Anúncios

De Almeida Garrett ao filósofo Alain

Etiquetas

,

Uma das vantagens do sonho em relação à realidade é a possibilidade de com ele fugir à dor. Isto mesmo escreve Almeida Garrett (1799-1854) no poema Quando Eu Sonhava:


Uma quimera, um vão sonho,
Eu sonhava — mas vivia:
Prazer não sabia o que era,
Mas dor, não na conhecia …

 

 

Com efeito, enquanto sonhamos, dispensamos as dificuldades da realidade no processo de conseguir o que nos fará feliz.

 

 

Como refere o filósofo francês Émile-Auguste Chartier, conhecido pelo pseudónimo Alain (1868-1951), num dos seus Propos… sobretudo, o que me parece evidente, é que é impossível ser-se feliz se não se quer sê-lo;—.
A afirmação não é apenas retórica. Se olharmos dentro de nós sem subterfúgios ou desculpas e perguntarmos até onde estamos dispostos a ir para ser felizes, veremos quanto os obstáculos aparentemente intransponíveis nos tolhem o caminho.

 

Esta atitude do pensar explicitada por Alain é a menos comum de todas: a de que é preciso querer ser feliz para eventualmente o ser. E Almeida Garrett no poema Quando Eu Sonhava dá a visão mais comum: a imobilidade como solução para não correr riscos, trocando-os pelos sonhos que os permitem iludir.

 

 

 

Quando Eu Sonhava

 

Quando eu sonhava, era assim
Que nos meus sonhos a via;
E era assim que me fugia,
Apenas eu despertava,
Essa imagem fugidia
Que nunca pude alcançar.
Agora, que estou desperto,
Agora a vejo fixar…
Para quê? — Quando era vaga,
Uma ideia, um pensamento,
Um raio de estrela incerto
No imenso firmamento,
Uma quimera, um vão sonho,
Eu sonhava — mas vivia:
Prazer não sabia o que era,
Mas dor, não na conhecia …

 

in Folhas Caídas.

 

 

 

E retomo a exortação de Alain:
… é sempre difícil ser feliz; é um combate contra muitos acontecimentos e contra muitos homens; pode acontecer que se seja vencido; há sem qualquer dúvida acontecimentos inultrapassáveis e desgraças mais fortes que o estóico aprendiz; mas o dever mais claro é, talvez, nunca se admitir vencido antes de ter lutado com todas as forças. E sobretudo, o que me parece evidente, é que é impossível ser-se feliz se não se quer sê-lo; é preciso portanto querer a própria felicidade e construí-la.

 

 

Aqui ficam as afirmações e o conselho de um homem sábio, para quem a vida foi o desafio de a viver na sua diversidade e prazer, conhecendo a guerra por experiência própria, e os homens nas suas situações limite.
É um filósofo fora de moda para prejuízo de quem se dispensa de pensar pela própria cabeça e se limita a seguir pelos caminhos seguros do já conhecido.

 

 

Não sei de traduções em português de obras do filósofo. Nas colecções de bolso francesas encontram-se algumas compilações temáticas. A colecção dos seu Propos bem como outros textos relevantes encontram-se editados na colecção Pléiade da editora francesa Gallimard.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Matisse, A tristeza do rei.

 

Anúncios

António Patrício — Vilancete

Etiquetas

,

É de alucinação que fala o poema Vilancete de António Patricio (1878-1930).

Sentindo a presença viva da amada que partiu: … / Aparece irrealmente: / vem agora que está morta / sem bater à minha porta. /… , o poema conta-nos uma serena aceitação da morte de quem amamos:

Se o luar doira a vidraça,
ficamos juntos a ver
como a lua vem benzer
a cada coisa que passa.
Assim a noite esvoaça…
E por fim a amiga morta
sai sem nunca abrir a porta.

Nele não há vislumbre de desespero ou angústia, apenas uma espécie de saudade que o desgosto suavizou:

Como um perfume no escuro,
como na alma um perdão,
surge assim no coração
que por ela se fez puro.

Para os leitores que o recordem, lemos neste poema uma forma mitigada de viver com a lembrança da amada morta que Teixeira de Pascoaes exacerbou em Elegia do Amor.

Vilancete

Não mais bate à minha porta
aquela que nos sorria…
Coração: a amiga é morta.

Entra agora fluidamente
por onde quer, como quer;
com suas mãos de mulher
não bate: truz, truz! tremente.
Aparece irrealmente:
vem agora que está morta
sem bater à minha porta.

Como um perfume no escuro,
como na alma um perdão,
surge assim no coração
que por ela se fez puro.

Não há janela nem muro
que resista à amiga morta:
abre, sem abrir, a porta.

Vem sentar-se à minha mesa,
sonha ao canto da lareira,
só por ela a noite inteira
a candeia fica acesa.
Que eu já não tenho surpresa
quando ela vem, doce morta,
sem bater à minha porta.

Se o luar doira a vidraça,
ficamos juntos a ver
como a lua vem benzer
a cada coisa que passa.
Assim a noite esvoaça…
E por fim a amiga morta
sai sem nunca abrir a porta.

