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Eugénio de Andrade — Green god

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Ocupados com as preocupações de todos os dias, nem sempre temos o olhar disponível para o fulgor do instante, um flash de beleza que nos passa diante dos olhos e perdura longo tempo na memória, por tal forma que, ao recordá-lo, sentimos invadir-nos uma espécie de felicidade inexplicável.

 

É de um momento assim que Eugénio de Andrade (1923-2005) fala no poema Green god.

O poema tem, na concisão da forma, a elegância que caracteriza toda a poesia de Eugénio de Andrade, e interpela-nos sobre a beleza que reside no mundo: na natureza, nos corpos, no movimento, na luz, na música; em tudo o que à nossa volta pode fazer pressentir o paraíso, e com isso sermos felizes; o que talvez o ensimesmamento em que tantas vezes mergulhamos, deixe escapar.

Mais que a letra do poema importa a emoção que a sua leitura desencadeia e a multiplicidade de pistas e caminhos que abre na fruição do sentimento do belo.

Green god

Trazia consigo a graça
das fontes, quando anoitece.
Era o corpo como um rio
em sereno desafio
com as margens, quando desce.

Andava como quem passa,
sem ter tempo de parar.
Ervas nasciam dos passos,
cresciam troncos dos braços
quando os erguia do ar.

Sorria como quem dança.
E desfolhava ao dançar
o corpo, que lhe tremia
num ritmo que ele sabia
que os deuses devem usar.

E seguia o seu caminho,
porque era um deus que passava.
Alheio a tudo o que via,
enleado na melodia
de uma flauta que tocava.

 

O poema foi inicialmente publicado em As mãos e os frutos (1948), o primeiro livro de poemas publicado pelo poeta.
Transcrito de Eugénio de Andrade, Poesia, Rosto editora lda, V. N. Gaia, 2011.

 

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Emily Dickinson — a verdade a beleza e a morte

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Numa reflexão poética sobre a morte fala Emily Dickinson (1830-1886) das razões por que morrer: pela beleza e pela verdade.

 

Enquanto absolutos, tanto beleza como verdade são ambos conceitos de objectivação duvidosa e, como tal, de vasta latitude de entendimento, a que apenas o íntimo de cada um responde. Servirão, como quaisquer outros, para morrer por. Escolha-os quem quiser. Não servirão em nenhuma circunstância de pretexto para matar. E se matar em nome da beleza não há notícia, em nome da verdade quantos assassinos se têm sentido legitimados!… Cabe a cada um dizer, sempre, e todos os dias, Não!

 

Talvez tenha havido um tempo em que beleza e verdade Ambas O Mesmo são como o poema refere, e é seu pretexto. Hoje são entidades que correm caminhos paralelos, e, tal como linhas paralelas em geometria, nunca se encontram.
Se cada um de nós se interrogar sobre o que para si beleza e verdade significam, e como na sua vida se cruzam, verá a surpresa nas respostas que encontra. E, no entanto, beleza e verdade identificadas entre si nas nossas vidas, seriam uma ajuda preciosa para ganhar a tranquilidade dos dias, e não o sossego da morte que o poema refere.

 

O poema, na sua concisa expressão e conteúdo reflexivo, remete irresistivelmente para os epigramas funerários da Antologia Grega.

 

 

Poema

 

Morri pela Beleza — mas mal estava
Ajustada no Túmulo
Um Outro que morreu pela verdade,
E jazia no Quarto adjacente —

 

Me disse docemente “Porque morrera eu”?
“Pela Beleza”, respondi —
“Pela Verdade — eu — que Ambas O Mesmo são —”,
Disse Ele “Então somos Irmãos” —

 

E tal como Parentes se encontram numa Noite —
Assim falámos de Quarto para Quarto —
Até que o Musgo nos chegou aos lábios —
Cobrindo os nossos nomes —

 

 

in Emily Dickinson, Duzentos Poemas, tradução, belíssima, posfácio organização e de Ana Luísa Amaral, Relógio D’Água Editores, Lisboa 2014.

Abre o artigo a imagem de um sarcófago egípcio, instrumento artístico da comunicação pós-morten entre os mais belos que a humanidade inventou.

