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Pessoa, Lessing, e um soneto setecentista de reflexão agnóstica sobre a morte

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Provavelmente, mais que em qualquer época anterior, enfrentar a reflexão sobre o medo da morte, que não o medo de morrer, é acto de que se foge a sete pés. E, no entanto, ela, a morte, está sempre como possibilidade enquanto se vive. Morrer, é possível de muitas maneiras, e essa variedade retira acuidade à sua reflexão. Morrer é o caminho, a morte é o final. Ter medo da morte é viver em pânico constante, e este medo impedirá amar a vida mais. 

Fernando Pessoa enuncia a vantagem de pensar sobre a morte com a peculiaridade habitual: 

 

Quando, com razão ou sem,

Sobre o medo amplo da alma

A sombra da morte vem,

É que o espírito vê bem,

Com clareza mas sem calma,

Que sombra é a vida que passa,

Que mágoa é a vida que cessa,

E ama a vida mais.

10-2-1933

 

Após este prelúdio, passemos ao assunto de hoje: dois testemunhos poéticos setecentistas sobre como enfrentar a morte. No primeiro poema encontramos a desassombrada afirmação:

Eu te espero tranquilo, afoito, e mudo, 

És muito para os mais, comigo és nada. 

Vem, ó morte, não pares no caminho, 

 

No segundo poema, o medo da morte é declarado, e iremos assistir a uma negociação para a adiar:

Ontem — crē-lo-eis amigo?

Vem a morte ter comigo.

E eu chorando: “Ó cara Morte 

Já vos eu apeteci?

Tomai um copo daí 

Não deis inda o fatal corte.”

 

 

Lia eu uma colecção de sonetos antigos e deparei-me com alguns sonetos sobre a morte. Num dos poemas, um soneto assinado Maia, talvez de Manuel Rodrigues Maia (?-1804) encontrei, não a reflexão filosófica em filme de Ingmar Bergman no seu O Sétimo selo que acabara de rever: indagação alegórica sobre o sentido da vida e o silêncio de Deus, onde a morte se personifica na figura assustadora que nos persegue em vida, e ter-lhe medo ou não, condiciona-nos inevitavelmente a existência; mas uma sua descrição em palavras que dá a medida desse monstro terrível que ninguém quer conhecer, e que ao morrer figuradamente se materializa:

 

Ui! como é feia, torpe, e descarnada; 

Dente tão negro, queixo tão pontudo! 

Traz na direita o ferro pontiagudo, 

Curva foice fatal, forte e farpada! 

 

Não estamos, evidentemente, perante a reflexão platónica sobre a morte a pretexto da morte de Sócrates, abordado por Platão no diálogo Fedon, nem sequer sobre a estóica reflexão desenvolvida por Cícero num dos Diálogos em Túsculo. Antes encontramos no resto do poema uma veemente defesa epicurista da vida pelo prazer. No soneto, que à frente transcrevo na totalidade, o nosso poeta setecentista aceita a chegada da morte sem arrependimentos de última hora:

Vem, ó morte, não pares no caminho, 

Se outra vez cá vier, achar pertendo 

Mais dinheiro, mais moças, e mais vinho.

 

 

O interessante no poema prende-se com a época em que foi escrito, o século XVIII. Época de profunda crença religiosa, e temor do além-vida pelo castigo dos pecados cometidos, afoitamente salpicada de agnósticos e ateus. No poema encontramos uma manifestação absoluta de agnosticismo, sem proclamações doutrinárias sobre a vida além-morte, tão só a afirmação da supremacia dos prazeres da vida sobre o horror da morte. Eis o soneto na totalidade:

 

 

Soneto

 

Ui! como é feia, torpe, e descarnada; 

Dente tão negro, queixo tão pontudo! 

Traz na direita o ferro pontiagudo, 

Curva foice fatal, forte e farpada! 

 

— Ah! chega, chega à misera morada, 

Aproxima teu gesto carrancudo; 

Eu te espero tranquilo, afoito, e mudo, 

És muito para os mais, comigo és nada. 

 

Eis-me convulso já; a voz perdendo; 

Ao lado um padre tolo, meu vizinho, 

E eu querendo me rir porém morrendo! 

 

Vem, ó morte, não pares no caminho, 

Se outra vez cá vier, achar pertendo 

Mais dinheiro, mais moças, e mais vinho.

 

Manuel Rodrigues Maia (?)

 

 

É diferente o que pela mesma época o poeta e filósofo do iluminismo alemão Gotthold Ephraim Lessing (1729-1781) nos traz no poema tangencialmente faustiano Der Tod (A Morte). Deixando também de lado as questões de além-morte, é o desejo absoluto de continuar a viver, a motivação do protagonista e assunto do poema. Mostra ele uma conversa fantasiada com a morte, ao chegar a sua hora:

 

Ontem — crē-lo-eis amigo?

Dando-me ao rubro licor, 

(Imaginai meu terror!)

Vem a morte ter comigo.

 

Brandindo a foice dest’arte

Brada o fantasma cruel:

“Servo de Baco fiel!

Vem! Tens bebido que farte.” 

 

Para o impedir propõe o poeta à morte outras vidas em troca dos prazeres do vinho e do amor até à saciedade:

— “Ah! suspende por piedade;

Medicina estudarei 

E juro que te darei 

De meus doentes metade.”

 

— “Está dito: sem ti me parto,

Bebe e beija até fartar,

Vir-te-hei depois buscar,

Já de vinho e beijos farto.”

 

Este desenlace é motivo de júbilo pois o poeta acredita que … Já de vinho e beijos farto. nunca estará, conseguindo assim vida eterna:

Vida eterna já adivinho, 

Sim pelo Deus do licor!

Não serei farto de amor,

Nem jamais farto de vinho!

 

 

Na aparente ligeireza dos argumentos que dão sentido à vida, vamos encontrar a postura edonista dos nossos dias de que viver a vida vale a pena se for para ter prazer. E no caminho, para o conseguir, vale tudo.

 

 

Gotthold Ephraim Lessing

A Morte

 

Ontem — crē-lo-eis amigo?

Dando-me ao rubro licor, 

(Imaginai meu terror!)

