Advertisements

TrumpAmérica e as Três bandeiras americanas de Jasper Johns

Etiquetas

jasper-johns-three-flags-1958-500pxSão confusos estes dias à volta da nova(?) América do Presidente Trump.
Promessas de regresso ao passado num mundo habituado a aplaudir e venerar o novo, vindas exactamente do lugar onde o Novo parece ser um valor absoluto, é no mínimo desconcertante.

Os media, por incapacidade ou propósito, falam de uma catástrofe por vir, e convencem-nos que assim será. Tudo estava bem antes e este homem vem trazer um apocalipse sem mais? Não sei. Apenas uma certeza: a América que ele traz consigo sempre lá esteve.

Nas três bandeiras americanas sobrepostas pintadas por Jasper Johns (1930) em 1958, ainda que pareçam todas iguais, é a mais pequenina que está por cima, exactamente a que simbolicamente agora é vencedora. Pobre, desprotegida, egoísta, e nostálgica de uma riqueza que muito poucos conseguiram. A América são muitas Américas e esta por agora ganhou. É retrógrada, auto-centrada, vazia da generosidade que outras Américas nos fizeram acreditar ser a sua marca de água. Não é.

O mosaico americano surge aos nossos olhos diferente do que nos últimos anos conhecemos. Quebrado, se libertar a sua arrogância sobre o mundo, será uma preocupação de todos nós.

Se aos americanos cabe fazer com que a grande bandeira preocupada com o mundo, a paz, bem-estar, progresso de todos, e respeito mundial, venha ao de cima e volte a vencer, a nós, resto do mundo, cabe-nos não deixar que a embriaguês do poder torne este mundo irrespirável. Se muros, proteccionismo, e outras novidades ainda não reveladas, podem ser matéria de divergência política, respeitando em primeiro lugar a americanos, a que o mundo deve reagir em conformidade, a estabilidade do clima na terra, a sua preservação e cuidado é empenho de todos nós. Os primeiros sinais fazem o ar que respiramos ficar mais pesado. Imperioso alerta que se sobrepõe hoje à poesia.

Advertisements

Futebol e poesia em João Cabral de Melo Neto

Etiquetas

futebol-serigrafia-500pxO fatigante gesticular em “futebolez” que enche as televisões encobre e às vezes faz esquecer a lúdica beleza que a bola consigo traz. Não sendo atacado de clubite vejo com prazer um bem disputado jogo de futebol. Em outros jogos de bola perde-se a surpreendente magia que de súbito a criatividade de um jogador de génio pode fazer surgir do movimento de ponta do pé e bola.

 

O negócio financeiro à volta do futebol, com o seu calculismo, faz com que esses momentos sejam mais e mais raros. Resta, para quem a tem, a memória de tempo diferente recheado dessa magia, e que fez lendário o futebol brasileiro, como recorda o poema de João Cabral de Melo Neto (1920-1999) que à frente transcrevo.

 

Mas o poema vai muito para além da evocação de memória do título, revela o segredo por detrás da magia da bola no pé que se faz Futebol: dá conta da volúpia do jogo e das qualificações necessárias para a fazer desabrochar:

 

 

[a bola]

é um utensílio semivivo,
de reacções próprias como bicho,
e quer, como bicho é mister
(mais que bicho, como mulher)
usar com malícia e atenção
dando aos pés astúcias de mão.

 

 

As astúcias de mão que um pé genial consegue, são, afinal, a revelação que acima referi.

 

 

 

Segue-se a totalidade do poema.

 

 

 

O Futebol Brasileiro Evocado da Europa

 

A bola não é a inimiga
como o touro numa corrida;
e embora seja um utensílio
caseiro e que se usa se risco,
não é o utensílio impessoal,
sempre manso, de gesto usual:
é um utensílio semivivo,
de reacções próprias como bicho,
e quer, como bicho é mister
(mais que bicho, como mulher)
usar com malícia e atenção
dando aos pés astúcias de mão.

 

 

Transcrito de A educação pela pedra e depois, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1997.

Carta de Heloísa a Abailard segundo Pope

Etiquetas

,

danae-museu-capodimonte-de-napoles-detalhe-550pxO amor enquanto paixão avassaladora, sobrepondo-se a quaisquer considerações sociais, religiosas, ou outras, encontra na recriação da paixão de Heloísa por Abailard imaginada por Alexander Pope (1688-1744) no século XVIII, a desmesura adequada, e é ainda hoje de empolgante leitura:

 


Eu te amei, e o prazer fiel seguindo
Fracas lembranças do meu Deus só tive.
Estimação, dever, honra, e prudência
Hei tudo por te amar sacrificado!
Eu te adorava, e em tão suave engano
Da terra o resto para mim perdido,
Meu Deus, meu universo em ti só via.