 

 

 

Soneto de Francisco de Medrano

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O ciclópico acto (1), como uma vez lhe chamou  Luiza Neto Jorge, tem num poema de Francisco de Medrano (1570-1607) uma expressão lírica bem ao gosto da poesia do século XVI, a que a tradução de Jorge de Sena faz plena justiça: Seguiu-se um grande gozo ao pasmo louco / … / que todo o meu sensível pôs em calma.

A pressão do sexo nos humanos é uma constante, e é de sempre, pelo que em todas as épocas surge na palavra poética. Apenas variam os termos da sua formulação, adequando-os ao gosto da época que os viu surgir. Neste nosso tempo afortunado, com o acesso à criação universal ao alcance da curiosidade mais exigente, podemos permitir-nos o luxo da sua fruição independentemente de épocas e geografias. E hoje vem um exemplo feliz de um jovem poeta espanhol pouco mais novo que Camões escrevendo sobre os enigmas do êxtase da paixão.

 

 

 

Soneto

 

Não sei como, nem quando, nem que cousa
senti que me inundava de doçura:
sei que a meus braços veio a formosura,
de gozar-se comigo cobiçosa.

 

Sei que chegou, se bem, com temerosa
vista, mal pude olhar sua figura:
logo pasmei, como o que em noite escura,
perdido o tino, o pé mover não ousa.

 

Seguiu-se um grande gozo ao pasmo louco
— não sei quando, nem como, nem que há sido
que todo o meu sensível pôs em calma.

 

Ignorá-lo é saber: pois que é bem pouco
o que pode abarcar o só sentido,
enquanto isto me coube na só alma.

 

Tradução de Jorge de Sena.

Transcrito de Poesia de 26 Séculos, antologia, tradução, prefácio e notas de Jorge de Sena, edição Fora do Texto, Coimbra, 1993.

 

 

 

Nota à margem

 

(1) Não resisto a um pequeno desvio ao assunto que me traz.
Na dúvida ao escrever acto ou ato, pelo acordo ortográfico de 1990, ocorreu-me quanto o novo acordo ortográfico pode atar as possibilidades de agir. Afinal, de acto a ato, passamos da acção à prisão nas malhas da ortographia.
Feito o desvio, volto com o leitor ao relato em que acção se pede, e atado, só por pontual diversão.

 

 

 

Iconografia

 

Abre o artigo a imagem de um detalhe da pintura de Lucas Cranach o Velho (1472-1553), adequadamente chamada A Idade de Ouro, onde homens e mulheres nus fruem os prazeres da vida em mútua companhia.
A pintura feita por volta de 1530, terá talvez mais setenta anos que o poema, mas são ambos certamente água da mesma fonte de alegrias.

 

Lição sobre a água — poema de António Gedeão

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Só conseguimos gostar do que conhecemos.
À entrada da adolescência, tinha eu doze anos, um austero professor fez-me descobrir o sortilégio das experiências de química, a tal ponto que, qual pesquisador da pedra filosofal, Instalei no terraço de casa um pequeno laboratório, com o beneplácito de meu pai, que tinha uma paciência infinita para as minhas fantasias, e dei início à minha actividade experimental. Como era de esperar, fruto da ignorância, a coisa correu mal, e depois de um desastre sem consequências graves, fui levado a desmontar o laboratório e esquecer as experimentações domésticas. Mas o entusiasmo ficou cá.
De entre as variadas coisas que ensinei, o que recordo com uma ternura nostálgica são umas aulas de laboratório de química, e o prazer de fazer descobrir aquele mundo mágico a sucessivas camadas de adolescentes. Hoje é a lembrança dessas experiências que me faz trazer ao blog o poema de António Gedeão (1906-1997), Lição sobre a água.

 

O poema, no seu propósito didáctico, assume um tradição que remonta à medicina árabe medieval, na qual os tratados médicos (os únicos que o mundo medieval cristão conheceu) eram escritos em verso para facilitar a sua assimilação. O mas notável será o Poema da Medicina, de Avicena.

 

Ainda que o Químico, o Prof. Rómulo de Carvalho, que escreveu poesia sob o pseudónimo de António Gedeão, tenha esquecido a biologia e o papel da água como fonte da vida, na estrofe final do poema associa toda esta ciência à mente humana e ao que ela pode ter de mais dilacerante: a loucura e o suicídio por transtornos emocionais entre família, dever, e desejo. Evoca aí o poeta a morte de Ofélia, paixão (?) de Hamlet, na peça homóloga de Shakespeare.