Vem a morte ter comigo.

 

Brandindo a foice dest’arte

Brada o fantasma cruel:

“Servo de Baco fiel!

Vem! Tens bebido que farte.” 

 

E eu chorando: “Ó cara Morte 

Já vos eu apeteci?

Tomai um copo daí 

Não deis inda o fatal corte.”

 

C’um sorriso vinho bota,

Diz, erguendo o copo ao ar:

“Viva a Peste! e a virar.”

E dum trago vaso esgota.

 

Eu já quite me julgava,

Eis que torna ela a dizer:

“Pobre louco! e podes crer

 Que por vinho te largava?”

 

— “Ah! suspende por piedade;

Medicina estudarei 

E juro que te darei 

De meus doentes metade.”

 

— “Está dito: sem ti me parto,

Bebe e beija até fartar,

Vir-te-hei depois buscar,

Já de vinho e beijos farto.”

 

— “Que suave linguagem!

Que nova vida me dais!

Vá um copo, um copo mais 

À nossa camaradagem!” 

 

Vida eterna já adivinho, 

Sim pelo Deus do licor!

Não serei farto de amor,

Nem jamais farto de vinho!

 

Tradução de José Gomes Monteiro (séc.XIX)

 

 

E com estas reflexões brincadas sobre a morte termino, deixando o original do poema de G. E. Lessing recolhido na net, e que, espero, esteja correcto.

 

 

Gotthold Ephraim Lessing 

 

Der Tod

 

Gestern, Brüder, könnt ihrs glauben?

Gestern bei dem Saft der Trauben,

(Bildet euch mein Schrecken ein!)

Kam der Tod zu mir herein.

 

Drohend schwang er seine Hippe,

Drohend sprach das Furchtgerippe:

Fort, du teurer Bacchusknecht!

Fort, du hast genug gezecht!

 

Lieber Tod, sprach ich mit Tränen,

Solltest du nach mir dich sehnen?

Sieh, da stehet Wein für dich!

Lieber Tod verschone mich!

 

Lächelnd greift er nach dem Glase;

Lächelnd macht ers auf der Base,

Auf der Pest, Gesundheit leer;

Lächelnd setzt ers wieder her.

 

Fröhlich glaub′ ich mich befreiet,

Als er schnell sein Drohn erneuet.

Narre, für dein Gläschen Wein

Denkst du, spricht er, los zu sein?

 

Tod, bat ich, ich möcht′ auf Erden

Gern ein Mediziner werden.

Laß mich: ich verspreche dir

Meine Kranken halb dafür.

 

Gut, wenn das ist, magst du leben:

Ruft er. Nur sei mir ergeben.

Lebe, bis du satt geküßt,

Und des Trinkens müde bist.

 

O! wie schön klingt dies den Ohren!

Tod, du hast mich neu geboren.

Dieses Glas voll Rebensaft,

Tod, auf gute Brüderschaft!

 

Ewig muß ich also leben,

Ewig! denn, beim Gott der Reben!

Ewig soll mich Lieb′ und Wein,

Ewig Wein und Lieb′ erfreun!

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura do holandês Jan Provost (1465-1529), A morte e o avarento. Termino com a imagem da pintura do mesmo nome de H. Bosch (1450-1516), feita pela mesma época, e cuja imagem segue:

 

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Vem já, doce amiga, vem — um poema de Carmina Cantabrigiencia

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Hoje, qualquer manual prático de sedução que se leve a sério refere a importância de um ambiente aprazível e de conforto, onde a música e o que comer e beber têm importância fundamental para o sucesso do embate amoroso.

Isto que a moderna psicologia da sexualidade recomenda, vamos encontrar num poema de quase mil anos num cancioneiro pertença da Universidade de Cambridge, conhecido como Carmina Cantabrigiencia

O poema cujo primeiro verso é Iam, dulcis amica, venito, em latim medieval, relata o aparato de sedução montado por alguém que pretende convencer ao acto amoroso uma donzela:

1

Vem já, doce amiga, vem

   só a ti amo, meu bem.

Vem, entra em meus aposentos,

   já repletos de ornamentos.

 

2

Tenho divãs preparados,

   há soberbos cortinados;

Enchem a casa as flores

   e seus delicados odores.

 

3

Já está a mesa posta,

   de belos manjares composta;

De famosos vinhos forrada

   e tudo o mais que te agrada.

 

E o poema prossegue enunciando outros prazeres até apresentar o argumento amoroso:

7

Vem já amiga e amada,

   sobre todas estimada;

És de meus olhos a luz,

   na vida o que me seduz.

 

Estando a donzela talvez reticente ao assédio, o poeta remata, abrindo o jogo:

10

Porquê, amiga, entreter

   se por fim o hás-de fazer?

O que farás acelera,

   pois já não aguento a espera.

 

 

Os Carmina Cantabrigiencia são uma colecção medieval de poemas da tradição goliárdica à semelhança dos famosos Carmina Burana embora em muito menor número.

Apresento uma versão total e rimada deste poema, com o número 33 na colecção dos Carmina Cantabrigiencia, chamado pelo editor do manuscrito Karl Breul, INVITATIO AMICE. Nesta minha versão, confrontada com versões rimadas em espanhol e inglês, na impossibilidade óbvia da tradução palavra a palavra, procurei captar na rima o balanço do original, respeitando o desenvolvimento do poema e a equivalência possível nos argumentos da sedução.

David Mourão-Ferreira traduz 6 quadras do poema (Quadras 1-5 e 7) em Imagens da Poesia Europeia I, as quais transcrevo no final.

 

 

Carmina Cantabrigiencia poema 33

Convite à amiga

 

1

Vem já, doce amiga, vem

   só a ti amo, meu bem.

Vem, entra em meus aposentos,

   já repletos de ornamentos.

 

2.

Tenho divãs preparados,

   há soberbos cortinados;

Enchem a casa as flores

   e seus delicados odores.

 

3

Já está a mesa posta,

   de belos manjares composta;

De famosos vinhos forrada

   e tudo o mais que te agrada.

 

4

Soam doces sinfonias 

   e ouvem-se as charamelas.

Donzel e douta donzela

   entoam músicas belas.

