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Roupa — poema de Salette Tavares

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A intimidade de cada um faz-se de objectos, de cheiros e sabores que a memória guarda e a vida no seu aleatório fluir uma vez por outra desperta. E às vezes, de surpresa, as recordações surgem e tomam conta de nós.

Tantas vezes em gestos simples como arrumar gavetas, andar na rua, ou olhar em redor, uma lembrança chega, e aí vai o tempo correndo para trás, em busca de quem já fomos e não voltaremos a ser. São ocasiões em que sentimos …/ o  segredo  de meu ser / todo entornado./ … de que fala Salette Tavares (1922-1994) no poema Roupa, e que a seguir transcrevo:

 

Roupa

Fui  um  dia  à  janela  e  vi  as  nuvens
carregadas  de  meus  sonhos  desdobrados
recolhi-os  um  a  um
com  mil  cuidados
dobrei-os         engomei-os       e  guardei os
são  meus  lenços
empilhados  na  gaveta.
Tão  certos      tão  brancos       tão iguais
quadrados  sobrepostos  arrumados,
nesse  canto  do  sussurro
são  a  espera  consumada  de  um  aroma
que  se  espalha  e  me  inunda  toda  roupa
guardando  no  mistério
o  segredo  de meu ser
todo entornado.
Mas ali vivem e residem
medindo-se em distância com lençóis
também dobrado também brancos também lisos
também memórias recolhidas de silêncio
na dimensão dos corpos conhecidos.
para além dos lençóis para além dos lenços
o perfume íntimo de outras roupas
lava e põe branco em todas elas
no diálogo imóvel do segredo
misturado  a  conchas  e  colares
no  ruído  surdo  de  um  remanso  medo
que  se  prende  também  outras  peças.

Largos  silêncios  que  o  ranger  de  abrir  suspende
estremecer  de  linhos          despertar  de  panos
desabrocha  de  rendas alvas  na  penumbra,
quem  vos  tocou  tão  escondidos  brandos
e  me  ensinou  a  ter-vos?

30.XI.1970

Transcrito de Obra Poética 1957-1971, INCM, Lisboa, 1992.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Ben Nicholson (1894-1982), Window in Cornwall de 1946.

 

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Cantam ao longe — poema de Carlos Queiroz

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Dias há que o mundo e nós estamos de costas voltadas, e o desconforto dessa incompatibilidade sente-se intensamente.

Na concisão de um poema dá-nos Carlos Queiroz (1909-1949) essa dimensão de conflito existencial: uma palavra, um verso, e tudo fica dito.

No primeiro verso do poema a alegria dos outros regista o poeta com “Cantam ao longe.” seguido da escuridão sentida pelo próprio: “Anoitece.
No segundo verso, “Faz frio pensar na vida;”, transmite-nos esse desconforto existencial que todo o poema transporte.
E o desacerto entre o homem e o mundo que o poeta quer transmitir surge na segunda parte do poema: “E a natureza parece / Dizer em voz comovida, /  Que o homem não a merece.”.

Exemplo maior do que a poesia pode ser na sua leitura das complexidades em que somos férteis, eis o poema:

 

 

Cantam ao longe

Cantam ao longe. Anoitece.
Faz frio pensar na vida;
E a natureza parece
Dizer em voz comovida,
Que o homem não a merece.

 

Publicado em Desaparecido, único livro do poeta, prémio Antero de Quental de 1935.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Edvard Munch (1863-1944), Melancolia, de 1891.

