Da incontinência fotográfica dos nossos dias ao burkini

beduína 500pxPerante a incontinência fotográfica dos nossos dias, parece desnecessário um Dia Mundial da Fotografia.
Cada humano com acesso à tecnologia de hoje, possui uma câmara fotográfica, se não duas, três, ou mais. Olha, dispara, fotografa-se a si, fotografa ao redor, e fica feliz.

Poucos gestos com a tecnologia na mão darão mais prazer que o gesto de fotografar, daí o seu sucesso. E é acumular fotografias até à mais absoluta indiferença, sobre o que foi um prazer sobreposto a outros.
Passear, olhar em redor, desfrutar do que se vê? Não! Fotografar para ver mais tarde em quadradinho o que podia ter sido contemplado na magnificência do real. Deste fenómeno hodierno, turistas japoneses e chineses são o requinte máximo.


Há tempos, numa pausa de passeio, enquanto bebericava uma cerveja, duas amigas que me acompanhavam, mostravam-se fotos. As fotos passavam, trá-lá-lá, e a certa altura diz uma:
— Isto nunca mais acaba. Só neste telemóvel tenho mais de oito mil fotos!
Responde a outra com um misto de inferioridade e inveja na voz:
— Eu pouco mais tenho que seis mil!


A fotografia familiar como preservação de memória é uma aquisição tecnológica preciosa para as nossas vidas. Já a memória fotográfica dos lugares nos moldes correntes hoje, com o pico Facebook que se conhece, tenho dúvidas. E não falo dos casos extremos que o NYT referia há dias em crónica, de gente que se faz fotografar em férias por fotógrafos pagos, com o propósito de obter fotos glamorosas e publicá-las no Facebook para amigo ver, mas do vai aqui, foto no Facebook, vai ali, foto no Facebook!

 

Acontece que o fotografar turístico pode ter consequências sociais e políticas sérias como o que recentemente aconteceu em praias francesas. Ao que li na imprensa, a reacção francesa ao uso de burkini nas praias, com a sua proibição em algumas, decorreu dos tumultos desencadeamos em praia da Córsega quando turistas fotografaram mulheres banhistas em burkini.
Este burkini enquanto vestimenta de banho nada tem a ver com a burqa, a qual, como traje de ofensa pública, pode ser discutida nos mesmos termos que o circular nu em locais públicos coloca: que limites aceitamos no convívio social entre desconhecidos.
O burkini, no entanto, é a meu ver, elegante e sexy. Quando agarrado ao corpo, desenhando as formas de mulher, permite expôr uma elegância equivalente a um traje de surf ou pesca submarina, quando o corpo a tem. Bastante melhor que as camisas de noite qua ainda hoje as festeiras do dia de São João da Degola levam para o mar e depois do banho permanecem molhadas e agarradas ao corpo em sedutoras formas rugosas. Literariamente Manuel Teixeira-Gomes dá desta festa na Praia da Rocha, em Portimão, no Algarve, uma voluptuosa descrição, penso que em Inventário de Junho, mas aqui em férias não o posso confirmar.

Se esta festa de S. João da Degola era dos momentos mais esperados em finais de Agosto nas férias na praia da minha adolescência, a primeira vez que me cruzei com mulheres em burkini, foi bastante mais tarde, há alguns anos apenas, numas férias no Egipto. Do meu ponto de vista, estes burkinis contribuem para dar variedade à paisagem humana das praias introduzindo uma nova ocupação do olhar naquele nada que fazer que é estar à beira-mar.

 

Num meio caminho entre a burqa e o burquini, deixo-vos a fotografia de abertura desta conversa de férias onde espreita o olhar atrevido de uma bela egípcia que fotografei ao tempo dessas férias no Egipto.

beduína- o olhar

Paixão que teima num soneto da Viscondessa de Balsemão

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Tamara de Lempicka - Mulher à guitarra (detalhe) 600pxAbro um parêntesis no sobressalto dos dias para trazer mais uma perspectiva sobre o amor, desta vez sobre a escravidão da paixão, aqui num relato da Viscondessa de Balsemão (1749-1816):

 


Só por ti vivo, só por ti respiro;
Sairá com a minha alma em pranto envolto,
Teu nome unido ao último suspiro.

 

 

 

A Viscondessa de Balsemão figura entre a legião de poetas pré-românticos cuja obra se encontra esquecida entre manuscritos inéditos e edições da época inacessíveis. Entre esta herança poética, serão muitos os poemas banais ou dignos do silêncio do esquecimento, mas entre eles surgem por vezes algumas pérolas, como o soneto que hoje transcrevo.
Nele se dá conta do absoluto da paixão amorosa, mesmo quando a relação se quebra:

 

 

Inda existe, cruel, inda em meu peito
Se nutre da paixão o fogo activo;
Inda contra o meu gosto por ti vivo,
Fazendo o sacrifício mais perfeito.

