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Cinema e Paraíso

A minha visão de paraíso é frequentemente uma noite quente, frente ao mar calmo, sob um céu negro onde estrelas faíscam, e o mar murmura a melopeia da eternidade.
Neste cenário a tecnologia tem feito intromissão, proporcionando o casamento feliz das noites quentes com o cinema da minha afeição.
Aproveitei para ver alguns filmes antigos que por uma razão ou outra o desejo de rever foi sendo adiado ao longo do tempo.
Entrada a noite e sossegado o ambiente, sento-me frente ao mar, tablet na mão, carrego no botão e… Silêncio, o filme vai começar!

 

Entre As férias do Sr. Hulot de Jacques Tati (1953) e Ladrão de Casaca (To Catch a Thief -1956) de Alfred Hitchcock, deliciei-me com Sorrisos de uma noite de verão de Ingmar Bergman (1955) e Os homens preferem as louras de Howard Hawks (1953).


A  transbordante ternura pelas pessoas que os filmes de Tati exalam, no seu permanente enlevo com os detalhes de um quotidiano urbano que evolui ao longo dos seus filmes, são um bálsamo para a alma.


Já nos filmes de Hitchcock é o prazer de seguir a mestria de fazer a câmara falar ao levar-nos pelos labirintos das emoções da história, o que me faz voltar a eles uma e outra vez.


Atrai-me nos filmes de Ingmar Bergman a celebração da vida perante a fragilidade das relações humanas. Por isso, e para referir os mais emblemáticos, Sorrisos de uma noite de verão encanta-me, Uma lição de amor comove-me, e o Sétimo selo lembra-me quanto viver é o permanente diálogo com a morte, nossa, e dos outros em nós. A capacidade da ficção para nos fazer sentir realidades e experiências afastadas do nosso presente ou passado é o motor que me faz ir à sua procura.


Hawks foi o cineasta que filmou a amizade como ninguém. E se em Rio Bravo ( que irei rever brevemente) a fidelidade entre amigos se estende à coragem de em seu nome enfrentar a possibilidade da morte, em Os homens preferem as louras essa amizade plasma-se na inenarrável cena da dança de Jane Russell na sala do tribunal, perto do final do filme, com o propósito de evitar que a amiga Lorelay (Marilyn Monroe) seja julgada pelo roubo de uma tiara.

 

Na sua diversidade, têm estes filmes em comum a sua proximidade temporal (primeira metade dos anos 50 do século. XX) e o devolverem-nos uma certa Europa com o seu modo de vida hoje definitivamente perdido. Dão-nos conta de um mundo que existia quando nasci e não cheguei a conhecer. A realidade que a minha memória recorda é a dos anos 60, mas ao ver estes filmes, o ambiente social e cultural que lhes subjaz dá conta de uma serenidade no viver que só nos pode fazer nostálgicos quando mergulhados no frenesi alucinante dos nossos dias.

 

Outros filmes virão, que as férias apenas começaram. Com este breve registo venho apenas lembrar alguns velhos filmes que nos fazem mais novos a cada visualização.

 

 

Abre o artigo a recriação recente desta imagem nostálgica do filme de Jacques Tati, As férias do Sr. Hulot, pelo designer belga David Merveille.

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Ravena num poema de Aleksandr Blok

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O pó da história reina sobre os esplendores da arte bizantina de Ravena, pretexto de meditação sobre o efémero do poder e a dimensão terrena dos seus tenentes. O tempo passa, os poderosos morrem, a arte guarda vestígios dessa existência, e apenas a poesia resiste ao tempo:


À noite, inclinado entre as colinas,
Só, pondo os séculos à prova,
Dante — perfil aquilino —
Canta para mim da Vida Nova.

 

Assim termina Aleksandr Blok (1880-1921) a sua reflexão poética sobre a cidade e a história na belíssima versão de Augusto de Campos do poema Ravena que a seguir transcrevo.

 

 

 

Ravena

Tudo o que é instante, tudo o que é traço
Sepultaste nos séculos, Ravena.
Como uma criança, no regaço
Da eternidade estás, serena.

Sob os portais romanos os escravos
Já não trazem mosaicos pelas vias.
O ouro dos muros arde
Nas basílicas lívidas e frias.

Os arcos dos sarcófagos desfazem,
Sob o beijo do orvalho, as cicatrizes.
Nos mausoléus azinhavrados jazem
Os santos monges e as imperatrizes.

Todo o sepulcro gela e cala,
Os muros mudos, desde o umbral,
Para não acordar o olhar de Gala*,
Negro, a queimar por entre a cal.