Este sentir a presença de fantasmas, diz-nos a medicina, é desvio mental que vale a pena vigiar. Há certamente luto por fazer em quem assim o sinta, e nós, leitores desprevenidos, precisamos ter presente que um poema é apenas ficção, não um relato emocional verídico com que possamos ter empatia.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Picasso (1881-1973), A sombra de 1957.

À volta da cor dos olhos com um poema de Almeida Garrett

Etiquetas

, ,

A relação entre olhos, olhar, e poesia, é uma constante na tradição poética portuguesa pelo menos desde Bernardim Ribeiro, e até aos nossos dias, com, por exemplo, a poesia de Sophia de Melo Breyer Andersen.
Ainda que na poesia de Sophia “a cor dos olhos e a argúcia do olhar” marque presença densa, com a, por vezes, implícita assumpção de que os olhos são espelho da alma, é a uma mais ligeira percepção que hoje me dedico: a arreigada crença de que a cor dos olhos dita disposições de carácter.

Recordo eu, de quando era miúdo, uma canção ainda popular à época, Olhos Castanhos, suponho que inicialmente sucesso no Brasil, cantada por Francisco José, que punha os olhos em alvo às miúdas com olhos dessa cor,

Olhos bons com coração
Os teus, castanhos leais.

e enfurecia a mais ver as belas possuidoras de olhos verdes e azuis, pois a canção rezava assim:

Olhos azuis são ciúme
E nada valem pra mim

Olhos verdes são traição
São cruéis como punhais

Os olhos negros, encanto ocasional para Almeida Garrett, como veremos mais à frente (e escrevo ocasional pois ao que consta o homem ter-se-á encantado com olhos em todas as cores do arco-iris), eram verdadeiramente vilipendiados na canção:

Olhos negros são queixume
D’uma tristeza sem fim.

(Quem quer a vida acompanhada de uns olhos queixosos?)

Acontece que os termos em que a canção encomiava os olhos castanhos casavam à maravilha com o que diziam umas quadras que no princípio do romance As Pupilas do Sr. Reitor, Daniel, miúdo de doze para treze anos, cantava em toada popular a Margarida, rapariga da sua idade. E como o livro era leitura adequada à juventude, tudo isto contribuía para o desenvolvimento das mais variadas fantasias entre cor dos olhos e disposições inatas de modos de ser, levando a arrufos e alegrias de incipientes namoros.
São no entanto, estas fantasias e por vezes equívocos, extensíveis a épocas mais recuadas, e nem sei se ainda hoje fazem caminho. Talvez haja poetas a quem os olhos azuis ou verdes encheram de encanto e louvaram em poesia; o que de momento desconheço. Mas veremos o que diz de uns Olhos Negros Almeida Garrett (1799-1854):


Só negros, negros os quero;
Que, em lhes chegando a paixão,
Se um dia disserem sim…
Nunca mais dizem que não.

Ao contrário, o nosso Daniel do romance de Júlio Dinis não cuidava de fidelidades mas tão só de sedução:

Morena, morena,
Dos olhos castanhos,
Quem te deu, morena,
Encantos tamanhos?

São os meus pecados
Uns olhos assim.
Morena, morena,
Tem pena de mim.

E assim andamos à volta do olhar tentando espreitar a alma.
Termino com o poema de Almeida Garrett:

Olhos Negros

Por teus olhos negros, negros
Trago eu negro o coração,
De tanto pedir-lhe amores…
E eles a dizer que não

E mais não quero outros olhos,
Negros, negros como são
Que os azuis dão muita esp’rança
Mas fiar-me eu neles, não.

Só negros, negros os quero;
Que, em lhes chegando a paixão,
Se um dia disserem sim…
Nunca mais dizem que não.
I84…

in Flores sem Fruto

Em nota final, e para quem não o recorde, aqui ficam os olhos castanhos cantados a Margarida por Daniel no romance As Pupilas do Sr. Reitor de Júlio Dinis:

Morena, morena,
Dos olhos castanhos,
Quem te deu, morena,
Encantos tamanhos?

Encantos tamanhos
Não vi nunca assim.
Morena, morena,
Tem pena de mim.

Morena, morena,
Dos olhos rasgados,
Teus olhos, morena,
São os meus pecados.

São os meus pecados
Uns olhos assim.
Morena, morena,
Tem pena de mim.

Morena, morena
dos olhos galantes,
Teus olhos, morena.
São dous diamantes.

São dous diamantes
olhando-me assim.
Morena, morena,
Tem pena de mim.

Morena, morena.
Dos o!hos morenos,
o olhar desses olhos
Concede-me ao menos.

Concede-me ao menos
não sejas assim.
Morena, morena.
Tem pena de mim.

 

Apêndice musical

Completo esta ligeira digressão com as letras de duas canções: Olhos Castanhos e Olhos Negros (Ochi cherniye).
Primeiro a canção famosa em Portugal na voz de Francisco José entre outros; finalmente os olhos negros de uma famosa canção russa: Ochi cherniye.

