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Artemidoro — poema de Jorge de Sena

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O poema Artemidoro de Jorge de Sena (1919-1978) leva-nos por uma densa e intensa meditação sobre a história e o devir: o homem, indivíduo na sua singularidade, e a parte de uma humanidade que culturalmente o identifica:

 

Artemidoro,

a tua múmia está no Museu Britânico

entre as fileiras tristes do segundo andar.

Alguém ta descobriu num cemitério copta,

que os areais e o tempo haviam ocultado,

por séculos de calma eternidade

que em teu caixão não profanado por

ladrões de sepulturas conheceste.

Secaste assim serenamente, enquanto

quem tu eras se perdeu depressa

nas memórias humanas que habitaste.

Não eras rei, nem príncipe. E célebre

talvez o tenhas sido para os mercadores

que trataram contigo, para os teus amigos

com quem ceavas altas horas, para

tua mulher, teus filhos (só, quando pequenos,

te viam gigantesco e absorto e paternal).

É bem possível que tu próprio encomendasses,

risonho e pensativo, esse retrato, ou que,

depois de ter’s morrido, teus irmãos de igreja

o hajam decidido e colocado

essa máscara nobre de tragédia,

convencional tragédia em palcos de outro mundo.

 

O sentimento do passado nos artefactos herdados permite a viagem cultural que nos faz ir ao encontro das raízes de ser quem somos, e neste poema Jorge de Sena exercita de forma fulgurante:

E o teu líquido olhar ficou fitando

— num jeito que passou a Creta,

atravessou incólume Veneza,

o Tintoreto e Roma até Toledo,

em que é de Apostolado para o Greco,

mas para ti e os teus — um pouco egípcios,

um pouco sírios, gregos e romanos,

cristãos e persas: Cristo Pantocrator,

Ísis, Pan-águia, os anjos e os profetas,

Deméter, a Fortuna, o Jano bifrontal,

Ormuzd e Ariman, Pitágoras, Platão,

o deus Ptah, Adónis, Minotauro,

e as bacantes agitando o torso —

mas para ti e os teus, entre esse mar

de Ulisses e de António, de Pafos e de Chipre,

e o deserto da Esfinge e dos Colossos

que à madrugada num gemer saúdam,

mas para ti e para os teus, nas margens debruçados

para o murmúrio lamacento que afogou Antínoo —

que seria esse olhar tão líquido e profundo que me fita

envidraçado pela morte e pelas crenças todas

e também pela vidraça que, interposta,

nos não separa menos do que os séculos?

 

O saber quem somos e a que mundo pertencemos enquanto vivemos não altera a finitude que nos caracteriza e inevitavelmente chegará. Neste poema, no artefacto artístico de um rosto pintado que acompanha a múmia de um desconhecido agora entregue ao pó dos corredores do museu Britânico e à curiosidade de algum visitante, ou à meditação filosófico-poética que hoje transcrevo, se consubstancia esse efémero que trazemos em nós, ou parafraseando o poeta: desaparecer serenamente, enquanto quem fomos se perde depressa nas memórias humanas que habitámos.

 

 

ARTEMIDORO

 

Artemidoro,

a tua múmia está no Museu Britânico

entre as fileiras tristes do segundo andar.

Alguém ta descobriu num cemitério copta,

que os areais e o tempo haviam ocultado,

por séculos de calma eternidade

que em teu caixão não profanado por

ladrões de sepulturas conheceste.

Secaste assim serenamente, enquanto

quem tu eras se perdeu depressa

nas memórias humanas que habitaste.

Não eras rei, nem príncipe. E célebre

talvez o tenhas sido para os mercadores

que trataram contigo, para os teus amigos

com quem ceavas altas horas, para

tua mulher, teus filhos (só, quando pequenos,

te viam gigantesco e absorto e paternal).

A múmia que ficou de ti (só ressequida pele

rasgada aqui e ali, mostrando os ossos

por onde as sujas ligaduras se soltaram)

não se distingue das outras na fileira

envidraçada em que há decénios pó,

um fino pó, será de ti ou Londres.

Importa o teu caixão, ou mais, a tampa

em que, segundo os usos do teu tempo,

um pintor cujo ofício principal seria

retratar os mortos te compôs um rosto.

É bem possível que tu próprio encomendasses,

risonho e pensativo, esse retrato, ou que,

depois de ter’s morrido, teus irmãos de igreja

o hajam decidido e colocado

essa máscara nobre de tragédia,

convencional tragédia em palcos de outro mundo.

Possível é também que esse retrato fosse

menos que tua máscara um rosto

que se escolhia — por ti ou só por eles escolhido

para esse último acto: o de estar morto

de olhos abertos para o que desse e viesse.

