Imóvel, desperto com A Partida

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A partida

 

Com açúcar, com afecto,
O meu doce predilecto
Pra dizer na estação,
— Pela voz do coração:
Como eu amo você.

 

Vejam só o que me cantou na cabeça ao acordar hoje. Que surpresa!
Parcialmente imobilizado por um aleijão no tornozelo, nem música nem poesia me chamam. Com este despertar devo estar a melhorar.

Talvez a poesia em breve aqui regresse. Até lá há no blog bem mais de oitocentos artigos com poesia para saciar os mais sedentos. É só circular ao acaso por aqui.
Abro o apetite aos menos afoitos com um amuse-bouche pessoano, escrito por um jovem Fernando quando o mundo ainda girava ao som de valsas, as que agora são apenas de Ano Novo.

O artigo foi aqui publicado ainda na era pré-Trump que agora parte. Deixará o mundo antigo saudades?

 

Na minha ontologia pessoal surge por vezes a ideia de que Deus será uma entidade bem disposta apesar da perplexidade que nos assalta tantas das vezes que olhamos em redor. Penso até que uma vez por outra talvez se ria com algumas das criações das suas criaturas. Vem isto à conversa porque certo dia de angustiosas dúvidas fui levado a ler entre outros os textos de Fernando Pessoa que a seguir refiro. Fosse para me fazer rir, fosse para dar a ver que sob o mais circunspecto de cada personalidade pode sempre encontrar-se o inesperado, o que segue é que as gargalhadas afastaram as angustias da minha meditação.

Longe de assumpções metafísicas a que muitas vezes a poesia de Fernando Pessoa conduz, eis algumas brejeirices do poeta, tanto juvenis como da idade madura.

Entre os “Primeiros Outros” personagem imaginados por Pessoa, como lhes chamou Teresa Rita Lopes, surge-nos a abrir o Dr. Pancrácio de quem nos chegaram poesias do lado serio e algumas jocosas, qual este epigrama de 1905, tinha o poeta 17 anos:

Epigrama do Dr.Pancrácio

O poeta Brás Ferreira
Discute co’o primo Bento
Se kágado tem o acento
Na segunda ou na primeira.

Grita-lhe a mulher, “Ó Brás,
Acaba co’a discussão;
É bem facil a questão:
O assento está sempre atráz.”

[c. 17-09-1905]

Dando conta de uma profundidade diferente, aparece-nos, sem data, o Dr. Nabos, produtor de ditos de espírito merecedores de atenção, e de quem retenho este pensamento capaz de revolucionar geometrias:

Metaphysica do Dr. Nabos:

Quem sabe se duas paralelas se não encontram quando a gente as perde de vista? s/d

Passemos com a dúvida sobre o encontro das paralelas à certeza de que corpo sobre brasa queima. Como nesta história acontecida ao Soba de Biká:

O SOBA DE BIKÁ

Tra j édia

O soba de Biká, maravilhoso gajo,
Constantemente usava um admirável trajo
Que era feito de pele e de coisa nenhuma.
Havia uma harmonia entre ele e o trajo; em suma,
O soba de Biká, ou de noite ou de dia,
Era sempre da cor do trajo que vestia.
Mas o soba, coitado!, um dia em sua casa,
Sentou-se por descuido em cima de uma brasa,
E, em vez de gritar “Ai, minhas calças!”, “Uh!”,
Gritou ele, esquecendo o trajo, “ai o meu cu!”

Outro dos aspectos menos frequentes na obra do poeta é o amor e o sexo, mas para ele também lá temos qualquer coisa:

O amor é que é essencial.
O sexo é só um acidente.
Pode ser igual
Ou diferente.
O homem não é um animal:
É uma carne inteligente,
Embora às vezes doente.

Acrescento esta enigmática evocação dos mistérios do sexo:

Um par de montes iguais
Abre a estrada do prazer.
Quem chega lá quer ver mais,
Quem vê mais nada mais quer.

Termino com uma prodigiosa definição aplicável ao incerto verão que temos tido.

DIFERENÇA DE PESSOA

Que lindo dia o que vemos!
Mas, como estes tempos vão,
É bom que não confiemos…
É melhor dizer que temos,
Não um dia de verão,
Mas um dia de veremos.

Os poemas foram transcritos de Poesia 1931-1935 e não datada, ed. Manuela Parreira da Silva al., Assírio & Alvim, Lisboa, 2006; Pessoa por conhecer II, Textos para um novo mapa, edição de Teresa Rita Lopes, Editorial Estampa, Lisboa, 1990; Poesia do Eu, antologia organizada por Richard Zenith, edição Assírio & Alvim, Lisboa, 2006.

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Madrigal da terceira idade para afastar a solidão

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edouard-manet-le-bon-bock-portrait-of-emile-bellot-500pxExiste cada vez mais a consciência de que a vida afectiva não se extingue progressivamente à medida que a idade avança. Pelo contrário, mesmo entre quem envelhece, o reconhecimento da satisfação afectiva para o conjunto do equilíbrio funcional ganha terreno, tal como junto da família que vê os seus maiores envelhecer. Apenas o envelhecimento do corpo dita as adaptações ao exercício dessa afectividade.

