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O amor em acto com sonetos de Curvo Semedo

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Lília nos braços de Belmiro agora,
Quanto há doce em Amor, tanto disfruta.

 

Na poesia do século XVIII encontramos uma aproximação lúdica ao prazer e sua consumação, bem mais próxima do sentir dos nossos dias que na poesia produzida no século XIX. Nessa poesia romântica e pós-romântica do século XIX, no que ao desejo e paixão respeita, o estro poético masculino circula entre a idealização virginal da amada e as putas para as necessidades biológicas.
Na poesia neo-clássica da segunda metade do século XVIII, bebendo directamente a inspiração nos modelos da antiguidade greco-romana, chama-se ao desejo amor e por aí se segue dando conta da alegria da sua consumação, ou dos desgostos da sua perda.

Hoje são alguns sonetos de Curvo Semedo (1766-1838) que o ilustram:

 

Soneto p22

No meu pobre batel entro com ela:
Oh céus! desde que sulco o Tejo undoso,
Nunca vi, nem gozei noite mais bela.

 

Soneto p23

Já matizando o céu de vivas cores
Vinha a brilhante aurora apavonada,
E inda sobre os meus braços fatigada
Laura dormia, Laura os meus amores.

 

 

São variadas as situações de encontros amorosos que estes sonetos e mais alguns, na edição das Composições Poéticas de Curvo Semedo cobrem, e dos quais escolhi cinco. Vejamos em jeito de preâmbulo a perspectiva que cada um aborda.

 

No soneto a p17 um ansioso Alzeu suspira pela presença da amada Lília para se aperceber que entretanto ela goza as delícias de amor nos braços de outro:

 

Soneto p17

Lília enquanto não foge a fresca tarde
Desce às margens frondosas deste pego,
Vem ver quem de saudades louco, e cego
Pela doçura de teus olhos arde.

Atende aos rogos dum Amor cobarde,
Que te chama do rio em que navego:
Vem, ou pôr termo ao pranto a que me entrego,
Ou do teu desamor fazer alarde.

Assim clamava Alzeu, que a Lília adora,
Eis como entanto, duma algosa gruta
Ouve dizer com voz clara, e sonora:

Não chames, Pescador, quem não te escuta:
Lília nos braços de Belmiro agora,
Quanto há doce em Amor, tanto disfruta.

 

 

No soneto que segue, a p22 da colecção, é um pescador poeta que, na faina, sonha com ter a seu lado a amada Laura, e eis que subitamente ela lhe surge, proporcionando-se, assim, um inesquecível encontro: Nunca vi, nem gozei noite mais bela.

 

Soneto p22

Medonha corre a noite, a frouxa Lua
A furto mostra o rosto desmaiado,
Em mil volúveis serras levantado
Ruge raivoso o mar na praia nua;

Um só baixel nas ondas não flutua,
Os Nautas dormem, zune o vento irado;
Ah! doce Laura, Ah! doce objecto amado,
Quem vira agora a linda imagem tua!

Assim as vozes eu soltava ansioso,
Quando Laura, o meu bem , a minha estrela
Ao lado vejo, e vejo-me ditoso.

No meu pobre batel entro com ela:
Oh céus! desde que sulco o Tejo undoso,
Nunca vi, nem gozei noite mais bela.

 

 

Agora iremos ler no soneto a p23, o relato peculiar de um encontro derradeiro contado a partir da fruição dos momentos seguintes ao êxtase amoroso:

E inda sobre os meus braços fatigada
Laura dormia, Laura os meus amores.

 

Por se tratar de um encontro clandestino, e no receio de ver estes amores descobertos, o nosso poeta parte sem despertar a amada:

Sinto privar do sono a minha amada,
Temo vejam, que logro os seus favores.

 

E esta fuga põe fim, por muito tempo, ao encontro destas almas apaixonadas:

Vou-me, deixo o meu bem; desde esse instante
Cansados olhos, olhos sem ventura
Nunca mais vistes seu gentil semblante.

 

 

Soneto p23

Já matizando o céu de vivas cores
Vinha a brilhante aurora apavonada,
E inda sobre os meus braços fatigada
Laura dormia, Laura os meus amores.

De terna mágoa, de hórridos temores
Vejo minha alma a um tempo salteada,
Sinto privar do sono a minha amada,
Temo vejam, que logro os seus favores.

Enquanto pugna em mim susto, e ternura,
Vistos somos de espia vigilante,
Que o nosso afecto destruir procura.

Vou-me, deixo o meu bem; desde esse instante
Cansados olhos, olhos sem ventura
Nunca mais vistes seu gentil semblante.

