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Epigramas de Páladas de Alexandria sobre a existência e o seu fim

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À entrada da adolescência li, numa colecção de novela contemporânea editada pela Portugália, uma história de D. H. Lawrence, onde o escritor efabulava sobre a vida de anonimato vivida por Jesus na terra após a ressurreição. Na altura pareceu-me de extrema ousadia aquele questionar de dogmas da igreja católica. Ainda não estava familiarizado com as liberdades da ficção.

É na ausência de constrangimentos na criação literária que, por vezes encontramos os caminhos para respostas a perguntas que nem sabemos formular. Outras vezes, trata-se apenas de confrontar convicções adquiridas com outras perspectivas, quais sejam, por exemplo, as agnósticas considerações que, despidas de pressupostos religiosos, Páladas de Alexandria (n. 392 d.C.) faz sobre a existência humana e o seu fim, e hoje transcrevo:

 

59
A espera da morte é motivo de sofrimento,
mas dele, ao morrer, o homem se liberta.
Não chores, pois, o que deixou a vida:
não há sofrimento para além da morte.

 

 

Noutra perspectiva, ambições, prazeres, e angústias que a vida traz, são tudo irrelevâncias perante o fim que a todos nos espera:

 

65
Perigosa navegação é a vida. Nela balouçados,
sofremos às vezes mais duramente do que os náufragos.
Tendo como piloto da vida a Fortuna,
como no mar vogamos inseguros,
uns com vento de feição, outros contrário. Todos, porém,
nos dirigimos para um porto subterrâneo.

 

60
És rico; e depois? Quando, ao partir, te meterem no caixão,
levarás contigo a riqueza? Consumiste
o tempo a acumulá-la. Não poderás, todavia,
acumular mais dias de vida.

 

 

Na verdade, a realidade insofismável é esta:

 

58
Vim nu à terra e nu irei para debaixo dela.
Porque me afadigo em vão, se o fim é a nudez?

 

Tradução de Alberto Martins

in do mundo grego outro sol, Edições Asa, Porto, 2001.
Os números que antecedem cada poema identificam o epigrama no seio da tradução portuguesa, e integram o capítulo dos epigramas exortativos.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Arpad Szenes (1897-1985), Pedra de meditação, de 1980.

 

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Eugénio de Andrade — Em vez da morte, que teremos no paraíso?

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É pela Semana Santa que o mundo cristão reflecte sobre a morte e ressurreição, ou seja, sobre a esperança de vida eterna.
No último verso do poema A Pergunta de Stevens, de Eugénio de Andrade (1923-2005)Em vez da morte, que teremos no paraíso? — encontro formulada a pergunta insistente sobre o além-vida, para a qual ninguém tem a resposta. É esse desconhecido que ora nos aterra, ora nos tranquiliza, a base do sentimento religioso: a busca da explicação para o inexplicável. E são muitas as formas como com ele lidamos. É de novo Eugénio de Andrade quem nos trás uma das muitas abordagens da tentativa da sua compreensão, através de uma leitura de como sentimos a morte dos outros em nós, com o poema Pequena Elegia de Setembro. Mas ainda aqui são mais as perguntas que as respostas:

 

Pequena Elegia de Setembro

Não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.

Estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos pousados nas últimas rosas
dos grandes e calmos dias de setembro.

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?

 

 

Esta visão da morte banhada em serenidade, ou antes, melancolia, como o poeta refere num poema do mesmo nome, é uma medida da possível relação humana com ela:

 

Melancolia

O sol mal entra em casa — escrevo
sobre a fugidia
luz de areia,
luz que não encontra morada.
Tudo me dói neste dia
em que os mortos deixam à porta
dos vivos
a corrosiva melancolia.

 

 

Sem respostas, … Mas também / o poeta escreve direito por linhas / tortas: a poesia é a ficção / da verdade. … / (do poema São Coisas Assim), é com o poema Balança que termino, dando voz ao profundo significado da vida, pois ao pensar na morte, é sempre sobre a vida que pensamos:

 

Balança

No prato da balança um verso basta
para pesar no outro a minha vida.

