A uma passante pós-baudelairiana — poema de Carlito Azevedo

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Leitores assíduos do blog já saberão que gosto de poemas que captam a fugacidade da vida, a revelação do instante e seu efémero, dando tantas vezes sentido ao vazio dos dias, fazendo entrever outra vida possível, outros amores. Assim o poema de Carlito Azevedo (1961) A uma passante pós-baudelairiana que a seguir transcrevo.

 

 

A uma passante pós-baudelairiana

Sobre esta pele branca

um calígrafo oriental

teria gravado

sua escrita luminosa

— sem esquecer entanto

a boca: um ícone em rubro

tornando mais fogo

o céu de outubro

 

tornando mais água

a minha sede

sede de dilúvio —

 

Talvez este poeta afogado

nas ondas de algum danúbio imaginário

dissesse que seus olhos são

duas machadinhas de jade

escavando o constelário noturno

(a partir do que comporia

duzentas odes cromáticas)

 

mas eu que venero mais que o ouro-verde raríssimo

o marfim em alta-alvura

de teu andar em desmesura sobre

uma passarela de relâmpagos súbitos

sei que tua pele pálida de papel

pede palavras de luz

 

Algum mozárabe ou andaluz decerto

te dedicaria um concerto

para guitarras mouriscas e

cimitarras suicidas

 

Mas eu te dedico quando passas

me fazendo fremir

 

(entre tantos circunstantes, raptores fugidios)

 

este tiroteio de silêncios

esta salva de arrepios.

 

de Collapsus Linguae, Lynx, Rio de Janeiro, 1991.

 

 

É inevitável ao ler este poema ouvir cantar-nos no ouvido o balancear daquela Garota de Ipanema descrita por Vinicius de Moraes (1913-1980), e para a eternidade posto em música por António Carlos Jobim (1927-1994), ocupando todo o espaço da imaginação possível, deixando quem as vê passar, pós-baudelairianas, ou outras, entre tiroteios de silêncios e salvas de arrepios, como brilhantemente remata Carlito Azevedo a concluir o seu poema. Como curiosidade refiro que este Garota de Ipanema foi composto por alturas do nascimento de Carlito Azevedo. E assim, uma vez mais, assistimos ao eterno retorno das paixões dos homens e da sua poesia. É óbvio que, pelo título, e argumentação, o poema de  Carlito Azevedo já apelava a uma filiação/descendência ancorada a toda a tradição lírica do mundo com influência na cultura ocidental, associando-o à universalidade e intemporalidade do frémito da beleza feminina nos homens.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura, acrílico s/tela, de Brian Elston, Nude 580 de 2008, de colecção particular.

Andrzej Morsztyn — Contigo, à Meia-Noite o sol fulgura

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Sem ti amiga, o tempo vai tão lento 

que um Dia me parece mais que um Ano!

 

Se o tempo e a sua variada duração consoante os estados de alma é assunto recorrente em poesia, quando surge a presença/ausência da amada, entramos nos extremos mais pitorescos, como acontece neste poema de Jan Andrzej Morsztyn (1621-1693), poeta polaco do período barroco, que citei a abrir, e a seguir se lerá em versão portuguesa de David Mourão-Ferreira. O assunto deste poema … Sem ti, amiga, Inverno carrancudo / se me figura o mais risonho Estio. / …, remete para o soneto 97 de Shakespeare (1564-1616), que lhe é anterior, o qual já antes trouxe ao blog:

Que nudez de Dezembro em tudo havia. 

O tempo assim negado era de verão, 

 

Apesar da evidente quase citação de Shakespeare, nesse seu soneto lemos uma lamentação pela ausência do ser amado, enquanto o poema de Jan Andrzej Morsztyn pelo contrário, é uma manifestação de desejo e sedução até ao êxtase e que encontramos  explicitada já no final do poema, no verso — Contigo, à Meia-Noite o sol fulgura. —, assumindo que a noite é o refúgio dos amantes, e tempo de todas as delícias. A metáfora do Sol como sinónimo de prazer sublime ganha todo o seu significado  se pensarmos quanto na latitude da Polónia gozar o Sol é um prazer raro e escasso. Nos países do Sul onde o Sol brilha por vezes até à inclemência, a metáfora pode não ter tanta acutilância.

 

 

Poema

Sem ti amiga, o tempo vai tão lento 

que um Dia me parece mais que um Ano!

Mas contigo a meu lado voa o tempo,

e um Ano é uma Hora ou até nem tanto.

 

Sem ti, amiga, Inverno carrancudo 

se me figura o mais risonho Estio. 

Mas a teu lado o V’rão domina tudo,

mesmo tempo em que os lobos têm frio…

 

Sem ti, o Meio-Dia é noite escura.

Contigo, à Meia-Noite o sol fulgura.

E assim posso dizer-te, com certeza,

que reduzes ao nada a Natureza!

 

Versão portuguesa por David Mourão-Ferreira.

in Imagens da Poesia Europeia II, Colóquio Letras 168/169, FCG, Lisboa.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Ivan Kramskoi (1837-1887), Jovem no campo numa tarde de Verão, da colecção do museu estatal de arte de Nizhny-Novgorod.

Com a escolha da imagem desta bela jovem no meio da natureza espero ilustrar a possibilidade da afirmação final do poema:

E assim posso dizer-te, com certeza,

que reduzes ao nada a Natureza!

 

 

 

Obscenidades poéticas oitocentistas

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Começo por clarificar o assunto subjacente ao título do artigo: as poesias que hoje transcrevo e qualifico como obscenas referem-se a práticas sexuais recorrendo a um vocabulário procaz, ou seja, um vocabulário que choca, ou talvez ofenda, apenas isso. Estão assim os leitores que prossigam avisados.

Comparada com outras literaturas, a produção poética antiga de conteúdo obsceno conhecida em português com um mínimo de qualidade formal, é escassa. Hoje, dessa escassez trago três exemplos.

Começo com uma espécie de manifesto por João Penha (1838-1919) sobre o primado da cópula em detrimento de outras práticas sexuais, poema até há pouco inédito. 

Escrito no que chamaria uma espécie de soneto curto, pois na métrica é uma redondilha menor, no desenvolvimento do assunto respeita a regra do soneto com apresentação do assunto, desenvolvimento, e conclusão ou chave de ouro. Isto em quatorze versos, dois quartetos e dois tercetos, com rima abab abba aba bab. Ei-lo:

*

A foda, a luxuria, 

No doce orifício 

Que terna lamúria, 

Que brando exercício! 