 

5

Ele a viluela afeiçoa,

   ela a lira tange e soa;

Cálices servem criados

   com licores apreciados.

 

6

— Agrada-me, mais que a mesa,

   a agradável sobremesa;

 Mais que a rica pitança

   a amorosa esperança.

 

7

Vem já amiga e amada,

   sobre todas estimada;

És de meus olhos a luz,

   na vida o que me seduz.

 

8

— Sempre vivi na floresta,

   nunca amei lugares de festa;

Evitei sempre o gentio

   e das gentes me desvio.

 

9

Amor meu, não queiras tardar;

   entreguemo-nos a amar.

Sem ti viver é bem duro,

   e o nosso amor está maduro.

 

10

Porquê, amiga, entreter

   se por fim o hás-de fazer?

O que farás acelera,

   pois já não aguento a espera.

 

Versão de Carlos Mendonça Lopes

 

 

Original do poema em latim medieval incluído em Carmina Cantabrigiencia com o número 33:

 

 

INVITATIO AMICE

 

1

lam, dulcis amica, venito,

quam sicut cor meum diligo

Intra in cubiculum meum,

ornamentis cunctis onustum.

 

2

Ibi sunt sedilia strata 

et domus velis ornata,

Floresque in domo sparguntur

herbeque fragrantes miscentur.

 

3

Est ibi mensa apposita

universis cibis onusta

Ibi clarum vinum abundat

et quidquid te, cara, delectat.

 

4

Ibi sonant dulces simphonie,

inflantur et altius tibie;

Ibi puer et docta puella 

pangunt tibi carmina bella

 

5

Hie cum plectro citharam tangit,

ilia melos cum lira pangit

Portantque ministri pateras

pigmentatis poculis plenas. 

 

6

Non me iuvat tantum convivium

quantum post dulce colloquium,

Nec rerum tantarum ubertas

ut dilecta familiaritas.

 

7

Jam nunc veni, soror electa 

et pre cunctis mihi dilecta.

Lux mee clara pupille

parsque maior anime mee.

 

8

Ego fui sola in silva

et dilexi loca secreta; 

Frequenter effugi tumultum

et vitavi populum multum.

 

9

Karissima, noli tardare;

studeamus nos nunc amare,

Sine te non potero vivere:

iam decet amorem perficere.

 

10

Quid iuvat differre, electa,

que sunt tamen post facienda?

Fac cita quod eris factura,

in me non est aliqua mora.

 

in The Cambridge Songs, A Goliard’s Song Book of the XII century, edited by Karl Breul, Cambridge, at the University Press, 1915.

 

 

Leia-se a terminar, a versão parcial do poema por David Mourão-Ferreira (quadras 1-5 e 7) incluída em Imagens da Poesia Europeia I:

 

Vem agora, doce amiga,

a meu coração tão cara!

Vem agora a minha casa,

para ti toda enfeitada…

 

Há véus que pendem do tecto;

e há cadeiras, e almofadas;

e também não faltam flores,

por entre ervas perfumadas…

 

A mesa já está servida,

de iguarias carregada;

e haverá límpido vinho,

e tudo o que mais te agrada…

 

Ouvirás, ao som da flauta,

doces músicas tocadas;

por um moço e uma donzela 

belas canções entoadas…

 

Ele canta ao som de cítara,

ela na lira embalada…

E os servos trazem taças 

com bebidas aromáticas…

 

Vem agora, minha irmã,

acima de tudo amada,

ó clara luz dos meus olhos,

parte maior da minh’alma.

 

in Imagens da Poesia Europeia I, Colóquio Letras 166/167, FCG, Lisboa, 2004.

 

 

Na imagem da miniatura persa do séc. XVI que abre o artigo podemos bem imaginar, pelas expressões de relutante prazer da rapariga e firmeza prazenteira e polida do rapaz, o casal protagonista do poema de caminho para o cenário de prazer que o poema antecipa: Vem já, doce amiga, vem / só a ti amo, meu bem. / Vem, entra em meus aposentos, / já repletos de ornamentos. / … / Porquê, amiga, entreter / se por fim o hás-de fazer? / O que farás acelera, / pois já não aguento a espera.

 

Eugénio de Andrade — nunca o amor foi fácil, nunca

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É apenas o começo. Só depois dói,

e se lhe dá o nome.

Às vezes chamam-lhe paixão. …

 

Do anúncio da paixão à sua consumação, escolho quatro poemas de Eugénio de Andrade (1923-2005) para ilustrar o erotismo velado que percorre a poesia portuguesa do século XX e em tempos referi a pretexto do poema Metafísica de Adolfo Casais Monteiro.

Nestes poemas Eugénio de Andrade fala da paixão com uma tocante arte da palavra escrita. Na obsessiva limitação do léxico faz maravilhas:

 

Talvez nem tenha nome.

Anunciado só pelo frémito

da folhagem.

O riso invisível, o grito

de um pássaro, o escuro

da voz. …

 

Anunciada a chegada do amor, a sua consumação é contada com a economia, elegância, e emoção constantes na sua poesia:

respiro rente à tua boca,

abre-se a alma à língua, morreria

agora se mo pedisses, dorme, …

 

 

Eis os poemas antes citados:

 

Talvez

 

Talvez nem tenha nome.

Anunciado só pelo frémito

da folhagem.

O riso invisível, o grito

de um pássaro, o escuro

da voz. Certa doçura,

certa violência.

O espesso, volúvel

tecido da noite agora a roçar

o corpo da água. E por fim

a muito lenta paixão

do fogo, sufocada.

Era o verão.

 

in O Sal da Língua, 1995

 

 

Da Maneira Mais Simples

 

É apenas o começo. Só depois dói,

e se lhe dá o nome.

Às vezes chamam-lhe paixão. Que pode

acontecer da maneira mais simples:

umas gotas de chuva no cabelo.

Aproximas a mão, os dedos

desatam a arder inesperadamente,

recuas de medo. Aqueles cabelos,

as suas gotas de água são o começo,

apenas o começo. Antes

do fim terás de pegar no fogo

e fazeres do inverno

a mais ardente das estações.

 

in Os Sulcos da Sede, 2001.