 

 

A extensão do poema inviabiliza a sua transcrição na totalidade, pelo que escolho alguns fragmentos onde Heloísa dá conta da natureza e dimensão do seu amor por Abailard.

 

O poema, assumindo-se como carta, é escrito a partir do convento onde Heloísa foi obrigada a recolher depois da descoberta pelos seus familiares, dos amores clandestinos que mantinha, ainda adolescente, com o seu professor, e também clérigo, Abailard.

 

A tradução, em verso branco, é de José Anastácio da Cunha (1744-1787), feita no final do século XVIII.

 

 

 


És tu, insano amor, que vens de novo
De um coração sensível tomar posse?
Ah! quanto me enganava!… Eu amo, eu ardo,
Eu ainda adoro… — Oh nome sempre caro!…
Abailard!… Oh querido!… quanto te amo!
Uma, e mil vezes leio a tua carta
Mil vezes minha boca amante beija
Da tua mão as conhecidas letras.
Caro Abailard, que horror!… Neste retiro
Como o teu nome articular me atrevo!…

 


Ah! que amor em teus braços me encantava
E amor longe de ti meu pranto excita!…

 


Ah! da nossa união, tão livre e pura,
A terra, e o mesmo céu têm feito um crime!
Quando o meu coração, e o teu ligados,
De amor e de amizade tu me davas
Em nome da virtude lições meigas;
Teus olhos sobre os meus nadando em gosto,
Com o fogo das paixões então brilhavam;
Minha alma foi com a tua confundida;
Um Deus em ti sem susto contemplava;
Um erro assim busquei, que me iludia.
Ah! e quão fácil te era o alucinar-me!
Tu falavas — minha alma obedecia;
Tu me pintaste amor, de encantos cheio,
E a doce persuasão de teus discursos
No já vencido peito insinuaste:
Ah! que da tua boca para a minha
Ela pelos teus lábios se passava!…
Eu te amei, e o prazer fiel seguindo
Fracas lembranças do meu Deus só tive,
Estimação, dever, honra, e prudência
Hei tudo por te amar sacrificado!
Eu te adorava, e em tão suave engano
Da terra o resto para mim perdido,
Meu Deus, meu universo em ti só via.

 

Quando a tua alma, enfim, à minha presa,
Cerrar me instava de himeneu os laços,
Eu te disse: — Querido, que pretendes?
Amor crime não é, mas sim virtude:
Para que é pois tiranas leis impôr-lhe
E de prisões políticas cingi-lo?
Amor não é escravo; — independente
No coração dos homens ele nasce,
Qual puro sentimento de alma pura:
Nosso prazer liguemos, sem que seja
Necessário também ligar as sortes.
Ah! — Pensa que himeneu prender só deve
Dos amantes sem fé vulgares almas.
Meus prazeres, meus bens no amor encontro.
O firme amor insídias não receia,
Basta amar, e seguir a natureza.
Aprendamos a amar-nos mutuamente,
E só no puro amor amor busquemos,

 


Os títulos, a gloria, a honra, a fama:
Todos os nomes que a fortuna inventa,
Rejeito altiva, e só me lisonjeia
De tua amante o nome: — e se ainda há outro
De mim mais digno, e que melhor explique
Meu terno amor, por ti vaidosa o tomo.
Oh! quanto é doce amar, e ser amado!…
Esta a primeira lei, o resto é nada.
Quem mais ditoso do que dois amantes,
Pela afeição, e pelo gosto unidos!
Eles pensam, e falam livremente;
A alegria confundem com seus gestos;
Gozando sempre, e sempre desejando,
Seus corações contentes não conhecem
Nojosos dias, e preside sempre
Uma doce ilusão à sua dita:
Por áureo copo a longos tragos bebem
Dos males, e dos não logrados gostos
Eterno esquecimento: — se há ditosos,
Seus corações decerto a dita gozam!
A bem aventurança, que buscamos,
Amor a dá, amor ao prazer guia,
E os mais perfeitos bens no amor existem:
Tal, querido Abailard, foi nossa sorte.

