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Um Estranho no Meu Túmulo — poema de Inês Dias

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Entre a avalanche de palavras à procura da poesia, às vezes fulge o poema capaz de entrar em nós e aí ficar colado pela verdade extrema da sua perfeição. Hoje refiro-me ao poema Um Estranho no Meu Túmulo de Inês Dias, que a seguir transcrevo. Nele, cada verso é um absoluto na verdade do sentimento que transmite, e o todo dá conta do complexo desencanto de uma paixão que viveu da sua possibilidade entrevista.

Começamos uma relação, e toda a expectativa da felicidade por vir nos acompanha. Às vezes “Chegámos tarde a nós.” como escreve a abrir o poema Inês Dias, e essa é a evidência à posteriori do progressivo desaparecer da felicidade esperada.

No poema acompanhamos o desencanto revelado nos sinais exteriores do viver comum. E em vez do circunstanciado desenvolvimento do que sucedeu, é a mestria poética de Inês Dias que constrói num curto poema o relato da desilusão deste viver.

 

Um estranho no meu túmulo

Chegámos tarde a nós.
Eu tinha a pele gasta, o coração no fio.
Tu eras um longo muro de cimento areado
em que deixava a carne inteira
a caminho do encontro.

A primavera ficava-nos sempre
à esquerda e tu cada vez mais
dentro de mim até não sentir nada,
até estares já do outro lado.
Para trás, a cova matinal na almofada,
o postal entre a leitura suspensa,
o número a chamar de um fantasma.

Se apagar as marcas de onde pousaste
a cabeça sobre a minha vida,
se ganhar novo espaço para o fôlego,
faz-me só um favor:
nunca mais me reconheças.

Transcrito de In Situ, Língua Morta, Abril de 2012.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Christian Schad (1894-1982), Auto-retrato de 1927. A pintura pertence a uma coleção privada.

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David Mourão-Ferreira — Música de cama X

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A poesia sobre o amor, se é desabafo de desgosto, grito de dor, ou desespero de ausência, também é registo do instante que se faz eternidade no gozo supremo da sua felicidade, ou como escreve David Mourão-Ferreira (1927-1996):

… de nos teus olhos
tão perto dos meus
descobrir o modo
de beber o céu

A estas práticas do amor tem a humanidade entregado engenho e saber, recusando tantas vezes moralidades e interditos de questionável finalidade. E depois da experiência, ou paralela a ela, temos a arte e a poesia a levar-nos a imaginação pelos caminhos que o prazer desbrava.

Não é de hoje, mas de sempre, esse registo literário e artístico do prazer experimentado. Há uns anos, a propósito do acto de amor hoje descrito por  David Mourão-Ferreira, transcrevi num artigo, [A propósito de cavalo de Heitor com Ovídio e Apuleio] como na antiguidade a encontramos referida. Cavalo de Heitor lhe chamavam. Hoje um poema de David Mourão-Ferreira recorda as delícias de tal prática:

 

 X

Sobre mim cavalgas
cingindo-me os flancos
Colhes à passagem
a luz do instante

De dentes cerrados
ondulas   avanças
retesas os braços
comprimes as ancas

Depois para a frente
inclinas-te olhando
o que entre dois ventres
ocorre entretanto

e o próprio galope
em que vais lançada
Que lua te empolga
Que sol te embriaga

Lua e sol tu és
enquanto cavalgas
amazona e égua
de espora cravada

no centro do corpo
Centauresa alada
com os seios soltos
como feitos de água

Queria bebê-los
quando mais te dobras
Os cabelos   esses
sorvê-los agora

Mas de cada vez
que o rosto aproximas
já é outra a sede
que me queima a língua

A de nos teus olhos
tão perto dos meus
descobrir o modo
de beber o céu

in David Mourão-Ferreira, Música de Cama, antologia erótica com um livro inédito, Editorial Presença, Lisboa, 1994.

Abre o artigo a imagem de uma escultura de Étienne-Maurice Falconet (1716-91).