Mal de pés — poema de João Deus

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Faço há longos anos férias na praia, numa praia popular. A casa tem a vantagem de, ao sair, atravessar a rua e estar com o pé na areia. O areal é extenso, o mar, habitualmente manso, permite-me nadar as centenas de metros que me fazem desejar voltar uma e outra vez.
Sendo uma praia que atrai multidões, a vizinhança nos toldos leva inevitavelmente a partilharmos a intimidade de quem nos rodeia.
Sucedem-se as semanas e um pouco de Portugal de norte a sul desfila. Se as preocupações, cuidados e comportamentos não têm variação geográfica, nas gerações mais novas o quadro de maneiras, interesses, e formas de estar social, reproduzem os hábitos ancestrais dos seus maiores (para usar a expressão espanhola), assegurando a continuidade do bom e mau que recebem sem filtro.
Não há gadgets tecnológicos, bric-a-brac que o dinheiro compre e permita evidenciar uma melhoria económica em relação ao passado, que mude uma postura e gostos, que são afinal, um lastro cultural que se carrega.
Se na forma de ser há muito de bom e louvável, nas maneiras em que o respeito pelo outro se deveria manifestar, há provavelmente décadas de polimento ainda a percorrer.
Uma cena presenciada estas férias leva-me ao poema de João de Deus (1830-1896), Mal de pés, que a seguir transcrevo.

O poema pinta um retrato satírico de uma conversa entre dois homens de afastado meio cultural: um, o português campónio enriquecido no Brasil, a quem a fortuna recente não retirou a franqueza nem deu hábitos novos de higiene, outro, o inglês, protótipo imaginário do gentleman, com as suas modelares maneiras em sociedade e a ironia fina na conversação:

“E diga-me: em lavando os pés refina,
Ou sente algum alívio?”

 

Para os leitores brasileiros do blog deixo um esclarecimento talvez necessário: o brasileiro do poema era, desde meados do século XIX em Portugal, um português regressado rico de uma emigração no Brasil. A boçalidade do comportamento aliada a vaidades, e prodigalidade que o dinheiro pagava, transformaram estes indivíduos num tipo literário em voga por largos anos.

 

Mal de pés

Certo patrício nosso brasileiro,
Depois de ter corrido o mundo inteiro
Ao voltar de Paris desenganado
Dos médicos, que tinha consultado,
Achou-se num wagon com um inglês.
O desgraçado tinha mal de pés…
E a última palavra da ciência
Era ir vivendo e tendo paciência!

Mostrou-se o bife* incomodado,
Fungando para um e outro lado…
Como quem busca o foco de infecção;
Diz-lhe o nosso infeliz compatriota,
A apontar-lhe com o dedo a bota
E exalando um suspiro de paixão:
— Eis a causa, senhor, eis o motivo!…
O que eu não sei é como ainda vivo!


Tenho gasto rios de dinheiro,
E sempre, sempre, sempre o mesmo cheiro!
E isto por ora vá!… mas alto dia
Quando aperta o calor… Virgem Maria!…

“E diga-me: em lavando os pés refina,
Ou sente algum alívio?”
— Isso não sei,
Sei que tenho exaurido a medicina;
mas lavar é que nunca experimentei.

Às vezes dá-se ao médico o dinheiro
Que se devia dar ao aguadeiro**.

 

* calão para designar ingleses, entretanto caído em desuso, (cf. Dicionário de Calão, Albino Lapa, Editorial Presença, Lisboa, 1974).
** homem que no século XIX vendia água e carregava os respectivos potes até à morada do cliente.

in Campo de Flores, Satíricas e Epigramas.

Abre o artigo a imagem de uma caricatura de Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) publicada em Álbum de Glórias.

Gomes Leal — A Sesta do Sr. Glória

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Gomes Leal (1848-1921) dá-nos em  A Sesta do Sr. Glória, com bonomia pontuada de acentos irónicos, marca de água da sua poesia não panfletária, um retrato de família burguesa de final do século XIX, saboreando o seu bem-estar e contentamento de viver.

Não é matéria frequente da poesia realista de final de oitocentos o tom, despido de considerações ideológicas ou de moralidade, tão só deixando ver, qual pintura de género, uma particular ”joie de vivre”.

O poema traz uma saborosa evocação de uma sociedade extinta, e, ao leitor de hoje, o conhecimento histórico da sociedade e costumes da época, permite, talvez, os juízos de valor que o poeta se inibe.

