Janeiras — poema de Vitorino Nemésio

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É para uma atmosfera de comemoração popular do nascimento de Jesus que o poema Janeiras de Vitorino Nemésio (1901-1978) nos transporta:

Vimos honrar a Jesus

Numas palhinhas deitado:

O candeio está sem luz 

Numa arribana de gado.

 

Mas uma estrela dianteira 

Arde no céu, que regala! 

A palha ficou trigueira,

Os pastorinhos sem fala.

 

Cantar as janeiras em grupos de porta em porta, em datas diferentes consoante os locais, é uma tradição a custo conservada em algumas povoações do país. Lembro-me de certo ano, as cantar em véspera de Natal, já lá vão talvez sessenta anos ou quase. Era em verdade uma forma simultânea de dar e receber a pretexto da comemoração religiosa:

 

Ó de casa, alta nobreza 

Mandai-nos abrir a porta,

Ponde a toalha na mesa 

Com caldo quente da horta!

 

Tendi, ferrinhos de prata, 

Ao toque desta sanfona!

Trazemos ovos de pata 

Fresquinhos, prà vossa dona.

 

No poema, ao anúncio da chegada dos cantadores à porta, segue-se a história do presépio. Finda esta, é hora de comezaina:

Acabou-se esta cantiga,

Vamos agora à chacota:

Já enchemos a barroga

Sigamos nossa derrota!

 

Rico vinho, santa broa 

Calça o fraco, veste os nus!

Voltaremos a Lisboa 

Pró ano, querendo Jesus.

 

 

E assim me despeço por hoje de si, leitor, com desejo de um Feliz Natal.

 

 

Eis o poema integral:

 

 

Janeiras

 

Ó de casa, alta nobreza 

Mandai-nos abrir a porta,

Ponde a toalha na mesa 

Com caldo quente da horta!

 

Tendi, ferrinhos de prata, 

Ao toque desta sanfona!

Trazemos ovos de pata 

Fresquinhos, prà vossa dona.

 

Senhora dona da casa, 

À ilharga do seu Joaquim,

Vermelha como uma brasa 

E alva com um jasmim!

 

Vimos honrar a Jesus

Numas palhinhas deitado:

O candeio está sem luz 

Numa arribana de gado.

 

Mas uma estrela dianteira 

Arde no céu, que regala! 

A palha ficou trigueira,

Os pastorinhos sem fala.

 

Dá-lhe calorzinho a vaca, 

O carvoeiro uma murra,

A velha o que trás na saca,

Seus olhos mansos a burra.

 

Já as janeiras vieram 

Os reis estão a chegar,

Os anos amadureceram:

Estamos para durar!

 

Já lá vem Dom Melchior

Sentado no seu camelo 

Cantar as loas de cor 

Ao cair do caramelo.

 

Ó incenso, mirra e oiro,

Que cheirais e luzis tanto,

Não valeis aquele tesoiro 

Do nosso Menino santo!

 

Abride a porta ao pregrino, 

Que vem de mum longe à neve,

De ver nascer o Menino 

Nas palhinhas do preseve.

 

Acabou-se esta cantiga,

Vamos agora à chacota:

Já enchemos a barroga

Sigamos nossa derrota!

 

Rico vinho, santa broa 

Calça o fraco, veste os nus!

Voltaremos a Lisboa 

Pró ano, querendo Jesus.

 

Publicado em Festa Redonda (1950).

Transcrito de Vitorino Nemésio, Obras Completas, vol I – Poesia, INCM, Lisboa, 1989.

 

 

Nota lexicográfica

Os termos pregrino, preseve, barroga, derrota, e outros são corruptelas populares para peregrino, presépio, barriga, rota, etc, que o poema contém e conservei.

Suponho que murra quererá significar um feixe de lenha para queimar. Se algum leitor conhecer o seu significado preciso, agradeço a informação.

 

Abre o artigo a imagem de uma representação tradicional do presépio por Bicci di Neri (1419-1491), também conhecido por Neri di Bicci, de 1470.

A pintura pertence à colecção do museu Lindenau de Altenburg.

 

 

Um poema sobre o Natal de Fernando Pinto do Amaral

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Cai a noite — está frio 

e súbito perpassa 

por nós um arrepio

a anunciar a graça 

 

Numa toada de sabor popular em redondilha maior e quadras rimadas, Fernando Pinto do Amaral (1960) dá-nos no poema Natal de 98, de que antes citei a quadra de abertura, uma reflexão sobre nós e o sagrado, induzida pela noite de Natal:

Cai a noite serena 

sobre nossa agonia 

e repete-se a cena 

que de novo inicia 

 

uma história de amor 

entre os homens e alguém 

talvez muito maior 

talvez homem também 

 

Depois deste quase tocar o divino, vem a inescapável dimensão terrena — nossa:

Cai a noite e eu espreito

o que em silêncio brilha 

no escuro do meu peito 

no olhar da minha filha 

 

É uma antiga promessa 

a que ninguém responde 

uma luz que atravessa 

este lugar sem onde 

 

Notável reflexão onde o ritmo do poema pode conduzir o leitor apressado a reter apenas a melodia da rima, descurando o que no todo o poema nos dá: … / Cai a noite indiferente / às imagens do nada / …; afinal a experiência que cada ano renova.

