O mistério da aranha num poema de Carlos Queiroz

Os fios que nos ligam ao mundo são a nossa estratégia de sobrevivência. Criam-se e destroem-se por nós e pelos outros. Frágeis como os fios que a aranha tece, são a medida da vulnerabilidade, da persistência, do enredado da vida. E na reflexão poética sobre o eu, a vontade, e o mundo, vamos encontrar esta fragilidade em mais um poema perfeito de Carlos Queiroz (1907-1949) Aranha, uma obra-prima da poesia portuguesa.

 

 

Aranha

 

À sombra dum cedro imenso

Eis-me a sentir e a pensar;

Mas o que sinto não penso

E o que penso está suspenso

Como uma aranha no ar

 

No ar balouça, fremente,

Num débil fio invisível

Dessa teia intermitente

Que liga o passado ingente

Ao presente irreversível.

 

Irreversível instante

O estar aqui na paisagem

Dentro dela e já distante

— Pois o que somos durante

É de nós próprios imagem.

 

Imagem que se desdobra

Sem que a vontade a detenha

No tempo que nunca sobra.

Viver?… Criar uma obra?…

Oh, o mistério da aranha!

 

in Colectânea de Versos Portugueses do séc. XII ao séc. XX, organização de Cabral do Nascimento, Editorial Minerva, Lisboa, 1964.

 

 

Da poesia de Carlos Queiroz publicada no livro Desaparecido, primeiro e fulgurante livro do poeta, escreveu Fernando Pessoa (1888-1935):

“A beleza do livro começa pelo livro. A edição é lindíssima. A beleza do livro continua pelo livro fora: os poemas são admiráveis.

Não se pode dizer deste livro o que é vulgar dizer-se, elogiosamente, de um primeiro livro, sobretudo de um jovem: — que é uma bela promessa. O livro de Carlos Queiroz não é uma promessa, porque é uma realização. Cumpriu, sem ter prometido, sem ter tido que prometer.

Assim se deveria fazer sempre, ou quase sempre. Pertence ao mais íntimo da probidade literária e artística o não se apresentar ao público sem ter plena consciência de que na obra apresentada está tudo quanto em nós haja de forte. Não escrevia Milton um soneto sem que o fizesse como se desse soneto dependesse toda a sua fama futura.

E que prazer o de se poder escrever isto sem que a amizade que tenho pelo poeta, que é muita, uma só palavra me dite; sem o que o gosto de incitar quem é jovem, e tenho esse gosto, me faça sublinhar uma só frase; de poder escrever isto sem mais entendimentos que com a justiça, sem mais combinações que com a verdade.”

1935

in Textos de Crítica e de Intervenção, Fernando Pessoa, Lisboa, Ática, 1980.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Joan Miró (1893-1983), Cabeça e aranha, óleo s/tela de 1925, da colecção do Museu Reina Sofia de Madrid.

 

Merícia de Lemos — O amor talvez seja o que do nada resta

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É poesia a silenciosa

distância entre a emoção 

e o seu canto

 

 

A obra de Merícia de Lemos (1913-1996(?)) é uma obra poética decantada de excessos retóricos onde por vezes o verso cintila, e poemas há que são uma absoluta revelação do eu pela palavra.

 

 

Onde Estive?

Andei esquecida da morte

anos e anos

numa graça de amor

numa harmonia de fontes cantar

e que mais canta

 

Andei esquecida da morte

dias e noites

— o tempo mais não é que sol e sombra

 

Andei esquecida da morte

— o coração tornado nova estrela

 

Andei a viver!

in Merícia de Lemos, Tangentes

 

 

Este viver que o poema mostra reflecte a sua poesia. Poesia que fala “com elegante fantasia e sóbria segurança das suas emoções e mágoas de mulher” na penetrante apreciação de Jorge de Sena  na antologia Líricas Portuguesas 3.ª série

Nos poemas que seguem leremos da emoção do desejo e da entrega contados com essa “sóbria segurança”: Porque quis ser mulher no teu abraço de homem!

Para o homem o amor é praia aprazível

onde é bom pôr-se nu.

Para a mulher um desejo de mar

anseios de sereia

sem coragem, afundados em lagos

às vezes nem profundos.

do poema Catedral I, Tangentes

 

 

Tua

Apenas vestida pelas tuas mãos

estou nos teus braços toda nua.

Sôfrego o teu corpo chama pelo meu,

e os poros da tua pele a acariciar-me

são como mil pequenas bocas

que me beijam

 

Quando estou completamente tua

fecho os olhos para que te não vejam.

Não quero que eles sintam tanto como eu.

 

E entre os desejos mais vãos

e as aspirações mais loucas

eu queria que este nosso abraço

em que eu gosto de amar-te

e tu gostas de amar-me

abolisse entre nós até o próprio Espaço

e que nada pudesse de mim separar-te.

in Merícia de Lemos, Tangentes

 

 

Vencida 

Porque quis ser mulher no teu abraço de homem,

senti as alegrias do amor que começa

e dei-lhe igual altura à da amizade.

Fui sincera, leal e espontânea, meiga, ardente, apaixonada.

Senti o amor, a fé, a esperança.

Senti a violência da paixão na tortura da carne a desejar.

Senti a ansiedade curiosa do espírito em busca de outro espírito

e senti em mim o que é verdade.

 

Porque quis ser mulher no teu abraço de homem,

conheço o rasgar da luta, do desespero, da dor, do orgulho e da renúncia.

Conheço a fraqueza que me fez vencida.

Conheço o poder que te dei e me domina.

