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Foge-me pouco a pouco a curta vida — A sextina de Camões

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Dar em palavras a medida do sentimento, seja ele felicidade, alegria, tristeza ou desespero, é esse o génio de Luís de Camões (1524-1580) na sua faceta mais cativante: a lírica, fazendo uso das formas poéticas em uso no tempo. E uma vez mais, na única sextina que escreveu, encontramos a fluência da expressão amorosa sem que nos apercebamos imediatamente do espartilho das exigências estróficas e de rima que a construção de uma sextina reclama.

 

Numa sextina, poema com seis estrofes de seis versos cada e um terceto final, são seis as palavras que constituem as rimas ao longo dos seis sextetos do poema. Na composição de Camões são elas: vida, vivo, olhos, falo, passo, pena, as quais devem surgir uma a uma no final de cada verso de uma estrofe de seis versos. Estas palavras, sempre as mesmas, surgem nas estrofes seguintes em ordem diferente da primeira estrofe. No terceto final estas seis palavras são repetidas duas a duas em cada verso, uma a meio, outra no final do verso.

 

Construir um poema comovente em que o leitor caminha sem dar conta desta estrutura cerrada, é a proeza de Camões nesta obra singular:


Morrendo estou na vida, e em morte vivo;
Vejo sem olhos, e sem língua falo;
E juntamente passo glória e pena.

 

É um desgosto mortal, e um desgosto de amor, o relatado por Camões neste poema, ao ponto de lhe parecer a existência sem qualquer sentido:

Que mais me monta ser morto que vivo?
Pera que choro, enfim? Pera que falo,
Se lograr-me não pude de meus olhos?

Sabemos a seguir que tanto desgosto decorre de não poder ver a quem ama:


Ó fermosos gentis e claros olhos,
Cuja ausência me move a tanta pena

 

E é no choro que o apaixonado, confrontado com a ausência da amada, algum consolo encontra:


Mas, sobre a maior dor que sofro e passo
Me temperam as lágrimas dos olhos;
Com que, fugindo, não se acaba a vida.

 

 

SEXTINA

Foge-me, pouco a pouco, a curta vida,
Se por acaso é verdade que inda vivo;
Vai-se-me o breve tempo de entre os olhos;
Choro pelo passado; e, enquanto falo,
Se me passam os dias passo a passo.
Vai-se-me, enfim, a idade e fica a pena.

Que maneira tão áspera de pena!
Pois nunca uma hora viu tão longa vida
Em que posso do mal mover-se um passo.
Que mais me monta ser morto que vivo?
Pera que choro, enfim? Pera que falo,
Se lograr-me não pude de meus olhos?

Ó fermosos gentis e claros olhos,
Cuja ausência me move a tanta pena
Quanta se não compreende enquanto falo!
Se, no fim de tão longa e curta vida,
De vós me inda inflamasse o raio vivo,
Por bem teria tudo quanto passo.

Mas bem sei que primeiro o extremo passo
Me há-de vir a cerrar os tristes olhos,
Que amor me mostre aqueles por que vivo.
Testemunhas serão a tinta e pena
Que escreverão de tão molesta vida
O menos que passei, e o mais que falo.

Oh! que não sei que escrevo, nem que falo!
Que se de um pensamento noutro passo,
Vejo tão triste género de vida
Que, se lhe não valerem tanto os olhos,
Não posso imaginar qual seja a pena
Que traslade esta pena com que vivo.

Na alma tenho contino um fogo vivo,
Que, se não respirasse no que falo,
Estaria já feita cinza a pena;
Mas, sobre a maior dor que sofro e passo
Me temperam as lágrimas dos olhos;
Com que, fugindo, não se acaba a vida.

Morrendo estou na vida, e em morte vivo;
Vejo sem olhos, e sem língua falo;
E juntamente passo glória e pena.

Luís de Camões, Lírica Completa, edição de Maria de Lurdes Saraiva, INCM, Lisboa, 1980.

 

 

Abre o artigo a imagem de um pormenor de um fresco de Bronzino (1503-1572) no Palazzo Vechio de Florença.