 

 

Ainda outra perspectiva destes encontros clandestinos, agora no soneto a p32, encontramos o relato de uma paixão que em segredo se consumou:

Estes muros, que vês aos céus erguidos,
Tenho, alta noite, vezes mil trepado;

E ambos de amor num êxtase sagrado
Obtivemos prazeres nunca obtidos.

 

a qual termina para o nosso par com a entrega forçada da amada Jónia a outro:
… Monstros potentes
Dão Jónia ao meu rival, Jónia foi sua
Sem lhe valerem lágrimas ardentes.

 

Soneto p32

Estes muros, que vês aos céus erguidos,
Tenho, alta noite, vezes mil trepado;
Aqui Jónia viveu, tendo a seu lado
Velante escolta d’Argos pressentidos:

Pelas caladas trevas protegidos
Vencer pudémos nosso iníquo fado,
E ambos de amor num êxtase sagrado
Obtivemos prazeres nunca obtidos.

Mas voou tanto bem: Monstros potentes
Dão Jónia ao meu rival, Jónia foi sua
Sem lhe valerem lágrimas ardentes.

Meu peito em mares de aflição flutua:
Amor, se ímpio não és, como consentes,
Que uns braços, que eram meus, outro os possua?

 

 

Vai longo o artigo, termino com o soneto a p36 o qual dá conta de um namoro de mais de quatro anos em que milhões de vezes os amantes viveram horas furtivas de prazer gozado, iludindo a vigilância que quem tinha por função prevenir estes encontros (Expertos Argos temos iludido).
A paixão permanece e o poeta conclui o soneto com o desejo que o casamento finalmente chegue, ou na linguagem codificada do poema … De alegres vermos que Himeneu sagrado / Nos doura os laços, que tramou Cupido.

 

Soneto p36

Quatro vezes na Eclíptica brilhante
Febo tem dado a fúlgida carreira,
Depois que, doce Anália, a vez primeira
Vi teu risonho, teu gentil semblante:

Desde tão grato, venturoso instante
Minha alma de teus olhos prisioneira,
Consagrando-te a fé mais verdadeira,
Colheu primicias de teu peito amante:

Milhões de vezes por mercê do Fado
Expertos Argos temos iludido
E horas furtivas de prazer gozado;

O céu nos chegue ao prazo apetecido
De alegres vermos que Himeneu sagrado
Nos doura os laços, que tramou Cupido.

 

Poemas transcritos de B. M. Curvo Semedo, Composições Poéticas, Lisboa, na Regia Oficina Tipográfica, 1803.
Modernizei a ortografia.
A numeração que antecede cada soneto identifica a página onde o mesmo se encontra nesta edição.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Jacob van Loo (1614-1670), Casal apaixonado de 1669, da colecção do Rijksmuseum de Amsterdão.

 

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Everdingen — Retrato de jovem mulher com chapéu largo

Há simultaneamente uma transparência e mistério neste retrato de rapariga pintado pelo pintor holandês Ceasar Boëtius van Everdingen (1617-1678) em 1645-50, que nos transporta para o mistério do feminino.

O rosto enigmático que olha longe ou para dentro, é a parte essencial desse mistério, acentuado pela sombra que o chapéu faz cair sobre os olhos enquanto deixa ver em toda a luminosidade do dia, contra um diáfano céu azul, um corpo que se adivinha esplêndido sob o ligeiro drapeado do vestido.

Os braços semi-erguidos num hesitante gesto de oferenda, também ela inexplícita (serão as maçãs de Eva na taça/cesto?) contribuem para o enigma de toda a figura feminina e do seu propósito, fazendo crescer em quem vê o desejo de ir mais além no conhecimento de quem assim tão enigmaticamente se mostra, afinal o “MacGuffin” do jogo masculino/feminino.

O equilíbrio da paleta sem cores gritantes que se sobreponham à suavidade da envolvente, apenas discretamente insinuada, deixa todo espaço ao esplendor deste icónico feminino.

Retrato simultaneamente de pudor e estimulador do desejo, é mais um dos extraordinários retratos que transcendem a circunstância da sua feitura, e continuamente nos interpelam: porque gosto de o olhar?

O retrato pertence à colecção do Rijksmuseum de Amsterdão. Costumava estar numa pequena sala rodeado de algumas outras pinturas irrelevantes e sem as multidões que afogam os  Vermeer. Infelizmente em 2017 tinha sido retirado de exposição. Oxalá já tenha retornado.