E o teu líquido olhar ficou fitando

— num jeito que passou a Creta,

atravessou incólume Veneza,

o Tintoreto e Roma até Toledo,

em que é de Apostolado para o Greco,

mas para ti e os teus — um pouco egípcios,

um pouco sírios, gregos e romanos,

cristãos e persas: Cristo Pantocrator,

Ísis, Pan-águia, os anjos e os profetas,

Deméter, a Fortuna, o Jano bifrontal,

Ormuzd e Ariman, Pitágoras, Platão,

o deus Ptah, Adónis, Minotauro,

e as bacantes agitando o torso —

mas para ti e os teus, entre esse mar

de Ulisses e de António, de Pafos e de Chipre,

e o deserto da Esfinge e dos Colossos

que à madrugada num gemer saúdam,

mas para ti e para os teus, nas margens debruçados

para o murmúrio lamacento que afogou Antínoo —

que seria esse olhar tão líquido e profundo que me fita

envidraçado pela morte e pelas crenças todas

e também pela vidraça que, interposta,

nos não separa menos do que os séculos?

 

Artemidoro: Escuta! No silêncio ouves

os “buses” que passam, a gralhada que

em salas mais curiosas visitantes fazem.

Que mais escutarás com esses olhos que ouvem

atentamente os breves estalidos que o eterno,

como o romper da aurora nas estátuas,

provoca em nós e em nossas coisas, fissurando

a pouco e pouco a carne, a pele, os ossos, tudo

o que de deuses palpita e ressuscita em nós,

e em que talvez, sereno mercador, nem mesmo acreditasses?

 

Publicado no livro Metamorfoses, e transcrito de Jorge de Sena, Obras Completas, Poesia 1, edição de Jorge Fazenda Loureirio, Babel, 2013.

Abre o artigo a imagem da urna de Artemidoro pertença do museu Britânico.

 

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A vaselina, um epigrama de Apollinaire

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Surpreendi-me um destes dias com um anúncio de televisão a publicitar um lubrificante íntimo dando voz ao que a experiência mostra e tantas vezes é causa de insucesso: a conveniência ocasional de lubrificação quando do acto sexual, e a sua necessidade obvia a partir de certa idade. 

Lubrificantes e o rodar dos tempos levam-me a um epigrama de Apollinaire (1880-1918), A vaselina, que hoje transcrevo em versão de José Paulo Paes.

Retrata o poema uma situação de solicitude frequente de farmacêutico para cliente. O cliente no poema tentou prevenir-se e evitar a eventualidade do recurso à margarina, socorro dos protagonistas no filme O Último Tango em Paris, como talvez algum leitor relembre.

O diálogo captado no poema transporta-me a memória para uma experiência sobre o embaraço farmacêutico perante compras associadas à actividade sexual.

Os tempos nem sempre foram de tanta franqueza pública no que a estas matérias respeita, e se a venda de preservativos está espalhada por todo o lado, na minha juventude era exclusiva de farmácias. E a sua compra motivo de embaraço por vezes. Tendo sentido desconforto com uns preservativos certa vez comprados, fui à farmácia procurar o que me pudesse servir melhor. Chegada a minha vez, fui atendido pela farmacêutica, senhora de alguma idade. Eu, um jovem, e não exactamente embaraçado, perguntei que outros preservativos havia, pois os últimos que ali comprara não me serviam. Corou, pigarreou, abriu uma gaveta, fechou, voltou costas e foi para o interior da farmácia. Voltou o empregado e solicito perguntou-me qual era o problema. Expliquei-lhe com detalhe, Procurou outro fabricante e vendeu-me. Não fiquei muito melhor servido, mas, aparentemente, era o que havia. Felizmente mais tarde a oferta variou e há algum tempo, deparei com uma promoção no supermercado de um tipo que me é especialmente confortável. Peguei nalgumas embalagens e, chegado à caixa, a funcionária, jovem desembaraçada e prazenteira, ao ver as embalagens virou-se para mim e perguntou:

— Onde é a festa? Também posso ir?

— Está desde já convidada, respondi-lhe.

E com o relato deste desembaraço de hoje regresso à farmácia. Desta vez à do poema, com a solicitude do farmacêutico e a impaciência do cliente.

 

A Vaselina

 

Praça da Ópera: por uma farmácia a dentro

Entra um senhor bem-posto feito um pé-de-vento:

“ Estou com pressa”, diz. “Eu quero vaselina.”

Gentil, o boticário indaga o cliente

             Impaciente

          A que uso se destina

          O graxo ingrediente:

“Se for para o rosto, é melhor levar fina…

              Qual?

               Que tal

                     Este artigo

           Que o senhor, sem perigo,

                 Pode usar no rosto?

Eu por mim recomendo sempre a boricada.”

E o cliente, a bufar: “Mas que papagaiada!

Pouco me importa qual, pois é para enrabar!”

 

 

Poema original

 

La vaseline

 

Chez un pharmacien, place de l’Opéra,

Un monsieur fort bien mis en coup de vent entra:

“Vite, dit-il, donnez-moi de la vaseline!”

Le potard, empressé, demande à ce client

           Impatient

        A quel us il destine

        Le gras ingrédient:

“Est-ce pour le visage? Il en faut de la fine…

          En voici

       De ci

       Pure

    Que sur votre figure

  Sans danger vous pouvez l’étaler…

J’en ai de boriquée… et je la recommande…”

Le client, trépignant, répond: “Belle demande!

Je m’en fous bougrement, car c’est pour enculer!”

 

in Poesia Erótica em tradução, Selecção, tradução, introdução e notas de José Paulo Paes, Companhia das Letras, São Paulo, 1993.