Das pesadas de sangue e dor e insídia
O rasto já se apaga e se descora.
Para que a voz gelada de Placídia*
Não se recorde das paixões de outrora.

O longo mar retrocedeu, longínquo.
As rosas circundaram as ameias,
Para que os restos de Teodorico
Não sonhem com a vida em suas veias.

Onde eram vinhedos — ruínas —
Gentes e casa — tudo é tumba.
Sobre o bronze as letras latinas
Troam nas lages como trompa.

Apenas no tranquilo e atento olhar
Das moças de Ravena, mudamente,
Às vezes uma sombra de pesar
Pelo irrecuperável mar ausente.

À noite, inclinado entre as colinas,
Só, pondo os séculos à prova,
Dante — perfil aquilino —
Canta para mim da Vida Nova.

 

 

Tradução de Augusto de Campos
in Linguaviagem, editora Schwartz, São Paulo, 1987.

 

 

* Gala Placídia – https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Mausoléu_de_Gala_Plac%C3%ADdia

 

O artigo de Wikipédia no link anterior disponibiliza abundante informação sobre Gala Placídia, a sua biografia, e o mausoléu em Ravena referido nas quadras 3 e 4 do poema.

 

 

Abre o artigo a imagem de um mosaico, O Bom Pastor, na luneta sobre a porta de entrada no mausoléu de Gala Placídia em Ravena.

 

 

Adormecida — um poema de Vicente de Carvalho

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Um erotismo diáfano, eivado de pudor, banha o poema de Vicente de Carvalho (1866-1924), Adormecida, que no final transcrevo.
O poeta, brasileiro, virtualmente esquecido hoje em Portugal, integra o pequeno grupo de poetas parnasianos cuja obra continua a ser lembrada no Brasil.
Do poeta e da sua obra diz Jacinto do Prado Coelho no seu Dicionário de Literatura: Fiel a um ideal estético de equilíbrio e limpidez, V. de C. é ainda parnasiano pela escolha de temas objectivos, um deles épico… .
No entanto, este poema da mocidade foge à imagem parnasiana do poeta, difundida a partir do livro Poemas e Canções publicado em 1908, tinha o poeta mais de 40 anos, e sucessivamente reeditado. Nesse livro, o poema Palavras ao Mar, dá a medida do carácter épico de parte da sua poesia:

 

Mar, belo mar selvagem
Das nossas praias solitárias! Tigre
A que o vento do largo eriça o pelo!
Junto da espuma com que as praias bordas,
Pelo marulho acalentada à sombra
Das palmeiras que arfando se debruçam
Na beirada das ondas — a minha alma
Abriu-se para a vida como se abre
A flor da murta para o sol do estio.

 

Frente ao mar, e desperto para a vida, como acima refere, os olhos do jovem poeta ter-lhe-ão incendiado a imaginação ao ver a adolescente adormecida que descreve no poema a seguir transcrito.
Acrescento apenas que as asas de anjo que o poeta no final do poema acrescenta à jovem adormecida, se, por um lado decorrem do decoro que a época exigia no extravasar do desejo trazido a público, por outro, são o tributo romântico à mulher desejada associando-a a uma  imagem imaculada e angelical.

 

 

Adormecida

 

Ela dormia… Sobre o alvor do leito
Desenhava-se, esplêndida miragem,
Seu lindo corpo, escultural, perfeito.

 

Encrespado das rendas da roupagem,
Seu seio brandamente palpitava
Como a lagoa no tremor da aragem.

 

Solto, o cabelo se desenrolava
Sobre os lençóis, em plena rebeldia,
Como um revolto mar que os alagava.

 

Como no céu, quando desponta o dia,
A aurora raia, de um sorriso a aurora
Pelo seu meigo rosto se expandia.

 

E ela dormia descuidada… Fora,
O mar gemia um cântico plangente
Como uma alma perdida que erra e chora.

 

Um raio de luar, branco e tremente,
Pela janela mal cerrada veio
Entrando, surda, sorrateiramente…

 

Ia beijá-la em voluptuoso anseio;
Mas, ao vê-la dormindo entre as serenas
Ondas daquele sono sem receio,

 

Hesitou em beijar-lhe as mãos pequenas,
E humildemente, e como ajoelhando,
Beijou-lhe a fímbria do vestido apenas…

 

E o lindo quadro, estático, fitando,
Senti não sei que mística ternura
Por toda a alma se me derramando

 

Porque acima daquela formosura
Do corpo, os seus quinze anos virginais
Envolviam-lhe a angélica figura
Na sombra de umas asas ideais.