 

De uma forma suave e tocante, António Manuel Couto Viana (1923-2010) no poema que a seguir transcrevo — Madrigal da terceira idade para afastar a solidão — dá conta dessa manifestação da necessidade afectiva numa vida em idade avançada: o poeta tinha 82 anos quando o escreveu.

 

 

 

Madrigal da terceira idade para afastar a solidão

 

É um amor discreto,
Ignorado, até.
Só um gesto de afecto,
Um sorriso secreto,
Desfeito, se alguém vê.

 

É um amor tranquilo,
De alguém que quer alguém
Prá solidão do asilo.
— Coração, ao senti-lo,
Nem aceleras, nem…

 

É um amor-amizade.
Um amor-simpatia.
Mas, mesmo assim, ele há-de
Deixar dor e saudade
E gerar poesia.

 

24-11-2005

 

in Disse e Repito, Averno, Lisboa, 2008.

Teixeira de Pascoaes — Elegia de Amor

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chagall-o-sonho-1968-500pxMuita da poesia de amor que a humanidade conhece surgiu como forma de gerir a perda, umas vezes brusca e inesperada, outras induzida por adversidades diversas. Para este vazio que a perda do amor criou, a poesia foi o consolo.

 

Na poesia portuguesa ao longo dos séculos, ainda que as imagens para dar conta de todo este desgosto se repitam, a forma de as colocar poeticamente tem variações quase infinitas atingindo por vezes alturas de espanto, e o tantas vezes lido toca-nos a corda da emoção, qual seja, por exemplo, a leitura destes versos de um soneto de António Ferreira (1528-1569):

 


Assim com o espírito triste, o juízo escuro,
Suas santas pisadas vou buscando
Por vales, e por campos, e por montes.
Em toda a parte a vejo e a figuro.
Ela me toma a mão e vai guiando,
E meus olhos a seguem feitos fontes.

 

 

Nestes seis versos condensa António Ferreira os sentimentos que séculos mais tarde Teixeira de Pascoaes  (1877-1952) desenvolveu em parte do longo poema Elegia de Amor a que hoje convido os leitores.

 

O poema, imenso, desenvolve-se como memória numa primeira parte:

 


Olhavas para mim… / Meu corpo rude e bruto / Vibrava, como a onda / A erguer-se em nevoeiro! Olhavas descuidada… / Oh dor, ainda hoje escuto / A música ideal / Do teu olhar primeiro!
Ouço bem tua voz, / E vejo bem teu rosto, / No silêncio sem fim, / Na escuridão completa!
Ouço-te em minha dor, / Ouço-te em meu desgosto; / Vejo-te em meu sonho / Eterno de poeta!

 

Na segunda parte o poeta desenvolves a evocação fantasmal da amada:

 


Descubro-te, mulher, / Na Natureza inteira,

Se passo por um lírio, / Às vezes, distraído, / Chama por mim, dizendo: / “Oh, não te esqueças dela!”

Não encontro uma flor, / Sem o teu nome ouvir… / Não posso olhar o céu, / Sem me lembrar de ti!…

 

 

O conjunto dos sentimentos que percorrem poema surge ao leitor de hoje um pouco estranho, ainda que esta osmose entre o físico do desejo humano e a emoção da natureza soe sincera:

 


Acordo, de repente, / E vejo, no meu quarto / O sol entrar, sorrindo, / Julgo ver, ante mim, / Teu corpo resplendente, / Tua trança de luz, / Teu gesto suave e lindo…

 

Depois do aperitivo, entrego-o, leitor, ao poema:

 

 

 

Elegia de Amor

I

Lembras-te, meu amor,
Das tardes outonais,
Em que íamos os dois,
Sozinhos, passear,
Para fora do povo
Alegre e dos casais,
Onde só Deus pudesse
Ouvir-nos conversar?…
Tu levavas na mão
Um lírio enamorado;
E davas-me o teu braço
E eu, pálido, sonhava
Na vida, em Deus, em ti…
E ao longe, o sol doirado
Morria, conhecendo
A noite que deixava…
Harmonias astrais
Beijavam teus ouvidos,
Um crepúsculo terno
E doce diluía
Na sombra, o teu perfil
E os montes doloridos…
Erravam, pelo azul,
Canções do fim do dia…
Canções que, de bem longe,
O vento vagabundo
Trazia, na memória…
Assim o que partiu
Sobre as águas do mar
E vem de ver o mundo,
Traz, no seu coração,
A imagem do que viu…
Olhavas para mim,
Às vezes, distraída,
Como quem olha o mar,
À tarde, dos rochedos…
E eu ficava a sonhar,
Qual onda adormecida,
Quando o vento também
Dorme nos arvoredos…
Olhavas para mim…
Meu corpo rude e bruto
Vibrava, como a onda
A erguer-se em nevoeiro!
Olhavas descuidada…
Oh dor, ainda hoje escuto
A música ideal
Do teu olhar primeiro!
Ouço bem tua voz,
E vejo bem teu rosto,
No silêncio sem fim,
Na escuridão completa!
Ouço-te em minha dor,
Ouço-te em meu desgosto;
Vejo-te em meu sonho
Eterno de poeta!
O sol morria ao longe…
E a sombra da tristeza
Velava com amor
Nossas doridas frontes…
Hora em que a flor medita
E a pedra chora e reza
E erguem as mãos de bruma
Ao céu, as tristes fontes…
Hora santa em que nós,
Felizes e sozinhos,
Íamos através
Da aldeia muda e calma,
Mãos dadas, a sonhar,
Ao longo dos caminhos…
Tudo em volta de nós
Tinha um aspecto de alma!
Tudo era sentimento,
Amor e piedade…
A folha que tombava
Era alma que subia…
E, sob os nossos pés,
A terra era saüdade,
A Pedra comoção
E o pó melancolia…
Falavas do luar,
Dos bosque, mais do amor;
Dos ceguinhos sem pão,
Dos pobres sem um manto…
Em cada tua palavra
Havia etérea dor;
Por isso a tua voz
Me impressionava tanto!
E ficava a cismar
Que eras tão boa e pura,
Que, em breve, oh dor fatal,
Te chamaria o céu!
E soluçava ao ver
Alguma sombra escura,
No teu rosto que o luar
Cobria, como um véu…
A tua palidez
Que medo me causava!
Teu corpo era tão fino e leve,
(Oh meu desgosto!)
Que eu tremia, ao sentir
O vento que passava!
Caía-me na alma
A neve do teu rosto!…
Como eu ficava mudo
E triste sobre a terra!
E, uma vez, quando a noite
Amortalhava a aldeia,
Tu gritaste de susto,
Olhando para a serra:
— “Que incêndio!” — E eu, a rir,
Disse-te: — “É a lua cheia!”
E sorriste também
Do teu engano… E a lua
Ergueu a branca fronte
Acima dos pinhais,
Tão ébria de esplendor,
Tão casta e irmã da tua,
Que eu beijei, sem querer,
Seus raios virginais!…
E a lua para nós
Os braços estendeu…
Uniu-nos num abraço,
Esplêndido e profundo;
E levou-nos aos dois,
Com ela, até ao céu…
Somente, tu ficaste
E eu regressei ao mundo!…