 

E no equilíbrio com que pela vida nos movemos se encerra o significado do existir. Sem mais!

Poemas transcritos de Eugénio de Andrade, Poesia, Rosto Editora, lda, V.N.Gaia.

Abre o artigo a imagem de uma pintura do pintor de Siena, Giovanni di Paolo di Grazia (1398-1482), Paraíso.
A pintura é parte de um tríptico que inclui uma Criação e uma Expulsão do Paraíso, todos pertença da colecção do Metropolitan Museum de New York.

Imaginar o além-vida como este mundo de harmonia entre anjos e humanas criaturas no século XV em Siena, ocupados em amena e eterna conversação, é uma deliciosa visão.

Prova — poema de Ángel González

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Dúplice e irónico, o poema Prova de Ángel González (1925-2008), traz uma prova da existência de Deus na perfeição do funcionamento físico da sua criatura, O Homem:


Isto é alguma coisa
repito
se se tem
em conta
essa admirável prova da existência de Deus
constituída
pelo perfeito funcionamento dos meus centros nervosos
que transmitem as ordens que o meu cérebro emite
às margens longínquas das minhas extremidades.

 

Depois, a evidência de que esse perfeito funcionamento tanto serve para fazer o bem como para fazer o mal,

Mão coça-me a cabeça!
Mão, aproxima
essa cadeira. Desaperta
o soutien a essa miúda
— e tu, a outra, não fiques quieta.
Apanha
todo o dinheiro, mão:
incendeia, mata.

 

O que lhe permite concluir em dedução à maneira da matemática, com esta fórmula lapidar:

Portanto,
prova-se uma vez mais,
como eu dizia,
a ordem natural e pré-existente,
a formosura harmónica das coisas.

 

De novo, e uma vez mais, sem respostas definitivas, continuamos a busca inacabada da razão porque existimos.

 

 

Prova

De todos os modos, tenho ainda
este papel,
a caneta,
e a mão direita que a aperta,
e o braço que liga ao meu corpo
para que não fique
— tão distante e longínqua —
como um objeto solto e estranho
— cinco dedos movendo-se,
marchando
pelo solo,
tal como um sujo
animal acossado pela vassoura…

Isto é alguma coisa
repito
se se tem
em conta
essa admirável prova da existência de Deus
constituída
pelo perfeito funcionamento dos meus centros nervosos
que transmitem as ordens que o meu cérebro emite
às margens longínquas das minhas extremidades.

Penso:
           a tarde morre,
e minha mão escreve:
                                     a tarde
morre.
           Ergo Deus existe.

Como é fácil agora,
integrar-se num mundo ordenado e perfeito,
quando se dispõe de uma mão tão perfeita e valiosa,
tão matéria de prova,
tão corpo de delito.

Mão coça-me a cabeça!
Mão, aproxima
essa cadeira. Desaperta
o soutien a essa miúda
— e tu, a outra, não fiques quieta.
Apanha
todo o dinheiro, mão:
incendeia, mata.

Portanto,
prova-se uma vez mais,
como eu dizia,
a ordem natural e pré-existente,
a formosura harmónica das coisas.

Tradução de Egito Gonçalves.

O poema original, Prueba, foi publicado no livro Grado Elemental, 1962.
Transcrevo a tradução de Poesia Espanhola do Após-Guerra, Portugália Editora, s/d.

 

 

Abre o artigo a imagem ligeiramente enquadrada de uma pintura de Georg Baselitz (1938), A mão de Deus (Remix) de 2006.

 

Salmo 139 mudado para português por Herberto Helder

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Deus como demiurgo, a crença na Sua omnipresença e omnisciência encontram-se plasmadas no Salmo 139 que hoje transcrevo mudado para português por Herberto Helder (1930-2015).

Simultaneamente exaltante e terrífico, é um avassalador poema sobre o ínfimo da condição humana perante a grandeza do divino:


Tu me sondas, Senhor, e me conheces.
Adivinhas a palavra que se tece ainda em mim.
Tu que sabes do meu sono e da minha marcha incerta,
dá-me o caminho secreto para a tua eternidade.

