Anúncios

Lisboa por Gomes Leal

Etiquetas

É a uma espécie de jogo veja as diferenças que convido os leitores, ao transcrever o poema Lisboa de Gomes Leal (1848-1921).
Retrato de uma capital fim de século, parente da visão deixada por Cesário Verde (1855-1886) em O sentimento dum ocidental, sem a amplidão e a reflexão pessoal deste, é, no entanto, um poema/retrato onde da alegria ao sórdido, com ênfase na sensualidade, a vida decorre.

 

O desafio enunciado é triplo: comparar os retratos da cidade de final de oitocentos pintados por Gomes Leal e Cesário Verde, por um lado, e por outro a capital cosmopolita de início do século XXI, e encontrar tanto continuidades como roturas que dão a medida de quanto o nosso tempo é diferente do passado, e simultaneamente como nele radica.

(Nota: O poema de Cesário Verde encontra-se algures no blog, acessível aqui)

Lisboa

De certo, capital alguma do Ocidente
Tem mais afável sol, ou um céu mais clemente,
Mais colinas azuis, rio d’águas mais mansas,
Mais tristes procissões, mais pálidas crianças,
Mais igrejas e cães — e vargens, onde a esteira
Seja em tardes d’estio a flor da laranjeira!

A cidade é garrida e esbelta de manhã! —
É mais alegre então, mais límpida, mais sã.
Com certo ar virginal ostenta suas graças…
Há vida, confusão, murmúrios pelas praças.
— E, às vezes, em roupão, uma violeta bela
Vem regar o craveiro e assoma na janela.

A cidade é beata — e, às lúcidas estrelas,
O vicio, à noite, sai aos becos e às ruelas
Sorrindo, a perseguir burgueses e estrangeiros…
E à triste e dubia luz dos baços candeeiros,
— Em bairos imorais, onde se dão facadas —
Corre às vezes o sangue e o vinho nas calçadas.

As mulheres são gentis. — Umas altas, morenas,
Graves, sentimentais, amigas de novenas,
Ébrias de devoções, relêem as suas Horas.
— Outras fortes, viris, os olhos cor d’amoras,
Os lábios sensuais, cabelos bons, compridos,
— Às vezes, por enfado, enganam os maridos!

Os burgueses banais são gordos, chãos, contentes,
Amantes de cupido, egoistas, indolentes,
Graves nas procissões, nas festas, e nos lutos.
Bastante sensuais, bastante dissolutos,
Mas humildes cristãos!.. e, em místicos momentos,
— Tendo, ainda, crueis saudades dos conventos!

Viciosa ela se apraz num sono vegetal,
Adversa ao Pensamento e contrária ao Ideal.
— Mas, mau grado assim ser viciosa, egoista, à lua,
Como Nero também dá concertos na rua,
E, em noites de verão quando o luar consola,
— Põe ao peito a guitarra e a lírica viola.

No entanto a sua vida é quase intermitente,
Chafurda na inação, feliz, gorda, contente.
E, eclipsando as acções dos seus navegadores,
Abrilhanta a batota e as casas de penhores.
Faz guerra à Vida, à Acção, ao Ideal!.. e ao cabo
— É talvez a melhor amiga do Diabo!

in Claridades do Sul, segunda edição revista e aumentada, Empresa da História de Portugal, Lisboa, 1901.
Modernizei a ortografia.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Carlos Botelho (1899-1982), Lisboa e o Tejo; Domingo, 1935, da colecção do Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado (MNACC).

 

Anúncios

Bum, bum, bum, ressoam simbaloques — O absurdo e um soneto do início de oitocentos

Temos o absurdo na realidade quando esta se mostra destituída de propósito, razão, ou sensatez, e temos a sua representação. A linguagem é um dos caminhos para essa representação do absurdo. Entre eles, vocabulário desconhecido no interior de um discurso gramaticalmente reconhecível, de mistura com palavras cuja função de comunicação é usual noutros contextos. A consequência é a insinuação no espírito de um entendimento outro, diferente do comum, de uma realidade padronizada, daí nos parecer absurda aquela abordagem ou a realidade que ela transcreve.
O absurdo não busca a adesão, apenas desafia a olhar diferente o adquirido como certo e estável.