Representa Cúpido. Pede silêncio para não perturbarmos os amantes entregues ao sublime prazer de Eros.

 

A Adormecida — poema de Paul Valery

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A poesia, na miríade de cintilações que consegue provocar nas palavras, tem uma espécie de epítome na versão de Augusto de Campos do soneto de Paul Valery (1871-1945) La Dormeuse, A Adormecida em português. Pela palavra, nele lemos magia e encanto associados na contemplação da bela adormecida:


Tua forma ao ventre puro, que veste um fluido braço,
Vela. Tua forma vela, e meus olhos: abertos.

A adormecida

Que segredo incandesces no peito, minha amiga,
Alma por doce máscara aspirando a flor?
De que alimentos vãos teu cândido calor
Gera essa irradiação: mulher adormecida?

Sopro, sonhos, silêncio, invencível quebranto,
Tu triunfas, ó paz mais potente que um  pranto,
Quando de um pleno sono a onda grave e estendida
Conspira sobre o seio de tal inimiga.

Dorme, dourada soma: sombras e abandono,
De tais dons cumulou-se esse temível sono,
Corça languidamente longa além do laço,

Que embora a alma ausente, em luta nos desertos,
Tua forma ao ventre puro, que veste um fluido braço,
Vela. Tua forma vela, e meus olhos: abertos.

1920

Tradução de Augusto de Campos (1931).
Poema publicado em LINGUAVIAGEM, Editora Schwarcz, S. Paulo, 1987.

 

 

Poema original de Paul Valery (1871-1945)

 

La Dormeuse

Quels secrets dans mon coeur brûle ma jeune amie,
Âme par le doux masque aspirant une fleur?
De quels vains aliments sa naïve chaleur
Fait ce rayonnement d’une femme endormie?

Souffles, songes, silence, invincible accalmie,
Tu triomphes, ô paix plus puissante qu’un pleur,
Quand de ce plein sommeil l’onde grave et l’ampleur
Conspirent sur le sein d’une telle ennemie.

Dormeuse, amas doré d’ombres et d’abandons,
Ton repos redoutable est chargé de tels dons,
Ô biche avec langueur longue auprès d’une grappe,

Que malgré l’âme absente, occupée aux enfers,
Ta forme au ventre pur qu’un bras fluide drape,
Veille; ta forme veille, et mes yeux sont ouverts.

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura do pintor húngaro Pandy Lajos (1895-1957), Nu reclinado.

João de Deus e um poema “dadaísta”

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Circular pelo normal padronizado às vezes exige fugas. Fugas que a literatura permite e a imaginação propicia.
Esse desarticular literário da normalidade padrão teve no início do século XX uma expressão maior com o movimento Dadaísta a que outras vanguardas sucessivamente se foram juntando.
Esta subversão do aceite como norma que ganhou corpo de grupo e movimento transnational com os primeiros dadaístas, foi, no entanto, expressa de forma ocasional aqui e acolá através dos tempos, permitindo exprimir a criatividade que desde sempre os espíritos livres sentiram necessidade ou vontade de manifestar, usando a ductilidade da língua de forma inventiva e irreverente.
Exemplo populares são os trava-línguas tão ao gosto da infância. Outros, e expressivos, são os anfiguri, de que já trouxe ao blog uma amostra com a transcrição de um poema de Filinto Elísio (1734-1819). Hoje ocupo-me de um caso singular sem filiação tipológica, um poema de João de Deus (1830-1896), Versos Quaisquer (Pedidos com instância).
O poema procurou ser uma sátira à mania de pedir versos aos poetas, frequente nos séculos XVIII e XIX. Podemos lê-lo hoje como um poema dadaísta avant la lettre. Nele é apenas o gozo de alinhar palavras num discurso rimado e ritmado incoerente o que lemos. É na verdade um delicioso exercício literário de virtuosismo sobre as palavras e a língua, e faz reflectir sobre o sentido da lógica intrínseca a qualquer discurso escrito, por um lado, e por outro, no ritmo que a poesia introduz na linguagem escrita antes da sua intelecção.