 

 

Abre o artigo a imagem de um velho anúncio à vaselina. A cada leitor deixo a associação entre a metalinguagem no anúncio, o texto do artigo, e o assunto do poema.

 

Fernando Pessoa — O peso de haver o mundo

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,

Aqueles imprecisos nadas que vez por outra nos assaltam, e no seu inesperado criam uma insatisfação do existir, capta Fernando Pessoa (1888-1935) no poema  O peso de haver o mundo. É a sensação de um vago desejo de mudança, de que algo não bate certo na nossa vida, e também não sabemos como ultrapassar…

 

Passa no sopro da aragem

Que um momento o levantou

Um vago anseio de viagem

Que o coração me toldou.

 

Se persiste, torna-se problema, se pontual é tão só um saudável questionar do estável e adquirido, fazendo-nos perguntar: não há mais mundos?

Será que em seu movimento

A brisa lembre a partida,

Ou que a largueza do vento

Lembre o ar livre da ida?

 

No poema, a conhecida incapacidade para a acção que percorre a poesia de Pessoa, dá a dimensão que torna grave a insatisfação continuada:

 

… / Não sei, mas subitamente / Sinto a tristeza de estar / O sonho triste que há rente / Entre sonhar e sonhar.

 

Ao concluir com o verso : Entre sonhar e sonhar temos a medida dessa incapacidade para a acção, quando uma atitude saudável seria: Entre sonhar e agir. Mas aí não seria o poeta a falar, mas filosofia de vida explicitada.

 

 

O peso de haver o mundo

 

Passa no sopro da aragem

Que um momento o levantou

Um vago anseio de viagem

Que o coração me toldou.

 

Será que em seu movimento

A brisa lembre a partida,

Ou que a largueza do vento

Lembre o ar livre da ida?

 

Não sei, mas subitamente

Sinto a tristeza de estar

O sonho triste que há rente

Entre sonhar e sonhar.

 

19.05.1932

 

Transcrito de Quadras e Outros Cantares, Editora literária Teresa Sobral Cunha, Relógio D’Água Editores, Lisboa, 1997.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Alex Katz (1927), Passing, óleo s/tela de 1962. Pertence à colecção do MOMA de New York.

Este auto-retrato de Alex Katz, lembrando vagamente a figura conhecida de Fernando Pessoa, é em si a imagem mesma desse peso de haver o mundo de que fala o poema.

Pablo Neruda — Ode ao Tempo

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Dei-me folga, e aos leitores, destas conversas com poesia em fundo. Regresso hoje para, o que espero, uma maior assiduidade, lendo Uma Ode ao Tempo por Pablo Neruda (1904-1973).

Envelhecer vivendo

é belo

como tudo o que vivemos.

 

Sentir isto é prova de enorme sabedoria. A vida, feita de alegrias e desgostos é o único quadro onde podemos ser felizes. Procurá-la sempre, a felicidade, sem descanso, é o que temos ao nosso alcance. Neste caminho, percorrê-lo quanto possível na companhia de um grande amor é parte imperdível da existência, sabendo quanto 

Nos teus cabelos / enreda o tempo / os seus fios, / mas no meu coração / como uma madressilva / está a tua fragrância, / incandescente como o fogo. / …

 

Quando se ama, o sonho de envelhecer juntos, já antes o escrevi aqui, é o desejo mais belo que pode coroar um grande amor, ou como escreveu Pablo Neruda

Amor, o que importa

é que o tempo,

o mesmo que ergueu como duas chamas

ou espigas paralelas

o meu corpo e a tua doçura,

amanhã os mantenha

ou os desgarre

e com os seus mesmos dedos invisíveis

apague a identidade que nos separa

dando-nos a vitória

de um único ser final sob a terra.

 

E se o inexorável avanço do tempo mostra no físico os seus sinais, a fragrância, / incandescente como o fogo. / … que o alimenta está lá para o fazer durar. É esse amor sem idade e para além do efémero da beleza física, A tua idade dentro de ti

crescendo, / a minha idade dentro de mim / andando. / … que surge cantado na Ode ao Tempo de Pablo Neruda que antes citei, e a seguir transcrevo:

 

 

Ode ao Tempo

 

A tua idade dentro de ti

crescendo,

a minha idade dentro de mim

andando.

O tempo é resoluto,

não faz soar o sino,

cresce e caminha

por dentro de nós,

aparece

como um lago profundo

no olhar

e junto às castanhas

queimadas dos teus olhos

um filamento, a pegada

de um minúsculo rio,

uma estrelinha seca

subindo para a tua boca.

Nos teus cabelos

enreda o tempo

os seus fios,

mas no meu coração

como uma madressilva

está a tua fragrância,

incandescente como o fogo.

Envelhecer vivendo

é belo

como tudo o que vivemos.

Cada dia

para nós

foi uma pedra transparente,

cada noite uma rosa negra,

e este sulco no meu ou no teu rosto

é uma pedra ou uma flor,

recordação de um relâmpago.

Gastaram-se-me os olhos na tua formosura

mas tu és os meus olhos.

Sob os meus beijos talvez tenha fatigado

os teus seios,

mas todos viram na minha alegria

o teu resplendor secreto.