 

II

Um raio de luar,
Entrando, de improviso,
No meu quarto sombrio,
Onde medito, a sós,
Deixa a tremer, no ar,
Um pálido sorriso,
Um murmúrio de luz
Que lembra a tua voz…
O Outono, que derrama
Ideal melancolia
Nas almas sem amor,
Nos troncos sem folhagem,
Deixa a vibrar, em mim,
Saudosa melodia,
Dolorida canção,
Que lembra a tua imagem…
A noite que escurece
As almas e ou outeiros,
Mas que acende, num bosque,
A voz do rouxinol
E a estrela que protege
E guia os pegureiros,
A lágrima do céu
Ao ver morrer o sol,
Acorda, no meu peito,
Etérea e infinda dor,
Que à memória me traz
A luz do teu olhar…
Tudo de ti me fala,
Ó meu longínquo amor!
As árvores, a terra,
Os rouxinóis e o mar!
Se passo por um lírio,
Às vezes, distraído,
Chama por mim, dizendo:
“Oh, não te esqueças dela!”
Diz-mo o mesmo, chorando,
O vento dolorido;
Diz-mo a fonte, a cantar,
Diz-mo, a brilhar, e estrela!
E vejo em toda a luz
Teus olhos a fulgir.
Como descubro em tudo,
A alma que perdi!
Não encontro uma flor,
Sem o teu nome ouvir…
Não posso olhar o céu,
Sem me lembrar de ti!…
Por isso, eu amo o pobre,
O triste e a Natureza,
A mãe da humana dor,
Da dor de Deus a filha!
Meu coração ao pé
Dum pobrezinho, reza;
Canta ao lado dum ninho,
Ao pé da estrela, brilha!…
O meu amor por ti,
Meu bem, minha saüdade,
Ampliou-se até Deus;
Os astros abraçou…
Beijo o rochedo e a flor,
A noite e a claridade…
São estes, meu amor,
Os beijos que te dou!
Hás-de senti-los, sim.
Doce mulher de outrora,
Ó roxo lírio de hoje,
Ó nuvem actual!
Como, dantes, teu rosto,
A rosa ainda hoje cora…
Beijo-te sim, beijando
A rosa virginal…
Vêm doirar o teu perfil
Teus olhos, dos espaços,
Teu amor, feito luz,
Desce do Firmamento.
Se abraço um verde tronco,
Eu sinto entre os meus braços,
Teu corpo estremecer,
Como uma flor, ao vento!
Soluça a tua dor
Nas infinitas mágoas
Que no fundo da tarde,
Ao céu, vejo subir…
Ouço bem tua voz
No marulhar das águas,
No murmúrio que sai
Das pétalas a abrir…
Se os lábios vou molhar
Nas águas duma fonte,
Queimam meu coração
Tuas lágrimas salgadas…
E, quando acaricia
O vento a minha fronte,
Eu bem sinto sobre ela,
As tuas mãos sagradas!…
Quando, à noite, no Outono,
A lua, a branca Ofélia,
Morta, vai a boiar
Nas águas do Infinito,
Sinto doirar meu rosto
A palidez etérea,
Que, dantes, emanava
O teu perfil bendito…
Quando, em manhãs de Abril,
Acordo, de repente,
E vejo, no meu quarto
O sol entrar, sorrindo,
Julgo ver, ante mim,
Teu corpo resplendente,
Tua trança de luz,
Teu gesto suave e lindo…
Descubro-te, mulher,
Na Natureza inteira,
Porque entendo a floresta,
A névoa, o céu doirado,
A estrela a arder no Azul,
A lenha na lareira
E o lírio que na cruz
Do Outono, está pregado!
Falas comigo, sim,
Da dor, do bem, de Deus…
Repartes o meu pão,
Amor, pelos ceguinhos…
E pelas solidões,
Os pobres versos meus,
Como os pobres que vão,
A orar, pelos caminhos…
És a minha ternura,
A minha piedade,
Pois tudo me comove!
O zéfiro mais leve
Acende, no meu peito,
Infinda claridade;
E a brancura do lírio
Enche meu ser de neve…
Todo eu fico a cismar
Na triste voz do vento,
Na atitude serena
E estranha duma serra;
No delírio do mar,
Na paz do Firmamento
E na nuvem, que estende
As asas, sobre a Terra!
Todo eu fico a cismar,
Assim como esquecido,
Ante a flor virginal
E o sol enamorado…
Ante o luar que nasce,
Ao longe, dolorido,
Dando às cousas um ar
Tão triste e macerado…
Todo eu fico a cismar…
Um vago e etéreo laço
Prende-me ao teu imenso
E livre coração,
Que abrange toda a Terra
E ocupa todo o espaço,
E que vai povoar
A minha solidão!
Por isso, eu vivo sempre,
Em doce companhia,
Com o pobre que pede
E a estrela que fulgura…
E assim meu coração,
Igual à luz do dia
Derrama-se no céu,
Em ondas de ternura…
Sou como a chuva e o vento
E como a bruma e a luz…
Lira que a mais suave
Aragem faz vibrar…
Água que, ao luar brando,
Em nuvens se traduz…
Fruto que amadurece
À luz dum só olhar!
Pedra que um beijo funde
E místico vapor,
Que um hálito condensa
Em cada gota de água…
Aroma que um só ai
Encarna em triste flor,
Riso que muda em choro
A mais pequena mágoa…
Vivo a vida infinita,
Eterna, esplendorosa;
Sou neblina, sou ave,
Estrela e céu sem fim,
Só porque, um dia, tu,
Mulher misteriosa,
Por acaso, talvez,
Olhaste para mim…