 

A mão, que penúria! 

O cú para o vicio 

Cono ficticio 

De Venus espúria. 

 

Ao leito morena, 

Requebros agora 

A noite é pequena. 

 

Meu Deus, que demora, 

Ó filha tem pena 

Da porra que chora. 

João Penha, 1879

 

Agora um soneto, diria canónico na forma: verso decassilábico, desenvolvimento do assunto dentro do esquema que referi acima, e a mesma sequência de rima. O assunto que hoje, em tempos de adolescência retardada, seria matéria de polícia, não espantaria o século XIX pela idade da protagonista.

 

Soneto

Linda pequena de quatorze estios, 

mas já crescida em corpo e maroteira,

co’a nivea mão de jaspe tão veleira*

dez caralhos por noite põe vazios.

 

Com que garbo ela embala os mais esguios!

Como ela afia os grossos prazenteira!

Ó!… Não há quem a branca pingadeira 

veloz tire com modos mais macios!

 

Um dia arremeteu-a tal furor 

ao sopesar um membro de pau-santo, 

que disse, erguendo as saias com ardor

 

e mostrando da porra o doce encanto:

— Mete-mo todo aqui, meu lindo amor

que é pra quando eu casar não custar tanto.

*rápida

Anónimo séc. XIX

 

À linearidade sexual acima descrita, acrescento um soneto de complexa leitura sexo-comportamental, certamente merecedora de divã psicanalítico.

Notável na originalidade da escrita e factura formal, apenas na sonoridade da língua hoje, a rima entre o primeiro e o quarto verso pode surgir menos consonante do que devia. Não sabemos se tal seria o caso à data da composição do poema.

 

Soneto

Dum frade franciscano aos sacros pés, 

Dizia de confesso a meia voz 

Um tal pintor de nome; e o frade a sós 

Saboreava o conto do freguês:

 

— A Vénus que pintei é duma vez,

É digna dum fodão tal como vós!…

Que imensa pentelheira!,… Aqui pra nós,

eu já me ponho nela há mais de um mês. 

 

— Mas…; valha-me S. Pedro, mais S. Brás!

(Rosna o frade coçando no nariz),

A porra não lhe doi? Isso não faz…

 

— Nada!…frei Julião, (o artista diz).

Não, que eu tenho cuidado em pôr atrás

o rechonchudo cu dum aprendiz.

Anónimo séc. XIX

 

Por hoje chega de escândalo para os leitores mais sensíveis ou austeros e selectivos sobre que deve tratar a poesia.

Abre o artigo a imagem de uma escultura de Constantin Brancusi (1876-1957), Princess X de 1915. Pretende-se que, apesar da forma fálica, a escultura evoca Marie Murat Bonaparte, o seu pescoço curvado e a cabeça, que constantemente olhava num espelho que transportava. Ironias que ajudam a sublinhar a variedade poética do artigo.

Poemas de Alberto de Lacerda

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Apesar de tudo há um caso de amor

Entre mim e a vida

1958

in Palácio

 

*

A beleza é um oceano

Aonde o olhar se perde

E regressa

Transfigurado

Londres, 16 de Junho 99

in Horizonte

 

Eros

O meu olhar descia como um íman

Ao centro mais ardente do teu corpo

22.5.62

in Exílio

 

Ao ler os poemas de Alberto de Lacerda (1928-2007), deparamo-nos com uma poesia requintada, progressivamente depurada na forma, onde a adjectivação é contida, atravessada por uma constante densidade intelectual. Por vezes a emoção irrompe neste dizer poético, mas é sobretudo a justeza verbal da observação na matéria de poesia que atrai, perfeito trabalho sobre a língua tornada poesia, e os curtos poemas citados a abrir são exemplo.

Para falar desta poesia sigo o desejo expresso do poeta: “… Que os meus poemas fossem um comércio amoroso. Ao longo do tempo. Dos tempos. Livres do meu rosto. Do meu corpo. Do amor sem explicação e sem limite que os fez nascer a todos, … Livres da minha passagem pela terra. Do meu nome. Isentos de biografia.

                                                                                    Londres. Fev. de 1964.”

in Oferenda II

 

E no poema Cântico espraia o seu propósito:

 

Cântico

Não consentir a fórmula

Não produzir nenhuma 

Nunca pisar os calos

Não desmanchar a cama

Dos sonhos necessários

Não lançar mais tinta

Sobre a mesma tela

Volvidos tantos anos —

Não deixar de beber

O vinho da esperança

Dizer dizer tudo

Dizer quase tudo

Em palavras sem jaça

E um amor sem limites

Por todos por tudo

1.9.63

in Cor: Azul

 

A fechar as duas colecções de livros de poesia, Oferenda I e II, encontra-se uma extensa citação de Bertrand Russell, funcionando esta como retrato desejado do poeta, e da qual retiro este fragmento:

Três paixões, simples mas infinitamente poderosas, têm governado a minha vida: o desejo do amor, a busca do conhecimento, e uma compaixão esmagadora pelos sofrimentos da humanidade. …

Bertrand Russell

 

Na digressão prolongada pela poesia de Alberto Lacerda que segue, os detalhes de biografia ficam ausentes, alargando o horizonte de uma poesia de reflexão entre o eu e o mundo. Serão sobretudo poemas do Eu que transcreverei. De fora ficam extensos poemas/comentário sobre relevantes acontecimentos do século XX que o poeta viveu ou de que teve notícia.

 

Janela

Sou uma janela onde se debruçam

todas as coisas da vida.

Não sobre mim: sobre a vida

que passa pelo meu ser

 

E tudo é longe

e aqui.

 

Ser poeta é não pertencer

nem a si.

in 77 Poemas

 

 

No Corpo

Matéria de poemas? Nunca, nunca!