Trata o poema de um personagem e de uma sua aventura, onde o significado global desaparece, pois as palavras que a descrevem são ou vazias de significado, ou sem relação causal entre si. Ei-lo:

 

Versos quaisquer
(Pedidos com instância)

Havia na Transilvânia,
Ao pé de casco de rolhas
Um rei chamado dencolhas,
Imperador da circania;
Tinha por ceptro a catânea
Com que cortava o presunto,
E não gostava de assunto
Que não fosse de manérea
Que aquela cabeça aérea
Se risse e sorrisse muito.

Pescava às vezes nos mares
Com anzóis de caparrosa,
E tinha sempre uma cousa
No pensamento elevádeo:
Era que o imenso rádio,
Que o Sol descreve nas márcheas
Exerce sobre as enxárcias
Influência tamanha,
Que só cabeça tacanha
Ainda põe em problêmea
Se acaso banhos de sêmea
Curam sezões na Alemanha.

Ele tinha o cabelo áureo
A modo de flor sulfúrea,
Cor um pouco, um tanto espúria
Mas de beleza nevrálgica.
E como na fronte mágica
Lhe brincava a estrela fausta,
Um dia uma dama causta
De encontros superfinórios
Pôs-se com tais avelórios
A cativar-lhe os dois lúzios,
Que foram como dois búzios
À busca de promontórios.

No cabo da Boa Esperança
Se acaso a esperança tem cábeo,
É que ele viu no astrolábio,
Sua coragem hercúlea;
Mas com a face cerúlea
Tinha não sei que fatídico
Na mesma cerúlea fácea,
Agarrado à Musa Engrácia
Partiu no vapor Magnífico.

Nunca mais voltou das plagas
A que aportou, como é histórico;
Mas um monumento dórico
Erguido à sua memória
Reza assim: Esta é a história
Daquele monarca búzio
Que depois de macambúzio
Longos anos, longas épocas,
Agora: Titire, recubas
Sub tegmine f… úzio.

in Campo de Flores, Sátiras.

 

Abre o artigo a imagem de uma das Montagens Dada de Erwin Blumenfeld (1897-1969). Nela podemos ver um rosto atribuído a uma Anna Blume, talvez a destinatária de um poema dadaísta de Kurt Schwitters (1887-1948) que já transcrevi no blog em tradução de Jorge de Sena. Lendo o desenho, podemos imaginar ao centro o poeta escrevendo o poema, e ao cimo à esquerda o rei da Transilvânia gozando a aventura que este lhe atribui. Os outros serão o mundo à volta, talvez, ou a opinião da crítica, quem sabe?.

1.000.000 de visitas ao blog

Foi ultrapassado o milhão de visitas ao blog, contagem do WordPress, neste dia 22 de Novembro de 2017.

Começado o blog num tempo de particulares circunstâncias pessoais, a vida mudou e foi-me mudando, disso dando conta nos seus altos e baixos os mais de 800 artigos escritos nestes sete anos e alguns meses de existência.

Num crescimento exponencial de audiência, de duas mil e tal visitas no primeiro ano de vida do blog, para mais de duzentas e cinquenta mil já este ano, estes números são bem a medida da expansão da internet na vida de cada um. Em 2010 eram em média sete ou oito visitas por dia, hoje são em média cerca de mil. Talvez o prazer maior deste crescimento seja a audiência escolar que o blog ganhou, chegando a milhares de jovens que voltam uma e outra vez. E se há todos os dias alguns leitores do mundo inteiro, na relação entre leitores brasileiros e portugueses tem vindo a aumentar o peso daqueles: são hoje cerca de três a quatro leitores do Brasil por cada leitor de Portugal. Isto faz-me pensar quanto a língua nos une, sendo eu português, sentindo-me como tal, e escrevendo no português de Portugal, como lhe chamam.