“O Sentimento Europeu” e Agustina – o prazer da prosa

Etiquetas

comic-map-of-europe-500px— e é mais fácil discutir, alimentar, estimular uma ideia comum, do que pensar—,  o “sentimento europeu” não existe; assim como a humanidade não é exactamente nenhuma cousa, …

 

 

É do lado das mulheres que muito do melhor de Portugal surge. Hoje vou a uma dessas guardiãs do país na língua que aqui se fala: Agustina Bessa-Luís (1922). Não escreveu poesia stritu senso, mas quase toda a sua prosa é um admirável poema onde na curva de cada frase paramos embevecidos e meditativos sobre a beleza que a escrita em português pode ter. E em simultâneo lemos a prosa reflexiva de alguém que pensa a grandeza do comezinho de todos os dias e o revela nos gestos da sua banalidade.

 

Deixo-lhe, leitor, um mínimo cheiro em meia dúzia de frases entre os milhares que escreveu, e temos, vívidas, gentes e paisagens, e a reflexão densa onde uma ancestral sabedoria se revela.

 

 

 

De um relato de viagem nos anos 50, o livro  Embaixada a Calígula, transcrevo um curto fragmento do percurso  entre o Escorial e Madrid:

 

 

Até Madrid, a planície é pobre, mascarada por construções e pomares que não chegam a fazê-la pitoresca. Os ciganos acampam sob as árvores, passam carros de turismo e excursões de escolas com um padre zelador e algumas jovens mestras vestidas alegremente de Verão. As crianças usam vestidos curtos e gritam, desembrulhando as suas tortilhas e pão com chouriço picante. São vivas e tímidas, com um sorriso grave e independente, essas crianças que continuam uma raça que, com alguns povos euro-orientais, mantêm em belo conflito o sentimento da vida e da morte. Até chegar a Madrid pensamos naquilo que nos leva nesta viagem, isso a que de modo gesticulante e plástico chamam “o sentimento europeu”
Como acontece com os pensamentos que não são de ninguém, que se desenvolvem numa época simplesmente porque se fazem propriedade comum — e é mais fácil discutir, alimentar, estimular uma ideia comum, do que pensar —, o “sentimento europeu” não existe; assim como a humanidade não é exactamente nenhuma cousa, …

 

 

 

Outra prosa há: efabulação sobre o país e a gente que somos, nas raízes que uma modernidade emprestada raramente consegue esconder.

Pensar, como Agustina fez, fora das ideias comuns, faz-nos falta, tanto mais falta quanto pressentimos a vertiginosa mudança deste mundo onde ainda vivemos, e escolher por onde ir está a tornar-se vital.

O mundo inteiro depende dos teus olhos… com Paul Éluard

Etiquetas

picasso-desenho-500px
Como o dia depende da inocência
O mundo inteiro depende dos teus olhos
E todo o meu sangue corre no teu olhar.

 

O encantamento do amor corre nas palavras do poema de Paul Éluard (1895-1952) que hoje transcrevo; e a vida só existe no olhar da amada:

 


Se já não sei tudo o que vivi
É que os teus olhos não me viram sempre.

 

 

É bom quando este encantamento se instala em nós: o mundo é mais belo e o lugar dos sonhos é à nossa volta:

 


Hastes de brisas, sorrisos de perfume,
Asas de luz cobrindo o mundo inteiro,

 

 

Tudo e mais isto dito na belíssima tradução de Luiza Neto Jorge que a seguir transcrevo.

 

 

 

 

 

 

A curva dos teus olhos dá a volta ao meu peito
É uma dança de roda e de doçura.
Berço nocturno e aureola do tempo,
Se já não sei tudo o que vivi
É que os teus olhos não me viram sempre.

 

Folhas do dia e musgos do orvalho,
Hastes de brisas, sorrisos de perfume,
Asas de luz cobrindo o mundo inteiro,
Barcos de céu e barcos do mar,
Caçadores dos sons e nascentes das cores.

 

Perfume esparso de um manancial de auroras
Abandonado sobre a palha dos astros,
Como o dia depende da inocência
O mundo inteiro depende dos teus olhos
E todo o meu sangue corre no teu olhar.

 

 

 

 

 

in Luiza Neto Jorge, Poesia Traduzida, edição Mododeler / Edições Afrontamento, Junho 2011.

