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Alguns poemas de Fernando Guimarães

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Uma escrita velada, em que o pudor se alia à palavra, percorre a poesia de Fernando Guimarães (1928). São poemas densos, de sentimento e emoção contidos, onde uma imensa cultura espreita, e sobressai ao longo do tempo um quase constante diálogo com a música erudita.

É com saboreada demora que leio esta poesia. Os artefactos artísticos, sobretudo pintura, além da música, e que dão o mote à maior parte dos poemas, leva-me a navegar pela minha própria fruição deles.

Poesia que nos conduz para a dimensão estética da vida, na forma usa em grande extensão o soneto para o relato poético, exigente instrumento na concisão e rigor.

Escolho por este calor de verão alguns poemas entre os poucos que dão conta de uma terna visão do amor, toda ela feita da música do entendimento:

Escuta só a voz
que traz a harmonia
dos rios que prolongam
em nós a poesia

 

Num registo mais carnal, acrescento dois poemas recheados de belos versos. O primeiro publicado em 1956 no livro A Face junto ao Vento:
Vem esconder dentro de mim,
onde o teu ser a medo principia,

— desenho nu feito das
linhas da tarde e do horizonte…

e termino com o poema A Posse, publicado no livro Como Lavrar a Terra, em 1975:

Um rosto sobre o peito o que escutava?
A canção, um contorno de mamilos
breve, se erguida a curva nas espáduas
era o desejo, e calma, largos rios.

 

Eis os poemas:

 

Poema

Vem esconder dentro de mim,
onde o teu ser a medo principia,
a longa curva sem rosto ou fim
de uma harmonia

que não escutes mas
fique suspensa como uma fonte:
— desenho nu feito das
linhas da tarde e do horizonte…

 

A Posse

Que súbita suspeita — dália enorme —
passara como a sombra nos teus cílios,
se a manhã chega enquanto de nós foge
o tempo que já tinha destruído.

Um rosto sobre o peito o que escutava?
A canção, um contorno de mamilos
breve, se erguida a curva nas espáduas
era o desejo, e calma, largos rios.

Cabelos desgrenhados, fugitivos,
e vento não havia, ou quase chama
nos rins, na pele, um cancro que consome

este pecado casto, e já os lábios
se fecham, quando rápida ou mais funda
em nós cresceu a ferida dos sentidos.

Poemas transcrito de Algumas das Palavras, Poesia Reunida 1956-2008, edições Quasi, V. N. Famalicão, 2008.

Abre o artigo a imagem de um desenho de Henri Matisse (1869-1954) para poemas de Pierre de Ronsard (1524-1585).

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O vinho e a vida em poemas de Tao Yuanming

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eu por mim consagro-me a viver em solidão
já faz quarenta anos que a isso me dedico
com devoção e de acordo com a sábia natureza
o meu corpo envelheceu há muito tempo
mas os meus sentimentos continuam intactos,
por isso nada tenho a lamentar.

 

Esta reflexão faz o poeta clássico chinês Tao Yuanming (365-427) num poema que à frente transcrevo na totalidade.
À incerteza da vida e seu futuro, — Preocupações!? amanhã podes não ter nenhumas — responde o poeta em alguns poemas com um convite a gozar o momento que passa, e aproveitar a despreocupação e alegria que o vinho pode proporcionar:

 

Passeio ao longo do rio Xie

pego no jarro de vinho
e sirvo os meus companheiros
de copos cheios, bebemos e brindamos à vez
sem sabermos se amanhã ainda estaremos aqui
um pouco já alegres deixamos falar o coração
esquecendo as agruras da vida
não hesites, goza hoje
Preocupações!? amanhã podes não ter nenhumas

 

A vertigem do avançar do tempo — A vida depressa caminha para o nada, — e a incógnita do além, são linhas de reflexão poética que conduzem à evidência de valorizar o momento que passa, plasmadas no poema que segue:

 

 

