Lana Turner desmaiou! — acontecimento lido por Frank O’Hara

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Lana Turner The Postman Always Rings Twice 1946

A vida, a nossa vida, e a outra, a que os media relatam, têm habitualmente muito pouco a ver entre si.

A poesia de Frank O’Hara (1926-1966) dá frequentemente conta dessa evidência, e no poema que hoje escolhi, eleva-a a caricatura no relato entre a importância do desmaio de Lana Turner e o que o preocupa.

 

Lana Turner 2

Poema

Lana Turner desmaiou!
Eu deambulava e de repente
começou a chover e a nevar
e tu disseste que caía granizo
mas o granizo acerta na cabeça
com força por isso estava a nevar
e a chover e eu tinha tanta pressa
ia ao teu encontro mas o tráfego
comportava-se exactamente como o céu
e subitamente vi um cabeçalho
LANA TURNER DESMAIOU!
não há neve em Hollywood
não há chuva na California
eu estive numa data de festas
e portei-me de forma desgraçada
mas nunca tive um desmaio
oh Lana Turner amamos-te levanta-te

Tradução de José Alberto Oliveira

 

Poem

Lana Turner has collapsed!
I was trotting along and suddenly
it started raining and snowing
and you said it was hailing
but hailing hits you on the head
hard so it was really snowing and
raining and I was in such a hurry
to meet you but the traffic
was acting exactly like the sky
and suddenly I see a headline
LANA TURNER HAS COLLAPSED!
there is no snow in Hollywood
there is no rain in California
I have been to lots of parties
and acted perfectly disgraceful
but I never actually collapsed
oh Lana Turner we love you get up

1962

Lana Turner 1Para os menos familiarizados com o cinema clássico de Hollywood, Lana Turner (1921-1995) foi uma das mais famosas louras platinadas produzidas pelo cinema e arquétipo da mulher fatal ao protagonizar o filme O carteiro toca sempre duas vezes (1946) (foto de abertura). Noutro registo, o do melodrama, foi a vedeta de Imitação da vida (1959), verdadeira máquina de fazer chorar, para os não apreciadores.
Por outro lado, para os adolescestes amantes do filme de aventuras, Lana Turner foi a terrível Milady de Winter na história de Os Três Mosqueteiros filmado em 1948 por George Sidney (1916-2002), com o inesquecível D’Artagnan de Gene Kelly (1912-1996) e a sua dança nas lutas de espada.

The Three Musketeers (1948)

Um soneto de João Baptista de Lara — Albano Ulisiponence na Nova Arcádia

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Karl Schmidt-Rottluff 09

Cansado pensamento, em paz me deixa / Respirar um momento sossegado

Não perturbes meu sono desejado / Mostrando-me um rival afortunado

A fadiga mental que o desgosto de amor provoca, tem neste soneto do final do século XVIII o recorte poético que quase a torna apetecida, tal a suavidade do verso para dela dar conta, a que se acrescenta o pedido de um sono sem sonhos com o rival que o substituiu.

Quando o frouxo Morfeu meus olhos fecha / Não perturbes meu sono desejado / Mostrando-me um rival afortunado

O soneto foi escrito por João Baptista de Lara (1764-1828), Albano Ulisiponence na Academia de Belas Letras de Lisboa, também conhecida por Nova Arcádia onde pontificou Bocage, e merece saltar do pó do esquecimento. Possui o número 26 no Almanak das Musas Parte I, publicado em 1793. Deixo-vos com o soneto em ortografia modernizada.

Soneto

Cansado pensamento, em paz me deixa
Respirar um momento sossegado
Assaz é tempo enfim que um desgraçado
Ponha termo ao seu pranto, à sua queixa.

Quando o frouxo Morfeu meus olhos fecha
Não perturbes meu sono desejado
Mostrando-me um rival afortunado
Que as armas contra mim, cruel desfecha.

Não sejas tu também meu inimigo,
Se é possível, permite que eu ignore
Ou me esqueça uma vez do meu perigo.

Mas aí de mim! Por mais que ao céu implore
O céu me nega em ti um doce abrigo
E faz que eu sem cessar suspire e chore.

João Baptista de Lara

A imagem que abre o artigo mostra uma pintura do alemão Karl Schmidt-Rottluf (1884-1976).

