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Um desgosto de amor em quadras de Fernando Pessoa

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Sabem os leitores da poesia de Fernando Pessoa (1888-1935) quanto o poeta cultivou com talento, toda a vida, a quadra popular e o quarteto, usados em poemas tão famosos como p.ex. Canção: Sol nulo dos dias vãos / …, ou no poema Autopsicografia: O poeta é um fingidor / … .

Em Fevereiro de 1920 surgem algumas quadras dando conta de um desgosto de amor, supõe-se que por Ophélia Queiroz, a destinatária das famosas cartas de amor. Alguns poemas dão disso conta. Escolho dois: uma quadra, e uma sequência de três quadras. Mas antes do relato do desgosto amoroso, leiamos a fase da harmonia amorosa no desejo da sua constante fruição, numa saborosa descrição do desconforto da ausência da amada:  

 

Quando passo o dia inteiro
Sem ver o meu amorzinho,
Corre um frio de Janeiro
No Junho do meu carinho.

 

 

Não se encontrando datada esta quadra, não avaliamos por aqui a distância entre esta impaciência e o desgosto do fim do enlevo amoroso relatado a 24.02.1920:

 

Meu amor já não me quer,
Já me esquece e me desama.
Tão pouco tempo a mulher
Leva a provar que não ama!

 

Aqui chegados, poderia supor-se que era apenas um arrufo de namorados, mas, afinal não fizeram as pazes, e dois dias depois, a 26.02.1920, o poeta derrama em verso a sua desilusão:


Vago luar de promessa,
Resto de sombra a morrer

 

 

Os complexos motivos da rotura com Ophélia Queiroz são matéria de vasta especulação entre especialistas. Por agora fiquemos tão só com a mágoa do apaixonado posta em poema, fazendo prova  da densidade de leituras a que o poeta nos habituou, relatando a sensação de abismo que atinge apaixonados nos momentos de rotura:


Eu da vida que preciso?
O sonho com que a negar.

 

 

Eis o poema:

 

Revive ainda um momento
Na ‘sperança que perdi,
Flor do meu pensamento,
Hálito do que morri…

Inútil, irreal sorriso
Na penumbra de pensar…
Eu da vida que preciso?
O sonho com que a negar.

Vago luar de promessa,
Resto de sombra a morrer
Na antemanhã que começa
Ah, ter-te, e nunca viver.

 

 

Anos mais tarde encontro este rememorar uma paixão  que, quiçá, terá sido a mesma:

 

Aquela tarde em que os dois fomos pela
Estrada, amorosos, o que é feito dela?
Jaz vista no passado como a folha
No caminho que vemos da janela
3-1-1934

 

E assim termino esta volta poética por amores e sua consequência num poeta pouco afeito a estes desabafos.

 

Transcrito de Quadras e Outros Cantares, Edição de Teresa Sobral Gomes, Relógio D’Água Editores, Lisboa ,1987.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Marc Chagall (1887-1985), Os Comediantes, acompanhando a postura do poeta entre a vida e a poesia: O poeta é um fingidor / … .

 

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Quem canta seu mal espanta — As voltas do amor em Quadras Populares

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Quem canta seu mal espanta,
Quem chora, mais o aumenta
Eu canto por espalhar
A paixão que me atormenta.

 

As quadras populares são um retrato fiel de um modo de estar na vida e plasmam alegrias e tristezas de um povo que talvez já não exista. Circularam pela memória e passaram de geração em geração, havendo delas hoje apenas as recolhas de etnógrafos que ainda a tempo as coligiram.

Hoje debruço-me sobre uma recolha de J. Leite de Vasconcelos no final do séc. XIX, divulgada com o nome: Poesia Amorosa do Povo Português.
Nas quadras escolhidas encontramos a rima abcb, e quase sempre a estrutura numa espécie de dois dísticos em que os primeiros dois versos apresentam o assunto e os últimos dois versos fazem uma conclusão frequentemente inesperada nas comparações que convocam, sem que a quadra deixe de ser uma unidade poética autónoma:

 

A amar e a escolher amante
Ensinou-me quem podia:
A amar foi a natureza,
A escolher, a simpatia.