Tivesse eu a resposta dos teus olhos

Continuação dos meus — essa a poesia

Que eu busco desde o vértice do mundo

Esse o tufão glorioso que varresse

As míseras palavras

O sofrimento atroz

 

Matéria de poemas? Sim, cantando

Dois corpos a entrega luminosa

Na afirmação cumprida da existência —

Então, palavras

São triunfos, são Ícaros sem queda

Necessidade linda da nudez

Não míseros silêncios ruidosos

Mas música das esferas

20-11-1965

in Oferenda II

 

 

A um Deus desconhecido

Estou à espera do sol

Que há-de passar de novo

Nesta varanda

 

As raparigas de bronze lânguido

Da minha infância

Continuam a passar nesta varanda

Mesmo quando as não vejo

 

O sol

O sol há-de surgir

Os dez raios de oiro

Das tuas mãos desconhecidas

 

Como te chamas?

23-2-1965

in Oferenda II

 

 

*

Chove lá fora como terá chovido

muitas vezes — no céu da minha infância.

Tão poucas as lembranças que nos ficam

da beleza imortal que foi de outrora!

15.10.45

do poema Véu

in 77 Poemas

 

Depois desta busca poética de si, vamos ao encontro do outro:

 

*

Seguias tu pela estrada

e eu seguia plo carreiro:

tão fácil, movimentada;

eu, tão tardo caminheiro.

 

Os pés à vista de ti

inda mais se me toldavam;

se andava junto ou sem ti

meus sentidos ignoravam.

 

Ainda sou caminheiro

ainda vais pela estrada:

sempre mais lento o carreiro,

e tu mais longe na estrada.

21.7.45

in 77 Poemas

 

 

A festa recusada

E nasce entre clarins amachucados

O desejo de nunca mais ouvir

O som de bosques puros deslumbrados

Que os deuses não nos deixam descobrir

 

E nasce aquele som viril e brando

Da minha voz estranha que te despe

Da minha voz ardente imaginando

O amor que passou e que não deste

 

E nasce entre cilícios da orquestra

No soluço mais puro e mais oculto

A presença abolida de outra festa

Que fora prometida no teu vulto

 

A festa recusada que tornara

Os dois um rosto só medalha rara

5.11.62

in Exílio

 

 

*

Os dias sem ti

São redes que os séculos esticam 

De ansiedade

 

Dias sem ti

Sem o tocar das tuas mãos

Sem os teus lábios sobre 

Os meus lábios súplices

Sem a tua voz que modula

A exactidão serena

De dois corpos contidos

Num só olhar

Boston, 25 de Setembro 90

de poema s/título in Átrio

 

 

A tua ausência

A tua ausência resume

Como um grito a minha vida.

Sou tu, ao longe —

Até quando?

 

Sou ausência, a tua ausência.

Fiquei deserto de mim.

 

Sou dois olhos marejados

Cravados no horizonte.

3.10.62

in Exílio

 

 

*

Para ficar o universo

Equilibrado de novo

Para que a terra não fosse

Aos poucos arrefecendo

Teu rosto junto a meu rosto

Tudo o mais a esse ritmo

Simplesmente obedecendo

28-2-1965

in Oferenda II

 

 

*

E agora tomba-me a cabeça

Sobre o lado da solidão

4.11.62

do poema Declive, in Exílio

 

 

Amor perfeito

Não há

Nunca houve

 

Centenas

Num canteiro

Que contemplo

Surpreendido e distante

Londres, 5 de Junho 97

in Horizonte

 

 

De um soneto dos dezanove anos

Sonhou-te o meu amor. Nunca vieste!

De tanto te sonhar meu coração

decerto já em sonho os conheceste.

 

Não nos pertence a nossa inquietação!

Vem quebrar o encanto em que viveste

tantos anos na minha solidão!

in 77 Poemas

 

 

*

No sol que a pouco e pouco declinando

Irá meus sonhos transportar à noite

Revejo em fuga aquele esplendor de quando

O trigo se alternava com a foice.

 

Era a imagem de uma tarde infinda,

Redoma aberta de uma luz doirada.

Certos amigos não tinham ainda

Desaparecido ao voltar da estrada.

 

Ficou esse horizonte na lembrança,

Linha a perder de vista no olhar.

E é este o sol, o mesmo, na mudança,

E é este o trigo, a foice, e à noite, o luar.

 

O amor, a própria morte nos aumenta

Sua luz obscura — que nos alimenta.

Yêvre-le-chatel, 25 de junho 90

in Átrio

 

 

Para encerrar, um vislumbre da carga erótica que por vezes surge neste poemário:

 

*

Eu busco a maravilha duma outra nudez

Que os deuses partilham com certos mortais

1958

in Palácio

 

 

*

Há dias em que sou um corpo que pegou fogo

E ficou todo

Em ferida

Outubro de 64

in Oferenda II

 

 

*

Deixa navegar no silêncio

A alegria das nossas cinturas

12-6-1964

in Oferenda II

 

 

J.

O ritmo o ritmo intacto desse corpo

A graça enxuta dos gestos desse corpo

E a luz que emana quando as nossas noites

Se encontram se entregam se confundem:

Beijos estrelas vendavais e praias

in Palácio

 

 

O livro SONETOS, edição do Autor em Veneza no ano de 1991, merece uma referência autónoma, tanto pela unidade formal — são 147 sonetos, como pela unidade temática. Relato explícito de paixão/paixões homossexuais, onde a exaltação da posse, a angústia da ausência ou da perda se espraiam, o conjunto dos sonetos, revelando a mestria oficinal do poeta, apenas em alguns falha no apuro estético que toda a sua obra revela. Provavelmente o canto poético da homosexualidade já estava presente nos últimos quatro poemas transcritos, mas neste livro ela surge explícita e assumida.

Transcrevo apenas dois sonetos do livro dando conta de momentos de uma paixão: o encontro, e a sua memória. 

 

Soneto 40

Mas onde fica o teu dizer ardente

Onde a palavra não formule mais

Do que a curva da anca adolescente,

Filho dos deuses e dos animais?

 

O teu dizer ardente: o ar em arco

Reteso, duplo, sobre o peso duplo

Dos nossos braços: busco essa palavra

Que o teu corpo segreda quando nu

 

Se transforma no meu e eu me transformo

Na poesia do mundo que sonhaste

Pôr em verso. Silêncio. Não há forma.

Há essa maravilha que fixaste

 

Somente no que és e não consente

Que o saibas, meu amor, inteiramente

Lisboa

8 Agosto 70

 

 

Soneto 92

De noite, era de noite que chegavam

Teus lábios como versos que mordiam

Minha contemplação febril e casta.