 

 

A seguir refere o soneto como ela se agarra à pele e não larga, fazendo o apaixonado rebolar-se no prazer da sua dor:

 


Inda te adoro, ainda te respeito
Vendo em ti de meus males o motivo,
Porém o coração de amor cativo,
No cativeiro vive satisfeito.

 

 

Mais à frente regista o poema como naquele vai-vem do querer e não querer se alimenta o fogo da paixão:

 


Se às vezes contra ti queixumes solto,
Do que fiz insensato então me admiro
E aos meus antigos sentimentos volto.

 

 

Percorridos que estão os caminhos que o(a) apaixonado(a) atravessa quando escravo(a) da paixão, resta a leitura integral do soneto:

 

 

Inda existe, cruel, inda em meu peito
Se nutre da paixão o fogo activo;
Inda contra o meu gosto por ti vivo,
Fazendo o sacrifício mais perfeito.

Inda te adoro, ainda te respeito
Vendo em ti de meus males o motivo,
Porém o coração de amor cativo,
No cativeiro vive satisfeito.

Se às vezes contra ti queixumes solto,
Do que fiz insensato então me admiro
E aos meus antigos sentimentos volto.

Só por ti vivo, só por ti respiro;
Sairá com a minha alma em pranto envolto,
Teu nome unido ao último suspiro.

(Misc. Poética. Jornal de poesias inéditas, p15)

 

 

Transcrito de Zenóbia Collares Moreira, O Lirismo Pré-Romântico da Viscondessa de Balsemão,  Edições Colibri, Lisboa, 2000.

 

 

 

Abre o artigo a imagem do detalhe de uma pintura de Tamara de Lempicka (1898-1980)Mulher à guitarra.

Da Morte em dois poemas de Emily Dickinson

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Rousseau, Henri (1844-1910) - Guerra 600pxFelizmente, o meu ânimo prazenteiro sobrepõe-se rápido aos desastres da vida, e quando me sento a escrever para o blog são as coisas agradáveis que me apetecem, ainda que uma ou outra mais negra por vezes se introduza.
A política não nos larga, e a pretexto dela, ou seja, de um ou alguns pretenderem escolher por nós o que nos fará felizes, esses mesmos vão semeando a morte nas calçadas. Acreditam no que este poema Emily Dickinson (1830-1886) refere:

 


Morrer — sem ser Morrendo
E sem a Vida — viver
O mais árduo Milagre
Que se propõe a Fé.

 


Pensar na morte, reflectir sobre o efémero dos dias, sobre a fragilidade do que até há pouco tomámos por seguro, é hoje uma inevitabilidade. E no entanto, a força da vida rapidamente nos tenta a levantar cabeça, e num encolher de ombros seguir em frente. Felizes os que o conseguem.

Num outro doloroso poema Emily Dickinson regista lapidarmente a sucessão entre a morte e o esquecimento dela, e que viveremos passadas as primeiras emoções:


Um Laço mais escuro — por um dia —
Um crepe no Chapéu —
E vem então a bela luz do sol —
E ajuda-nos a esquecer —

 

Neste poema, em três curtas quadras percorremos o quadro, no que à morte respeita, da dor pessoal, da vida em sociedade, e do mistério da fé cristã:

 


Morrer — é muito breve —
Dizem que não dói —
É só desfalecer — a pouco e pouco —
Depois — nada se ver —

Um Laço mais escuro — por um dia —
Um crepe no Chapéu —
E vem então a bela luz do sol —
E ajuda-nos a esquecer —

A criatura — mística — e distante —
Que só por nosso amor —
Fora dormir — nesse perfeito tempo —
E de cansaço ausente —

 

in Emily Dickinson, Duzentos Poemas, tradução, belíssima, posfácio organização e de Ana Luísa Amaral, Relógio D’Água Editores, Lisboa 2014.

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Henri Rousseau (1844-1910), Guerra.

Um poema de A Primavera de Francisco Rodrigues Lobo

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HILLIARD, Nicholas 1547-1619 - miniatura sobre pergaminho 1588 300pxSabemos todos que as horas não têm sempre a mesma duração. E se as horas de prazer voam ligeiras, as de espera, ansiedade, desgosto ou desengano, de dilatadas, parecem eternidade.
Dessa variabilidade da duração do tempo em função de estados de alma nos fala o poema de Francisco Rodrigues Lobo (1580-1621) que a seguir transcrevo.
Se esta reflexão poética é de todos os tempos, as quatro oitavas que seguem têm a particularidade de glosar o primeiro quarteto de um soneto arqui-popular à época — Horas breves do meu contentamento — de autoria desconhecida, e a certa altura também atribuído a Camões, e no qual, com algumas nuances, esta mesma reflexão se escreve.
Ao soneto e às suas variadas versões irei proximamente. Por agora entrego-vos ao poema de Francisco Rodrigues Lobo.