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Garrafa de vinho — um poema de Carl Dennis

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No efémero de uma garrafa de vinho bebida entre amigos encontra o poeta norte-americano Carl Dennis (1939) o pretexto para reflectir sobre a amizade, a volatilidade do tempo, o valor das tradições cuidadosamente conservadas e transmitidas, o prazer das pequenas coisas como um passeio por ruas arborizadas, e quanto as questões existenciais não justificam os nadas que fazem a vida valer a pena.
Admirável poema, Bottle of Wine, dando na concisão da poesia esta panóplia de reflexões, e que procurei trazer para português na versão que segue:

 

 

Garrafa de vinho

Gosto de estacionar um pouco afastado da casa dos meus anfitriões
E andar com a garrafa de vinho pelas ruas arborizadas,
Antecipando o jantar com amigos que me espera.
Uma garrafa de vinho mostra não só que estou grato
Por ser incluído, mas ansioso para contribuir
E oferecer um presente que não sobreviva à noite,
Isso diz como ultrapassei a necessidade de transcendência
E fiz finalmente as pazes com viver o presente.
Em breve daremos as boas-vindas à noite com um brinde.
Em breve estaremos brindando em despedida
Com ela começa o caminho para o passado próximo
E depois o distante. Será que as casas por onde passo
Me consideram alguém prestes a desaparecer
No reino das sombras, enquanto elas permanecerão
De pé? Mas a garrafa que transporto mostra
como o passado pode melhorar o presente.
As uvas de que foi feito foram colhidas e prensadas
Há sete anos num vinhedo da Borgonha
Conforme costumes praticados há gerações
Pelo tempo em que estas casas se transformaram
De projectos e estimativas em tijolo e madeira.
A garrafa vai testemunhar que as tradições, uma vez honradas
Permanecerão, com perseverança, com orgulho.
E se o passado está presente esta noite, não está o futuro
Presente também no pensamento de que o ritual
Que ajudo a continuar será duradouro,
E apesar do que o mundo em redor possa alterar-se,
Os convivas ainda o realizarão em épocas futuras?
Espero sentir a sua presença em espírito
Sob estas árvores, mais tarde esta noite
Quando regressar ao meu carro de mãos vazias.

Tradução de Carlos Mendonça Lopes

O original do poema — Bottle of Wine — foi publicado na revista New Yorker, nº de 6 & 13 de Agosto 2018.

 

 

Poema original

 

Bottle of Wine

I like to park a few blocks from the house of my hosts
And walk with my bottle of wine the tree-lined streets,
Anticipating the dinner with friends that awaits me.
A bottle of wine showing not only that I’m grateful
To be included but that I’m eager to do my part,
To offer a gift that won’t survive the evening,
That says I’ve set aside the need for transcendence
And made my peace at last with living in time.
Soon we’ll welcome the evening with a toast.
Soon we’ll be toasting it in farewell
As it starts on its journey into the near past
And then the far. Do the houses I’m passing
Regard me as a creature about to vanish
Into the realm of shadow while they have resolved
To hold their ground? But the bottle I’m carrying
Shows how the past can enhance the present.
The grapes it was made from were plucked and pressed
Seven years ago in a vineyard in Burgundy
According to customs already in place for generations
By the time these houses moved from the realm
Of blueprints and estimates into brick and wood.
The bottle will testify that traditions once honored
Are being adhered to still, with patience, with pride.
And if the past is present this evening, isn’t the future
Present as well in the thought that the ritual
I’m helping to pass along will prove enduring,
That however much the world around it may alter,
Guests will still perform it in eras to come?
I hope I feel their presence in spirit
Under these trees later this evening
As I walk back to my car with empty hands

 

Poema transcrito da revista New Yorker, nº de 6 & 13 de Agosto 2018.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Giorgio Morandi (1890-1964).

 

Um desgosto de amor em quadras de Fernando Pessoa

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Sabem os leitores da poesia de Fernando Pessoa (1888-1935) quanto o poeta cultivou com talento, toda a vida, a quadra popular e o quarteto, usados em poemas tão famosos como p.ex. Canção: Sol nulo dos dias vãos / …, ou no poema Autopsicografia: O poeta é um fingidor / … .

Em Fevereiro de 1920 surgem algumas quadras dando conta de um desgosto de amor, supõe-se que por Ophélia Queiroz, a destinatária das famosas cartas de amor. Alguns poemas dão disso conta. Escolho dois: uma quadra, e uma sequência de três quadras. Mas antes do relato do desgosto amoroso, leiamos a fase da harmonia amorosa no desejo da sua constante fruição, numa saborosa descrição do desconforto da ausência da amada:  

 

Quando passo o dia inteiro
Sem ver o meu amorzinho,
Corre um frio de Janeiro
No Junho do meu carinho.

 

 

Não se encontrando datada esta quadra, não avaliamos por aqui a distância entre esta impaciência e o desgosto do fim do enlevo amoroso relatado a 24.02.1920:

 

Meu amor já não me quer,
Já me esquece e me desama.
Tão pouco tempo a mulher
Leva a provar que não ama!