De noite, era de noite que eu morria

 

Quando subitamente me surgias

E a casa por completo transformavas

E foi de noite anos depois no estio

Que em Lisboa nos fomos desvelar,

 

Nu contra nu, a assombração inteira,

Terramoto dos astros na cidade,

Simplicidade humana derradeira,

Mistério de presença e já saudade,

 

De que nem homem nem mulher nenhuma

Dividirá a maravilha una

Londres

14 de Junho 72

 

 

Vai longa a viagem, terminemos com este Impromptu:

 

Impromptu

E assim te foste, luz de vaga-lume,

feita de segredo e brevidade.

Impossível definir aquele perfume

que o teu surgir me trouxe nessa tarde.

in 77 Poemas

 

 

Nota bibliográfica

Alberto de Lacerda, Oferenda I, INCM, Lisboa, 1984. Contém os livros

Alberto de Lacerda, Sonetos, capa de Vieira da Silva, edição do autor, Veneza, 1991.

Alberto de Lacerda, Oferenda II, INCM, Lisboa, 1994.

Alberto de Lacerda, Átrio , INCM, Lisboa, 1997.

Alberto de Lacerda, Horizonte, INCM, Lisboa, 2001.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992), Le jeu de cartes (1937), de quem o poeta foi amigo, e por vezes dedicatária de poemas:

Irmã de Camões

Maravilha fatal 

Da nossa idade

Redentora heróica

Duma raça triste

Ó majestosa

Senhora guardando

Nossa glória alta

O troféu de luz

O deslumbramento

Que mais nos faltava

No século negro

Ó guarda serena

Dum monumental

Trágico e sublime

Segredo que esplende

Para toda a parte

Como o sol que brilha

Apesar de tudo

Na tua pátria o mundo

E em Portugal

Lisboa, 8.11.61

do poema Homenagem a Maria Helena Vieira da Silva

 

O cheiro de Lisboa e poesia popular a Santo António

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Regressei, e não consigo dizer com a canção popular: Cheira bem, cheira a Lisboa. Lisboa cheira a tristeza. Nem o sol que por vezes surge a consegue dissolver. Tempo de festa pelos Santos Populares era este, e nestes dias a festa está ausente. Aquela alegria espontânea que se apossava de nós sem razão aparente, apenas por circular entre a multidão disponível e alegre, desapareceu. Estão aí as músicas que faziam o pano de fundo das festas; e a memória de as ter vivido. São apenas um pálido arremedo da sua alegria, que voltará, espero.

Se pelo país a devoção a cada um dos santos populares: S. António, S. João, e S. Pedro, é variável, e cada povoação tem o seu preferido, em Lisboa, Santo António tem a primazia. Santo brejeiro na imagem popular, a ele se associa a alegria que por estes dias invadia a cidade:

 

Ó meu Santo galhofeiro,

Ó meu Santo brincalhão,

Descei do vosso poleiro,

Vinde ouvir minha canção…

 

Comia-se, bebia-se, e amores efémeros ou duradouros começavam. Seja ou não a tradição o que era, é facto que a alegria associada às festas de Santo António tem continuado, adaptando-se às peculiaridades do tempo que passa, e este ano não foi excepção. À espera que a alegria partilhada nas ruas esteja de regresso no próximo ano, continuemos esta digressão por poesia de recorte popular.

A invocação ao Santo citada antes, é o início de um poema do século XIX, O Casamenteiro. Foi escrito por Francisco Xavier da Silva (1832-????) em véspera de Santo António, no ano de 1867(1), e é retrato de um sentir profundamente enraizado que associa a imagem de António a casamentos felizes:

Tu ó Santo milagroso 

Atende seus requerimentos,

Faz este povo ditoso;

Decreta mil casamentos…

 

Os riscos da vida urbana fizeram desaparecer as fogueiras de Santo António onde se queimava alecrim, perfumando a noite, e nós, moços, numa inebriante alegria, saltávamos, na emulação de ver quem cobria a fogueira mais alta. O baile fazia-se na sua proximidade, numa partilha socialmente indistinta:

Aqui em torno à fogueira,

Santo de tantos primores,

Vem a cachopa altaneira 

Dançar com os seus amores…

 

Vem da cidade o janota,

Vem da montanha o lapónio,

Reina o prazer, a risota,

Seu patrono é Santo António.

 

Além de evocar tradições enraizadas nas festas de Santo António, o poema sublinha também, a terminar, a faceta brejeira que a crença popular associa ao santo:

Mancebos  beijai-lhe o manto

António é vosso rival!

 

Ele às donzelas quer tanto…

Mas não julguem que é por mal…

Quebra as bilhas por encanto…

Manda-as ir ao roseiral…

 

Estes versos ecoam uma quadra popular recolhida por  J. Leite de Vasconcelos (2) que dá também ela conta de comportamentos do santo, não tão santos assim:

 

Santo António, com ser santo, 

Também teve os seus amores;

Quando os santinhos namoram, 

Que farão os pecadores?

 

ou está outra:

 

Santo António, por ser santo

Não deixa de ser velhaco:

Levou as moças à fonte,

Levou duas, trouxe quatro!

 

Outras quadras populares alusivas ao santo há, e transcrevo desta recolha mais duas que referem amores e casamentos, a primeira com a novidades de pedir marido rico, a segunda pede protecção e sublinha a capacidade de o santo fazer milagres de amor:

 

*

Ó meu rico Santo António,

Meu santo casamenteiro,

Dai-me vós um bom marido,

Que tenha muito dinheiro.

 

*

O Santo António é bom santo,

Pois faz milagres de amor;

Hei-de a ele ir confessar-me

E há-de ser meu protector.

 

O mesmo Francisco Xavier da Silva, autor do poema de início, publicou em 1871 uma colecção de cantigas populares (3), na qual recolho estas quadras a Santo António, onde a mesma imagem do santo casamenteiro transparece:

 

*

Casai-me meu Santo António 

já que és tão milagreiro, 

conhecido em toda a parte 

como bom casamenteiro.

 

*

Vou rezar um padre nosso 

ao meu rico Santo António 

para que me case cedo 

e me livre do demónio.

 

*

Ó meu rico Santo António

rogai ao vosso menino 

que faça mudar depressa 

Este meu cruel destino. 