Vozes, incêndios de imaginação – Marlene Dietrich

Etiquetas

, ,

dietrich1939-500pxNuma das canções de adolescência que ainda ouço com emoção, Where Do You Go To (My Lovely), Peter Sarstedt fala-nos de uma paixão que acabou, e descreve-nos a mulher, de alguma forma ideal, onde sobressaem as qualidades: falar como Marlene Dietrich e dançar como Zizi Jeanmaire.
Talvez haja leitores do blog que tenham visto dançar Zizi Jeanmaire e possuam a memória de  como as suas pernas falavam, dizendo-nos da graça, da beleza e do erotismo de um corpo de mulher. Também assim com a Dietrich. Continua a correr mundo a famosa fotografia de promoção de Der Blaue Engel (O Anjo Azul)

onde um grande plano da bela, sentada, nos mostra em perfil a perna dobrada, encaminhando o olhar espectador para onde a promessa de paraíso se esconde.

Não é das pernas de Marlene Dietrich que a canção nos fala, do que também valeria a pena,  mas da sua voz, afinal o pretexto para esta divagação.

Pouco mais haverá a dizer sobre as contraditórias emoções que ouvi-la provoca. Em dia de maior disponibilidade, deu-me para registar a emoção provocada por uma sua interpretação de Johnny, wenn du Geburtstag hast, que hoje aqui revelo.

ouvi-la cantar

“Johnny wenn du geburtstag hast”

acariciar o microfone

a voz rouca

de um desejo guardado

a ponta do dedo que aflora, pressiona

e o volume cresce

c r e s c e

c  r  e  s  c  e

ah!

acabou

 

vi, ouvi, senti

senti a mão acariciar-me a alma

suave e intensamente

fazendo crescer um desejo que a ausência acumulou

 

lembro-a, o braço estendido

vestido branco

o carro que se afasta

e a felicidade que fugiu

 

talvez para sempre

A canção Johnny, wenn du Geburtstag hast foi escrita por Frederick Hollander, famoso compositor berlinense de canções de cabaret.

O texto reporta-se a uma interpretação de Johnny, wenn du Geburtstag hast no New London Theatre de Londres em 1972, quando a Dietrich tinha a voz da experiência de uma vida de sedução. Embora abundem no youtube excertos deste concerto, a todos falta a interpretação /pretexto desta divagação emocionada.

Termino com a canção de abertura: Where Do You Go To (My Lovely) e a respectiva letra que, julgo, dispensa tradução, ou mesmo elucidação dos personagens e lugares nela referidos.

You talk like Marlene Dietrich
And you dance like Zizi Jeanmaire
Your clothes are all made by Balmain
And there’s diamonds and pearls in your hair, yes there are
You live in a fancy apartment
Of the Boulevard Saint-Michel
Where you keep your Rolling Stones records
And a friend of Sacha Distel, yes you do
But where do you go to my lovely
When you’re alone in your bed
Tell me the thoughts that surround you
I want to look inside your head, yes I do
I’ve seen all your qualifications
You got from the Sorbonne
And the painting you stole from Picasso
Your loveliness goes on and on, yes it does
When you go on your summer vacation
You go to Juan-les-Pins
With your carefully designed topless swimsuit
You get an even suntan on your back and on your legs
And when the snow falls you’re found in Saint Moritz
With the others of the jet-set
And you sip your Napoleon brandy
But you never get your lips wet, no you don’t
But where do you go to my lovely
When you’re alone in your bed
Won’t you tell me the thoughts that surround you
I want to look inside your head, yes I do
Your name, it is heard in high places
You know the Aga Khan
He sent you a racehorse for Christmas
And you keep it just for fun, for a laugh a-ha-ha-ha
They say that when you get married
It’ll be to a millionaire
But they don’t realize where you came from
And I wonder if they really care, or give a damn
Where do you go to my lovely
When you’re alone in your bed
Tell me the thoughts that surround you
I want to look inside your head, yes I do
I remember the back streets of Naples
Two children begging in rags
Both touched with a burning ambition
To shake off their lowly-born tags, so they try
So look into my face Marie-Claire
And remember just who you are
Then go and forget me forever
But I know you still bear the scar, deep inside, yes you do
I know where you go to my lovely
When you’re alone in your bed
I know the thoughts that surround you
‘Cause I can look inside your head
(na na-na-na na na-na-na na-na na na na na)
(na na-na-na na na-na-na na-na na na na na)

 O artigo foi antes piblicado no blog em Abril de 2012.

Imóvel, desperto com A Partida

Etiquetas

a-partida-500px

A partida

 

Com açúcar, com afecto,
O meu doce predilecto
Pra dizer na estação,
— Pela voz do coração:
Como eu amo você.

 

Vejam só o que me cantou na cabeça ao acordar hoje. Que surpresa!
Parcialmente imobilizado por um aleijão no tornozelo, nem música nem poesia me chamam. Com este despertar devo estar a melhorar.