 

 

Natal de 98 

 

Cai a noite — está frio 

e súbito perpassa 

por nós um arrepio

a anunciar a graça 

 

de sermos talvez mais 

do que simples humanos 

decifrando sinais 

que não passam de enganos 

 

Cai a noite serena 

sobre nossa agonia 

e repete-se a cena 

que de novo inicia 

 

uma história de amor 

entre os homens e alguém 

talvez muito maior 

talvez homem também 

 

Cai a noite e eu espreito

o que em silêncio brilha 

no escuro do meu peito 

no olhar da minha filha 

 

É uma antiga promessa 

a que ninguém responde 

uma luz que atravessa 

este lugar sem onde 

 

Cai a noite indiferente 

às imagens do nada 

Cai a noite e alguém sente 

que já é madrugada

 

in Natal… Natais, Oito séculos de Poesia sobre o Natal, Antologia de Vasco Graça Moura, Público, Comunicação Social, S.A., 2005.

 

 

Nota iconográfica

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Gustav Klimt (1862-1918), Castelo sobre a água de 1908, pertença da Galeria Nacional de Praga.

No espelho da natureza domesticada que são os jardins se reflecte a busca humana pela harmonia no mundo, qual luz que atravesse este lugar sem onde.

Possa o vento soprar doçura — poema de Rig Veda

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O poema que hoje dou em versão portuguesa tem como ponto de partida a versão em inglês de um hino de Rig Veda, colecção de hinos em sânscrito com datação aproximada entre (1500-1200 a. C.), e  base de religiões hindu.

Isolado da crença específica, nele podemos encontrar um desejo de harmonia no mundo envolvente, que a repetição do conceito de doçura acentua:

Doce seja a noite,

doce o amanhecer,

doce seja a fragrância da terra,

doce Pai do Céu!

 

Na incapacidade dos homens por si só construírem um universo harmonioso, a invocação do além é a saída para a manifestação desse desejo de que o mundo em redor seja repleto de bênçãos.

 

 

Poema 

 

Possa o vento soprar doçura,

os rios fluírem doçura,

das ervas crescer doçura,

para o Homem da Verdade!

 

Doce seja a noite,

doce o amanhecer,

doce seja a fragrância da terra,

doce Pai do Céu!

 

 Possa a árvore dar-nos doçura,

 o sol brilhar com doçura,

 nossas vacas produzirem doçura —

 leite em abundância!

 

Versão de Carlos Mendonça Lopes a partir do inglês.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Arpad Szenes (1897-1985), Aldeia do Algarve, de 1975.

Tudo o que de bom as memórias da infância me trazem está associado a estas terras do Algarve, para onde os olhos se viram sempre, na busca desse desejado mundo harmonioso.

O Espírito do Natal por João Luís Barreto Guimarães

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Por mais que nos interroguemos sobre o sentido da euforia consumista pelo Natal nas sociedades cristãs, participar dela é inescapável sob pena de nos sentirmos irremediavelmente à margem. 

Desde a entrada em força no mercado da produção chinesa barata e abundante, à aproximação do Natal, os enfeites, os mais diversos ou delirantes surgem por todo o lado, numa atmosfera de artifício que marca de forma indelével a época. Entre eles, o pinheiro de natal é rei incontestado dos especimens, desde os mínimos de alguns centímetros aos enormes que as casas podem conter, e aos gigantes que decoram ruas e praças nas urbes. 

Num poema, O Espírito do Natal, que a seguir transcrevo, João Luís Barreto Guimarães (1967) dá, de certa forma, conta destes aspectos, embora sem a explicitarão que deixei antes. O poema debruça-se sobre o negócio e o apagamento progressivo de memórias de um tempo diferente, e, o mais grave, digo eu, o dano ambiental, não do abate descontrolado de pinheiros, mas do universo de plástico que tudo isto trás. O todo com concisão e o tom nonchalant que marca a sua poesia ao tratar da trivialidade dos dias.

 

 

O Espírito do Natal

 

Ano após ano em dezembro a

árvore artificial 

deixa o encerro da cave para ser 

uma luz no frio. É um pinheiro da China. Quem 

se deitar a fazer contas ao ágio 

dessoutro negócio 

(vinte e quatro mil escudos: 

já lá vão nove invernos) a 

coisa

está mais ou menos por 

dois contos e tal 

o Natal. Mau grado à sua copa 

(inerte e inodora) falte o 

olor a caruma dos natais da minha infância 

nela escudo a floresta que ficou por abater 

todo um mundo aloplástico que me 

sobreviverá.