 

 

Se sois, horas, da mesma natureza
Do tempo vão que passa e não se sente,
Como só no meu mal tendes firmeza
E tomais natureza diferente?
Como assim não fugis desta tristeza
E desta vida em tudo descontente,
Se mais leves fugis que o leve vento,
Horas breves do meu contentamento?

Quanto para saber-vos me faltava
Naquele breve espaço que vos vi!
Como do tempo então me descuidava,
Cuidei que todo fosse sempre assi.
Quanto fugia o bem e o mal durava
Pareceu-me depois que vos perdi.
Porque amor a meu mal tudo encaminha,
Nunca me pareceu quando vos tinha.

Ai duros, rigorosos desenganos,
A que tempo cortais minha esperança!
Saber que em tanta pena, em etantos danos
O mal só dura, o bem nunca descansa!
Horas que para o mal durais mil anos
E em meu gosto fazeis logo mudança,
Quão mal imaginara esta alma minha
Que vos visse mudada tão asinha!

Tudo em vós se trocou, tudo é mudado,
A vida, o gosto e o desejo dela,
O rosto , o parecer, o trajo, o gado,
E também se mudou a minha estrela.
Mudar-se tudo, enfim, me era forçado,
Que juízo não vale, força ou cautela
Pera sustentar sempre um sofrimento
Em tão compridos anos de tormento.

 

Transcrito de Francisco Rodrigues Lobo, A Primavera, edição de Maria Emília Gonçalves Pires, Vega Editora, Lisboa, 2003.

Abre o artigo a imagem de uma pintura miniatura (aguarela sobre pergaminho) por Nicholas Hilliard (1547-1619), feita em 1588, contemporânea próxima do poema. A atitude do jovem pintado reflecte admiravelmente o espírito que a meditação do poema transporta.

A pintura pertence à colecção do museu Victoria and Albert de Londres. A ficha da obra disponibilizada pelo museu on-line lê-se com proveito.

Piquenique ao tempo de Hesíodo

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A ceifa do trigo detalhe 500pxNuma daquelas reportagens de encher tempo de antena, um canal televisivo dava conta dos propósitos e ementa de uma família portuguesa para aproveitar o calor de um dia de verão: fazer piquenique ao almoço e gozar os prazeres do descanso à sombra e ao ar livre.

 

O gosto de ir ao encontro da natureza em dias de verão é de todos os tempos e dele a literatura tem feito abundante eco. Para ler com enorme prazer e enfrentar o calor, podem servir as narrativas do Decameron de Bocaccio, mas para poesia, e por forma a dar uma dimensão razoável ao artigo, recuo bastante mais no tempo, às origens gregas da poesia, com a narrativa que Hesíodo (sec. VIII a.C.) faz em Trabalhos e Dias, do desejo de piquenique no calor de um dia de verão.

 

Se a nossa família portuguesa ia carregada de carne, enchidos, porco para grelhar, e vinho para beber, a ementa desejada por Hesíodo difere tão só na qualidade das proteínas escolhidas, fazendo dela uma refeição mais próxima do dietecticamente recomendável pelos padrões de hoje. Vistos os quase três mil anos que os separam, desejos e seu conteúdo, quão pouco mudou no que de essencial a natureza humana tem. Se não, leiam:

 

 

 

O verão

Quando o cardo floresce e a ruidosa cigarra
pousada nas árvores espalha o seu canto estridente,
com o contínuo bater das asas, nos penosos dias de verão,
as cabras estão então mais gordas e é melhor o vinho,
mais lascivas as mulheres e mais frágeis os homens,
quando Sírio esquenta a cabeça e os joelhos
e, sob o efeito do calor, a pele se torna seca.
Pudesse ao menos eu ter a sombra dum rochedo
e vinho bíblino, uma bolacha e leite
das cabras que não aleitam os filhos, um pedaço
de carne de vitela alimentada nos bosques,
que ainda não teve crias, e de cabrito
recém-nascido. E, por cima, para saborear
o vinho flamejante, que possa deitar-me à sombra,
com o coração saciado de comida e o rosto
voltado contra o forte sopro do Zéfiro,
tirar três vezes água duma fonte cristalina
e misturar-lhe uma quarta parte de vinho.

Trabalhos e Dias, 582-596

 

Transcrito de Antologia da Poesia Grega Clássica, tradução e notas complementares de Albano Martins, Edições Afrontamento, 2011.

 

 

Abre o artigo a imagem do detalhe de uma pintura  Pietr Bruegel o Velho (1525-1569) conhecido por Colheita de Trigo.