 

 

Versão transcrita de Poesia de Amor, Antologia Portuguesa, selecção e prefácio de José Régio e Alberto de Serpa, Livraria Tavares Martins, Porto, 1945.

Uma fábula para os nossos dias

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sky-blue-1940-500pxO respeito mútuo* não parece ser uma conquista generalizada ao alcance das gerações que hoje vivem sobre a terra.

Viver sob um céu azul onde as mais surpreendentes e curiosas gentes permaneçam em harmonia, e de que a pintura de Kandinsky que abre o artigo é metáfora, continua a ser sonho longe do quotidiano que nos espreita.

Infelizmente, o mundo está mais perto da história da paz entre lobos e ovelhas que escolhi trazer aqui hoje, que da paz encantada que Kandinsky sonhou em 1940, quando o mundo se encontrava mergulhado no horror da segunda guerra mundial.

Talvez seja idiota sonhar os homens iguais, afinal a mensagem que o cristianismo trouxe ao mundo, e supor que a natureza do animal em nós, que, ou se submete ou domina, pode ser mudada pela educação e organização social, conduzindo à igualdade sonhada pelos iluministas e a sua Declaração Universal dos Direitos do Homem.

Na verdade, o mundo dá voltas e continuamos sempre perto da fábula da paz entre ovelhas e lobos. A história, vinda de Esopo, foi recontada por La Fontaine e vertida ao sabor das épocas em português.

Primeiro lereis uma versão do século XVIII, a partir de Esopo, por Miguel do Couto Guerreiro, a seguir, uma versão a partir de La Fontaine, da segunda metade do século XX, por António Manuel Couto Viana.

 

 

 

Os lobos e as ovelhas

 

Os lobos e as ovelhas que tiveram
Uma guerra entre si, tréguas fizeram:
Os lobos em reféns lhes entregavam
Os filhos; as ovelhas os cães davam.
Os lobinhos, de noite, pela falta
Dos pais, uivavam todos em voz alta:
Acudiram-lhes eles acusando
As ovelhas de um ânimo execrando;
Pois contra o que é razão e o que é direito,
Algum mal a seus filhos tinham feito:
Faltavam lá os cães que as defendessem,
Deu isto ocasião que morressem.

 

Haja paz, cessem guerras tão choradas;
Mas fiquem sempre as armas e os soldados,
Que inimigos que são atraiçoados,
Tomaram ver potências desarmadas.
Não durmam, nem descansem confiadas
Em ajustes talvez mal ajustados:
Nem creiam na firmeza dos tratados,
Que os tratados às vezes são tratadas.
Só as armas os fazem valiosos;
E ter muitos soldados ali juntos
Respeitáveis a reis insidiosos;
Senão, para os quebrar há mil assuntos;
E mais tratados velhos, carunchosos,
Firmados na palavra dos defuntos.