Se na poesia experimental da segunda metade do século XX os exemplos de desmontar o absurdo no real através da linguagem abundam, na poesia antiga rareiam. Recolho numa colecção de poesias anónimas um desses raros exemplos. Trata o soneto em apreço de um acontecimento solene, presumivelmente em Lisboa, quando da ocupação francesa de Portugal no início do século XIX, enquanto rei e corte se encontravam refugiados no Brasil. Refere-se à comemoração do aniversário de Napoleão. Ofensiva para patriotas, a celebração teve o apoio de todos os aduladores do poder e dos que com a ocupação beneficiaram. No entanto, não é um indignado ou ofendido retrato do acontecido que o poema traz. O soneto, através de uma abundante variedade de vocábulos desconhecidos em português, mas evocadores de enorme chinfrineira, variadas defecções, e figuras de espavento, faz uma leitura metafórica da gratuitidade da celebração, transmitindo de forma eloquente o absurdo de tal cerimónia:

 

Soneto

De soleques, meliques, trapaloques,
Sulfúreos, sulfurantes, sulfurados,
Rotundos, salitrosos, cavornados,
Bum, bum, bum, bum, ressoam simbaloques:

Espaventos flamantes, trepiquoques,
Imbeles, infecundos, insolados,
Xenofes, xenofontes, xenofados,
Tripodeão berliques, e berloques:

Strangurio, scalponio, figurato,
Gerivasio de gimbo, que gambeia
Do zimborio de boreas, boreato.

Eis aqui o primor em que se arreia*
O dia natalicio celebrado
De um tal Napoleão em terra alheia.
***

*primor em que se arreia — primor com que se veste, associando-o à equipagem de gado cavalar.

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura do pintor chinês Fang Lijun (1963), 30 de Maio. Sobre o pintor e a sua obra, à falta de outras fontes ocidentais, a Wikipédia em inglês contém interessante informação baseada numa obra publicado em Itália.

Qualquer associação entre a imagem de abertura, o texto do artigo, e a fanfarra sobre o actual domínio chinês em sectores estratégicos da economia portuguesa, está completamente fora do meu propósito. Sabemos que oficialmente a China é apenas um parceiro económico de Portugal.

Um poema de sabor antigo e Treze maneiras de olhar um melro por Wallace Stevens

Etiquetas

,

Provavelmente o longo convívio com poesia antiga e de todas as latitudes me condicione no processo criativo, fazendo o que escrevo soar tantas vezes fora de tempo. Aí talvez a razão por que a chegada da Primavera, e dos melros às árvores frente a casa, me tenha inspirado este poema de sabor antigo:

 

O Melro
De que fala quando canta
o melro à minha janela?
Fala do amor ausente
ou recorda simplesmente
os tempos que não viveu
porque morreu?
 
Vestiu de luto para sempre
e as penas pretas que veste
não consentem alegria:
apenas deixam ouvir
a sua melancolia
num cantar de dor presente.

Carlos Mendonça Lopes

 

 

Este poema é uma descrição nos antípodas da leitura da presença do melro na paisagem feita pelo poeta-filósofo Wallace Stevens (1879-1955) no poema Treze maneiras de olhar um melro. Poema dividido em treze estâncias, com o sabor de haiku a percorrê-las, em curtos versos, e numa visão sintética e metafórica, seguimos variadas formas de sentir e pressentir o mistério e variedade da vida observando um melro na paisagem nevada.

Entre a primeira e a última estâncias do poema:

1
No meio de vinte montanhas nevadas
A única coisa que se mexia
Era o olho do melro.

13
Anoitecia em cada instante da tarde.
Nevava
E ia continuar a nevar.
E o melro empoleirado
Nos ramos dos cedros.

acompanhamos a reflexiva observação do poeta. Implica esta o questionar do que é saber. E sabendo, esse conhecimento é exterior a mim, ou ao conhecer, ele passa objectivamente a integrar-me? É um caminho que o poema abre, não a letra do que ele contém:

 

 

Treze maneiras de olhar um melro

1
No meio de vinte montanhas nevadas
A única coisa que se mexia
Era o olho do melro.

2
Eu via as coisas de três maneiras diferentes,
Como uma árvore
Onde há três melros.

3
O melro rodopiava ao sabor dos ventos de Outono.
Era uma pequena parte da pantomina.

4
Um homem e uma mulher
São um
Um homem e uma mulher e um melro
São um.

5
Não sei qual prefiro,
A beleza das modulações de som
Ou a beleza das insinuações,
O melro a assobiar
Ou logo após.

6
Gotículas geladas cobriam a grande janela
De vidros toscos.
A sombra do melro
Cruzava-a, dum lado para o outro.
O estado de espírito
Desenhava na sombra
Uma causa indecifrável.