 

Aqui chegados, poderia supor-se que era apenas um arrufo de namorados, mas, afinal não fizeram as pazes, e dois dias depois, a 26.02.1920, o poeta derrama em verso a sua desilusão:


Vago luar de promessa,
Resto de sombra a morrer

 

 

Os complexos motivos da rotura com Ophélia Queiroz são matéria de vasta especulação entre especialistas. Por agora fiquemos tão só com a mágoa do apaixonado posta em poema, fazendo prova  da densidade de leituras a que o poeta nos habituou, relatando a sensação de abismo que atinge apaixonados nos momentos de rotura:


Eu da vida que preciso?
O sonho com que a negar.

 

 

Eis o poema:

 

Revive ainda um momento
Na ‘sperança que perdi,
Flor do meu pensamento,
Hálito do que morri…

Inútil, irreal sorriso
Na penumbra de pensar…
Eu da vida que preciso?
O sonho com que a negar.

Vago luar de promessa,
Resto de sombra a morrer
Na antemanhã que começa
Ah, ter-te, e nunca viver.

 

 

Anos mais tarde encontro este rememorar uma paixão  que, quiçá, terá sido a mesma:

 

Aquela tarde em que os dois fomos pela
Estrada, amorosos, o que é feito dela?
Jaz vista no passado como a folha
No caminho que vemos da janela
3-1-1934

 

E assim termino esta volta poética por amores e sua consequência num poeta pouco afeito a estes desabafos.

 

Transcrito de Quadras e Outros Cantares, Edição de Teresa Sobral Gomes, Relógio D’Água Editores, Lisboa ,1987.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Marc Chagall (1887-1985), Os Comediantes, acompanhando a postura do poeta entre a vida e a poesia: O poeta é um fingidor / … .

 

Quem canta seu mal espanta — As voltas do amor em Quadras Populares

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Quem canta seu mal espanta,
Quem chora, mais o aumenta
Eu canto por espalhar
A paixão que me atormenta.

 

As quadras populares são um retrato fiel de um modo de estar na vida e plasmam alegrias e tristezas de um povo que talvez já não exista. Circularam pela memória e passaram de geração em geração, havendo delas hoje apenas as recolhas de etnógrafos que ainda a tempo as coligiram.

Hoje debruço-me sobre uma recolha de J. Leite de Vasconcelos no final do séc. XIX, divulgada com o nome: Poesia Amorosa do Povo Português.
Nas quadras escolhidas encontramos a rima abcb, e quase sempre a estrutura numa espécie de dois dísticos em que os primeiros dois versos apresentam o assunto e os últimos dois versos fazem uma conclusão frequentemente inesperada nas comparações que convocam, sem que a quadra deixe de ser uma unidade poética autónoma:

 

A amar e a escolher amante
Ensinou-me quem podia:
A amar foi a natureza,
A escolher, a simpatia.

 

 

Os assuntos girando à volta do sentimento amoroso, variam entre desejo e sedução:

 

Quando te eu vi, logo disse:
— Lindos olhos para amar!
Que linda boca p’ra beijos!
Oh quem t’os pudera dar!

 

Eu fui o que disse ao sol
Que não tornasse a nascer:
À vista desses teus olhos
Que vem o sol cá fazer?

 

 

esperança e receio de amar:

 

O amor, quando se encontra,
Causa penas, e dá gosto:
Sobresalta o coração,
Sobem as cores ao rosto.

 

Fui assentar-me entre as nuvens,
De uma estrela fiz encosto:
Abracei-me a uma delas.
Cuidando que era o teu rosto.

 

 

desgosto e queixas:

 

Suspiros e ais e dores,
Imaginações e cuidados:
São o manjar dos amantes,
Quando andam arrufados.

 

Torno de novo a queixar-me.
Meus ais não fazem efeito:
Podem abrandar as rochas,
Mas não abrandam teu peito.

 

Lágrimas são meu almoço
Janto suspiros e dores,
À tarde merendo ais,
À noite ausência d’amores.

 

 

e algum desprendimento emocional, o que é menos frequente:

 

Cuidavas, por me deixares,
Que eu de paixão morreria:
Foi-se um amor, ficou outro,
Vivo na mesma alegria.

 

 

Estes assuntos de amor vêm tratados com uma agradável ligeireza de tom, bem longe dos transportes angustiados de poetas eruditos:

 

Quem diz que o amar enfada,
De certo que nunca amou:
Eu amei e fui amado,
Nunca o amar me enfadou.

 

 

Eis mais algumas quadras onde os mesmos aspectos do sentimento amoroso bailam:

 

O coração e os olhos
São dois amantes leais:
Quando o coração tem pena,
Logo os olhos dão sinais.