 

É parte essencial da crença religiosa a aspiração a partilhar com o Ser Supremo a graça da divindade. E para a ela chegar percorrem-se os caminhos da fé, variados tanto quanto as crenças humanamente concebidas e espalhadas pelas geografias da terra desde que o homem nela existe e pensa. O livro dos salmos integrando o antigo testamento da Bíblia, é tão só mais uma peça desse vasto mundo onde a palavra procura o transcendente.

 

 

Salmo 139

Tu me sondas, Senhor, e me conheces.
Sabes quando me sento e me levanto,
de longe tu escrutas as menores intenções,
reconheces a minha marcha e vigias o meu sono.
Nada de mim te é estranho.
Adivinhas a palavra que se tece ainda em mim.
Estás em frente do meu rosto, estás atrás das minhas costas,
e pousaste a tua mão sobre a carne do meu ombro.
— Oh, tua ciência é a mais prodigiosa.

Como fugir à tua Face, como evitar teu Espírito?
Acho-te nos campos celestes e nas funduras da treva.
Se voo nas asas da luz para o outro lado das águas,
agarra-me a tua mão que jamais me deixará.
E se as trevas sem astros se derrubam sobre mim,
para teus olhos as noites nada mais são do que luz.

Foste tu, eu sei, quem ergueu a minha carne,
quem lentamente me urdiu no ventre de minha mãe.
Maravilho-me ao pensar no enigma criado.
De há muito já decifravas labirintos da minha alma,
e vias erguer-se a máquina dos meus ossos obscuros.
Minha vida estava inscrita no teu livro encoberto.
Ainda antes do tempo fixaras os meus dias.
Mas os teus, os teus enigmas, quem os pode decifrar?
Que se estendem pelo tempo como na terra as areias.
Odeio os teus inimigos com um ódio absoluto.
Tu me sondas, Senhor, e me conheces.
Adivinhas a palavra que se tece ainda em mim.
Tu que sabes do meu sono e da minha marcha incerta,
dá-me o caminho secreto para a tua eternidade.

 

Parte do poema SALTÉRIO, Salmos 137, 88, 22, 42, 57, 69 e 139 incluído em O Bebedor Nocturno, poemas mudados para português por Herberto Helder, Assírio & Alvim, Lisboa, 2010.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Peter Powditch (1942), Coastal II.

Visão da terra onde nascemos e morreremos, nesse lapso só nos justificamos como indivíduos se fizermos por a merecer.

Vinicius de Moraes — Balada das duas mocinhas de Botafogo

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Habituados que estamos à poesia luminosa de Vinicius de Moraes (1913-1980), encontrar o mundo de trevas de Marília e Mariana é uma dolorosa surpresa. Dolorosa pela história contada no poema-narrativa, não pela arte poética, que suprema, nos faz mergulhar no tenebroso da vida e do abismo para onde ela arrasta algumas criaturas.

 

Balada das duas mocinhas de Botafogo

Eram duas menininhas
Filhas de boa família:
Uma chamada Marina
A outra chamada Marília.
Os dezoito da primeira
Eram brejeiros e finos
Os vinte da irmã cabiam
Numa mulher pequenina.
Sem terem nada de feias
Não chegavam a ser bonitas
Mas eram meninas-môças
De pele fresca e macia.
O nome ilustre que tinham
De um pai desaparecido
Nelas deixara a evidência
De tempos mais bem vividos.
A mãe pertencia à classe
Das largadas de marido:
Seus oito lustros de vida
Davam impressão de mais cinco.
Sofria muito de asma
E da desgraça das filhas
Que, posto boas meninas
Eram tão desprotegidas
E por total abandono
Davam mais do que galinhas.

Casa de porta e janela
Era a sua moradia
E dentro da casa, aquela
Mãe pobre, e melancolia…
Quando à noite as menininhas
Se aprontavam pra sair
A loba materna uivava
Suas torpes profecias.
De fato, deve ser triste
Ter duas filhas assim
Que nada tendo a ofertar
Em troca de uma saída
Dão tudo o que têm aos homens:
A mão, o sexo, o ouvido
E até mesmo, quando instadas
Outras flores do organismo.