 

A cena descrita na última estrofe do poema foi pretexto para uma famosa pintura de John Everett Millais (1829-1896), com cuja imagem abre o artigo. A pintura original pertence à Tate Britain.

 

 

 

Lição sobre a água

 

Este líquido é água.
Quando pura
é inodora, insípida e incolor.
Reduzida a vapor,
sob tensão e a alta temperatura,
move os êmbolos das máquinas que, por isso,
se denominam máquinas de vapor.

 

É um bom dissolvente.
Embora com excepções mas de um modo geral,
dissolve tudo bem, bases e sais.
Congela a zero graus centesimais
e ferve a 100, quando à pressão normal.

 

Foi neste líquido que numa noite cálida de Verão,
sob um luar gomoso e branco de camélia,
apareceu a boiar o cadáver de Ofélia
com um nenúfar na mão.

 

 

in Antonio Gedeão, Obra Completa, 2ªedição, Relógio d’Água, Lisboa 2007.

Como a morte se infiltra — poema de João Cabral de Melo Neto

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Cabe-nos a todos, cedo ou tarde, cuidar de familiares. Para o processo de envelhecimento que nos espera, podemos aprender nos outros comportamentos e estados de espírito, que conduzam a atitudes essenciais para a fruição da vida, o melhor possível, enquanto ela durar.

No poema de João Cabral de Melo Neto (1920-1999), Como a morte se infiltra, que à frente transcrevo, é um desencantado e pungente relato de desistência que acompanhamos. Embora seja frequente, não tem que ser assim.

Quando a lucidez permanece mas a autonomia desapareceu, o espectáculo dos lares de terceira idade, quais salas de espera de Deus, para usar uma expressão terrível que encontrei algures, mostra tudo o que não deve ser viver o tempo, já sem tempo para novos sonhos, mas mais que suficiente para fruir um quotidiano benigno.

O entusiasmo é sempre possível, e a alegria de estar vivo é algo que cuidadosamente se rega, e todos os dias se faz renascer. Sei do que falo. Tenho ao meu lado um exemplo vivo: à beira dos noventa anos estreou hoje com o maior entusiasmo, uma Scooter eléctrica que lhe permitirá reganhar uma mobilidade há muito perdida. E a sensação de que a aventura pode sempre recomeçar é um motor irresistível, tal como a experiência do novo é sempre um desafio que vale a pena.
Depois disto dito, aqui fica o exemplo a não seguir:

 

 

 

Como a morte se infiltra

 

Certo dia, não se levanta,
porque quer demorar na cama.

No outro dia ele diz porquê:
é porque lhe dói algum pé.

No outro dia o que dói é a perna,
e nem pode apoiar-se se nela.

Dia de dia lhe cresce um não,
um enrodilhar-se de cão.

Dia dia ele aprende o jeito
em que menos lhe pesa o leito.

Um dia faz fechar as janelas:
dói-lhe o dia lá fora delas.

Há um dia em que não se levanta:
deixa-o para a outra semana,

outra semana sempre adiada,
que eu não vê por que apressá-la.

Um dia passou vinte e quatro horas
incurioso do que é de fora.

Outro dia já não distinguiu
noite e dia, tudo é vazio.

Um dia, pensou: respirar,
eis um esforço que se evitar.

Quem deixou-o, a respiração?
Muda de cama. Eis seu caixão.

 

 

Poema publicado em Agrestes (1981-1985), e transcrito de A educação pela pedra e depois, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1997.

Acompanham o artigo imagens de duas pinturas: a abrir, de Arshile Gorky (1904-1948) O pintor e sua mãe; a seguir de Paul Gauguin (1848-1903), No jardim do hospital de Arles.