 

 

Poema 25

 

Cala-te, a luz arde entre os lábios

e o amor não contempla, sempre

o amor procura, tacteia no escuro,

esta perna é tua?, é teu este braço?

subo por ti de ramo em ramo,

respiro rente à tua boca,

abre-se a alma à língua, morreria

agora se mo pedisses, dorme,

nunca o amor foi fácil, nunca,

também a terra morre.

 

in Matéria Solar, 1980.

 

 

Poemas sem que o género dos protagonistas se explicite, ganham uma capacidade universal de falar ao coração das gentes, aflorando um erotismo de que Vaguíssimo retrato, com que termino esta volta, é um paradigma:

 

Vaguíssimo retrato

 

Levar-te à boca:

beber a água

mais funda do teu ser…

Se a luz é tanta

— como se pode morrer?

 

in Obscuro Domínio, 1971.

 

Poemas transcritos de Eugénio de Andrade, Poesia, Rosto Editora, lda, V.N.Gaia, 2011.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Heinrich Hoerle (1895-1936), Rapariga melancólica, de 1930.

É fácil imaginar esta rapariga leitora de poesia, sonhadora com os frémitos da paixão, e melancólica na expectativa da sua espera.

Alguns poemas de Yosa Buson

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Na infinita variedade poética do haiku japonês, apesar da recorrência dos assuntos, lê-los é sempre um convite à tranquilidade de alma e serenidade do viver:

*

Passeando

cheguei ao fim

do último dia de primavera

 

Encontramos quase sempre em cada poema sentidos múltiplos de leitura. No poema anterior, por exemplo, à tranquilidade com que a vida decorreu associada ao passeando, podemos também ler, tomando primavera como metáfora de juventude, com esta já chegou ao fim e vivê-la foi um tempo agradável.

 

A constância na repetição cíclica de que a natureza dá mostras, e a forma como os homens com ela convivem, salpicados aqui e ali pela realidade social, são a matéria primeira da mão-cheia de haikai de Yosa Buson (1716-1784) que em tempo transpus para português a partir de traduções inglesas, e hoje trago ao blog.

 

Poemas

 

*

Passeando

cheguei ao fim

do último dia de primavera

217

 

*

Os dias vão aumentando

e o passado

cada vez mais longe

116/983

 

*

Ah, que prazer

atravessar um ribeiro no verão

sandálias na mão

318/960

 

*

Trouxe a melancolia do meu coração

ao cimo da colina

para as rosas silvestres em flor

327

 

*

Enquanto contemplo as flores o sol põe-se

estou longe de casa

o caminho continua pelo campo

177

 

*

Ainda há pouco

o vento sussurrava no arroz selvagem

agora está numa fúria invernal

762

 

*

Pereiras em flor

uma mulher lê uma carta

ao luar

205

 

*

Jovem chorão 

devo chamar-te árvore ou erva

deixemos o Imperador dizer

13

 

*

Três tigelas de guisado

e afinal

sentes-te rico

3

 

*

Camponeses lavram os campos

sob os cartazes

anunciadores de novas leis

111

 

Versões de Carlos Mendonça Lopes a partir de traduções inglesas nas edições seguintes:

(1) W. S. Merwin e Takako Lento, Collected Haiku of Yosa Buson, Copper Canyon Press, Washington, 2013.

(2) Traditional Japanese Poetry, translated, with ao introduction, by Steven D. Carter, Stanford University Press, 1991.

A numeração que segue os poemas identifica-os nas edições referidas.

Abre o artigo a imagem de uma gravura de Hokusai (1760-1849), uma das 36 vistas do Monte Fuji, a vista 21.

 

Bem me cuidei eu, Maria Garcia — um poema de Afonso Eanes do Cotom

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Surpreender hábitos e mentalidades são um dos atractivos dos cancioneiros antigos. E estes são cheios de revelações inesperadas. O título do artigo, primeiro verso do poema transcrito abaixo, e nome do poeta a seguir, não dá conta da surpresa que espera o leitor que continuar a leitura. É ele um singular poema do cancioneiro galaico-português onde o poeta reclama de não ter recebido paga depois de ter fodido uma Maria Garcia:

 

Bem acreditei, Maria Garcia

no outro dia, quando vos fodi,

que de vós não partiria

como parti, com a mão vazia,

apesar do serviço que vos fiz;

 

Ao ler estes versos poderíamos pensar tratar o poema de prostituição masculina ao referir o acto sexual como um serviço. É assim mas com nuances. Ganhamos uma ideia mais precisa destes comportamentos, digamos comerciais, à volta do sexo na idade média, ao ler o fabliaux Le Fouteur (O Fodedor) que outro dia aqui trarei. Este fodedor francês não se sentiu enganado, contrariamente ao protagonista do poema de hoje, porque exigiu o pagamento antecipado dos seus serviços, o que o nosso homem diz que em próxima ocasião também fará. 

Embora a prostituição seja antiga como a humanidade, e dela a poesia dê conta pelos tempos fora, quando masculina é invulgar o seu tratamento poético. E é certamente abusivo qualificar para esta época, e com a carga moral de hoje, prostituto um indivíduo cujo comportamento sexual, lendo só a estrofe citada, assim se poderia chamar nos nossos dias. Acontece que à época este comportamento não tinha associada a carga moral negativa dos nossos dias ainda que os seus praticantes pudessem incluir-se entre extractos mais baixos da sociedade. Ele integrava, e era parte, da imutável ordem natural do mundo, criado por Deus na sua infinita e inquestionável perfeição, e caberia num quadro de costumes aceite, como o poema refere a terminar:

E, dona minha, quem pergunta não erra

— e vós, por Deus, mandai perguntar

pelos naturais deste lugar

se foder, em paz ou em guerra,

não é por dinheiro ou por amor.

 

No entanto, e mais à frente, se verá quanto de comum há entre o resto desta reflexão em torno do relato factual, e tanta experiência pessoal hoje.