 

Há anos (2012), por esta época, transcrevi aqui no blog este mesmo fragmento de Hesíodo mas numa tradução de José Ribeiro Ferreira. As ligeiras diferenças nas opções de vocabulário não alteram o mérito de qualquer das traduções.

Cantiga do campo — poema de Gomes Leal para canção dos Madredeus

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Millet 1857 500pxA música de Pedro Ayres Magalhães e Rodrigo Leão para o poema de Gomes Leal (1848-1921) Cantiga do Campo capta a atmosfera luminosa deste, simultaneamente ensolarada e fresca, qual a da natureza pelo verão, servida por uma refinada orquestração.

Jean-Francois Millet 09 500px

O mundo rústico de que o poema fala está extinto, mas o desejo do contacto com a natureza assalta as gentes urbanas nestes dias de verão que incendeiam corpos e almas, levando multidões atrás da música em festivais com a paisagem silvestre quase intocada por cenário.

A música no seu mistério de devolver a harmonia ao humano é o catalisador destes parêntesis numa vida por demais enfeudada à vertigem das exigências de todos os dias.

Woodstock poster

Antes de transcrever o poema, registo além das variadas versões pelos Madredeus a belíssima e original interpretação da canção por Mylene, cantora brasileira que em 2007 gravou um esplêndido disco com diversas canções dos Madredeus.

As canções tanto nas interpretações dos Madredeus como de Mylene encontram-se on-line nos lugares do costume.

Jean-Francois Millet 02 450px

 

Cantiga do Campo

 

 

Por que andas tu mal comigo

Ó minha doce trigueira?

Quem me dera ser o trigo

Que, andando, pisas na eira!

 

Quando entre as mais raparigas

Vais cantando entre as searas,

Eu choro ao ouvir-te as cantigas

Que cantas nas noites claras!

 

Os que andam na descamisa

Gabam a viola tua,

Que, às vezes, ouço na brisa

Pelos serenos da lua.

 

E falam com tristes vozes

Do teu amor singular

Àquela casa onde cozes,

Com varanda para o mar.

 

Por isso nada me medra,

Ando curvado e sombrio!

Quem me dera ser a pedra

Em que tu lavas no rio!

 

E andar contigo, ó meu pomo

Exposto às chuvas e aos sois!

E uma noite morrer como

Se morrem os rouxinóis!

 

Morrer chorando, num choro

Que mais as magoas consola,

Levando só o tesouro

Da nossa triste viola!

 

Por que andas tu mal comigo?

Ó minha doce trigueira?

Quem me dera ser o trigo

Que, andando, pisas na eira!

 

in Gomes Leal, Claridades do Sul, Braz Pinheiro Editor, Lisboa, 1875.

Modernizei a ortografia.

Jean-Francois Millet 03 500px

 

Acompanham o artigo imagens de pinturas de Jean-Francois Millet (1814-1875) entremeadas com a imagem do poster original do Festival de Woodstock em 1969, pontapé de saída para os festivas de verão em ambiente rural.

La foule — canção por Piaf e o poema de Jorge de Sena

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Piaf500pxJe revois la ville en fête et en délire [Revejo a cidade em festa e em delírio]
Suffoquant sous le soleil et sous la joie [Sufocando sob o sol e sob a alegria

Não, não são sobre o delírio do futebol observado em Lisboa a pretexto da vitória contra a França na final do EURO2016, os versos transcritos acima. São o início de uma canção popular — La foule — que Edit Piaf (1915-1963) cantou, frequentemente, de forma fabulosa.
Fala a canção de um encontro de acaso entre um homem e uma mulher desconhecidos,  empurrados para os braços um do outro por uma multidão em festa (o que bem pode ter acontecido a alguém naqueles eufóricos festejos). Enlaçados, os desconhecidos voam levados pelo turbilhão das gentes. Surge súbito a paixão na faísca de um sorriso para logo, na voragem da festa, a multidão os separar e não mais se encontrarem.
Segue a canção, e ao júbilo do amor adivinhado sucede a raiva na voz magoada que ainda hoje toca quem alguma vez entreviu por momentos a paixão, e esta sem remédio se esfumou perante a indiferença do mundo que continuou imperturbável no seu giro.
Desta, como de outras canções, a variada amálgama de sentimentos que a voz de Edit Piaf continua a destilar em quem a ouve, fala de forma superlativa o poema de Jorge de Sena (1919-1978) que a seguir transcrevo.