Sopa da pedra – a lenda recontada por Júlio César Machado

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Aertsen_Pieter-Market_Woman_with_Vegetable_Stall

Por um mecanismo informático cujo segredo estará ao alcance de poucos, o Facebook insiste em mostrar-me, na minha qualidade de administrador da página viciodapoesia, páginas dedicadas à culinária moderna, com o pretexto de que têm, o que chamam, um desempenho igual à minha.
Não é coisa que me preocupe ou incomode, e sobretudo trouxe-me a ideia de mostrar aos leitores do vicio da poesia não culinária moderna, mas a antiquíssima sopa da pedra ou sopa de pedra.
A sopa da pedra é, para quem não sabe, uma sopa de sustancia, com hortaliças e carne, tradicional da culinária portuguesa, sobretudo no Ribatejo, e em Almeirim em particular, onde a pedra é de lei; e presença literária num dos contos tradicionais portugueses.
Esta sopa da pedra terá sido expediente de um frade mendicante para obter alimento junto dos mais renitentes, tal como a tradição a conta. A lenda mereceu a Júlio César Machado (1835-1890) um ligeiro reenquadramento, voltando a contá-la num dos seus livros de prosas avulsas.
A graça e frescura do estilo com que esta arqui-conhecida estória está contada, leva-me à sua transcrição, em ortografia modernizada.

Sopa de pedra por Júlio César Machado

Foram dois rapazes, da tropa, dois pobres moços, dois tristes soldados, aboletados para casa de um grande somítico, em Peniche.
Apressou-se logo em lhes ir dizendo o homem:
—Ó filhos, vocemecês vêem para cá! Ora, que ideia! Não lhes posso dar senão água e lume.
—Água e quê?
—E lume.
—Já não é mau.
—Está visto, que não é mau. Mas advirto-os desde já, para saberem a tempo com o que podem
contar, e não me azoinarem depois com pedidos…
—Diz bem.
—Tenho razão ou não tenho?
—Tem, tem razão.
—Cada um dá o que pode.
—Está bem de ver!
—Não é assim!?
—É.
—Pois aí está. Água e lume têm vocês aqui. O mais arranjem-o.
—Sim, senhor
—Estamos entendidos.

Puseram água ao lume. Depois, disse um para o outro:
—Ó Rufino, vai buscar a coisa, hein?
—A água já ferve ?
—Não, mas para haver tempo de se lavar.
—Ah ! Isso, sim. E para o dono da casa:
—Com licença!
—Você vai sair?
—É um instante. Faz favor de não fechar a porta.
—Não fechar a porta! Deus me livre disso! A porta quer-se sempre fechada.
—Vou ali buscar uma coisa, e já volto.
Dali a nada voltou com uma pedra.
—Vá, disse-lhe o outro; lava-a, que a água já principia a ferver.
O soldado lavou a pedra muito bem lavada, em três águas, como se faz ao arroz, depois escorreu-a, limpou-a, e meteu-a na panela.
O somítico estava pasmado. E mais pasmado ficou, quando os viu deitarem sal na panela e provarem.
—Que tal está? perguntou um dos aboletados.
—Não está má.
—Não o deve estar, porque a pedra parece boa.
—Ah! Isso é ela. De boa qualidade.
—Precisa ferver.
—É o que precisa. E se tivesse uma hortaliça qualquer, uma cabecinha de nabo, umas cenouras, estava obra
—Homens, lá por isso não seja a dúvida! Ponderou o dono da casa. Tomem vocês lá duas cenouras, e duas cabeças de nabo, e mesmo também a rama, se querem.
—Pois venha lá isso.
Meteram os vegetais para dentro da panela.
Daí a bocado provaram.
—Que tal vai?
—Vai bem. Está mesmo boa. Por mais um nadinha, ficaria óptima!
—Que nadinha é? perguntou o avarento.
—Um bocadinho de toucinho, ou banha de porco … respondeu um dos soldados.
—Pois, tire lá: mas, hão de dar-me a provar, porque tenho curiosidade de vêr o que sai daí.
—Sai uma sopa só fina!
—Mas, isso, é sopa de pedra?
—É sim, senhor. Também se faz de seixos. Mas, esta, é mais corda.
—E a primeira vez que tal vejo!
—Há-de gostar.
Foi-se o soldado ao toucinho, cortou-lhe um naco, deitou-o no caldo da hortaliça e deixou ferver.
—Cheira, cheira, isso já.
—E bem
—Cheira bem, cheira bem.
—Ora! pois é pitéu. E então em levando um anexim, que lhe falta, é de uma pessoa lamber o prato…
—O que é que falta?
—Um pedacinho de chouriço, ou mesmo linguiça. Isso então fica maravilha!
—Homem, disse o somítico, lá por causa de um apêndice tão fácil de achar á mão, não deixe essa extraordinária comida de chegar a ser o que se diga perfeita …
Juntou-se-lhe o chouriço.
Coseu, coseu…
Deitava um cheiro …
—Ó senhores, que cheiro! disse o unhas de fome.
—Cheira muito bem, meu senhor, e melhor há-de saber! redarguiu um dos aboletados.
E o outro aboletado:
—Está pronta. Está na conta própria. Agora, em querendo, vamos a ela… Isto com pão, é melhor ainda, se é possível; mas, mesmo sem pão é boa!
O somitico foi buscar um pão.
—Vamos já a isto… Estou com vontade de saborear essa historia…
—Esta historia é mais bonita que a da carochinha, e com isto se diz tudo! Ora, muito bem . .
Uma vez partido o pão à mão …
—Sim! ponderou o outro soldado. Isso é que é de preceito para este caso. Há-de ser por força à mão…
—Sim, sim … Pois seja à mão.
—Mas por força.
—Acredito! basta vocês dizerem!
—Agora despeja-se-lhe o caldo em cima, guardando de reserva o pão suficiente para machucar no toucinho, acompanhado com as ervas… Que tal?! Boa?
—Está óptima! exclamava o homem. Eslá excelente. Vocês são o diabo! Não à gente como são os soldados, para estas coisas! Como vocês fazem sopa de um pedregulho, e fica uma delícia por esta maneira! Não se acredita! Parece bruxaria!
—E para vocemecê vêr
—Cá me fica!…