 

Sou a pedra rolada pelo rio e pelo oceano,

sou a erva pisada que não dá malmequer,

sou o grão lançado à terra e que não germinou,

sou a pata do animal desmembrado,

o tronco do pinheiro abatido,

a trave da casa que ruiu,

o leme do barco afundado pelo temporal

— Porque quis ser mulher no teu abraço de homem!

in Merícia de Lemos, Tangentes

 

 

A voluntariosa entrega aqui contada tem uma contraparte no esgotamento da paixão, e o poema Domingo dá dela conta:

 

 

Domingo

As aspirações mais exaltadas

em abismos profundos

separadas pela realidade do quotidiano

 

Os pequenos gestos repetidos do dia-a-dia

repetidos interminavelmente

repetidos automaticamente

repetidos necessariamente

repetidos resignadamente

repetidos cansativamente

repetidos exasperadamente

repetidos exaustivamente

repetidos inconscientemente

 

Repetido o beijo do “até logo”

é já um adeus ignorado

 

O acordar 

o adormecer

deixam-nos em abismos profundos

separadas pela realidade do ontem hoje amanhã

das ambições antigas vivas futuras

 

Nesse domingo em que eras tu o meu amor

 

Ambição de agora agora

e já

para cada folha uma gota de orvalho

que o Sena amoroso, deslizando colhe sôfrego

enlaçando Paris apaixonado lento e insistente

apertado no mesmo abraço

a mulher desmaiada

ultrapassado do orgasmo o êxtase

atingida a luxúria exasperada e pura

 

Nesse Domingo em que eras tu o meu amor

 

Ambicão ambições

de carregar as roseiras de violetas

apanhadas às mãos cheias, não importa onde

às acácias mimosas vergar os galhos

de cerejas aos cachos

dos lírios do jardim delirantes

voarem para o cipreste sentinela à porta

 

Nesse Domingo em que eras tu o meu amor

 

os melros passeavam ousados e sem medo

atrevidos na relva

nos muros as trepadeiras, estremecendo

ao canto dos pássaros em mal de bem querer

floriam em pétalas de lua e aos de espuma

fitas de olhos em laços de afecto

colares de estrelas negras na verdade branca

secretos luxos da minha ideia

renegando o tempo

 

Nesse Domingo em que eras tu o meu amor

 

Era Domingo

outro Domingo

Domingos

segunda 

terça

quarta

quinta

sexta-feira 

sábados

repetidos

os pequenos gestos do dia-a-dia

repetidos intencionalmente

repetidos carinhosamente

repetidos tristemente

repetidos raivosamente

repetidos teimosamente

repetidos dolorosamente

repetidos passivamente

repetidos distraíramo-nos

 

e o beijo do “até logo”

foi adeus definitivo

in Merícia de Lemos, 12 Poemas

 

 

Com esta finitude onde a esperança residiu aproximamo-nos do final deste périplo com dois poema: primeiro o poema Amor que citei a abrir, o qual remata com a reflexão O amor talvez seja o que do nada resta.; e a seguir o poema republicado com o título Testamento no livro Tangentes, e onde um desejo de amor pós-morten se reflecte.

 

 

Amor

De um amor morto

sepultado no tempo

surge em condensação

duma afeição rara

a beleza do abraço 

mais íntimo

mais voraz

mais nu

 

O arco-íris risca no firmamento

o desfio ao Sol

Brilha o luar mais do que a Lua

Sente-se o perfume da rosa

e não a rosa

É poesia a silenciosa

distância entre a emoção 

e o seu canto

 

É poema ainda o já poema?

 

O amor talvez seja o que do nada resta.

in Líricas Portuguesas 3.ª série

 

 

Testamento

Antes de morrer

vou dizer-te as minhas últimas vontades,

vou fazer

o meu testamento.

 

Não quero que o meu corpo vá

para jazigo ou campa rasa.

Quero, depois de bem fria,

ser incinerada

e, já em cinzas, ao vento

por ti lançada.

 

Não quero que tenhas tristeza,

mas não queria morrer sem a certeza

que terás saudades.

 

Quando vires no ar o pó

a esvoaçar,

se vier pousar em ti,

não o sacudas, deixa-o ficar.

Posso saber-te só

e ser eu a fazer-te companhia.

Se nesse momento

algum pobre te pedir, dá,

dá e sorri.

 

Tudo quanto tenho para ti será.

Deixo-te: a emoção que se condensa

e em versos se extravasa.

Deixo-te: a minha ternura imensa.

Deixo-te: os beijos que te não dei

e a felicidade que sonhei.

in Merícia de Lemos, Pássaro Preso

 

 

Termino com dois poemas: o poema-metáfora da mulher, Rosa, Rosae, e a reflexão sobre o sentido da vida em Viver.

 

 

Rosa, Rosae

Dá-me rosas, outras rosas

dá-me mais rosas amor.

 

Já olhaste bem as rosas?

Rosas-bocas rosas-olhos

e há rosas coração.

Há rosas que são sorrisos

e rosas que são paixão 

Rosa-beijo, rosa-abraços

e rosas-mãos.

 

Numa noite de luar

uma grande rosa aberta

acenou-me num jardim:

corri logo para ela

— seria a rosa-aventura?

 

Pela tarde num caminho

à hora em que o sol cansado

pensa em ir-se deitar

encontrei uma roseira

com uma rosa em botão

muitas folhas e espinhos

— e estava ali porquê?

Linda rosa cor-de-rosa,

sem saber…

in Líricas Portuguesas 3.ª série

 

 

Viver

A terra

insegurança 

de esperança de medo

motivações

os olhos tropeçando

os sentidos a desbravar

o amor a dor a alegria

o rir contente

dada ao homem

a morte no instante exacto

in Merícia de Lemos, 12 Poemas

 

 

Nota bibliográfica

Merícia de Lemos, Pássaro Preso, Lisboa, 1946, s/indicação de editora e com 3 desenhos de António Dacosta. 