Olhos Castanhos

Teus olhos castanhos de encantos tamanhos
São pecados meus
São estrelas fulgentes, brilhantes, luzentes
Caídas dos céus
Teus olhos risonhos, são mundos, são sonhos
São a minha cruz
Teus olhos castanhos de encantos tamanhos
São raios de luz.

Olhos azuis são ciúme
E nada valem pra mim
Olhos negros são queixume
D’uma tristeza sem fim.

Olhos verdes são traição
São cruéis como punhais
Olhos bons com coração
Os teus, castanhos leais.

Teus olhos castanhos …

Letra de Alves Coelho

Agora Ochi cherniye. E aqui, estes olhos negros são também belos, só que da sua constância nada sabemos.

Ochi cherniye

Olhos negros, olhos apaixonados
Olhos ardentes e belos
Como eu os amo, como eu os temo
Sabe, eu vos vi em má hora

Oh, não é à toa que vocês são mais escuros que as trevas!
Vejo um lamento em vós, pela minha alma
Vejo em vós uma chama vitoriosa:
Queimando nela, um pobre coração.

Mas eu não estou triste, não estou desolado,
O meu destino me conforta:
Tudo o que de melhor na vida Deus nos deu,
Num sacrifício eu entreguei aos olhos ardentes!

Tradução encontrada na net assinada por Érika Batista.

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura do húngaro Janos Balazs (1905-1977) – Mulher cigana.

S. Gonçalo d’Amarante — poema de Luís Augusto Palmeirim

Etiquetas

,

De mãos dadas com a religiosidade popular corre pelo país uma brejeirice de mal disfarçada conotação sexual, sobretudo associada aos chamados Santos Populares, que se manifesta na poesia e nas canções populares. Dou um exemplo para São Gonçalo de Amarante, casamenteiro das velhas, na invocação de uma devota desejosa de casar:

 

São Gonçalo de Amarante
Valei-me que bem podeis
Já tenho teias de aranha
No sítio que vós sabeis.

 

 

Eco e memória pagã de divindades itifálicas, São Gonçalo de Amarante é um santo casamenteiro de mulheres sem idade quando passada a primeira juventude. Vale a pena precisar que para a Igreja católica São Gonçalo não é santo mas beato.
A imagem do beato que ainda hoje se conserva na sacristia da sua igreja em Amarante, Portugal, é dotada de poderoso instrumento sexual tornado visível em erecção ao ser puxado um fio. E esse atributo de virilidade a lembrar Príapo, o itifálico deus romano, encontrou lugar na doçaria popular de Amarante — os quilhões de São Gonçalo — doce em forma de pénis e testículos que pode ser comprado nos tamanhos adequados à cliente.

 

 

O poema que a seguir transcrevo, S. Gonçalo d’Amarante, de Luís Augusto Palmeirim (1825-1893), é uma invocação ao santo, para que reoriente o seu poder de intersecção para as moças casadoiras, proporcionar-lhes vários namorados, e abandone as velhas a que se dedica a arranjar marido, em troca de muito melhores recompensas.
O poema foi por tal forma popular que hoje a primeira quadra passa por ser quadra popular de autor desconhecido.

 

S. Gonçalo d’Amarante

S. Gonçalo d’Amarante,
Casamenteiro das velhas,
Porque não casais as moças?
Que mal vos fizeram elas!

Sejam as velhas beatas
Vos rezem com santidade
São de mais, há-as de sobra
Na vossa santa irmandade.

Rezar-vos-ei, ó meu santo,
Três padres-nossos cantados.
Se por cada um me deres
Três esbeltos namorados.

Irei descalça ouvir missa
No dia do vosso nome
Se eu alcançar boa paga
Deste amor que me consome.

Nem todas as velhas juntas
Levarão tantos bentinhos
Como encobertos nesta alma
Levarei ternos carinhos.

S. Gonçalo d’Amarante
Brincalhão e galhofeiro,
Fazei-vos antes das moças
Devoto casamenteiro.

Que eu vos prometo por todas,
(Casando a nosso contento)
Muita crença na virtude,
Muita fé no casamento.

Promessas que fazem moças,
Têm tal condão e verdade,
Que o santo deixou as velhas,
Pelas moças… por bondade…

E a datar desta promessa,
Feita ao bom de S. Gonçalo,
Não há uma só donzela
Que possa deixar de amá-lo.

Que a todas o bom do santo
Deu alma pra seis amores,
A qual deles o mais falso,
Em seus dons e seus favores!

S. Gonçalo d’Amarante
Um dos meus três namorados
Irá rezar-vos por mim
Os padres-nossos cantados.

E só se dirá, mentindo,
Dum santo tão galhofeiro,
Que inda é, como era dantes,
Das velhas casamenteiro!

 

 

in Poesias, 1ª edição, Imprensa Nacional, 1851.
Modernizei a ortografia.

 

Nota iconográfica

Sirvo-me, para ilustrar este artigo, não do artefacto da imagem do santo, mas de uma das pinturas de Keith Haring (1958-1990), onde o instrumento amplamente figura.