 

 

Os assuntos girando à volta do sentimento amoroso, variam entre desejo e sedução:

 

Quando te eu vi, logo disse:
— Lindos olhos para amar!
Que linda boca p’ra beijos!
Oh quem t’os pudera dar!

 

Eu fui o que disse ao sol
Que não tornasse a nascer:
À vista desses teus olhos
Que vem o sol cá fazer?

 

 

esperança e receio de amar:

 

O amor, quando se encontra,
Causa penas, e dá gosto:
Sobresalta o coração,
Sobem as cores ao rosto.

 

Fui assentar-me entre as nuvens,
De uma estrela fiz encosto:
Abracei-me a uma delas.
Cuidando que era o teu rosto.

 

 

desgosto e queixas:

 

Suspiros e ais e dores,
Imaginações e cuidados:
São o manjar dos amantes,
Quando andam arrufados.

 

Torno de novo a queixar-me.
Meus ais não fazem efeito:
Podem abrandar as rochas,
Mas não abrandam teu peito.

 

Lágrimas são meu almoço
Janto suspiros e dores,
À tarde merendo ais,
À noite ausência d’amores.

 

 

e algum desprendimento emocional, o que é menos frequente:

 

Cuidavas, por me deixares,
Que eu de paixão morreria:
Foi-se um amor, ficou outro,
Vivo na mesma alegria.

 

 

Estes assuntos de amor vêm tratados com uma agradável ligeireza de tom, bem longe dos transportes angustiados de poetas eruditos:

 

Quem diz que o amar enfada,
De certo que nunca amou:
Eu amei e fui amado,
Nunca o amar me enfadou.

 

 

Eis mais algumas quadras onde os mesmos aspectos do sentimento amoroso bailam:

 

O coração e os olhos
São dois amantes leais:
Quando o coração tem pena,
Logo os olhos dão sinais.

 

O cantar é dom dos anjos;
O bailar, dos namorados;
A alegria, dos solteiros;
A tristeza, dos casados.

 

Meu coração é relógio,
Meu peito dá badaladas:
Nos dias que eu te não vejo,
Trago-te as horas contadas.

 

O teu cabelo, menina,
Mete-te infinita graça:
Parece meadas de ouro
Adonde o sol se embaraça.

 

Amar e saber amar,
Qualquer amante faz isso:
Amar-te com lealdade.
Só eu nasci para isso.

 

Coitadinho de quem tem
Seus amores em segredo:
Passa por eles na rua,
Não lhe faia, que tem medo.

 

Ó meu amor lá de longe,
Perde um dia vem-me ver:
Quem não aparece, esquece,
Também eu posso esquecer.

 

Dizem que o amor é morte,
Oh quem me dera morrer!
Mais vale morrer d’amores
Do que sem eles viver.

 

O amor é grande mal.
Não amar é mal maior;
Mas amar sem ser amado
É dos males o pior.

 

Por te amar deixei a Deus,
Vê lá que gloria perdi!
Agora vejo-me só,
Sem Deus, sem gloria, sem ti!

 

Fechei a porta à desgraça,
Entrou-me pela janela:
Quem nasce com a má sorte
Não pode fugir a ela.

 

Que me quererá a desgraça,
Que atrás de mim corre tanto?
Hei-de parar e dizer-lhe
Que eu de a ver me não espanto.

 

Dizem que o chorar nos tira
As penas ao coração:
Tanto tenho eu chorado,
E as penas inda cá estão.

 

 

E com esta sábia conclusão me despeço:

 

Inda que o lume se apague,
Na cinza fica o calor:
Inda que o amor se ausente.
No coração fica a dor.

 

Poemas transcritos de Poesia Amorosa do Povo Português, Breve estudo e colecção por J. Leite de Vasconcelos, Lisboa, 1890.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Albert Neuhuys (1844-1914) de 1880.

