1), não fora por outros poemas, pelo menos pelo soneto que citei a abrir merece lugar na nossa memória.

 

Da pessoa do poeta aproveito a saborosa evocação de Natália Correia na obra referida na nota (1), para dele dar um retrato a quem do homem nada sabe:


Descrevo-o tal como o conheci entre a [Livraria] Sá da Costa e a [Livraria] Bertrand (2) no desafogo tertuleiro da indignação selada pela censura em que o pontificado dos Aquilinos e Sérgios (3) embasbacavam os jovens. Eu, então muito moça; e António de Sousa já entrado nos cinquenta era uma aparição abstrusa naquela tábua de valores falantes em que o magistério do político, do literário e do filosófico triangulava o nosso anseio de mudar as coisas. Logo no físico taurino bandarilhado por fantasias se lhe estampava a extravagância de um arcaboiço de matulão basquetebolista desmazelado por uma alma famélica de estrelas.

O contrastante emanava dele com uma candura comovente. A tricana e o fado de Coimbra para o qual enluarou trovas garganteadas por António Menano e Edmundo de Bettencourt (4) tinham-se-lhe pegado ao peito. Mas por entre os relâmpagos da boémia pastoreava almas evangelicamente, em devota função que lhe cumpria como secretário-geral da Young Men’s Christian Association fundado por evangélicos americanos. Este misticismo que nada tinha de beatério, apimentado por apetites carnais que lhe vinham ao lume dos olhos, casavam-se com uma inocência poética que, orvalhando as sentenças dos papas das tertúlias, era rocio mais calhado à frescura dos meus anos e à atracção pelo insólito que me espicaçava o duende dos versos. António Sérgio que era severo por disciplinada introversão de veemências românticas, não tinha paciência para o brincalhotar erótico de António de Sousa que arregalava o olho quando a beleza com saias lhe passava ao pé.

 

Apresentado o poeta com a opulência da prosa de Natália Correia, tendo de passagem deixado esquiço de um tempo e personagens desaparecidos, e também um pouco de retrato pessoal da poetisa, eis o soneto, absolutamente surpreendente na sua perfeição formal para transmitir um complexo de imagens e sentimentos a espreitar dum panteísmo não enunciado:

 

 

Sem título

(Pela face das nuvens passa, breve,
o apelo da tarde que desmaia,
e, leve, a espuma no debrum da praia
borda o lençol do mar a flores de neve.)

— Que distância, meu Deus! — Como te deve
doer ver-nos olhar-te desta praia,
sobre o Outro Mar onde este mar desmaia,
escuro à prece e escuro à vida breve!

(Pensar em Deus à hora do sol-posto…
— Quanta saudade, à voz de portugueses,
se deu, assim, com lágrimas no rosto?!)

Tarde do Mundo, eis-me de terra ao mar,
última luz num rumo de reveses:
um sonho que se morre, devagar.

Poema de abertura do livro Terra ao Mar, 1954.

 

 

Acrescento alguns outros poemas, talvez auto-retratos do poeta, tendo em conta o perfil traçado acima por Natália Correia.

 

Historieta

Macia, a mão do Destino
foi de flores, até um dia.
Eu, sempre moço-e-menino,
sem saber que me bebia
aquela doce loucura
de quem de si não procura
senão ser.

Depois,
a vida e eu fomos dois …

E, sem querer,
morro de ter que a viver!

 

 

Nuvem

Lá longe, aonde a vida me começa
— sorria por engano o sol de inverno —,
não sei que deus me fez sua promessa
e fui outro menino, ávido e terno.

Mas a infância passou, nua e depressa
— subira o sol como um clarão de inferno —,
e fiquei-me neste ar de quem ingressa:
grotesco, trivial, falso e moderno.

— Número sete, um passo em frente! — Pronto!
(A voz que me chamava, certa e calma,
não viu que eu avançava cego e tonto.)

Achou-me assim o tal que me perdeu.
— Ó nuvem! — tarde triste da minh’alma —
quem por seus sonhos sofre como eu?

 

 

Encontro

Marinheiro dum céu que me perdera,
com sete luas ao luar de Outono,
dos meus sonhos nenhum te concebera,
nem te cantava a minha voz sem dono.

Adormeci. As tuas mãos de cera
desfolharam carícias no meu sono.
E Deus, que da minh’alma se esquecera,
de teus beijos floriu este abandono.

Adormeci. À hora da partida,
à luz que os fortes bebem como vinho,
adormeci, para fugir à vida.

Vieste. Sei agora porque sou:
era sonhar — não ser — o meu caminho.
Fugi à vida — a vida começou.

 

 

Bancarrota

Esperei por mim em vão. Suando rezas,
pragas, versos subtis, ruivas saudades,
arrastei minhas horas indefesas
entre chusmas e fundas soledades.

Tive palácios de imortais certezas,
com seus jardins de passear vaidades;
virtudes compassadas e burguesas
e dor sem nome, como o preso às grades.

Fui o fiel-conviva-de-banquetes,
o-pálido-com-alma-pra-vender
nos mercados dos filhos de seus pais.

Subi-me ao céu nas canas dos foguetes;
fiz-me ladrão de sonhos pra vencer,
e sei apenas que não posso mais!

Poemas transcritos de Livro de Bordo, segunda edição, Publicações Europa-América, Lisboa, 1957.

 

 

Notas minhas:

(1) A Ilha de Sam Nunca, Atlantismo e Insularidade na Poesia de António de Sousa, Secretaria Regional dos Assuntos Culturais, Angra do Heroísmo, 1982.

Com a morte da mulher em 1963, e posteriormente de um filho, recolhe o poeta definitivamente a casa de outro filho, onde, alheio ao mundo, cai numa apatia invulnerável a afectos, até que gravemente doente vem a falecer no hospital em 1981 após agonia prolongada.

(2) Livrarias antigas ao Chiado, em Lisboa, vizinhas do mítico café Brasileira.

(3) Aquilino Ribeiro (1885-1963) e António Sérgio (1883-1969), aqui retratados como  expoentes da oposição intelectual ao salazarismo que também foram.

(4) Cantores famosos de fado de Coimbra, tendo Edmundo de Bettencourt sido também poeta notável.
Aproveito para registar que o poema Cravos de Papel, cantado por Amália com ligeiras adaptações naquele álbum que é a sua mais perfeita realização, Com Que Voz, Amália canta poetas da língua portuguesa na música de Alain Oulman, é de António de Sousa. O poema original é de uma mestria absoluta a captar a brejeirice malandra das quadras populares:

 

 

Cravos de Papel

1
Tenho sete namoradas
na Rua de Lá Vem Um.
Sete facas apontadas
ao coração em jejum.
                 2
Meu compadre S. João
das fogueiras, das cantigas!
— Ficarei par ou parnão
no jogo das raparigas?
                 3
Não julge lá que me enjeita,
assim, com duas razões!
(O meu demónio aproveita
as melhores ocasiões… )
                 4
Meninas, vossos amores
lembram-me a água corrente.
Na margem, prados e flores;
ao meio… afoga-se a gente!
                 5
Amorzinho, lua nova,
rica fruta de pomar!
— Quem será que tira a prova
do vinho do teu lagar?

in Livro de Bordo, segunda edição, Publicações Europa-América, Lisboa, 1957.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma fotografia minha feita há anos na Ericeira.