 

Amor é o olhar total num poema de Fiama Hasse Pais Brandão

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E de novo o amor! Aquele não-sei-quê físico que incendeia a alma e inexplicavelmente nos agarra, ou como escreve superiormente Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007) no poema de hoje:

 

Amor é o olhar total, que nunca pode
ser cantado nos poemas ou na música,

 

 

Fiama fala de amor como absoluto físico sem um entendimento de relação, e aí surge como estranho. Que amor é este tão-só próprio e bastante como a poetisa refere? Escorre … como chuva cai / na minha cara …, e depois? Há sempre um depois a que o poema foge deixando-nos apenas um …  em si mesmo absoluto táctil, … que à maior parte de nós deixa certamente insatisfeitos. Ao físico o amor exige sempre o psicológico que nesta definição está ausente. Parece antes o poema do amor-instante que se espera seja eterno. Será?

 

 

 

Amor é o olhar total, que nunca pode
ser cantado nos poemas ou na música,
porque é tão-só próprio e bastante,
e em si mesmo absoluto táctil,
que me cega, como chuva cai
na minha cara, de faces nuas,
oferecidas sempre apenas à água.

 

 

O amor escrito nos livros tem sempre pouco a ver com a complexidade da vida real, mas na sua variedade ajuda-nos a percebê-lo melhor em nós e nos outros.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Renoir (1841-1919), Mulher a ler.

 

As recordações olham para mim — poema de Tomas Tranströmer

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A paisagem na memórias ou a poesia dos lugares, são  expressões que me ocorrem à leitura de muita da poesia de Tomas Tranströmer (1931-2015).
Quase sempre, os poemas partindo do trivial levam-nos subrepticiamente para o essencial da existência, induzindo no leitor uma reflexão que permanece bem para lá de concluída a leitura. Deixo como ilustração o poema As recordações olham para mim.

 

 

As recordações olham para mim

Uma manhã de Junho quando ainda é cedo para acordar
mas demasiado tarde para voltar a pegar no sono.

Embrenho-me pelo arvoredo repleto de recordações
e elas seguem-me com os seus olhares.

Autênticos camaleões, elas não se mostram,
diluem-se literalmente no cenário.

E embora o gorjeio dos pássaros seja ensurdecedor,
estão tão perto de mim que ouço como respiram.

 

Tradução de Alexandre Pastor

Transcrito de Tomas Tranströmer, 50 Poemas, Relógio d’Água Editores, Lisboa, 2012.

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura digital a partir de uma fotografia tirada em Tavira no início dos anos 70. Foto e pintura fi-las ambas num tempo a que não volto. A cidade representada é outra e a mesma que hoje existe. E em mim junta o prazer de hoje à memória de tempos frequentemente felizes.

Carlos Mendonça Lopes

sine Baccho Venus friget — epigramas báquico-eróticos

Nestas já longas férias, acompanhado apenas de uma pequena biblioteca virtual, alguma poesia para traduzir, e pouco mais, tenho deixado os leitores amantes da transcendência na poesia à míngua de alimento espiritual adequado. E não será ainda hoje que a coisa muda, pelo contrário, em vez da densa filosofia que interroga o mundo e o seu devir, trago alguns epigramas da Antologia Grega onde o gosto por carpe diem se espelha e alguma brejeirice alegra as almas.

Começo com um epigrama de Páladas de Alexandria (n. 392 d.C.) incluído no livro XI da Antologia Grega, onde no sine Baccho Venus friget (sem Baco Vénus congela) se plasma:

 

 

 

55 Páladas

 

Dá-me de beber para que Baco dissipe minhas penas
e devolva o calor a meu gelado coração!
Liv XI

 

 

Este epigrama dá o mote para continuar, agora citando uma das Notas Simposiais de Perseu de Cítio (306-243 a.C.)(1):
De temas sexuais é apropriado entre copos de vinho fazer menção, pois também a estas coisas, quando bebemos, estamos propensos“.