Foi assim que se espalhou
A fama das menininhas
Através do que esse disse
E do que aquele diria.

Quando a um grupo de rapazes
A noite não era madrinha
E a caça de mulher grátis
Resultava-lhes maninha
Um deles qualquer lembrava
De Marília e de Marina
E um telefone soava
De um constante toque cínico
No útero de uma mãe
E suas duas filhinhas.

Oh, vida tôrva e mesquinha
A de Marília e Marina
Vida de porta e janela
Sem amor e sem comida
Vida de arroz requentado
E média com pão dormido
Vida de sola furada
E cotovelo puído
Com seios moços no corpo
E na mente sonhos idos!

Marília perdera o seu
Nos dedos de um caixeirinho
Que o que dava em coca-cola
Cobrava em rude carinho.
Com quatorze apenas feitos
Marina não era mais virgem
Abrira os prados do ventre
A um treinador pervertido.
Embora as lutas do sexo
Não deixem marcas visíveis
Tirante as flores lilases
Do sadismo e da sevícia
Às vezes deixam no amplexo
Uma grande náusea íntima
E transformam o que é de gosto
Num desgosto incoercível.

E era esse bem o caso
De Marina e de Marília
Quando sozinhas em casa
Não tinham com quem sair.
Ficavam olhando paradas
As paredes carcomidas
Mascando bolas de chicles
Bebendo água de moringa.
Que abismos de desconsolo
Ante seus olhos se abriam
Ao ouvirem a asma materna
Silvar no quarto vizinho!
Os monstros da solidão
Uivavam no seu vazio
E elas então se abraçavam
Se beijavam e se mordiam
Imitando coisas vistas
Coisas vistas e vividas
E enchendo as frondes da noite
De pipilares tardios.

Ah, se o sêmen de um minuto
Fecundasse as menininhas
E nelas crescessem ventres
Mais do que a tristeza íntima!
Talvez de novo o mistério
Morasse em seus olhos findos
E nos seus lábios inconhos
Enflorescessem sorrisos.
Talvez a face dos homens
Se fizesse, de maligna
Na doce máscara pensa
Do seu sonho de meninas!

Mas tal não fosse o destino
De Marília e de Marina.
Um dia, que a noite trouxe
Coberto de cinzas frias
Como sempre acontecia
Quando se achavam sozinhas
No velho sofá da sala
Brincaram-se as menininhas.
Depois se olharam nos olhos
Nos seus pobres olhos findos
Marina apagou a luz
Deram-se as mãos, foram indo
Pela rua transversal
Cheia de negros baldios.
Às vezes pela calçada
Brincavam de amarelinha
Como faziam no tempo
Da casa dos tempos idos.
Diante do cemitério
Já nada mais se diziam.
Vinha um bonde a nove-pontos..
Marina puxou Marília
E diante do semovente
Crescendo em luzes aflitas
Num desesperado abraço
Postaram-se as menininhas.

Foi um só grito e o ruído
Da freada sobre os trilhos
E por toda a parte o sangue
De Marília e de Marina.

in O Mergulhador, poemas de Vinicius de Moraes ilustrado com fotografias de seu filho Pedro de Moraes, Edição do Atelier de Arte, Rio de Janeiro, 1968.

Abre o artigo a imagem de um detalhe de uma pintura de Théodore Chassériau (1819-1856), As duas irmãs do pintor, pertença da colecção do Museu do Louvre.

A escolha da imagem não tem qualquer associação à vida das irmãs de Botafogo. Apenas na eloquência da sua visível falta de alegria, encontro o trágico mistério que por vezes se esconde sob vidas aparentemente banais.

Manuel Alegre — Que somos nós senão o que fazemos?

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No passado próximo deixei uma interrogação e convite à meditação do eu interior com uma Oração à Alma de Gregório de Naziano. Hoje venho com uma diferente interrogação por Manuel Alegre (1936): Que somos nós senão o que fazemos?
O soneto Que somos nós dá a resposta do poeta:


Que serei eu senão só o que faço
e é tão pouco no tempo em que não temos

para viver senão o tempo de
transformar neste tempo e neste espaço
a vida em que não somos mais do que

o sol do que fazemos. …

 

 

O soneto foi publicado em 1970. Não sei se hoje, passados quase cinquenta anos de vida a resposta do poeta continua a ser a dada no poema, de que o homem ou é acção, ou não é.