 

A Sesta do Senhor Glória

É no fim do jantar. — Deram três horas
No bom relógio antigo dos avós.
E o senhor Glória pega numa noz
Com um ar de quem trata com senhoras.

A casa de jantar toda pintada
E o estuque cheio d’aves, de paisagens,
De ninfas, prados, d’águas, de boscagens,
Tem uma forma antiga e recatada.

D’involta com seus goles de Madeira
Saboreia a senhora o seu café.
E ao lado, um filho rúbido, de pé,
Parece um pregador sobre a cadeira.

No colo da matrona dorme um gato
No melhor sono cómodo do mundo,
Enquanto, em baixo, um cão grave e profundo,
Contempla uns restos, que inda estão num prato.

O senhor Glória fala, chocarreiro,
Do seu cunhado Aleixo de Miranda.
Lá fora, um papagaio num poleiro,
Diz cousas aos burgueses, da varanda.

Com um ar meio cómico e boçal,
Um sisudo criado atrás, de pé,
De vez em quando fala menos mal:
— O senhor Glória aspira o seu café.

Muito tempo assim ficam nesse estado
De santa sonolência e beatitude,
Mais que assaz conhecido da virtude,
quando tem digerido e bem jantado

No entanto, o senhor Glória, olhos dormentes,
Contempla, na parede, os bons pastores,
Confidentes fiéis dos seus amores,
— Que outrora hão já sorrido aos seus parentes.

Duas pastoras falam com poesia,
Numa vereda de álamos umbrosos,
E isto acorda-lhe os tempos virtuosos…
Que era hora de jantar era ao meio dia!

Belos tempos — pensa ele — de virtude,
De glória, amor, coragem, fé ardente,
De longas procissões e de saúde,
De singeleza e paz — vida contente!

E o senhor Glória, aqui, num travesseiro,
Deita a cabeça, de pensar prostrado.
— O papagaio ri no seu poleiro.
— E a senhora sorri para o criado.

in  Claridades do Sul, segunda edição revista e aumentada, Empresa da História de Portugal, Lisboa, 1901.

Tal como no poema a certa altura se refere — No entanto, o senhor Glória, olhos dormentes, / Contempla, na parede, os bons pastores, / Confidentes fiéis dos seus amores,  — a vida por esta época para os senhores endinheirados não se limitava a esta placidez doméstica; e isso mostra a imagem a abrir o artigo. Trata-se do fragmento de um poster de Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901), Reine de Joie, de 1892.
Contemporâneo próximo deste Sr. Glória, neste poster observamos não um jantar de família, mas uma ceia, talvez tardia, numa noite de escapadela, deixando a senhora entregue às suas ocupações.

Varinas de Lisboa em poemas de Almada Negreiros e Carlos Queiroz

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E vós varinas que sabeis a sal
e trazeis o mar no vosso avental!
(Almada Negreiros)

 

Mulheres esbeltas de língua afiada e resposta pronta, tanto quanto a memória infantil mo permite recordar, foram por séculos presença assídua nas ruas de Lisboa.
Levando à cabeça a cesta de peixe fresco, ecoavam pelas manhãs da cidade os pregões a anunciá-lo, rivalizando com outras vendedeiras, como o recorda Gomes Leal (1948-1921) no soneto Pregões matinais:


De manhã é que passa a leiteirinha,
Com seu pregão chilrado de andorinha,
Passam varinas de gargantas sãs…

 