A Piaf

Esta voz que sabia fazer-se canalha e rouca,
ou docemente lírica e sentimental,
ou tumultuosamente gritada para as fúrias santas do “Ça irá”,
ou apenas recitar meditativa, entoada, dos sonhos perdidos,
dos amores de uma noite que deixam uma memória gloriosa,
e dos que só deixam, anos seguidos, amargura e um vazio ao lado
nas noites desesperadas da carne saudosa que se não conforma
de não ter tido plenamente a carne que a traiu,
esta voz persiste graciosa e sinistra, depois da morte,
como exactamente a vida que os outros continuam vivendo
ante os olhos que se fazem garganta e palavras
para dizerem não do que sempre viram mas do que adivinham
nesta sombra que se estende luminosa por dentro
das multidões solitárias que teimam em resistir
como melodias valsando suburbanas
nas vielas do amor
e do mundo.

in Jorge de Sena, Obras Completas, Poesia 1, edição de Jorge Fazenda Loureirio, Babel, 2013.

 

A canção encontra no YouTube quem tiver curiosidade. No entanto, para mim, a melhor interpretação disponível encontra-se no Disque d’or saído em 2012 e que pode ser ouvido no Spotify.
Para quem leia francês fica a seguir a respectiva letra. Na Wikipédia encontram os leitores a longa história dos variados sucessos da canção.

La Foule

Je revois la ville en fête et en délire
Suffoquant sous le soleil et sous la joie
Et j’entends dans la musique les cris, les rires
Qui éclatent et rebondissent autour de moi
Et perdue parmi ces gens qui me bousculent
Étourdie, désemparée, je reste là
Quand soudain, je me retourne, il se recule,
Et la foule vient me jeter entre ses bras…

Emportés par la foule qui nous traîne
Nous entraîne
Écrasés l’un contre l’autre
Nous ne formons qu’un seul corps
Et le flot sans effort
Nous pousse, enchaînés l’un et l’autre
Et nous laisse tous deux
Épanouis, enivrés et heureux.

Entraînés par la foule qui s’élance
Et qui danse
Une folle farandole
Nos deux mains restent soudées
Et parfois soulevés
Nos deux corps enlacés s’envolent
Et retombent tous deux
Épanouis, enivrés et heureux…

Et la joie éclaboussée par son sourire
Me transperce et rejaillit au fond de moi
Mais soudain je pousse un cri parmi les rires
Quand la foule vient l’arracher d’entre mes bras…

Emportés par la foule qui nous traîne
Nous entraîne
Nous éloigne l’un de l’autre
Je lutte et je me débats
Mais le son de sa voix
S’étouffe dans les rires des autres
Et je crie de douleur, de fureur et de rage
Et je pleure…

Entraînée par la foule qui s’élance
Et qui danse
Une folle farandole
Je suis emportée au loin
Et je crispe mes poings,
Maudissant la foule qui me vole
L’homme qu’elle m’avait donné
Et que je n’ai jamais retrouvé…

Sherlock Holmes visto por Jorge Luis Borges

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O Meu RevolverDe surpresa, encontro no poema de Jorge Luis Borges (1899-1986) que hoje transcrevo as razões porque pouco me entusiasmam as aventuras de Sherlock Holmes. Simultaneamente, e pelas razões opostas, percebo como me colo às aventuras deslindadas por Maigret. Trata-se, afinal, e tão só, de casos de humanidade neste último personagem e ausência dela no primeiro.
Humanidade reconhecível, desde logo, nos gestos mínimos de comer e amar, e que em Maigret são omnipresentes tanto no carinho sóbrio com que o personagem Maigret trata Madame Maigret como na presença constante do acto de comer enquanto gesto essencial de convívio e partilha com os restantes personagens que povoam os enredos das histórias.
Nada disto existe no personagem Holmes, como bem argumenta Jorge Luis Borges, pleno de razão, no poema Sherlock Holmes, referindo a sua ausência no personagem:


É casto. Nada sabe do amor. Não quis.
Esse homem tão viril renunciou à arte
de amar. Em Baker Street vive só e à parte.
A arte de esquecer também nada lhe diz.

Sonhou-o um irlandês, que nunca lhe quis bem
e que tentou matá-lo, ao que parece. Em vão.
Esse homem, só, prossegue, com a lupa na mão,
um destino invulgar de coisa sem além.

 

Em Borges vida e literatura são simbiose perfeita, daí que, como sempre no escritor, o poema depois de escalpelizar o personagem nos seus tiques e peculiaridades:

 


Espevita no seu lar as inflamadas chamas
ou dá morte nos pântanos a um cão do inferno.
Esse alto cavalheiro ignora que é eterno.
Resolve ninharias, repete epigramas.

 

salta para uma serena contemplação do destino humano:

Não nos surpreendamos. Depois da agonia,
o fado ou o acaso (são a mesma coisa)
concede a cada um essa sorte curiosa
de ser forma e ser eco a morrer dia a dia.

Até ao dia último em que o esquecimento,
que é a meta comum, nos esqueça de todo.
Antes que nos atinja, brinquemos com o lodo
de ser durante um tempo, de ser e de ir sendo.