 

Nota final

O culto ao beato português São Gonçalo espalhou-se da Índia ao Brasil onde hoje é de popular devoção um pouco por todo o país.
Os quilhões de São Gonçalo acima referidos foram doces de venda proibida durante o Salazarismo.

 

John Donne — Nascer do dia

Etiquetas

,

Depois da noite misteriosa, filosófica, e solitária, de Fernando Pessoa no poema de artigo anterior, [O primeiro de DOIS EXCERTOS DE ODES / de Pessoa/Álvaro de Campos], passemos a uma mais prosaica, acompanhada e prazenteira noite, a tal ponto que chegada a alvorada, o que apetece é continuar.

Falo do poema Break of dayNascer do dia — de John Donne (1572-1631). Nele, o prosaico revela-se na terceira estrofe, no comentário a como a urgência dos negócios se impõe à continuação dos prazeres do amor que a noite viveu, sublinhando com uma ironia que é peculiar à poesia de John Donne, quanto os prazeres do amor apenas estão permitidos sem baias  a quem anda longe de negócios.

 


Quem tem negócios e ama erra tanto
Quanto um homem casado que queira namorar.

 

 

É também, toda ela ironia, mas também prazenteira, a segunda estrofe do poema, [… / Eu quero gostosamente continuar / …], contrariando a ideia corrente da necessidade de viver o amor às escondidas para evitar falatórios [A luz não tem língua, é toda só olhos./ …]. Por outro lado, o poema na primeira estrofe parodia o que foi assunto recorrente na poesia amorosa antiga: a alba, o amanhecer, como o fim do tempo de felicidade junto da amada:

 

Está bem, é dia — e que importância tem?
Ou, por isso, irás sair do meu lado?
Deveremos levantar-nos só porque está luz?

 

Talvez o mais famoso relato desta despedida contrariada seja a que encontramos em Romeo e Julieta de Shakespeare, na cena em que pela primeira vez dormiram (?) juntos.

 

Basta de conversa, vamos ao poema:

Nascer do dia

 

Está bem, é dia — e que importância tem?
Ou, por isso, irás sair do meu lado?
Deveremos levantar-nos só porque está luz?
Deitámo-nos nós porque era noite?
O Amor, que apesar do escuro nos trouxe aqui,
Deverá, a despeito da luz, manter-nos juntos.

A luz não tem língua, é toda só olhos.
Se pudesse falar tão bem quanto espia,
O pior que diria é que, estando bem,
Eu quero gostosamente continuar
E que amo tanto o meu coração e honra
Que, de quem os guarda, não me apartaria.

São os negócios que daqui te afastam?
Oh, essa é a pior doença do amor:
O pobre, o louco, o falso, podem o amor
Acolher, mas nunca o homem atarefado.
Quem tem negócios e ama erra tanto
Quanto um homem casado que queira namorar.

 

 

 

Break of Day

 

‘Tis true, ‘tis day, what though it be?
O wilt thou therefore rise from me?
Why should we rise because ‘tis light?
Did we lie down because ‘twas night?
Love, which in spite of darkness brought us hither,
Should in despite of light keep us together.

Light hath no tongue, but is all eye;
If it could speak as well as spy,
This were the worst that it could say,
That being well I fain would stay,
And that I loved my heart and honour so,
That I would not from him, that had them, go.

Must business thee from hence remove?
Oh, that’s the worst disease of love,
The poor, the foul, the false, love can
Admit, but not the busied man.
He which hath business, and makes love, doth do
Such wrong, as when a married man doth woo.

 

 

 

Nota bibliográfica

 

Longe da biblioteca, socorro-me uma vez ou outra de poemas que a certa altura transcrevi para o bloco-notas sem cuidar de registar a origem, edição ou tradução, qual seja o caso do poema de hoje.
Uma vez encontrada a fonte do poema (edição e tradutor) registá-la-ei nesta nota, como é de justiça.

 

Abre o artigo a imagem de um detalhe de um fresco do  Palazzo del Podestà em San Gimignano por MEMMO DI FILIPPUCCIO 1300-10.

Mais notícias de cinema no paraíso

Há semanas distraí os leitores das graves preocupações da actualidade com o relato do prazer de rever velhos filmes em ambiente de beira-mar [Cinema e Paraíso]. Reincido hoje, pois estas noites de cinema e beira-mar são prazer que recomendo a quem o possa fruir.

Ainda que a indústria cinematográfica continue a produzir filmes apetecíveis, cuja novidade nos chama, revisitar histórias intemporais onde a memória se aninha e o prazer da repetição se saboreia, tem o apelo, por vezes irresistível, do reencontro entre velhos amigos.
Se a produção mais recente vi, a disponibilidade de espírito para voltar a velhos amores fez-me rever algumas pérolas de que deixo notícia.

Hesitei sobre continuar com mestre Hitchcock mais uns dias e voltar a ver de novo Grace Kelly e o seu assédio sexual a um James Stewart de perna engessada e completamente incapacitado para as peripécias de amor,  assunto principal de Rear Window (Janela Indiscreta), com pretexto (MacGuffin) de assassínio no prédio em frente; ou então, a agitada perseguição em North by Northwest (Intriga Internacional) onde Cary Grant faz o perfeito cidadão comum apanhado no local errado à hora errada, por uma intriga de espionagem magistralmente encenada por um James Mason no seu melhor, e onde  inúmeras cenas e falas fazem parte inesquecível da minha memória cinéfila.