Merícia de Lemos, Tangentes, Edições Ática, Lisboa, 1975. 

Merícia de Lemos, 12 Poemas, ilustrações de Cícero Dias, INCM, Lisboa, 1999.

Líricas Portuguesas 3.ª série, selecção, prefácio e apresentação de Jorge de Sena, 2 volumes, 3.ª edição, Edições 70, Lisboa, 1984.

 

Abre o artigo a imagem de um desenho de Cícero Dias (1907-2003) incluído no livro 12 Poemas.

Francisco Brines … e o ruído do mundo seja só o ruído do prazer

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No poema de Francisco Brines (1932) que hoje trago ao blog em tradução minha, faz-se o elogio do sexo ocasional:

Com um obscuro corpo,

de quem nada conheço

senão a juventude.

 

 

Não será da solidão acompanhada de um casal onde o desejo se esfumou, descrita em tantos poemas trazidos ao blog, que fala este poema, Canção dos corpos. É antes da solidão do desprendimento afectivo e da entrega ao prazer lúdico entre desconhecidos que se faz o elogio:

 

A cama está feita,

brancos os lençóis,

e um corpo se me oferece

para o amor.

 

 

Neste universo o sentimento não conta, e a felicidade tem a dimensão do efémero, desejavelmente repetivel:

Que não há felicidade

tão repetida e plena

como passar a noite,

romper a madrugada,

com um ardente corpo.

 

 

Nas variedades que o amor reveste ao longo da vida de cada um, o seu entendimento aqui descrito também cabe. Mas lá vem a hora em que a afectividade reclama os seus direitos. E deles nos falam outros poemas. Por agora eis o poema em tradução:

 

 

Canção dos corpos

A cama está feita,

brancos os lençóis,

e um corpo se me oferece

para o amor.

Abramos a janela,

entrem calor e noite,

e o ruído do mundo

seja só o ruído

do prazer.

Que não há felicidade

tão repetida e plena

como passar a noite,

romper a madrugada,

com um ardente corpo.

Com um obscuro corpo,

de quem nada conheço

senão a juventude.

 

Tradução de Carlos Mendonça Lopes a partir do original publicado em Ensayo de una Despedida, Poesía Completa (1960-1997), Tusquets Editores, Barcelona, 1997.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Vincent Arcilesi (1932), Vincent estúdio Wendy de 1967.  A pintura pertence à colecção do Hirshhorn Museum and Sculpture Garden, em Washington, e actualmente parte da Smithsonian Institution.

 

E o amor? — poema de Manuel da Silva Gayo

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Da poesia hoje merecidamente esquecida de Manuel da Silva Gayo (1860-1934) exumo dois poemas que justificam ser lembrados pela sua construção formal e originalidade temática. O assunto: o conflito entre razão e paixão. 

Ao longo do primeiro poema desenvolvem-se três momentos — nos dois primeiros quartetos uma separação amorosa e uma interrogação sobre a possibilidade da sua compreensão:

 

“E o amor? — insiste a voz — nem esse amor,

Que ainda é de dois tortura

E alto sonho já, dará valor

A tão fria amargura?

 

Não logrará o Amor ainda dar-te asas

Que te levem a ver

Duma altura de graça o fumo e as brasas

Do teu castelo a arder?”

 

 

Segue-se nos terceiro e quarto quartetos uma interrogação sobre a existência de um amor ideal, e a possibilidade de o viver se este fugir à razão:

Em vez de responder, eu só pergunto

Onde e quando nasceu

Essa alma que pudera erguer-me junto

Às portadas do céu?

 

E não serão tais núpcias, tais momentos

Um singular condão

Das almas novas, virgens dos tormentos

Que nascem da razão?…

 

 

Depois do relato e das dúvidas, a resposta vem pela aceitação desesperada da impossibilidade pessoal de conciliar o amor e a razão:

Ai! não! não tem remédio este tormento

É minha lei a dor;

Não me dá paz o sol do pensamento

Nem o luar do Amor.

 

 

Isto por culpa do que o poeta qualifica como um dom, ou seja: estando sempre em si a natureza dual humana, instinto e pensamento, observa o poeta uma sua impossibilidade de entrega incondicional com o que ela implica de esquecimento de si, decorrente de uma personalidade antropocêntrica:

— Esse dom de jamais me abandonar

Ao longo da existência;

De tudo dividir e desdobrar;

Duma dual consciência;

 

Esse dom de me ver no que possua,

De em nada me absorver,

De reduzir a mim quanto flutua

À volta do meu ser —

 

Fatal dom que, nascido já comigo,

Aumenta a cada hora,

Quanto mais eu caminho e ao longe sigo

Pela existência fora.

 

 

Esta é, na verdade, a impossibilidade do amor total, ou seja, um amor sem contabilidade de reciprocidades, nem espaço para o desenvolvimento da individualidade, e em grande medida associado ao entendimento da posse total e absoluta do outro.

 

 

Eis o poema na sequência original:

 

 

“E o amor? — insiste a voz — nem esse amor,

Que ainda é de dois tortura

E alto sonho já, dará valor

A tão fria amargura?

 

Não logrará o Amor ainda dar-te asas

Que te levem a ver

Duma altura de graça o fumo e as brasas

Do teu castelo a arder?”

 

Em vez de responder, eu só pergunto

Onde e quando nasceu

Essa alma que pudera erguer-me junto

Às portadas do céu?