 

Versão de Miguel do Couto Guerreiro a partir de Esopo

 

 

 

Os lobos e as ovelhas

 

Milhares de anos após a guerra declarada
Entre o lobo e a ovelha a paz é concertada
Com vantagem, talvez, prós dois rivais partidos,
Plos motivos que são de sobejo sabidos:
Pois, se o lobo retraça a tresmalhada rês,
Da pele dele, o pastor cobre a fria nudez.
Desiste a ovelha, assim, da liberta pastagem,
Mas, para o lobo, finda a ferina carnagem.
Jamais pode gozar quem teme plos seus bens!
Firmada, enfim, a paz, trocaram-se os reféns:
A ovelha entrega os cães e o lobo entrega as crias,
Revestindo-se a troca das formais garantias.
E o tempo foi passando e as crias crescendo,
Transformando-se em lobos de apetite tremendo
Que, ao verem os pastores dos seus redis ausentes,
Nos anhos anafados cravam os duros dentes
E engolem metade e arrastam o que resta
Pra os escuros covis da frondosa floresta.
É forçoso dizer como os cães descuidados,
Cheios de boa-fé, foram estrangulado
No repouso do sono: Foram-no de tal sorte
Que mal sentiram vir a violenta morte.
E nenhum escapou! Tiremos nós, então,
De tudo o que passou esta sábia lição:
Com os maus há que ter uma contínua guerra.
Decerto é boa a paz e alegra toda a terra,
Mas não serve pra nada
Se o inimigo falta à palavra empenhada.

 

Versão de António Manuel Couto Viana a partir de La Fontaine
in 60 Anos de Poesia, vol II, INCM, Lisboa, 2004.

 

 

 

*Nota Final
Deliberadamente não escrevi tolerância, a qual pressupõe também condescendência sobre os erros dos outros e que aceitamos, e não é essa a condição do respeito mútuo. O respeito mútuo é a equivalência das verdades em que cada um acredita.

 

Horas breves do meu contentamento — soneto em diversas versões

picabia-1879-1953-rapariga-no-paraiso-505pxPor mais de uma vez me tenho interrogado sobre o destino editorial, e consequente conhecimento público, de poemas que tendo sido atribuídos a Camões e integrado a sua obra, foram posteriormente considerados apócrifos por sucessivos estudiosos desta, e algumas vezes excluídos da sua edição.

Hoje sigo o percurso de um desses poemas, um soneto, cujo primeiro verso — Horas breves de meu contentamento, — nos cativa de imediato.

O poema contrasta o efémero da felicidade com o prolongado do sofrimento trazido pelo amor quando intransponíveis obstáculos se opõem à sua vivência continuada.

O soneto foi muito popular à época e variadas versões polulam pelos cancioneiros de mão do tempo.

O soneto foi atribuído por Álvares da Cunha a Camões em 1668 e publicado na sua edição das Terceira Parte das Rimas do poeta (pág 105).

Antes, tinha sido publicado por Diogo Bernardes em Flores do Lima (1598), e foi, como outros, incluído nas Rymas de Camões por Manuel de Faria e Sousa publicadas em 1685(Tomos I y II) e 1689(Tomos III. IV. y V) com o argumento de que seria seguramente de Camões, e estando a sua poesia inédita, Diogo Bernardes se teria apropriado da sua autoria. Nada prova que tivesse razão, daí ser recusada a autoria a Camões.

As variadas versões que nos chegaram divergem entre si nalguns versos dando conta de uma dinâmica de apropriação particular da poesia, que se perdeu: os diversos autores historicamente identificados aproveitaram o que lhes apeteceu e do que gostaram menos alteraram a seu prazer.

Seguem seis versões do soneto. Por vezes muda apenas uma ou outra palavra num verso enquanto noutras versões o último terceto é integralmente substituído. Registo as diferenças para as duas versões atribuídas a Camões.

Existem ainda outras versões do soneto, objecto de glosa integral ou parcial (como foi o poema de A Primavera de Francisco Rodrigues Lobo há meses publicado aqui no blog), mas essas ficam para outra ocasião.

 

 

 

I
Versão em Lírica de Camões, ed. Maria de Lurdes Saraiva, edição INCM, Lisboa, 1980.
Igual à versão da edição Álvares da Cunha (1668).
 

Horas breves do meu contentamento,
nunca me pareceu, quando vos tinha,
que vos visse mudadas tão asinha (*)
em uns tão longos dias de tormento.

As altas torres, que fundei no vento,
o vento as levou logo, que as sustinha;
do mal, que me ficou, a culpa é minha,
pois sobre cousas vãs fiz fundamento.

Amor com falsas mostras aparece;
tudo possível faz, tudo assegura
e logo, no melhor, desaparece.

Eu o quis, pois o quis minha Ventura,
que gemendo e chorando, conhecesse
quão fugitivo ele é, quão pouco dura.
 

 

II
Versão em Rymas de Camões, Edição de Manuel de Faria e Sousa, Soneto LXXX da Centúria II (Tomo II da edição das Rymas).
Versão retomada pelo Padre Tomás José de Aquino na sua edição das Rimas de Camões (1783), Soneto CLXXX.
(Em relação a I mudam os versos 4, 6, 9, 11, 12-14).
 

Horas breves de meu contentamento,
nunca me pareceu, quando vos tinha,
que vos visse mudadas tão asinha (*)
em tão compridos anos de tormento.

As altas torres que fundei no vento,
levou, enfim, o vento que as sustinha;
do mal que me ficou a culpa é minha,
pois sobre cousas vãs fiz fundamento.

Amor com brandas mostras aparece,
tudo possível faz, tudo assegura;
mas logo no melhor desaparece.

Estranho mal! Estranha desventura!
Por um pequeno bem que desfalece,
um bem aventurar que sempre dura!