Talvez a poesia em breve aqui regresse. Até lá há no blog bem mais de oitocentos artigos com poesia para saciar os mais sedentos. É só circular ao acaso por aqui.
Abro o apetite aos menos afoitos com um amuse-bouche pessoano, escrito por um jovem Fernando quando o mundo ainda girava ao som de valsas, as que agora são apenas de Ano Novo.

O artigo foi aqui publicado ainda na era pré-Trump que agora parte. Deixará o mundo antigo saudades?

 

Na minha ontologia pessoal surge por vezes a ideia de que Deus será uma entidade bem disposta apesar da perplexidade que nos assalta tantas das vezes que olhamos em redor. Penso até que uma vez por outra talvez se ria com algumas das criações das suas criaturas. Vem isto à conversa porque certo dia de angustiosas dúvidas fui levado a ler entre outros os textos de Fernando Pessoa que a seguir refiro. Fosse para me fazer rir, fosse para dar a ver que sob o mais circunspecto de cada personalidade pode sempre encontrar-se o inesperado, o que segue é que as gargalhadas afastaram as angustias da minha meditação.

Longe de assumpções metafísicas a que muitas vezes a poesia de Fernando Pessoa conduz, eis algumas brejeirices do poeta, tanto juvenis como da idade madura.

Entre os “Primeiros Outros” personagem imaginados por Pessoa, como lhes chamou Teresa Rita Lopes, surge-nos a abrir o Dr. Pancrácio de quem nos chegaram poesias do lado serio e algumas jocosas, qual este epigrama de 1905, tinha o poeta 17 anos:

Epigrama do Dr.Pancrácio

O poeta Brás Ferreira
Discute co’o primo Bento
Se kágado tem o acento
Na segunda ou na primeira.

Grita-lhe a mulher, “Ó Brás,
Acaba co’a discussão;
É bem facil a questão:
O assento está sempre atráz.”

[c. 17-09-1905]

Dando conta de uma profundidade diferente, aparece-nos, sem data, o Dr. Nabos, produtor de ditos de espírito merecedores de atenção, e de quem retenho este pensamento capaz de revolucionar geometrias:

Metaphysica do Dr. Nabos:

Quem sabe se duas paralelas se não encontram quando a gente as perde de vista? s/d

Passemos com a dúvida sobre o encontro das paralelas à certeza de que corpo sobre brasa queima. Como nesta história acontecida ao Soba de Biká:

O SOBA DE BIKÁ

Tra j édia

O soba de Biká, maravilhoso gajo,
Constantemente usava um admirável trajo
Que era feito de pele e de coisa nenhuma.
Havia uma harmonia entre ele e o trajo; em suma,
O soba de Biká, ou de noite ou de dia,
Era sempre da cor do trajo que vestia.
Mas o soba, coitado!, um dia em sua casa,
Sentou-se por descuido em cima de uma brasa,
E, em vez de gritar “Ai, minhas calças!”, “Uh!”,
Gritou ele, esquecendo o trajo, “ai o meu cu!”

Outro dos aspectos menos frequentes na obra do poeta é o amor e o sexo, mas para ele também lá temos qualquer coisa:

O amor é que é essencial.
O sexo é só um acidente.
Pode ser igual
Ou diferente.
O homem não é um animal:
É uma carne inteligente,
Embora às vezes doente.

Acrescento esta enigmática evocação dos mistérios do sexo:

Um par de montes iguais
Abre a estrada do prazer.
Quem chega lá quer ver mais,
Quem vê mais nada mais quer.

Termino com uma prodigiosa definição aplicável ao incerto verão que temos tido.

DIFERENÇA DE PESSOA

Que lindo dia o que vemos!
Mas, como estes tempos vão,
É bom que não confiemos…
É melhor dizer que temos,
Não um dia de verão,
Mas um dia de veremos.

Os poemas foram transcritos de Poesia 1931-1935 e não datada, ed. Manuela Parreira da Silva al., Assírio & Alvim, Lisboa, 2006; Pessoa por conhecer II, Textos para um novo mapa, edição de Teresa Rita Lopes, Editorial Estampa, Lisboa, 1990; Poesia do Eu, antologia organizada por Richard Zenith, edição Assírio & Alvim, Lisboa, 2006.