 

E não serão tais núpcias, tais momentos

Um singular condão

Das almas novas, virgens dos tormentos

Que nascem da razão?…

 

Ah! quer suspire ao céu do puro Amor

Quer no lodo rasteje

É sempre o mesmo o mal, a mesma a dor

Que o meu destino rege:

 

— Esse dom de jamais me abandonar

Ao longo da existência;

De tudo dividir e desdobrar;

Duma dual consciência;

 

Esse dom de me ver no que possua,

De em nada me absorver,

De reduzir a mim quanto flutua

À volta do meu ser —

 

Fatal dom que, nascido já comigo,

Aumenta a cada hora,

Quanto mais eu caminho e ao longe sigo

Pela existência fora.

 

Ai! não! não tem remédio este tormento

É minha lei a dor;

Não me dá paz o sol do pensamento

Nem o luar do Amor.

in Novos Poemas, ed. do autor, Coimbra, 1906.

 

 

Numa espécie de epílogo às interrogações formuladas no poema anterior, o livro Novos Poemas termina com um soneto, Diálogo, dando-se nele conta de como a razão compreende os assuntos do coração, e os desvarios a que ele pode conduzir:

Mas a Razão, serena, respondeu:

“Descansa, Coração, se me traiste,

Já meu alto ditame te absolveu,

 

Pois li sempre — através do que tentaste —

Na mentira de quanto possuíste 

A verdade de quanto desejaste”.

 

Poema

 

Diálogo

Disse-me um dia à mente o Coração

“Quando lembro que aos fogos da Quimera

Teu amor imolei, fria Razão,

Logo um vago terror me aflige e altera;

 

Porque temo não vás, fada severa,

Para agora punir minha traição,

De teu porto negar-me a paz austera

Ao ver-me naufragante da ilusão!”

 

Mas a Razão, serena, respondeu:

“Descansa, Coração, se me traiste,

Já meu alto ditame te absolveu,

 

Pois li sempre — através do que tentaste —

Na mentira de quanto possuíste 

A verdade de quanto desejaste”.

Coimbra, abril de 1902

 

 

Dos tempos de Coimbra como estudante, publicou antes Manuel da Silva Gayo o livro Poesias (1892), com o qual pretendia despedir-se em definitivo da poesia, o que vimos, não aconteceu. Nele inclui o que chamou Canções do Mondego, com assuntos de alguma forma cristalizados na poesia oitocentista, e uma e outra vez repetidos nas versalhadas de memórias coimbrãs do passado. Entre eles as variadas visões de moças do povo, tricanas, fascínio dos estudantes universitários que todos os anos enchiam a cidade. Desse livro exumo parcialmente o poema A Vizinha, história de uma bela tricana, escrito em quadras rimadas de sete sílabas, transmitindo um sabor popular, adequado ao diz-que-disse das aparências e julgamentos sem base que o poema descreve.

 

 

A Vizinha

Se assomava entre os craveiros 

que o seu peitoril bordavam

todos na rua gabavam 

aqueles olhos trigueiros.

 

Cantava sempre, talvez 

para as mágoas espalhar,

porque assim faz, muita vez,

quem passa a vida a pensar.

 

E se havia quem dissesse:

“Não leva vida de moura, 

pois canta ao raiar da aurora 

e canta até que anoitece”.

 

Quando os seus olhos erguia,

um momento, da costura, 

a luz que neles sorria 

era feita de amargura.

 

Um poeta enamorado 

da costureira vizinha, 

só para cantá-la tinha 

aulas e livros deixado.

 

E ouvi mesmo, — a quem não sei —

que um doutor de teologia, 

e velho doutor da Lei,

— profundo em quanto sabia —

 

de tal modo se prendera 

no encanto daquele olhar,

que, só de nele pensar,

— toda a ciência perdera.

 

Por ela — flor das trigueiras, 

entre as moças cobiçadas —

se ouviam noites inteiras 

descantes e guitarradas.

 

Mas ninguém lograra ainda 

descobrir a quem amava 

aquela tricana linda 

que à janela costurava.

 

Constou-me, no entanto, um dia 

que aquela doce morena 

com seu cantar encobria 

segredo de íntima pena, 

 

história triste… de amores 

que a morte cortara breve 

como uma chuva de neve 

crestando um campo de flores.

 

E ainda havia quem dissesse:

“Não leva vida de moura, 

se canta ao raiar da aurora 

e canta até que anoitece!”.

 

— Dá muita sentença louca 

quem dá de tudo razão,

pois muita vez canta a boca 

quando chora o coração.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Alexej von Jawlensky (1864-1941) Retrato de Rapariga (1909).

 

 

 

O coração dividido — sonetos de Alvarenga Peixoto e Tomás António Gonzaga

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As histórias à volta das poesias que hoje transcrevo envolvem três rapazes mais ou menos da mesma idade (nascidos em 1742/44). Mas antes faço uma pequena digressão.

Acontece-me, se tenho pouco tempo disponível, tirar um livro da estante ao acaso, ler por um bocado, e quando preciso ir à vida, volta para o lugar. Se, entretanto algo me chamou a atenção, deixo um sinal, geralmente um post-it ou uma tirinha de papel. Podem passar-se anos até que volte ao livro, o que, com os autores de hoje aconteceu. Encontrado assinalado o poema de Alvarenga Peixoto (1742-1793), um soneto (1) que a seguir transcrevo, sobre um coração dividido, ocorreu-me uma canção há anos famosa numa interpretação do cantor de flamengo Diego el Cigala, Corazón loco. Irresistível na sincera angústia com que o artista relata o coração dividido entre dois amores, e a subjacente convenção moral de amar apenas uma de cada vez. Nunca deixo de sorrir ao ouvi-la, e sobretudo ao ver a sua interpretação num vídeo de um concerto ao vivo com Bebo Valdés em Maiorca, filmado com mão de mestre por Fernando Trueba.