Entretanto, continuando a leitura do poema, ficamos a saber que o valor esperado pelo serviço não seria sequer significativo:

pois não me destes, segundo se diz, / nem um soldo para jantar um dia. / …, o que leva o nosso homem a dizer o que afinal é uma experiência intemporal:

… não mais foder uma mulher

se antes algo na mão me não puser

pois não tenho porque foder de graça;

e vós, se assim quiserdes foder

sabeis como: ide-o fazer

com quem tiverdes vestido e calçado.

 

Entra aqui o que insinuei antes, e é um dos aspectos perenes da relação sexual entre indivíduos: a contabilidade do dar e receber e, por vezes, a dependência económica que mantém uma ligação quando qualquer afecto ou estima desapareceu, o que de forma lapidar o poema específica, como vimos acima,

e vós, se assim quiserdes foder

sabeis como: ide-o fazer

com quem tiverdes vestido e calçado.

e prossegue:

Como não me vestiste nem calçaste 

nem eu habito no vosso casal;

nem tendes por mim poder tal

pra que vos foda, sem que me pagueis

antes muito bem; e mais vos eu direi:

nenhum medo, graças a Deus e el-Rei,

tenho da força que sobre mim façais.

 

Chegamos agora ao fim do poema com a lição que a vida todos os dias dá, a saber, as razões para as relações sexuaispor dinheiro ou por amor

— e vós, por Deus, mandai perguntar

pelos naturais deste lugar

se foder, em paz ou em guerra,

não é por dinheiro ou por amor.

 

 

O poeta, Afonso Eanes do Cotom, autor de 19 poemas conhecidos, terá nascido na Galiza, e vivido no século XIII. O poema transcrito consta dos Cancioneiros da Biblioteca Nacional, (B 1588) e Biblioteca Vaticana (V1120).

Encontra o leitor a seguir uma minha versão do poema em português moderno, a qual entretanto citei no corpo do texto, procurando explicitar o sentido escondido de algumas expressões em desuso, para facilitar a sua inteligibilidade. Adoptei na tradução modernizada o que é uma prática comum na abundante edição francesa de poesia medieval, nomeadamente na colecção Lettres Gothiques da editora Le Livre de Poche.

Segue-se o texto do poema na língua original. A transcrição a partir dos manuscritos suscita dúvidas entre os especialista na expressão final — Rei en’a terra. ou renda na terra. — e escolhi a primeira.

 

 

Afonso Eanes do Cotom — [Bem acreditei, Maria Garcia]

 

Tradução modernizada em português 

 

Bem acreditei, Maria Garcia

no outro dia, quando vos fodi,

que de vós não partiria

como parti, com a mão vazia,

apesar do serviço que vos fiz;

pois não me destes, segundo se diz,

nem um soldo para jantar um dia.

 

Pois desta ficarei escarmentado (*)

para não mais foder uma mulher

se antes algo na mão me não puser

pois não tenho porque foder de graça;

e vós, se assim quiserdes foder

sabeis como: ide-o fazer

com quem tiverdes vestido e calçado.

 

Como não me vestiste nem calçaste 

nem eu habito no vosso casal;

nem tendes por mim poder tal

pra que vos foda, sem que me pagueis

antes muito bem; e mais vos eu direi:

nenhum medo, graças a Deus e el-Rei,

tenho da força que sobre mim façais.

 

E, dona minha, quem pergunta não erra

— e vós, por Deus, mandai perguntar

pelos naturais deste lugar

se foder, em paz ou em guerra,

não é por dinheiro ou por amor.

Ide tratar da vossa vida, senhor, (**)

que ainda há, graças a Deus, justiça na terra,

 

(*) Pois desta aprendi a lição.

(**) invariante antiga para senhor e senhora. Conservei a forma antiga para preservar a rima.

Tradução de Carlos Mendonça Lopes

 

 

Afonso Eanes do Cotom — [Bem me cuidei eu, Maria Garcia]

 

Original do poema

 

Bem me cuidei eu, Maria Garcia,

no outro dia, quando vos fodi,

que me nom partiss’eu de vós assi

como me parti já, mão vazia,

vel por serviço muito que vos fiz;

que me nom destes, como x’homem diz,

sequer um soldo que ceass’um dia.

 

Mais desta serei eu escarmentado:

de nunca foder já outra tal mulher

se m’ant’algo na mão não poser,

ca nom hei porque foda endoado;

e vós, se assi queredes foder,

sabedes como: ide-o fazer

com quem teverdes visti’e calçado.

 

Cá me nom vistides nem calçades

nem ar sej’eu en’o vosso casal;

nem havedes sobre mim poder tal

por que vos foda, se me nom pagades 

ante mui bem; e mais vos eu direi:

nulho medo, grado a Deus e a el-Rei,

nom hei de força que me vós façades.

 

E, mia dona, quem pergunta nom erra

— e vós, por Deus, mandade perguntar

polos naturaes deste lugar

se foderam nunca em paz nem em guerra,

ergo se foi por alg’ou por amor,

Id’adubar vossa prol, aí, senhor,

c’havedes, grad’a Deus, Rei en’a terra.

 

Cancioneiro da Biblioteca Nacional, 1588; Cancioneiro da Vaticana 1120.

 

 

Abre o artigo a imagem de um detalhe da iluminura para o mês de Fevereiro do manuscrito iluminado Les Tres Riches Heures du Duc du Berry pelos irmãos Limbourg.

Neste pormenor o artista mostra-nos um grupo de jovens camponeses, um rapaz e duas raparigas. Forçados a uma pausa nos trabalhos do campo pelo inverno, aproveitam-na ao que parece, para dar satisfação aos desejos imperiosos do corpo. Pelo menos é o que pode deduzir-se do cenário e dos gestos dos personagens. À esquerda, com uma cama em fundo, um casal, genitais à vista, apresta-se à função. Com gestos de mãos parecem querer acalmar na sua pressa a rapariga que no exterior faz o gesto de levantar as saias. 

Imagino que aqui não se tratará de dinheiro ou de amor a justificar a actividade adivinhada, como o poeta pretende que sempre acontece, mas apenas do irreprimível impulso da espécie.

Um poema de Lev Loseff

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É de um mundo desolado e sem vida que fala o poema sem título de Lev Loseff (1937-2009) de que à frente dou uma minha versão em português a partir da sua edição em inglês.

