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Johann Georg Meyer (German, 1813–1880). Sitting Girl (Reflecting), 1872 detalheO tempo, esse grande escultor, escreveu uma vez Marguerite Yourcenar: fórmula lapidar que dá conta de como o seu passar nos forma e transforma dia-a-dia.

Somos em cada momento o que o tempo, ou a vida, como se preferir, faz de nós.

Eu não tinha este rosto de hoje, escreve Cecília Meireles (1901-1964) a abrir o seu poema Retrato, e nele reflecte sobre a mudança em nós que o passar do tempo traz, tantas vezes sem que nos apercebamos delas até que súbito o espelho da verdade no-las impõe:

Eu não dei por esta mudança, / … / — Em que espelho ficou perdida / a minha face?

 

Retrato

 

Eu não tinha este rosto de hoje,

assim calmo, assim triste, assim magro,

nem estes olhos tão vazios,

nem o lábio amargo.

 

Eu não tinha estas mãos sem força,

tão paradas e frias e mortas;

eu não tinha este coração

que nem se mostra.

 

Eu não dei por esta mudança,

tão simples, tão certa, tão fácil:

— Em que espelho ficou perdida

a minha face?

Nas voltas da vida por vezes O tempo seca a beleza, belo verso com que Cecília Meireles abre o poema Canção do Amor-Perfeito. Ao lê-lo, na sua concisa e bela sinceridade fazemos o percurso do seu passar:

 

O tempo seca a saudade,/ … / Deixa algum retrato, apenas,

O tempo seca o desejo / e suas velhas batalhas.

 
Canção do Amor-Perfeito

 

O tempo seca a beleza,

seca o amor, seca as palavras.

Deixa tudo solto, leve,

desunido para sempre

como as areias nas águas.

 

O tempo seca a saudade,

seca as lembranças e as lágrimas.

Deixa algum retrato, apenas,

vagando seco e vazio

como estas conchas das praias.

 

O tempo seca o desejo

e suas velhas batalhas.

Seca o frágil arabesco,

vestígio do musgo humano,

na densa turfa mortuária.

 

Esperarei pelo tempo

com suas conquistas áridas.

Esperarei que te seque,

não na terra, Amor-Perfeito,

num tempo depois das almas.

 

Retrato pertence ao livro Viagem de 1939, e livro da sua consagração como poeta. Canção do Amor-Perfeito íntegra o livro Retrato Natural publicado em 1949.

Transcrevi a partir da edição portuguesa da Antologia Poética, escolha de Cecília Meireles em 1963 e publicada pela primeira vez a seguir à morte da poetisa.

 

O retrato da rapariga que reflete depois da leitura foi pintado pelo alemão Johann Georg Meyer (1813-1880).

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