Muito escrevi, muito ficou para trás. Talvez parte do que queria escrever ainda aqui apareça. Na incógnita do futuro caminharemos: eu, o blog, e, espero, alguns leitores que, fiéis, de há anos me acompanham, acrescentados de outros que entretanto venham chegando. A multidão não me diz nada. É cada leitor em particular que prezo: no respeito pela sua inteligência, cultura, e gosto de ler. É sobretudo cada um deles que, por existir, me força a retomar este escrever, quando, sem vontade, ou falho de inspiração, tudo se conjuga para desistir. E volto, uma vez e outra, sempre com algo que pelo menos não me desagrade de todo, e talvez goste de reencontrar mais tarde, quando o esquecimento da memória o levar. Por isso, leitores, continuemos …


 So long as men can breathe, or eyes can see,
 So long lives this, and this gives life to thee.

(Shakespeare, soneto XVIII)

 

Roupa — poema de Salette Tavares

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A intimidade de cada um faz-se de objectos, de cheiros e sabores que a memória guarda e a vida no seu aleatório fluir uma vez por outra desperta. E às vezes, de surpresa, as recordações surgem e tomam conta de nós.

Tantas vezes em gestos simples como arrumar gavetas, andar na rua, ou olhar em redor, uma lembrança chega, e aí vai o tempo correndo para trás, em busca de quem já fomos e não voltaremos a ser. São ocasiões em que sentimos …/ o  segredo  de meu ser / todo entornado./ … de que fala Salette Tavares (1922-1994) no poema Roupa, e que a seguir transcrevo:

 

Roupa

Fui  um  dia  à  janela  e  vi  as  nuvens
carregadas  de  meus  sonhos  desdobrados
recolhi-os  um  a  um
com  mil  cuidados
dobrei-os         engomei-os       e  guardei os
são  meus  lenços
empilhados  na  gaveta.
Tão  certos      tão  brancos       tão iguais
quadrados  sobrepostos  arrumados,
nesse  canto  do  sussurro
são  a  espera  consumada  de  um  aroma
que  se  espalha  e  me  inunda  toda  roupa
guardando  no  mistério
o  segredo  de meu ser
todo entornado.
Mas ali vivem e residem
medindo-se em distância com lençóis
também dobrado também brancos também lisos
também memórias recolhidas de silêncio
na dimensão dos corpos conhecidos.
para além dos lençóis para além dos lenços
o perfume íntimo de outras roupas
lava e põe branco em todas elas
no diálogo imóvel do segredo
misturado  a  conchas  e  colares
no  ruído  surdo  de  um  remanso  medo
que  se  prende  também  outras  peças.

Largos  silêncios  que  o  ranger  de  abrir  suspende
estremecer  de  linhos          despertar  de  panos
desabrocha  de  rendas alvas  na  penumbra,
quem  vos  tocou  tão  escondidos  brandos
e  me  ensinou  a  ter-vos?

30.XI.1970

Transcrito de Obra Poética 1957-1971, INCM, Lisboa, 1992.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Ben Nicholson (1894-1982), Window in Cornwall de 1946.

 

Cantam ao longe — poema de Carlos Queiroz

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Dias há que o mundo e nós estamos de costas voltadas, e o desconforto dessa incompatibilidade sente-se intensamente.

Na concisão de um poema dá-nos Carlos Queiroz (1909-1949) essa dimensão de conflito existencial: uma palavra, um verso, e tudo fica dito.

No primeiro verso do poema a alegria dos outros regista o poeta com “Cantam ao longe.” seguido da escuridão sentida pelo próprio: “Anoitece.
No segundo verso, “Faz frio pensar na vida;”, transmite-nos esse desconforto existencial que todo o poema transporte.
E o desacerto entre o homem e o mundo que o poeta quer transmitir surge na segunda parte do poema: “E a natureza parece / Dizer em voz comovida, /  Que o homem não a merece.”.

Exemplo maior do que a poesia pode ser na sua leitura das complexidades em que somos férteis, eis o poema:

 

 

Cantam ao longe

Cantam ao longe. Anoitece.
Faz frio pensar na vida;
E a natureza parece
Dizer em voz comovida,
Que o homem não a merece.