A natureza polígama do género humano é uma evidência biológica que tarda a fazer o seu caminho moral e social, com o cortejo de angustias e infelicidade que acompanham tanta gente, e são matéria frutífera para a ficção romanesca de todos os tipos.

Voltando ao soneto, temos assim que o poeta se sente atraído por uma Jónia e por uma Nise. E é essa luta pela necessidade da monogamia que o poema relata, levando o pobre homem de coração dividido a rematar:

Vem, Cupido, soltar-me destes laços:

Ou faze destes dois um só semblante, 

Ou divide o meu peito em dois pedaços!

 

 

Este mesmo problema tem o amigo de Alvarenga Peixoto, Tomás António Gonzaga (1744-1810), que num outro soneto(2), há anos transcrito no blog, se divide na atracção entre uma Alteia e uma Dirceia, e perante o mesmo dilema pede:

Cupido, se tens dó de um triste amante,

Ou forma de Lorino dous sujeitos,

Ou forma desses dous um só semblante.

 

 

Para o mesmo pedido encontraram os dois poetas diferentes soluções versificatórias.

 

 

Aventa o editor da edição crítica da obra destes dois poetas,  M. Rodrigues Lapa, que a Alteia que partilha o coração dividido de Gonzaga, deve ser a mesma Altea por quem Alvarenga Peixoto parece estar caído de amor não correspondido, o que este relata num outro soneto (3) do livro. Diz o editor que, sendo os poetas amigos, e vivendo na mesma cidade, não é improvável serem atraídos pela mesma mulher. Talvez! Não esqueçamos que os nomes escolhidos são mais vezes determinados por razões de rima e métrica que por correspondência humana.

Transcrevo a seguir os sonetos. A numeração entre () permite identificar os sonetos referidos no texto.

 

 

Primeiro os 2 sonetos do coração dividido:

 

 

Soneto  6 de Alvarenga Peixoto (1)

Eu vi a linda Jónia e, namorado,

Fiz logo eterno voto de querê-la; 

Mas vi depois a Nise, e é tão bela, 

Que merece igualmente o meu cuidado. 

 

A qual escolherei, se, neste estado 

Eu não sei distinguir esta daquela? 

Se Nise agora vir, morro por ela,

Se Jónia vir aqui, vivo abrasado. 

 

Mas, ah! que aquela me despreza, amante, 

Pois sabe que estou preso em outros braços, 

E aquela me não quer por inconstante. 

 

Vem, Cupido, soltar-me destes laços:

Ou faze destes dois um só semblante, 

Ou divide o meu peito em dois pedaços!

 

 

Soneto 15 de Tomás António Gonzaga (2)

É gentil, é prendada a minha Altéia;

As graças, a modéstia do seu rosto

Inspiram no meu peito maior gosto

Que ver o próprio trigo quando ondeia.

 

Mas, vendo o lindo gesto de Dircéia,

A nova sujeição me vejo exposto;

Ah! que é mais engraçado, mais composto

Que a pura Esfera, de mil astros cheia!

 

Prender as duas com grilhões estreitos

É uma acção, (ó Deuses), inconstante,

Indigna dos sinceros, nobres peitos.

 

Cupido, se tens dó de um triste amante,

Ou forma de Lorino dous sujeitos,

Ou forma desses dous um só semblante.

 

 

Agora a paixão não correspondida de Alvarenga Peixoto pela Alteia do soneto anterior (?), e por quem Gonzaga tem o coração dividido:

 

Soneto 7 de Alvarenga Peixoto (3)

Não cedas, coração; pois nesta empresa 

O brio só domina; o cego mando 

Do ingrato Amor seguir não deves, quando 

Já não podes amar sem vil baixeza: 

 

Rompa-se o forte laço, que é fraqueza 

Ceder a amor, o brio deslustrando; 

Vença-te o brio, pelo amor cortando, 

Que é honra, que é valor, que é fortaleza.

 

Foge de ver Altea; mas se a vires, 

Porque não venhas outra vez a amá-la, 

Apaga o fogo, assim que o pressentires; 

 

E se inda assim o teu valor se abala, 

Não lho mostres no rosto, ah, não suspires!

Calado geme, sofre, morre, estala! 

 

 

Não termino sem uma nota à recorrente preterição amorosa relatada por Alvarenga Peixoto na sua poesia. Se acima foi Altea, desta vez é uma Jónia, que segundo o editor M. Rodrigues Lapa, terá preterido o nosso poeta Alvarenga em favor de José Anastácio da Cunha (1744-1787), também ele poeta, além de cientista notável, e cuja poesia também pode ser encontrada no blog (ex: Uma ode ao orgasmo simultâneo e a tradução da carta de Heloisa a Abelardo por Pope).

Guarda este soneto de Alvarenga Peixoto o comovente verso com que termina:

… dia de vitória / Sempre o mais triste foi para os vencidos!

 

Soneto 13 de Alvarenga Peixoto

Ao mundo esconde o Sol seus resplendores,

E a mão da noite embrulha os horizontes;

Não cantam aves, não murmuram fontes,

Não fala Pã na boca dos pastores.

 

Atam as Ninfas, em lugar das flores,

Mortais ciprestes sobre as tristes frontes;

Erram chorando nos desertos montes,

Sem arcos, nem aljavas, os Amores.

 

Vénus, Palas e as filhas da Memória,

Deixando os grandes templos esquecidos,

Não se lembram de altares nem de glória.