Imagem de propaganda de uma Lisboa popular durante o Estado Novo, surgiram na arte pública por aqui e por ali na sua elegância, decorando entradas e fachadas de prédios na nova Lisboa dos anos 40, transmitindo a imagem sensual que o imaginário popular a pouco e pouco incorporou, e os poetas deram voz, sobretudo David Mourão-Ferreira com Maria Lisboa, tornada famosíssima pelo fado na voz de Amália Rodrigues.
Vinham sobretudo de Alfama, e hoje são apenas uma ténue memória, mesmo para os mais velhos que ainda lá vivem. Encontramos imagens deste mundo urbano nas prosas de cidade de Irene Lisboa (1892-1958), contadas com o pudor e empatia que atravessa toda a sua escrita.
Hoje recordo varinas em dois poemas: Varina de Carlos Queiroz (1909-1949) e Varina de Almada Negreiros (1893-1970).
Se no poema de Carlos Queiroz lemos a mitificação de um tipo humano, com Almada Negreiros estamos no mundo da brincadeira (séria) recusando tal tipo, como matéria para lá do desejo que o mito induz.

 

Varina — poema de Carlos Queiroz

Ó Varina, passa,
passa tu primeiro…
que és a flor da raça,
a mais séria graça
do país inteiro!

Teu orgulho seja
sonora fanfarra,
zimbório igreja!
Que logo te veja
quem entra na Barra.

Lisboa, esquecida
que é porto-de-mar,
fica esclarecida
e reconhecida
se te vê passar.

Dá-lhe a tua graça
clássica e sadia.
Ó varina passa…
na noite da raça
teu pregão faz dia!

Vê que toda a gente
ao ver-te, sorri.
Não sabe o que sente,
mas fica contente
de olhar para ti.

E sobre o que pensa
quem te vê passar,
eterna, suspensa,
acena a imensa
presença do mar!

1929

A Varina — poema de Almada Negreiros

Lá na Ribeira Nova
onde nasce Lisboa inteira
na manhã de cada dia
há uma varina
e se não fosse ela
ai não sei
não sei que seria de mim!
Por ela
fiz dois versos a todas as varinas:
E vós varinas que sabeis a sal
e trazeis o mar no vosso avental!
Acho parecidos estes versos
com as varinas de Portugal.

Uma vez falei-lhe
para ouvi-la
e vê-la
ao pé.
A voz saborosa
os olhos de variar
castanhos de variar
castanhos-escuros de variar
com reflexos de variar
desde o rosa
até ao verde
desde o verde
até ao mar.

Num reflexo refleti:
não dar aquele destino
ao meu destino aqui.

Escrito em 1926

 

Termino com a nota humana do sofrimento que esta dura vida popular consigo trazia, evocada no poema Desenho, também de Carlos Queiroz.

 

Desenho — poema de Carlos Queiroz

Varina
sentada
na areia:
— Que sina
te é dada,
na manhã chegada
com a maré cheia?

— “Canastra vazia,
Barqueiro morrido…”
— Vem da maresia
teu pensar dorido.

Não penses tão claro;
vai à tua lida.
Pensar, é amaro
padecer da vida.

E a vida é sonhada
viagem incerta…
— Varina sentada
na praia deserta!

 

Poemas de Carlos Queiroz transcritos de Desaparecido e Outros Poemas, Livraria Bertrand, Lisboa, 1950.

Poema de Almada Negreiros transcrito de Obras Completas, vol.I, INCM, Lisboa, 1990.

O poema Pregões matinais (citado em fragmento) foi publicado em Gomes Leal, Mefistófeles em Lisboa, 1907.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Jorge Barradas (1894-1971), Varinas de 1930, da coleção do Museu do Chiado.

Antes do poema de Almada Negreiros surge a variação digital sobre um desenho do artista que acompanha a edição referida da sua poesia.

Eugénio de Andrade — Green god

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Ocupados com as preocupações de todos os dias, nem sempre temos o olhar disponível para o fulgor do instante, um flash de beleza que nos passa diante dos olhos e perdura longo tempo na memória, por tal forma que, ao recordá-lo, sentimos invadir-nos uma espécie de felicidade inexplicável.

 

É de um momento assim que Eugénio de Andrade (1923-2005) fala no poema Green god.

