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Thomson_Ann-Windlass 1983São emocionante poesia e comovedora lição os poemas em que Jorge Luís Borges (1899-1986) nos fala da sua cegueira, e como com ele vemos o mundo sem luz.

Dos poemas  publicados em 1975 no livro La Rosa Profunda, quais 1972, Al Espejo, Mis Libros, e sobretudo os pungentes El Ciego e Un Ciego, à serena aceitação em On His Blindness, publicado em Los Conjurados, 1985, apreendemos novos significados para a luz e para o ver.

Mais de um olhar o mundo que olhar-se a si trata, no entanto, este Elogio da sombra, publicado em 1969 a fechar o livro do mesmo nome, que a seguir transcrevo, e onde da progressiva cegueira diz:  “Esta penumbra é lenta e não dói; / flui por um manso declive / e é parecida com a eternidade.“.

Mas há mais, há a infinita sabedoria dos versos que abrem o poema:

A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão) / pode ser o tempo de nossa felicidade. / O animal está morto  ou quase morto. / Restam o homem e sua alma.“.

E continua com o relato factual: “Vivo entre formas luminosas e vagas / que ainda não são a treva.“, dando conta da sua eximia arte de dizer as profundas verdades com ar de conversa trivial.

As pistas de reflexão saltam em cada nova leitura, qual palimpsesto, e poderia por aqui continuar, mas entrego-vos ao prazer da leitura do poema em tradução e no original espanhol.

Elogio da sombra

A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão)

pode ser o tempo de nossa felicidade.

O animal está morto  ou quase morto.

Restam o homem e sua alma.

Vivo entre formas luminosas e vagas

que ainda não são a treva.

Buenos Aires,

que dantes se espraiava em arrabaldes

rumo à planície sem fim,

voltou a ser a Recoleta, o Retiro,

as confusas ruas do bairro Once

e as vacilantes casas velhas

que ainda chamamos o Sul.

Houve sempre na minha vida demasiadas coisas;

Demócrito de Abdera arrancou os olhos para pensar;

o tempo foi o meu Demócrito.

Esta penumbra é lenta e não dói;

flui por um manso declive

e é parecida com a eternidade.

Os meus amigos não têm rosto,

as mulheres são o que foram há tantos anos,

as esquinas podem ser outras,

não há letras nas páginas dos livros.

Tudo isto deveria amedrontar-me,

mas é uma doçura e um regresso.

Das gerações de textos que há na terra

só terei lido uns poucos,

os que ainda hoje leio na memória,

lendo-os e transformando-os.

Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte

convergem os caminhos que me trouxeram

ao meu secreto centro.

Esses caminhos foram ecos e passos,

mulheres, homens, agonias, ressurreições,

dias e noites,

devaneios e sonhos,

cada ínfimo instante de outrora

e dos outroras do mundo,

a firme espada do dinamarquês e a lua do persa,

os actos dos mortos,

o partilhado amor, as palavras,

Emerson e a neve e tantas coisas.

Agora posso esquecê-las. Chego ao meu centro,

à minha álgebra e à minha chave,

ao meu espelho.

Em breve saberei quem sou.

Tradução de Fernando Pinto do Amaral

Elogio de la Sombra

La vejez (tal es el nombre que los otros le dan)

puede ser el tiempo de nuestra dicha.

El animal ha muerto o casi ha muerto.

Quedan el hombre y su alma.

Vivo entre formas luminosas y vagas

que no son aún la tiniebla.

Buenos Aires,

que antes se desgarraba en arrabales

hacia la llanura incesante,

ha vuelto a ser la Recoleta, el Retiro,

las borrosas calles del Once

y las precarias casas viejas

que aún llamamos el Sur.

Siempre en mi vida fueron demasiadas las cosas;

Demócrito de Abdera se arrancó los ojos para pensar;

el tiempo ha sido mi Demócrito.

Esta penumbra es lenta y no duele;

fluye por un manso declive

y se parece a la eternidad.

Mis amigos no tienen cara,

las mujeres son lo que fueron hace ya tantos años,

las esquinas pueden ser otras,

no hay letras en las páginas de los libros.

Todo esto debería atemorizarme,

pero es una dulzura, un regreso.

De las generaciones de los textos que hay en la tierra

sólo habré leído unos pocos,

los que sigo leyendo en la memoria,

leyendo y transformando.

Del Sur, del Este, del Oeste, del Norte,

convergen los caminos que me han traído

a mi secreto centro.

Esos caminos fueron ecos y pasos,

mujeres, hombres, agonías, resurrecciones,

días y noches,

entresueños y sueños,

cada ínfimo instante del ayer

y de los ayeres del mundo,

la firme espada del danés y la luna del persa,

los actos de los muertos,

el compartido amor, las palabras,

Emerson y la nieve y tantas cosas.

Ahora puedo olvidarlas. Llego a mi centro,

a mi álgebra y mi clave,

a mi espejo.

Pronto sabré quién soy.

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