 

 

Continuemos com Páladas e uma reflexão chamando a companhia de Baco (Brómio) e Vênus (Páfia):

 

 

 

62 Páladas

 

Os homens, todos, hão-de morrer, e não há
mortal que saiba se amanhã viverá.
Agora que bem o sabes, homem, alegra-te
e faz de Brómio olvido da morte.
Desfruta também com a Páfia, dilatando esta vida fugaz;
tudo o resto, deixa decidi-lo o Destino.
Liv XI

 

 

 

No entanto, a moderação é absolutamente aconselhável para que não surjam surpresas na festa do amor, e isso mesmo aconselha Eveno de Paros (V-IV a.C.) no epigrama 49 do mesmo livro:

 

 

 

49 Eveno de Paros(?)

 

A melhor medida de Baco: nem muito nem pouco,
pois causa é de tristeza ou de loucura.
Se está misturado, quarto companheiro das três ninfas(2),
faz desfrutar, e assim é quem melhor dispõe para o leito;
mas se alegra demasiado, afasta os amores,
e no sono, da morte vizinho, te mergulha.
Liv XI

 

 

 

De posse destes conselhos, ainda assim, as surpresas às vezes espreitam, como sabemos, e Rufino (II d.C.) refere num epigrama, agora do livro V da Antologia Grega.

 

 

 

47 Rufino

 

Muitas vezes desejei, Talia, possuir-te uma noite e saciar
minha paixão no teu florido frenesi de amor.
Mas agora que nua, com teu doce corpo me tocas,
esgotado sucumbo à fadiga e ao sono.
Pobre coração meu, que tens? desperta, não te rendas,
essa suprema felicidade com prantos encontrarás.
Liv V

 

 

 

O passar do tempo é inexorável e algum arrefecimento acontece, por isso mesmo termino com o conselho final:

Quanto possas, desfruta, partilha, come e pensa como mortal

dado por um Anónimo num outro epigrama do já referido livro XI da Antologia Grega:

 

 

 

56 Anónimo

 

Bebe e goza. Que acontecerá amanhã, o quê no futuro?
ninguém o sabe. Não corras, não te canses.
Quanto possas, desfruta, partilha, come e pensa como mortal:
entre viver e não viver não há nem um passo.
Toda a vida é, sim, equilíbrio: se tomas a iniciativa,
tudo será teu, mas se morres, de outro será, e tu nada terás.
Liv XI

 

 

Versões de Carlos Mendonça Lopes

 

 

 

Abre o artigo a imagem de um detalhe de uma pintura de Nicolas Poussin (1594-1665), Midas e Baco, pintado depois de 1624, e pertencente à colecção do museu de arte antiga de Munique.

 

 

Notas

 

(1) Citado por Ateneu de Náucratis (II d.C.) no livro XIII de Deipnosophistai (O banquete dos eruditos).

(2) a mistura de vinho e água entre os gregos podia variar, sendo usual uma parte de vinho para duas de água. Aqui o conselho é de uma parte de vinho para três partes de água, metonimicamente referido pelas três ninfas.

 

A criação divina e os poderes da mulher num poema de Anacreontea

Continuo as voltas poéticas pela beleza feminina, desta feita o seu poder, com um poema (24) da colecção de Anacreonteas, poesias à maneira de Anacreonte, compostas bastante mais tarde, e das quais já falei no blog.

 

Detalhes sobre esta colecção de poesias encontram os leitores no artigo [Anacreontica XXXIII].

 

Mas voltando ao poema de hoje, trata o poema de especificar as capacidades que o criador distribuiu de forma diferenciada entre as espécies animais incluindo homens e mulheres.
Nesta distribuição assimétrica, tendo o criador deixado para o final a mulher, quando a ela chegou, apenas a beleza que seduz lhe sobrava. Daí as mulheres a terem recebido na abundância e características que lhes permitem, ao usá-la, derrotar qualquer homem, e todos sabemos como a beleza reveste as mais variadas formas.

 

Do poema grego original transcrevo quatro versões: uma primeira pela pena inspirada de António Feliciano de Castilho (1800-1875). Acompanhando a par e passo o poema original, dá-nos uma graciosíssima poesia em português.
Também o jovem Almeida Garrett (1790-1854) pelos seus trinta anos se mediu com o poema, embora com resultado poeticamente menos feliz que Castilho, e aqui também arquivo.
A seguir, uma tradução actual, fiel do original grego, sem preocupação de fazer poesia em português, por  Carlos A. Martins de Jesus.
Finalmente, Francisco M. G. da Silveira Malhão (1757-1809) dá-nos uma paráfrase com algumas liberdades poéticas em relação ao poema original.

 

Conservei os títulos atribuídos pelos diversos tradutores.