Lev Loseff, conhecido sobretudo pela publicação de um ensaio sobre vida e a obra do poeta e prémio Nobel Josef Brodsky (1940-1996), de quem foi amigo de uma vida, é autor de uma poesia complexa, dando conta da sua Rússia natal tanto em alusões literárias, como em quadros de paisagem e atmosfera social. Tudo isso encontramos no poema de hoje.

Do mundo soviético e pós-soviético, no que à poesia respeita, é escasso o conhecimento em Portugal. E, no entanto, a poesia abunda original e variada, tanto quanto consigo aperceber em edições inglesas ou francesas. Se entre as gerações criadas no mundo pós-1989 a aproximação poética aos valores, experiências, e modos de sentir e pensar no ocidente euro-americano, são uma constante, para as gerações anteriores, cuja poesia foi tantas vezes clandestina, é o mundo da sociedade sem horizontes, envolto no nevoeiro que a amortalha, como escreve o poeta a pretexto da sua cidade natal, o que recorrentemente se encontra. Neste poema sem título, lemos esse mundo fantasmal, de vida ausente, e esperança nula, onde … a neve permanece solidamente gelada.

Poema

 

Sem Título

 

A minha cidade natal não tem nome;

o nevoeiro que a amortalha permanece o mesmo —

o seu branco de leite desnatado por todo lado.

Os lábios hesitam em falar alto abertamente

daquele que três vezes negou o Senhor,

ainda que se conte entre o sagrado.

 

E como é chamado o meu país, dizeis.

Porquê a obsessão com estes nomes?

— A terra de onde venho, camarada,

é onde nenhuma estrada conduz a Roma,

e onde o céu é fumo e vapor

e a neve permanece solidamente gelada.

 

Versão de Carlos Mendonça Lopes a partir do poema em inglês publicado no livro As I Said, Arc Publications, 2012.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Anselm Kiefer (1945), Des Herbstes Runengespinst, 2006, inspirada pela poesia de Paul Celan, e aqui iluminando a desolada matéria do poema.

 

Artemidoro — poema de Jorge de Sena

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O poema Artemidoro de Jorge de Sena (1919-1978) leva-nos por uma densa e intensa meditação sobre a história e o devir: o homem, indivíduo na sua singularidade, e a parte de uma humanidade que culturalmente o identifica:

 

Artemidoro,

a tua múmia está no Museu Britânico

entre as fileiras tristes do segundo andar.

Alguém ta descobriu num cemitério copta,

que os areais e o tempo haviam ocultado,

por séculos de calma eternidade

que em teu caixão não profanado por

ladrões de sepulturas conheceste.

Secaste assim serenamente, enquanto

quem tu eras se perdeu depressa

nas memórias humanas que habitaste.

Não eras rei, nem príncipe. E célebre

talvez o tenhas sido para os mercadores

que trataram contigo, para os teus amigos

com quem ceavas altas horas, para

tua mulher, teus filhos (só, quando pequenos,

te viam gigantesco e absorto e paternal).

É bem possível que tu próprio encomendasses,

risonho e pensativo, esse retrato, ou que,

depois de ter’s morrido, teus irmãos de igreja

o hajam decidido e colocado

essa máscara nobre de tragédia,

convencional tragédia em palcos de outro mundo.

 

O sentimento do passado nos artefactos herdados permite a viagem cultural que nos faz ir ao encontro das raízes de ser quem somos, e neste poema Jorge de Sena exercita de forma fulgurante:

E o teu líquido olhar ficou fitando

— num jeito que passou a Creta,

atravessou incólume Veneza,

o Tintoreto e Roma até Toledo,

em que é de Apostolado para o Greco,

mas para ti e os teus — um pouco egípcios,

um pouco sírios, gregos e romanos,

cristãos e persas: Cristo Pantocrator,

Ísis, Pan-águia, os anjos e os profetas,

Deméter, a Fortuna, o Jano bifrontal,

Ormuzd e Ariman, Pitágoras, Platão,

o deus Ptah, Adónis, Minotauro,

e as bacantes agitando o torso —

mas para ti e os teus, entre esse mar

de Ulisses e de António, de Pafos e de Chipre,

e o deserto da Esfinge e dos Colossos

que à madrugada num gemer saúdam,

mas para ti e para os teus, nas margens debruçados

para o murmúrio lamacento que afogou Antínoo —

que seria esse olhar tão líquido e profundo que me fita

envidraçado pela morte e pelas crenças todas

e também pela vidraça que, interposta,

nos não separa menos do que os séculos?

 

O saber quem somos e a que mundo pertencemos enquanto vivemos não altera a finitude que nos caracteriza e inevitavelmente chegará. Neste poema, no artefacto artístico de um rosto pintado que acompanha a múmia de um desconhecido agora entregue ao pó dos corredores do museu Britânico e à curiosidade de algum visitante, ou à meditação filosófico-poética que hoje transcrevo, se consubstancia esse efémero que trazemos em nós, ou parafraseando o poeta: desaparecer serenamente, enquanto quem fomos se perde depressa nas memórias humanas que habitámos.

 

 

ARTEMIDORO

 

Artemidoro,

a tua múmia está no Museu Britânico

entre as fileiras tristes do segundo andar.

Alguém ta descobriu num cemitério copta,

que os areais e o tempo haviam ocultado,

por séculos de calma eternidade

que em teu caixão não profanado por

ladrões de sepulturas conheceste.

Secaste assim serenamente, enquanto

quem tu eras se perdeu depressa

nas memórias humanas que habitaste.

Não eras rei, nem príncipe. E célebre

talvez o tenhas sido para os mercadores

que trataram contigo, para os teus amigos

com quem ceavas altas horas, para

tua mulher, teus filhos (só, quando pequenos,

te viam gigantesco e absorto e paternal).

A múmia que ficou de ti (só ressequida pele

rasgada aqui e ali, mostrando os ossos

por onde as sujas ligaduras se soltaram)

não se distingue das outras na fileira

envidraçada em que há decénios pó,

um fino pó, será de ti ou Londres.

Importa o teu caixão, ou mais, a tampa

em que, segundo os usos do teu tempo,

um pintor cujo ofício principal seria

retratar os mortos te compôs um rosto.