Chuva incessante e eu bebendo só

A vida depressa caminha para o nada,
sempre assim foi e será
e se neste nosso mundo viveram imortais
como o Pinheiro Vermelho e Wang Chiao,
onde estão eles agora?
um ancião ofereceu-me vinho, garantindo-me a imortalidade
sendo assim bebo um pouco, não tenho nada a perder
aos primeiros golos deixei de sentir
ao fim de uns quantos copos até do céu me esqueci
mantém-te mas é fiel ao momento que passa
e às suas próprias coisas
pássaros de asas mágicas, viajam através das nuvens,
em oito direcções preparam a viagem de volta
eu por mim consagro-me a viver em solidão
já faz quarenta anos que a isso me dedico
com devoção e de acordo com a sábia natureza
o meu corpo envelheceu há muito tempo
mas os meus sentimentos continuam intactos,
por isso nada tenho a lamentar.

 

Além deste e outros poemas isolados reflectindo sobre o valor de carpe diem, o poeta escreveu um pequeno cancioneiro de 19 poemas e uma introdução, bebendo vinho, com uma densa interrogação sobre os tempos e as gentes, onde o vinho tem importante papel na ignição dessas reflexões.

 

Poemas transcritos de Poemas de Tao Yuanming (365-427), edição Livros do Meio, Macau, 2013.
Versão portuguesa de Manuel Afonso Costa.

Abre o artigo a imagem de uma escultura de Alberto Giacometti (1901-1966).

 

O silêncio, o desejo, e o prazer, com poemas de Paulo Silenciário

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Os prazeres da intimidade revestem para cada um as formas mais variadas, e nem sequer são sempre desejados nas mesmas condições. Na verdade, se no acto de amor há quem aprecie como adicional de excitação a manifestação audível dos caminhos do prazer, ocasiões haverá em que o silêncio é bem-vindo, se não mesmo indispensável. Aos leitores entrego o decifrar quando um ou outro apetece.

Em dois poemas que a seguir transcrevo, Paulo Silenciário (séc.VI) dá conta, primeiro do silêncio como escolha para sublimação do prazer na intimidade, e no segundo refere a necessidade do silêncio como resguardo de amores que não se querem públicos. Uma e outra situações em que se aceita com naturalidade que o silêncio intensifica o prazer.

 

O abraço silencioso

Tiremos, ó graciosa, as nossas vestes e, aproximando-nos, nus,
que os nossos corpos se enlacem.
Que nada exista entre nós, pois as tuas finas roupas
me parecem as muralhas de Semíramis.
Unamos os nossos peitos e os nossos lábios. Que tudo o mais
seja coberto pelo silêncio. Odeio a tagarelice.

 

O segredo

Ocultemos, Ródope, os nossos beijos
e os agradáveis e difíceis trabalhos de Cípris*.
É bom estar oculto e evitar o olhar
dos observadores que tudo perscrutam.
Os amores furtivos são mais saborosos
que os do conhecimento público.

* trabalhos de Cípris: trabalhos do amor

Traduções de Albano Martins
in Antologia da Poesia Grega Clássica, Edições Afrontamento, Porto, 2011.

 

Abre o artigo a imagem de um pormenor da pintura de Lucas Cranach, o Velho (1472-1553), Fonte da Juventude.

O Infinito — poema de Leopardi

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Invade-nos uma sensação estranha à leitura dos Cantos de Giacomo Leopardi (1798-1837). Há um sopro de vida nos gestos de quotidiano que são o assunto dos poemas, e neles surge o intemporal e o essencial da condição humana.

No poema L’Infinito de 1819, a meditação solitária envolvida pela natureza, a que com prazer nos entregamos, leva o pensamento umas vezes pelas interrogações existenciais, outras apenas pelo espanto da imutável natureza na sua indiferença às paixões humanas.

 

O Infinito

Cara me foi sempre esta erma colina
E esta sebe, que por diversos lados
O extremo do horizonte veda ao meu olhar.
Mas, sentado e olhando, intermináveis
Espaços para além dela, e sobrehumanos
Silêncios, e sossego profundíssimo
No pensamento imagino; então por pouco
O coração se não sobressalta. E, quando o vento
Nas folhas ouço sussurrar, aquele
Infinito silêncio a esta voz
Vou comparando: e lembro-me do eterno,
E das mortas estações, e da que agora passa
E vive, do seu rumor. Assim no meio
Desta imensidade o pensamento se me afoga:
E naufragar me é doce neste mar.