 

Publicado em Luz Última, 2006, 2.ªed 2011.

Transcrito de João Luís Barreto Guimarães, poesia reunida, Quetzal Editores, Lisboa, 2011.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Mariotto Albertinelli (1574-1515), Nascimento de Cristo, de 1503, pertença da Galleria degli Uffizi de Florença.

A ilustração do artigo busca realçar o contraste entre a devoção e parcimónia original na comemoração do Natal, e a feérie consumista subjacente ao poema e às considerações prévias.

Carlos Drummond de Andrade — A vida apenas, sem mistificação

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No céu também há uma hora melancólica

Hora difícil, em que a dúvida penetra as almas

Por que fiz o mundo? Deus se pergunta 

e se responde: Não sei.

 

Assim abre o poema de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), Tristeza no Céu, relato silencioso do desabar do mundo em redor:

Todas as hipóteses: a graça, a eternidade, o amor, 

caem, são plumas.

 

Outra pluma, o céu se desfaz.

Tão manso, nenhum fragor denuncia

o momento entre tudo e nada,

ou seja, a tristeza de Deus.

 

 

É este descalabro em volta contado com a mansidão de tanta poesia de Carlos Drummond de Andrade que, num seu poema anterior,  Os ombros suportam o mundo, também nos surge. Nele, é melancolia escondida sob aparentes e ásperas certezas o que o poeta relata: … / És todo certeza, já não sabes sofrer. / E nada esperas de teus amigos. / …

Foram-se sonhos, esperanças … / Porque o amor resultou inútil. / E os olhos não choram. / E as mãos tecem apenas o rude trabalho. / E o coração está seco. / … e ficou um cerrar de dentes e seguir em frente, ou seja:

Chegou um tempo em que não adianta morrer.

Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.

A vida apenas, sem mistificação.

 

Esta vontade expressa de domar sentimentos e crenças, se por vezes somos tentados a ela, não é sem consequências, e tarde ou cedo elas, devastadoras, chegam…

Este verso, A vida apenas, sem mistificação., com que o poema Os ombros suportam o mundo termina, é uma falácia, pois A vida apenas, é tudo, incluindo a mistificação de que o poeta fala: a amizade, o amor. Ele, o poema, é o relato de um homem que sente o peso enorme da solidão involuntária: … / Ficaste sozinho, a luz apagou-se, / …

 

 

Eis os poemas integralmente:

 

 

Os ombros suportam o mundo

 

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.

Tempo de absoluta depuração.

Tempo em que não se diz mais: meu amor.

Porque o amor resultou inútil.

E os olhos não choram.

E as mãos tecem apenas o rude trabalho.

E o coração está seco.

 

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.

Ficaste sozinho, a luz apagou-se,

mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.

És todo certeza, já não sabes sofrer.

E nada esperas de teus amigos.

 

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?

Teus ombros suportam o mundo

e ele não pesa mais que a mão de uma criança.

As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios

provam apenas que a vida prossegue

e nem todos se libertaram ainda.

Alguns, achando bárbaro o espetáculo

prefeririam (os delicados) morrer.

Chegou um tempo em que não adianta morrer.

Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.

A vida apenas, sem mistificação.

 

in Sentimento do Mundo (1935-1940)

 

 

Tristeza no Céu

 

No céu também há uma hora melancólica

Hora difícil, em que a dúvida penetra as almas

Por que fiz o mundo? Deus se pergunta 

e se responde: Não sei.

 

Os anjos olham-no com reprovação 

e plumas caem.

 

Todas as hipóteses: a graça, a eternidade, o amor, 

caem, são plumas.

 

Outra pluma, o céu se desfaz.

Tão manso, nenhum fragor denuncia

o momento entre tudo e nada,

ou seja, a tristeza de Deus.

 

in José (1941-1942)

 

Poemas transcritos de Obra Completa, Companhia José Aguilar editora, Rio de Janeiro, 1967.

Abre o artigo a imagem de uma fotografia de Joel Meyerowitz (1938), Young Dancer, 34th Street and 9th Ave, de 1978.

 

A observação da vida num poema de Alberto de Serpa

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As experiências sensoriais são parte essencial da aprendizagem de si e do mundo. Ver é uma delas. Olhar e ver os outros é também um processo de aprendizagem como Alberto de Serpa (1906-1992) no poema Riqueza capta:

Corre, olhar, em roda!

O que te intimida?

A vida? Só toda 

Pode amar-se, a vida.

 

Amar a vida na sua diversidade e variabilidade no tempo é uma aprendizagem sempre inacabada. que o acumular dos anos vividos torna eloquente. É essa riqueza de contínua aprendizagem que o poema traz à nossa atenção.

 

Riqueza

 

Por parques e praças,

Ruas e travessas 

Tu, meu olhar, caças 

A vida. E tropeças.