 

O cantar é dom dos anjos;
O bailar, dos namorados;
A alegria, dos solteiros;
A tristeza, dos casados.

 

Meu coração é relógio,
Meu peito dá badaladas:
Nos dias que eu te não vejo,
Trago-te as horas contadas.

 

O teu cabelo, menina,
Mete-te infinita graça:
Parece meadas de ouro
Adonde o sol se embaraça.

 

Amar e saber amar,
Qualquer amante faz isso:
Amar-te com lealdade.
Só eu nasci para isso.

 

Coitadinho de quem tem
Seus amores em segredo:
Passa por eles na rua,
Não lhe faia, que tem medo.

 

Ó meu amor lá de longe,
Perde um dia vem-me ver:
Quem não aparece, esquece,
Também eu posso esquecer.

 

Dizem que o amor é morte,
Oh quem me dera morrer!
Mais vale morrer d’amores
Do que sem eles viver.

 

O amor é grande mal.
Não amar é mal maior;
Mas amar sem ser amado
É dos males o pior.

 

Por te amar deixei a Deus,
Vê lá que gloria perdi!
Agora vejo-me só,
Sem Deus, sem gloria, sem ti!

 

Fechei a porta à desgraça,
Entrou-me pela janela:
Quem nasce com a má sorte
Não pode fugir a ela.

 

Que me quererá a desgraça,
Que atrás de mim corre tanto?
Hei-de parar e dizer-lhe
Que eu de a ver me não espanto.

 

Dizem que o chorar nos tira
As penas ao coração:
Tanto tenho eu chorado,
E as penas inda cá estão.

 

 

E com esta sábia conclusão me despeço:

 

Inda que o lume se apague,
Na cinza fica o calor:
Inda que o amor se ausente.
No coração fica a dor.

 

Poemas transcritos de Poesia Amorosa do Povo Português, Breve estudo e colecção por J. Leite de Vasconcelos, Lisboa, 1890.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Albert Neuhuys (1844-1914) de 1880.

Longo é o curso da esperança, breve o da memória — um canto de Leopardi

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Cada vez mais estudos mostram que ao longo da vida adulta a sensação de felicidade, e de ser feliz, se desenvolve segundo uma curva em V. Decresce desde o início da idade adulta para atingir um mínimo por volta dos quarenta e tal anos, e recomeça a subir até ao fim da vida. Trata-se, evidentemente de medidas estatísticas. A cada indivíduo a vida oferece o seu caminho particular de felicidade, que não será necessariamente este. Provavelmente, e os estudos também o apontam, este andamento do sentimento de ser feliz  à medida que os sinais de envelhecimento se começam a fazer sentir, está ligado ao processo de substituição da ambição pela aceitação da vida como ela se apresenta. Cito de memória uma frase do filósofo William James (1842-1910) que o reflete:
How pleasant is the day when we give up striving to be young
(Quão agradável é o dia quando desistimos de nos esforçar para ser jovens).
Evidentemente, a troca da ambição pela aceitação não se prende unicamente com o desejo, ou ilusão, de ser jovem para lá da idade. Ele ocorre inevitavelmente quando o horizonte da esperança de vida começa a aproximar-se de nós e deixa de ser algo longínquo, se não mesmo intangível se se é jovem.
Dificilmente será possível exprimir a essência da juventude por contraponto ao envelhecimento por outra que não a formulação de Giacomo Leopardi (1798-1837) nos versos do poema À Lua:
… / No tempo da juventude, quando ainda longo / É o curso da esperança, breve o da memória, / …
ou no original:
… / Nel tempo giovanil, quando ancor lungo / La speme e breve ha la memoria il corso, / … Nestes versos ganha evidência um aspecto essencial da juventude: o pouco tempo vivido, fazendo curta a memória, embora marca indelével para a vida; e a esperança sobre o que o futuro, que se espera longo, propiciará.

O poema, com rara emoção, dá conta do conforto de recordar, quando a infelicidade nos acomete. E isto é independente da idade. Apenas conta a intensidade do que se viveu.
A memória, ajudando-nos, traz mais e mais felizes recordações à medida que a idade avança, e a vida se acumula. E se os desgostos provavelmente crescem, a vida vivida também permitiu que a felicidade, por mais efémera, nos batesse à porta e a possamos relembrar.