Termina o poema com uma reflexão sobre o que no final a vida nos permite (o livro foi publicado um ano antes da morte do escritor):
 


Pensar de tarde em tarde em Sherlock Holmes é uma
dessas boas rotinas que restam. A morte
e a sesta são outras. É a nossa sorte:
convalescer num parque ou contemplar a Lua.
 

 

Nas histórias desenvolvidas a pretexto de um crime, se pela adolescência o puzzle de desenhar a solução a partir de indícios materiais escassos e aparentemente desarticulados (à maneira Ellery Queen) me entusiasmou, cedo passei a preferir o enredo psicológico que transforma por acasos circunstanciais um banal indivíduo num criminoso factual, onde o quadro psicológico e social joga um papel decisivo. E aí cheguei à leitura compulsiva dos romances com o protagonista Maigret.
Com Holmes temos matéria factual de difícil encadeamento para o observador corrente, transformando cada ocorrência em mistério sem solução.
É afinal, sem estranheza, que este personagem bizarro, dotado de faculdades incomuns, é sucessivamente encenado com sucesso em filmes e séries televisivas: a sua aptidão para resolver o que à comum das gentes parece insolúvel dá-nos uma medida da incompreensão do mundo à nossa volta, e intuitivamente explica-nos a falta de sucesso com que frequentemente lidamos com ele.

 

 

Serlock Holmes

Não teve nunca mãe nem ancestrais maiores.
Idêntico é o caso de Quijano e Adão.
Foi feito pelo acaso. Imediato ou à mão,
regem-no os vaivéns de variáveis leitores.

Não é erro pensar que nasce no momento
em que é visto pelo outro que lhe conta a história
e morre sempre em cada eclipse da memória
de todos os que o sonham. Mais vazio que o vento.

É casto. Nada sabe do amor. Não quis.
Esse homem tão viril renunciou à arte
de amar. Em Baker Street vive só e à parte.
A arte de esquecer também nada lhe diz.

Sonhou-o um irlandês, que nunca lhe quis bem
e que tentou matá-lo, ao que parece. Em vão.
Esse homem, só, prossegue, com a lupa na mão,
um destino invulgar de coisa sem além.

Ele não tem relações, mas não o atraiçoa
a devoção do outro, o seu evangelista
e que dos seus milagres nos deixou a lista.
Vive comodamente: em terceira pessoa.

Tomar banho não vai. Também não visitava
esse retiro Hamlet, lá na Dinamarca
sem saber quase nada dessa vã comarca
que é a espada e o mar, o arco e a aljava.

(“Omnia sunt plena Jovis.” Da mesma maneira
diremos desse justo que dá nome aos versos
que a sua fugaz sombra percorre nos diversos
domínios em que foi segmentada a esfera.)

Espevita no seu lar as inflamadas chamas
ou dá morte nos pântanos a um cão do inferno.
Esse alto cavalheiro ignora que é eterno.
Resolve ninharias, repete epigramas.

Chega-nos de uma Londres de gás e neblina,
A Londres que se sabe capital do império
que lhe interessa bem pouco, a Londres de mistério
tranquilo, que não quer sentir que já declina.

Não nos surpreendamos. Depois da agonia,
o fado ou o acaso (são a mesma coisa)
concede a cada um essa sorte curiosa
de ser forma e ser eco a morrer dia a dia.

Até ao dia último em que o esquecimento,
que é a meta comum, nos esqueça de todo.
Antes que nos atinja, brinquemos com o lodo
de ser durante um tempo, de ser e de ir sendo.

Pensar de tarde em tarde em Sherlock Holmes é uma
dessas boas rotinas que restam. A morte
e a sesta são outras. É a nossa sorte:
convalescer num parque ou contemplar a Lua.

 

Tradução de Fernando Pinto do Amaral
Publicado no livro Los Conjurados (1985)
Transcrito de Jorge Luis Borges, Obras Completas 1975-1985, Editorial Teorema, 1988.

Uma curta visita à poesia de Mário Beirão

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Bernard_Emile-Breton_Women_with_Parasols 1892É o pó dos anos que permite à poesia erguer-se das amarras da história que nos seus acontecimentos se sobrepõe ao conteúdo poético. Chegado o tempo, as circunstâncias de biografia do poeta já não participam da recepção dos seus poemas no leitor. Não sei se será já o caso para alguma poesia de Mário Beirão (1892-1965), admirada nos seus primórdios por Fernando Pessoa*, e onde assunto e forma correm marginalmente às correntes inovadoras do século. A outros deixo o quadro de história literária em que ela se desenvolve.

Como refere José Carlos Seabra Pereira no prefácio à edição das Poesias Completas de Mário Beirão:Entre bucólica e heróica, a poesia de Mário Beirão continua a alcançar momentos de rara consumação da estética neo-romântica, atingindo, adentro dos seus padrões e valores, uma qualidade que não merecia o desgaste pela oratória oficiosa do regime salazarista, nem a ostracização pelo terrorismo cultural da oposição ao Estado Novo — nem, ainda, o alheamento, por ignorância, dos leitores e críticos de hoje.“.