É bem possível que tu próprio encomendasses,

risonho e pensativo, esse retrato, ou que,

depois de ter’s morrido, teus irmãos de igreja

o hajam decidido e colocado

essa máscara nobre de tragédia,

convencional tragédia em palcos de outro mundo.

Possível é também que esse retrato fosse

menos que tua máscara um rosto

que se escolhia — por ti ou só por eles escolhido

para esse último acto: o de estar morto

de olhos abertos para o que desse e viesse.

E o teu líquido olhar ficou fitando

— num jeito que passou a Creta,

atravessou incólume Veneza,

o Tintoreto e Roma até Toledo,

em que é de Apostolado para o Greco,

mas para ti e os teus — um pouco egípcios,

um pouco sírios, gregos e romanos,

cristãos e persas: Cristo Pantocrator,

Ísis, Pan-águia, os anjos e os profetas,

Deméter, a Fortuna, o Jano bifrontal,

Ormuzd e Ariman, Pitágoras, Platão,

o deus Ptah, Adónis, Minotauro,

e as bacantes agitando o torso —

mas para ti e os teus, entre esse mar

de Ulisses e de António, de Pafos e de Chipre,

e o deserto da Esfinge e dos Colossos

que à madrugada num gemer saúdam,

mas para ti e para os teus, nas margens debruçados

para o murmúrio lamacento que afogou Antínoo —

que seria esse olhar tão líquido e profundo que me fita

envidraçado pela morte e pelas crenças todas

e também pela vidraça que, interposta,

nos não separa menos do que os séculos?

 

Artemidoro: Escuta! No silêncio ouves

os “buses” que passam, a gralhada que

em salas mais curiosas visitantes fazem.

Que mais escutarás com esses olhos que ouvem

atentamente os breves estalidos que o eterno,

como o romper da aurora nas estátuas,

provoca em nós e em nossas coisas, fissurando

a pouco e pouco a carne, a pele, os ossos, tudo

o que de deuses palpita e ressuscita em nós,

e em que talvez, sereno mercador, nem mesmo acreditasses?

 

Publicado no livro Metamorfoses, e transcrito de Jorge de Sena, Obras Completas, Poesia 1, edição de Jorge Fazenda Loureirio, Babel, 2013.

Abre o artigo a imagem da urna de Artemidoro pertença do museu Britânico.

 

A vaselina, um epigrama de Apollinaire

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Surpreendi-me um destes dias com um anúncio de televisão a publicitar um lubrificante íntimo dando voz ao que a experiência mostra e tantas vezes é causa de insucesso: a conveniência ocasional de lubrificação quando do acto sexual, e a sua necessidade obvia a partir de certa idade. 

Lubrificantes e o rodar dos tempos levam-me a um epigrama de Apollinaire (1880-1918), A vaselina, que hoje transcrevo em versão de José Paulo Paes.

Retrata o poema uma situação de solicitude frequente de farmacêutico para cliente. O cliente no poema tentou prevenir-se e evitar a eventualidade do recurso à margarina, socorro dos protagonistas no filme O Último Tango em Paris, como talvez algum leitor relembre.

O diálogo captado no poema transporta-me a memória para uma experiência sobre o embaraço farmacêutico perante compras associadas à actividade sexual.

Os tempos nem sempre foram de tanta franqueza pública no que a estas matérias respeita, e se a venda de preservativos está espalhada por todo o lado, na minha juventude era exclusiva de farmácias. E a sua compra motivo de embaraço por vezes. Tendo sentido desconforto com uns preservativos certa vez comprados, fui à farmácia procurar o que me pudesse servir melhor. Chegada a minha vez, fui atendido pela farmacêutica, senhora de alguma idade. Eu, um jovem, e não exactamente embaraçado, perguntei que outros preservativos havia, pois os últimos que ali comprara não me serviam. Corou, pigarreou, abriu uma gaveta, fechou, voltou costas e foi para o interior da farmácia. Voltou o empregado e solicito perguntou-me qual era o problema. Expliquei-lhe com detalhe, Procurou outro fabricante e vendeu-me. Não fiquei muito melhor servido, mas, aparentemente, era o que havia. Felizmente mais tarde a oferta variou e há algum tempo, deparei com uma promoção no supermercado de um tipo que me é especialmente confortável. Peguei nalgumas embalagens e, chegado à caixa, a funcionária, jovem desembaraçada e prazenteira, ao ver as embalagens virou-se para mim e perguntou:

— Onde é a festa? Também posso ir?

— Está desde já convidada, respondi-lhe.

E com o relato deste desembaraço de hoje regresso à farmácia. Desta vez à do poema, com a solicitude do farmacêutico e a impaciência do cliente.

 

A Vaselina

 

Praça da Ópera: por uma farmácia a dentro

Entra um senhor bem-posto feito um pé-de-vento:

“ Estou com pressa”, diz. “Eu quero vaselina.”

Gentil, o boticário indaga o cliente

             Impaciente

          A que uso se destina

          O graxo ingrediente:

“Se for para o rosto, é melhor levar fina…

              Qual?

               Que tal

                     Este artigo

           Que o senhor, sem perigo,

                 Pode usar no rosto?

Eu por mim recomendo sempre a boricada.”

E o cliente, a bufar: “Mas que papagaiada!

Pouco me importa qual, pois é para enrabar!”

 

 

Poema original

 

La vaseline

 

Chez un pharmacien, place de l’Opéra,

Un monsieur fort bien mis en coup de vent entra:

“Vite, dit-il, donnez-moi de la vaseline!”

Le potard, empressé, demande à ce client

           Impatient

        A quel us il destine

        Le gras ingrédient:

“Est-ce pour le visage? Il en faut de la fine…

          En voici

       De ci

       Pure

    Que sur votre figure

  Sans danger vous pouvez l’étaler…

J’en ai de boriquée… et je la recommande…”

Le client, trépignant, répond: “Belle demande!

Je m’en fous bougrement, car c’est pour enculer!”

 

in Poesia Erótica em tradução, Selecção, tradução, introdução e notas de José Paulo Paes, Companhia das Letras, São Paulo, 1993.