 

À Lua

Lembro-me, ó graciosa lua,
Que há um ano, sobre esta colina,
Cheio de angústia, eu vinha contemplar-te:
E tu pendias então sobre a floresta
Como fazes agora, iluminando-a por completo.
Mas velado e trémulo do pranto
Que me assomava aos olhos, o teu rosto
Me parecia, que laboriosa
Era a minha vida: e ainda o é, nem muda de feição,
Ó minha amada lua. E todavia faz-me bem
Esta lembrança e o contar a idade
Da minha dor. Oh!, como é doce,
No tempo de juventude, quando ainda longo
É o curso da esperança, breve o da memória,
A lembrança das passadas coisas,
Embora triste e embora as fadigas durem!

Tradução de Albano Martins
in Giacomo Leopardi, Cantos, Apresentação, seleção, tradução e notas de Albano Martins,  Vega, Gabinete de Edições, Lisboa, s/d.

 

 

Alla Luna

O graziosa luna, io mi rammento            
Che, or volge l’anno, sovra questo colle
Io venia pien d’angoscia a rimirarti:
E tu pendevi allor su quella selva
Siccome or fai, che tutta la rischiari.            
Ma nebuloso e tremulo dal pianto
Che mi sorgea sul ciglio, alle mie luci
Il tuo volto apparia, che travagliosa
Era mia vita: ed è, né cangia stile,
O mia diletta luna. E pur mi giova            
La ricordanza, e il noverar l’etate
Del mio dolore. Oh come grato occorre
Nel tempo giovanil, quando ancor lungo
La speme e breve ha la memoria il corso,
Il rimembrar delle passate cose,            
Ancor che triste, e che l’affanno duri!
(1819)

Transcrito de Leopardi, Canti, con uno scritto di Giuseppe Ungaretti, Arnaldo Mondadori Editore S.p.A., Milão, 1987.

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Fernand Léger (1881-1955), Paisagem animada, de 1924.

 

Um frio de Inverno no calor do Verão — soneto 97 de Shakespeare e Pessoa pelo caminho

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O amor e os sonetos de Shakespeare (1564-1616) são um universo poético onde todas as possibilidades de expressão parecem residir. No soneto 97 temos uma engenhosa simbiose entre o calor erótico que a presença da amada pode trazer ou o frio que a sua ausência provoca, e os efeitos do ciclo das estações na natureza:

 

Foi como inverno a ausência que passei / de ti, …

 

Numa espécie de eco deste verso, encontro numa quadra de Fernando Pessoa (1888-1935) o dizer:

 

Quando passo o dia inteiro
Sem ver o meu amorzinho,
Corre um frio de Janeiro
No Junho do meu carinho.

 

Por aqui se fica Pessoa, nesta ligeira quadra popular, embora o amorzinho dê pretexto a outras quadras neste ano de 1920, sobretudo as quadras de 24.02 e 26.02 que noutro artigo lerei.
Em Shakespeare, o relato é todo ele o de uma solidão amorosa, e os prazeres perdidos são por aqui lembrados:

Que frio e dias negros suportei!
Que nudez de Dezembro em tudo havia.
O tempo assim negado era de verão,
fecundo das colheitas que no outono
seus fardos de volúpia vernal dão,

Contudo essa abundância me surgia
como órfã prenhez só, …

 

E para que não restem dúvidas sobre o benefício da proximidade da amada, o poeta diz-nos a terminar:

que o verão seu prazer em ti se alia
e as aves quedam mudas se te vais.

 

 

Eis uma tradução portuguesa do soneto por Vasco Graça Moura, e o poema original:

 

 

Soneto XCVII

Foi como inverno a ausência que passei
de ti, que ao ir do ano és a alegria!
Que frio e dias negros suportei!
Que nudez de Dezembro em tudo havia.
O tempo assim negado era de verão,
fecundo das colheitas que no outono
seus fardos de volúpia vernal dão,
como ventres viúvos, morto o dono.
Contudo essa abundância me surgia
como órfã prenhez só, frutos sem pais
que o verão seu prazer em ti se alia
e as aves quedam mudas se te vais.
   Ou em seu canto triste as folhas tremem
   pálidas, porque perto o inverno temem.

Tradução de Vasco Graça Moura
in Os Sonetos de Shakespeare, versão integral, Bertrand Editora, 2007.

 

 

Sonnet XCVII

How like a winter hath my absence been
From thee, the pleasure of the fleeting year!
What freezings have I felt, what dark days seen!
What old December’s bareness everywhere!
And yet this time removed was summer’s time;
The teeming autumn, big with rich increase,
Bearing the wanton burden of the prime,
Like widow’d wombs after their lords’ decease:
Yet this abundant issue seemed to me
But hope of orphans, and unfathered fruit;
For summer and his pleasures wait on thee,
And, thou away, the very birds are mute:
   Or, if they sing, ‘tis with so dull a cheer,
   That leaves look pale, dreading the winter’s near.