7
Ó homens esguios de Haddam
Porque pensais em pássaros dourados?
Não vedes como o melro
Caminha à volta dos pés
Das mulheres perto de vós?

8
Sei de sotaques notáveis
E ritmos lúcidos e inevitáveis;
Mas também sei
Que o melro está presente
Em tudo o que eu sei.

9
Quando o melro voou para fora do alcance da vista
Assinalou a orla
De um de muitos círculos.

10
Perante a visão de melros
Voando envolvidos numa luz verde,
Até os proxenetas da eufonia
Haviam de gritar com vivacidade.

11
Ele foi até Connecticut
Num coche de vidro
Uma vez, foi tomado de pânico
Quando confundiu
A sombra da carruagem
Com melros.

12
O rio corre
O melro deve andar a voar.

13
Anoitecia em cada instante da tarde.
Nevava
E ia continuar a nevar.
E o melro empoleirado
Nos ramos dos cedros.

Tradução de António Simões
in Antologia da Poesia Anglo-Americana, de Chaucer a Dylan Thomas, seleção, prefácio e notas de António Simões, Campo das Letras Editores, Porto, 2002.

A foto de abertura não é do melro que canta à minha janela. Encontrei-a na net, colocada por um Camberra ornithologist group.

 

Ilusões do poeta/deputado oitocentista Diogo Macedo

Etiquetas

A vida tem destas coisas…
No bailado clássico Coppélia(1870), um rapaz enfeitiça-se por uma boneca de tamanho natural e feições vividamente humanas, qual robot da ficção dos nossos dias. É a namorada preterida que, substituindo a boneca, finge ganhar vida, e assim consegue trazer o rapaz à realidade.

A história dançada, com argumento a partir de dois contos de E. T. A. Hoffmann (1776-1822), foi muito popular à época e continua no repertório das companhias de bailado, incluindo a CNB.

Encontro uma reminiscência desta história num poema, Ilusões, de um obscuro poeta oitocentista, Diogo Macedo (1844-1938). O poema tem, no entanto, mais: é simultaneamente uma crítica de um embeiçamento por uma “boneca de sala” com os atributos femininos cantados pelos poetas da época, e um relato do encantamento pelas aparências. O todo contado com desenvoltura métrica e rítmica. O poema escolheu-o Camilo Castelo Branco para incluir no seu Cancioneiro Alegre. Aí faz uma breve apresentação do autor com a verve habitual, e que aproveito para transcrever:

Diogo de Macedo

É um dos bons poetas que esmalta o parlamento actual. São bastantes. Se se combinassem, poderiam dar o Diário das Câmaras em quintilhas, ou redigirem um lindo semanário intitulado A lyra de S. Bento, 10 reis, vale a pena. E outrosim ilustrarem o periódico com veras efígies dos Isócrates em grupos, e charadas e estudos sobre a língua para uso da casa. O snr. Macedo entra no parlamento com a fé robusta dos homens novos e com bom carcaz de adjectivos lancinantes.
Camilo Castelo Branco, in Cancioneiro Alegre.

Apresentado o poeta/deputado, eis o poema:

 

Ilusões

Ela, que eu não julgo feia,
possui a pupila azul
e dá sempre certa idéia
das filhas de John Buli.

Os bons pintores de França
coloriram-lhe o cabelo…
Que trança de ouro! que trança
se os seios não fossem gelo!

Seduz quando se lhe vê
do colo a brancura, e enfim
tem de alvos lirios o pé
e a mão é como um jasmim.

Ninguém no mundo presuma
sonhar beldade maior;
nasceu num lençol d’espuma
depois de um sonho de amor.

É pena ter, como a face,
o seio desfeito em neve:
por mais que à porta se passe
a sorrir jamais se atreve!

Esbanjei tempos imensos
no fervor de remirá-la
e, apesar dos meus incensos,
nunca chegámos à fala.

Por fim mais me aproximei
um dia pelo sol posto
e então com pasmo notei
que era pintura o seu rosto.

Fez-lhe o vestido a Férin
de um estofo um pouco espesso,
mas logo vi muito bem
uma boneca de gesso.