 

Numa abordagem diferente da cumplicidade entre o santo e Jesus referida na quadra anterior, Augusto Gil (1873-1929), num poema há décadas assimilado pela memória popular, O Passeio de Santo António, retrata além de uma simpática bonomia, imagem de marca do santo, uma atitude tolerante de António relativamente a comportamentos que a igreja condenava, protegendo e desviando a atenção do menino Jesus (a igreja) das manifestações amorosas do par entrevisto:

 

Augusto Gil — O Passeio de Santo António 

 

Saíra Sto. António do convento 

a dar o seu passeio costumado, 

e a repetir num tom pesado e lento 

um cândido sermão sobre o pecado. 

 

Andando, andando sempre, repetia 

o divino sermão, piedoso e brando, 

e nem notou que a tarde esmorecia, 

que vinha a noite plácida baixando. 

 

E andando, andando, viu-se num outeiro

com árvores e casas espalhadas,

que ficava distante do mosteiro

uma légua das fartas, das puxadas.

 

Surpreendido por se ver tão longe, 

e fraco por haver andado tanto, 

sentou-se a descansar o bom do monge 

com a resignação de quem é santo. 

 

O luar, um luar claríssimo, nasceu: 

num raio dessa linda claridade, 

o Menino Jesus baixou do céu, 

pôs-se a brincar com o capuz do frade. 

 

Perto uma bica d’água soluçante 

juntava o seu murmúrio ao dos pinhais; 

os rouxinóis ouviam-se distante; 

o luar mais alto iluminava mais. 

 

De braço dado para a fonte vinha 

um par de noivos, todo satisfeito: 

ela trazia ao ombro a cantarinha; 

ele trazia o coração no peito… 

 

Sem suspeitarem de que alguém ouvisse 

trocaram beijos ao luar tranquilo…

o Menino, porém, ouviu e disse: — 

oh! Frei António, o que foi aquilo? 

 

O Santo, erguendo a manga do burel 

para tapar o noivo e a namorada, 

mentiu numa voz doce como o mel: 

— não sei que fosse… eu cá não ouvi nada. 

 

Uma risada límpida, sonora, 

vibrou com timbres d’oiro no caminho. 

— ouviste, Frei António? Ouviste agora? 

— ouvi, Senhor, ouvi; é um passarinho. 

 

— Tu não estás com a cabeça boa; 

um passarinho e a cantar assim? 

E o pobre Santo António de Lisboa 

calou-se embaraçado. Mas por fim 

 

corado como as vestes dos cardeais, 

achou esta saída redentora: 

— Se o Menino Jesus pergunta mais 

queixo-me a sua Mãe, Nossa Senhora. 

 

Voltando-lhe a carinha contra a luz, 

e contra aquele amor sem casamento 

pegou-lhe ao colo e acrescentou: 

— Jesus são horas. E abalaram para o convento. 

 

in Augusto Gil, Luar de Agosto, 1909.

 

Notas

 

(1) in Francisco Xavier da Silva, Ensaios Poéticos, Tipographia Universal, Lisboa, 1868.

(2) in Cancioneiro Popular Português, coligido por J. Leite de Vasconcelos e coordenação de Maria Arminda Zaluar Nunes, III, Coimbra, Por Ordem da Universidade, 1983.

(3) in Cantigas Populares colecionados por Francisco Xavier da Silva, Porto, tipografia de Rodrigo José de Oliveira Guimarães, 1871.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Vieira da Silva (1908-1992), Tempo de Paz, de 1985, de colecção partícular.

 

 

Livros, covid-19, e Trabalhos e Dias de Hesíodo

 

Surpreendido no estrangeiro pela quarentena de combate à pandemia, aqui permaneço longe da biblioteca. Dispondo quase só dos recursos digitais, dei comigo no outro dia saudoso de folhear e ler livros em papel e em português. As bibliotecas digitais são cómodas para viajar, tanto como armazéns de livros disponíveis, como oportunidades de leitura nas situações mais inesperadas. Mas o prazer de umas horas de leitura, confortavelmente instalado com um livro em papel na mão, que nos devora a atenção ao virar de cada página, é sem paralelo. É simultaneamente o tacto e o cheiro do papel associado à mancha gráfica que os olhos ávidos percorrem, qual estrada de horizonte surpreendente a cada quilómetro percorrido para um destino ora desconhecido, ora familiar e sempre de enorme alegria, o que inebria a quem, como eu, viciado na leitura, os livros em papel fazem falta. Esta convocação dos sentidos para o prazer intelectual da leitura estará provavelmente perdida para as gerações mais novas. Outros prazeres encontrarão. 

Olho o meu neto recém-nascido, e não deixo de me perguntar: que interesse lhe poderá despertar a minha biblioteca em papel? Provavelmente a curiosidade de relíquias da história familiar. Tenho sempre presente algo que o meu filho na adolescência me disse quando o questionei sobre o pouco interesse que os livros da biblioteca de casa lhe despertavam, sendo ele um leitor ávido. Respondeu-me: esses foram as tuas escolhas, as minhas serão outras certamente. E assim foi, embora uma vez por outra coincidamos nelas. E no entanto, quando ele partiu para a aventura da vida e empacotou os seus livros, não deixou de referir: vou guardá-los, talvez um dia um meu filho goste de os ler. Não sei, não sabemos. 

Vivemos tempos de enorme mutação onde a incógnita do futuro é talvez maior que em toda a minha vida vivida. Nunca como agora fomos confrontados com a aguda evidência da nossa fragilidade e de como, enquanto humanos dependemos para tudo uns dos outros. E é em situações assim que ir ao encontro das raízes nos diz quem somos e nos ajuda a seguir em frente.

Retomo um artigo dos primeiros meses do blog, pelo Outono há pouco mais de dez anos, onde pelas minhas raízes deambulo, numa partilha de memórias consentidas.

É urbana a minha memória dos cheiros da terra. São, nos mercados as bancas da hortaliça se por acaso entre elas despontam ervas aromáticas: coentro, salsa, hortelã; que me devolvem aquela espécie de segurança despreocupada apanágio da infância.

Quando, chegado Outubro, acontecia a feira anual de sementes, frutos secos e gado, bujigangas e figurinhas de barro para o presépio à mistura,  em grandes sacos de serrapilheira lá estavam: peros, vermelhos, raiados, verdes, bravo d’esmolfe; e então, era a alegria num odor inebriante, talvez perdido para sempre.