 

Publicado em Desaparecido, único livro do poeta, prémio Antero de Quental de 1935.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Edvard Munch (1863-1944), Melancolia, de 1891.

Mal de pés — poema de João Deus

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Faço há longos anos férias na praia, numa praia popular. A casa tem a vantagem de, ao sair, atravessar a rua e estar com o pé na areia. O areal é extenso, o mar, habitualmente manso, permite-me nadar as centenas de metros que me fazem desejar voltar uma e outra vez.
Sendo uma praia que atrai multidões, a vizinhança nos toldos leva inevitavelmente a partilharmos a intimidade de quem nos rodeia.
Sucedem-se as semanas e um pouco de Portugal de norte a sul desfila. Se as preocupações, cuidados e comportamentos não têm variação geográfica, nas gerações mais novas o quadro de maneiras, interesses, e formas de estar social, reproduzem os hábitos ancestrais dos seus maiores (para usar a expressão espanhola), assegurando a continuidade do bom e mau que recebem sem filtro.
Não há gadgets tecnológicos, bric-a-brac que o dinheiro compre e permita evidenciar uma melhoria económica em relação ao passado, que mude uma postura e gostos, que são afinal, um lastro cultural que se carrega.
Se na forma de ser há muito de bom e louvável, nas maneiras em que o respeito pelo outro se deveria manifestar, há provavelmente décadas de polimento ainda a percorrer.
Uma cena presenciada estas férias leva-me ao poema de João de Deus (1830-1896), Mal de pés, que a seguir transcrevo.

O poema pinta um retrato satírico de uma conversa entre dois homens de afastado meio cultural: um, o português campónio enriquecido no Brasil, a quem a fortuna recente não retirou a franqueza nem deu hábitos novos de higiene, outro, o inglês, protótipo imaginário do gentleman, com as suas modelares maneiras em sociedade e a ironia fina na conversação:

“E diga-me: em lavando os pés refina,
Ou sente algum alívio?”

 

Para os leitores brasileiros do blog deixo um esclarecimento talvez necessário: o brasileiro do poema era, desde meados do século XIX em Portugal, um português regressado rico de uma emigração no Brasil. A boçalidade do comportamento aliada a vaidades, e prodigalidade que o dinheiro pagava, transformaram estes indivíduos num tipo literário em voga por largos anos.

 

Mal de pés

Certo patrício nosso brasileiro,
Depois de ter corrido o mundo inteiro
Ao voltar de Paris desenganado
Dos médicos, que tinha consultado,
Achou-se num wagon com um inglês.
O desgraçado tinha mal de pés…
E a última palavra da ciência
Era ir vivendo e tendo paciência!

Mostrou-se o bife* incomodado,
Fungando para um e outro lado…
Como quem busca o foco de infecção;
Diz-lhe o nosso infeliz compatriota,
A apontar-lhe com o dedo a bota
E exalando um suspiro de paixão:
— Eis a causa, senhor, eis o motivo!…
O que eu não sei é como ainda vivo!


Tenho gasto rios de dinheiro,
E sempre, sempre, sempre o mesmo cheiro!
E isto por ora vá!… mas alto dia
Quando aperta o calor… Virgem Maria!…

“E diga-me: em lavando os pés refina,
Ou sente algum alívio?”
— Isso não sei,
Sei que tenho exaurido a medicina;
mas lavar é que nunca experimentei.

Às vezes dá-se ao médico o dinheiro
Que se devia dar ao aguadeiro**.

 

* calão para designar ingleses, entretanto caído em desuso, (cf. Dicionário de Calão, Albino Lapa, Editorial Presença, Lisboa, 1974).
** homem que no século XIX vendia água e carregava os respectivos potes até à morada do cliente.

in Campo de Flores, Satíricas e Epigramas.

Abre o artigo a imagem de uma caricatura de Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) publicada em Álbum de Glórias.