 

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Tem alguma importância? — consequências da guerra num poema de Siegfried Sassoon

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À medida que as gerações que viveram a experiência directa das guerras mundiais do século XX desaparecem, e deixam de ter peso eleitoral nas democracias ocidentais, a retórica nacionalista que a elas conduziu reaparece e aviva a chama onde ela verdadeiramente nunca se extinguiu.
A paz de que a Europa Ocidental tem usufruído nos últimos 70 anos é sem paralelo na sua história, e é uma conquista frágil, sempre à beira de desaparecer, esmoreça a vontade dos homens para a preservar.

 

Lembrar as consequências da guerra, de qualquer guerra, é um exercício de higiene mental  que vale a pena continuar a fazer. E não são só as estatísticas de mortos e destruições, são sobretudo os casos de A ou B que conhecemos, ou alguém perto de nós conheceu que nos podem tocar mais directamente e fazer interiorizar o que não queremos que volte a acontecer.

 

Entre os poemas de Siegfried Sassoon (1886-1967), poeta e soldado que viveu a experiência da WWI, escolho o poema Tem alguma importância? no qual se evidencia o contraste entre a tragédia pessoal de quem experimentou a carnificina guerreira, e a atmosfera social que, respeitando-a, a incorpora na banalidade dos dias, desresponsabilizando-se cada um da sua contribuição, eventualmente pela indiferença ou complacência, se não mesmo aplauso, para que tivesse acontecido

 

Vivemos hoje pelo mundo uma atmosfera atroadora de apelos à discórdia, à quezília, ao ódio, indutora dos desastres de guerra que outras gerações viveram.
Talvez a cada geração não basta memória da tragédia dos outros e precise viver directamente a sua. Cabe a quem não o aceita, a exigência de contra ela erguer a voz.

 

 

Tem alguma importância?

Tem alguma importância? — ficar sem pernas?…
As pessoas serão sempre tão bondosas.
E não deves mostrar que te impressiona
Ver os outros, que voltam da caçada
Devorar bolinhos de leite e bacon com ovos.

Tem alguma importância? — ficar cego?…
Há admiráveis obras de assistência aos cegos.
E as pessoas serão sempre tão bondosas;
Enquanto te sentas na varanda, a recordar
E viras a cara para o calor do Sol.

Têm alguma importância? — estes pesadelos do poço?…
Podes beber, esquecer, acabar embriagado.
E as pessoas não vão espalhar que tu estás louco:
Sabem que te bateste pela pátria
E ninguém quer viver incomodado.

Tradução de Victor Palla
in Poemas do Inglês, Ler Editora, Lisboa, 1985.

 

 

Poema original

 

Does it matter?

Does it matter? -losing your legs?
For people will always be kind,
And you need not show that you mind
When others come in after hunting
To gobble their muffins and eggs.

Does it matter? -losing you sight?
There’s such splendid work for the blind;
And people will always be kind,
As you sit on the terrace remembering
And turning your face to the light.

Do they matter-those dreams in the pit?
You can drink and forget and be glad,
And people won’t say that you’re mad;
For they know that you’ve fought for your country,
And no one will worry a bit.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de George Grosz (1893-1959).

 

Ainda o envelhecimento e o amor perene num poema de Ada Negri

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Quanto permanece em nós de um intenso amor que se quebrou? No poema de Ada Negri (1870-1945), Aquele que passa, é uma resposta a esta interrogação que encontramos. Não é evidentemente a única. Depende apenas de como terminou, e de como em nós ele viveu.

 

Amores há em que a partilha é tal que à medida do passar do tempo fica progressivamente indistinta a parte que em cada um é original e de raiz, e qual parte é a absorção do outro que se ama no desejo de simbiose que esse amor traz. É de um amor algo assim que o poema de Ada Negri nos fala:


E em ti não há membro nem ponta de carne ou átomo de alma que não tenha uma marca de amor.
Que tu viveste apenas para amar aquele que te amava,

 

E este amor na sua força, contraria o envelhecimento, no sentido de gastar a vida que passou. Diz-nos o poema quanto um amor intenso é fonte de juventude perene:

O desconhecido que passa e te acha ainda digna de uma fugidia palavra de desejo,

E nem que quisesses podias arrancar de ti essa veste que o amor teceu.
Ele, ignaro, em ti já não bela, em ti já não jovem, saúda a graça do deus:
Respira, passando, em ti já não bela, em ti já não jovem, o aroma precioso do deus:

 

 