O poema tem, na concisão da forma, a elegância que caracteriza toda a poesia de Eugénio de Andrade, e interpela-nos sobre a beleza que reside no mundo: na natureza, nos corpos, no movimento, na luz, na música; em tudo o que à nossa volta pode fazer pressentir o paraíso, e com isso sermos felizes; o que talvez o ensimesmamento em que tantas vezes mergulhamos, deixe escapar.

Mais que a letra do poema importa a emoção que a sua leitura desencadeia e a multiplicidade de pistas e caminhos que abre na fruição do sentimento do belo.

Green god

Trazia consigo a graça
das fontes, quando anoitece.
Era o corpo como um rio
em sereno desafio
com as margens, quando desce.

Andava como quem passa,
sem ter tempo de parar.
Ervas nasciam dos passos,
cresciam troncos dos braços
quando os erguia do ar.

Sorria como quem dança.
E desfolhava ao dançar
o corpo, que lhe tremia
num ritmo que ele sabia
que os deuses devem usar.

E seguia o seu caminho,
porque era um deus que passava.
Alheio a tudo o que via,
enleado na melodia
de uma flauta que tocava.

 

O poema foi inicialmente publicado em As mãos e os frutos (1948), o primeiro livro de poemas publicado pelo poeta.
Transcrito de Eugénio de Andrade, Poesia, Rosto editora lda, V. N. Gaia, 2011.

 

Emily Dickinson — a verdade a beleza e a morte

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Numa reflexão poética sobre a morte fala Emily Dickinson (1830-1886) das razões por que morrer: pela beleza e pela verdade.

 

Enquanto absolutos, tanto beleza como verdade são ambos conceitos de objectivação duvidosa e, como tal, de vasta latitude de entendimento, a que apenas o íntimo de cada um responde. Servirão, como quaisquer outros, para morrer por. Escolha-os quem quiser. Não servirão em nenhuma circunstância de pretexto para matar. E se matar em nome da beleza não há notícia, em nome da verdade quantos assassinos se têm sentido legitimados!… Cabe a cada um dizer, sempre, e todos os dias, Não!

 

Talvez tenha havido um tempo em que beleza e verdade Ambas O Mesmo são como o poema refere, e é seu pretexto. Hoje são entidades que correm caminhos paralelos, e, tal como linhas paralelas em geometria, nunca se encontram.
Se cada um de nós se interrogar sobre o que para si beleza e verdade significam, e como na sua vida se cruzam, verá a surpresa nas respostas que encontra. E, no entanto, beleza e verdade identificadas entre si nas nossas vidas, seriam uma ajuda preciosa para ganhar a tranquilidade dos dias, e não o sossego da morte que o poema refere.

 

O poema, na sua concisa expressão e conteúdo reflexivo, remete irresistivelmente para os epigramas funerários da Antologia Grega.

 

 

Poema

 

Morri pela Beleza — mas mal estava
Ajustada no Túmulo
Um Outro que morreu pela verdade,
E jazia no Quarto adjacente —

 

Me disse docemente “Porque morrera eu”?
“Pela Beleza”, respondi —
“Pela Verdade — eu — que Ambas O Mesmo são —”,
Disse Ele “Então somos Irmãos” —

 

E tal como Parentes se encontram numa Noite —
Assim falámos de Quarto para Quarto —
Até que o Musgo nos chegou aos lábios —
Cobrindo os nossos nomes —

 

 

in Emily Dickinson, Duzentos Poemas, tradução, belíssima, posfácio organização e de Ana Luísa Amaral, Relógio D’Água Editores, Lisboa 2014.

Abre o artigo a imagem de um sarcófago egípcio, instrumento artístico da comunicação pós-morten entre os mais belos que a humanidade inventou.

 

 

 

Soneto de Francisco de Medrano

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O ciclópico acto (1), como uma vez lhe chamou  Luiza Neto Jorge, tem num poema de Francisco de Medrano (1570-1607) uma expressão lírica bem ao gosto da poesia do século XVI, a que a tradução de Jorge de Sena faz plena justiça: Seguiu-se um grande gozo ao pasmo louco / … / que todo o meu sensível pôs em calma.