Bom apetite!

Elogio de Innocencio

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Carl Spitzweg BookwormA1cropedSabem todos quantos por uma vez procuraram uma informação ou minudência sobre a edição portuguesa em livro anterior a 1850, quanto o Dicionário Bibliografico organizado por Innocencio Francisco da Silva (1810-1876) se revelou precioso. Obra ímpar pelo rigor da informação coligida, acrescenta-se dos frequentes e saborosos comentários do seu autor a propósito de pequenos nadas que ele trata com a importância de relevantes factos. Mas são precisamente estas irrelevâncias que muitas vezes fazem dele auxiliar precioso e insubstituível.
Aconteceu-me comprar certo livro antigo, descapado, sem folha de rosto e sem qualquer possibilidade de identificação imediata do seu autor. Era um livro de poesia, talvez do virar do século XVIII para o XIX, isto tanto pelo estilo e assunto dos poemas como pela qualidade do papel e tipo da impressão.. As notas levaram-me a avançar um pouco no tempo e situar o seu autor entre os emigrados em Inglaterra durante o miguelismo, onde se incluiu o jovem Alexandre Herculano. Neste grupo, além de Herculano e Garrett não sabia de outros poetas.
Enquadrado o livro no tempo, percorri o Innocencio, como é carinhosamente conhecido entre bibliófilos e livreiros, e graças à descrição do conteúdo do índice, número de páginas e seu formato, consegui identificar o livro, o seu autor, e o ano de publicação. Tratava-se de Obras Poéticas de Francisco Evaristo Leoni (1804-1874), obra e autor que um destes dias virá ao blog.
Sem as preciosas minudências que Inocêncio acumulou e me fizeram saltar de autor para autor, excluindo-os, nunca tal livro seria identificado. Outras têm sido as ocasiões, embora de forma menos espectacular, em que a consulta do dicionário tem sido preciosa.
Mesmo entre os utilizadores do Dicionário Bibliográfico poucos saberão quem foi o homem. Lembra-lo é um gosto e um acto de justiça mínimo, tanto mais quanto parece ter sido um homem integro com a vida entregue à paixão dos livros.
Esta paixão, como ainda hoje acontece, gera bizarrias de comportamento quais o que certa tarde em Lisboa aconteceu, e Júlio César Machado (1835-1890) narra com alguma graça.
Ora leiam:

De uma ocasião, cavaqueando o Innocencio e o Meréllo, na loja do livreiro Rodrigues, da rua do Crucifixo, farejaram um livro de valia cuidando, qualquer dos dois, que o outro não houvesse dado por ele.
Principiaram então, como que ao desafio, em espertezas, procurando mutuamente afastar o competidor do lugar da maravilha.
Já um chamava o outro para a porta, e lhe narrava não sei que historia em grandes ares de confidência; já o outro consultava o relógio e lhe dizia a hora, adiantando-a, ao passo que lhe perguntava qual fosse a sua hora de jantar. . .
Nem o Meréllo nem o Innocencio arredavam um passo da baiúca do livreiro, recinto encantado da ambicionada jóia. Nisto, não se atrevendo um nem o outro a desampararem a caça, nem, tão pouco, a separarem-se, saíram juntos.
Innocencio, morava nesse tempo, ao Rato, na rua de S. Filippe Nery; o Meréllo, como que deleitando-se com a sua conversação, foi indo até lá.
Uma vez chegados, disse-lhe o autor do Diccionario Bibliographico:
—Você onde vai?
O Meréllo, titubeando, denunciou, porventura, na sua hesitação, o designio que guardava em seu ânimo, chi lo sá?! Respondeu conforme pôde:
—Eu agora . . . estou capaz de ir . . . tenho por força de ir agora. . .
—Para cima?
—Não; ali, para aquele lado. . .
Innocencio fixava-o no branco dos olhos.
—A Santa Isabel!!! accrescentou Meréllo, que, com o ganhar tempo, cobrara ânimo, e revigorara o seu espírito. Vou a Santa Isabel, e adeus, que não me posso demorar!!!
—Então, adeus! disse-lhe o Innocencio. E obrigado pela companhia.
Meréllo, em passinho de pulga, cortou para a direita, pelo largo do Rato fora, e sumiu-se detrás da esquina.
Dois olhos, porém, o acompanhavam, vigiando-o, sem falarmos nos da providência, que, talvez, naquela hora o não seguissem com tanto desvelo. . .
Eram os olhos do Innocencio, que, logo depois de fechar a porta da rua, de novo a abrira, de mansinho, encostando-a habilmente por maneira que pudesse ver sem ser visto.
Espreitado o Meréllo no rápido ápice de dobrar a esquina, aí foi logo, de corrida, de voada, o Innocencio, encostar-se meio escondido, na diligência de observar, se, efectivamente, o Meréllo seguia pela rua do Sol, a fim de cortar depois á esquerda para Santa Isabel.
Mas,—oh! confirmação da suspeita!—o Meréllo virou pela rua de S. Bento, e, deste modo, revelou a engenhosa estratégia com que estivera a ponto de levar de vencida o seu competidor.
Innocencio Francisco da Silva não pensou uma, não pensou duas, nem três vezes, e, voltando a meter-se na rua da Escola Politécnica, desceu pressuroso, aos encontrões a quem ia e vinha; ele, para o passeio; ele, para o meio da rua; zás, pás; de salto, pulo, e gangão; respirando apenas; apertando o fígado, abalado pela fúria da correria; até que, catrapuz, caía de chofre na loja do livreiro, onde, em caso imediato, se embrulhava com um vulto, que, também de repelão e de tombo súbito, penetrava ali. . . Era o Meréllo!
O Meréllo, que, suspeitoso e inquieto pelas perguntas do Innocencio, correra ao livreiro, e alcançara, pela rua de S. Bento, Calhariz e Chiado, chegar ao Pote das Almas ao mesmo tempo que o seu rival ilustre, por S. Pedro de Alcântara e S. Roque: em passo vertiginoso, de bibliófilos, ambos eles; o incomparável passo, que fez sempre a inveja do Bargossi! o andarilho Bargossi!
Com razão se diz serem mudas as dores supremas. No meio do reboliço que houve naquela loja, quando os dois alfarrabistas se atropelaram ao entrar ali, qual deles com maior ânsia, foi o Meréllo o primeiro a conseguir deitar a mão ao livro.
O Innocencio, que tinha uma tremenda língua de palmo e meio, terror do próximo, meteu-a no bucho, e, engolindo em seco, viu o outro arrecadar o livro no bolso do peito, abotoar-se à mesm’alma, pagar o livro ao Rodrigues, e sair, ficando quedo e mudo, como se, aquele caso formidando, estivesse a ponto de entupir-lhe por uma vez a fala.