Aquele que passa

O desconhecido que passa e te acha ainda digna de uma fugidia palavra de desejo,
Talvez porque na sombra da noite tão doce de Maio
Ainda resplendem teus olhos, ainda tem vinte anos a ligeira figura deslizante,
Não sabe que foste amada, por aquele que amaste amada, em plena e soberba delícia de amor,
E em ti não há membro nem ponta de carne ou átomo de alma que não tenha uma marca de amor.
Que tu viveste apenas para amar aquele que te amava,
E nem que quisesses podias arrancar de ti essa veste que o amor teceu.
Ele, ignaro, em ti já não bela, em ti já não jovem, saúda a graça do deus:
Respira, passando, em ti já não bela, em ti já não jovem, o aroma precioso do deus:
Só porque o levas contigo, doce relíquia à sombra de um sacrário.

 

Tradução de Jorge de Sena
Transcrito de Poesia do Século XX, Antologia, tradução, prefácio e notas de Jorge de Sena, Fora do Texto, Coimbra, 1994.

 

 

Abre o artigo a imagem de um desenho de Arpad Szenes (1897-1985) com um retrato de Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992). Para os leitores familiarizado com a biografia do casal de pintores, talvez seja menos despropositada a razão da escolha desta imagem para acompanhar este poema.

 

O Amor Antigo segundo Carlos Drummond de Andrade

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Viver um amor antigo é uma experiência aberta a poucos, pois primeiro é preciso que o tempo passe e o prove. As vicissitudes, a ambição de realização individual, os encontros/desencontros ocasionais que podem fazer trocar o certo pelo incerto, tudo ajuda a que o amor se desvaneça. E chegados a certa idade da vida, afinal o que se supôs à partida amor eterno esfumou-se.
Para aqueles a quem ele permaneceu, surge como uma dádiva, como o escreve Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) no poema O Amor Antigo:
… Ele venceu a dor, / e resplandece no seu canto obscuro, / tanto mais velho quanto mais amor.

 

O Amor Antigo

O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.

in Amar se aprende amando, Editora Record, Rio de Janeiro e São Paulo, 1987.

 

Abre o artigo a imagem do pormenor de uma pintura de Fra Filippo Lippi (1406-1469).

Amor e afastamento no soneto 44 de Shakespeare

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Uma vez mais amor e afastamento são o pretexto para a poesia, aqui o soneto 44 de Shakespeare (1564-1616) numa peculiar versão de Vasco Graça Moura (1942-2014), o qual nos dá um belíssimo soneto em português.
Recusando aqui e ali a fidelidade lexical, a tradução de Vasco Graça Moura transporta para português a especiosa forma da expressão shakespeariana, como certamente os leitores com domínio do inglês comprovam pela leitura do original que à frente também transcrevo.

 

Soneto 44

Fosse-me carne opaca pensamento,
a vil distância não me deteria
e de remotos longes num momento
até onde te encontras eu viria.
Nem importava que tivesse os pés
no ponto que é de ti mais afastado:
o pensamento vai de lés a lés
mal pensa no lugar a que é chamado.
Mas mata-me pensar que em mim não pensas
para saltar as milhas quando vás;
feito de terra e água em partes densas,
espero em ânsias o que o tempo traz.
  Nem lentos elemento trazem mais
  do que choros, da nossa dor sinais.

Tradução de Vasco Graça Moura
in Os Sonetos de Shakespeare, versão integral, Bertrand Editora, 2007.

 

 

SONNET 44

If the dull substance of my flesh were thought,
Injurious distance should not stop my way;
For then, despite of space, I would be brought,
From limits far remote, where thou dost stay.
No matter then although my foot did stand
Upon the farthest earth removed from thee,
For nimble thought can jump both sea and land
As soon as think the place where he would be.
But ah, thought kills me that I am not thought,
To leap large lengths of miles when thou art gone,
But that, so much of earth and water wrought,
I must attend time’s leisure with my moan,
  Receiving naught by elements so slow
  But heavy tears, badges of either’s woe.

Transcrito de The Oxford Shakespeare, Complete Sonnets and Poems, Oxford 2002.

 

 

 

Abre o artigo a imagem de um fragmento da pintura de Antonio del Pollaiuolo (1431-1499), Apolo e Dafne, da coleção da National Gallery de Londres.