 

Uma gargalhada 

Vem dum par contente.

Guarda-a bem guardada,

Mas caminha em frente.

 

Surgem-te sorrisos 

Dum lado e de outro lado,

Não faças juízos 

Rápidos. Cuidado!

 

Uma face grave 

Nada de revela?

Talvez a dor cave 

Só mais tarde, nela.

 

Num choro, num grito,

Pressentes a dor?

E quedas, aflito.

Segue, por favor.

 

Segue, bem aberto 

Para cada canto!

Olha o desconcerto 

Que parece tanto!

 

Corre, olhar, em roda!

O que te intimida?

A vida? Só toda 

Pode amar-se, a vida.

 

Poema transcrito de Luís Forjaz Trigueiros, Novas Perspectivas (Temas de Literatura 1962-68), União Gráfica, 1969.

O poema inclui-se na escolha “Para uma antologia do segundo modernismo”.

 

Abre o artigo a imagem de uma das máquinas concebidas por Jean Tinguely (1925-1991). A escultura, Sem título, de 1960, pertence ao Sprengel Museum de Hannover.

Na sua complicação e absurdo, é bem o retrato de como a vida às vezes nos parece. Observá-la ajuda a perceber e destrinçar melhor o essencial do acessório ou inútil.

 

 

João Lúcio — Um amor de dois perfumes

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Seremos poucos os que abrimos a porta ao sonho e deixamos que a poesia o pinte com versos de encantar. Para esses venho com um poema de João Lúcio (1880-1918), Um amor de dois perfumes, publicado no livro O Meu Algarve (1905)

O poema capta o colorido do imaginário algarvio em torno a feitiços e encantamentos de amor, frequentemente envolvendo belas jovens mouriscas e situações onde a água surge. Estes dois elementos essenciais à vida, água e amor, são os ingredientes que dão o sabor às histórias que pela poesia encantam, espalhadas em lendas associadas a locais, os mais diversos, por todo o Algarve. 

Do poeta João Lúcio soube mais tarde que foi residência e seu sonho de paraíso para a escrita, aquele palácio estranho e em ruínas que por momentos surgia entre os pinheiros por alturas de Marim, quando, no comboio, eu seguia de Tavira a caminho do liceu em Faro, pouco mais que criança, naquele início dos anos 60, tinha eu 10 anos, e ao alvor do dia tinha um ar de mistério no seu abandono e ruína. Quem ali teria morado e que acontecera? Por algum tempo mais ainda me intrigou. Depois, cresci, a ruína tornou-se familiar à vista, e o mistério deixou de me intrigar. A sua poesia é, de alguma maneira, a corporização do mistério que rodeava aquela casa. Hoje aqui o recordo.

O poeta, de curta vida e fama efémera, está hoje praticamente esquecido, afora as homenagens regionais, sobretudo na sua Olhão natal. 

Da poesia de João Lúcio escreveu Teixeira de Pascoaes (1877-1952) em Poetas Lusíadas (1919):

João Lúcio é o Algarve: um jardim de cores e lendas mouriscas, ao luar: […];

Às vezes, o jardim evolua-se num perfume, toma as proporções do Universo: […];

Mas o sol é o vinho que embriaga este poeta. Tem frases que são luz coalhada: […].

E com esta impressiva opinião, passemos ao poema:

 

 

Um amor de dois perfumes

 

Cantando junto dum lago,

Macio como o seu olhar, 

Que se não evaporava 

Só para ouvi-la cantar,

A branca visão serena,

Tão leve como a neblina,

Tinha a voz húmida e pura 

Como a da luz matutina.

Se ao lírio Deus desse o canto 

E desse voz à estrela,

Nunca, a estrela ou o lírio,

Cantariam como ela.

Encantada, que encantava 

Fora das humanas normas,

Era uma luz cinzelada,

Ou um aroma com formas.

A seus pés, o manso lago 

Desfalecia em desejos, 

Com a água arrepiada 

De carícias e de beijos.

Um trovador, que os seus olhos 

Conseguiram enlear,

Um trovador que ela amava,

Certo dia a quis beijar;

Da visão se evaporaram 

As formas tão olorosas, 

Deixando toldado o Ar 

Com um perfume de rosas.

— Não me beijes que te encantas —

Longínqua voz murmurou

Alá não quer que me beijem;

Inda ninguém me beijou… —

Junto ao lago adormecida,

Achou-a o trovador,

Numa noite em que as estrelas 

Andavam tontas de amor.

O lago enrolava as ondas,

Para ver se a alcançava,

E, ao cimo dessas ondas,

Beijos de prata mandava.

O trovador, de joelhos,

Tremendo de comoção,

No peito ouvia ruflar 

As asas do coração.

Ia, afinal, dar-lhe um beijo,

Tê-la, afinal, entre os braços;

Com ciúme e raiva, os astros 

Rugiam pelos espaços.