Longo é o curso da esperança, breve o da memória — um canto de Leopardi

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Cada vez mais estudos mostram que ao longo da vida adulta a sensação de felicidade, e de ser feliz, se desenvolve segundo uma curva em V. Decresce desde o início da idade adulta para atingir um mínimo por volta dos quarenta e tal anos, e recomeça a subir até ao fim da vida. Trata-se, evidentemente de medidas estatísticas. A cada indivíduo a vida oferece o seu caminho particular de felicidade, que não será necessariamente este. Provavelmente, e os estudos também o apontam, este andamento do sentimento de ser feliz  à medida que os sinais de envelhecimento se começam a fazer sentir, está ligado ao processo de substituição da ambição pela aceitação da vida como ela se apresenta. Cito de memória uma frase do filósofo William James (1842-1910) que o reflete:
How pleasant is the day when we give up striving to be young
(Quão agradável é o dia quando desistimos de nos esforçar para ser jovens).
Evidentemente, a troca da ambição pela aceitação não se prende unicamente com o desejo, ou ilusão, de ser jovem para lá da idade. Ele ocorre inevitavelmente quando o horizonte da esperança de vida começa a aproximar-se de nós e deixa de ser algo longínquo, se não mesmo intangível se se é jovem.
Dificilmente será possível exprimir a essência da juventude por contraponto ao envelhecimento por outra que não a formulação de Giacomo Leopardi (1798-1837) nos versos do poema À Lua:
… / No tempo da juventude, quando ainda longo / É o curso da esperança, breve o da memória, / …
ou no original:
… / Nel tempo giovanil, quando ancor lungo / La speme e breve ha la memoria il corso, / … Nestes versos ganha evidência um aspecto essencial da juventude: o pouco tempo vivido, fazendo curta a memória, embora marca indelével para a vida; e a esperança sobre o que o futuro, que se espera longo, propiciará.

O poema, com rara emoção, dá conta do conforto de recordar, quando a infelicidade nos acomete. E isto é independente da idade. Apenas conta a intensidade do que se viveu.
A memória, ajudando-nos, traz mais e mais felizes recordações à medida que a idade avança, e a vida se acumula. E se os desgostos provavelmente crescem, a vida vivida também permitiu que a felicidade, por mais efémera, nos batesse à porta e a possamos relembrar.

 

À Lua

Lembro-me, ó graciosa lua,
Que há um ano, sobre esta colina,
Cheio de angústia, eu vinha contemplar-te:
E tu pendias então sobre a floresta
Como fazes agora, iluminando-a por completo.
Mas velado e trémulo do pranto
Que me assomava aos olhos, o teu rosto
Me parecia, que laboriosa
Era a minha vida: e ainda o é, nem muda de feição,
Ó minha amada lua. E todavia faz-me bem
Esta lembrança e o contar a idade
Da minha dor. Oh!, como é doce,
No tempo de juventude, quando ainda longo
É o curso da esperança, breve o da memória,
A lembrança das passadas coisas,
Embora triste e embora as fadigas durem!

Tradução de Albano Martins
in Giacomo Leopardi, Cantos, Apresentação, seleção, tradução e notas de Albano Martins,  Vega, Gabinete de Edições, Lisboa, s/d.

 

 

Alla Luna

O graziosa luna, io mi rammento            
Che, or volge l’anno, sovra questo colle
Io venia pien d’angoscia a rimirarti:
E tu pendevi allor su quella selva
Siccome or fai, che tutta la rischiari.            
Ma nebuloso e tremulo dal pianto
Che mi sorgea sul ciglio, alle mie luci
Il tuo volto apparia, che travagliosa
Era mia vita: ed è, né cangia stile,
O mia diletta luna. E pur mi giova            
La ricordanza, e il noverar l’etate
Del mio dolore. Oh come grato occorre
Nel tempo giovanil, quando ancor lungo
La speme e breve ha la memoria il corso,
Il rimembrar delle passate cose,            
Ancor che triste, e che l’affanno duri!
(1819)

Transcrito de Leopardi, Canti, con uno scritto di Giuseppe Ungaretti, Arnaldo Mondadori Editore S.p.A., Milão, 1987.