Amor, o que importa

é que o tempo,

o mesmo que ergueu como duas chamas

ou espigas paralelas

o meu corpo e a tua doçura,

amanhã os mantenha

ou os desgarre

e com os seus mesmos dedos invisíveis

apague a identidade que nos separa

dando-nos a vitória

de um único ser final sob a terra.

 

Tradução de Luis Pignatelli

in Odes Elementares, Publicações Om Quixote, Lisboa, 1977.

 

Abre o artigo a imagem de uma fotografia de família e que me é especialmente querida. Mostra ela os meus pais durante o namoro, e, como era de regra à época, à janela. Se vivo, o meu pai faria hoje 100 anos. E com a publicação da foto assinalo a efeméride. A minha mãe, lúcida, e moderadamente activa, já passados os noventa anos é o elo da cadeia com quem aprendo o que é envelhecer: os medos, a serena aceitação da progressiva perda de capacidades, e a infinita generosidade; afinal o que justifica estarmos vivos.

 

Marotices num poeta anónimo da Antologia Grega

Como não sou alvo, nem pratico, não faço ideia se os piropos de passagem ainda são de uso numa forma agressiva de alardear masculinidade. Prática antiga tomada como técnica de sedução, as mulheres foram dela o alvo nas circunstâncias mais variadas.

Ao sabor das leituras variadas que me ocupam, encontro numa elegante e galanteadora forma, uma manifestação ancestral dos piropos que não há muitos anos também se praticavam.

Um poeta anónimo incluído na Antologia Grega transmite a uma certamente bela mulher, como os seus seios o desafiam e atraem. Para isso, manifesta o desejo de se mimetizar primeiro no vento, depois em rosa, e finalmente em cítara. Na elegância da forma e conteúdo estamos nos antípodas dos piropos de esquina de rua, frequentemente grosseiros, que a abrir referi. Por isso, para sublinhar a malícia dos epigramas que transcrevo a seguir, no título do artigo escolhi marotices.

 

 

O vento

 

Fosse eu o vento e pudesses tu, chegando a tua casa

de campo, desnudar o peito e receber meu sopro.

 

 

A rosa

 

Fosse eu uma rosa púrpura e que tu, tomando-me nas mãos,

me concedesses a graça dos teus seios de neve!

 

 

A cítara

 

Quando estou ao pé de ti, ó tocadora de cítara, eu queria

ser como tu: tocar de leve ao alto e percutir no meio.

 

Anónimo

Tradução de Albano Martins

in Antologia da Poesia Grega Clássica, Edições Afrontamento, Porto, 2011.

 

 

Nota talvez desnecessária

 

No Brasil não sei se piropo é usado com o significado de galanteio que tem em Portugal. Consultado o Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa não o vi referido.

Por outro lado, marotice usa-se no Brasil com o significado de brejeirice que mantém em Portugal. Acresce que após a independência do Brasil, nos estados do Norte, maroto era alcunha de português, a qual não sei se ainda é de uso.

Abre o artigo a imagem de uma criação digital minha a partir de um desenho original que fiz por volta de 2005.

Carlos Mendonça Lopes

Alguns poemas de Célia Moura

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Há um explícito/implícito erotismo em muita da poesia de Célia Moura (1971) que faz mover a imaginação nos territórios onde a palavra cruza o frémito do corpo:

*

Entrego meu corpo

à rebeldia do vento.

Nele me dispo, danço

e descanso.

 

Escolhi para trazer ao blog alguns poemas onde o caminho para a evidência da ideia global se percorre no sinuoso da palavra poética, explosiva e iridiscente, virando faiscante incêndio, quais sejam o poema Promessa transcrito à frente, ou este:

*

Que tuas mãos sejam

o lume que me invade as coxas

e os sentidos.

 

Que eu seja a pele e a loucura

brincando entre os cabelos

dessa tua lucidez

amado!

 

Que para sempre nos percamos

no fluído dos corpos

embriagados de paixão

baloiçando risos e mostos

num alpendre de beijos.

 

in No Hálito De Afrodite

 

 

A recusa total do inócuo pela afirmação explícita do desejo que alimente o corpo e dele vive, é marca de água desta poesia:

*

Faz-me vir de novo

orquídea,

girassol,

deserto

ou todas as palavras

que nunca ousaram

os poemas

para ti

paridos!

 

 

Em todos este poemas, mais de aspiração que de experiência feitos, e que o desejo destila e alimenta, há sempre o outro, o não nomeado ausente, destinatário desta poesia, e esta ocultação é o estímulo que alimenta a imaginação do leitor.

Além da afirmação do desejo satisfeito ou manifestado, há também uma interrogação poética sobre a sua natureza, origem e finalidade, em poemas como [Talvez amanhã alguém] ou O cérebro do mundo:

 

Busco incessantemente o cérebro do mundo,

essa lava que me dói o corpo inteiro

esse caos, essa ordem desordenada

cuja vertigem

se apodera das fêmeas

e da volúpia que trilha caminhos novos.

 

ou ainda no poema que encerra o artigo, No Corpo:

— Porque tudo é tão belo assim Pai e tão triste?!