Uma boneca de sala,
inerte, desanimada,
sem luz, sem vida, sem fala,
uma boneca e mais nada!

 

Diogo Macedo, com poesias dispersas por jornais e revistas da época, e hoje perdidas, publicou em livro Noites d’Ocio, 1866, e terá publicado outro livro, em edição particular, Sonetos de um devoto das mudas, em final de vida. Encontro em Noites d’Ocio alguns poemas de fina ironia e escorreita versificação. Transcrevo uma escolha:

Começo com um auto-retrato:

 

O meu retrato

Nem alegre, nem triste em demasia,
Um pouco à folga*, um pouco ao ócio dado;
Amigo do dinheiro e apaixonado
Da mulher que o amor no peito cria;
Bom filho, bom irmão, e amigo e amante,
Fiel ao rei, fiel à pátria amada:
É assim que sou eu — pobre estudante,
Poeta em embrião, autor de … nada!

* brincadeira

 

Moço, e estudante, não faltaria o sonho do sexo, evidentemente, e ei-lo, neste

Amor feliz

Quem, neste mundo, é mais feliz do que eu?
             Um teu sorriso
             É para mim
             O paraíso;
             Um olhar teu
             Dá-me sem fim
             Gozos do céu…
Só falta — para a ventura ser maior —
Deixares que te leve nos meus braços
E fugirmos, voando nos espaços,
        Ao céu do amor!

 

Não sendo esta necessidade consumada com a destinatária do sonho, ei-lo nos braços de uma Amélia, prostituta:

A Amélia

Não negues, lira d’amor,
Mais um canto ao Trovador,
Que o trovador vai cantar;
As cordas presto afinemos
E não te importe onde entremos,
Seja templo ou lupanar!

És tu, mulher desgraçada,
Que vais hoje ser cantada,
Que inspiras o canto meu;
Ouve, escuta o trovador,
E fica certa que o amor
Me tornou amante teu.

Para ti um dia olhei
E em teu peito divisei
Que pulsava um coração;
Consultei o meu, e logo
Vi que lhe lançaste fogo
Nascendo nele a paixão…

Que me importava saber
Quem és ou podias ser,
Se era amar-te o gosto meu?
Nem me importa o que se diz,
Só me importa ser feliz
Sendo agora o amante teu!…

E sou feliz, na verdade,
Que mulher, anjo ou deidade,
Com seus olhos e sorrisos
Me daria amores tantos,
Venturas de mil encantos,
Gozos de mil paraísos?

Seja templo ou lupanar,
Sempre aqui virei sagrar
Meu afecto mais profundo;
Despreze-te o mundo embora,
És e serás, desde agora,
Quem mais amo neste mundo…

E porque não devo amar-te?
Devo acaso desprezar-te
Em vez de estender-te a mão?
Não sei de virgem ou donzela
Mais do que tu meiga e bela,
De mais alto coração!

Mas cala, lira, o teu canto,
Que de Amélia um olhar de encanto
Fascinou o trovador.
Já não tem voz pra cantar;
Tem só coração pra amar;
Deixa-o nos braços do amor!

 

Termino com a a memória de Camões nas Endexas a Bárbara Escrava : Eu nunca vi rosa / em suaves molhos / que para meus olhos / fosse mais formosa / …, reflectidas de passagem no poema O amor-perfeito:

O amor-perfeito

Entre as flores, ela um dia,
Passeava no jardim;
Ora olhava para mim,
Ora de mim se escondia.

Tinha um ramalhete ao peito
Das flores as mais viçosas;
Eram um lírio e duas rosas,
Um cravo e um amor-perfeito.

“Como é belo o teu jardim!
— Lhe disse eu, baixando os olhos —
“Nunca vi, em suaves molhos,
Rosas, cravo ou lírio assim.”

Então ela do seu peito
Uma flor me ofereceu.
Qual delas? — pergunto eu —
Responde ela: O amor-perfeito.

 

E com este amor-perfeito vindo do coração se conclui a viagem pela poesia esquecida de mais um obscuro poeta oitocentista.

 

Nota bio-bibliográfica

Não existindo notícia na net do homem, socorro-me da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira para deixar aqui alguns dados de biografia que completem o retrato pintado por Camilo, e acima transcrito.