Não me tinha ainda decidido e lembrei-me de uma pérola cinematográfica (Hopscotch) com um portentoso argumento de paródia aos filmes de espionagem, e uma esfuziante interpretação de Walter Matthau, secundado pela requintada e shakespeariana arte de representar de Glenda Jackson.
Para quem nunca viu o filme, (e não consta das listas de filmes que toda a gente deve ver uma vez na vida), traço um quadro simplificado do argumento: Um velho e experiente agente da CIA, na sequência de uma operação de intercepção de informações a passar para os Russos, deliberadamente deixa escapar o Chefe do KGB que superintendia a operação. Chamado à sede, é repreendido e colocado à secretária. Em sequência resolve demitir-se e prepara uma vingança antes de desaparecer da circulação. A partir daqui sucedem-se os acontecimentos hilariantes e paródias às histórias do género espionagem. O filme ganha um ritmo alucinante sempre à beira do nonsense, mantendo contudo a verosimilhança nas peripécias. Não detalho mais o argumento para não estragar a surpresa a quem se decida a vê-lo uma primeira vez.

Depois desta desopilante comédia apeteceu-me algo mais tranquilo. A arte de representar de Glenda Jackson chamava-me para Shakespeare. Pensei em Much ado about nothing, (Muito barulho para nada), feito e representado pelo jovem casal Kenneth Branagh/Emma Thompson, rodeado de um elenco estelar, que à época era apenas promessa (Denzel Whashinton, Keanu Reaves, etc). Vi-o, e por ali deslizaram os encantos da sedução e o sabor ambígua das palavras que tapam/revelam desejos e intenções, numa superlativa arte de representar.

De comédia em comédia, foi a vez do parceiro de Walter Matthau em tantas hilariantes histórias, Jack Lemmon, mas desta vez no inenarrável travesti de Some like it hot (Quanto mais quente melhor) e do seu magistral jogo de enganos até à frase final: Nobody is perfect.
No filme guarda-se uma das cenas mais espantosas do cinema, quando de costas, Marilyn Monroe avança pelo autocarro da banda musical feminina, balançando ancas e nádegas envolvidas na curva de um vestido justo. São segundos do mais absoluto erotismo, retomados por momentos por Fellini no filme Amarcord, quando a Gradisca avança, vestido vermelho, entre os montes de neve dum branco imaculado, seguida pelos olhos ávidos dos adolescentes.
Para fim da semana cinematográfica apetecia-me rever Katherine Hepburn.
Suddenly last summer (Bruscamente no verão passado) era uma possibilidade, com a adicional presença preciosa da beleza irreal de Elizabeth Taylor quando jovem. A densidade da história não casava com o meu ânimo e virei-me para coisa mais ligeira. O vendaval de comédia que é Bringing up Baby foi a primeira ideia, história de nonsense batida apenas por Arsenic and Old Lace, com o mesmo Cary Grant, mas na anterior com o adicional de a fechar se ver a hilariante prestação de Cary Grant naquela rendada camisa de noite. Mas era sobretudo a gama alargada da capacidade de representar da Hepburn que me apetecia. E assim, combinando-a com o registo de comédia  vi The Philadelphia Story, (Casamento Escandaloso) com o retrato inesquecível da jovem independente e frontal, segura de si, e a quem uma bebedeira suave liberta o lado frágil nos braços de um compreensivo James Stewart. Sublime!
E assim fechei a semana com chave de ouro.

É claro que cada um destes filmes tem muitíssimo mais para contar que os detalhes pontuais que destaquei, e para mim foram a razão primeira de os rever.  Todos eles objecto de repetidos ensaios e exegese ao longo dos anos que levam de vida, serão sempre uma companhia segura para nos fazer felizes.

Ao chegar das noites mais frescas de Setembro, que este ano tardam, quando o conforto de um pulôver apetece, talvez venha a oportunidade para voltar a ver algo do tanto que agora ficou de fora.

Carlos Mendonça Lopes

O primeiro de DOIS EXCERTOS DE ODES de Pessoa / Alvaro de Campos

Etiquetas

Há no primeiro dos dois excertos de odes, poema de Fernando Pessoa/Alvaro de Campos, de 1914, uma volúpia nas palavras que precede a inteligibilidade do verso, e o mistério da poesia expõe-se como totalidade do mundo.

 

Embora o poema seja um todo coerente e orgânico, muito para além de quaisquer fragmentos, permito-me destacar alguns aspectos: quando o poema começa a fazer caminho em nós é o Não sou nada / Nunca serei nada / À parte isso tenho em mim todos os sonhos do mundo … mais tarde lido em Tabacaria, que neste primeiro excerto de ode se esboça:

 

……
Vem, Noite antiquíssima e idêntica,

Nossa Senhora
Das coisas impossíveis que procuramos em vão,
Dos sonhos que vêm ter connosco ao crepúsculo, à janela.