E não cesso de O questionar, e me zango com Ele

Ainda que O ame ou respeite, nem eu sei…

 

 

Seguem os poemas citados, agora na totalidade. Os poemas sem título abrem com o primeiro verso destacado entre [ ].

 

Promessa

 

E quando finalmente meu corpo

Em Primavera florescer

Para ti

Sequioso de vida

E minhas pernas queimarem o feitiço

Dormente dos teus flancos

Como uma tenaz em brasa

Saboreando odores

Doando néctares como licores,

Numa embriaguez prometida

Rebolando o êxtase da poesia

Nos teus braços

E aí me fizeres morrer

Te fizer morrer

E nos fizermos renascer…

Saberás amor que permanecerei.

 

Serei qualquer estação do ano

E antes que pronuncies meu nome

Te beijarei.

 

in No Hálito de Afrodite

 

 

No teu sémen

 

Faz-me vir de novo

orquídea,

girassol,

deserto

ou todas as palavras

que nunca ousaram

os poemas

para ti

paridos!

 

Sonho que sou barro

em teu sopro,

candeia de azeite

no sobrado

acariciando esses cabelos

anunciados de neve

enquanto me decifras

os mamilos

e sussurras lentamente

— era uma vez…

 

Era uma vez,

um sémen novo

a escorregar pelas virgens

do Jardim

incensando pelo meu corpo

uma fogueira de rubras rosas

no meu ventre,

champanhe estremecendo-me

o sangue nas artérias

e tango em Buenos Aires

mordendo-me ânsias

beliscando a alma

desassossegando

alvoradas,

enquanto adormeces

nesse teu silabar sereno

— era uma vez…

 

E saio para a cidade

inaugurada de nós,

sou semente primeira

de um girassol.

 

in No Hálito De Afrodite

 

 

[Entrego meu corpo]

 

Entrego meu corpo

à rebeldia do vento.

Nele me dispo, danço

e descanso.

 

Cruel tem sido este desassossego

asfixiando borboletas dentro do peito

enquanto me morrem entre os dedos

suculentos beijos.

 

Entrego meu corpo

ao sarcasmo do tempo

mas é ao vento que pertenço.

 

Mais tarde me vestirei de chuva

 

a publicar

 

 

[Talvez amanhã alguém]

 

Talvez amanhã alguém

venha fechar meus olhos.

Hoje não!

 

Talvez amanhã alguém

me recorde com saudade

quando na enseada das ausências

eu já tiver partido nas asas de uma gaivota.

 

Sim,

amanhã eu voarei

hoje não!

 

Amanhã serei finalmente o grito amarfanhado

por décadas poetizado,

gargalhado

absurdamente sentenciado!

 

Deixarei decerto tantas bocas por beijar

tantos corpos por amar

tantos órfãos por acarinhar…

 

Amanhã, hoje não!

Preciso libertar-me de quem julgo ser

e ajoelhar-me indigna, imunda aos pés

do Criador.

08 de Março de 2019 — a publicar

 

 

O cérebro do mundo

 

Busco incessantemente o cérebro do mundo,

essa lava que me dói o corpo inteiro

esse caos, essa ordem desordenada

cuja vertigem

se apodera das fêmeas

e da volúpia que trilha caminhos novos.

 

Ah ser inteira e tão despedaçada

ó venusta peregrina!

 

Busco as palavras perfeitas

mas todas já foram celebradas

no fogo do meu e do teu baptismo

meu Irmão,

que desolação

não haver palavras mais

despertas

nem tão pouco o cérebro do mundo

esse que algures possa existir

e me escorra dos dedos

deixando-me gritos, tantos

dentro da cabeça.

 

Ah não parar o pensamento,

estancá-lo com um garrote,

cicatrizá-lo.

 

Vai peregrina, leva a loucura

morde o silêncio,

o cérebro do mundo é nada

busca somente o voo das andorinhas.

 

A publicar em Terra De Lavra

 

 

No Corpo

 

Eu me puxo

Repuxo

Envolvo

Deito

Deleito

Revolvo

Embriago

Não ressaco…

 

Eu me viro, reviro

Choro, gargalho, sorrio

Rascunho a vida,

Deito fora

Busco outra mais bonita,

Troco de caneta

Para sair bem a letra

Nunca me sinto só

Mas olho à minha volta

E não tem ninguém do meu lado.

E quando tem,

Não me sinto eu…

Eu me revolvo no caminho

E falo com Deus

 

— Porque tudo é tão belo assim Pai e tão triste?!

E não cesso de O questionar, e me zango com Ele

Ainda que O ame ou respeite, nem eu sei…

 

Eu caio prostrada bem no meio das pedras

E silencio o grito inútil da dor

Me amordaço no corpo

Para me libertar no espírito

E uma vez mais resmungo com o Criador

Mas é cambaleando que renasço

É mutilada,

Jorrando sangue pela caneta

Que eu quisera bonita da vida.

 

Uma criança me pega pela mão,

Ela que eu nem sei quem é,

Confusão se instala neste cérebro louco

De tanta lucidez,

E como uma brisa fresca de Outono

Me beija.

 

O céu tem agora odor de alfazema e risos de andorinhas.

