Abrir o pacote e receber um livro tamanho 12x19cm, espessura pouco mais que um centímetro, que cabe na mão e se segura com prazer, encadernação em pele, lisa, azul escuro, título em dourado a um terço da altura, abrir, papel creme, mate, sedoso ao toque, a mancha impressa, em caracteres legíveis sem esforço, começar a ler e, de súbito, entrar no mundo da Grécia antiga, conversar com os seus poetas sobre temperança e excesso nos prazeres, a mesquinhez e heroísmo dos homens, a vida em sociedade e a sua organização política, os caprichos dos deuses e a incerteza da vida, ser jovem e ser velho, os filhos, os trabalhos da terra, a sobrevivência, ser rico ou pobre, em suma a aprendizagem do viver, tudo isto recebi. Vinha numa edição da Editorial Gredos. São livros da sua Biblioteca Classica. Um mundo para saborear no que já conheço e para descobrir no que não sei que existe. Desses prazeres e surpresas ir-vos-ei dando conta. Por agora o prazer é meu.
De tudo o que referi nos fala, entre outros, também Xenófanes de Cólofon (séc. VI-V a. C.). Dele vos deixo um poema. Não a tradução integral em espanhol de um seu fragmento , que agora leio, mas os versos1-18 em bela tradução portuguesa de Maria Helena da Rocha Pereira, publicado na sua antologia de Cultura Grega, Hélade.
Agora está o solo puro, e as mãos de todos nós
e os cálices. Um põe-nos as coroas entretecidas,
e outro oferece-nos numa taça a essência fragrante.
O crater está repleto de boa disposição.
Está já pronto outro vinho, que garante que jamais
abandona ao barro o cheiro a mel da sua flor.
No meio, uma árvore de incenso desprende um sacro aroma;
a água está fresca, doce e pura.
Aqui temos os fulvos pães e a mesa sumptuosa,
carregada de queijo e de pingue mel.
Ao meio, o altar está todo coberto de flores.
A música festiva domina o ambiente.
Ao deus devem os homens sensatos entoar primeiro um hino,
com ditos de bom augúrio e palavras puras.
Depois de fazer as libações e preces para procederem
com justiça — pois isso é a primeira lisa —
não é insolente beber até ao ponto de se poder voltara casa
sem ajuda de um escravo, a menos que se seja muito idoso.
(fragmento 1, ed. Diels-Kranz, versos 1-18)
Abre o artigo uma imagem da pintura de Paolo Veronese (1528-1588), As Bodas de Canaã, certa vez contemplada por horas no Louvre onde se guarda. Acrescento agora alguns detalhes desta gigantesca obra-prima.
Ao leitor deixo a liberdade do confronto entre o que vê e leu, a história, a arte, e a sabedoria que a vida acaba por nos trazer.