Transcrito de The Oxford Shakespeare, Complete Sonnets and Poems, Oxford 2002.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura do holandês Quiringh van Brekelenkam (1622-1666), Conversação sentimental.

 

O sabor das aventuras de Verão recordado num poema de David Mourão-Ferreira

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Numa noite mágica onde se cruzavam os cheiros da serra e a brisa marinha, jantávamos ao ar livre um grupo de amigos de adolescência. Inevitavelmente vieram à conversa as memórias das noites de Verão e as aventuras de descoberta e paixão adolescente a que Tavira e o mar da sua ilha serviram de cenário.
Eram os últimos anos da década de 60 do séc. XX. O Algarve descobria-se aos turistas estrangeiros e as raparigas vindas do Norte da Europa faziam furor com a sua beleza loura e liberdade de costumes por cá completamente interditos. Do que a cada um aconteceu guardo reserva. O intróito serve tão só para recordar um poema de David Mourão-Ferreira (1927-1996), Een lied voor Margaretha, (Uma Canção para Margaretha) talvez reminiscência de experiência(s) semelhante(s).

 

 

Een lied voor Margaretha

Tu vens de terras de Holanda,
mas tens a carne morena.
E em vez de serena, branda
postura que o Norte manda,
teu corpo se desordena
à carícia, por mais branda …
Tu vens das terras de Holanda …

Eu venho de Portugal:
o mesmo é dizer que venho
de longe, do litoral,
e um sabor, no corpo, a sal
definiu meu Fado estranho.
Aqui me tens, donde venho:
Eu venho de Portugal …

Trago nos lábios o Mar,
cheio de vento e de espuma …
E tu mo virás roubar!
— Ai descampados ao ar,
onde houvera ventos, bruma! —
Com saudade hei de lembrar:
tinha nos lábios o Mar …

Hei de lembrar e sofrer
o que for perdendo aqui …
Mas um colo de mulher
tudo merece, e requer
o abandono de si …
Quem me dera que por ti
Venha a lembrar e sofrer …

Tu vens de terras de Holanda,
eu venho de Portugal:
cada um de sua banda …
Sabe o Destino o que manda,
quer pra bem ou quer p´ra mal …
— Não mais as terras de Holanda
e areias de Portugal!

in A Viagem Secreta, segunda edição corrigida e aumentada, ne varietur, Edições Ática, Lisboa, 1958.

 

Abre o artigo uma foto de Jane Birkin (1946), inesquecível intérprete com Serge Gainsbourg (1928-1991) da canção Je t’aime… mois non plus, icónica canção da revolução sexual dos anos 60, à data proibida em vários países, Portugal e Brasil incluídos.

 

Canções de beber na obra de Fernando Pessoa

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Quem ontem fui já hoje em mim não vive.
Bebe, que tudo é líquido e embriaga,
E a vida morre enquanto o ser revive.

 

Tendo como ponto de partida a versão inglesa por Edward Fitzgerald, dos quartetos de Omar Khayyam (1048-1132), publicada em 1910, Fernando Pessoa (1888-1935) apropria-se dos poemas para nos dar a sua visão desolada e amarga da vida por volta de 1930:


Vamos vivendo, e somos o que somos
Até que a quem não somos morte acuda.

 

ou neste outro poema:


Bebe. Se escutas, ouves só o ruído
Que ervas ou folhas trazem ao ouvido.
É do vento, que é nada. Assim é o mundo:
Um movimento regular de olvido.

 

 

Nestas reflexões estamos longo da atmosfera de festa e alegria que o vinho induz, e em variados poemas que aqui trouxe no passado recente se regista.

Para o poeta, a festa parece não existir, mas, como tantas vezes na sua poesia, sob a desolada lucidez, se alegria não há, o sonho às vezes espreita:

Olhando o mar, sonho sem ter de quê.
Nada no mar, salvo o seu mar, se vê.
Mas de se nada ver quanto a alma sonha!

 

e a esperança é algo para cultivar:


Não queiras, com submissa segurança,
Ter saudade de ter esperança.
Tem antes saudade de a não ter.

 

Deixo-o, leitor, com a escolha poética:

 

 

*
Tudo o que passa, porque passa, é nada.
Tudo o que fica coisa é parada.
O que nem passa ou fica não existe.
Bebe, que não há estada nem há estrada.

Devoto do que já não sei o que é,
Ao templo fui pelo meu próprio pé.
Mas vi que o templo era uma taberna.
Ali fiquei ébrio da minha fé.

Doze vezes o sol amável muda
De signo e sem ajuda nos ajuda.
Vamos vivendo, e somos o que somos
Até que a quem não somos morte acuda.
5-11-1933

 

 

**
Quanto fui jaz. Quanto serei não sou.
No intervalo entre o que sou e estou
A natureza, exterior, tem sol.
Mas, se tem sol, há sol. Ao sol me dou.