Tradução de Albano Martins
in Giacomo Leopardi, Cantos, Apresentação, seleção, tradução e notas de Albano Martins,  Vega, Gabinete de Edições, Lisboa, s/d.

O Infinito

Sempre cara me foi esta erma altura
Com esta sebe que por tanta parte
Do último horizonte a visão exclui.
Sentado aqui, e olhando, intermináveis
Espaços para além, e sobrehumanos
Silêncios, e profunda quietude,
Eu no pensar evoco; onde por pouco
O coração não treme. E como o vento
Ouço gemer nas ervas, eu àquele
Infinito silêncio esta voz
Vou comparando: e sobrevem-me o eterno,
E as idades já mortas, e a presente
E viva, e seu ruído… Assim, por esta
Imensidade a minha ideia desce:
E o naufragar me é doce neste mar

Tradução de Jorge de Sena
in Poesia de 26 Séculos, Antologia, tradução, prefácio e notas de Jorge de Sena, Fora do Texto, Coimbra, 1993.

 

Poema original

 

L’Infinito

Sempre caro mi fu quest’ermo colle,
E questa siepe, che da tanta parte
Dell’ultimo orizzonte il guardo esclude.
Ma sedendo e mirando, interminati
Spazi di là da quella, e sovrumani
Silenzi, e profondissima quiete
Io nel pensier mi fingo; ove per poco
Il cor non si spaura. E come il vento
Odo stormir tra queste piante, io quello
Infinito silenzio a questa voce
Vo comparando: e mi sovvien l’eterno,
E le morte stagioni, e la presente
E viva, e il suon di lei. Cosi tra questa
Immensita s’annega il pensier mio:
E il naufragar m’è dolce in questo mare.
(1819)

Transcrito de Leopardi, Canti, con uno scritto di Giuseppe Ungaretti, Arnaldo Mondadori Editore S.p.A., Milão, 1987.

 

Abre o artigo a imagem de uma aguarela de William Baziotes (1912-1963).

Canção de Baco — poema de Lorenzo de Medici

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Damas e jovens amantes,
viva Baco e viva Amor!
Haja bailes e descantes!
Arda o peito em doce ardor!

 

Estes versos dão o tom do poema de Lorenzo de Medici (1449-1492), Canzona di Bacco, que a seguir transcrevo em tradução de Jorge de Sena.

Associar ao vinho a festa da vida, da alegria, do amor, são aspectos recorrentes na poesia lírica antiga no ocidente. Neste poema o Príncipe Magnífico, poeta maior entre a meia dúzia de grandes poetas da renascença italiana, retoma a atmosfera festiva da lírica grega  e romana com o seu cortejo de seres mitológicos, vivendo num mundo encantado de harmonia e de prazer. Mergulhemos nele, pelo menos enquanto a leitura dura:

 

 

Canção de Baco

Quanto é bela a mocidade
que se escapa tão andeja!
Aí seja alegre quem seja:
de amanhã nada se sabe.

Este é Baco mais Adriana,
belos ambos, mui ardentes:
porque o tempo foge e engana,
sempre um do outro vão contentes.
Estas ninfas e outras gentes,
não há del’s triste quem esteja.
Ai seja alegre quem seja:
de amanhã nada se sabe.

Estes sátiros joviais,
destas ninfas namorados,
por cavernas e pinhais,
mil ardis lhes têm lançados,
ou por Baco já esquentados
saltam de amor que lampeja.
Ai seja alegre quem seja:
de amanhã nada se sabe.

Estas ninfas têm temor
de sofrer um desacato:
mas só se queixa do amor
quem seja rude e ingrato.
Ora em tumulto gaiato
dançam de fazer inveja.
Ai seja alegre quem seja:
de amanhã nada se sabe.

Este monstro que vem pronto
sobre um burro, esse é Sileno,
assim velho e alegre e tonto,
de carne e anos bem pleno:
se não monta sem empeno,
ao menos ri-se e festeja.
Ai seja alegre quem seja:
de amanhã nada se sabe.