Madrigal da terceira idade para afastar a solidão

Etiquetas

edouard-manet-le-bon-bock-portrait-of-emile-bellot-500pxExiste cada vez mais a consciência de que a vida afectiva não se extingue progressivamente à medida que a idade avança. Pelo contrário, mesmo entre quem envelhece, o reconhecimento da satisfação afectiva para o conjunto do equilíbrio funcional ganha terreno, tal como junto da família que vê os seus maiores envelhecer. Apenas o envelhecimento do corpo dita as adaptações ao exercício dessa afectividade.

 

De uma forma suave e tocante, António Manuel Couto Viana (1923-2010) no poema que a seguir transcrevo — Madrigal da terceira idade para afastar a solidão — dá conta dessa manifestação da necessidade afectiva numa vida em idade avançada: o poeta tinha 82 anos quando o escreveu.

 

 

 

Madrigal da terceira idade para afastar a solidão

 

É um amor discreto,
Ignorado, até.
Só um gesto de afecto,
Um sorriso secreto,
Desfeito, se alguém vê.

 

É um amor tranquilo,
De alguém que quer alguém
Prá solidão do asilo.
— Coração, ao senti-lo,
Nem aceleras, nem…

 

É um amor-amizade.
Um amor-simpatia.
Mas, mesmo assim, ele há-de
Deixar dor e saudade
E gerar poesia.

 

24-11-2005

 

in Disse e Repito, Averno, Lisboa, 2008.

Teixeira de Pascoaes — Elegia de Amor

Etiquetas

chagall-o-sonho-1968-500pxMuita da poesia de amor que a humanidade conhece surgiu como forma de gerir a perda, umas vezes brusca e inesperada, outras induzida por adversidades diversas. Para este vazio que a perda do amor criou, a poesia foi o consolo.

 

Na poesia portuguesa ao longo dos séculos, ainda que as imagens para dar conta de todo este desgosto se repitam, a forma de as colocar poeticamente tem variações quase infinitas atingindo por vezes alturas de espanto, e o tantas vezes lido toca-nos a corda da emoção, qual seja, por exemplo, a leitura destes versos de um soneto de António Ferreira (1528-1569):

 


Assim com o espírito triste, o juízo escuro,
Suas santas pisadas vou buscando
Por vales, e por campos, e por montes.
Em toda a parte a vejo e a figuro.
Ela me toma a mão e vai guiando,
E meus olhos a seguem feitos fontes.

 

 

Nestes seis versos condensa António Ferreira os sentimentos que séculos mais tarde Teixeira de Pascoaes  (1877-1952) desenvolveu em parte do longo poema Elegia de Amor a que hoje convido os leitores.

 

O poema, imenso, desenvolve-se como memória numa primeira parte:

 


Olhavas para mim… / Meu corpo rude e bruto / Vibrava, como a onda / A erguer-se em nevoeiro! Olhavas descuidada… / Oh dor, ainda hoje escuto / A música ideal / Do teu olhar primeiro!
Ouço bem tua voz, / E vejo bem teu rosto, / No silêncio sem fim, / Na escuridão completa!
Ouço-te em minha dor, / Ouço-te em meu desgosto; / Vejo-te em meu sonho / Eterno de poeta!

 

Na segunda parte o poeta desenvolves a evocação fantasmal da amada:

 


Descubro-te, mulher, / Na Natureza inteira,

Se passo por um lírio, / Às vezes, distraído, / Chama por mim, dizendo: / “Oh, não te esqueças dela!”

Não encontro uma flor, / Sem o teu nome ouvir… / Não posso olhar o céu, / Sem me lembrar de ti!…

 

 

O conjunto dos sentimentos que percorrem poema surge ao leitor de hoje um pouco estranho, ainda que esta osmose entre o físico do desejo humano e a emoção da natureza soe sincera:

 


Acordo, de repente, / E vejo, no meu quarto / O sol entrar, sorrindo, / Julgo ver, ante mim, / Teu corpo resplendente, / Tua trança de luz, / Teu gesto suave e lindo…

 

Depois do aperitivo, entrego-o, leitor, ao poema:

 

 

 