 

 

Publicado pela primeira vez no livro Ardências (1885), tinha o poeta dezanove anos, e transcrito de Versos da Mocidade, (Ardências (1885), Relicário (1888), Avulsas (1889-95), Livraria Chardon, Porto, 1912.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Jean Simon Barthelemy (1743-1811) datada de 1778, de seu nome Júpiter e Antíope.
Na pintura, Júpiter surge transformado em sátiro a rondar a adormecida Antíope. Nesta ronda, o lúbrico deus engravidou-a crer nos relatos que nos chegaram, entre outros, de Ovídio em Metamorfoses, Liv III, v. 110-111.
Imagino que ao escrever o poema, Vicente de Carvalho tenha sentido a luxúria que o sátiro Júpiter na pintura evidencia.

Ode ao Cidadão Anónimo por E. M. de Melo e Castro

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A próxima e esperada robotização generalizada da produção em todos os sectores da actividade económica gerará o desaparecimento em massa de empregos, mesmo qualificados, sem que a reorientação da ocupação de vastas camadas da população se perspective.
Há nesta alteração dos sistemas de produção, com a diminuição drástica do emprego humano, uma contradição insanável nos termos actuais: Se a grande maioria passar a não ter trabalho porque passou a produzir-se em massa mais barato com robots, de onde virá às largas massas sem trabalho o dinheiro para comprar o que se produz? Não existindo quem compre, para que servirá a produção?
A antevisão de que começa a falar-se é a de uma polarizarão social entre alguns muito ricos, donos de negócios robotizados potencialmente rentáveis, e uma imensa massa sem recursos a quem o estado providenciaria um rendimento mínimo por via da cobrança de impostos aos muito ricos. Todos pobrezinhos e sem trabalho.
Serão muito complexas as relações sociais numa sociedade que se desenhe assim. O modelo em que temos vivido desde a eclosão da primeira revolução industrial chegará ao fim com as suas oportunidades de mobilidade social e “subir na vida”.
Os ajustamentos ocorrerão inevitáveis, lentos e dolorosos.

É do hoje e não desta revolução anunciada que fala o poema que a seguir entrego à meditação dos leitores,  a Ode ao Cidadão Anónimo, uma das ODES OCAS de E. M. de Melo e Castro (1932).
Medindo-se com o prosaico do nosso quotidiano, esta e as restantes catorze Odes do livro 15 Odes Ocas escritas entre 2009 e 2013, entre Portugal e Brasil, dão-no conta de uma reflexão necessária sobre cada um de nós enquanto ser social e sobre a forma como integramos/participamos neste universo onde a nossa vida ainda decorre.
Surgem no poema Ode ao Cidadão Anónimo muitas das perplexidade e contradições com que hoje nos confrontamos e para as quais as respostas certas não existem. Simplesmente se o try and error da ciência é sempre uma tragédia para muitos quando ensaiado nas sociedades humanas, a adopção política de medidas do passado para os novos problemas também não é solução que se aplauda ou apoie. Haja dúvidas para que as respostas possam surgir.

Ode ao Cidadão Anónimo

Tu, cidadão anónimo, igual a ti próprio e a mim/outro
Que compras tudo o que és capaz de comprar
E deitas para o lixo tudo o que compraste

Que ganhas a tua vida perdendo a tua vida
Vida que é pequena e que só tens uma
Mas finges ignorar

Que pagas as contas que fazes sem saber porquê
Mas esperas descontos nos contos do vigário
que os teus credores te contam

Tu que ainda há pouco alimentavas a ilusão
de que o que fazes é produtivo para o teu país,
vais verificando dia a dia
que o teu trabalho é inútil principalmente para ti
porque um dia te despedem
até ficares despido

porque quem não precisa de ti não quer senão o teu voto
e tu que te lixes no lixo
porque o trabalho que fizeste toda a vida
é muito mais bem feito por qualquer robot
e ninguém dá por isso se não for feito
por isso és despedido
Assim desfruta a tua liberdade de desempregado
o melhor que puderes
porque és livre e por isso descartável

Está é a mais extraordinária descoberta da sociologia neoliberal
cibernetizada e deves ficar feliz com isso!

Mas não digas a ninguém.
Chora essa tua felicidade sozinho.

Se és velho, nunca vás para uma casa de repouso.
Finge que trabalhas.
Finge que te pagam, mesmo sabendo que nada recebes
Porque dá mais gozo não receber um salário venenoso
Que é teu
Mas irá fortalecer o sistema capitalista
E o igualmente selvagem neoliberalismo…
De que tanto gostas
E em que votaste à toa!

Transcrito de 15 Odes Ocas, editor Pé de Mosca, 2013.

 

Os leitores que não conheçam o poeta e a sua obra podem encontrá-lo em vídeos YouTube.

