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Vieira da Silva (1908 – 1992) - A saida luminosa 1983-86

É um poema sobre Separação que escolho para pela primeira vez trazer ao blog a poesia de Iosif Brodskii, ou Joseph Brodsky (1940-1996) como é talvez mais conhecido no ocidente.

Russo de nascimento, expulso da União Soviética em 1972, Prêmio Nobel em 1990, fixou-se nos Estados Unidos, e, auto-didacta, aprendeu inglês, tendo ganho um domínio da língua que lhe permitiu escrever nela com domínio absoluto, tal como já acontecerá com Nabokov.

 

Voltando ao poema de hoje, é à reflexão sobre a dimensão do amor e do seu fim que ele nos desafia:

Esquecemos quem uma vez foi uma paixão?

… o tempo, ao dar de caras com a memória, reconhece a invalidez dos seus direitos.

 

Ao recordar, recordamos como?

Tu tiveste sorte: onde estarias para sempre — salvo talvez

numa fotografia — de sorriso trocista, sem uma ruga, jovem, alegre?

 

E ao recordar significa que o amor permanece? Memória é amor?

 

Não me interpretes mal: a tua voz, o teu corpo, o teu nome

já não mexem com nada cá dentro. Não que alguém os destruísse,

só que um homem, para esquecer uma vida, precisa pelo menos

de viver outra ainda. E eu há muito que gastei tudo isso.

 

Tantas perguntas…; o poema aí fica.

 

Querida, hoje saí de casa já muito ao fim da tarde

para respirar o ar fresco que vinha do oceano.

O sol fundia-se como um leque vermelho no teatro

e uma nuvem erguia a cauda enorme como um piano.

 

Há um quarto de século adoravas tâmaras e carne no braseiro,

tentavas o canto, fazias desenhos num bloco-notas,

divertias-te comigo, mas depois encontraste um engenheiro

e, a julgar pelas cartas, tornaste-te aflitivamente idiota.

 

Ultimamente têm-te visto em igrejas da capital e da província,

em missas de defuntos pelos nossos comuns amigos; agora

não param (as missas). E alegra-me que no mundo existam ainda

distâncias mais inconcebíveis que a que nos separa.

 

Não me interpretes mal: a tua voz, o teu corpo, o teu nome

já não mexem com nada cá dentro. Não que alguém os destruísse,

só que um homem, para esquecer uma vida, precisa pelo menos

de viver outra ainda. E eu há muito que gastei tudo isso.

 

Tu tiveste sorte: onde estarias para sempre — salvo talvez

numa fotografia — de sorriso trocista, sem uma ruga, jovem, alegre?

Pois o tempo, ao dar de caras com a memória, reconhece a invalidez

dos seus direitos. Fumo no escuro e respiro as algas podres.

1989

 

Tradução de Carlos Leite,

in Paisagem com Inundação, Edições Cotovia, Lisboa 2001.

Vieira da Silva (1908 – 1992) - Memória segunda 1985
Abre o artigo a imagem de uma pintura de Vieira da Silva (1908–1992) — A saida luminosa, 1983-86. Fecha o artigo outra pintura de Vieira da Silva, Memória segunda. 1985.

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