Nesta poesia, além de uma leitura pessoalizada da história pátria, há uma inquietação de si onde a presença do homem religioso se instala. Muitos são os belos poemas onde encontramos uma intensa expressão de sentimento, servidos por uma oficina sem falhas. Escolhi alguns.

Soneto XL

Triste contemplo o vão dobrar dos anos
E fico-me a cismar, de olhos perdidos…
Quimeras, onde pus os meus sentidos,
Agora, não sois mais que desenganos!

Restam desilusões, amargos danos,
De tudo quanto amei, dos sonhos idos!
Surda aos meus rogos, surda aos meus gemidos,
A nau do Tempo solta os largos panos!

Como quem, fascinado pela Morte,
Detém o olhar, em fúnebre transporte,
Num campo de batalha, cheio de ossos;

Assim, os olhos vagos alongando
Sobre o curso do tempo miserando,
Mudamente contemplo os meus destroços!

in A NOITE HUMANA [1928]

Soneto XXV

Pisei o pó de todas as estradas,
— Olhos rasos de sonho e imensidade, —
Em busca dessa esplêndida Verdade,
Que descansa em paragens ignoradas.

Mas do fulgor das místicas jornadas,
Em que pus minha fé, minha ansiedade,
Restam apenas fumos de saudade
E um turbilhão de sombras espantadas!

E, agora, neste cerro, onde Jesus
Me vem falar do Céu e onde eu quisera
Dormir, enfim, o sono perenal;

Vejo, na espuma alvíssima da Luz,
Reaparecer, ao longe, uma quimera,
Que ressuscita ainda por meu mal!

in A NOITE HUMANA [1928]

Incerto

Choro, choro por mim! Uma saudade
E um longo adeus abraçam-se comigo;
Triste espectro da Ausência, eu não consigo
Volver à minha torva humanidade!

Creio ser luz no sonho que me invade:
Acordo em sombras e, entre sombras, sigo…
Oh duro, crudelíssimo castigo
De quem busca nos sonhos a verdade!

Em certa hora triste, a Noite veio,
E, doida, me levou; ainda sinto
O seu beijo de treva e o meu enleio!

Desfeito em sombra, evoco o sol extinto:
Mas — ai de mim! — escuridões tacteio,
Perdido no meu próprio labirinto!

in O ÚLTIMO LUSÍADA [1913]

Outro aspecto na poesia de Mário Beirão, é a pintura do sentimento da paisagem, onde alguns belos poemas surgem:

Fragmento do poema O VENTO


Erma planura,
Sem fontes, sem ternura,
Indiferente à vida!
Estagnação de paz; esquecimento;
Palpitações do vento,
De leve, sobre a urze ressequida…

in PASTORAIS [1923]

GRANADA

Todo em acentos ásperos, agrestes,
Sobre Granada, à tarde, adeja um canto,
Que se requebra em curvas de ais… enquanto
As roseiras enlaçam os ciprestes!

Oh, que volteios fúnebres são estes?
(Pálida, à tarde torna-se de espanto…)
O canto freme, ondeia… irado e santo,
Verte agruras e lágrimas celestes!

É uma voz de saudade e acerbas penas,
Que relampeja… e, líquida, se entorna,
Em vagas de paixão, na tarde morna…

E um estranho perfume se descerra
De oculta flor… por entre sombras, erra,
Fugindo como o sangue das arenas…

in OIRO E CINZA [1946]

CAIR DA TARDE EM ASTORGA

Cai a tarde em Astorga… À branda aragem
Melancolias íntimas segreda…
Vai-se gastando, desbotando, a seda
Do seu manto translúcido de Imagem…

Morre, deixando em cismas a paisagem:
Certa flor, que emurchece; esta vereda;
O plaino raso; um choupo que se queda,
Vago de outono, — lívida a folhagem…

Os anjos se suspendem para vê-la
Em ascensão, — entre asas, lírios, palmas…
(De mudas preces, de ilusões, se estrela…)

Parte, a sorrir… divinamente absorto,
Tremula o seu sorriso: é cor das almas,
Que velam, noite fora, o Senhor-Morto…

in OIRO E CINZA [1946]

Fragmento de “GRANADINA’

Ficou, na tarde triste,
Um sussurro que, pálido, falece;
E falecendo, logo reaparece;
Já deixa de existir… já, outra vez, existe…
Perfuma de saudade a voz da brisa,
E tudo, em derredor, melancoliza…

Termino esta visita breve com o poema AUSÊNCIA, do qual escreveu Jorge de Sena: …é um dos mais perfeitos da nossa língua.