 

Neruda — Ode ao Vinho

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Em Ode ao Vinho, Pablo Neruda (1904-1973) constrói um elogio do vinho de um ponto de vista diferente do habitual: enquanto com frequência se trata em poesia das consequências do vinho em cada um, ou das alegrias e panaceias que ele permite, como a certa altura o poeta relembra:

Às vezes
alimentas-te de recordações
mortais,
na tua onda
vamos de tumba em tumba,
canteiro de gelado sepulcro,
e choramos
transitórias lágrimas,

 

ainda assim, nela, o vinho é o sujeito absoluto:
Vinho da cor do dia,
vinho da cor da noite,

jamais coubeste numa taça,
numa canção, num homem,
num coro, …

 

É a partir do vinho, e não de quem o bebe, que as variadas realidades visitadas no poema se definem:

O vinho
move a Primavera,
cresce como uma planta de alegria,
os muros desmoronam-se,
os penhascos,
fecham-se os abismos,
nasce o canto.

 

Usando da eloquência poética que o distingue, Pablo Neruda dá-nos simultaneamente um vigoroso, comovido, e encantatório canto em louvor do vinho e das bênçãos que ele à humanidade traz:

Ó tu, jarro de vinho no deserto
com a doce amada minha,
disse o velho poeta.
Que o cântaro de vinho
ao peso do amor afogue o seu beijo.

 

E se a força embriagadora do vinho se associa inevitavelmente ao amor:

Meu amor, subitamente
a tua nádega
é curva plena
da taça,
o teu peito o cacho,
a luz do álcool a tua cabeleira,
as uvas os teus mamilos,
o teu umbigo o selo puro
estampado no teu ventre de ânfora,
e o teu amor a cascata
de vinho perene,
a claridade que inunda os meus sentidos,
o esplendor terrestre da vida.

ele é também pretexto e cimento da amizade e solidariedade entre os homens:

és também
amizade dos seres, transparência,
coro de disciplina,
abundância de flores.

 

E termina a Ode lembrando que o vinho é uma manifestação superior da simbiose do homem e da terra, Amo, quando se fala / à mesa, da luz de uma garrafa / de inteligente vinho. / … / e que o músculo homem aprenda, / no cerimonial do seu negócio, / a recordar a terra e os seus deveres, / … — , afinal entendimento que nos nossos dias parece estar definitivamente perdido, pelo menos no que à sustentabilidade global dos recursos terrestres respeita.

Que o bebam,
que recordem em cada
gota de ouro
ou taça de topázio
ou colher de púrpura
que o Outono trabalhou
até encher de vinho as vasilhas

 

 

Ode ao Vinho de Pablo Neruda

Vinho da cor do dia,
vinho da cor da noite,
vinho com pés de púrpura
ou sangue de topázio,
vinho,
rutilante filho
da terra,
vinho, liso
como uma espada de ouro,
suave
como um antigo veludo,
vinho encaracolado
e suspenso,
amoroso,
marinho,
jamais coubeste numa taça,
numa canção, num homem,
num coro, tens o sentido gregário,
ou pelo menos, comum.
Às vezes
alimentas-te de recordações
mortais,
na tua onda
vamos de tumba em tumba,
canteiro de gelado sepulcro,
e choramos
transitórias lágrimas,
mas
o teu formoso
traje de Primavera
é diferente,
o coração sobe aos ramos,
o vento move o dia,
nada fica
dentro da tua imóvel alma.
O vinho
move a Primavera,
cresce como uma planta de alegria,
os muros desmoronam-se,
os penhascos,
fecham-se os abismos,
nasce o canto.
Ó tu, jarro de vinho no deserto
com a doce amada minha,
disse o velho poeta.
Que o cântaro de vinho
ao peso do amor afogue o seu beijo.

Meu amor, subitamente

a tua nádega
é curva plena
da taça,
o teu peito o cacho,
a luz do álcool a tua cabeleira,
as uvas os teus mamilos,
o teu umbigo o selo puro
estampado no teu ventre de ânfora,
e o teu amor a cascata
de vinho perene,
a claridade que inunda os meus sentidos,
o esplendor terrestre da vida.

Mas tu, vinho da vida, não és

somente amor,
escaldante beijo
ou coração queimado,
és também
amizade dos seres, transparência,
coro de disciplina,
abundância de flores.
Amo, quando se fala
à mesa, da luz de uma garrafa
de inteligente vinho.
Que o bebam,
que recordem em cada
gota de ouro
ou taça de topázio
ou colher de púrpura
que o Outono trabalhou
até encher de vinho as vasilhas
e que o músculo homem aprenda,
no cerimonial do seu negócio,
a recordar a terra e os seus deveres,
a propagar o cântico do fruto.