Nasceu em Peso da Régua em 1844. Grave doença obrigou-o a abandonar os estudos em Coimbra. Recuperado, dedicou-se ao jornalismo e à literatura. Traduziu Corneille, Byron e Racine. Foi companheiro de Antero de Quental, João de Deus e Guerra Junqueiro, e deputado nas legislaturas de 1878 e 1879. Quando administrador do concelho de Peso da Régua, fundou o hospital D. Luís. Publicou, além da poesia referida no início, dois romances: Josefina, a Provinciana, e O Cristão Novo. Morreu em 1938.

Diogo de Macedo, Noites d’Ocio, Poesias, Porto, Typographia Portuense, 1866.
Cancioneiro Alegre de Poetas Portugueses e Brasileiros, 2 vol., 2.ªed., Livraria Internacional de Ernesto Chardron, 1887.

Acompanha o artigo a imagem de uma pintura de Henri Gervex (1852-1929), Rolla, de 1878, pertença da colecção do museu d’Orsay em Paris.

Memórias, a vida, e Onde estará a Guilhermina, poema de Pablo Neruda

Etiquetas

Folheio álbuns de fotografias antigas. E ali estou eu, treze anos, quatorze anos, e juntos, amigos de um tempo de descoberta e aprendizagem, que a vida dispersou. Alguns já partiram definitivamente.


e depois, depois, depois, depois
é tão longo contar as coisas.

Não tenho nada para acrescentar.

 

Não é nostalgia o que me invade. É um filme que me corre sob os olhos a velocidade acelerada, e de trás para a frente transporta as imagens pouco claras que a memória a custo guardou.
Desses tempos de descoberta, com outras, veio a poesia de Pablo Neruda (1904-1973), numa pequena antologia superiormente traduzida por Fernando Assis Pacheco, e nela um poema que à época pouco me disse e hoje recordo na imensa sabedoria do seu significado: Onde estará a Guilhermina?

 

Onde estará a Guilhermina?

Quando a minha irmã a convidou
e eu corri a abrir-lhe a porta,
entrou o sol, entraram estrelas,
entraram duas tranças de trigo
e dois olhos intermináveis.

Eu tinha catorze anos
e era orgulhosamente calado,
magro, severo, sisudo,
funéreo e cerimonioso:
vivia com as aranhas,
humedecido pela mata,
conheciam-me os coleópteros
e as abelhas tricolores,
adormecia com as perdizes
metido todo em hortelã.

Então entrou a Guilhermina
com dois relâmpagos azuis
que atravessaram o meu cabelo
e me cravaram como espadas
contra as paredes do Inverno.
Isto aconteceu em Temuco.
Lá para o Sul, na fronteira.

Passaram lentos os anos
pisando como paquidermes,
regougando como raposas loucas,
passaram impuros os anos
crescentes, poídos, mortuários,
e eu andei de nuvem pra nuvem,
de terra em terra, de olho em olho,
enquanto a chuva na fronteira
caía, com o mesmo fato.

Caminhou o meu coração
com intransmissíveis sapatos,
e digeri muitos espinhos:
não tive tréguas onde estive:
onde eu bati, bateram-me,
onde me mataram caí
e ressuscitei com frescura,
e depois, depois, depois, depois
é tão longo contar as coisas.

Não tenho nada para acrescentar.

Vim viver para este mundo.

Onde estará a Guilhermina?

Transcrito de Pablo Neruda, Antologia Breve, tradução e selecção de Fernando Assis Pacheco, Publicações D. Quixote, Lisboa, 1969.

 

Naufragada a barca dos sonhos, fica-nos a vida vivida e a memória dela.

Abre o artigo a imagem de uma pintura infantil a assinalar o 25 de Abril de 1974. O desenho à época foi publicado em livro sem identificação da criança que o fez.

Livros?

Livros? Tal como a roda, depois de inventados nunca mais a humanidade passou sem eles, qualquer que seja a forma que pelos tempos foram revestindo.

Instrumento privilegiado de transmissão ao maior número, de saber, experiências, reflexões, fantasias, ou das mais variadas formas que a vida pode revestir, eles vivem connosco ainda que nem sempre o percebamos.

Livros toda a gente sabe o que são. O que podem conter, menos. E ao deparar com algum ter a curiosidade de saber o que possa estar lá dentro, pouquíssimos. E nisto estamos, e todos os anos há um dia mundial do livro. Para quê? Pergunto-me eu.