 

Abre o artigo uma pintura de Magritte (1898-1967).

Rainer Maria Rilke — Assim a pintaram…

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Deslumbrado por este mosaico representando a Virgem Maria, sentindo o mistério de seu enigmático sorriso, digo com Rainer Maria Rilke (1875-1926): Assim a pintaram; sobretudo alguém, / que do sol a saudade trazia.

Na economia do seu geométrico desenho se plasma o mistério de alguém que tendo sido humano se acredita como divino.

Aproximando uma verosimilhança realista ao humano, dando a ver um igual que é diferente, é a essência do ser no seu poder de comunicar a serena paz da fé para além do incomensurável sofrimento que a imagem nos transmite.

 

 

Assim a pintaram; sobretudo alguém,
que do sol a saudade trazia.
Nele de todos os enigmas mais pura amadurecia,
mas do sofrimento cada vez mais se fez refém:
toda a sua vida foi como alguém que lágrimas vertia,
a quem o choro às mãos parar ia.

Ele é o mais belo véu do seu penar,
que se ajusta a seus lábios de cores magoadas,
e sobre eles quase em sorriso se vem a transformar…
e pela luz de sete velas por Anjos levadas
o seu segredo não se deixa desvendar.

 

 

in O Livro de Horas, tradução e apresentação de Maria Teresa Dias Furtado, Assírio & Alvim, Lisboa, 2009.

 

 

A imagem que abre o artigo mostra o detalhe de um mosaico na igreja de Santa Maria in Trastevere, em Roma, construída no século. XII. Os mosaicos são posteriores, (1296-1300) e atribuído o seu desenho a Pietro Cavallini.

Talvez tenhamos tempo — poema de Pablo Neruda

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De uma maneira transitória
agonizou ontem a verdade
e embora o saiba todo o mundo
todo o mundo bem o disfarça:
ninguém mandou algumas flores:
ela morreu e ninguém chora.

 

É com um descair de ombros e alguma resignação que uma forma de olhar o mundo, chamada de pós-verdade, se espalha como mancha de óleo, sujando a verdade dos factos e fazendo crer que verdadeiro e falso, no que à realidade respeita, são conceitos relativisáveis e susceptíveis de vestir a medida as nossas crenças. Apenas um exemplo de dimensões potencialmente trágicas: insistir em que os actos de terrorismo vividos nas sociedades europeias são devidos à recente vaga de refugiados, quando as provas documentais identificam como seus autores jovens nascidos ou tornados adultos nessas sociedades, evidencia uma recusa em aceitar a verdade dos factos e substituir estes pelo que condiz com o que se crê.
Trata-se, afinal, de um estado de negação em expansão social galopante, já conhecido da psicologia individual, mas que ganha dimensão explosiva enquanto psicologia de massas pelo potencial de mudar por muito tempo os valores e a organização da sociedade em que vivemos.
Talvez tenhamos tempo ainda começa por escrever Pablo Neruda (1904-1973) no poema que a seguir transcrevo, escrito para uma realidade diferente, e que é uma ajuda à reflexão sobre o papel de cada um neste rio que avança já pouco silencioso e ameaça tornar-se dilúvio. Que não venhamos a dizer: Não há nada a fazer agora: / todos perdemos a batalha.

 

 

Talvez tenhamos tempo

 

Talvez tenhamos tempo ainda
para ser e para ser justos.
De uma maneira transitória
agonizou ontem a verdade
e embora o saiba todo o mundo
todo o mundo bem o disfarça:
ninguém mandou algumas flores:
ela morreu e ninguém chora.

Entre o esquecimento e a aflição
um pouco antes do funeral
teremos a oportunidade
da nossa morte e nossa vida
para sair de rua em rua,
de mar em mar, de porto em porto,
de cordilheira em cordilheira,
e sobretudo de homem em homem,
a perguntar se a assassinámos
ou se a mataram os outros,
se foram os nossos inimigos
ou o nosso amor o assassino.
Porque a verdade já morreu
e agora podemos nós ser justos.

Antes devíamos lutar
com armas de calibre escuro
e por ferir-nos esquecemos
qual era o fim da nossa luta.

Nunca se soube de quem era
o sangue que nos envolvia,
acusamos outros sem cessar,
sem cessar fomos acusados,
eles sofreram e sofremos,
e depois de eles terem ganho
e termos ganho nós também
a verdade tinha morrido
de antiguidade ou violência.
Não há nada a fazer agora:
todos perdemos a batalha.

Por isso penso que talvez
por fim pudéssemos ser justos
ou por fim pudéssemos ser:
temos este último minuto
e depois mil anos de glória
para não ser e não voltar.