 

 

 

III
Versão atribuída ao Infante D. Luis no Índice do Cancioneiro do Padre Ribeiro, ed Carolina Michaëlis de Vasconcelos, (I O Cancioneiro Fernandes Tomás, II O Cancioneiro  do Padre Pedro Ribeiro, reedição INCM, Lisboa 1980).
 

Horas breves de meu contentamento,
nunca me pareceu, quando vos tinha,
que vos visse mudadas tão azinha (*)
em tão compridos dias de tormento.

Os meus castelos que fundei no vento,
o vento mos levou que mos sustinha;
do mal que me ficou a culpa é minha,
pois sobre cousas vãs fiz fundamento.

Amor com falsas mostras aparece;
tudo possível faz, tudo assegura
e logo no melhor desaparece.

Ó dano grande e grande desventura
por um pequeno bem que desfalece,
aventurar um bem que sempre dura.

 

 

 

IV
Versão identificada como “Outro soneto alheio” (nº27) em Obras de André Falcão de Resende.
Ed. crítica de Bárbara Spaggiari, Edições Colibri, Lisboa, 2009.
 

Outro soneto alheio
Horas breves do meu contentamento,
nunca me pareceu, quando vos tinha,
que vos visse mudadas tam assinha (*)
em tam compridos dias de tormento.

Aquelas torres, que fundei no vento,
o vento as levou, que as sustinha;
do mal que me ficou a culpa é minha,
pois sobre cousas vãs fiz fundamento.

Amor com falsas mostras aparece;
tudo possível faz, tudo assegura
mas logo no melhor, desaparece.

Ó grande mal, ó gran desventura!
por um pequeno bem, que logo esquece,
aventurar um bem, que sempre dura.

 

 

 

V
Versão em Rimas Várias — Flores do Lima de Diogo Bernardes
ed. Marque Braga, Sá da Costa editora, Lisboa, 1945.
 

Soneto LXXV
Horas breves de meu contentamento,
nunca me pareceu, quando vos tinha,
que vos visse tornadas tão asinha (*)
em tão compridos dias de tormento.

Aquelas torres, que fundei no vento,
o vento as levou, já que as sustinha;
do mal, que me ficou, a culpa é minha,
que sobre cousas vãs fiz fundamento.

Amor com rosto ledo(**), e vista branda
promete quanto dele se deseja,
tudo possível faz, tudo assegura:

Mas des que n’alma reina, e manda,
como na minha fez, quer que se veja,
quão fugitivo é, quão pouco dura.

 

 

 

VI
Versão no Cancioneiro Fernandes Tomás atribuída a Diogo Bernardes, 22v.***, e diferente da publicada em Rimas Várias — Flores do Lima.
 

Soneto
Horas breves de meu contentamento,
nunca me pareceu, quando vos tinha,
que vos visse mudadas tão azinha (*)
em tão compridos dias de tormento.

As minhas torres, que fundei no vento,
o vento mas levou que as sustinha;
do mal que me ficou a culpa é minha,
pois sobre cousas vãs fiz fundamento.

Amor com falsas mostras aparece;
tudo possível faz, tudo assegura
mas sempre no melhor, desaparece.

Ah triste fado, ah desventura
por um pequeno bem que desfalece
aventurar um bem que sempre dura.

(*) depressa

(**) alegre, satisfeito
***Transcrição minha a partir do fac-símile do manuscrito.

 

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Francis Picabia (1879-1953), Rapariga no Paraíso, aguarela e lápis sobre papel pertencente a colecção particular.

 

Karmelo C. Iribarren — Com certeza que esta história te soa

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sigmar-polke-1941-2010-par-amoroso-ii-1965-450pxDe um poeta raro, Karmelo C. Iribarren (1959), traduzo hoje alguns poemas.
Poesia em que as palavras cheiram e sabem ao gosto tantas vezes amargo da vida, possa eu ao traduzir ter dado uma aproximação em português.

 

 

 

Que estranha  [Qué rara]

Que estranha
soa
a estas idades
a palavra
amor.
Dize-la,
e não sabes
se te enganas
a ti mesmo,
ou a ela,
ou ele
aos dois.

 

 

 

Ultimamente  [Últimamente]

Os dias vêm
e vão
e isso é tudo o que fazem

como páginas de uma novela
que esqueces
ao passar
à seguinte

ou como quando vás
no comboio
olhando pela janela
e apenas te interessa
a paisagem.

 

 

 

Amor  [Amor]

Apenas
quatro letras.

E cabe tanto dentro.

E dói tanto
quando te deixam
fora.

 

 

 

O verão aos 40  [El verano a los 40]

É como estar
a dieta
num bom restaurante;
uma tortura.

      Chega
e de repente
de todo o lado
surgem
coisas
e mais coisas apetitosas
que nunca
irás comer.

 

 

 

Vencido  [Vencido]

Vencido, uma vez mais. Pelo amor,
o ódio, ou pela vida
que não faz concessões
nem dá tréguas. Aqui,
na esquina de um século
tão inútil como o foram
todos. E também
tão sanguinário. Fumando
um cigarro. Indiferente. Vendo
como a gente se destroça,
e sem sentir nada especial.