Elegia de Amor

I

Lembras-te, meu amor,
Das tardes outonais,
Em que íamos os dois,
Sozinhos, passear,
Para fora do povo
Alegre e dos casais,
Onde só Deus pudesse
Ouvir-nos conversar?…
Tu levavas na mão
Um lírio enamorado;
E davas-me o teu braço
E eu, pálido, sonhava
Na vida, em Deus, em ti…
E ao longe, o sol doirado
Morria, conhecendo
A noite que deixava…
Harmonias astrais
Beijavam teus ouvidos,
Um crepúsculo terno
E doce diluía
Na sombra, o teu perfil
E os montes doloridos…
Erravam, pelo azul,
Canções do fim do dia…
Canções que, de bem longe,
O vento vagabundo
Trazia, na memória…
Assim o que partiu
Sobre as águas do mar
E vem de ver o mundo,
Traz, no seu coração,
A imagem do que viu…
Olhavas para mim,
Às vezes, distraída,
Como quem olha o mar,
À tarde, dos rochedos…
E eu ficava a sonhar,
Qual onda adormecida,
Quando o vento também
Dorme nos arvoredos…
Olhavas para mim…
Meu corpo rude e bruto
Vibrava, como a onda
A erguer-se em nevoeiro!
Olhavas descuidada…
Oh dor, ainda hoje escuto
A música ideal
Do teu olhar primeiro!
Ouço bem tua voz,
E vejo bem teu rosto,
No silêncio sem fim,
Na escuridão completa!
Ouço-te em minha dor,
Ouço-te em meu desgosto;
Vejo-te em meu sonho
Eterno de poeta!
O sol morria ao longe…
E a sombra da tristeza
Velava com amor
Nossas doridas frontes…
Hora em que a flor medita
E a pedra chora e reza
E erguem as mãos de bruma
Ao céu, as tristes fontes…
Hora santa em que nós,
Felizes e sozinhos,
Íamos através
Da aldeia muda e calma,
Mãos dadas, a sonhar,
Ao longo dos caminhos…
Tudo em volta de nós
Tinha um aspecto de alma!
Tudo era sentimento,
Amor e piedade…
A folha que tombava
Era alma que subia…
E, sob os nossos pés,
A terra era saüdade,
A Pedra comoção
E o pó melancolia…
Falavas do luar,
Dos bosque, mais do amor;
Dos ceguinhos sem pão,
Dos pobres sem um manto…
Em cada tua palavra
Havia etérea dor;
Por isso a tua voz
Me impressionava tanto!
E ficava a cismar
Que eras tão boa e pura,
Que, em breve, oh dor fatal,
Te chamaria o céu!
E soluçava ao ver
Alguma sombra escura,
No teu rosto que o luar
Cobria, como um véu…
A tua palidez
Que medo me causava!
Teu corpo era tão fino e leve,
(Oh meu desgosto!)
Que eu tremia, ao sentir
O vento que passava!
Caía-me na alma
A neve do teu rosto!…
Como eu ficava mudo
E triste sobre a terra!
E, uma vez, quando a noite
Amortalhava a aldeia,
Tu gritaste de susto,
Olhando para a serra:
— “Que incêndio!” — E eu, a rir,
Disse-te: — “É a lua cheia!”
E sorriste também
Do teu engano… E a lua
Ergueu a branca fronte
Acima dos pinhais,
Tão ébria de esplendor,
Tão casta e irmã da tua,
Que eu beijei, sem querer,
Seus raios virginais!…
E a lua para nós
Os braços estendeu…
Uniu-nos num abraço,
Esplêndido e profundo;
E levou-nos aos dois,
Com ela, até ao céu…
Somente, tu ficaste
E eu regressei ao mundo!…

 