 

Publicação original em Memorial de La Isla Negra, 1964.
Transcrito de Pablo Neruda, Antologia, selecção e tradução de José Bento, Relógio D’Água Editores, Lisboa, 1998.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Eugène Delacroix (1798-1863), A liberdade guiando o povo.

Perdida! — um poema de Camilo Castelo-Branco

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A vida faz-se muito de desencontros, momentos falhados, ou fugazes olhares de felicidade entrevista. Afinal, o sonho a escapar-se no bulício dos dias.
Uma dessas perdas conta-a Camilo Castelo-Branco (1825-1895) no poema Perdida! escrito em 1850. Nele encontramos a flor, metáfora da mulher e sua beleza, no registo caro aos poetas ultra-românticos que Camilo, nos seus inícios de escritor também foi.
Neste poema estamos nos antípodas das imagens de flores e sentimentalidade trabalhadas pela mesma época por Maria Browne (1797-1861), e que no artigo anterior mostrei.
Será contemporâneo destes poemas o encontro (com laivos de paixão?) ocorrido entre Camilo e Maria Browne que levou ao duelo do escritor com o filho desta, e que relatos da época referem com motivações obscuras, sendo esse relacionamento insinuado.
Registado o pormenor biográfico, passemos ao poema onde o poeta faz gala da sua fogosidade viril e do imparável desejo de descobrir que assalta a juventude de todas as épocas ( Camilo tinha 25 anos), aqui registado na irrefreável cavalgada para o desconhecido, mais empolgante que a permanência na envolvente que se conhece.

 

 

Perdida!

 

Veloz, qual flecha impelida
O meu cavalo corria…
Eu tinha a febre da raiva,
Abrasava-me a agonia,
E o cavalo generoso
O meu ódio concebia.

Os precipícios transpunha
Sem as rédeas sofrear!
Longe, ao longe eu ansiava
Este horizonte alargar;
Procurava mundos novos,
Faltava-me ali o ar.

E, de relance, deviso
Linda flor em ermo Val,
Mal aberta, e aljofrada
Pelo orvalho matinal,
Reacendendo solitária
Seu perfume virginal.

Nenhum homem lhe tocara,
Nem talvez a vira ali!
Tive orgulho de encontrá-la,
Que outra mais bela não vi.
Mas o ímpeto indomável
Do cavalo não venci.

E perdi-a! Não me lembro
Onde vi tão linda flor!
Sei que lá me fica a alma
Como um feudo pago à dor.
Outros lábios viral dar-lhe
Férvido beijo d’amor.

1850

 

in Ao Anoitecer da Vida, livro de poemas publicado pela primeira vez em 1873.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Edgar Degas (1834-1917), O Jokey.

 

Flores poéticas – um bouquet de Maria Browne

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Hoje trago alguns poemas de Maria Browne (1797-1861), rara voz feminina entre os poetas do ultra-romantismo.

Nesta escolha, é o jardim, a natureza domesticada, que recolhe o olhar do poeta. Nela reflecte sentimentos, e dá conta de uma fragilidade que identifica com a condição da mulher burguesa do seu tempo. Traços de delicada sensibilidade sobressaem na aceitação do destino contra o qual não vale lutar. E é o amor, o seu desengano e sofrimento que lemos nestas reflexões associadas ao espectáculo da natureza e à sua frequentemente cruel indiferença. A excepção é o último poema, Um Sonho, onde apenas um delicado prazer se espraia, ainda que seja tão só ilusão.

 

O Lírio   

 

Alvo lírio delicado
Rociado
D’almo pranto matutino,
Namorava a sua imagem
Lá da margem
No regato cristalino.

Um raio de sol dourado
Abrasado
Vinha-lhe o seio libar,
E a lágrima pendente
Transparente
De reflexos matizar.

Borboleta cor de rosa,
Caprichosa
Que adeja de flor em flor,
Voa a ele palpitante
Delirante
Dá-lhe mil beijos de amor.

Aura que livre voara
E cantara
Embora do tempo a ira,
Enlaçada em seus verdores,
Já de amores
Em vez de cantar suspira.

Oh! como esta flor brilhava!
Deslumbrava
Sem querer todo o vergel,
Comparada à flor mais bela
Era ela
Entre os anjos Uriel.

Assim bela em seu esplendor
Sente a dor
De ousado verme a roer,
lnclina a fronte nevada
Já manchada,
Seu vegetar é sofrer!

Pura virgem — vê do lírio
O martírio!
Foge ao verme roedor
Que destrói a flor da vida:
Mais querida
Esse verme é o amor!

 

 

A Sensitiva  

Da mimosa sensitiva
Quis o mistério sondar;
Porque tremendo se esquiva
À mão que a chega a tocar.