Vem e arranca-me
Do solo de angústia e de inutilidade
Onde vicejo.

 

 

Neste apelo ao sortilégio permanece o desejo de milagre que torne possíveis os sonhos pelo desaparecimento do mundo visível e da sua materialidade hostil, para finalmente apenas pedir a chegada da noite consoladora do enorme cansaço do mundo:

 


Vem, e embala-nos,
Vem e afaga-nos.
Beija-nos silenciosamente na fronte,

Vem envolver na noite manto branco
O meu coração…
Serenamente como uma brisa na tarde leve,
Tranquilamente com um gesto materno afagando.

 

 

Em todo o poema surge um desejo de integração cósmica do ser, procurando a diluição da singularidade do eu, e da sua irrelevância, no manto diáfano da noite onde todas as diferenças se esbatem.

 

Quanto todos nós lutamos com a noite e seus fantasmas!
Tantas vezes, é o contrário do apaziguamento que o poema afirma, o que a noite traz. Mas também sabemos quanto a noite pode ser consoladora, e gratos ficamos ao acordar.
É um mistério de todos os dias, e a que a poesia volta uma e outra vez.

 

 

 

 

[Primeiro de]
DOIS EXCERTOS DE ODES
(FINS DE DUAS ODES, NATURALMENTE)

 

……
Vem, Noite antiquíssima e idêntica,
Noite Rainha nascida destronada,
Noite igual por dentro ao silêncio. Noite
Com as estrelas lantejoulas rápidas
No teu vestido franjado de Infinito.

 

Vem, vagamente,
Vem, levemente,
Vem sozinha, solene, com as mãos caídas
Ao teu lado, vem
E traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas.
Funde num campo teu todos os campos que vejo,
Faze da montanha um bloco só do teu corpo,
Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo.
Todas as estradas que a sobem,
Todas as várias árvores que a fazem verde-escuro ao longe.
Todas as casas brancas e com fumo entre as árvores,
E deixa só uma luz e outra luz e mais outra,
Na distância imprecisa e vagamente perturbadora.
Na distância subitamente impossível de percorrer.

 

Nossa Senhora
Das coisas impossíveis que procuramos em vão,
Dos sonhos que vêm ter connosco ao crepúsculo, à janela.
Dos propósitos que nos acariciam
Nos grandes terraços dos hotéis cosmopolitas
Ao som europeu das músicas e das vozes longe e perto.
E que doem por sabermos que nunca os realizaremos…
Vem, e embala-nos,
Vem e afaga-nos.
Beija-nos silenciosamente na fronte,
Tão levemente na fronte que não saibamos que nos beijam
Senão por uma diferença na alma.
E um vago soluço partindo melodiosamente
Do antiquíssimo de nós
Onde têm raiz todas essas árvores de maravilha
Cujos frutos são os sonhos que afagamos e amamos
Porque os sabemos fora de relação com o que há na vida.

 

Vem soleníssima,
Soleníssima e cheia
De uma oculta vontade de soluçar,
Talvez porque a alma é grande e a vida pequena.
E todos os gestos não saem do nosso corpo
E só alcançamos onde o nosso braço chega,
E só vemos até onde chega o nosso olhar.

 

Vem, dolorosa,
Mater-Dolorosa das Angústias dos Tímidos,
Turris-Eburnea das Tristezas dos Desprezados,
Mão fresca sobre a testa em febre dos humildes.
Sabor de água sobre os lábios secos dos Cansados.
Vem, lá do fundo
Do horizonte lívido,
Vem e arranca-me
Do solo de angústia e de inutilidade
Onde vicejo.
Apanha-me do meu solo, malmequer esquecido,
Folha a folha lê em mim não sei que sina
E desfolha-me para teu agrado,
Para teu agrado silencioso e fresco.
Uma folha de mim lança para o Norte,
Onde estão as cidades de Hoje que eu tanto amei;
Outra folha de mim lança para o Sul,
Onde estão os mares que os Navegadores abriram;
Outra folha minha atira ao Ocidente,
Onde arde ao rubro tudo o que talvez seja o Futuro,
Que eu sem conhecer adoro;
E a outra, as outras, o resto de mim
Atira ao Oriente,
Ao Oriente donde vem tudo, o dia e a fé,
Ao Oriente pomposo e fanático e quente,
Ao Oriente excessivo que eu nunca verei,
Ao Oriente budista, bramânico, sintoísta,
Ao Oriente que tudo o que nós não temos.
Que tudo o que nós não somos,
Ao Oriente onde — quem sabe? — Cristo talvez ainda hoje viva,
Onde Deus talvez exista realmente e mandando tudo…

 

Vem sobre os mares,
Sobre os mares maiores,
Sobre os mares sem horizontes precisos,
Vem e passa a mão pelo dorso da fera,
E acalma-o misteriosamente,
Ó domadora hipnótica das coisas que se agitam muito!

 

Vem, cuidadosa,
Vem, maternal,
Pé antepé enfermeira antiquíssima, que te sentaste
À cabeceira dos deuses das fés já perdidas,
E que viste nascer Jeová e Júpiter,
E sorriste porque tudo te é falso e inútil.