 

Andam os elementos confundidos:

Ah, Jónia, Jónia, dia de vitória

Sempre o mais triste foi para os vencidos!

 

 

Nota bibliográfica

Poemas transcritos de:

— M. Rodrigues Lapa, Vida e Obra de Alvarenga Peixoto, Instituto Nacional do Livro, Rio de Janeiro, 1960.

Tomás António Gonzaga, ed. crítica de M. Rodrigues Lapa, Instituto Nacional do Livro, Rio de Janeiro, 1957.

Adoptei a maiúscula a iniciar em cada verso, como segue a edição A Poesia dos Inconfidentes, Poesia Completa de Cláudio Manuel da Costa, Tomás António Gonzaga e Alvarenga Peixoto, Editora Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 2002.

Pontualmente esta edição diverge da lição de M. Rodrigues Lapa. Adoptei sempre a escolha deste último.

Abre o artigo a imagem de um reunião de família pintado por Jean-Frédéric Bazille (1841-1870), de 1867, pertença da colecção do Museu de Orsay, Paris.

Um soneto de João António dos Santos

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Um peito em fogo ardente incendiado

Qual jamais existiu, por ti se inflama,

 

Que tal como declaração de amor?

Há uma geração de vozes poéticas nascidas em finais do século XVIII e formadas no que talvez se possa chamar uma escola bocagiana, cuja obra ao ser publicada em pleno romantismo ou mesmo já em florescimento do pós-romantismo associado a O Trovador, por fora de época, foram e permanecem completamente ignoradas. Escapou Pato Moniz (1781-1826) graças ao seu poema herói-cómico Agostinheida onde zurzia José Agostinho de Macedo (1761-1831). Mas da poesia original de um José Maria da Costa e Silva (1788-1854), ou mesmo de um Francisco Evaristo Leoni (1804-1874), nomes que ainda ressoam graças a estudos literários notáveis, ou ainda João António dos Santos (1791-1837) de quem hoje transcrevo um poema, nada se conhece.

Da poesia de João António dos Santos escreve Inocêncio no seu Dicionário Bibliográfico: “… os seus versos são fluentes, e bem medidos, e a sua metrificação sempre cadente, e harmoniosa; posto que às vezes retumbante em demasia. …”. Não será o retumbante que encontramos no soneto que a seguir transcrevo, mas sim a metrificação harmoniosa.

Trata o soneto de uma apaixonada declaração de amor e fidelidade tanto na ventura como na adversidade. Já estamos longe da volubilidade amorosa da poesia neo-clássica exemplificada nos sonetos gémeos de Alvarenga Peixoto e Tomás António Gonzaga que proximamente trarei ao blog. Neste soneto é a continuidade da poesia amorosa maneirista devedora de Camões e seus herdeiros que encontramos.

 

Soneto

Um peito em fogo ardente incendiado

Qual jamais existiu, por ti se inflama,

Um peito, que no mundo a ti só ama

Em ti deve encontrar benigno agrado.

 

Se contra mim se armar adverso fado

Tentando amortecer dest’alma a chama,

Debalde lida, que a paixão me clama

Amar-te, ou venturoso, ou desgraçado.

 

Tudo caduca: meu amor não passa…

Com o sangue tanto afecto rubricara…

A tal paixão propicia amor te faça!

 

Se num trono da terra eu dominara, 

E tivesses nascido em sorte escassa,

O trono, por gozar-te, abandonara.

 

in José António dos Santos, Ensaios Poéticos, Imprensa de Cândido António da Silva Carvalho, Lisboa, 1836.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Guido Reni (1575-1642), Baco e Ariadne (1620), da colecção do LACMA (Los Angeles County Museum of Art). A pintura actualmente está fora de exposição.

Levados pelo poema a ler a imagem, longe do seu propósito original, poderíamos pensar que perante a indiferença, se não mesmo alheamento da dama, face a tão ardente declaração, o rapaz está verdadeiramente estupefacto, a ponto de ficar completamente desmotivado no seu ardor.

Eros na praia — poemas de Dórdio Guimarães

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Hoje      há um melancólico mar

que afeiçoa tuas coxas jovens

de mulher

 

Na ternura da pensativa tarde

nua e só

teus olhos cantam uma canção que se vê

 

triste

do Poema 9

 

 

Os amores de Verão, quando vividos na juventude, ainda que efémeros, acompanham-nos vida fora como momentos de vivida felicidade absoluta. Já por mais de uma vez aqui o referi e é sempre agradável lembrá-lo. E hoje a lembrança vem a pretexto de alguns poemas de um livrinho de juventude de Dórdio Guimarães (1938-1997).

É erótica a poesia de Dórdio Guimarães de que tenho notícia. Com a obra publicada em vários pequenos livros, alguns são hoje raros. É de um desses livros em edição de autor, tinha o poeta 22/23 anos, Mar de Verão (1961), que hoje transcrevo alguns poemas. 

Há o longo perfume do amor

no teu corpo.       a vibrar

voluptuoso.      em estertor

como um pássaro.      na dor

do poema 17

 

 

São poemas/relato do incêndio de uma paixão de verão, sem o rebuscado da linguagem poética que mais tarde a sua poesia veio a conhecer, (talvez influência de Natália Correia com quem posteriormente foi casado, e é exemplo maior o longo poema que esta escolheu para encerrar a Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica).

Estes poemas de juventude, raros pela franqueza dos relatos, e incomuns na poesia portuguesa onde à época o pudor era rei, dir-se-á, não são obras-primas! Não são. Mas são poemas que preenchem um vazio no panorama da poesia erótica em Portugal, tão rara dela, e onde a linguagem dá conta do calor dos corpos em desejo, sem eufemismos ou vulgaridades.