Tradução de Luis Pignatelli
in Odes Elementares, Publicações Om Quixote, Lisboa, 1977.

 

 

Poema original

 

Oda al Vino

Vino color de día,
vino color de noche,
vino con pies de púrpura
o sangre de topacio,
vino,
estrellado hijo
de la tierra,
vino, liso
como una espada de oro,
suave
como un desordenado terciopelo,
vino encaracolado
y suspendido,
amoroso,
marino,
nunca has cabido en una copa,
en un canto, en un hombre,
coral, gregario eres,
y cuando menos, mutuo.
A veces
te nutres de recuerdos
mortales,
en tu ola
vamos de tumba en tumba,
picapedrero de sepulcro helado,
y lloramos
lágrimas transitorias,
pero
tu hermoso
traje de primavera
es diferente,
el corazón sube a las ramas,
el viento mueve el día,
nada queda
dentro de tu alma inmóvil.
El vino
mueve la primavera,
crece como una planta la alegría,
caen muros,
peñascos,
se cierran los abismos,
nace el canto.
Oh tú, jarra de vino, en el desierto
con la sabrosa que amo,
dijo el viejo poeta.
Que el cántaro de vino
al beso del amor sume su beso.

Amor mio, de pronto

tu cadera
es la curva colmada
de la copa,
tu pecho es el racimo,
la luz del alcohol tu cabellera,
las uvas tus pezones,
tu ombligo sello puro
estampado en tu vientre de vasija,
y tu amor la cascada
de vino inextinguible,
la claridad que cae en mis sentidos,
el esplendor terrestre de la vida.

Pero no sólo amor,

beso quemante
o corazón quemado
eres, vino de vida,
sino
amistad de los seres, transparencia,
coro de disciplina,
abundancia de flores.
Amo sobre una mesa,
cuando se habla,
la luz de una botella
de inteligente vino.
Que lo beban,
que recuerden en cada
gota de oro
o copa de topacio
o cuchara de púrpura
que trabajó el otoño
hasta llenar de vino las vasijas
y aprenda el hombre oscuro,
en el ceremonial de su negocio,
a recordar la tierra y sus deberes,
a propagar el cántico del fruto.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Diego Velasquez (1599-1660), Triunfo de Baco.

Leopardi — A Si Mesmo

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Pelos Cantos de Leopardi (1798-1837) passa uma serena meditação sobre o que na vida nos importa, do nascimento à morte; a palpitação do amor e o fogo extinto; os sinais que da história nos ficam e a atenção ao contemporâneo que foi seu. Tudo numa poesia onde o inefável frequentemente surge transmitindo uma dimensão atemporal ao seu verso.

 

Estreio esta poesia no blog com o poema A Se Stesso, atípica reflexão juvenil, tinha o poeta 37 anos, sobre a finitude e o sentido da existência, em duas traduções em português: uma por Jorge de Sena, a outra por Albano Martins.

 

 

A Si Mesmo

Repousa para sempre,
exausto coração. Morto é o engano extremo
que eu supusera eterno. É morto. E sinto
que em nós de enganos caros
a mais da esp’rança, o desejar é extinto.
Repousa. Já bastante
hás palpitado. Coisa alguma vale
o teu bater, nem de saudade é digna
a terra. Tédio amargo
a vida, e nada mais; e lama é o mundo.
Quieto, pois. Desperta
por uma última vez. À raça humana o fado
não deu mais que o morrer. Ora despreza
a natureza, o triste
brutal poder que contra nós impera.
e o infinito vácuo do que existe.

Tradução de Jorge de Sena
in Poesia de 26 Séculos, Antologia, tradução, prefácio e notas de Jorge de Sena, Fora do Texto, Coimbra, 1993.