Este a seguir é o rei Midas
que o que toca ouro se faz.
Mas que importam tais validas,
se tesouros não dão paz?
Tem prazer quem sempre jaz
na sede de que vasqueja?
Ai seja alegre quem seja:
de amanhã nada se sabe.

Abram todos as orelhas:
do amanhã não haja empachos,
hoje sejam novas, velhas,
ledos todos, fêmeas, machos!
Tristezas vão prós diachos,
e contente tudo esteja.
Ai seja alegre quem seja:
de amanhã nada se sabe.

Damas e jovens amantes,
viva Baco e viva Amor!
Haja bailes e descantes!
Arda o peito em doce ardor!
Fora coitas, fora a dor!
O que tem de ser que seja.
Ai seja alegre quem seja:
de amanhã nada se sabe.

Tradução de Jorge de Sena
Transcrito de Poesia do Século XX, Antologia, tradução, prefácio e notas de Jorge de Sena, Fora do Texto, Coimbra, 1994.

Poema original

 

Canzona di Bacco

Quant’è bella giovinezza,
che si fugge tuttavia!
chi vuol esser lieto, sia:
di doman non c’è certezza.

Quest’è Bacco e Arïanna,
belli, e l’un dell’altro ardenti:
perché ’l tempo fugge e inganna,
sempre insieme stan contenti.
Queste ninfe ed altre genti
sono allegre tuttavia.
Chi vuol esser lieto, sia:
di doman non c’è certezza.

Questi lieti satiretti,
delle ninfe innamorati,
per caverne e per boschetti
han lor posto cento agguati;
or da Bacco riscaldati
ballon, salton tuttavia.
Chi vuol esser lieto, sia
di doman non c’è certezza.

Queste ninfe anche hanno caro
da lor essere ingannate:
non può fare a Amor riparo
se non gente rozze e ingrate:
ora, insieme mescolate,
suonon, canton tuttavia.
Chi vuol esser lieto, sia:
di doman non c’è certezza.

Questa soma, che vien drieto
sopra l’asino, è Sileno:
così vecchio, è ebbro e lieto,
già di carne e d’anni pieno;
se non può star ritto, almeno
ride e gode tuttavia.
Chi vuol esser lieto, sia:
di doman non c’è certezza.

Mida vien drieto a costoro:
ciò che tocca oro diventa.
E che giova aver tesoro,
40s’altri poi non si contenta?
Che dolcezza vuoi che senta
chi ha sete tuttavia?
Chi vuol esser lieto, sia:
di doman non c’è certezza.

Ciascun apra ben gli orecchi,
di doman nessun si paschi;
oggi siam, giovani e vecchi,
lieti ognun, femmine e maschi;
ogni tristo pensier caschi:
facciam festa tuttavia.
Chi vuol esser lieto, sia:
di doman non c’è certezza.

Donne e giovinetti amanti,
viva Bacco e viva Amore!
Ciascun suoni, balli e canti!
Arda di dolcezza il core!
Non fatica, non dolore!
Ciò c’ha a esser, convien sia.
Chi vuol esser lieto, sia:
di doman non c’è certezza.

 

Abre o artigo a imagem de um detalhe da pintura de Nicolas Poussin (1594-1665), Bacanal frente à estátua de Pan, da coleção da National Gallery de
Londres.
Entre os poemas encontramos a imagem de uma gravura de Giulio Bonasone (1498-1576), Sileno bêbado.

 

 

Foge-me pouco a pouco a curta vida — A sextina de Camões

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Dar em palavras a medida do sentimento, seja ele felicidade, alegria, tristeza ou desespero, é esse o génio de Luís de Camões (1524-1580) na sua faceta mais cativante: a lírica, fazendo uso das formas poéticas em uso no tempo. E uma vez mais, na única sextina que escreveu, encontramos a fluência da expressão amorosa sem que nos apercebamos imediatamente do espartilho das exigências estróficas e de rima que a construção de uma sextina reclama.