 

Entendo que somos mais que acção. Agir é tantas vezes errar. Agir sem a vigilância da reflexão sobre o que se faz e suas consequências pode ser historicamente marcante mas quantas vezes, se não tivesse acontecido, não seria melhor.
Vejamos o que nos diz o imperador Marco Aurélio (121-180) num dos seus Pensamentos:

 

Tudo o que sou não passa disto: um pouco de carne que respira e o norte da razão que nos dirige. …
Marco Aurélio, Pensamentos, Liv. II, 2.

 

Ser homem é pensar sempre e a cada momento as consequências da sua acção. Se como escrevi no artigo antes referido, mesmo quando não escolhemos estamos a decidir não escolher, agir ou não agir que seja sempre consequência de escolher, e não irreflectido impulso, para que o rasto que deixemos na terra tenha servido de alguma forma o bem.

 

Antes de o deixar, leitor, com o poema, regresso a um dos pensamentos de Marco Aurélio:

 

Experimenta como te prova por seu turno a vida do homem de bem que aceita com gosto a parte que lhe toca no conjunto e se contenta, pelo que lhe depende, com praticar a justiça e permanecer em disposição benevolente.
Liv. IV, 25.

 

 

Poema

 

Que somos nós

Que somos nós senão o que fazemos?
Que somos nós senão o breve traço
da vida que deixamos passo a passo
e é já sombra de sombra onde morremos?

Que somos nós se não permanecemos
no por nós transformado neste espaço?
Que serei eu senão só o que faço
e é tão pouco no tempo em que não temos

para viver senão o tempo de
transformar neste tempo e neste espaço
a vida em que não somos mais do que

o sol do que fazemos. Porque o mais
é sombra de sombra e o breve traço
de quem passamos para nunca mais.

 

in O Canto e as Armas, inédito na 2.ª edição, 1970
Transcrito de Obra Poética, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1999.
Traduções de Marco Aurélio por João Maia. Pensamentos, Relógio D’Água Editores, Lisboa, 1995.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Fernand Léger (1881-1955), Os Construtores da colecção do Museu Fernand Léger de França.

 

Incêndio — poema de José Saramago

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Se algum leitor se desse ao trabalho de seguir no blog a poesia que aborda prazer e sexo, espantar-se-ia com a variedade expressiva para falar do mesmo e em todas as épocas e latitudes. Hoje mais um exemplo, não de um poeta, mas de um prosador que escreveu alguma poesia, José Saramago (1922-2010). Com o seu poema, Incêndio, dou continuidade ao que há pouco escrevi no blog: que a poesia portuguesa do século XX abunda na representação do erótico, manifestação do desejo físico e sua consumação, cobertos por linguagem velada, se não mesmo metafórica.

 

Incêndio

Convoco o cheiro, a polpa sensitiva
Dos dedos curiosos e da boca,
Convoco a cor dos olhos, e os cabelos,
E o lume que neles há, e a voz rouca.

Convoco o grito, o espanto e o temor,
O corpo recurvado, a violência,
O suor que arrefece — e o sorriso
Que te cobre de paz e inocência.

Reúno estas memórias. No meu sangue
As infundo e converto como brasas,
E ardo, violento: assim, ao vento,
Ardem de lés a lés searas rasas.

in Provavelmente Alegria.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de René Magritte (1898-1967), La lectrice soumise, A leitora subjugada.

Fantasiemos um pouco sobre esta imagem de abertura.
Representará uma mulher ainda nova, modesta com a sua pessoa, pouco favorecida pela beleza física, a quem a vida não proporcionou os prazeres descritos no que acaba de ler.  Curiosa, segue o meu conselho, e de artigo em artigo cresce o espanto sobre os prazeres que é possível gozar e ela ignora:
— Ai os poetas romanos! E os do Al -Andaluz então… . Meu Deus! Tanta religião e aquilo…
Para cúmulo, admiradora da prosa do nosso Nobel, nem percebe bem o que ele quer dizer com aquele:


Convoco o grito, o espanto e o temor,
O corpo recurvado, a violência,
O suor que arrefece — e o sorriso
Que te cobre de paz e inocência.