Poisou o beijo infinito 

Na boca fresca e mimosa,

Como uma asa de luz

Que poisa sobre uma rosa.

Realizou-se o que, Alá,

Já havia anunciado:

Beijou-a, evaporou-se,

Ficou também encantado…

Dois perfumes que voaram

Nessa noite alva e serena…

Por não tornar mais a vê-la,

Finou-se o lago de pena.

Erram, talvez, pelo Céu,

Entre os astros e as procelas,

Espalhando com os beijos

Novos enxames de estrelas;

Ou quem sabe, se na terra,

Prendeu Alá, esse amor,

E se vivem hoje os dois

No cálix dalguma flor!

 

Poema publicado no livro O Meu Algarve em 1905.

Transcrito de João Lúcio, Poesias Completas, edição organizada e prefaciada por António Cândido Franco, INCM, Lisboa, 2002.

Nota iconográfica 

Pensei abrir o artigo com uma imagem das ensolaradas paisagens pintadas por Henrique Pousão (1859-1884), tio do  poeta, mas do Algarve nada há. Assim, escolhi o mistério que sempre está associado a cada pintura de Picasso (1881-1973), qualquer que seja o seu nome evocativo, neste caso Seated Bather, óleo sobre tela do início de 1930 da colecção do MoMA de New York.

Vinicius de Moraes — Soneto da mulher ao sol e Os quatro elementos

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As horas de prazer voam ligeiras, as de espera custam a passam. Ocupá-las com poesia de Vinicius de Moraes (1913-1980) é ter boa companhia. E para quem aprecia o fogo por detrás das palavras eis uma escolha. São poemas do Livro de Sonetos e contam em palavras o que a acção consegue no caminho para o incêndio dos sentidos.

Poesia da carne feliz, nela o amor nunca é platónico, mas vivido na plenitude do sexo. Lê-la encanta e comove. Tanto do que gostaríamos de dizer, está ali na forma incomparável.

 

 

Soneto da mulher ao sol

 

Uma mulher ao sol — eis todo o meu desejo 

Vinda do sal do mar, nua, os braços em cruz 

A flor dos lábios entreaberta para o beijo 

A pele a fulgurar todo o pólen da luz. 

 

Uma linda mulher com os seios em repouso 

Nua e quente de sol — eis tudo o que eu preciso 

O ventre terso, o pêlo úmido, e um sorriso 

À flor dos lábios entreabertos para o gozo. 

 

Uma mulher ao sol sobre quem me debruce 

Em quem beba e a quem morda e com quem me lamente 

E que ao se submeter se enfureça e soluce 

 

E tente me expelir, e ao me sentir ausente 

Me busque novamente – e se deixa a dormir 

Quando, pacificado, eu tiver de partir… 

 

A bordo do Andrea C, a caminho da França, nov. 1956.

 

 

Depois deste sonhado e desejado prazer, um ciclo de quatro deliciosos e tematicamente originais sonetos: Os Quatro Elementos.

Reflectindo sobre a volúpia do contacto do corpo com a natureza, aqui os quatro elementos: terra, ar, água e fogo, lemos do prazer a sua enunciação. 

É no dispositivo narrativo que a originalidade dos sonetos surge. Temos um casal de amantes; a mulher amada quando exposta a cada elemento da natureza, um por soneto, desenvolve atitudes de prazer que desencadeiam o ciúme do amante e provocam a sua intervenção num comportamento de antes eu que ele, como se lerá a seguir…

 

 

OS QUATRO ELEMENTOS

 

I — O FOGO

 

O sol, desrespeitoso do equinócio

Cobre o corpo da Amiga de desvelos

Amorena-lhe a tez, doura-lhe os pelos

Enquanto ela, feliz, desfaz-se em ócio.

 

E ainda, ademais, deixa que a brisa roce

O seu rosto infantil e os seus cabelos

De modo que eu, por fim, vendo o negócio

Não me posso impedir de pôr-me em zelos.

 

E pego, encaro o Sol com ar de briga

Ao mesmo tempo que, num desafogo

Proibo-a formalmente que prossiga

 

Com aquele dúbio e perigoso jogo…

E para protegê-la, cubro a Amiga

Com a sombra espessa do meu corpo em fogo.

 

 

II — A TERRA

 

Um dia, estando nós em verdes prados

Eu e a Amada, a vagar, gozando a brisa

Ei-la que me detém nos meus agrados

E abaixa-se, e olha a terra, e a analisa

 

Com face cauta e olhos dissimulados

E, mais, me esquece; e, mais, se interioriza

Como se os beijos meus fossem mal dados

E a minha mão não fosse mais precisa.

 

Irritado, me afasto; mas a Amada

À minha zanga, meiga, me entretém

Com essa astúcia que o sexo lhe deu.

 

Mas eu que não sou bobo, digo nada…

Ah, é assim… (só penso) Muito bem:

Antes que a terra a coma, como eu.