Em dia que o sol ardente
A natureza abrasava,
E que a ressequida terra
Às plantas sucos negava;

Que os homens lassos jaziam,
Que os passarinhos choravam,
Que as folhinhas não boliam,
Que as fontes não murmuravam,

Vejo a triste sensitiva
Com sede a desfalecer…
As recortadas folhinhas
Já para a terra a pender,

Chego a ela, e compassiva
Água fresca lhe lancei,
E dum mirto os densos ramos
Para assombrá-la verguei.

Talvez conhecesse em mim
Um coração magoado,
Por se abrir tão facilmente
Às penas dum desgraçado.

Então grata ao meu cuidado
As folhas espanejou,
E como sôpro das auras
Estes sons no ar virou:

“Eu já fui da tua espécie,
E tive o teu coração,
Encontrando só na vida
Egoísmo, ingratidão.

Transformada em vegetal,
Tremo do humano contacto;
Tremo, sim, que inda me toque
Impura mão dum ingrato.”

 

 

A Rosa

Produziu a natureza
Cândida a rosa, sem cor;
Pura como a virgem bela,
Excedendo a toda a flor.

Mas neste mundo inconstante
Anda ao bem o mal aderente:
Tem Amor cruel ciúme,
A rosa espinho pungente.

Ao colher botão viçoso,
Vénus um dedo feriu:
O sangue que derramara
A branca rosa tingiu.

Desde então a rubra espécie
Começou a propagar:
Mais brilhante, e mais vistosa
Pode os gostos partilhar.

Mas a branca… a rosa branca
É de Flora a perfeição…
Não deslumbra tanto os olhos,
Fala mais ao coração.

 

 

A Jarra de Flores  

Que triste fim, belas flores,
Nesse vaso vos espera?
Embora de ouro cercadas;
Aqui não é vossa esfera!

Que dura mão, tão perfeitas
Vos foi no jardim cortar,
E a vossa curta existência
lnda mais acelerar?

Não tendes da terra sucos
Para vossa nutrição;
Nem da manhã o orvalho,
Nem da tarde a viração.

As luzes que vos rodeiam
Não têm do sol o calor;
Nem a água em que pousais
Entretém vosso verdor.

No seio de rubra rosa,
Já frouxo, já desbotado
Vejo pálido jasmim
Languidamente inclinado!

Murchas as folhas, o cravo
Sobre o seu pé agoniza;
Na cor o lírio parece,
Que o ser também finaliza!

No grande mundo a inocência
Acaba como acabais!
Nele só flores de artifício
São felizes… duram mais!

 

 

 

 

Um Sonho  

Corria o Maio entre as nuvens,
Deixando na terra as flores,
No ar a electricidade,
A poesia aos trovadores.

Já da luz, que a sombra apaga
O semi-morto clarão,
Se amor encobre na face,
Mais o revela a expressão.

Nessa hora, meiga fada
Veio meus olhos fechar,
E num sono de magia
A minha alma sepultar.

Era tudo riso, e luz,
Graça, perfume, harmonia;
Um sonho de primavera.
Um sonho de simpatia.

Era num bosque de acácias;
Um regato ali corria;
Por entre a relva mimosa
A violeta aparecia.

Borboleta chamejante,
Que áureo polmo empoeirava
Das anteras da cecém,
Em torno de mim girava.

Espanejando as leves asas,
Vinha em meus lábios pousar;
Essa aragem branda e doce
Fazia meu peito arfar.
……………………………….
……………………………….

Com as tranças me brincava;
Os meus sentidos prendia!…
Despertei… e acordada,
Inda a ilusão existia!

 

Poemas transcritos de Virações da Madrugada, 1854.
Modernizei ligeiramente a ortografia.

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Berthe Morisot (1841-1895), No Jardim.

Um poema de Hölderlin

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Memória e história condensam-se no poema de Friedrich Hölderlin (1770-1843) que a seguir transcrevo,  A Grécia. [segundo esboço], transcendendo o contexto específico da sua escrita na obra do poeta, a Grécia clássica e a sua herança, e levando-nos a reflexão para as determinantes da existência:


Quando, porém, em excesso
A desmesura aspira à morte,
Adormece o divino, e a fidelidade de Deus.
A sensatez ausenta-se.