Será que se refere mesmo ao que ela está a pensar? Incrédula, quase deixa cair o livro onde foi procurar o poema para se certificar da sua existência. …

E aqui ponho fim à fantasia. Até à próxima…

 

Ruy Belo — o poema Ácidos e Óxidos

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Sim, sou eu, devo sem dúvida ser eu

Simples questão de tempo és e a certas circunstâncias de lugar
circunscreves o corpo. …

 

Depois do intervalo destes dias, regressemos à poesia densa de implicações sociais e psicológicas com o poema Ácidos e Óxidos de Ruy Belo (1933-1978):

Escolhe inscreve-te pertence, não concordas
que há cores mais bonitas do que outras?
Sou homem de palavra e hei-de cumprir tudo
hão-de encontrar coerência em cada gesto meu
Ser isto e não aquilo, amar perdidamente
alguém alguma coisa as cláusulas do pacto
Isto ou aquilo, ou ele ou eu, sem mais hesitações

 

Eis o retrato de alguém psicologicamente adaptado ao papel social que lhe foi atribuído, embora ocasionalmente espreite alguma perplexidade, que não interrogação:

E perguntar será para ti responder

Pode ser que me engane, pode ser que seja eu
e no entanto estou de pé, rebolo-me no sol,
sou filho desta terra e vou fazendo anos
pois não se pode estar sem fazer nada

 

Na desarticulação do discurso linear recolhem-se as complexidades do eu, e nesta espécie de conversa ao espelho do próprio consigo mesmo, reflecte-se a quase impotência da autonomia individual na teia social de compromissos, deveres, e expectativas dos outros, a ponto de acreditar que são afinal escolhas do próprio as que outros induzem:

São horas, vamos lá, sorri, já as primeiras chuvas
levam ou lavam corpos caras
Sabemos que podemos bem contar contigo em tudo
Amanhã, neste lugar, sob este sol
e de aqui a um ano? Combinado

 

O remate surge na inevitável conclusão da inutilidade de tanto compromisso, consequência da pressão exterior sobre o indivíduo:

Que fica dos teus passos dados e perdidos?
Horário de trabalho, uma família, o telefone, a carta,
o riso que resulta de seres vítima de olhares
Que resto dás? Ou porventura deixas algum rasto?
E assim e assado sofro tanto tempo gasto

 

 

Eis o poema na totalidade:

 

 

Ácidos e Óxidos

É uma coisa estranha este verão
E no entanto ia jurar que estive aqui
Não me dói nada, não. A tia como está?
Claro que vale a pena, por que não?
Sim, sou eu, devo sem dúvida ser eu
Podem contar comigo, eu tenho uma doutrina
Não é bonito o mar, as ondas, tudo isto?
Até já soube formas de o dizer de outra maneira

Há coisas importantes, umas mais que outras
Basta limpar os pés alheios à entrada
e só mandarmos nós neste templo de nada
E o orgulho é a nossa verdadeira casa
Nesta altura do ano quando o vento sopra
sobre os nossos dias, sabes quem gostava de ser?
Não, cargos ou honras não. Um simples gato ao sol,
talvez uma maneira ou um sentido para as coisas

Ó dias encobertos de verão do meu país perdido
mais certos do que o sol consumido nos charcos no inverno,
estas ou outras formas de morrermos dia a dia
como quem cumpre escrupulosamente o seu horário de trabalho
Não eras tu, nem isto, nem aqui. Mas está bem,
estou pelos ajustes porque sei que não há mais
Pode ser que me engane, pode ser que seja eu
e no entanto estou de pé, rebolo-me no sol,
sou filho desta terra e vou fazendo anos
pois não se pode estar sem fazer nada