Poema 16

No silêncio destes corpos mudos

desce o tempo      hora a hora       lento

manto submarino      de algas   

sargaços      peixes azuis

objectos vivos ou inúteis

do estranho mundo desolado

do pensamento

 

suavemente        liquidamente

um sol de fogo no mar arrefecia

um seio teu cedia        à minha boca humedecida

distante        violeta

o grasnar de uma gaivota desaparecia

no imenso dia que morria

 

e nós

nós dramaticamente

abstractos no espaço

sem cansaço

amando as nossas carnes

insignificantemente

 

 

Poema 14

Pela primeira vez       os dois

vivemos a narrativa do mar      prometido

 

Pela primeira vez       os dois

nus         raciocinados

vivemos o ardor

do sal viajando o sangue

 

a pureza do vento desalinhando

estes cabelos rígidos da cidade

a memória do tempo dissipada

pela repetição das ondas      na harmonia da praia

 

Nossos olhos são uma janela aberta

 

Pela primeira vez        os dois

originais

vivemos no mar        a descoberta!

 

 

Já com outra maturidade poética são estes dois poema do livro Os Cinco Sentidos de Lisboa, Galeria Panorama, Lisboa, 1970, com que termino esta volta.

 

Dois Poemas

 

1

como guelras abertas

a todo o comprimento dos corpos

os amantes bebem-se babam-se

cospem-se respiram-se

 

lisboa é o lençol a colcha

talvez a coxa do outro

e o tejo é mais azul

que a química do ar

 

aquilo irrequieto que escoicinha

quieto o potro

 

2

luxo de pérolas a abrir

te amacia o asfalto

e pernas brancas de fêmea

te apelam de salto alto

se excita o útero vulcânico

seu ciciar de granito

vagina imensa que solta

no tejo a voz do apito

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Tom Wesselmann (1931-2004), Seascape No. 22, 1967, colecção do artista.

 

A uma passante pós-baudelairiana — poema de Carlito Azevedo

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Leitores assíduos do blog já saberão que gosto de poemas que captam a fugacidade da vida, a revelação do instante e seu efémero, dando tantas vezes sentido ao vazio dos dias, fazendo entrever outra vida possível, outros amores. Assim o poema de Carlito Azevedo (1961) A uma passante pós-baudelairiana que a seguir transcrevo.

 

 

A uma passante pós-baudelairiana

Sobre esta pele branca

um calígrafo oriental

teria gravado

sua escrita luminosa

— sem esquecer entanto

a boca: um ícone em rubro

tornando mais fogo

o céu de outubro

 

tornando mais água

a minha sede

sede de dilúvio —

 

Talvez este poeta afogado

nas ondas de algum danúbio imaginário

dissesse que seus olhos são

duas machadinhas de jade

escavando o constelário noturno

(a partir do que comporia

duzentas odes cromáticas)

 

mas eu que venero mais que o ouro-verde raríssimo

o marfim em alta-alvura

de teu andar em desmesura sobre

uma passarela de relâmpagos súbitos

sei que tua pele pálida de papel

pede palavras de luz

 

Algum mozárabe ou andaluz decerto

te dedicaria um concerto

para guitarras mouriscas e

cimitarras suicidas

 

Mas eu te dedico quando passas

me fazendo fremir

 

(entre tantos circunstantes, raptores fugidios)

 

este tiroteio de silêncios

esta salva de arrepios.

 

de Collapsus Linguae, Lynx, Rio de Janeiro, 1991.

 

 

É inevitável ao ler este poema ouvir cantar-nos no ouvido o balancear daquela Garota de Ipanema descrita por Vinicius de Moraes (1913-1980), e para a eternidade posto em música por António Carlos Jobim (1927-1994), ocupando todo o espaço da imaginação possível, deixando quem as vê passar, pós-baudelairianas, ou outras, entre tiroteios de silêncios e salvas de arrepios, como brilhantemente remata Carlito Azevedo a concluir o seu poema. Como curiosidade refiro que este Garota de Ipanema foi composto por alturas do nascimento de Carlito Azevedo. E assim, uma vez mais, assistimos ao eterno retorno das paixões dos homens e da sua poesia. É óbvio que, pelo título, e argumentação, o poema de  Carlito Azevedo já apelava a uma filiação/descendência ancorada a toda a tradição lírica do mundo com influência na cultura ocidental, associando-o à universalidade e intemporalidade do frémito da beleza feminina nos homens.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura, acrílico s/tela, de Brian Elston, Nude 580 de 2008, de colecção particular.

Andrzej Morsztyn — Contigo, à Meia-Noite o sol fulgura

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Sem ti amiga, o tempo vai tão lento 

que um Dia me parece mais que um Ano!

 

Se o tempo e a sua variada duração consoante os estados de alma é assunto recorrente em poesia, quando surge a presença/ausência da amada, entramos nos extremos mais pitorescos, como acontece neste poema de Jan Andrzej Morsztyn (1621-1693), poeta polaco do período barroco, que citei a abrir, e a seguir se lerá em versão portuguesa de David Mourão-Ferreira. O assunto deste poema … Sem ti, amiga, Inverno carrancudo / se me figura o mais risonho Estio. / …, remete para o soneto 97 de Shakespeare (1564-1616), que lhe é anterior, o qual já antes trouxe ao blog:

Que nudez de Dezembro em tudo havia. 