É em vão que da prateleira do supermercado levo para casa bolinhas verdes a que chamam peros bravo d’esmolfe, pois aberto o saco, cheiro não há, e o sabor é vago a qualquer coisa indistinta.

Na volta do fim da tarde passei à porta da preciosa charcutaria de bairro e havia, em caixotes, cheirosos, peros bravo d’esmolfe. Entrei e comprei. As tâmaras da Tunísia e Israel, os figos da Turquia, nada disso ainda chegou, mas já há as frutas em açucar da abençoada fábrica Convento da Serra, de Elvas. Se até há uns anos eram as ameixas deles a minha perdição, desde que apareceram figos, não resisto. Com a minha paixão por figos em qualquer estádio, frescos, secos, com açucar, cristalizados, recheados  ou em doces os mais diversos, quase me sinto perto dos deuses do Olimpo de quem se diz alimentarem-se a figos e mel.

Na verdade é uma paixão vinda da mais tenra infância. Voltava eu da escola de aprender a ler, mal feitos os três anos, e ao passar em casa da bisavó corria para as algibeiras daqueles saiões rodados onde sempre havia figos secos e torrados. Mais tarde, era o caixote de madeira providenciado anualmente pelo meu avô para o inverno, cheio de figos arrumados às camadas separadas por pauzinhos de funcho, a fonte das delicias. Interrompia brincadeiras para amiúde ir buscar 1 ou 2 figos e o caixote com custo ultrapassava o Natal.

Como algures aqui escrevi, sou decididamente uma criatura do mediterrâneo. Neste folhear de memórias ocorre-me o prazer com que descobri o mercado das Ramblas em Barcelona, espectáculo único para os sentidos de qualquer gourmet, ou os passeios há mais de 40 anos pelos mercados de rua nas cidades italianas, de Veneza a Nápoles, hoje praticamente inexistentes.

O acaso das leituras cruzadas destes últimos dias conduziu-me ao mediterrâneo. Leio Orlando Ribeiro numa viagem fascinada pela paisagem, gentes e cultura. De um fôlego li a última história de mestre Camileri deambulada na Sicilia, e demoradamente caminho na edição de José Ribeiro Ferreira de Trabalhos e Dias de Hesíodo.

Na documentação que acompanha a tradução de Trabalhos e Dias encontro o esquema do arado descrito por Hesíodo e usado há mais de 2600 anos na Grécia. Na página seguinte do livro aparece o esquema do arado usado em pleno século XX na freguesia onde nasci e cresci em tudo semelhante ao arado grego da antiguidade.

Estas continuidades devolvem-me um sentido único de pertença a um mundo do qual gosto de guardar e transmitir a herança.

É Outubro, é mês de lavoura, tempo da passagem do grou pela Grécia vindo dos países nórdicos a caminho de África para aí hibernar e nos Trabalhos e Dias Hesíodo recomenda para esta altura:

Presta atenção, quando escutares o grito do grou,             448

no alto, entre nuvens, ele que seu lamento, ano a ano, repete:

dá-te o sinal do trabalho de lavra, a estação do inverno                   450

te anuncia, pluviosa, e punge o coração do que não tem bois.

Então engorda os bois de chifres recurvos, em casa.

Pois é fácil dizer: “empresta-me a junta de bois e o carro”;

mas fácil é também recusar: “ já há trabalho para os meus bois”.

O homem rico fala, em espírito, em construir um carro;                   455

louco, nem sequer sabe que cem são as peças desse carro,

as quais deve ele, primeiro, ter o cuidado de reunir em casa.

Logo que brilha para os mortais o tempo da lavoura,

aprestai-vos então em conjunto, escravos e tu próprio,

a arar a terra, seca ou húmida em cada estação da lavoura,           460

esforçando-te desde manhã, para que os campos produzam.

 

Talvez nesta eterna viagem algum dos grou de Hesíodo tenha transportado Nils Holgerssons na sua viagem maravilhosa*, aventura que, espero, um dia lerei ao meu neto.

O mundo hoje é outro, e ao meu neto regresso, na dúvida de que histórias que me interessaram lhe despertem, sequer, curiosidade. Luso-britânico com bisavós portugueses, espanhóis e alemães, será talvez a personificação do europeu pelo sangue, se não pelo coração. Nos antepassados encontra vítimas diretas dessas pandemias e guerras do primeiro século XX. E se o sofrimento não se carrega nos genes, a memória deles atravessa os homens e esperemos ajude a não repetir a mesma corrida para o abismo. A memória alimenta-se das histórias que nos fazem e fizeram, e nos livros encontramos condensadas tantas vezes. Ler é sempre um caminho para saber mais sobre nós, sobre o mundo, levando-nos ao encontro de saídas para tanta perplexidade que nos assalta.

Noticia bibliográfica:

O fragmento transcrito do poema Trabalhos e Dias, de Hesíodo, foi retirado da edição conjunta de Teogonia e Trabalhos e Dias de Hesíodo, publicada pela Imprensa Nacional – Casa da Moeda em 2005 na colecção Biblioteca de Autores Clássicos e da responsabilidade de Ana Elias Pinheiro – Teogonia , e José Ribeiro Ferreira – Trabalhos e Dias.

* Livro de Selma Lagerlöf (1858-1940).

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Nicolas de Staël (1914-1955), Paisagem mediterrânea de 1953, pertença da colecção do Museo Nacional Thyssen-Bornemisza, de Madrid.

DIZER MULHER …segundo RUY BELO

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Embora trate habitualmente no blog de um mundo de mortos, é a eternidade da sua fala e do que ela nos pode dizer, a nós vivos (ou nem tanto), quando a escutamos na sua intemporalidade, o que leio.

No ano em que nasci, Hollywood ofereceu ao mundo pela mão de Howard Hawks o filme Gentlemen Prefer Blondes, ou como se chamou em português Os Homens Preferem as Louras.

Filme onde passeiam o contraste da sua beleza Jane Russell e Marylin Monroe, que

na voz derramada canta

os segredos do prazer.

Anatomia única

de mamilos divergentes

no movimento das ancas

incendeia coxas e almas

em labaredas faustosas

de sonhada epifania.

Vê-lo hoje acaba com qualquer depressão decorrente da crise. Temos tudo: a graça da história, a beleza das mulheres e o eterno número de musical Diamonds Are A Girl’s Best Friend.