 

Lemos algo da pesada atmosfera política dos nossos dias nestes versos. Vivemos de novo um tempo especialmente exigente no assegurar as conquistas de civilização do nosso mundo, de que a herança da Grécia clássica é parte maior. E todos os dias constatamos que o adquirido é precário e sem garantia de ser encontrado ao acordar no dia seguinte. Vale no entanto a pena ter presente que

… quando a Terra, evocando devastações, tentações de santos,
Segue as grandes leis sagradas, a concórdia
E a ternura e o céu inteiro ressoam então
Revelando-se no
Canto das nuvens. …

 

 

 

Segue o poema integralmente, em admirável tradução de João Barrento:

 

 

A Grécia.
[segundo esboço]

 

Muitas são as lembranças.
E quando a Terra, evocando devastações, tentações de santos,
Segue as grandes leis sagradas, a concórdia
E a ternura e o céu inteiro ressoam então
Revelando-se no
Canto das nuvens. Pois viva
É sempre a natureza.
Quando, porém, em excesso
A desmesura aspira à morte,
Adormece o divino, e a fidelidade de Deus.
A sensatez ausenta-se.
Mas, tal como a dança é parte da boda,
Também ao mais humilde se pode juntar
Um grande começo.
E dia a dia, para nossa maravilha,
Deus se mostra com novas vestes.
E Seu rosto se furta ao conhecer
E ar e tempo escondem
O Terrível, quando alguém em excesso
O ama, com preces ou
A alma.

 

in Lógica Poética, Friedrich Hölderlin, organização Bruno C. Duarte, Edições Vendaval, Lisboa, 2011.

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura a aguarela de Gerhard Richter ( 1932) pintada em 1988.

Solemnia Verba de Antero de Quental

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Vale a pena o Amor? Viver para ele? Viver por ele?
Responde a tão momentosa questão, Antero de Quental (1842-1891) em dois poemas que mais à frente transcrevo, Os Vencidos e Solemnia Verba.
Não é ao amor sensual que Antero de Quental responde através destes poemas, nem à sua lírica expressão que frequentemente se lê aqui no blog. Os poemas falam antes num conceito abrangente do amor e de como com ele se articula a nossa vida.

 

No poema Os Vencidos, o amor é uma entidade confusa e absoluta que nos habita e conduz à acção. Ao fazer-nos agir chocamos com os valores que nos definem como pessoa e arruína-nos a vida sem apelo.
Dividindo no poema o conceito global de amor por três cavaleiros-andantes, seguimos no seu detalhe os cavaleiros que a ele dedicaram a vida, e por ele foram vencidos. A um venceu-o o amor de uma mulher, envenenando-o pelo “desejo pestilento” quando o seu ideal era um amor etéreo:

Irmãos, amei — e fui amado… / Por isso vago incerto e fugitivo, / …

 

aos outros cavaleiros, deixemos antes falar o poema:

 

Responde-lhe o segundo cavaleiro, / Com sorriso de trágica amargura: / “Amei os homens e sonhei ventura, / Pela justiça heróica, ao mundo inteiro /

Irmãos, amei os homens e contente / Por eles combati, com mente justa… / Por isso morro à míngua e a areia adusta / bebe agora meu sangue, ingloriamente.”

Diz então o terceiro cavaleiro: / “… / Irmãos, amei a Deus com fé profunda… / Por isso vago sem conforto e incerto, / Arrastando entre as urzes do deserto / Um corpo exangue e uma alma moribunda.”

E os três, unindo a voz num ai supremo, / E deixando pender as mãos cansadas / Sobre as armas inúteis e quebradas, / Num gesto inerte de abandono extremo,

Sumiram-se na selva impenetrável, / E no palor da noite silenciosa.

 

 

Lemos no poema uma total condenação do amor e da escolha de viver a vida para ele, pois apenas conduz à desolada morte emocional quem o procura, condenando a um viver nas trevas.

O poeta destruiu este poema que foi mais tarde recuperado por Oliveira Martins e publicado com a sua edição dos Sonetos Completos.

 

 

Alterado no poeta o entendimento do Amor e do seu papel na vida de cada um, escreveu mais tarde a obra-prima absoluta que é o soneto Solemnia Verba.
Agora, o Semeador de sombras e quebrantos! é o nosso coração, e a incapacidade de viver o amor está em nós. O coração é o nosso martírio e o amor o nosso prémio. Fazer o coração acreditar no amor está em nós, e consegue-se:

Na escola da tortura repetida,
E no uso do pensar tornado crente,

 

Que cada um escolha para si o prémio que procura, no final, valerá a pena. O caminho que o poema aponta é fazer o coração pensar até acreditar no amor. O Amor, essa entidade sublime, permanece, e se com ela na vida nos conseguimos cruzar:

Viver não foi em vão, se é isto a vida,
Nem foi de mais o desengano e a dor.