 

 

A Si Próprio

Repousarás agora para sempre,
Ó meu cansado coração. Está morta a suprema
Ilusão, que julguei eterna. Morta. Bem sinto
Que das minhas caras ilusões
Não a esperança, mas o desejo é extinto.
Repousa para sempre. Demasiado
Palpitaste. De nada valem
Teus movimentos, nem de suspiros é digna
A terra. Amargor e tédio
A vida, nada mais; o mundo é lama.
Sossega, enfim. Desespera
Pela última vez. À nossa espécie o destino
Mais não deu que o morrer. Despreza-te, a partir de agora,
A ti, à natureza, ao mau
Poder, que, oculto, para nosso comum dano governa,
E à infinita vaidade de tudo.

Tradução de Albano Martins
in Giacomo Leopardi, Cantos, Apresentação, seleção, tradução e notas de Albano Martins,  Vega, Gabinete de Edições, Lisboa, s/d.

 

 

A Se Stesso

Or poserai per sempre,
Stanco mio cor. Perì l’inganno estremo,
Ch’eterno io mi credei. Perì. Ben sento,
In noi di cari inganni,
Non che la speme, il desiderio è spento.
Posa per sempre. Assai
Palpitasti. Non val cosa nessuna
I moti tuoi, né di sospiri è degna
La terra. Amaro e noia
La vita, altro mai nulla; e fango è il mondo.
T’acqueta omai. Dispera
L’ultima volta. Al gener nostro il fato
Non donò che il morire. Omai disprezza
Te, la natura, il brutto
Poter che, ascoso, a comun danno impera,
E l’infinita vanità del tutto.
(1835)

Transcrito de Leopardi, Canti, con uno scritto di Giuseppe Ungaretti, Arnaldo Mondadori Editore S.p.A., Milão, 1987.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Francis Bacon (1909-1992), Estudo para um retrato de 1991.

 

O tempo e o encanto que falece num poema de Karle Wilson Baker

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Ter encanto é uma qualidade que apenas ou outros podem reconhecer em nós. Dá-nos certamente satisfação, e há quem viva mal quando não sente esse reconhecimento.
Perder o encanto com o tempo parece um lugar comum de aceitação universal. Ninguém se pergunta porque nos parece isso natural. E será?
O encanto, que não a beleza física, é uma soma de variadas qualidades onde cada um valoriza umas mais que outras. E no entanto, nenhum de nós consegue aceitar que o encanto aumenta à medida que envelhecemos.

 

Há algum tempo, num artigo de opinião do NYTimes, uma investigadora universitária dava conta dos resultados de uma pesquisa sobre as reações a palavras para designar as pessoas mais velhas, e o próprio envelhecimento. A única exclusão era a palavra old (velho) por, no entender dos estudiosos, a palavra carregar elevado peso pejorativo, e tratava-se de a substituir na linguagem comum.
Quando li o artigo, este trazia mais de mil comentários em muito poucos dias, e por uma vez, cada comentário era mais preciso, elegante, e lúcido que o artigo, sendo os comentários, afirmativos à uma do orgulho de ser velho, aceitando a palavra velho com naturalidade e ridicularizando todos e cada um dos termos alternativos propostos no estudo.

 

Ter envelhecido, e tirar proveito da vida vivida é onde reside o encanto; na manifestação vigorosa da satisfação de aproveitar o melhor que a vida entretanto trouxe está o segredo. E isso, só o sabemos depois de a vida viver.

 

Num poema de início do século XX, Karle Wilson Baker (1878-1960), dá conta do desejo de ganhar encanto com o tempo:
Let me grow lovely, growing old — / …

 

deixando uma interrogação para a qual não tem resposta:

Why may not I, as well as these,
Grow lovely, growing old?

 

Na verdade, é cada um de nós quem precisa de a encontrar, e perceber como tal resposta pode mudar o sentido da vida que vivemos.

 

 

Poema

Que eu tenha mais encantos, com o tempo —
Como sucede às coisas preciosas:
Oiro, marfim, as sedas, como as rendas
Ganham em não ser novas.

Que saudáveis que são as árvores velhas,
E as velhas ruas têm outro assento;
Porque não hei-de então ser como elas,
Que têm mais encantos com o tempo?

Tradução de Herculano de Carvalho
in Oiro de vário tempo e lugar, Asa Editores, 2001.

 

 

Poema original

Let me grow lovely, growing old —
So many fine things do:
Laces, and ivory, and gold,
And silks need not be new;

And there is healing in old trees,
Old streets a glamour hold;
Why may not I, as well as these,
Grow lovely, growing old?

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Fernando Botero (1932), Casal dançando.