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Fernand Léger (1881-1955), Paisagem animada, de 1924.

 

Um frio de Inverno no calor do Verão — soneto 97 de Shakespeare e Pessoa pelo caminho

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O amor e os sonetos de Shakespeare (1564-1616) são um universo poético onde todas as possibilidades de expressão parecem residir. No soneto 97 temos uma engenhosa simbiose entre o calor erótico que a presença da amada pode trazer ou o frio que a sua ausência provoca, e os efeitos do ciclo das estações na natureza:

 

Foi como inverno a ausência que passei / de ti, …

 

Numa espécie de eco deste verso, encontro numa quadra de Fernando Pessoa (1888-1935) o dizer:

 

Quando passo o dia inteiro
Sem ver o meu amorzinho,
Corre um frio de Janeiro
No Junho do meu carinho.

 

Por aqui se fica Pessoa, nesta ligeira quadra popular, embora o amorzinho dê pretexto a outras quadras neste ano de 1920, sobretudo as quadras de 24.02 e 26.02 que noutro artigo lerei.
Em Shakespeare, o relato é todo ele o de uma solidão amorosa, e os prazeres perdidos são por aqui lembrados:

Que frio e dias negros suportei!
Que nudez de Dezembro em tudo havia.
O tempo assim negado era de verão,
fecundo das colheitas que no outono
seus fardos de volúpia vernal dão,

Contudo essa abundância me surgia
como órfã prenhez só, …

 

E para que não restem dúvidas sobre o benefício da proximidade da amada, o poeta diz-nos a terminar:

que o verão seu prazer em ti se alia
e as aves quedam mudas se te vais.

 

 

Eis uma tradução portuguesa do soneto por Vasco Graça Moura, e o poema original:

 

 

Soneto XCVII

Foi como inverno a ausência que passei
de ti, que ao ir do ano és a alegria!
Que frio e dias negros suportei!
Que nudez de Dezembro em tudo havia.
O tempo assim negado era de verão,
fecundo das colheitas que no outono
seus fardos de volúpia vernal dão,
como ventres viúvos, morto o dono.
Contudo essa abundância me surgia
como órfã prenhez só, frutos sem pais
que o verão seu prazer em ti se alia
e as aves quedam mudas se te vais.
   Ou em seu canto triste as folhas tremem
   pálidas, porque perto o inverno temem.

Tradução de Vasco Graça Moura
in Os Sonetos de Shakespeare, versão integral, Bertrand Editora, 2007.

 

 

Sonnet XCVII

How like a winter hath my absence been
From thee, the pleasure of the fleeting year!
What freezings have I felt, what dark days seen!
What old December’s bareness everywhere!
And yet this time removed was summer’s time;
The teeming autumn, big with rich increase,
Bearing the wanton burden of the prime,
Like widow’d wombs after their lords’ decease:
Yet this abundant issue seemed to me
But hope of orphans, and unfathered fruit;
For summer and his pleasures wait on thee,
And, thou away, the very birds are mute:
   Or, if they sing, ‘tis with so dull a cheer,
   That leaves look pale, dreading the winter’s near.

Transcrito de The Oxford Shakespeare, Complete Sonnets and Poems, Oxford 2002.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura do holandês Quiringh van Brekelenkam (1622-1666), Conversação sentimental.

 

O sabor das aventuras de Verão recordado num poema de David Mourão-Ferreira

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Numa noite mágica onde se cruzavam os cheiros da serra e a brisa marinha, jantávamos ao ar livre um grupo de amigos de adolescência. Inevitavelmente vieram à conversa as memórias das noites de Verão e as aventuras de descoberta e paixão adolescente a que Tavira e o mar da sua ilha serviram de cenário.
Eram os últimos anos da década de 60 do séc. XX. O Algarve descobria-se aos turistas estrangeiros e as raparigas vindas do Norte da Europa faziam furor com a sua beleza loura e liberdade de costumes por cá completamente interditos. Do que a cada um aconteceu guardo reserva. O intróito serve tão só para recordar um poema de David Mourão-Ferreira (1927-1996), Een lied voor Margaretha, (Uma Canção para Margaretha) talvez reminiscência de experiência(s) semelhante(s).