 

 

 

O que perdura  [Lo que perdura]

Das cidades que visito
sempre trago comigo
alguma coisa:
    praças ao cair da tarde, o pulsar
de uma avenida à hora de ponta,
um bar diferente,
uma livraria
                  e
(isto nunca me esquece)
                                      os olhos,
os olhares fugazes
de uma mulher
desconhecida:
                      misteriosos
rescaldos que perduram
entre as cinzas
de tudo o resto.

 

 

 

Os poemas foram traduzidos do livro Seguro que esta historia te suena, Poesía completa (1985-2012), publicado pela editora Renascimento de Sevilha na sua colecção Calle del Aire.

 

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintur de Sigmar Polke (1941-2010), Par amoroso II de 1965.

O cancioneiro à volta da estátua equestre do rei D. José I

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terreiro-do-paco-600pxPara portugueses em geral, e lisboetas em particular, é difícil apreender hoje a carga simbólica da Praça do Comércio em Lisboa, em tempos chamada Terreiro do Paço, como símbolo identitário de Portugal. Apreciamos a grandiosidade da Praça, e, actualmente, o prazer da fruição do seu espaço ordenado, mas o seu significado imaginário perdeu-se nas voltas do tempo. Chamou-me a atenção para esse valor imaginário, uma amiga brasileira em tempos de visita pela primeira vez a Portugal e a Lisboa: a primeira coisa que queria ver e fotografar, para recordar, era a Praça do Comércio, e com isso sentir que estava de facto em Portugal.
O carácter renovador do desenho da praça, integrado no conjunto da reconstrução da Baixa Pombalina na sequência do terramoto de 1755, foi exemplarmente estudado por José-Augusto França (1922) na sua tese sobre a Lisboa Pombalina e o Iluminismo, dando conta de um pensamento urbano e da sua radical inovação.
Sendo esta renovação urbana um inequívocos exercício de poder, o caráter simbólico da sua afirmação ficou atribuído à colocação da estátua equestre do rei D. José I no centro da praça, dominando o horizonte aberto.
A inauguração da estátua foi ocasião de festejos de arromba. E como era de uso à época, os poetas foram chamados a cantar o acontecimento, e nenhum terá escapado à oportunidade, independentemente do local onde se encontrasse: reinava de facto ao tempo o Marquês de Pombal e o seu poder ditatorial.
Reveste hoje carácter de cancioneiro do absurdo toda esta poesia produzida sobre a estátua equestre do Rei D. José I e a sua inauguração no Terreiro do Paço em Lisboa, e para o leitor de agora, é surpreendente o exercício verbal à volta de semelhante objecto e acontecimento.
Um pouco ao acaso, pois os poemas são avalanche, e fugindo aos poemas longos, escolho dois poemas de dois poetas brasileiros, também irmãos, tendo um sido justamente famoso, José Basílio da Gama (1741-1795), pelo seu poema épico O Uraguay (1769). O irmão deu pelo nome de António Caetano de Almeida Vilas Boas (1745-1805).

 

 

Ode do P. António Caetano de Almeida Vilas Boas

 

Inauguração do colosso de bronze no dia faustíssimo aniversário de Elrey Dom José I, Nosso Senhor

Ode
Aonde me arrebato?
A humana vista não se atreve a tanto,
Arqueja o coração como oprimido
Com a vasta alegria.
Já se amiúda o palpitar das veias.
São menores as forças que as ideias.

Ouço quebrar nos ares
Os roucos ecos do metal fundido:
Já o purpúreo Véu caiu por terra.
E a respeitosa Almada,
Que viu brilhar primeiro o Régio Vulto,
Como o Ganges, que adora o Sol que nasce,
Sobre as águas do Tejo inclina a face.

 

 

Soneto de José Basílio da Gama

 

Quando Alexandre entrou na tenda real de Dario com Efestião seu valido ao lado, Sysigambis, rainha mãe saudou Efestião, tomando-o por Alexandre. Advertida do engano, pediu perdão ao rei, que lhe respondeu magnanimamente: Não erraste, que este também é Alexandre.

 

 

Soneto
no dia feliz da inauguração do Colosso Real

 

 

Domador do Bucéfalo arrogante,
Alexandre, ou quem és? Por mais que estude,
Fácil não é que de conceito mude,
Vendo a teus pés o Índico Elefante.

O PAI DA PÁTRIA soa lá distante
A abóbada do Templo da Virtude:
PAI DA PÁTRIA responde com língua rude
A América emplumada, o fusco Atlante.

Reconheço a JOSÉ. POMBAL eu vejo,
Que a coroa na testa lhe sustinha.
Reverente me inclino, e o Ceptro bejo.

Na mão o Ceptro de ouro ao rei convinha:
Ou entre o Efestião, do REI do Tejo,
Quem se enganasse bem desculpa tinha.

 

 

 

Fazendo uso do glorioso prestígio da antiguidade, compara o poeta o Marquês de Pombal, cuja efígie se encontra no pedestal da estátua, a Efestião. Esta efígie foi retirada quando do furor anti-pombalino no reinado que se seguiu, da filha de D. José I, D. Maria I.
Num conjunto de poemas guardados em manuscrito, e publicados há anos por Alberto Pimenta em Musa anti-pombalina, regista-se o sentimento de rejeição pela acção do Marquês que atravessava parte da sociedade portuguesa na época, sendo que em dois desses sonetos anónimos  é exactamente esta esfinge que é visada. No primeiro, nada menos que nos seguintes termos:

 

 

Soneto 128

Senhor, para exaltar a nossa dita,
Tirai do Pedestal da Estátua Augusta
A imagem do Marquês feia e robusta
Que o vê-la ainda a seus pés o ódio excita.