 

E esta mensagem de esperança é toda ela contrária ao que vimos explanado no poema Os Vencidos. Agora a felicidade pelo amor está ao nosso alcance e o pensar ajuda-nos a lá chegar. Não mais irracionalidade ou condutas ditadas pela paixão.

 

 

SOLEMNIA VERBA

 

Disse ao meu coração: Olha por quantos
Caminhos vãos andámos! Considera
Agora, desta altura fria e austera,
Os ermos que regaram nossos prantos…

Pó e cinzas, onde houver flor e encantos!
E noite, onde foi luz de Primavera!
Olha a teus pés o mundo e desespera,
Semeador de sombras e quebrantos!

Porém o coração, feito valente
Na escola da tortura repetida,
E no uso do pensar tornado crente,

Respondeu: Desta altura vejo o Amor!
Viver não foi em vão, se é isto a vida,
Nem foi de mais o desengano e a dor.

 

 

Transcrevo agora a totalidade do poema Os Vencidos:

 

Os Vencidos

 

Três cavaleiros seguem lentamente
Por uma estrada erma e pedregosa.
Geme o vento na selva rumorosa,
Cai a noite do céu, pesadamente.

Vacilam-lhes nas mãos as armas rotas,
Têm os corceis poentos e abatidos,
Em desalinho trazem os vestidos,
Das feridas lhes cai o sangue, em gotas.

A derrota, traiçoeira e pavorosa,
As frontes lhes curvou, com mão potente.
No horizonte escuro do poente
Destaca-se uma mancha sanguinosa.

E o primeiro dos três, erguendo os braços,
Diz num soluço: «Amei e fui amado!
Levou-me uma visão, arrebatado,
Como em carro de luz, pelos espaços!

Com largo vôo, penetrei na esfera
Onde vivem as almas que se adoram,
Livre, contente e bom, como os que moram
Entre os astros, na eterna primavera.

Porque irrompe no azul do puro amor
O sopro do desejo pestilente?
Ai do que um dia recebeu de frente
O seu hálito rude e queimador!

A flor rubra e olorosa da paixão
Abre lânguida ao raio matutino,
Mas seu profundo cálix purpurino
Só ressuma veneno e podridão.

Irmãos, amei — amei e fui amado…
Por isso vago incerto e fugitivo,
E corre lentamente um sangue esquivo
Em gotas, de meu peito alanceado.»

Responde-lhe o segundo cavaleiro,
Com sorriso de trágica amargura:
«Amei os homens e sonhei ventura,
Pela justiça heróica, ao mundo inteiro.

Pelo direito, ergui a voz ardente
No meio das revoltas homicidas:
Caminhando entre raças oprimidas,
Fi-las surgir, como um clarim fremente.

Quando há de vir o dia da justiça?
Quando há de vir o dia do resgate?
Traiu-me o gládio em meio do combate
E semeei na areia movediça!

As nações, com sorriso bestial,
Abrem, sem ler, o livro do futuro.
O povo dorme em paz no seu monturo,
Como em leito de púrpura real.

Irmãos, amei os homens e contente
Por eles combati, com mente justa…
Por isso morro à míngua e a areia adusta
Bebe agora meu sangue, ingloriamente.»

Diz então o terceiro cavaleiro:
«Amei a Deus e em Deus pus alma e tudo.
Fiz do seu nome fortaleza e escudo
No combate do mundo traiçoeiro.

Invoquei-o nas horas afrontosas
Em que o mal e o pecado dão assalto.
Procurei-o, com ânsia e sobressalto,
Sondando mil ciências duvidosas.

Que vento de ruína bate os muros
Do templo eterno, o templo sacrossanto?
Rolam, desabam, com fragor e espanto,
Os astros pelo céu, frios e escuros!

Vacila o sol e os santos desesperam…
Tédio ressuma a luz dos dias vãos…
Ai dos que juntam com fervor as mãos!
Ai dos que crêem! ai dos que inda esperam!

Irmãos, amei a Deus, com fé profunda…
Por isso vago sem conforto e incerto,
Arrastando entre as urzes do deserto
Um corpo exangue e uma alma moribunda.»

E os três, unindo a voz num ai supremo,
E deixando pender as mãos cansadas
Sobre as armas inúteis e quebradas,
Num gesto inerte de abandono extremo,

Sumiram-se na sombra duvidosa
Da montanha calada e formidável,
Sumiram-se na selva impenetrável
E no palor da noite silenciosa.

 

 

Poemas transcritos de Antero de Quental, Sonetos Completos publicados por J. P. Oliveira Martins, Lopes & C.ª — Editores, Porto, 1890.
Modernizei a ortografia.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Paul Klee (1879-1940), Marionetas de 1930: quais humanos nas mãos do amor.