Sabe quem lê, que dos livros que lemos fica um rasto, um fio de lembrança, às vezes quase uma nódoa, negra, da dor de saber. Saber dói, mas quando começa, é inescapável.

É a sensibilidade de leitor estribada num gosto decorrente de uma cultura, o que faz as nossas escolhas sinceras. A aceitação da nossa verdade interior facilita a escolha sem receio de opiniões terceiras. Da mundanidade, ou seja, daquele adorno de poderosos, aqui não falo, como não falo dum gostar por ouvir dizer.

Às vezes surpreendo num ou outro blog ou página de Facebook, sobretudo de jovem brasileiro(a), textos que me interrogam: de que estão a falar? Em que língua se exprimem? Imagino que os autores, se o acaso os fizesse ler o que escrevo, teriam as mesmas perguntas. Isto leva-me a uma questão essencial sobre livros: é preciso saber ler o que contêm. E tal exige um conhecimento da língua em que estão escritos um pouco acima dos níveis mínimos. Só depois, pouco a pouco, é possível ir descobrindo os fabulosos segredos que nos livros se guardam. Mas tudo isto sabe quem me lê, pois certamente é leitor de livros, e, talvez, até compulsivo.
Por volta dos meus onze, doze anos, fui leitor voraz de histórias de cowboys. Nos pequenos livros de banda desenhada que à época havia, mas sobretudo de umas historietas em prosa publicadas nuns livrinhos pequeninos de uma colecção 6 balas, se bem recordo. Nesses livros o deserto, e os adversários, eram a matéria de ficção, definidora de uma barreira a vencer, e muitas vezes intransponível, para chegar à terra prometida, que no caso era a Califórnia. Vejo hoje como eram lições de lealdade, bravura, gosto da aventura e recompensa que estimulam o desafio de viver. Se o gosto de ler me chegara antes com as histórias encantadas que a infância aprecia, nunca mais parou. E à ideia de umas férias sem programa todo eu sorrio. Como agora. Encho uma mala de livros e parto para o recatado sossego de leituras e outros pequenos prazeres.

Talvez os livros tenham sido inventados para me fazer feliz…

Carlos Mendonça Lopes

As fotos que acompanham o artigo fê-las o mestre André Kertész (1894-1985) em 1915 na Hungria, a de abertura, a outra não identifiquei local nem data. Ambas integram um vasto conjunto dedicado a captar pessoas a ler, uma pequena parte das quais pode ser encontrada aqui no blog.

 

Epigramas de Páladas de Alexandria sobre a existência e o seu fim

Etiquetas

À entrada da adolescência li, numa colecção de novela contemporânea editada pela Portugália, uma história de D. H. Lawrence, onde o escritor efabulava sobre a vida de anonimato vivida por Jesus na terra após a ressurreição. Na altura pareceu-me de extrema ousadia aquele questionar de dogmas da igreja católica. Ainda não estava familiarizado com as liberdades da ficção.

É na ausência de constrangimentos na criação literária que, por vezes encontramos os caminhos para respostas a perguntas que nem sabemos formular. Outras vezes, trata-se apenas de confrontar convicções adquiridas com outras perspectivas, quais sejam, por exemplo, as agnósticas considerações que, despidas de pressupostos religiosos, Páladas de Alexandria (n. 392 d.C.) faz sobre a existência humana e o seu fim, e hoje transcrevo:

 

59
A espera da morte é motivo de sofrimento,
mas dele, ao morrer, o homem se liberta.
Não chores, pois, o que deixou a vida:
não há sofrimento para além da morte.

 

 

Noutra perspectiva, ambições, prazeres, e angústias que a vida traz, são tudo irrelevâncias perante o fim que a todos nos espera:

 

65
Perigosa navegação é a vida. Nela balouçados,
sofremos às vezes mais duramente do que os náufragos.
Tendo como piloto da vida a Fortuna,
como no mar vogamos inseguros,
uns com vento de feição, outros contrário. Todos, porém,
nos dirigimos para um porto subterrâneo.

 

60
És rico; e depois? Quando, ao partir, te meterem no caixão,
levarás contigo a riqueza? Consumiste
o tempo a acumulá-la. Não poderás, todavia,
acumular mais dias de vida.