Numa leveza de champanhe a que talvez falte a elegância de Lubitsch, Hawks leva-nos entre o efémero e o eterno na mestria da sua realização.

Embora seja um hitchcockiano entusiasmado, a quem os filmes de John Ford lavam a alma, acabam por ser alguns filmes de Hawks que prefiro acima de todos. E desde logo aquele Rio Bravo, retrato absoluto da amizade entendida no companheirismo solidário, no respeito pelas opções de cada um, e onde o desafio da morte revela o valor de cada ser humano.

Fez Hawks alguns filmes para a minha ilha deserta além destes, onde atrizes, mulheres maiores, brilharam: Katharine Hepburn (A Grande) e Lauren Bacall (A Mulher-Desafio) para quem um dia escrevi este texto:

A voz está lá

num esplendor de assombro

capaz de sussurrando ao ouvido

desencadear cascatas de orgasmos.

E o resto?

continua perfeito.

A boca,

a lamina do olhar,

a pose,

apenas embrulhados nas rugas do tempo.

A idade na evidência dos seus sinais.

Há mulheres que não imaginamos no dia seguinte

são apenas o motor do antes

desencadeiam o desejo e a paixão.

No entanto,

fazem-nos sonhar com o depois.

Como foi?

Como será?

Escrever é desconcertar, perturbar e, em certa medida, agredir. (Ruy Belo)

A escolha iconográfica de uma mulher mutilada pelo cancro da mama, num artigo que passeia pela beleza da mulher, desafia-me sobre a perenidade e o efémero, e sobretudo sobre o valor das escolhas que fazemos.

Deixo-o agora, leitor, com a superior leitura da beleza feita por Ruy Belo.

O poema foi inicialmente publicado no livro TRANSPORTE NO TEMPO, em 1973.

Transcrevo a versão incluída na reedição num volume de TODOS OS POEMAS publicada por Assírio & Alvim em 2000.

NA MORTE DE MARILYN

Morreu a mais bela mulher do mundo

tão bela que não só era assim bela

como mais que chamar-lhe marilyn

devíamos mas era reservar apenas para ela

o seco sóbrio simples nome de mulher

em vez de marilyn dizer mulher

Não havia no fundo em todo o mundo outra mulher

mas ingeriu demasiados barbitúricos

uma noite ao deitar-se quando se sentiu sozinha

ou suspeitou que tinha errado a vida

ela de quem a vida a bem dizer não era digna

e que exibia vida mesmo quando a suprimia

Não havia no mundo uma mulher mais bela mas

essa mulher um dia dispõs do direito

ao uso e ao abuso de ser bela

e decidiu de vez não mais o ser

nem doravante ser sequer mulher

O último dos rostos que mostrou era um rosto de dor

um rosto sem regresso mais que rosto mar

e toda a confusão e convulsão que nele possa caber

e toda a violência e voz que num restrito rosto

possa o máximo mar intensamente condensar

Tomou todos os tubos que tinha e não tinha

e disse à governanta não me acorde amanhã

estou cansada e necessito de dormir

estou cansada e é preciso eu descansar

Nunca ninguém foi tão amado como ela

nunca ninguém se viu envolto em semelhante escuridão

Era mulher era a mulher mais bela

mas não há coisa alguma que fazer se certo dia

a mão da solidão é pedra em nosso peito

Perto de marilyn havia aqueles comprimidos

seriam solução sentiu na mão a mãe

estava tão sozinha que pensou que a não amavam

que todos afinal a utilizavam

que viam por trás dela a mais comum imagem dela

a cara o corpo de mulher que urge adjectivar

mesmo que seja bela o adjectivo a empregar

que em vez de ver um todo se decida dissecar

analisar partir multiplicar em partes

Toda a mulher que era se sentiu toda sozinha

julgou que a não amavam todo o tempo como que parou

quis ser até ao fim coisa que mexe coisa viva

um segundo bastou foi só estender a mão

e então o tempo sim foi coisa que passou

 

Por alturas da crise de 2010 publiquei no blog este artigo que agora trouxe ao encontro de novos leitores.

Mãe — poema de Vladimir Holan

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Não são de medo mas de precaução os tempos que hoje vivemos. E no confinamento a que a realidade nos obriga, lembrar os pequenos gestos, a ternura daqueles que nos amam e nos são queridos, são conforto sem limites. Vladimir Holan (1905-1980) no poema Mãe lembra um desses gestos primordiais onde o amor de mãe se consubstancia e impregna o ambiente que nos rodeia, ainda que pela sua banalidade, raramente dele nos apercebamos.

Existe algures uma tradução deste poema por Eugénio de Andrade. Afastado da biblioteca, na impossibilidade de o encontrar, socorro-me de uma minha tradução a partir de uma versão inglesa, para o trazer ao blog.

 

Mãe

Alguma vez observaste a tua velha mãe 

ao fazer a cama para ti,

como ela puxa, estica, cobre e aconchega o lençol

para que não sintas uma única ruga?

O seu respirar, o movimento das mãos 

são tão lindos

que no passado apagaram aquele fogo em Persepolis

e agora acalmam alguma futura tempestade 

ao largo da costa da China ou em mares desconhecidos.

Tradução de Carlos Mendonça Lopes a partir de uma versão em inglês do poema.

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Mary Cassat (1844-1926), Jovem mãe a costurar de 1870. A pintura pertence à colecção do Metropolitan Museum de New York.

 

Todo o mundo está aqui, no teu corpo — Gustavo Cobo Borda

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E de novo relatos de paixão e seu fim reflectidos na poesia. Hoje traduzo poemas do colombiano Juan Gustavo Cobo Borda (1948). Primeiro a notícia de uma paixão, talvez clandestina, no poema Teu corpo: O mundo, que sobretudo conta como o mergulho físico no outro deixa o resto do mundo para trás:

Lá fora o mundo, monótono como uma tragédia.

Carácter que modificou a força única de um beijo,

todo o mundo está aqui, no teu corpo.

 

Depois, em Romance de ocasião, a vertigem de uma paixão e o seu fim:

 

Supostamente não era o tempo mais adequado 

para nos unirmos, sedentos um do outro, 

por hotéis efémeros 

que ainda ardem na memória. 

Hoje, quando o pranto angustiado

buscar em vão um pouco de paz 

só vejo a minha mão acariciando a tua nuca;

a tua, repousando no meu ventre. 