Curriculum atestado testemunho opinião…
que importa, se o verão é mesmo uma certa estação?
Escolhe inscreve-te pertence, não concordas
que há cores mais bonitas do que outras?
Sou homem de palavra e hei-de cumprir tudo
hão-de encontrar coerência em cada gesto meu
Ser isto e não aquilo, amar perdidamente
alguém alguma coisa as cláusulas do pacto
Isto ou aquilo, ou ele ou eu, sem mais hesitações
Estar aqui no verão não é tomar uma atitude?
A mínima palavra não será como prestar
em certo tipo de papel qualquer declaração?
Há fórmulas, bem sei, e é preciso respeitá-las
como o gato que cumpre o seu devido sol
São horas, vamos lá, sorri, já as primeiras chuvas
levam ou lavam corpos caras
Sabemos que podemos bem contar contigo em tudo
Amanhã, neste lugar, sob este sol
e de aqui a um ano? Combinado
Não achas que a esplanada é uma pequena pátria
a que somos fiéis? Sentamo-nos aqui como quem nasce
Será verdade que não tens ninguém?
Onde é o teu refúgio, ó sítio de silêncio
e sofrimento indivisível? É necessário
Vais assim. Falam de ti e ficas nas palavras
fixo, imóvel, dito para sempre, reduzido
a um número. Curriculum cadastro vizinhança
Acreditas no verão? Terás licença? Diz-me:
seria isto, nada mais que isto?
Tens um nome, bem sei. Se é ele que te reduz,
aí é o inferno e não achas saída
Precário, provisório, é o teu nome
Lobos de sono atrás de ti nesses dez anos
que nunca conseguiste e muito menos hoje
Espingardas e uivos e regressos, um regaço
redondo – o único verdadeiro espaço, o
sabor de não estar só, natal antigo,
o sol de inverno sobre as águas, tudo novo,
a inspecção minuciosa de pauis, de cômoros, marachas
Viste noites e dias, estações, partidas
E tão terrível tudo, porque tudo
trazia no princípio o fim de tudo
A morte é a promessa: estar todo num lugar,
permanecer na transparência rápida do ser
E perguntar será para ti responder

Simples questão de tempo és e a certas circunstâncias de lugar
circunscreves o corpo. Sentas-te, levantas-te
e o sol bate por vezes nessa fronte aonde o pensamento
— que ao dominar-te deixa que domines — mora
Estás e nunca estás e o vento vem e vergas
e há também a chuva e por vezes molhas-te,
aceitas servidões quotidianas, vais de aqui para ali,
animas-te, esmoreces, há os outros, morres
Mas quando foi? Aonde te doía? Dividias-te
entre o fim do verão e a renda da casa
Que fica dos teus passos dados e perdidos?
Horário de trabalho, uma família, o telefone, a carta,
o riso que resulta de seres vítima de olhares
Que resto dás? Ou porventura deixas algum rasto?
E assim e assado sofro tanto tempo gasto

 

in Todos os Poemas, Assírio & Alvim, Lisboa, 2000.

 

 

Abre o artigo a imagem de um objecto escultórico de Jim Dine (1935), Fato Verde.

 

Dois epigramas anónimos espanhóis

Esta semana deu-me para o desenfado. Acontece. Tenham paciência os leitores.
Folheio a biblioteca, passo os olhos nas edições libertinas francesas do século XVIII, completamente desadequadas para a austeridade dos leitores do blog apreciadores de metafísicas, e prossigo.
Nas leituras de acaso encontro, numa edição setecentista de Flores varias del Parnaso, dois epigramas espanhóis, anónimos, que ofereço a seguir em tradução. Talvez façam sorrir algum sisudo leitor.

 

 

Epigrama

Um distinto professor
Perguntou a um aluno:
— Diga: que tempo é amar?
— Amar é tempo perdido!
***

Tradução Carlos Mendonça Lopes

 

 

Epigrama

O maciço D. José
Que o pesassem dispôs.
E para o efeito se pôs
Sobre a balança, de pé.

O pesador, que era André,
Disse depois de um minuto:
— Quinze arrobas*. — Net ou bruto?
— Bruto, tal qual você é.
***
* uma arroba são 15kg.

Tradução Carlos Mendonça Lopes

 

 

Abre o artigo a imagem de um desenho/colagem de Erwin Blumenfeld (1897-1969), D. Juan casa-se.