 

Vejamos primeiro Das Mulheres, versão por António Feliciano Castilho:

 

 

Das Mulheres

Deu ao touro a natureza
duras pontas por defesa;
ao corcel a pata bruta;
pé volante à lebre hirsuta;
ao leão presas tiranas.
Deu ao peixe as barbatanas;
vôo ao pássaro; ao varão
deu enfim, deu a razão.

À mulher a natureza
já não tinha mais que dar!…
Tinha apenas a beleza;
só com isso a pode armar.
Quem por lança e por escudo
tem beleza, que mais quer?
Vencem ferro, e fogo, e tudo,
os encantos da mulher.

 

 

 

Na mesma linha de aproximação fiel ao original e com preocupação de poesia em português, A Força da Mulher, versão de Almeida Garrett:

 

A Força da Mulher

Ao touro deu corneas pontas
A próvida natureza,
Deu à lebre a ligeireza,
E a dura pata ao corcel.

A voar ensina as aves,
A nadar ao peixe mudo;
E deu ao leão sanhudo
O dente destruidor:

Aos homens deu a prudência;
À mulher não pôde dá-la…
Acaso quis deserdá-la,
Ou então com que a dotou?

Por armas e por defesa
Deu-lhe as formas engraçadas
Que o ferro, o fogo, as espadas,
Que tudo podem vencer.

 

 

 

A seguir, a tradução directa a partir do grego por Carlos A. Martins de Jesus:

 

 

A Natureza chifres aos touros
deu e cascos aos cavalos,
agilidade de pés às lebres,
aos leões uma boca com dentes,
aos peixes a aptidão de nadar,
às aves a capacidade de voar
e aos homens a inteligência:
para as mulheres nada restava.
Que fazer? Deu-lhes a beleza
em vez de todos os escudos,
em vez de todas as espadas.
E vence mesmo sobre o ferro
e o fogo a mulher que seja bela.

 

 

 

Finalmente a paráfrase de Francisco Manoel Gomes da Silveira Malhão, Ao poder da formosura, dando conta da fluência versificatória que caracteriza a sua poesia:

 

 

Ao poder da formosura

Ao toiro, ao cavalo, às aves,
Aos mudos peixes do mar,
Deu prudente a natureza
Com que a força repulsar.

Ao toiro pôs-lhe na fronte
As pontas de arremeter;
Ao cavalo deu nas patas
Com que fugir, e ofender.

Às aves deu leves penas
Que fendem os densos ares,
Aos peixes as barbatanas
Que rasgam os fundos mares.

Ao leão sanhudo, e fero,
Além das garras valentes,
Deu-lhe boca larga, e funda,
Armada de agudos dentes.

Ao homem, este ser dotado
De mais alta perfeição,
Deu-lhe madura prudência,
Deu-lhe sagrada razão.

Por acaso das mulheres
A mãe comum se esqueceu?
Esgotou os seus tesoiros!
E ao frágil sexo que deu?

Deu-lhe mais; deu-lhe a beleza,
Impenetrável escudo!
Arma por si mais valente,
Que ferro, que fogo, e tudo!

Porque o rosto feiticeiro,
Duma galante mulher,
Abranda o peito mais duro,
Resiste ao maior poder.

 

 

Em apêndice, e para os leitores de grego, a versão do poema hoje generalizadamente aceite.

 

24
Φύσις κέρατα ταύροις,
ὁπλὰς δ’ ἔδωκεν ἵπποις,
ποδωκίην λαγωοῖς,
λέουσι χάσμ’ ὀδόντων,
τοῖς ἰχθύσιν τὸ νηκτόν,
τοῖς ὀρνέοις πέτασθαι,
τοῖς ἀνδράσιν φρόνημα·
γυναιξὶν οὐκέτ’ εἶχεν.
τί οὖν; δίδωσι κάλλος
ἀντ’ ἀσπίδων ἁπασῶν,
ἀντ’ ἐγχέων ἁπάντων·
νικᾶι δὲ καὶ σίδηρον
καὶ πῦρ καλή τις οὖσα.