 

 

Een lied voor Margaretha

Tu vens de terras de Holanda,
mas tens a carne morena.
E em vez de serena, branda
postura que o Norte manda,
teu corpo se desordena
à carícia, por mais branda …
Tu vens das terras de Holanda …

Eu venho de Portugal:
o mesmo é dizer que venho
de longe, do litoral,
e um sabor, no corpo, a sal
definiu meu Fado estranho.
Aqui me tens, donde venho:
Eu venho de Portugal …

Trago nos lábios o Mar,
cheio de vento e de espuma …
E tu mo virás roubar!
— Ai descampados ao ar,
onde houvera ventos, bruma! —
Com saudade hei de lembrar:
tinha nos lábios o Mar …

Hei de lembrar e sofrer
o que for perdendo aqui …
Mas um colo de mulher
tudo merece, e requer
o abandono de si …
Quem me dera que por ti
Venha a lembrar e sofrer …

Tu vens de terras de Holanda,
eu venho de Portugal:
cada um de sua banda …
Sabe o Destino o que manda,
quer pra bem ou quer p´ra mal …
— Não mais as terras de Holanda
e areias de Portugal!

in A Viagem Secreta, segunda edição corrigida e aumentada, ne varietur, Edições Ática, Lisboa, 1958.

 

Abre o artigo uma foto de Jane Birkin (1946), inesquecível intérprete com Serge Gainsbourg (1928-1991) da canção Je t’aime… mois non plus, icónica canção da revolução sexual dos anos 60, à data proibida em vários países, Portugal e Brasil incluídos.

 

Canções de beber na obra de Fernando Pessoa

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Quem ontem fui já hoje em mim não vive.
Bebe, que tudo é líquido e embriaga,
E a vida morre enquanto o ser revive.

 

Tendo como ponto de partida a versão inglesa por Edward Fitzgerald, dos quartetos de Omar Khayyam (1048-1132), publicada em 1910, Fernando Pessoa (1888-1935) apropria-se dos poemas para nos dar a sua visão desolada e amarga da vida por volta de 1930:


Vamos vivendo, e somos o que somos
Até que a quem não somos morte acuda.

 

ou neste outro poema:


Bebe. Se escutas, ouves só o ruído
Que ervas ou folhas trazem ao ouvido.
É do vento, que é nada. Assim é o mundo:
Um movimento regular de olvido.

 

 

Nestas reflexões estamos longo da atmosfera de festa e alegria que o vinho induz, e em variados poemas que aqui trouxe no passado recente se regista.

Para o poeta, a festa parece não existir, mas, como tantas vezes na sua poesia, sob a desolada lucidez, se alegria não há, o sonho às vezes espreita:

Olhando o mar, sonho sem ter de quê.
Nada no mar, salvo o seu mar, se vê.
Mas de se nada ver quanto a alma sonha!

 

e a esperança é algo para cultivar:


Não queiras, com submissa segurança,
Ter saudade de ter esperança.
Tem antes saudade de a não ter.

 

Deixo-o, leitor, com a escolha poética:

 

 

*
Tudo o que passa, porque passa, é nada.
Tudo o que fica coisa é parada.
O que nem passa ou fica não existe.
Bebe, que não há estada nem há estrada.

Devoto do que já não sei o que é,
Ao templo fui pelo meu próprio pé.
Mas vi que o templo era uma taberna.
Ali fiquei ébrio da minha fé.

Doze vezes o sol amável muda
De signo e sem ajuda nos ajuda.
Vamos vivendo, e somos o que somos
Até que a quem não somos morte acuda.
5-11-1933

 

 

**
Quanto fui jaz. Quanto serei não sou.
No intervalo entre o que sou e estou
A natureza, exterior, tem sol.
Mas, se tem sol, há sol. Ao sol me dou.

Não queiras, com submissa segurança,
Ter saudade de ter esperança.
Tem antes saudade de a não ter.
Entre o que a paz te não dará descansa.