D.Juan, esse herói espanhol criado por Tirso de Molina no séc. XVII, e sucessivamente reinterpretado pela cultura europeia, numa conjectura possível, seria quem transmitira ao aluno do epigrama a sábia afirmação: Amar é tempo perdido!.
No entanto, a crer na colagem de abertura, D. Juan casa-se, e talvez, envergonhado de atraiçoar a sua gloriosa memória, tendo engordado como inevitavelmente acontece a qualquer casado, se disfarce do D.José, cujo peso se avalia no segundo epigrama (o homem estava preocupado com a linha…).

Eu tinha avisado a abrir…

Poemas sobre gatos — Appolinaire e Szymborska

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Não tenho animais de estimação e espanta-me sempre um pouco verificar as transferências afectivas que as pessoas fazem para os seus bichos. É um universo emocional que me é estranho e aceito sem julgar. De entre estes animais domésticos são gatos o que mais surge na poesia, sobretudo dando conta do seu comportamento voluntarioso e independente. As relações de afecto com os seus donos, se para os cães são comuns, com os gatos manifestam-se de forma talvez mais desprendida.

São disso testemunho indirecto dois poemas que a seguir transcrevo. De Guillaume Apollinaire (1880-1918), O Gato, do qual se lerão duas versões; depois, de Wislawa Szymborska (1923-2013), Gato em apartamento vazio. Dão conta os poemas de atmosferas de domesticidade onde o gato se integra. Revelam o convívio com o animal de estimação que traduz um sereno entendimento da sua presença no quotidiano humano.

Em Apollinaire lemos um quadro de desejo doméstico com mulher, gato, livros, e amigos:

 

O Gato

Na minha casa desejo ter
Uma mulher que imponha a sua razão
Um gato passeando por entre os livros
E porque sem eles não posso viver
Amigos seja qual for a estação

in Assinar a Pele — antologia de poesia contemporânea sobre gatos
(organização de João Luís Barreto Guimarães)

 

Poema original

Le chat

Je souhaite dans ma maison :
Une femme ayant sa raison,
Un chat passant parmi les livres,
Des amis en toute saison
Sans lesquels je ne peux pas vivre

in Le Bestiaire ou Cortège d’Orphée

 

e agora uma versão mais perto da letra do original:

O Gato

Desejo ter em minha casa:
Uma mulher no seu juízo,
Um gato passeando-se entre livros,
Amigos para o que der e vier
Porque sem eles não sei viver.

Tradução de Maria Gabriela Llansol,
in Mais Novembro que Setembro, Relógio d’Água Editores, Lisboa, 2001.

 

No poema de Wislawa Szymborska, Gato em apartamento vazio, conta-se a perplexidade da perda, no universo do gato, quando a morte altera as rotinas que dão o sentido dos dias:

 

Gato em apartamento vazio

Morrer — isso não se faz ao gato.
Pois que há-de um gato fazer
num apartamento vazio.
Ir arranhando as paredes.
Roçar-se por entre os móveis.
Por aqui nada mudou
mas está mais que mudado.
As coisas estão nos sítios,
mas os sítios outro são.
E nem se acende a luz pela noitinha.

Ouvem-se passos na escada,
todavia, não os tais.
A mão que põe no pratinho o peixe
também não é a que antes punha.

Algo aqui não acontece
às horas que acontecia.
Há algo aqui que não corre
como devia correr.
Alguém aqui esteve, esteve,
e agora teima em não estar.

Vasculhados todos os armários.
Percorridas todas as prateleiras.
Uma vez verificado o chão sob a alcatifa.
Contra todas as proibições até,
espalhados os papéis.
Que é que fica ainda por fazer.
Dormir e esperar.

Tradução de Júlio Sousa Gomes
in Paisagem com grão de areia, Relógio d’Água Editores, Lisboa, 1998.

Exemplar ilustração de como tudo muda com a morte quando parece nada ter mudado olhando a imobilidade das coisas.

O gato da fotografia surpreendi-o certa tarde, junto ao mar, a olhar para mim enquanto fotografava. Aos especialistas deixo a interpretação desse olhar.