O tempo assim negado era de verão, 

 

Apesar da evidente quase citação de Shakespeare, nesse seu soneto lemos uma lamentação pela ausência do ser amado, enquanto o poema de Jan Andrzej Morsztyn pelo contrário, é uma manifestação de desejo e sedução até ao êxtase e que encontramos  explicitada já no final do poema, no verso — Contigo, à Meia-Noite o sol fulgura. —, assumindo que a noite é o refúgio dos amantes, e tempo de todas as delícias. A metáfora do Sol como sinónimo de prazer sublime ganha todo o seu significado  se pensarmos quanto na latitude da Polónia gozar o Sol é um prazer raro e escasso. Nos países do Sul onde o Sol brilha por vezes até à inclemência, a metáfora pode não ter tanta acutilância.

 

 

Poema

Sem ti amiga, o tempo vai tão lento 

que um Dia me parece mais que um Ano!

Mas contigo a meu lado voa o tempo,

e um Ano é uma Hora ou até nem tanto.

 

Sem ti, amiga, Inverno carrancudo 

se me figura o mais risonho Estio. 

Mas a teu lado o V’rão domina tudo,

mesmo tempo em que os lobos têm frio…

 

Sem ti, o Meio-Dia é noite escura.

Contigo, à Meia-Noite o sol fulgura.

E assim posso dizer-te, com certeza,

que reduzes ao nada a Natureza!

 

Versão portuguesa por David Mourão-Ferreira.

in Imagens da Poesia Europeia II, Colóquio Letras 168/169, FCG, Lisboa.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Ivan Kramskoi (1837-1887), Jovem no campo numa tarde de Verão, da colecção do museu estatal de arte de Nizhny-Novgorod.

Com a escolha da imagem desta bela jovem no meio da natureza espero ilustrar a possibilidade da afirmação final do poema:

E assim posso dizer-te, com certeza,

que reduzes ao nada a Natureza!

 

 

 

Obscenidades poéticas oitocentistas

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Começo por clarificar o assunto subjacente ao título do artigo: as poesias que hoje transcrevo e qualifico como obscenas referem-se a práticas sexuais recorrendo a um vocabulário procaz, ou seja, um vocabulário que choca, ou talvez ofenda, apenas isso. Estão assim os leitores que prossigam avisados.

Comparada com outras literaturas, a produção poética antiga de conteúdo obsceno conhecida em português com um mínimo de qualidade formal, é escassa. Hoje, dessa escassez trago três exemplos.

Começo com uma espécie de manifesto por João Penha (1838-1919) sobre o primado da cópula em detrimento de outras práticas sexuais, poema até há pouco inédito. 

Escrito no que chamaria uma espécie de soneto curto, pois na métrica é uma redondilha menor, no desenvolvimento do assunto respeita a regra do soneto com apresentação do assunto, desenvolvimento, e conclusão ou chave de ouro. Isto em quatorze versos, dois quartetos e dois tercetos, com rima abab abba aba bab. Ei-lo:

*

A foda, a luxuria, 

No doce orifício 

Que terna lamúria, 

Que brando exercício! 

 

A mão, que penúria! 

O cú para o vicio 

Cono ficticio 

De Venus espúria. 

 

Ao leito morena, 

Requebros agora 

A noite é pequena. 

 

Meu Deus, que demora, 

Ó filha tem pena 

Da porra que chora. 

João Penha, 1879

 

Agora um soneto, diria canónico na forma: verso decassilábico, desenvolvimento do assunto dentro do esquema que referi acima, e a mesma sequência de rima. O assunto que hoje, em tempos de adolescência retardada, seria matéria de polícia, não espantaria o século XIX pela idade da protagonista.

 

Soneto

Linda pequena de quatorze estios, 

mas já crescida em corpo e maroteira,

co’a nivea mão de jaspe tão veleira*

dez caralhos por noite põe vazios.

 

Com que garbo ela embala os mais esguios!

Como ela afia os grossos prazenteira!

Ó!… Não há quem a branca pingadeira 

veloz tire com modos mais macios!

 

Um dia arremeteu-a tal furor 

ao sopesar um membro de pau-santo, 

que disse, erguendo as saias com ardor

 

e mostrando da porra o doce encanto:

— Mete-mo todo aqui, meu lindo amor

que é pra quando eu casar não custar tanto.

*rápida

Anónimo séc. XIX

 

À linearidade sexual acima descrita, acrescento um soneto de complexa leitura sexo-comportamental, certamente merecedora de divã psicanalítico.

Notável na originalidade da escrita e factura formal, apenas na sonoridade da língua hoje, a rima entre o primeiro e o quarto verso pode surgir menos consonante do que devia. Não sabemos se tal seria o caso à data da composição do poema.

 

Soneto

Dum frade franciscano aos sacros pés, 

Dizia de confesso a meia voz 

Um tal pintor de nome; e o frade a sós 

Saboreava o conto do freguês:

 

— A Vénus que pintei é duma vez,

É digna dum fodão tal como vós!…

Que imensa pentelheira!,… Aqui pra nós,

eu já me ponho nela há mais de um mês. 

 

— Mas…; valha-me S. Pedro, mais S. Brás!

(Rosna o frade coçando no nariz),

A porra não lhe doi? Isso não faz…

 

— Nada!…frei Julião, (o artista diz).

Não, que eu tenho cuidado em pôr atrás

o rechonchudo cu dum aprendiz.

Anónimo séc. XIX

 

Por hoje chega de escândalo para os leitores mais sensíveis ou austeros e selectivos sobre que deve tratar a poesia.

Abre o artigo a imagem de uma escultura de Constantin Brancusi (1876-1957), Princess X de 1915. Pretende-se que, apesar da forma fálica, a escultura evoca Marie Murat Bonaparte, o seu pescoço curvado e a cabeça, que constantemente olhava num espelho que transportava. Ironias que ajudam a sublinhar a variedade poética do artigo.