 

A publicar em Terra De Lavra

 

 

Os poemas foram transcritos do blog celiamoura.wordpress.com/ com pequenas alterações pela autora.

Nota sobre a iconografia

A imagem de abertura mostra uma obra de Niki de Saint Phalle (1930-2002), São Sebastião ou Retrato do meu amor.

Hesitei em associar ao artigo uma imagem de explícita carga erótica, sublinhando a superfície dos poemas. Decidi-me por destacar o que lá não é nomeado mas cuja existência é a causa e fundamento desta poesia: o inominado parceiro para o prazer.

No incógnito do rosto, de onde pende a gravata de conotação fálica, e no acidentado da vida que atinge o corpo vestido, se consubstancia o ausente parceiro da paixão nesta escaldante poesia.

Adenda talvez desnecessária

A referência a São Sebastião no título da obra de arte prende-se com a tórrida carga erótica que a representação plástica de São Sebastião e seu martírio têm tido ao longo da história de arte.

Soneto 29 de Shakespeare em português por Jorge de Sena e Vasco Graça Moura

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Talvez o Soneto 29 de Shakespeare (1564-1616) seja o mais camoniano dos seus sonetos pela atmosfera de desengano do mundo, embora nele, e contrariamente a Luís de Camões (1524-1580) onde o amor é fonte de profunda desilusão, Shakespeare fale sobre como o amor pode trazer uma luz de esperança e transformar em felicidade uma existência desiludida da sorte e dos humanos.

Transcrevo o original, e versões em português por Jorge de Sena (1919-1978) e Vasco Graça Moura (1942-2014), ambas rimadas, constituindo notáveis expressões de virtuosismo poético.

A tradução de Jorge de Sena, com liberdades mínimas, dá-nos em português um soneto próximo da letra do original:

 

Soneto 29

 

Quando em desgraça aos olhos dos humanos,

sozinho choro o meu maldito estado,

e ao surdo céu gritando vou meus danos,

e a mim me vejo e amaldiçoo o Fado,

 

sonhando-me outro, rico de esperanças,

co’a imagem del’ , como el’ tão respeitado,

invejo as artes de um, d’outro as usanças,

do que mais gosto menos sou tentado.

 

Mas se ao pensar assim, quase me odiando,

acaso penso em ti, logo meu estado,

como ave, às portas celestiais cantando,

se ergue da terra, quando o sol é nado.

 

Pois que lembrar-te, amor, tem tal valia,

que nem com grandes Reis me trocaria.

 

Tradução de Jorge de Sena

Transcrito de Poesia de 26 Séculos, Antologia, tradução, prefácio e notas de Jorge de Sena, Fora do Texto, Coimbra, 1993.

Igualmente próximo do original, Vasco Graça Moura faz uma recreação poética numa linguagem com atmosfera seiscentista, de enorme atracção:

 

Soneto 29

 

De mal com os humanos e a Fortuna,

choro sozinho o meu banido estado.

Meu vão clamor o céu surdo importuna

e olhando para mim maldigo o fado.

A querer ser mais rico em esperança,

como outros em amigos e talento,

invejando arte de um, doutro a pujança,

do que mais gosto menos me contento.

Se assim medito e quase me abomino,

penso feliz em ti e meus pesares

(qual cotovia em voo matutino

deixando a terra) então cantam nos ares.

   Tão rico me é teu doce amor lembrado,

   que nem com reis trocava o meu estado.

 

Tradução de Vasco Graça Moura

in Os Sonetos de Shakespeare, versão integral, Bertrand Editora, 2007.

A cada leitor a sua preferência.

 

 

Termino com o poema original:

 

 

Sonnet 29

 

When in disgrace with fortune and men’s eyes

I all alone beweep my outcast state,

And trouble deaf heaven with my bootless cries,

And look upon myself, and curse my fate,

Wishing me like to one more rich in hope,

Featured like him, like him with friends possessed,

Desiring this man’s art, and that man’s scope,

With what I most enjoy contented least;

Yet in these thoughts my self almost despising,

Haply I think on thee, and then my state,

Like to the lark at break of day arising

From sullen earth, sings hymns at heaven’s gate;

   For thy sweet love remembered such wealth brings

   That then I scorn to change my state with kings.

 

Transcrito de The Oxford Shakespeare, Complete Sonnets and Poems, Oxford 2002.

Abre o artigo a imagem de um desenho de Peter Paul Rubens (1577-1649), Retrato de rapariga.

As cadeias do amor num epigrama de Paulo Silenciário e o seu eco em António Dinis da Cruz e Silva

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A força com que o amor nos prende é um mistério que tem permanecido insolúvel pelos séculos. Pensar que com ele rompemos tão logo o queiramos é a ilusão dos neófitos. A curiosidade de o experimentar leva ao desejo de o conhecer melhor. À medida que a ele nos entregamos fazem-se mais fortes as amarras com que nos prende. Invisíveis são, mas estão lá, e rompê-las acaba por ser a custo emocional elevado.

Fazendo uso de uma metáfora impressiva, Paulo Silenciário (séc. VI) primeiro, e António Dinis da Cruz e Silva (1731-1799) numa paráfrase do poema daquele, mostram-no de forma eloquente:

Epigrama de Paulo Silenciário

 

O cabelo

 

Arrancando um cabelo da dourada cabeleira,

Dóris atou as minhas mãos como um prisioneiro de guerra.