 

Numa sextina, poema com seis estrofes de seis versos cada e um terceto final, são seis as palavras que constituem as rimas ao longo dos seis sextetos do poema. Na composição de Camões são elas: vida, vivo, olhos, falo, passo, pena, as quais devem surgir uma a uma no final de cada verso de uma estrofe de seis versos. Estas palavras, sempre as mesmas, surgem nas estrofes seguintes em ordem diferente da primeira estrofe. No terceto final estas seis palavras são repetidas duas a duas em cada verso, uma a meio, outra no final do verso.

 

Construir um poema comovente em que o leitor caminha sem dar conta desta estrutura cerrada, é a proeza de Camões nesta obra singular:


Morrendo estou na vida, e em morte vivo;
Vejo sem olhos, e sem língua falo;
E juntamente passo glória e pena.

 

É um desgosto mortal, e um desgosto de amor, o relatado por Camões neste poema, ao ponto de lhe parecer a existência sem qualquer sentido:

Que mais me monta ser morto que vivo?
Pera que choro, enfim? Pera que falo,
Se lograr-me não pude de meus olhos?

Sabemos a seguir que tanto desgosto decorre de não poder ver a quem ama:


Ó fermosos gentis e claros olhos,
Cuja ausência me move a tanta pena

 

E é no choro que o apaixonado, confrontado com a ausência da amada, algum consolo encontra:


Mas, sobre a maior dor que sofro e passo
Me temperam as lágrimas dos olhos;
Com que, fugindo, não se acaba a vida.

 

 

SEXTINA

Foge-me, pouco a pouco, a curta vida,
Se por acaso é verdade que inda vivo;
Vai-se-me o breve tempo de entre os olhos;
Choro pelo passado; e, enquanto falo,
Se me passam os dias passo a passo.
Vai-se-me, enfim, a idade e fica a pena.

Que maneira tão áspera de pena!
Pois nunca uma hora viu tão longa vida
Em que posso do mal mover-se um passo.
Que mais me monta ser morto que vivo?
Pera que choro, enfim? Pera que falo,
Se lograr-me não pude de meus olhos?

Ó fermosos gentis e claros olhos,
Cuja ausência me move a tanta pena
Quanta se não compreende enquanto falo!
Se, no fim de tão longa e curta vida,
De vós me inda inflamasse o raio vivo,
Por bem teria tudo quanto passo.

Mas bem sei que primeiro o extremo passo
Me há-de vir a cerrar os tristes olhos,
Que amor me mostre aqueles por que vivo.
Testemunhas serão a tinta e pena
Que escreverão de tão molesta vida
O menos que passei, e o mais que falo.

Oh! que não sei que escrevo, nem que falo!
Que se de um pensamento noutro passo,
Vejo tão triste género de vida
Que, se lhe não valerem tanto os olhos,
Não posso imaginar qual seja a pena
Que traslade esta pena com que vivo.

Na alma tenho contino um fogo vivo,
Que, se não respirasse no que falo,
Estaria já feita cinza a pena;
Mas, sobre a maior dor que sofro e passo
Me temperam as lágrimas dos olhos;
Com que, fugindo, não se acaba a vida.

Morrendo estou na vida, e em morte vivo;
Vejo sem olhos, e sem língua falo;
E juntamente passo glória e pena.

Luís de Camões, Lírica Completa, edição de Maria de Lurdes Saraiva, INCM, Lisboa, 1980.

 

 

Abre o artigo a imagem de um pormenor de um fresco de Bronzino (1503-1572) no Palazzo Vechio de Florença.

 

Tem alguma importância? — consequências da guerra num poema de Siegfried Sassoon

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À medida que as gerações que viveram a experiência directa das guerras mundiais do século XX desaparecem, e deixam de ter peso eleitoral nas democracias ocidentais, a retórica nacionalista que a elas conduziu reaparece e aviva a chama onde ela verdadeiramente nunca se extinguiu.
A paz de que a Europa Ocidental tem usufruído nos últimos 70 anos é sem paralelo na sua história, e é uma conquista frágil, sempre à beira de desaparecer, esmoreça a vontade dos homens para a preservar.

