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Ocupados com as preocupações de todos os dias, nem sempre temos o olhar disponível para o fulgor do instante, um flash de beleza que nos passa diante dos olhos e perdura longo tempo na memória, por tal forma que, ao recordá-lo, sentimos invadir-nos uma espécie de felicidade inexplicável.

 

É de um momento assim que Eugénio de Andrade (1923-2005) fala no poema Green god.

O poema tem, na concisão da forma, a elegância que caracteriza toda a poesia de Eugénio de Andrade, e interpela-nos sobre a beleza que reside no mundo: na natureza, nos corpos, no movimento, na luz, na música; em tudo o que à nossa volta pode fazer pressentir o paraíso, e com isso sermos felizes; o que talvez o ensimesmamento em que tantas vezes mergulhamos, deixe escapar.

Mais que a letra do poema importa a emoção que a sua leitura desencadeia e a multiplicidade de pistas e caminhos que abre na fruição do sentimento do belo.

Green god

Trazia consigo a graça
das fontes, quando anoitece.
Era o corpo como um rio
em sereno desafio
com as margens, quando desce.

Andava como quem passa,
sem ter tempo de parar.
Ervas nasciam dos passos,
cresciam troncos dos braços
quando os erguia do ar.

Sorria como quem dança.
E desfolhava ao dançar
o corpo, que lhe tremia
num ritmo que ele sabia
que os deuses devem usar.

E seguia o seu caminho,
porque era um deus que passava.
Alheio a tudo o que via,
enleado na melodia
de uma flauta que tocava.

 

O poema foi inicialmente publicado em As mãos e os frutos (1948), o primeiro livro de poemas publicado pelo poeta.
Transcrito de Eugénio de Andrade, Poesia, Rosto editora lda, V. N. Gaia, 2011.

 

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