 

Vem, Noite silenciosa e extática,
Vem envolver na noite manto branco
O meu coração…
Serenamente como uma brisa na tarde leve,
Tranquilamente com um gesto materno afagando.
Com as estrelas luzindo nas tuas mãos
E a lua máscara misteriosa sobre a tua face.
Todos os sons soam de outra maneira
Quando tu vens.
Quando tu entras baixam todas as vozes,
Ninguém te vê entrar.
Ninguém sabe quando entraste,
Senão de repente, vendo que tudo se recolhe,
Que tudo perde as arestas e as cores,
E que no alto céu ainda claramente azul
Já crescente nítido, ou círculo branco, ou mera luz nova que vem,

 

A lua começa a ser real.

30-6-1914

 

Carta — poema de Bulhão Pato

Etiquetas

,

Quem parte leva saudades, quem fica saudades tem, é um provérbio adequado a estes dias de despedidas de fim de verão.
Oportunidade de reencontros afectivos, as férias de verão são, para alguns, ainda uma forma de gozar este tempo na repetição  das rotinas de vilegiatura que durante longos anos fizeram tradição.

Desde sempre, com pontuais excepções, passei as férias de verão na praia, e chegado Setembro, começam as despedidas entre quem talvez se reencontre no próximo ano. E é nesta perspectiva que as saudades surgem, trazidas pelos afastamentos ditados pelas responsabilidades da vida, a que o despreocupado tempo de verão deu folga. Dessas saudades fala o poema-carta de Bulhão Pato (1828-1912) que a seguir transcrevo.

É uma carta saudosa de quem viu partir os que ama, e recorda as irrelevâncias afectivas que nos enchem a alma, com o desejo final que o afastamento não traga consigo o esquecimento: Y nó te olvides de mi!
Na sua simplicidade tocante, o poema dá conta de sentimentos límpidos, do afecto dos pequenos acontecimentos, e da emoção dos nadas do quotidiano vivido na companhia de quem se ama.

CARTA

Quando partiste ainda havia
Um sol como de verão.
Partiste, e logo a invernia
— Triste do meu coração —
Rompeu de cara sombria.

Mar que vias da janela,
Tão sereno e tão azul,
Torvo ao largo se encapela
Com as lufadas do sul,
Dando núncios da procela.

Uma avesita arribada,
Que à tarde poisou aqui,
Soltou um pio magoada;
Como eu as tenho de ti
Teve saudades, coitada!

Saudades… se breve espero
Ver-te, que estás a dois passos?
Sempre a um pai é desespero
Não ter a filha nos braços,
E eu como a filha te quero.

De passagem te direi
Que ontem, descendo o valado,
Com a casa defrontei,
E, vendo tudo fechado,
Por vergonha não chorei.

Quando do alto do casal
Me avistavam da janela,
Que alegria triunfal! …
Eras tu, e a Filomela,
E os lenços num vendaval!

— «Depressa, que o tio espera,
Jantar na mesa, são horas.»
E a tentar cara severa,
E rindo como as auroras
Dos dias da primavera!

Agora vêm da invernia
As cordas d’água puxadas
Na força da ventania,
E essas janelas cerradas,
E eu sem a vossa alegria!…

Já nem sei o que escrevi…
Vou fechar a carta. Adeus!
Guarda um beijo para ti,
Dá-me um abraço nos teus,
Y nó te olvides de mi!

1899.

 

in Faíscas de fogo morto, Tipografia da Academia Real das Ciências, Lisboa, 1908.

Acompanham o artigo imagens de pinturas de Joaquín Sorolla (1863-1923).

Lesebuch (Livro de leitura) de J. W. Goethe

Etiquetas

,

O mais singular livro dos livros
É o Livro do Amor;
Li-o com toda a atenção:
Poucas folhas de alegrias,
De dores cadernos inteiros;
Apartamento faz uma secção,
Reencontro! um breve capítulo,
Fragmentário. Volumes de mágoas
Alongados de comentários,
Infinitos, sem medida.
Ó Nisami ! – mas no fim
Achaste o justo caminho;
O insolúvel, quem o resolve?
Os amantes que tornam a encontrar-se.

De Divan Ocidental-Oriental (West-Östlichen Divan (1814-1836)) de J. W. Goethe (1749-1832) vem esta síntese dos efeitos do amor na vida de cada um, retomando as admiráveis lições de Rumi e Omar Khayyam, de condensar supremos ensinamentos nos versos de um pequeno poema.

Reflexão de maturidade sobre o amor, este Divan de Goethe dá conta de como viver o amor nos muda o mundo:

Que maravilha é ver
Que maravilha é ver todo este mundo!
Mais belo que nenhum é o mundo dos poetas:
Variegados, claros ou prateados, ao fundo,
Os campos, dia e noite, têm luzes a brilhar.
Tudo me é belo, hoje; pudesse assim ficar!
Para ver hoje assim, o Amor me deu lunetas.