 

Lembrar as consequências da guerra, de qualquer guerra, é um exercício de higiene mental  que vale a pena continuar a fazer. E não são só as estatísticas de mortos e destruições, são sobretudo os casos de A ou B que conhecemos, ou alguém perto de nós conheceu que nos podem tocar mais directamente e fazer interiorizar o que não queremos que volte a acontecer.

 

Entre os poemas de Siegfried Sassoon (1886-1967), poeta e soldado que viveu a experiência da WWI, escolho o poema Tem alguma importância? no qual se evidencia o contraste entre a tragédia pessoal de quem experimentou a carnificina guerreira, e a atmosfera social que, respeitando-a, a incorpora na banalidade dos dias, desresponsabilizando-se cada um da sua contribuição, eventualmente pela indiferença ou complacência, se não mesmo aplauso, para que tivesse acontecido

 

Vivemos hoje pelo mundo uma atmosfera atroadora de apelos à discórdia, à quezília, ao ódio, indutora dos desastres de guerra que outras gerações viveram.
Talvez a cada geração não baste a memória da tragédia dos outros e precise viver directamente a sua. Cabe a quem não o aceita, a exigência de contra ela erguer a voz.

 

 

Tem alguma importância?

Tem alguma importância? — ficar sem pernas?…
As pessoas serão sempre tão bondosas.
E não deves mostrar que te impressiona
Ver os outros, que voltam da caçada
Devorar bolinhos de leite e bacon com ovos.

Tem alguma importância? — ficar cego?…
Há admiráveis obras de assistência aos cegos.
E as pessoas serão sempre tão bondosas;
Enquanto te sentas na varanda, a recordar
E viras a cara para o calor do Sol.

Têm alguma importância? — estes pesadelos do poço?…
Podes beber, esquecer, acabar embriagado.
E as pessoas não vão espalhar que tu estás louco:
Sabem que te bateste pela pátria
E ninguém quer viver incomodado.

Tradução de Victor Palla
in Poemas do Inglês, Ler Editora, Lisboa, 1985.

 

 

Poema original

 

Does it matter?

Does it matter? -losing your legs?
For people will always be kind,
And you need not show that you mind
When others come in after hunting
To gobble their muffins and eggs.

Does it matter? -losing you sight?
There’s such splendid work for the blind;
And people will always be kind,
As you sit on the terrace remembering
And turning your face to the light.

Do they matter-those dreams in the pit?
You can drink and forget and be glad,
And people won’t say that you’re mad;
For they know that you’ve fought for your country,
And no one will worry a bit.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de George Grosz (1893-1959).

 

Ainda o envelhecimento e o amor perene num poema de Ada Negri

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Quanto permanece em nós de um intenso amor que se quebrou? No poema de Ada Negri (1870-1945), Aquele que passa, é uma resposta a esta interrogação que encontramos. Não é evidentemente a única. Depende apenas de como terminou, e de como em nós ele viveu.

 

Amores há em que a partilha é tal que à medida do passar do tempo fica progressivamente indistinta a parte que em cada um é original e de raiz, e qual parte é a absorção do outro que se ama no desejo de simbiose que esse amor traz. É de um amor algo assim que o poema de Ada Negri nos fala:


E em ti não há membro nem ponta de carne ou átomo de alma que não tenha uma marca de amor.
Que tu viveste apenas para amar aquele que te amava,

 

E este amor na sua força, contraria o envelhecimento, no sentido de gastar a vida que passou. Diz-nos o poema quanto um amor intenso é fonte de juventude perene:

O desconhecido que passa e te acha ainda digna de uma fugidia palavra de desejo,

E nem que quisesses podias arrancar de ti essa veste que o amor teceu.
Ele, ignaro, em ti já não bela, em ti já não jovem, saúda a graça do deus:
Respira, passando, em ti já não bela, em ti já não jovem, o aroma precioso do deus:

 

 