Nada ‘speres, que nada salvo nada
Obtém que ‘supera: é como quem à estrada
Lance olhos de esperar que alguém lhe chegue
Só porque a estrada é feita para andada.

Ninguém suporta o peso mau dos dias
Salvo por interpostas alegrias.
Bebe, que assim serás o intervalo
Entre o que criarás e o que crias.

Quantas vezes o mesmo poente alheio
Sobre meu sonho, como um sonho, veio.
Quantas vezes o tive por augusto.
Tantas, tornado noite, perde o enleio.

Bebe. Se escutas, ouves só o ruído
Que ervas ou folhas trazem ao ouvido.
É do vento, que é nada. Assim é o mundo:
Um movimento regular de olvido.
4-10-1932

 

 

***
Olhando o mar, sonho sem ter de quê.
Nada no mar, salvo o seu mar, se vê.
Mas de se nada ver quanto a alma sonha!
De que me servem a verdade é a fé?

Ver claro! Quantos, que fatais erramos,
Em ruas ou em estradas ou sob ramos,
Temos esta certeza, e sempre e em tudo
Sonhamos e sonhamos e sonhamos.

As árvores longínquas da floresta
Parecem, por longínquas, ‘star em festa.
Quanto acontece porque se não vê!
Mas do que há ou não há o mesmo resta.

Se tive amores? Já não sei se os tive.
Quem ontem fui já hoje em mim não vive.
Bebe, que tudo é líquido e embriaga,
E a vida morre enquanto o ser revive.

Colhes rosas? Que colhes, se hão-de ser
Motivos coloridos de morrer!
Mas colhe rosas. Porque não colhê-las
Se te agrada e tudo é deixar de haver?
20-1-1933

 

Poemas transcritos de Canções de Beber na Obra de Fernando Pessoa, Edições de Arte, lda, Lisboa, 1997.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901).

 

Alguns poemas de Fernando Guimarães

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Uma escrita velada, em que o pudor se alia à palavra, percorre a poesia de Fernando Guimarães (1928). São poemas densos, de sentimento e emoção contidos, onde uma imensa cultura espreita, e sobressai ao longo do tempo um quase constante diálogo com a música erudita.

É com saboreada demora que leio esta poesia. Os artefactos artísticos, sobretudo pintura, além da música, e que dão o mote à maior parte dos poemas, leva-me a navegar pela minha própria fruição deles.

Poesia que nos conduz para a dimensão estética da vida, na forma usa em grande extensão o soneto para o relato poético, exigente instrumento na concisão e rigor.

Escolho por este calor de verão alguns poemas entre os poucos que dão conta de uma terna visão do amor, toda ela feita da música do entendimento:

Escuta só a voz
que traz a harmonia
dos rios que prolongam
em nós a poesia

 

Num registo mais carnal, acrescento dois poemas recheados de belos versos. O primeiro publicado em 1956 no livro A Face junto ao Vento:
Vem esconder dentro de mim,
onde o teu ser a medo principia,

— desenho nu feito das
linhas da tarde e do horizonte…

e termino com o poema A Posse, publicado no livro Como Lavrar a Terra, em 1975:

Um rosto sobre o peito o que escutava?
A canção, um contorno de mamilos
breve, se erguida a curva nas espáduas
era o desejo, e calma, largos rios.

 

Eis os poemas:

 

Poema

Vem esconder dentro de mim,
onde o teu ser a medo principia,
a longa curva sem rosto ou fim
de uma harmonia

que não escutes mas
fique suspensa como uma fonte:
— desenho nu feito das
linhas da tarde e do horizonte…

 

A Posse

Que súbita suspeita — dália enorme —
passara como a sombra nos teus cílios,
se a manhã chega enquanto de nós foge
o tempo que já tinha destruído.

Um rosto sobre o peito o que escutava?
A canção, um contorno de mamilos
breve, se erguida a curva nas espáduas
era o desejo, e calma, largos rios.

Cabelos desgrenhados, fugitivos,
e vento não havia, ou quase chama
nos rins, na pele, um cancro que consome

este pecado casto, e já os lábios
se fecham, quando rápida ou mais funda
em nós cresceu a ferida dos sentidos.