AUSÊNCIA

Nas horas do poente,
Os bronzes sonolentos,
— Pastores das ascéticas planuras —
Lançam este pregão ao soluçar dos ventos,
À nuvem erradia,
Às penhas duras:
— Que é dele, o eterno Ausente,
Cantor da nossa vã melancolia?

Nas tardes duma luz de íntimo fogo,
Rescendentes de tudo o que passou,
Eu próprio me interrogo:
— Onde estou? onde estou?
E procuro nas sombras enganosas
Os fumos do meu sonho derradeiro!

— Ventos, que novas me trazeis das rosas,
Que acendiam clarões no meu jardim?

— Pastores, que é do vosso companheiro?

— Saudades minhas, que sabeis de mim?

in PASTORAIS [1923]

Poemas transcritos de Mário Beirão, Poesias Completas, INCM, Lisboa, 1996.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Emile Bernard (1868-1941), Mulheres Bretãs com guarda-sol, de 1892.

* Cartas de Fernando Pessoa a Mário Beirão

Fernando Pessoa foi admirador confesso da poesia de Mario Beirão quando esta se esboçava e os primeiros poemas surgiam em revista. Dessa admiração deu conta por carta ao poeta, por vezes de forma ditirâmbica, como quando escreve ser a poesia de Mario Beirão à época, superior à poesia de John Keats, sem mais.
Na correspondência havida deixou Fernando Pessoa relato da sua própria fase de criação, em termos e relevância que vale a pena conhecer.
São prosa do melhor do poeta, esclarecedora para o conhecimento da biografia, e preciosa sobre o surgimento dos heterónimos importantes. As cartas correspondem a cerca de ano e meio desde Dezembro de 1912 a Julho de 1914, com maior número durante o ano de 1913. Podem encontrar-se na edição da Correspondência (1905-1922) feita por Manuela Parreira da Silva para Assírio & Alvim, Lisboa 1999.

Bonacon, um fantástico guerreiro

Bonnacon-Medieval-Monster-01 500pxViajar pelo Bestiário medieval é percorrer um fascinante mundo onde a imaginação preenchia a insuficiência de conhecimento objectivo.
A par de um quotidiano materialmente difícil, floresceu em alguns conventos o cultivo da elaboração de manuscritos iluminados (texto acompanhado de imagens) recolhendo obras herdadas da antiguidade clássica e textos de doutrina que explicavam o mundo à luz do cristianismo. Obras de arte de muito difícil acesso, vamos hoje, lentamente, conhecendo alguns desses preciosos in-folios através tanto da sua reprodução em fac-símile, como em edições antológicas, por vezes de sufocante beleza.

Bonnacon-Medieval-Monster-03 500pxHoje recordo um animal imaginário, o Bonacon, fruto da fantasia do mundo antigo. Ele leva-nos a pensar como a terra pode, afinal, ser um lugar de inocência e brincadeira, e não apenas a crueldade que nos assombra amiúde, sobretudo quando hoje nos confrontamos, enquanto comunidade, com assassinos exaltados que pretendem fazer-nos viver como eles querem, ou morreremos, ainda que eles possam morrer também pelo caminho.
Era este mundo de inocência medieval também assombrado pela crença, onde o irracional domina e a muito custo a razão abre caminho, como o romance O Nome da Rosa recria.

Bonnacon-Medieval-Monster-02O Bonacon seria uma fantástica arma de guerra tornando invencível quem o possuía, se domesticável, por virtude duma peculiar química que afugenta.

Bonnacon-Medieval-Monster-04 500pxArma unicamente defensiva, à aproximação do inimigo o Bonacon expelia excrementos a uma velocidade tal que poderiam ser projectados até quase cem metros de distância, e com o poder atordoante que se imagina, neutralizar os inimigos perseguidores.
De tal espécie não se conhece filiação ou descendência. Seria talvez mamífero, quadrúpede, aparentado com um touro, com um par de cornos retorcidos. As crónicas não informam sobre a sua corpulência ou agilidade. A notícia da sua existência, referida por Plínio na História Natural (8.16),  foi-me dada por Christian Heck e Rémy Cordonnier no fascinante livro The Grand Medieval Bestiary, o qual nada refere sobre estes aspectos. Habitaria as terrae incognitae da Trácia à Ásia, surgindo representado em alguns mappae mundi medievais nas regiões do norte.
Pouco representado nos códices medievais, quando surge aparece em atitudes de defesa, projectando excrementos sobre os perseguidores os quais se protegem sob os escudos, assustando assim os intrépidos cavaleiros cujas provas de heroísmo são bastamente relatadas nas epopeias da época.
Termino com mais uma imagem do fabuloso Bonacon, sempre em acção, tal como as anteriores, extraída de códices medievais.

Bonnacon-Medieval-Monster-06

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