A pressão do sexo nos humanos é uma constante, e é de sempre, pelo que em todas as épocas surge na palavra poética. Apenas variam os termos da sua formulação, adequando-os ao gosto da época que os viu surgir. Neste nosso tempo afortunado, com o acesso à criação universal ao alcance da curiosidade mais exigente, podemos permitir-nos o luxo da sua fruição independentemente de épocas e geografias. E hoje vem um exemplo feliz de um jovem poeta espanhol pouco mais novo que Camões escrevendo sobre os enigmas do êxtase da paixão.

 

 

 

Soneto

 

Não sei como, nem quando, nem que cousa
senti que me inundava de doçura:
sei que a meus braços veio a formosura,
de gozar-se comigo cobiçosa.

 

Sei que chegou, se bem, com temerosa
vista, mal pude olhar sua figura:
logo pasmei, como o que em noite escura,
perdido o tino, o pé mover não ousa.

 

Seguiu-se um grande gozo ao pasmo louco
— não sei quando, nem como, nem que há sido
que todo o meu sensível pôs em calma.

 

Ignorá-lo é saber: pois que é bem pouco
o que pode abarcar o só sentido,
enquanto isto me coube na só alma.

 

Tradução de Jorge de Sena.

Transcrito de Poesia de 26 Séculos, antologia, tradução, prefácio e notas de Jorge de Sena, edição Fora do Texto, Coimbra, 1993.

 

 

 

Nota à margem

 

(1) Não resisto a um pequeno desvio ao assunto que me traz.
Na dúvida ao escrever acto ou ato, pelo acordo ortográfico de 1990, ocorreu-me quanto o novo acordo ortográfico pode atar as possibilidades de agir. Afinal, de acto a ato, passamos da acção à prisão nas malhas da ortographia.
Feito o desvio, volto com o leitor ao relato em que acção se pede, e atado, só por pontual diversão.

 

 

 

Iconografia

 

Abre o artigo a imagem de um detalhe da pintura de Lucas Cranach o Velho (1472-1553), adequadamente chamada A Idade de Ouro, onde homens e mulheres nus fruem os prazeres da vida em mútua companhia.
A pintura feita por volta de 1530, terá talvez mais setenta anos que o poema, mas são ambos certamente água da mesma fonte de alegrias.

 

Lição sobre a água — poema de António Gedeão

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Só conseguimos gostar do que conhecemos.
À entrada da adolescência, tinha eu doze anos, um austero professor fez-me descobrir o sortilégio das experiências de química, a tal ponto que, qual pesquisador da pedra filosofal, Instalei no terraço de casa um pequeno laboratório, com o beneplácito de meu pai, que tinha uma paciência infinita para as minhas fantasias, e dei início à minha actividade experimental. Como era de esperar, fruto da ignorância, a coisa correu mal, e depois de um desastre sem consequências graves, fui levado a desmontar o laboratório e esquecer as experimentações domésticas. Mas o entusiasmo ficou cá.
De entre as variadas coisas que ensinei, o que recordo com uma ternura nostálgica são umas aulas de laboratório de química, e o prazer de fazer descobrir aquele mundo mágico a sucessivas camadas de adolescentes. Hoje é a lembrança dessas experiências que me faz trazer ao blog o poema de António Gedeão (1906-1997), Lição sobre a água.

 

O poema, no seu propósito didáctico, assume um tradição que remonta à medicina árabe medieval, na qual os tratados médicos (os únicos que o mundo medieval cristão conheceu) eram escritos em verso para facilitar a sua assimilação. O mas notável será o Poema da Medicina, de Avicena.