 

 

III — O AR

 

Com mão contente a Amada abre a janela

Sequiosa de vento no seu rosto

E o vento, folgazão, entra disposto

A comprazer-se com a vontade dela.

 

Mas ao tocá-la e constatar que bela

E que macia, e o corpo que bem posto

O vento, de repente, toma gosto

E por ali põe-se a brincar com ela.

 

Eu a princípio, não percebo nada…

Mas ao notar depois que a Amada tem

Um ar confuso e uma expressão corada

 

A cada vez que o velho vento vem

Eu o expulso dali, e levo a Amada:

— Também brinco de vento muito bem!

 

 

IV — A ÁGUA

 

A água banha a Amada com tão claros

Ruídos, morna de banhar a Amada

Que eu, todo ouvidos, ponho-me a sonhar

Os sons como se foram luz vibrada.

 

Mas são tais os cochichos e descaros

Que, por seu doce peso deslocada

Diz-lhe a água, que eu friamente encaro

Os fatos, e disponho-me à emboscada.

 

E aguardo a Amada. Quando sai, obrigo-a

A contar-me o que houve entre ela e a água:

— Ela que me confesse! Ela que diga!

 

E assim arrasto-a à câmara contígua

Confusa de pensar, na sua mágoa

Que não sei como a água é minha amiga.

 

Montevidéu, abril de 1960.

Poemas transcritos de Livro de Sonetos, 3.ª edição, Editora Sabiá, Rio de Janeiro, 1967.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Tom Wesselmann (1931-2004). A pintura pertence à série Sunset Nudes (2002-2004).

 

Um milhão e meio de visitas ao blog

Ultrapassaram ontem o milhão e meio as visitas ao blog na contagem do WordPress.

Partindo da ideia feita de que a poesia não tem leitores, milhão e meio de visitas em menos de dez anos, a um blog votado à poesia sem propósitos de divulgação ou outros que não o prazer de escrever e partilhar um gosto ecléctico, que não conhece fronteiras ou tabus, é no mínimo motivo de espanto e sinalização.

Para a história da vida do blog, aqui fica um gráfico, e respectiva tabela, da evolução do número de visitas e visitantes ao longo destes 10 anos:

                   Gráfico do nº de visitas e visitantes desde o início do blog

                         Tabela do nº de visitas ao blog desde o seu início

Começado o blog em testes em Out/2009, a partir de Jan/2010, dei início à publicação de artigos com incerta regularidade. Hoje totalizam 950 os artigos publicados, este incluído.

Em média os visitantes do Brasil têm sido o dobro dos visitantes em Portugal, e os visitantes dos EUA são cerca de metade dos visitantes em Portugal. De muitos outros países chegam visitantes sem nunca atingirem números expressivos.

Estamos de parabéns todos: os poetas que produziram o mais importante que aqui se mostra, e os leitores que visitam, regressam e partilham o que no blog lhes agrada.

Por mim, obrigado por lerem, eu que escrevo para o leitor ideal, o meu eu-outro, que me conhece as intenções, decifra a escrita sub-liminar e detecta as intenções e ironias que cada artigo sempre contem. Daqui a alguns dias regresso com mais poesia.

Até lá…

Carlos Mendonça Lopes 

Notas iconográficas

A imagem inicial, icon festivo, foi realizada a partir de um original encontrado na net.

O gráfico e a tabela são os fornecidos pelo WordPress ao administrador do site.

 

A Noite e Cançonetas Báquicas para a Mesa escritas por Bocage

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Regresso à ligeireza e despreocupação, com o mundo da poesia neo-clássica e o poema A Noite, cançoneta anacreontica, escrito por Bocage (1765-1805). 

Trata-se de um poema inserido na tradição anacreontica, embora de muito maior extensão que o habitual. Esta tradição respeita a uma poesia codificada, com assunto e forma perfeitamente delineados pela convenção, e inspirada na colecção de poesias anacreonticas gregas de autores desconhecidos, provavelmente do periodo helenístico, cantando a despreocupação e uma atitude edonista perante a vida, privilegiando os prazeres do amor e da boa mesa. A colecção foi por longo tempo atribuída a Anacreonte, daí o nome genérico do género. Em A Noite, Bocage foge a este quadro temático, dando antes conta de uma traição de amor e do seu efeito devastador, mantendo no entanto, o ambiente da natureza como cenário, e a população mitológica como protagonista. 

Com um desenvolvimento e vocabulário em desuso, comecemos por conhecer a história relatada no poema para contornar eventuais dificuldades de leitura.

Na natureza, passava da noite a metade e a tranquilidade instalava-se. O lobo dormia, a rã rouquejava, esvoaçavam insectos e o mocho piava. O vento suave (favónio) amainara, era a hora de saciar o amor. O sussurro do rio desfazia a tristeza da noite sombria.