 

 

Na verdade, a realidade insofismável é esta:

 

58
Vim nu à terra e nu irei para debaixo dela.
Porque me afadigo em vão, se o fim é a nudez?

 

Tradução de Alberto Martins

in do mundo grego outro sol, Edições Asa, Porto, 2001.
Os números que antecedem cada poema identificam o epigrama no seio da tradução portuguesa, e integram o capítulo dos epigramas exortativos.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Arpad Szenes (1897-1985), Pedra de meditação, de 1980.

 

Eugénio de Andrade — Em vez da morte, que teremos no paraíso?

Etiquetas

É pela Semana Santa que o mundo cristão reflecte sobre a morte e ressurreição, ou seja, sobre a esperança de vida eterna.
No último verso do poema A Pergunta de Stevens, de Eugénio de Andrade (1923-2005)Em vez da morte, que teremos no paraíso? — encontro formulada a pergunta insistente sobre o além-vida, para a qual ninguém tem a resposta. É esse desconhecido que ora nos aterra, ora nos tranquiliza, a base do sentimento religioso: a busca da explicação para o inexplicável. E são muitas as formas como com ele lidamos. É de novo Eugénio de Andrade quem nos trás uma das muitas abordagens da tentativa da sua compreensão, através de uma leitura de como sentimos a morte dos outros em nós, com o poema Pequena Elegia de Setembro. Mas ainda aqui são mais as perguntas que as respostas:

 

Pequena Elegia de Setembro

Não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.

Estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos pousados nas últimas rosas
dos grandes e calmos dias de setembro.

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?

 

 

Esta visão da morte banhada em serenidade, ou antes, melancolia, como o poeta refere num poema do mesmo nome, é uma medida da possível relação humana com ela:

 

Melancolia

O sol mal entra em casa — escrevo
sobre a fugidia
luz de areia,
luz que não encontra morada.
Tudo me dói neste dia
em que os mortos deixam à porta
dos vivos
a corrosiva melancolia.

 

 

Sem respostas, … Mas também / o poeta escreve direito por linhas / tortas: a poesia é a ficção / da verdade. … / (do poema São Coisas Assim), é com o poema Balança que termino, dando voz ao profundo significado da vida, pois ao pensar na morte, é sempre sobre a vida que pensamos:

 

Balança

No prato da balança um verso basta
para pesar no outro a minha vida.

 

E no equilíbrio com que pela vida nos movemos se encerra o significado do existir. Sem mais!

Poemas transcritos de Eugénio de Andrade, Poesia, Rosto Editora, lda, V.N.Gaia.

Abre o artigo a imagem de uma pintura do pintor de Siena, Giovanni di Paolo di Grazia (1398-1482), Paraíso.
A pintura é parte de um tríptico que inclui uma Criação e uma Expulsão do Paraíso, todos pertença da colecção do Metropolitan Museum de New York.

Imaginar o além-vida como este mundo de harmonia entre anjos e humanas criaturas no século XV em Siena, ocupados em amena e eterna conversação, é uma deliciosa visão.

Prova — poema de Ángel González

Etiquetas

Dúplice e irónico, o poema Prova de Ángel González (1925-2008), traz uma prova da existência de Deus na perfeição do funcionamento físico da sua criatura, O Homem:


Isto é alguma coisa
repito
se se tem
em conta
essa admirável prova da existência de Deus
constituída
pelo perfeito funcionamento dos meus centros nervosos
que transmitem as ordens que o meu cérebro emite
às margens longínquas das minhas extremidades.

 

Depois, a evidência de que esse perfeito funcionamento tanto serve para fazer o bem como para fazer o mal,

Mão coça-me a cabeça!
Mão, aproxima
essa cadeira. Desaperta
o soutien a essa miúda
— e tu, a outra, não fiques quieta.
Apanha
todo o dinheiro, mão:
incendeia, mata.

 

O que lhe permite concluir em dedução à maneira da matemática, com esta fórmula lapidar:

Portanto,
prova-se uma vez mais,
como eu dizia,
a ordem natural e pré-existente,
a formosura harmónica das coisas.

 

De novo, e uma vez mais, sem respostas definitivas, continuamos a busca inacabada da razão porque existimos.

 

 

Prova

De todos os modos, tenho ainda
este papel,
a caneta,
e a mão direita que a aperta,
e o braço que liga ao meu corpo
para que não fique
— tão distante e longínqua —
como um objeto solto e estranho
— cinco dedos movendo-se,
marchando
pelo solo,
tal como um sujo
animal acossado pela vassoura…

Isto é alguma coisa
repito
se se tem
em conta
essa admirável prova da existência de Deus
constituída
pelo perfeito funcionamento dos meus centros nervosos
que transmitem as ordens que o meu cérebro emite
às margens longínquas das minhas extremidades.