Aprenderei, é certo, uma nova forma de estar só,

carente da impetuosa confiança que me davas 

 

E enquanto houver mundo, notícia poética teremos deste vai-vem ao abismo dos sentidos.

Vamos aos poemas.

 

 

Teu corpo: O mundo

 

Lá fora o mundo e as suas pequenas misérias.

Aqui a difícil ciência do abraço,

a lentidão com que aprendo as tuas costas,

a arte de delapidar o tempo 

no descobrimento cauteloso do outro corpo.

Lá fora o aborrecido lastro do que fomos 

e esse manchado nome que não nos pertence.

Aqui, ao contrário, a inerme vulnerabilidade

do que sentimos pela primeira vez.

Lá fora os olhos que nos julgam 

as desculpas que devemos inventar para alcançar o êxtase,

essas mentiras nas quais nem nós mesmos acreditamos.

Aqui o compassado ballet 

graças ao qual as almas se amoldam,

isentas de qualquer remorso.

Lá fora o mundo e os seus mexericos néscios

tratando de contaminar este pudor que treme.

Lá fora o mundo, monótono como uma tragédia.

Carácter que modificou a força única de um beijo,

todo o mundo está aqui, no teu corpo.

 

Poema original em Todos los poetas son santos e irán al cielo 

 

Romance de ocasião

 

Supostamente não era o tempo mais adequado 

para nos unirmos, sedentos um do outro, 

por hotéis efémeros 

que ainda ardem na memória. 

Mas nunca há outro tempo senão este 

quando o passado por resolver fica atrás 

e uma ténue capa de beijos estanca a ferida.

Este, em que entro em ti 

e teu corpo formula a sua obscura exigência.

Hoje, quando o pranto angustiado

buscar em vão um pouco de paz 

só vejo a minha mão acariciando a tua nuca;

a tua, repousando no meu ventre. 

Uma cidade hostil 

onde o teu rosto arrasado me diz adeus 

com uma determinação que ignorava.

Aprenderei, é certo, uma nova forma de estar só,

carente da impetuosa confiança que me davas 

e todavia, perdoa por dizê-lo,

cuspirei cem vezes 

sobre o excessivamente feliz que me fizeste.

 

Poema original em Salón de té

 

 

Lúcido, o poeta, não só escreveu o que acima lemos, mas interrogando-se sobre o seu propósito não deixa também de o reflectir em Poética:

Para quê aumentar as dúvidas,

reviver antigos conflitos,

imprevistas ternuras;

esse pouco de ruído

acrescentado a um mundo

que o ultrapassa e anula?

poema com que termina esta curta viagem, e assim dando voz à eterna dúvida dos poetas sobre a relevância do seu escrever.

 

 

Poética

 

Como escrever agora poesia,

porque não calarmo-nos definitivamente 

e dedicarmo-nos a coisas muito mais úteis?

Para quê aumentar as dúvidas,

reviver antigos conflitos,

imprevistas ternuras;

esse pouco de ruído

acrescentado a um mundo

que o ultrapassa e anula?

Aclara-se algo com semelhante novelo?

A ninguém faz falta.

Resíduo de velhas glórias,

a quem acompanha, que feridas cura?

 

Poema original em Consejos para sobrevivir, 1974.

 

Traduções de Carlos Mendonça Lopes a partir dos originais incluídos em Antología, La poesía del sigilo XX em Colombia, Visor Libros, Madrid, 2006.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Willem de Kooning (1904-1997), Abstracção de 1949-50, da colecção do Museo Nacional Thyssen-Bornemisza, Madrid.

 

Arroz Amargo, o filme, e o poema Lezíria de Miguel Torga

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Um filme ícone do cinema neo-realista italiano, Riso Amaro (Arroz Amargo) de 1949, cuja acção decorre entre  mondadeiras de arroz, dá conta simultaneamente de uma realidade social: as aspirações de vida melhor da juventude italiana pobre do pós- 2.ª guerra mundial, e de como o uso do corpo pode permitir uma ilusória melhoria material, se não alguma ascensão social. 

Filmado com mão de mestre por Giuseppe de Santis (1917-1997), toda aquela exploração humana é atravessada pelo erotismo que a juventude de qualquer condição social sente e vive. E aí, a pulposa e belíssima Silvana Mangano (1930-1989) nos seus 19 anos, dá corpo a uma personagem de antologia. O filme, proibido em Portugal até ao 25 de Abril de 1974 exactamente pela sua carga erótica, é um objecto precioso de uma certa maneira de ver pelo cinema. 

O trabalho das mondadeiras de arroz em meados do século XX, — Cantam, plantadas n’água, / Ao sol e à monda neste mês de Agosto. —, que em Portugal também existia, serviu a Miguel Torga (1907-1995) para um poema (Lezíria) em que a realidade social se associa a uma identidade de grupo nas mesmas condições de vida, e o poeta observa com empatia na distância da sua condição social.

O poema de Torga leva-nos a ver, naquela dura experiência, o amargo da condição humana — Cantam baixo, e parece / Que na raiz humana dos seus pés / Qualquer coisa apodrece. —, quando o conforto material é inexistente e a luta pela sobrevivência obrigava (e obriga) à emigração sazonal para os trabalhos duros do campo.

Sobre este poema de Miguel Torga escreveu Alexandre O’Neill (1924-1986) por ocasião de uma homenagem ao poeta(*):

Lezíria de Miguel Torga é um objeto mágico que há mais de 30 anos me acompanha — e devo dizer, com toda a franqueza, que da poesia portuguesa de hoje poucos são os talismã que trago comigo.”

O artigo continua numa interessante análise do poema verso a verso.

 

 

Lezíria 

 

São duzentas mulheres. Cantam não sei que mágoa 

Que se debruça e já nem mostra o rosto. 

Cantam, plantadas n’água,

Ao sol e à monda neste mês de Agosto.

 

Cantam o Norte e o Sul duma só vez.

Cantam baixo, e parece 

Que na raiz humana dos seus pés 

Qualquer coisa apodrece.

 

Ribatejo, 11 de Agosto de 1941.

Poema incluído em Diário I, Coimbra, 

(*) Artigo publicado no jornal A Luta em 4 de Novembro de 1976, e republicado em Relâmpago, Revista de Poesia, 13, Out 2003.

Abre o artigo a imagem de um cartaz publicitário ao filme Arroz Amargo.