Poemas transcrito de Algumas das Palavras, Poesia Reunida 1956-2008, edições Quasi, V. N. Famalicão, 2008.

Abre o artigo a imagem de um desenho de Henri Matisse (1869-1954) para poemas de Pierre de Ronsard (1524-1585).

O vinho e a vida em poemas de Tao Yuanming

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eu por mim consagro-me a viver em solidão
já faz quarenta anos que a isso me dedico
com devoção e de acordo com a sábia natureza
o meu corpo envelheceu há muito tempo
mas os meus sentimentos continuam intactos,
por isso nada tenho a lamentar.

 

Esta reflexão faz o poeta clássico chinês Tao Yuanming (365-427) num poema que à frente transcrevo na totalidade.
À incerteza da vida e seu futuro, — Preocupações!? amanhã podes não ter nenhumas — responde o poeta em alguns poemas com um convite a gozar o momento que passa, e aproveitar a despreocupação e alegria que o vinho pode proporcionar:

 

Passeio ao longo do rio Xie

pego no jarro de vinho
e sirvo os meus companheiros
de copos cheios, bebemos e brindamos à vez
sem sabermos se amanhã ainda estaremos aqui
um pouco já alegres deixamos falar o coração
esquecendo as agruras da vida
não hesites, goza hoje
Preocupações!? amanhã podes não ter nenhumas

 

A vertigem do avançar do tempo — A vida depressa caminha para o nada, — e a incógnita do além, são linhas de reflexão poética que conduzem à evidência de valorizar o momento que passa, plasmadas no poema que segue:

 

 

Chuva incessante e eu bebendo só

A vida depressa caminha para o nada,
sempre assim foi e será
e se neste nosso mundo viveram imortais
como o Pinheiro Vermelho e Wang Chiao,
onde estão eles agora?
um ancião ofereceu-me vinho, garantindo-me a imortalidade
sendo assim bebo um pouco, não tenho nada a perder
aos primeiros golos deixei de sentir
ao fim de uns quantos copos até do céu me esqueci
mantém-te mas é fiel ao momento que passa
e às suas próprias coisas
pássaros de asas mágicas, viajam através das nuvens,
em oito direcções preparam a viagem de volta
eu por mim consagro-me a viver em solidão
já faz quarenta anos que a isso me dedico
com devoção e de acordo com a sábia natureza
o meu corpo envelheceu há muito tempo
mas os meus sentimentos continuam intactos,
por isso nada tenho a lamentar.

 

Além deste e outros poemas isolados reflectindo sobre o valor de carpe diem, o poeta escreveu um pequeno cancioneiro de 19 poemas e uma introdução, bebendo vinho, com uma densa interrogação sobre os tempos e as gentes, onde o vinho tem importante papel na ignição dessas reflexões.

 

Poemas transcritos de Poemas de Tao Yuanming (365-427), edição Livros do Meio, Macau, 2013.
Versão portuguesa de Manuel Afonso Costa.

Abre o artigo a imagem de uma escultura de Alberto Giacometti (1901-1966).

 

O silêncio, o desejo, e o prazer, com poemas de Paulo Silenciário

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Os prazeres da intimidade revestem para cada um as formas mais variadas, e nem sequer são sempre desejados nas mesmas condições. Na verdade, se no acto de amor há quem aprecie como adicional de excitação a manifestação audível dos caminhos do prazer, ocasiões haverá em que o silêncio é bem-vindo, se não mesmo indispensável. Aos leitores entrego o decifrar quando um ou outro apetece.

Em dois poemas que a seguir transcrevo, Paulo Silenciário (séc.VI) dá conta, primeiro do silêncio como escolha para sublimação do prazer na intimidade, e no segundo refere a necessidade do silêncio como resguardo de amores que não se querem públicos. Uma e outra situações em que se aceita com naturalidade que o silêncio intensifica o prazer.