Um namorado trocado, sózinho, aos penedos clamava dos seus desgostos. Alagado em suores frios e da vida desiludido, alto pedia o fim ao destino: De que me aproveita / Viver desta sorte? / A vida é aos tristes / Mais agra*, que a morte. 

E vem agora a história do porquê de tão grande desgosto: Feliza, depois de promessas de fidelidade, trocou o poeta (Elmano) por um Vaqueiro que agora a acaricia, a beija, e ela retribui, e mais: Cedendo aos assaltos / De impuras carícias, / Também lhe franqueias / Vedadas delícias! 

Percebemos com facilidade o que acontece e o poeta com as Vedadas delícias eufemisticamente refere.

No auge do desespero pede o enamorado aos céus que o vinguem, e desmaia. Os ecos destes clamores chegaram aos deuses e estes, condoídos, levaram-nos à morada do deus Amor. Encontraram-no que dormia risonho, no regresso de uma aventura em que causara a humanos, sofrimentos de amor. Afastados aguardavam e vigiavam: desdéns, esperanças, sorrisos, prantos e mordazes suspeitas (afinal a panóplia de sentimentos contraditórios que amor inspira). Esperam que o deus Cupido com os clamores de Elmano acorde, mas o deus não desperta. É então que esses ecos dos clamores do desdenhado amante:

 pasmados 

O corpo lhe abalam, 

E apenas o acordam,

D’esta arte lhe falam: 

 

— É crível, Menino, 

Que durmas em paz 

Ao som de um gemido, 

Que penhas desfaz?

 

— Deixai-me, importunos, 

(Lhes brada o Travesso) 

Que ao som de suspiros 

É que eu adormeço.

 

 

Temos, pois, como lição nesta história de desespero de amor (q.b.) que resumi, como Amor só sossega quando faz suspirar, e Bocage conta, com o encanto da poesia anacreontica, usando a elegância e mestria versificatória que são suas. 

Segue o poema em ortografia modernizada.

 

 

A Noite 

 

A deusa, que esmalta 

De estrelas o céu, 

Ja tinha dobrado 

Metade do véu; 

 

O fero Inimigo 

Da ovelha medrosa 

Jazia ululando 

Na serra fragosa: 

 

A rã rouquejava 

No túrbido lago, 

Carpia entre as moitas 

O mocho aziago: 

 

De alados insectos 

Nos ares vagava 

Caterva lustrosa, 

Que as sombras doirava:

 

Os lassos favónios 

Dormiam nas flores, 

Enquanto velavam

Famintos amores: 

 

Susurro aprazível, 

Que o Tejo fazia, 

Coarctava a tristeza 

Da noite sombria. 

 

Então, solitário, 

Seu mal, seus segredos 

O lânguido Elmano 

Contava aos penedos. 

 

De gélidas gotas 

O rosto orvalhado, 

De zelos mordido, 

Da vida enjoado, 

 

Destinos! (clamava) 

Que assim retardais 

O termo infalível, 

Que imploram meus ais. 

 

De que me aproveita 

Viver desta sorte? 

A vida é aos tristes 

Mais agra(*), que a morte. 

 

Feliza deixou-me, 

Fugiu-me a perjura, 

Depois de votar-me 

Perene ternura: 

 

Fugiu-me, deixou me 

Curtindo a ansiedade, 

Que geram, que nutrem 

Ciúme, e saudade: 

 

Entre estes dois males 

Meu peito se sente, 

Qual entre dois lobos 

Cordeiro inocente. 

 

Ah céus! Tu, minha alma 

Tu, idolo meu, 

Manchando teus olhos 

No torpe Silêu! *

 

A mão, que no peito 

Me abriu funda chaga, 

Nojoso vaqueiro 

Te beija, te afaga! 

 

C’os bracos macios, 

Apoio das graças, 

O colo rugoso 

Lhe amimas, lhe enlaças 

 

Consentes-lhe, ingrata, 

Que libe, que empeste 

Nos teus doces lábios 

O néctar celeste! 

 

Cedendo aos assaltos 

De impuras carícias, 

Também lhe franqueias 

Vedadas delícias! 

 

Ah! Vinguem-me, estorvem 

Seus júbilos ternos 

Com raios, com fúrias 

Os céus, e os infernos. 

 

Aqui os sentidos 

Nas asas de um ai 

Lhe escapam, lhe fogem, 

E o mísero cai. 

 

Nas grutas os ecos 

Ao grito espertaram, 

E, dele doídos, 

A Amor, o levaram. 

 

Voando ao fragrante 

Vergel de Cythera, 

Por ti frequentado, 

Louçã Primavera, 

 

Encontram Cupido, 

Que há pouco voltara 

De empresa brilhante, 

Que ufano acabara. 