 

Ainda que o Químico, o Prof. Rómulo de Carvalho, que escreveu poesia sob o pseudónimo de António Gedeão, tenha esquecido a biologia e o papel da água como fonte da vida, na estrofe final do poema associa toda esta ciência à mente humana e ao que ela pode ter de mais dilacerante: a loucura e o suicídio por transtornos emocionais entre família, dever, e desejo. Evoca aí o poeta a morte de Ofélia, paixão (?) de Hamlet, na peça homóloga de Shakespeare.

 

A cena descrita na última estrofe do poema foi pretexto para uma famosa pintura de John Everett Millais (1829-1896), com cuja imagem abre o artigo. A pintura original pertence à Tate Britain.

 

 

 

Lição sobre a água

 

Este líquido é água.
Quando pura
é inodora, insípida e incolor.
Reduzida a vapor,
sob tensão e a alta temperatura,
move os êmbolos das máquinas que, por isso,
se denominam máquinas de vapor.

 

É um bom dissolvente.
Embora com excepções mas de um modo geral,
dissolve tudo bem, bases e sais.
Congela a zero graus centesimais
e ferve a 100, quando à pressão normal.

 

Foi neste líquido que numa noite cálida de Verão,
sob um luar gomoso e branco de camélia,
apareceu a boiar o cadáver de Ofélia
com um nenúfar na mão.

 

 

in Antonio Gedeão, Obra Completa, 2ªedição, Relógio d’Água, Lisboa 2007.

Como a morte se infiltra — poema de João Cabral de Melo Neto

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Cabe-nos a todos, cedo ou tarde, cuidar de familiares. Para o processo de envelhecimento que nos espera, podemos aprender nos outros comportamentos e estados de espírito, que conduzam a atitudes essenciais para a fruição da vida, o melhor possível, enquanto ela durar.

No poema de João Cabral de Melo Neto (1920-1999), Como a morte se infiltra, que à frente transcrevo, é um desencantado e pungente relato de desistência que acompanhamos. Embora seja frequente, não tem que ser assim.

Quando a lucidez permanece mas a autonomia desapareceu, o espectáculo dos lares de terceira idade, quais salas de espera de Deus, para usar uma expressão terrível que encontrei algures, mostra tudo o que não deve ser viver o tempo, já sem tempo para novos sonhos, mas mais que suficiente para fruir um quotidiano benigno.

O entusiasmo é sempre possível, e a alegria de estar vivo é algo que cuidadosamente se rega, e todos os dias se faz renascer. Sei do que falo. Tenho ao meu lado um exemplo vivo: à beira dos noventa anos estreou hoje com o maior entusiasmo, uma Scooter eléctrica que lhe permitirá reganhar uma mobilidade há muito perdida. E a sensação de que a aventura pode sempre recomeçar é um motor irresistível, tal como a experiência do novo é sempre um desafio que vale a pena.
Depois disto dito, aqui fica o exemplo a não seguir:

 

 

 

Como a morte se infiltra

 

Certo dia, não se levanta,
porque quer demorar na cama.

No outro dia ele diz porquê:
é porque lhe dói algum pé.

No outro dia o que dói é a perna,
e nem pode apoiar-se se nela.

Dia de dia lhe cresce um não,
um enrodilhar-se de cão.

Dia dia ele aprende o jeito
em que menos lhe pesa o leito.

Um dia faz fechar as janelas:
dói-lhe o dia lá fora delas.

Há um dia em que não se levanta:
deixa-o para a outra semana,

outra semana sempre adiada,
que eu não vê por que apressá-la.

Um dia passou vinte e quatro horas
incurioso do que é de fora.

Outro dia já não distinguiu
noite e dia, tudo é vazio.

Um dia, pensou: respirar,
eis um esforço que se evitar.

Quem deixou-o, a respiração?
Muda de cama. Eis seu caixão.

 

 

Poema publicado em Agrestes (1981-1985), e transcrito de A educação pela pedra e depois, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1997.

Acompanham o artigo imagens de duas pinturas: a abrir, de Arshile Gorky (1904-1948) O pintor e sua mãe; a seguir de Paul Gauguin (1848-1903), No jardim do hospital de Arles.