 

O abraço silencioso

Tiremos, ó graciosa, as nossas vestes e, aproximando-nos, nus,
que os nossos corpos se enlacem.
Que nada exista entre nós, pois as tuas finas roupas
me parecem as muralhas de Semíramis.
Unamos os nossos peitos e os nossos lábios. Que tudo o mais
seja coberto pelo silêncio. Odeio a tagarelice.

 

O segredo

Ocultemos, Ródope, os nossos beijos
e os agradáveis e difíceis trabalhos de Cípris*.
É bom estar oculto e evitar o olhar
dos observadores que tudo perscrutam.
Os amores furtivos são mais saborosos
que os do conhecimento público.

* trabalhos de Cípris: trabalhos do amor

Traduções de Albano Martins
in Antologia da Poesia Grega Clássica, Edições Afrontamento, Porto, 2011.

 

Abre o artigo a imagem de um pormenor da pintura de Lucas Cranach, o Velho (1472-1553), Fonte da Juventude.

O Infinito — poema de Leopardi

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Invade-nos uma sensação estranha à leitura dos Cantos de Giacomo Leopardi (1798-1837). Há um sopro de vida nos gestos de quotidiano que são o assunto dos poemas, e neles surge o intemporal e o essencial da condição humana.

No poema L’Infinito de 1819, a meditação solitária envolvida pela natureza, a que com prazer nos entregamos, leva o pensamento umas vezes pelas interrogações existenciais, outras apenas pelo espanto da imutável natureza na sua indiferença às paixões humanas.

 

O Infinito

Cara me foi sempre esta erma colina
E esta sebe, que por diversos lados
O extremo do horizonte veda ao meu olhar.
Mas, sentado e olhando, intermináveis
Espaços para além dela, e sobrehumanos
Silêncios, e sossego profundíssimo
No pensamento imagino; então por pouco
O coração se não sobressalta. E, quando o vento
Nas folhas ouço sussurrar, aquele
Infinito silêncio a esta voz
Vou comparando: e lembro-me do eterno,
E das mortas estações, e da que agora passa
E vive, do seu rumor. Assim no meio
Desta imensidade o pensamento se me afoga:
E naufragar me é doce neste mar.

Tradução de Albano Martins
in Giacomo Leopardi, Cantos, Apresentação, seleção, tradução e notas de Albano Martins,  Vega, Gabinete de Edições, Lisboa, s/d.

O Infinito

Sempre cara me foi esta erma altura
Com esta sebe que por tanta parte
Do último horizonte a visão exclui.
Sentado aqui, e olhando, intermináveis
Espaços para além, e sobrehumanos
Silêncios, e profunda quietude,
Eu no pensar evoco; onde por pouco
O coração não treme. E como o vento
Ouço gemer nas ervas, eu àquele
Infinito silêncio esta voz
Vou comparando: e sobrevem-me o eterno,
E as idades já mortas, e a presente
E viva, e seu ruído… Assim, por esta
Imensidade a minha ideia desce:
E o naufragar me é doce neste mar

Tradução de Jorge de Sena
in Poesia de 26 Séculos, Antologia, tradução, prefácio e notas de Jorge de Sena, Fora do Texto, Coimbra, 1993.

 

Poema original

 

L’Infinito

Sempre caro mi fu quest’ermo colle,
E questa siepe, che da tanta parte
Dell’ultimo orizzonte il guardo esclude.
Ma sedendo e mirando, interminati
Spazi di là da quella, e sovrumani
Silenzi, e profondissima quiete
Io nel pensier mi fingo; ove per poco
Il cor non si spaura. E come il vento
Odo stormir tra queste piante, io quello
Infinito silenzio a questa voce
Vo comparando: e mi sovvien l’eterno,
E le morte stagioni, e la presente
E viva, e il suon di lei. Cosi tra questa
Immensita s’annega il pensier mio:
E il naufragar m’è dolce in questo mare.
(1819)

Transcrito de Leopardi, Canti, con uno scritto di Giuseppe Ungaretti, Arnaldo Mondadori Editore S.p.A., Milão, 1987.

 

Abre o artigo a imagem de uma aguarela de William Baziotes (1912-1963).