A princípio ri às gargalhadas, pensando

que sacudiria facilmente as cadeias da minha Dóris.

Mas, sem forças para as romper, comecei a gemer

como se estivesse preso por grilhetas de ferro.

E agora, três vezes infeliz, vivo suspenso de um cabelo,

seguindo amarrado para onde a minha amante me leva.

 

Tradução de Albano Martins

in Antologia da Poesia Grega Clássica, Edições Afrontamento, Porto, 2011.

 

 

Soneto de António Dinis da Cruz e Silva

Centúria II

Soneto XCI

 

Parafraseando o epigrama grego de Paulo Silenciário

 

Estava eu com Licori à sombra fria

De um florido murtal de Amor tratando;

A Ninfa, seu poder exagerando,

Mil prodígios contou, de que eu me ria.

 

Ela porque eu pagasse a zombaria,

E de Amor fosse a força em mim provando,

Um cabelo das tranças arrancando,

Ambas as mãos com ele me prendia.

 

Zombei eu ao princípio destes laços;

Pois ao ver sua frágil contextura

Cri, que pronto os faria em mil pedaços.

 

Mas logo conheci minha loucura;

Que depois quis em vão soltar os braços,

E a prisão cada vez sinto mais dura.

 

Obras de António Dinis da Cruz e Silva vol. II, edição de Maria Luísa Malaquias Urbano, Edições Colibri, Lisboa 2001.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Egon Schiele (1890-1918), Nu feminino e masculino de 1913.

Ricardo Reis — entre carpe diem e cadáver adiado que procria

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Os versos impressivos não nos devem fazer esquecer a dimensão do real e o multifacetado que a vida é. No entanto, o gosto da língua tornada poesia tem um apelo por vezes irresistível, fazendo, se distraídos, a vida saber ao que a poesia conta. E hoje, Fernando Pessoa (1888-1935), por via do heterónimo Ricardo Reis quase nos convence da nossa nulidade e apagamento, no peculiar e recorrente entendimento do eu que atravessa a sua poesia:

…/ Perene flui a interminável hora / Que nos confessa nulos. / …

ou ainda:

… / Que é qualquer vida? Breves sóis e sono. / …

 

Nos três poemas que escolhi e hoje transcrevo, surgem diferentes formas de, com ligeiras variações, dizer o mesmo: Nada fica de nada. Nada somos. / …

 

Logo no primeiro poema lemos:

 

… / No mesmo hausto / Em que vivemos, morreremos. Colhe / O dia, porque és ele.

 

para no segundo poema encontrarmos: Sereno aguarda o fim que pouco tarda. / …

 

e no poema com que encerro esta volta: … / O que fazemos é o que somos. .. / … cadáveres / Adiados que procriam.

 

 

O diálogo do que somos com o que lemos é parte essencial de um aprofundar do conhecimento de si, levando à reflexão sobre o porquê de certa leitura se nos acomodar e aqueloutra nos deixar indiferentes ou mesmo incomodar.

 

 

Eis os poemas:

 

 [Uns, com os olhos postos no passado]

 

Uns, com os olhos postos no passado,

Vêem o que não vêem; outros, fitos

Os mesmos olhos no futuro, vêem

O que não pode ver-se.

 

Porque tão longe ir pôr o que está perto —

A segurança nossa? Este é o dia,

Esta é a hora, este o momento, isto

É quem somos, e é tudo.

 

Perene flui a interminável hora

Que nos confessa nulos. No mesmo hausto

Em que vivemos, morreremos. Colhe

O dia, porque és ele.

28-8-1933

 

Odes de Ricardo Reis, Obras Completas de Fernando Pessoa, Edição Ática, Lisboa, 1978.

 

 

[Sereno aguarda o fim que pouco tarda]

 

Sereno aguarda o fim que pouco tarda.

Que é qualquer vida? Breves sóis e sono.

        Quanto pensas emprega

        Em não muito pensares.

 

Ao nauta o mar obscuro e a rota clara.

Tu, na confusa solidão da vida,

        A ti mesmo te elege

        (Não sabes de outro) o porto.

31-7-1932

 

Odes de Ricardo Reis, Obras Completas de Fernando Pessoa, Edição Ática, Lisboa, 1978.

 

 

[Nada fica de nada. Nada somos.] [2]

 

Nada fica de nada. Nada somos.

Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos

Da irrespirável treva que nos pesa

        Da húmida* terra imposta.

 

Leis feitas, estátuas altas, odes findas —

Tudo tem cova sua. Se nós, carnes

A que um íntimo sol dá sangue, temos

        Poente, porque não elas?

 

O que fazemos é o que somos. Nada

Nos cria, nos governa e nos acaba.

Somos contos contando contos, cadáveres

        Adiados que procriam.

28-9-1932

 

Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1994.  – 168a.

* A edição Ática que referi antes lê no manuscrito humilde em vez de húmida.

 

 

Em apêndice, e como curiosidade para o leitor exigente, transcrevo outra versão do último poema:

 

[Nada fica de nada. Nada somos.] [1]

 

Nada fica de nada. Nada somos.

Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos

Da irrespirável treva que nos pese

        Da húmida* terra imposta,

Cadáveres adiados que procriam.

 

Leis feitas, estátuas vistas, odes findas —

Tudo tem cova sua. Se nós, carnes

A que um íntimo sol dá sangue, temos

        Poente, porque não elas?

Somos contos contando contos, nada.

28-9-1932

 

Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1994.  – 168.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Carlo Carrá (1881-1966), O menino-prodígio, 1915.

 

Odes anacreonticas de José Agostinho de Macedo

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Foi com uma crescente surpresa que mergulhei na leitura das Odes Anacreonticas de José Agostinho de Macedo (1761-1831).

A biografia do homem, o seu perfil trauliteiro passado à historia, e a vasta produção poética de duvidoso interesse hoje, mantiveram-me arredado desta leitura, na presunção de ausência do sentimento poético necessário a abordar com sensibilidade as temáticas do prazer e do gosto de viver que as odes anacreonticas em voga no séc. XVIII reclamavam.

À medida que a leitura prosseguia e os poemas se sucediam, constactei como a delicadeza do sentimento ia de par com alguma novidade nos argumentos de sedução para além do usual neste tipo de composições. É essa novidade argumentativa que escolho mostrar, transcrevendo três odes.

 

Na ode XVI é a apologia do prazer em detrimento do estudo o que encontramos, desafiando o poeta a bela Marcia, a o estudo (artes) abandonar:

São nada as artes, mais vale

Um dia só de prazer.

 

Na ode LXXXVII encontramos uma curiosa fuga ao compromisso formal na recusa de um anel de noivado entre o namorado e a namorada, invocando a perda de liberdade que ele traz, pois o importante é o amor e não o compromisso dele:

Se já lançaste cadeias

De amor ao meu coração,

Para que queres um laço

Visível na minha mão?

 

Termino a escolha com a ode XCII, e uma temática mais convencional neste tipo de poesia: a beleza da amada, aqui medida pela beleza divina de Vénus, na confusão que o seu filho, Amor, faz entre a mãe, Vénus, e Marcia, a amada do poeta:

Cuidou (que fácil engano!)

Ser Vénus que ele buscava

Voa do cedro contente,

E a linda Marcia abraçava.

 

Amada mãe … diz, e Marcia

Ao colo o numen tomou;

E viu então Natureza,

Que Amor também s’enganou.

 

 

Eis os poemas:

 

 

Ode XIV

 

O estudo de Amor

 

Nasceste, Marcia formosa,

Nasceste só para amar;

Não queiras em tanto estudo

Rápida vida passar.

 

As doces horas do sono

Não queiras diminuir;

De nada presta a ciência,

Se não ensina a sentir.

 

Encaneceram os homens

Sem nada poder saber

São nada as artes, mais vale

Um dia só de prazer.

 

A rosa vive um momento,

E os nossos olhos encanta

Que nos importa esse cedro

Que altivo aos céus se levanta?

 

Agrada a pomba inocente

Que não se eleva no ar:

Deixa que as águias soberbas

Os astros vão devassar.

 

Do teu Pastor as endeixas

Traze contínuo na mão;

Que ao lado de uma beleza

Nunca achei graça a Platão.

 

Para uma eterna memória

Profundo estudo que vale?

Nos versos que tu me inspiras

Já tens um nome imortal.

 

 

Ode LXXXVII

 

O Anel oferecido

 

Não queiras, Marcia formosa

Tão liberal parecer

Podes com outros tesouros

A liberdade prender.

 

Tão precioso presente

Eu não te devo aceitar,

Pois queres com mais um laço

As minhas prisões dobrar.

 

Teus dons, ó Marcia, suspende;

Já não duvida ninguém

Que, além de ser teu amante

Sou teu escravo também.

 

Se já lançaste cadeias

De amor ao meu coração,

Para que queres um laço

Visível na minha mão?

 

 

Ode XCII

 

O engano d’Amor

 

Pelo aprazível vimeiro

Colhendo de um mirto a flor.

De cima de um verde cedro

Viu Marcia o tirano Amor.

 

Notou seu talhe donoso.

Seus olhos, claras estrelas;

Viu alvos jasmins, viu rosas

Nos lábios, nas faces belas.

 

Viu seu andar soberano

Das lindas graças cercado,

E à vista da linda Marcia

D’assombro o rio parado.

 

Cuidou (que fácil engano!)

Ser Vénus que ele buscava

Voa do cedro contente,

E a linda Marcia abraçava.

 

Amada mãe … diz, e Marcia

Ao colo o numen tomou;

E viu então Natureza,

Que Amor também s’enganou.

 

Confuso um pouco cupido

Dos braços se desprendeu,

E as asas equilibrando,

Os livres ares fendeu.

 

Que Amor menino se engane

Não me causa admiração.

Se até a julga celeste

Filosofia, e Razão.

 

in A Lyra Anacreontica, Impressão Régia, 1819.

Modernizei a ortografia.

Abre o artigo a imagem de um desenho de Hendrick Goltzius (1558-1617), Vénus entre Ceres e Baco.