Não queiras, com submissa segurança,
Ter saudade de ter esperança.
Tem antes saudade de a não ter.
Entre o que a paz te não dará descansa.

Nada ‘speres, que nada salvo nada
Obtém que ‘supera: é como quem à estrada
Lance olhos de esperar que alguém lhe chegue
Só porque a estrada é feita para andada.

Ninguém suporta o peso mau dos dias
Salvo por interpostas alegrias.
Bebe, que assim serás o intervalo
Entre o que criarás e o que crias.

Quantas vezes o mesmo poente alheio
Sobre meu sonho, como um sonho, veio.
Quantas vezes o tive por augusto.
Tantas, tornado noite, perde o enleio.

Bebe. Se escutas, ouves só o ruído
Que ervas ou folhas trazem ao ouvido.
É do vento, que é nada. Assim é o mundo:
Um movimento regular de olvido.
4-10-1932

 

 

***
Olhando o mar, sonho sem ter de quê.
Nada no mar, salvo o seu mar, se vê.
Mas de se nada ver quanto a alma sonha!
De que me servem a verdade é a fé?

Ver claro! Quantos, que fatais erramos,
Em ruas ou em estradas ou sob ramos,
Temos esta certeza, e sempre e em tudo
Sonhamos e sonhamos e sonhamos.

As árvores longínquas da floresta
Parecem, por longínquas, ‘star em festa.
Quanto acontece porque se não vê!
Mas do que há ou não há o mesmo resta.

Se tive amores? Já não sei se os tive.
Quem ontem fui já hoje em mim não vive.
Bebe, que tudo é líquido e embriaga,
E a vida morre enquanto o ser revive.

Colhes rosas? Que colhes, se hão-de ser
Motivos coloridos de morrer!
Mas colhe rosas. Porque não colhê-las
Se te agrada e tudo é deixar de haver?
20-1-1933

 

Poemas transcritos de Canções de Beber na Obra de Fernando Pessoa, Edições de Arte, lda, Lisboa, 1997.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901).

 

Alguns poemas de Fernando Guimarães

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Uma escrita velada, em que o pudor se alia à palavra, percorre a poesia de Fernando Guimarães (1928). São poemas densos, de sentimento e emoção contidos, onde uma imensa cultura espreita, e sobressai ao longo do tempo um quase constante diálogo com a música erudita.

É com saboreada demora que leio esta poesia. Os artefactos artísticos, sobretudo pintura, além da música, e que dão o mote à maior parte dos poemas, leva-me a navegar pela minha própria fruição deles.

Poesia que nos conduz para a dimensão estética da vida, na forma usa em grande extensão o soneto para o relato poético, exigente instrumento na concisão e rigor.

Escolho por este calor de verão alguns poemas entre os poucos que dão conta de uma terna visão do amor, toda ela feita da música do entendimento:

Escuta só a voz
que traz a harmonia
dos rios que prolongam
em nós a poesia

 

Num registo mais carnal, acrescento dois poemas recheados de belos versos. O primeiro publicado em 1956 no livro A Face junto ao Vento:
Vem esconder dentro de mim,
onde o teu ser a medo principia,

— desenho nu feito das
linhas da tarde e do horizonte…

e termino com o poema A Posse, publicado no livro Como Lavrar a Terra, em 1975:

Um rosto sobre o peito o que escutava?
A canção, um contorno de mamilos
breve, se erguida a curva nas espáduas
era o desejo, e calma, largos rios.

 

Eis os poemas:

 

Poema

Vem esconder dentro de mim,
onde o teu ser a medo principia,
a longa curva sem rosto ou fim
de uma harmonia

que não escutes mas
fique suspensa como uma fonte:
— desenho nu feito das
linhas da tarde e do horizonte…

 

A Posse

Que súbita suspeita — dália enorme —
passara como a sombra nos teus cílios,
se a manhã chega enquanto de nós foge
o tempo que já tinha destruído.

Um rosto sobre o peito o que escutava?
A canção, um contorno de mamilos
breve, se erguida a curva nas espáduas
era o desejo, e calma, largos rios.

Cabelos desgrenhados, fugitivos,
e vento não havia, ou quase chama
nos rins, na pele, um cancro que consome

este pecado casto, e já os lábios
se fecham, quando rápida ou mais funda
em nós cresceu a ferida dos sentidos.

Poemas transcrito de Algumas das Palavras, Poesia Reunida 1956-2008, edições Quasi, V. N. Famalicão, 2008.

Abre o artigo a imagem de um desenho de Henri Matisse (1869-1954) para poemas de Pierre de Ronsard (1524-1585).