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Embora os leitores possam conhecer a aventura de Leonardo, soldado bem disposto, na Ilha dos Amores, narrada por Camões no Canto IX de Os Lusíadas, não resisto à sua transcrição.

O poeta dá conta em detalhada descrição, de como se desenvolveu o encontro entre Leonardo, soldado da armada de Vasco da Gama e a ninfa Efire quando para repouso e prémio dos valorosos marinheiros,

De longe a Ilha viram, fresca e bela, / Que Vénus pelas ondas lha levava

Ficou esta ilha conhecida por Ilha dos amores e os seus encantos descreve-os o poeta a partir da estrofe 52 do Canto IX.

Acompanhamos o detalhe da natureza na descrição do poeta, de que destaco

Os fermosos limões ali, cheirando, / Estão virgíneas tetas imitando.

Depois da descrição da ilha somos chamados a acompanhar o desembarque dos guerreiros

Nesta frescura tal desembarcavam / Já das naus os segundos Argonautas, / Onde pela floresta se deixavam / Andar as belas Deusas, como incautas.

Como eram e o que faziam as belas deusas, sabemos a seguir:

Algumas, doces cítaras tocavam,
Algumas, harpas e sonoras frautas;
Outras, cos arcos de ouro, se fingiam
Seguir os animais que não seguiam.

Isto era estratégia de sedução, conta-nos à frente o poeta:

Assi lho aconselhara a mestra experta:
Que andassem pelos campos espalhadas;
Que, vista dos barões a presa incerta,
Se fizessem primeiro desejadas.
Era o paraíso ali à vista:
Algumas, que na forma descoberta
Do belo corpo estavam confiadas,
Posta a artificiosa fermosura,
Nuas lavar se deixam na água pura.

Será de estupefacção, primeiro, a reacção à vista de tal espectáculo:

Mas os fortes mancebos, que na praia
Punham os pés, de terra cobiçosos

Começam de enxergar subitamente,
Por entre verdes ramos, várias cores,
Cores de quem a vista julga e sente
Que não eram das rosas ou das flores,
Mas da lã fina e seda diferente,
Que mais incita a força dos amores,
De que se vestem as humanas rosas,
Fazendo-se por arte mais fermosas.

Dá Veloso, espantado, um grande grito:
«Senhores, caça estranha (disse) é esta!
Se inda dura o Gentio antigo rito,
A Deusas é sagrada esta floresta.

E à estupefacção segue-se a luxúria:

De hüa os cabelos de ouro o vento leva,
Correndo, e de outra as fraldas delicadas;
Acende-se o desejo, que se ceva
Nas alvas carnes, súbito mostradas.

É Leonardo o escolhido para protagonizar a narrativa das delicias ali vividas:

Que afagos tão suaves, que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manhã e na sesta,
Que Vénus com prazeres inflamava,

por tal forma saborosos que no final o poeta não resiste ao conselho:

Milhor é exprimentá-lo que julgá-lo;
Mas julgue-o quem não pode exprimentá-lo.

(Nota: julgue-o é aqui usado com o sentido de imagine-o)

Leia-se então integralmente o episódio com Leonardo.

75
Leonardo, soldado bem disposto,
Manhoso, cavaleiro e namorado,
A quem Amor não dera um só desgosto,
Mas sempre fora dele mal tratado,
E tinha já por firme prossuposto
Ser com amores mal-afortunado,
Porém não que perdesse a esperança
De inda poder seu Fado ter mudança;

76
Quis aqui sua ventura que corria
Após Efire, exemplo de beleza
Que mais caro que as outras dar queria
O que deu, pera dar-se, a Natureza.
Já cansado, correndo, lhe dizia:
«Ó fermosura indigna de aspereza,
Pois desta vida te concedo a palma,
Espera um corpo de quem levas a alma!

77
«Todas de correr cansam, Ninfa pura,
Rendendo-se à vontade do inimigo;
Tu só de mi só foges na espessura?
Quem te disse que eu era o que te sigo?
Se to tem dito já aquela ventura
Que em toda a parte sempre anda comigo,
Oh! não na creias, porque eu, quando a cria,
Mil vezes cada hora me mentia.

78
«Não canses, que me cansas; e, se queres
Fugir-me, por que não possa tocar-te,
Minha ventura é tal, que, inda que esperes,
Ela fará que não possa alcançar-te.
Espera; quero ver, se tu quiseres,
Que sutil modo busca de escapar-te;
E notarás, no fim deste sucesso,
“Tra la spica e la man qual muro he messo.”

79
«Oh! Não me fujas! Assi nunca o breve
Tempo fuja de tua fermosura;
Que, só com refrear o passo leve,
Vencerás da Fortuna a força dura.
Que Emperador, que exército, se atreve
A quebrantar a fúria da ventura
Que, em quanto desejei, me vai seguindo,
O que tu só farás não me fugindo?

80
«Pões-te da parte da desdita minha?
Fraqueza é dar ajuda ao mais potente.
Levas-me um coração que livre tinha?
Solta-mo, e correrás mais levemente.
Não te carrega essa alma tão mesquinha
Que nesses fios de ouro reluzente
Atada levas? Ou, despois de presa,
Lhe mudaste a ventura, e menos pesa?

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«Nesta esperança só te vou seguindo:
Que ou tu não sofrerás o peso dela,
Ou, na virtude de teu gesto lindo,
Lhe mudarás a triste e dura estrela.
E, se se lhe mudar, não vás fugindo,
Que Amor te ferirá, gentil donzela,
E tu me esperarás, se Amor te fere;
E, se me esperas, não há mais que espere.»

82
Já não fugia a bela Ninfa, tanto
Por se dar cara ao triste que a seguia,
Como por ir ouvindo o doce canto,
As namoradas mágoas que dizia.
Volvendo o rosto, já sereno e santo,
Toda banhada em riso e alegria,
Cair se deixa aos pés do vencedor,
Que todo se desfaz em puro amor.

83
Oh! Que famintos beijos na floresta,
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tão suaves, que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manhã e na sesta,
Que Vénus com prazeres inflamava,
Milhor é exprimentá-lo que julgá-lo;
Mas julgue-o quem não pode exprimentá-lo.

Ilustra o artigo o painel central do tríptico de Hieronymous Bosch, O Jardim das Delícias na Terra, pintado em 1504-05.
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