Gomes Leal — A Sesta do Sr. Glória

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Gomes Leal (1848-1921) dá-nos em  A Sesta do Sr. Glória, com bonomia pontuada de acentos irónicos, marca de água da sua poesia não panfletária, um retrato de família burguesa de final do século XIX, saboreando o seu bem-estar e contentamento de viver.

Não é matéria frequente da poesia realista de final de oitocentos o tom, despido de considerações ideológicas ou de moralidade, tão só deixando ver, qual pintura de género, uma particular ”joie de vivre”.

O poema traz uma saborosa evocação de uma sociedade extinta, e, ao leitor de hoje, o conhecimento histórico da sociedade e costumes da época, permite, talvez, os juízos de valor que o poeta se inibe.

 

A Sesta do Senhor Glória

É no fim do jantar. — Deram três horas
No bom relógio antigo dos avós.
E o senhor Glória pega numa noz
Com um ar de quem trata com senhoras.

A casa de jantar toda pintada
E o estuque cheio d’aves, de paisagens,
De ninfas, prados, d’águas, de boscagens,
Tem uma forma antiga e recatada.

D’involta com seus goles de Madeira
Saboreia a senhora o seu café.
E ao lado, um filho rúbido, de pé,
Parece um pregador sobre a cadeira.

No colo da matrona dorme um gato
No melhor sono cómodo do mundo,
Enquanto, em baixo, um cão grave e profundo,
Contempla uns restos, que inda estão num prato.

O senhor Glória fala, chocarreiro,
Do seu cunhado Aleixo de Miranda.
Lá fora, um papagaio num poleiro,
Diz cousas aos burgueses, da varanda.

Com um ar meio cómico e boçal,
Um sisudo criado atrás, de pé,
De vez em quando fala menos mal:
— O senhor Glória aspira o seu café.

Muito tempo assim ficam nesse estado
De santa sonolência e beatitude,
Mais que assaz conhecido da virtude,
quando tem digerido e bem jantado

No entanto, o senhor Glória, olhos dormentes,
Contempla, na parede, os bons pastores,
Confidentes fiéis dos seus amores,
— Que outrora hão já sorrido aos seus parentes.

Duas pastoras falam com poesia,
Numa vereda de álamos umbrosos,
E isto acorda-lhe os tempos virtuosos…
Que era hora de jantar era ao meio dia!

Belos tempos — pensa ele — de virtude,
De glória, amor, coragem, fé ardente,
De longas procissões e de saúde,
De singeleza e paz — vida contente!

E o senhor Glória, aqui, num travesseiro,
Deita a cabeça, de pensar prostrado.
— O papagaio ri no seu poleiro.
— E a senhora sorri para o criado.

in  Claridades do Sul, segunda edição revista e aumentada, Empresa da História de Portugal, Lisboa, 1901.

Tal como no poema a certa altura se refere — No entanto, o senhor Glória, olhos dormentes, / Contempla, na parede, os bons pastores, / Confidentes fiéis dos seus amores,  — a vida por esta época para os senhores endinheirados não se limitava a esta placidez doméstica; e isso mostra a imagem a abrir o artigo. Trata-se do fragmento de um poster de Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901), Reine de Joie, de 1892.
Contemporâneo próximo deste Sr. Glória, neste poster observamos não um jantar de família, mas uma ceia, talvez tardia, numa noite de escapadela, deixando a senhora entregue às suas ocupações.

Varinas de Lisboa em poemas de Almada Negreiros e Carlos Queiroz

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E vós varinas que sabeis a sal
e trazeis o mar no vosso avental!
(Almada Negreiros)

 

Mulheres esbeltas de língua afiada e resposta pronta, tanto quanto a memória infantil mo permite recordar, foram por séculos presença assídua nas ruas de Lisboa.
Levando à cabeça a cesta de peixe fresco, ecoavam pelas manhãs da cidade os pregões a anunciá-lo, rivalizando com outras vendedeiras, como o recorda Gomes Leal (1948-1921) no soneto Pregões matinais:


De manhã é que passa a leiteirinha,
Com seu pregão chilrado de andorinha,
Passam varinas de gargantas sãs…

 

Imagem de propaganda de uma Lisboa popular durante o Estado Novo, surgiram na arte pública por aqui e por ali na sua elegância, decorando entradas e fachadas de prédios na nova Lisboa dos anos 40, transmitindo a imagem sensual que o imaginário popular a pouco e pouco incorporou, e os poetas deram voz, sobretudo David Mourão-Ferreira com Maria Lisboa, tornada famosíssima pelo fado na voz de Amália Rodrigues.
Vinham sobretudo de Alfama, e hoje são apenas uma ténue memória, mesmo para os mais velhos que ainda lá vivem. Encontramos imagens deste mundo urbano nas prosas de cidade de Irene Lisboa (1892-1958), contadas com o pudor e empatia que atravessa toda a sua escrita.
Hoje recordo varinas em dois poemas: Varina de Carlos Queiroz (1909-1949) e Varina de Almada Negreiros (1893-1970).
Se no poema de Carlos Queiroz lemos a mitificação de um tipo humano, com Almada Negreiros estamos no mundo da brincadeira (séria) recusando tal tipo, como matéria para lá do desejo que o mito induz.

 

Varina — poema de Carlos Queiroz

Ó Varina, passa,
passa tu primeiro…
que és a flor da raça,
a mais séria graça
do país inteiro!

Teu orgulho seja
sonora fanfarra,
zimbório igreja!
Que logo te veja
quem entra na Barra.

Lisboa, esquecida
que é porto-de-mar,
fica esclarecida
e reconhecida
se te vê passar.

Dá-lhe a tua graça
clássica e sadia.
Ó varina passa…
na noite da raça
teu pregão faz dia!

Vê que toda a gente
ao ver-te, sorri.
Não sabe o que sente,
mas fica contente
de olhar para ti.

E sobre o que pensa
quem te vê passar,
eterna, suspensa,
acena a imensa
presença do mar!

1929

A Varina — poema de Almada Negreiros

Lá na Ribeira Nova
onde nasce Lisboa inteira
na manhã de cada dia
há uma varina
e se não fosse ela
ai não sei
não sei que seria de mim!
Por ela
fiz dois versos a todas as varinas:
E vós varinas que sabeis a sal
e trazeis o mar no vosso avental!
Acho parecidos estes versos
com as varinas de Portugal.

Uma vez falei-lhe
para ouvi-la
e vê-la
ao pé.
A voz saborosa
os olhos de variar
castanhos de variar
castanhos-escuros de variar
com reflexos de variar
desde o rosa
até ao verde
desde o verde
até ao mar.

Num reflexo refleti:
não dar aquele destino
ao meu destino aqui.

Escrito em 1926

 

Termino com a nota humana do sofrimento que esta dura vida popular consigo trazia, evocada no poema Desenho, também de Carlos Queiroz.

 

Desenho — poema de Carlos Queiroz

Varina
sentada
na areia:
— Que sina
te é dada,
na manhã chegada
com a maré cheia?

— “Canastra vazia,
Barqueiro morrido…”
— Vem da maresia
teu pensar dorido.

Não penses tão claro;
vai à tua lida.
Pensar, é amaro
padecer da vida.

E a vida é sonhada
viagem incerta…
— Varina sentada
na praia deserta!

 

Poemas de Carlos Queiroz transcritos de Desaparecido e Outros Poemas, Livraria Bertrand, Lisboa, 1950.

Poema de Almada Negreiros transcrito de Obras Completas, vol.I, INCM, Lisboa, 1990.

O poema Pregões matinais (citado em fragmento) foi publicado em Gomes Leal, Mefistófeles em Lisboa, 1907.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Jorge Barradas (1894-1971), Varinas de 1930, da coleção do Museu do Chiado.

Antes do poema de Almada Negreiros surge a variação digital sobre um desenho do artista que acompanha a edição referida da sua poesia.