II

Um raio de luar,
Entrando, de improviso,
No meu quarto sombrio,
Onde medito, a sós,
Deixa a tremer, no ar,
Um pálido sorriso,
Um murmúrio de luz
Que lembra a tua voz…
O Outono, que derrama
Ideal melancolia
Nas almas sem amor,
Nos troncos sem folhagem,
Deixa a vibrar, em mim,
Saudosa melodia,
Dolorida canção,
Que lembra a tua imagem…
A noite que escurece
As almas e ou outeiros,
Mas que acende, num bosque,
A voz do rouxinol
E a estrela que protege
E guia os pegureiros,
A lágrima do céu
Ao ver morrer o sol,
Acorda, no meu peito,
Etérea e infinda dor,
Que à memória me traz
A luz do teu olhar…
Tudo de ti me fala,
Ó meu longínquo amor!
As árvores, a terra,
Os rouxinóis e o mar!
Se passo por um lírio,
Às vezes, distraído,
Chama por mim, dizendo:
“Oh, não te esqueças dela!”
Diz-mo o mesmo, chorando,
O vento dolorido;
Diz-mo a fonte, a cantar,
Diz-mo, a brilhar, e estrela!
E vejo em toda a luz
Teus olhos a fulgir.
Como descubro em tudo,
A alma que perdi!
Não encontro uma flor,
Sem o teu nome ouvir…
Não posso olhar o céu,
Sem me lembrar de ti!…
Por isso, eu amo o pobre,
O triste e a Natureza,
A mãe da humana dor,
Da dor de Deus a filha!
Meu coração ao pé
Dum pobrezinho, reza;
Canta ao lado dum ninho,
Ao pé da estrela, brilha!…
O meu amor por ti,
Meu bem, minha saüdade,
Ampliou-se até Deus;
Os astros abraçou…
Beijo o rochedo e a flor,
A noite e a claridade…
São estes, meu amor,
Os beijos que te dou!
Hás-de senti-los, sim.
Doce mulher de outrora,
Ó roxo lírio de hoje,
Ó nuvem actual!
Como, dantes, teu rosto,
A rosa ainda hoje cora…
Beijo-te sim, beijando
A rosa virginal…
Vêm doirar o teu perfil
Teus olhos, dos espaços,
Teu amor, feito luz,
Desce do Firmamento.
Se abraço um verde tronco,
Eu sinto entre os meus braços,
Teu corpo estremecer,
Como uma flor, ao vento!
Soluça a tua dor
Nas infinitas mágoas
Que no fundo da tarde,
Ao céu, vejo subir…
Ouço bem tua voz
No marulhar das águas,
No murmúrio que sai
Das pétalas a abrir…
Se os lábios vou molhar
Nas águas duma fonte,
Queimam meu coração
Tuas lágrimas salgadas…
E, quando acaricia
O vento a minha fronte,
Eu bem sinto sobre ela,
As tuas mãos sagradas!…
Quando, à noite, no Outono,
A lua, a branca Ofélia,
Morta, vai a boiar
Nas águas do Infinito,
Sinto doirar meu rosto
A palidez etérea,
Que, dantes, emanava
O teu perfil bendito…
Quando, em manhãs de Abril,
Acordo, de repente,
E vejo, no meu quarto
O sol entrar, sorrindo,
Julgo ver, ante mim,
Teu corpo resplendente,
Tua trança de luz,
Teu gesto suave e lindo…
Descubro-te, mulher,
Na Natureza inteira,
Porque entendo a floresta,
A névoa, o céu doirado,
A estrela a arder no Azul,
A lenha na lareira
E o lírio que na cruz
Do Outono, está pregado!
Falas comigo, sim,
Da dor, do bem, de Deus…
Repartes o meu pão,
Amor, pelos ceguinhos…
E pelas solidões,
Os pobres versos meus,
Como os pobres que vão,
A orar, pelos caminhos…
És a minha ternura,
A minha piedade,
Pois tudo me comove!
O zéfiro mais leve
Acende, no meu peito,
Infinda claridade;
E a brancura do lírio
Enche meu ser de neve…
Todo eu fico a cismar
Na triste voz do vento,
Na atitude serena
E estranha duma serra;
No delírio do mar,
Na paz do Firmamento
E na nuvem, que estende
As asas, sobre a Terra!
Todo eu fico a cismar,
Assim como esquecido,
Ante a flor virginal
E o sol enamorado…
Ante o luar que nasce,
Ao longe, dolorido,
Dando às cousas um ar
Tão triste e macerado…
Todo eu fico a cismar…
Um vago e etéreo laço
Prende-me ao teu imenso
E livre coração,
Que abrange toda a Terra
E ocupa todo o espaço,
E que vai povoar
A minha solidão!
Por isso, eu vivo sempre,
Em doce companhia,
Com o pobre que pede
E a estrela que fulgura…
E assim meu coração,
Igual à luz do dia
Derrama-se no céu,
Em ondas de ternura…
Sou como a chuva e o vento
E como a bruma e a luz…
Lira que a mais suave
Aragem faz vibrar…
Água que, ao luar brando,
Em nuvens se traduz…
Fruto que amadurece
À luz dum só olhar!
Pedra que um beijo funde
E místico vapor,
Que um hálito condensa
Em cada gota de água…
Aroma que um só ai
Encarna em triste flor,
Riso que muda em choro
A mais pequena mágoa…
Vivo a vida infinita,
Eterna, esplendorosa;
Sou neblina, sou ave,
Estrela e céu sem fim,
Só porque, um dia, tu,
Mulher misteriosa,
Por acaso, talvez,
Olhaste para mim…

 

 

Versão transcrita de Poesia de Amor, Antologia Portuguesa, selecção e prefácio de José Régio e Alberto de Serpa, Livraria Tavares Martins, Porto, 1945.