Penso:
           a tarde morre,
e minha mão escreve:
                                     a tarde
morre.
           Ergo Deus existe.

Como é fácil agora,
integrar-se num mundo ordenado e perfeito,
quando se dispõe de uma mão tão perfeita e valiosa,
tão matéria de prova,
tão corpo de delito.

Mão coça-me a cabeça!
Mão, aproxima
essa cadeira. Desaperta
o soutien a essa miúda
— e tu, a outra, não fiques quieta.
Apanha
todo o dinheiro, mão:
incendeia, mata.

Portanto,
prova-se uma vez mais,
como eu dizia,
a ordem natural e pré-existente,
a formosura harmónica das coisas.

Tradução de Egito Gonçalves.

O poema original, Prueba, foi publicado no livro Grado Elemental, 1962.
Transcrevo a tradução de Poesia Espanhola do Após-Guerra, Portugália Editora, s/d.

 

 

Abre o artigo a imagem ligeiramente enquadrada de uma pintura de Georg Baselitz (1938), A mão de Deus (Remix) de 2006.

 

Salmo 139 mudado para português por Herberto Helder

Etiquetas

Deus como demiurgo, a crença na Sua omnipresença e omnisciência encontram-se plasmadas no Salmo 139 que hoje transcrevo mudado para português por Herberto Helder (1930-2015).

Simultaneamente exaltante e terrífico, é um avassalador poema sobre o ínfimo da condição humana perante a grandeza do divino:


Tu me sondas, Senhor, e me conheces.
Adivinhas a palavra que se tece ainda em mim.
Tu que sabes do meu sono e da minha marcha incerta,
dá-me o caminho secreto para a tua eternidade.

 

É parte essencial da crença religiosa a aspiração a partilhar com o Ser Supremo a graça da divindade. E para a ela chegar percorrem-se os caminhos da fé, variados tanto quanto as crenças humanamente concebidas e espalhadas pelas geografias da terra desde que o homem nela existe e pensa. O livro dos salmos integrando o antigo testamento da Bíblia, é tão só mais uma peça desse vasto mundo onde a palavra procura o transcendente.

 

 

Salmo 139

Tu me sondas, Senhor, e me conheces.
Sabes quando me sento e me levanto,
de longe tu escrutas as menores intenções,
reconheces a minha marcha e vigias o meu sono.
Nada de mim te é estranho.
Adivinhas a palavra que se tece ainda em mim.
Estás em frente do meu rosto, estás atrás das minhas costas,
e pousaste a tua mão sobre a carne do meu ombro.
— Oh, tua ciência é a mais prodigiosa.

Como fugir à tua Face, como evitar teu Espírito?
Acho-te nos campos celestes e nas funduras da treva.
Se voo nas asas da luz para o outro lado das águas,
agarra-me a tua mão que jamais me deixará.
E se as trevas sem astros se derrubam sobre mim,
para teus olhos as noites nada mais são do que luz.

Foste tu, eu sei, quem ergueu a minha carne,
quem lentamente me urdiu no ventre de minha mãe.
Maravilho-me ao pensar no enigma criado.
De há muito já decifravas labirintos da minha alma,
e vias erguer-se a máquina dos meus ossos obscuros.
Minha vida estava inscrita no teu livro encoberto.
Ainda antes do tempo fixaras os meus dias.
Mas os teus, os teus enigmas, quem os pode decifrar?
Que se estendem pelo tempo como na terra as areias.
Odeio os teus inimigos com um ódio absoluto.
Tu me sondas, Senhor, e me conheces.
Adivinhas a palavra que se tece ainda em mim.
Tu que sabes do meu sono e da minha marcha incerta,
dá-me o caminho secreto para a tua eternidade.

 

Parte do poema SALTÉRIO, Salmos 137, 88, 22, 42, 57, 69 e 139 incluído em O Bebedor Nocturno, poemas mudados para português por Herberto Helder, Assírio & Alvim, Lisboa, 2010.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Peter Powditch (1942), Coastal II.

Visão da terra onde nascemos e morreremos, nesse lapso só nos justificamos como indivíduos se fizermos por a merecer.