Remetendo directamente para a poesia de Omar Khayyam, vem este

Se estou sozinho

Se estou sozinho,
Que melhor cantinho?
O meu vinho
Bebo-o sozinho,
Ninguém me põe impedimentos,
E  tenho os meus próprios pensamentos.

Ao falar em Omar Khayyam a propósito deste poema de Goethe, poderia recordar tantos dos seus ruba’iyat, mas retenho este ruba’i em especial:

Dizem-me: “Não bebas mais, Kayam!”
Eu respondo: “Ao beber
ouço o que me dizem as rosas   as tulipas e os jasmins
escuto mesmo aquilo que a minha amada não me pode dizer”

Não sei se seria o caso com Goethe e Marianne von Willemer, que, quando afastado dela lhe aconteceria:
escuto mesmo aquilo que a minha amada não me pode dizer

Foi para esta Marianne von Willemer que o poeta escreveu em 15 de Setembro de 1815 a metáfora da fusão de dois amantes simbolizada na folha de Gingko Biloba:
Será um ser vivo apenas / Em si mesmo em dois partido?
Serão dois que se elegeram / E nós julgamos num unidos?

Gingko Biloba

A folha desta árvore que de Leste
Ao meu jardim se veio afeiçoar,
Dá-nos o gosto de um sentido oculto
Capaz de um sábio edificar.

Será um ser vivo apenas
Em si mesmo em dois partido?
Serão dois que se elegeram
E nós julgamos num unidos?

Para responder às perguntas
tenho o sentido real:
Não vês por meus cantos como
Sou uno e duplo, afinal?

Deixo-vos com o que suponho ser o fac-simile do poema:

Noticia bibliográfica
As traduções dos poemas de Goethe são de Paulo Quintela, e constam da 2ªedição corrigida de Poemas publicada em 1958 Por Ordem da Universidade de Coimbra.

A poesia de Omar Khayyam consta da antologia O vinho e as Rosas – Antologia de poemas sobre a embriaguês organizada por Jorge Sousa Braga e luxuosamente editada por Assírio & Alvim em 1995.

Para o nome deste poeta não encontrei grafia normalizada, e surge nas edições em livro tanto Omar Kayam ou Khayyam, como Umar-i Kahayyam, ou em espanhol, Omar Jayyam.

 

Nota Final

Este artigo foi antes publicado no blog em Junho de 2012.

Um epigrama de D. João d’Azevedo

Etiquetas

, ,

D. João d’Azevedo, poeta, prosador, jornalista, etc, activo em meados do século XIX, está hoje completamente esquecido. É um epigrama de afiada verve publicado em O Trovador que me faz recordá-lo.


Sendo virtualmente impossível encontrar informação on-line sobre o homem, socorro-me de Camilo Castelo-Branco para deixar aos leitores um retrato do autor, e simultaneamente fruir a fina ironia da escrita de Camilo.


O fragmento que a seguir transcrevo encontra-se no livro No Bom Jesus do Monte, volume que além de ser todo ele de leitura apetecível para quem tiver curiosidade sobre a vida na província minhota por essa época, descreve outras peripécias com o nosso autor de hoje, além das citadas a seguir:

 

 

Em Braga, naquele tempo [1850], entre os sujeitos de nascimento ilustre e dotes de alta inteligência primava D. João de Azevedo, poeta e prosador, jornalista, romancista e dramaturgo. Eu tinha-o visto no Porto, hospedado em casa de Rodrigo Nogueira Soares, embrulhado na coberta da cama, de cócoras entre os cobertores, às duas horas da tarde, falando das delícias bucólicas duma madrugada. D. João adivinhava admiravelmente a formosura duma aurora de Julho, que ele nunca tinha visto. As suas alvoradas não lhas anunciava o regorgeio dos passarinhos: era o tilintar dos talheres na mesa de jantar.
Desmentia ele triunfantemente os que dizem que as cabeças dos dorminhocos, cerradas de vapores, carecem da lucidez da ideia e fluência da palavra. D. João d’Azevedo, com as pálpebras ainda quebradas do langor do sono, e a preguiça a estirar-lhe a inércia dos músculos, encadeava frases com suma elegância, elegância de ironia, de sátira,
descaridosa com as fragilidades humanas; mas, de fora parte a maledicência, perdoável a ouvidos de rapazes, que lhe desculpavam os seus bons quarenta anos, era  sedutor!

 

in Camilo Castelo-Branco, No Bom Jesus do Monte, 1864, pg. 26-27.
Modernizei a ortografia.

 

 

 

Epigrama

O homem chora mal nasce,
Adulto chora também;
Curvado já sobre a campa,
Mais dor no peito inda tem

 

Aos vinte chora porque ama,
Aos trinta ver-se iludido;
E quando desce ao sepulcro,
Até por ter existido.

 

 

in O Trovador,  colecção de poesias contemporâneas redigidas por uma sociedade d’académicos, Coimbra, 1848, pg. 303.

 

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Paul Cézanne (1839-1906), Homem fumando cachimbo de 1892.

Pareceu-me adequado ao espírito do poema o ar meditativo do homem pintado por Cézanne.