 

 

Abre o artigo a imagem de um velho anúncio à vaselina. A cada leitor deixo a associação entre a metalinguagem no anúncio, o texto do artigo, e o assunto do poema.

 

Fernando Pessoa — O peso de haver o mundo

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Aqueles imprecisos nadas que vez por outra nos assaltam, e no seu inesperado criam uma insatisfação do existir, capta Fernando Pessoa (1888-1935) no poema  O peso de haver o mundo. É a sensação de um vago desejo de mudança, de que algo não bate certo na nossa vida, e também não sabemos como ultrapassar…

 

Passa no sopro da aragem

Que um momento o levantou

Um vago anseio de viagem

Que o coração me toldou.

 

Se persiste, torna-se problema, se pontual é tão só um saudável questionar do estável e adquirido, fazendo-nos perguntar: não há mais mundos?

Será que em seu movimento

A brisa lembre a partida,

Ou que a largueza do vento

Lembre o ar livre da ida?

 

No poema, a conhecida incapacidade para a acção que percorre a poesia de Pessoa, dá a dimensão que torna grave a insatisfação continuada:

 

… / Não sei, mas subitamente / Sinto a tristeza de estar / O sonho triste que há rente / Entre sonhar e sonhar.

 

Ao concluir com o verso : Entre sonhar e sonhar temos a medida dessa incapacidade para a acção, quando uma atitude saudável seria: Entre sonhar e agir. Mas aí não seria o poeta a falar, mas filosofia de vida explicitada.

 

 

O peso de haver o mundo

 

Passa no sopro da aragem

Que um momento o levantou

Um vago anseio de viagem

Que o coração me toldou.

 

Será que em seu movimento

A brisa lembre a partida,

Ou que a largueza do vento

Lembre o ar livre da ida?

 

Não sei, mas subitamente

Sinto a tristeza de estar

O sonho triste que há rente

Entre sonhar e sonhar.

 

19.05.1932

 

Transcrito de Quadras e Outros Cantares, Editora literária Teresa Sobral Cunha, Relógio D’Água Editores, Lisboa, 1997.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Alex Katz (1927), Passing, óleo s/tela de 1962. Pertence à colecção do MOMA de New York.

Este auto-retrato de Alex Katz, lembrando vagamente a figura conhecida de Fernando Pessoa, é em si a imagem mesma desse peso de haver o mundo de que fala o poema.

Pablo Neruda — Ode ao Tempo

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Dei-me folga, e aos leitores, destas conversas com poesia em fundo. Regresso hoje para, o que espero, uma maior assiduidade, lendo Uma Ode ao Tempo por Pablo Neruda (1904-1973).

Envelhecer vivendo

é belo

como tudo o que vivemos.

 

Sentir isto é prova de enorme sabedoria. A vida, feita de alegrias e desgostos é o único quadro onde podemos ser felizes. Procurá-la sempre, a felicidade, sem descanso, é o que temos ao nosso alcance. Neste caminho, percorrê-lo quanto possível na companhia de um grande amor é parte imperdível da existência, sabendo quanto 

Nos teus cabelos / enreda o tempo / os seus fios, / mas no meu coração / como uma madressilva / está a tua fragrância, / incandescente como o fogo. / …

 

Quando se ama, o sonho de envelhecer juntos, já antes o escrevi aqui, é o desejo mais belo que pode coroar um grande amor, ou como escreveu Pablo Neruda

Amor, o que importa

é que o tempo,

o mesmo que ergueu como duas chamas

ou espigas paralelas

o meu corpo e a tua doçura,

amanhã os mantenha

ou os desgarre

e com os seus mesmos dedos invisíveis

apague a identidade que nos separa

dando-nos a vitória

de um único ser final sob a terra.

 

E se o inexorável avanço do tempo mostra no físico os seus sinais, a fragrância, / incandescente como o fogo. / … que o alimenta está lá para o fazer durar. É esse amor sem idade e para além do efémero da beleza física, A tua idade dentro de ti

crescendo, / a minha idade dentro de mim / andando. / … que surge cantado na Ode ao Tempo de Pablo Neruda que antes citei, e a seguir transcrevo:

 

 

Ode ao Tempo

 

A tua idade dentro de ti

crescendo,

a minha idade dentro de mim

andando.

O tempo é resoluto,

não faz soar o sino,

cresce e caminha

por dentro de nós,

aparece

como um lago profundo

no olhar

e junto às castanhas

queimadas dos teus olhos

um filamento, a pegada

de um minúsculo rio,

uma estrelinha seca

subindo para a tua boca.

Nos teus cabelos

enreda o tempo

os seus fios,

mas no meu coração

como uma madressilva

está a tua fragrância,

incandescente como o fogo.

Envelhecer vivendo

é belo

como tudo o que vivemos.

Cada dia

para nós

foi uma pedra transparente,

cada noite uma rosa negra,

e este sulco no meu ou no teu rosto

é uma pedra ou uma flor,

recordação de um relâmpago.

Gastaram-se-me os olhos na tua formosura

mas tu és os meus olhos.

Sob os meus beijos talvez tenha fatigado

os teus seios,

mas todos viram na minha alegria

o teu resplendor secreto.

Amor, o que importa

é que o tempo,

o mesmo que ergueu como duas chamas

ou espigas paralelas

o meu corpo e a tua doçura,

amanhã os mantenha

ou os desgarre

e com os seus mesmos dedos invisíveis

apague a identidade que nos separa

dando-nos a vitória

de um único ser final sob a terra.

 

Tradução de Luis Pignatelli

in Odes Elementares, Publicações Om Quixote, Lisboa, 1977.

 

Abre o artigo a imagem de uma fotografia de família e que me é especialmente querida. Mostra ela os meus pais durante o namoro, e, como era de regra à época, à janela. Se vivo, o meu pai faria hoje 100 anos. E com a publicação da foto assinalo a efeméride. A minha mãe, lúcida, e moderadamente activa, já passados os noventa anos é o elo da cadeia com quem aprendo o que é envelhecer: os medos, a serena aceitação da progressiva perda de capacidades, e a infinita generosidade; afinal o que justifica estarmos vivos.