 

Beleza ideal e amor humano no soneto 130 de Shakespeare

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Num soneto/paródia ao soneto de amor popularizado desde Petrarca (1304-1374), Shakespeare (1564-1616) dá-nos, no seu soneto 130, um poema onde impera a lucidez sobre a mulher amada e os seus atributos físicos, concluindo por declarar o seu amor excepcional, apesar da ausência dos detalhes que fazem o canon do belo.
O poema é assim uma peremptória afirmação do poder do real humano sobre o ideal, e por ele lemos como o amor triunfa sobre as ideias feitas quando a vida nos toca e o amor nos bate à porta.

 

 

Soneto 130

Minha amante nos olhos sol não tem,
mais rubro é o coral que sua boca,
se a neve é branca, o peito é escuro e bem,
se há toucas de oiro, negro fio a touca.
Vi rosas brancas, rubras, damascadas,
não tem rosas na face, ao contemplá-la,
e há essências que são mais delicadas
do que o bafo que a minha amante exala.
Gosto de ouvir-lhe a voz, contudo sei
da música mais doce a afinação,
e uma deusa a passar jamais olhei,
a minha amante a andar põe pés no chão.
  Creio no entanto o meu amor tão raro
  quão falsas ilusões a que o comparo.

 

Tradução de Vasco Graça Moura
in Os Sonetos de Shakespeare, versão integral, Bertrand Editora, 2007.

 

 

Sonnet 130

My mistress’ eyes are nothing like the sun,
Coral is far more red than her lips’ red;
If snow be white, why then her breasts are dun;
If hairs be wires, black wires grow on her head.
I have seen roses damasked, red and white,
But no such roses see I in her cheeks;
And in some perfumes is there more delight
Than in the breath that from my mistress reeks.
I love to hear her speak, yet well I know
That music hath a far more pleasing sound;
I grant I never saw a goddess go:
My mistress, when she walks, treads on the ground.
   And yet, by heaven, I think my love as rare
   As any she belied with false compare.

 

Transcrito de The Oxford Shakespeare, Complete Sonnets and Poems, Oxford 2002.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Eugène Delacroix (1798-1863).

 

Solta a alegria! — o vinho e a poesia de Al-Mu’tamid

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Eu só quero que me fales
de cantigas e de vinho
deixa lá, tu não te rales
Deus perdoa o descaminho!

I
deixa esta gente vã,
de promessas e intrigas.
ela já não conta nada
pois o meu maior afã
é beber minha golada
nesta tarde tão louçã
ao som de belas cantigas.

 

Neste itinerário do vinho em poesia paremos agora no rei-poeta do Al-Andaluz nascido em Beja, Al-Mu’tamid (1040-1095).
Embora nalguma poesia de  Al-Mu’tamid o beber seja em sentido figurado tentar saciar a inesgotável sede de amor do poeta, nesse percurso de prazer o vinho também entra, ainda que seja, como se sabe, um interdito do Islão.

Além da nota de festa do fragmento de abertura, leiamos em dois poema: primeiro, como o vinho sublima o prazer do amor:

 

A noite lavava as sombras
das suas pálpebras com a aurora.
ligeira corria a brisa.
e bebemos! um vinho velho cor de rubi,
denso de aroma e de corpo suave.

 

E para concluir, mais uma reflexão sobre a finitude e o que vale da vida é o prazer que dela se colhe:
Solta a alegria! Que fique desatada! / esquece a ânsia que roi o coração. /… a vida é uma presa, vai-te a ela! / pois é bem curta a sua duração.

 

 

Poema

Solta a alegria! Que fique desatada!
esquece a ânsia que roi o coração.
tanta doença foi assim curada!
e a vida é uma presa, vai-te a ela!
pois é bem curta a sua duração.

e mesmo que a tua vida acaso fosse
de mil anos plenos já composta
mal se poderia dizer que fora longa.
seres triste sempre não seja a tua aposta
pois que o alaúde e fresco vinho
te aguardam na beira do caminho.

os cuidados não serão de ti os donos
se a taça for espada brilhante em tua mão.
da sabedoria só colherás a turbação
cravado no mais fundo do teu ser:
é que, dentre todos, o mais sábio
é aquele que não cuida de saber.

 

Tradução dos poemas por Adalberto Alves, transcritos de Al-Mutamid poeta do destino, Assírio & Alvim, Lisboa, 1996.