Olhai que esse padrão desacredita
O conservar memória tão injusta;
Já o seu Original nos não assusta,
Mas o ver a sua copia nos irrita.

Não sofre a nossa pura lealdade
Que da Estátua a Real Magnificência
Deslustre este Retrato da Impiedade;

E atendei, ó Senhor, é indecência
Que da imagem da Pia Magestade
Seja base a figura da Insolência.

 

 

 

Mesmo anonimamente, esta virulência só foi escrita após a morte do Marquês, como se depreende do poema, pois em vida deste, tal escrito, se conhecido, faria o autor correr sérios riscos, atendendo ao que os relatos históricos referem.
No segundo soneto que transcrevo, é a operação de retirada da efígie e os sentimentos que esta operação desencadeia, raiando a obscenidade [Que me sirva de tampa ao meu Bacio.], o que se refere:

 

 

Soneto 115

 

À tirada do Busto do Marquês de Pombal em 27 de Abril de 1777

Metam, metam com jeito essa Alavanca,
Empenhe-se o poder mais o cuidado,
Tirem desse lugar tão respeitado
Esse Busto infernal, essa Carranca.

Fique a Praça liberta, limpa e franca,
Livre já desse objecto excomungado;
Não seja mais no mundo nomeado
Quem o sangue do Povo tudo estanca.

Esse Monstro infernal e Dragão fero
Perca a gloria das honras, perca o brio,
E tenha fim pior que teve Nero;

E sem que a acção padeça algum desvio,
Entreguem-me esse Busto porque quero
Que me sirva de tampa ao meu Bacio.

 

 

 

Poemas transcritos de Poetas Brasileiros do Período Colonial, I e II, Antologia, Palmira Morais Rocha de Almeida, Edições Colibri, Lisboa 2008 e 2009, e de Musa anti-pombalina, selecção e apresentação de Alberto Pimenta, A Regra do Jogo edições, Porto, 1982.

A difícil arte de expressão em soneto segundo Baltazar del Alcázar

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sala-com-rapariga-sorrindo-1657a-detalhe-500pxVolto à difícil arte do soneto com uma das primeiras brincadeiras sobre a dificuldade de expressar em soneto uma ideia, sentimento, ou acontecimento, na rigidez da sua forma rimada (em quatorze versos de dez sílabas), com a exigência adicional de exposição, desenvolvimento, e conclusão do assunto.

Já antes aqui no blog, e no artigo A difícil arte do soneto, dei conta de alguns exemplos e considerações a este propósito, com o destaque especial do soneto Quatorze versos, de Alexandre O’Neill. Regresso agora com um soneto de Baltazar del Alcázar (1530-1606) no qual o poeta tenta, sem o conseguir antes que o soneto acabe, expressar um segredo à sua bela inimiga Inês.

Bela inimiga seria, no contexto poético do tempo, uma mulher desejada que não respondia ao assédio desse desejo. Sendo o soneto à época uma privilegiada forma de expressar o desejo amoroso, tal está subentendido no segredo que o poeta quer contar e não consegue. Temos pois com este exercício poético a ironia de escrever um soneto sem assunto, continuando em silêncio o desejo que o poeta pretendia expressar.

A Inês, e com Inês, tem o poeta alguns deliciosos poemas burlescos que certamente trarei ao blog noutra ocasião. Por agora a brincadeira poética à volta de expressar o desejo amoroso escrevendo um soneto:

 

Soneto

Decidi revelar-vos em soneto
O meu segredo, Inês, bela inimiga;
Mas, por mais ordem que ao fazê-lo eu siga,
Não pode já caber neste quarteto.

Chegados ao segundo, vos prometo
Que não se há-de el’ passar sem que eu o diga;
Mas estou feito, Inês, uma formiga
Que tonta gasta os versos do soneto.

Vêde, ó minha Inês, quão duro é o fado,
Se tendo eu o soneto em minha boca
E a ordem de dizê-lo já estudado,

Lhe conto os versos todos, e hei notado
Que, pela conta que a um soneto toca,
Já este meu, Inês, vai acabado.

Tradução de Jorge de Sena

Transcrito de Poesia de 26 Séculos, antologia, tradução, prefácio e notas de Jorge de Sena, edição Fora do Texto, Coimbra, 1993.

 

 

 

 

Termino com o original do soneto:

 

Yo acuerdo revelaros un secreto

en un soneto, Inés, bella enemiga;

mas, por buen orden que yo en éste siga,

no podrá ser en el primer cuarteto.

 

Venidos al segundo, yo os prometo

que no se ha de pasar sin que os lo diga;

mas estoy hecho, Inés, una hormiga,

que van fuera ocho versos del soneto.

 

Pues ved, Inés, qué ordena el duro hado,

que teniendo el soneto ya en la boca

y el orden de decillo ya estudiado,

 

conté los versos todos y he hallado

que, por la cuenta que a un soneto toca,

ya este soneto, Inés, es acabado.

 

 

Abre o artigo a imagem do detalhe de uma pintura de Johannes Vermeer (1632-1675).