Aquele que passa

O desconhecido que passa e te acha ainda digna de uma fugidia palavra de desejo,
Talvez porque na sombra da noite tão doce de Maio
Ainda resplendem teus olhos, ainda tem vinte anos a ligeira figura deslizante,
Não sabe que foste amada, por aquele que amaste amada, em plena e soberba delícia de amor,
E em ti não há membro nem ponta de carne ou átomo de alma que não tenha uma marca de amor.
Que tu viveste apenas para amar aquele que te amava,
E nem que quisesses podias arrancar de ti essa veste que o amor teceu.
Ele, ignaro, em ti já não bela, em ti já não jovem, saúda a graça do deus:
Respira, passando, em ti já não bela, em ti já não jovem, o aroma precioso do deus:
Só porque o levas contigo, doce relíquia à sombra de um sacrário.

 

Tradução de Jorge de Sena
Transcrito de Poesia do Século XX, Antologia, tradução, prefácio e notas de Jorge de Sena, Fora do Texto, Coimbra, 1994.

 

 

Abre o artigo a imagem de um desenho de Arpad Szenes (1897-1985) com um retrato de Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992). Para os leitores familiarizado com a biografia do casal de pintores, talvez seja menos despropositada a razão da escolha desta imagem para acompanhar este poema.

 

O Amor Antigo segundo Carlos Drummond de Andrade

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Viver um amor antigo é uma experiência aberta a poucos, pois primeiro é preciso que o tempo passe e o prove. As vicissitudes, a ambição de realização individual, os encontros/desencontros ocasionais que podem fazer trocar o certo pelo incerto, tudo ajuda a que o amor se desvaneça. E chegados a certa idade da vida, afinal o que se supôs à partida amor eterno esfumou-se.
Para aqueles a quem ele permaneceu, surge como uma dádiva, como o escreve Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) no poema O Amor Antigo:
… Ele venceu a dor, / e resplandece no seu canto obscuro, / tanto mais velho quanto mais amor.

 

O Amor Antigo

O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.

in Amar se aprende amando, Editora Record, Rio de Janeiro e São Paulo, 1987.

 

Abre o artigo a imagem do pormenor de uma pintura de Fra Filippo Lippi (1406-1469).

Amor e afastamento no soneto 44 de Shakespeare

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Uma vez mais amor e afastamento são o pretexto para a poesia, aqui o soneto 44 de Shakespeare (1564-1616) numa peculiar versão de Vasco Graça Moura (1942-2014), o qual nos dá um belíssimo soneto em português.
Recusando aqui e ali a fidelidade lexical, a tradução de Vasco Graça Moura transporta para português a especiosa forma da expressão shakespeariana, como certamente os leitores com domínio do inglês comprovam pela leitura do original que à frente também transcrevo.

 

Soneto 44

Fosse-me carne opaca pensamento,
a vil distância não me deteria
e de remotos longes num momento
até onde te encontras eu viria.
Nem importava que tivesse os pés
no ponto que é de ti mais afastado:
o pensamento vai de lés a lés
mal pensa no lugar a que é chamado.
Mas mata-me pensar que em mim não pensas
para saltar as milhas quando vás;
feito de terra e água em partes densas,
espero em ânsias o que o tempo traz.
  Nem lentos elemento trazem mais
  do que choros, da nossa dor sinais.

Tradução de Vasco Graça Moura
in Os Sonetos de Shakespeare, versão integral, Bertrand Editora, 2007.

 

 

SONNET 44

If the dull substance of my flesh were thought,
Injurious distance should not stop my way;
For then, despite of space, I would be brought,
From limits far remote, where thou dost stay.
No matter then although my foot did stand
Upon the farthest earth removed from thee,
For nimble thought can jump both sea and land
As soon as think the place where he would be.
But ah, thought kills me that I am not thought,
To leap large lengths of miles when thou art gone,
But that, so much of earth and water wrought,
I must attend time’s leisure with my moan,
  Receiving naught by elements so slow
  But heavy tears, badges of either’s woe.

Transcrito de The Oxford Shakespeare, Complete Sonnets and Poems, Oxford 2002.

 

 

 

Abre o artigo a imagem de um fragmento da pintura de Antonio del Pollaiuolo (1431-1499), Apolo e Dafne, da coleção da National Gallery de Londres.