 

Folgavam do numen 

As carne mimosas

Em mole alcatifa 

De goivos, e rosas; 

 

Dormia, e na ideia 

Morfeo Ihe pintava 

Sanguíneos triunfos, 

Que o mundo chorava; 

 

Não longe, em silêncio, 

Pousavam encantos, 

Desdens, esperanças, 

Sorrisos, e prantos; 

 

Mordazes suspeitas, 

Que o deus vigiavam, 

Raivando, em si mesmas: 

Os dentes cevavam; 

 

Do tronco de um mirto 

Pendia o luzente 

Carcaz, salpicado 

De sangue inda quente; 

 

Nas pontas ervadas 

Dos áureos arpões 

Ainda arquejavam

Fiéis corações. 

 

A gárrula turma 

Rodeia cupido, 

Repete, anelante, 

De Elmano o gemido. 

 

Eis fremem os ventos, 

Eis aves alerta, 

Convulsos os montes, 

E Amor não desperta. 

 

Os Ecos, pasmados 

O corpo lhe abalam, 

E apenas o acordam,

D’esta arte lhe falam: 

 

— É crível, Menino, 

Que durmas em paz 

Ao som de um gemido, 

Que penhas desfaz?

 

— Deixai-me, importunos, 

(Lhes brada o Travesso) 

Que ao som de suspiros 

É que eu adormeço.

 

*

agra — amarga

Silêu — por facínora (Cf. mitologia os trabalhos de Heracles exigidos por Onfala).

 

Porque a vida são dois dias, e traições de amor que as leve o vento, passemos a algumas Cançonetas Báquicas para a Mesa escritas também por Bocage. Fazem elas a associação entre o amor e o vinho:

Amor, oh Baco, 

Tem por costume 

Juntar seu lume 

Com teu ardor. 

 

Inocentes brincadeiras poéticas, agora sim no espírito padrão da poesia anacreontica amplamente cultivada pelos poetas neo-clássicos do século XVIII português, nestes poemas elogiam-se os prazeres de beber vinho, e de caminho elucidam-nos da vantagem da sua associação ao amor:

Ambos se adorem 

Com igualdade, 

Tenha a vontade 

Mais de um Senhor. 

   Baco triunfe,

   Triunfe Amor.

 

Este Ambos se adorem / Com igualdade, / Tenha a vontade / Mais de um Senhor. com que a terceira canção acaba, é o resumo da postura edonista que esta poesia advoga como essencial numa filosofia de vida.

Eis as canções:

 

 

I

 

Amor é fonte 

De riso, e graça, 

Porém não passa 

De um só sabor: 

   O doce Baco 

   Tempera Amor. 

 

 

II

Baco entre o coro 

Das lindas Graças 

Exaure as taças 

De almo elixir: 

   Dum deus o exemplo 

   Cumpre seguir. 

 

 

III

Descuida-se Jove 

Na olímpica mesa 

Da suma grandeza, 

Do eterno poder; 

 

Consente um sorriso 

Nos lábios, que molha, 

E humano se antolha 

No gesto, no ser; 

 

A monotonia 

Dos bens, em que impera,

O néctar lhe altera, 

Lhe faz esquecer: 

 

O néctar, que adoça 

Mortais azedumes, 

Até entre os numes 

Matiza o prazer. 

   Se Jupiter. bebe, 

   Não hei-de eu beber? 

 

De Baco opulento 

Compõe-se o tesoiro, 

De pérolas, de oiro, 

Topázio, rubi. 

 

Do néctar sentindo 

Nas fauces o travo,

Misérrimo escravo 

Desdenha o Sufi. 

 

Lustrosas quimeras 

Lhe vagam na mente, 

Do mundo é contente, 

Contente de si. 

 

Amigos, libemos 

O pico sagrado, 

Tão mal condenado 

Na seita de Ali. 

 

Teimosos cuidados, 

Caterva importuna, 

Visões da fortuna, 

Deixai-nos, fugi.

   O nosso universo 

   Não passa daqui. 

 

Em torno a Baco 

Sussurra, adeja, 

Ri-se, graceja, 

Cintila Amor. 

 

Ao deus Idálio*

Baco é preciso, 

Dobra-lhe o riso, 

Lhe acende a cor. 

 

Amor, oh Baco, 

Tem por costume 

Juntar seu lume 

Com teu ardor. 

 

Ambos se adorem 

Com igualdade, 

Tenha a vontade 

Mais de um Senhor. 

   Baco triunfe,

   Triunfe Amor.

 

* deus Idálio — deus do Amor. Idálio, cidade de Chipre onde se praticou o culto a Afrodite, deusa do amor, e mãe de Eros.

Poemas transcrito de Rimas de Manoel Maria Barbosa du Bocage, Tomo I, segunda edição corrigida e aumentada, na Officina de Simão Thaddeo Ferreira, Lisboa, 1800.

Modernizei a ortografia.

Carlos Mendonça Lopes

Abre o artigo a imagem do pormenor de uma pintura atribuída a Charles André van Loo (1705-1765), Mercúrio e Argus.