 

 

Notícia bibliográfica

 

Poemas transcritos das seguintes obras:

António Feliciano de Castilho (1800-75), A Lyrica de Anacreonte, Paris, 1866;

Almeida Garrett (1790-1854), Flores sem fruto; Lisboa, IN, 3ª Ed., 1874;

Francisco da Silveira Malhão (1757-1809), As Odes de Anacreonte Parafraseadas, Impressão Regia, Lisboa, 1804;

Carlos A. Martins de Jesus, Anacreontea, Poemas à maneira de Anacreonte, editor José Ribeiro Ferreira, colecção Florir Perene nº 12, Coimbra, 2000.

 

Da beleza numa fábula de Filinto Elísio com passagem pelo filósofo Kant

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Isto da beleza tem muito que se lhe diga. Ainda que pareça existir um cânon universalmente aceite sobre o que é belo (estou apenas a falar da beleza física), basta começar a listar onde identificamos a beleza para que a controvérsia surja. E a poesia ecfrástica a começar no Cântico dos Cânticos está aí para o provar.

Fundamentalmente subjectivo, o juízo sobre o belo dificilmente põe de acordo duas pessoas, e logo que sobre si próprios se debrucem, a disparidade não pode ser maior.

Nesta volúvel conversa, não resisto a citar o filósofo Immanuel Kant (1724-1804):


Se uma certa porção de vaidade em nada diminui uma mulher aos olhos do sexo masculino, não obstante, quando tal se torna mais visível, contribui para dividir o belo sexo. Elas julgam-se entre si muito duramente, quando se percebe que uma obscurece os encantos das demais, e as que têm grandes pretensões de sedução raras vezes são amigas, no verdadeiro sentido da palavra.

 

O nosso sábio filósofo, atribuindo-se o papel de árbitro, que não exactamente o de Páris na lenda, mas entre o que respeita a homens e a mulheres, antes escrevera:


A virtude da mulher é uma virtude bela, a do sexo masculino deve ser uma virtude nobre.

A vaidade que se costuma reprovar ao belo sexo, se é defeito, é então um defeito belo. Pois, os homens tão dados a galantear as senhoras, mais não fazem do que avivar os seus encantos e ficariam numa situação delicada, se elas não estivessem dispostas a aceitar os seus avanços lisonjeadores. Esta inclinação é o estímulo a mostrar-se receptivo e a observar o decoro, para dar livre curso a uma jovialidade espirituosa, e também a brilhar através das invenções volúveis do traje se lhe realçam beleza. Nisto nada há de ofensivo para os outros, aliás, se inspirada pelo bom gosto, é coisa tão encantadora que seria má educação censurá-la com críticas peguilhantes.

(1)

Esta reflexão sobre a condição feminina no século XVIII é contemporânea da avaliação feminino/masculino feita na fábula de Filinto Elisio (1734-1819) por interpostos animais, macaca e burro, como convém a estas moralidades, e que a seguir transcrevo.

 

A macaca e o burro

No cristal de uma fonte clara e pura
Uma macaca estava contemplando
             a sua formosura:
Os momos*, e os pulinhos revezando,
Da sua presunção indícios dava.
E de ser bela, com prazer, gozava.
           Um burro, que pastava
Não longe do mostrengo presunçoso,
Condoído as orelhas sacudia.
           E consigo dizia:
Se, ao menos, o meu porte grave e airoso;
Se a minha voz tonante ela tivera,
De ser vaidosa, a permissão lhe eu dera.

* macaquices

Temos assim esboçados claros exemplos das virtude bela e virtude nobre na distinção precisa do nosso filósofo.

Na fábula estamos perante três interlocutores: a macaca, o burro, e o leitor. Se no texto da fábula fica claro como os protagonistas se vêm a si próprios; ao leitor, o entendimento da qualidade e extensão da beleza é aspecto em aberto, deixando à sua sensibilidade a  liberdade de avaliar.

(1) in Immanuel Kant de Observações sobre o sentimento do belo e do sublime, tradução de Pedro Panarra, Edições 70, Lisboa, 2017.

Abrem e fecham o artigo dois extremos de beleza canónica: A Vénus ao espelho pintada por Diego Velasquez (1599-1660), e A velha marquesa imortalizada por Quentin Massys (1466-1530). Pelo meio temos uma mulher de idade a cuidar do seu aspecto, pintada por Bernardo Strozzi (1581-1644) em 1635. Nos seus contrastes e simbologia revelam as diferenças entre o ideal e o real na nossa imaginação.