Os leitores conhecedores da topografia de Lisboa, e uma vez que as ruas conservam o mesmo nome, podem, ao ler o texto, reconstruir o percurso dos dois ávidos bibliófilos.

Termino com um fragmento do perfil biográfico de Inoccencio Francisco da Silva traçado por A. A. Teixeira de Vasconcellos (1816-1878) na Revista Contemporânea de Portugal e Brasil.

O sr. Innocencio Francisco da Silva, nasceu em Lisboa a 28 de Setembro de 1810. Seu pai, comerciante pouco abastado e oficial de ordenanças, foi o mestre que lhe deu as primeiras noções do saber humano…
Desde 1825 até 1830 estudou desenho, humanidades, lingua francesa, e frequentou durante dois anos o curso da aula do comércio, intercalando estes trabalhos com leituras dos principais filósofos do século passado.
De 1830 a 1833 seguiu o curso matemático da Academia Real de Marinha. No primeiro e no segundo ano obteve prémios. No terceiro em que não os havia mereceu distinção honrosa.
Nessa época entrara em Lisboa o duque da Terceira, vitorioso das tropas realistas, e principiara a organizar a guarnição que devia defender dos inimigos ainda numerosos, tão preciosa conquista. O sr. Innocencio assentou praça no 4.° Batalhão Movel, no qual serviu de oficial inferior com satisfação e louvor dos seus chefes.
Seu pai, cuja fortuna diminuira ainda antes de 1830, estava então velho, cego e paralítico. Os encargos da familia pesavam todos sobre o jovem voluntário liberal, cuja inteligência, instrucção e ânimo determinado, o habilitavam a cumpri-los todos. Aproveitando os estudos anteriores dedicou-se a leccionar estudantes da Academia de Marinha e da Aula de Comercio, c neste exercicio obteve excelentes créditos desde 1834 até 1837. De certo não eram menores os que tinha como cidadão, pois que os seus camaradas da Guarda Nacional, por esse tempo o elegeram capitão.
Obteve então um amigo que o administrador geral de Lisboa convidasse o sr. Innocencio para ser amanuense extraordinário ou temporário da sua secretaria, com vencimento de dez tostões nos dias úteis. Nesta colocação se conservou até 1842, em que o despacharam amanuense de segunda classe, vindo só a alcançar em 1851 acesso à primeira. Nos vinte e cinco anos que tem passado no governo civil a escrever mais de vinte e seis mil cartas e ofícios, soube o sr. Innocencio adquirir e conservar o conceito dos chefes, e merecer-lhes louvores, assim pelo serviço feito na repartição de fazenda, onde esteve até 1848, como pelo que prestou na repartição da policia, segurança e salubridade publica, a que hoje pertence. Há pouco foi-lhe conferida a graduação de oficial, porém sem accesso.
Durante muitos anos foi o sr. Innocencio preparando os materiais para a sua obra, manuseando larga cópia de livros, adquirindo grande porção deles, estudando os modelos bibliográficos, investigando as questões e dúvidas que a cada passo lhe surgiam, e lutando com difficuldades que teriam desanimado qualquer espirito menos vigoroso e persistente.
Em Outubro de 1858, saiu á luz da Imprensa Nacional, a expensas do governo português, o primeiro volume do Diccionario Bibliographico, e já a esse tempo a Academia Real das Sciencias, escolhera o autor para seu sócio correspondente.
O instituto de Coimbra, o Instituto Historico e Geographico do Brasil, e não sei quantas outras sociedades literárias abriram espontaneamente as suas portas ao ilustre bibliógrafo
português, e há poucos dias a Academia Real das Sciencias resolveu chamá-lo ao grêmio dos seus sócios efectivos, onde o conceito público o julgava desde muito tempo colocado.

Lisboa, 17 de Maio de 1862
A. A. Teixeira de Vasconcellos.

A imagem de abertura mostra uma pintura famosa de Carl Spitzweg (1808-1885).

Encerro o artigo com o retrato do homem em gravura a ponta de aço.

Innocencio Francisco da Silva - Perfil

Torga em três poemas de despedida

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O mundo a cores XX

Há por toda a obra de Miguel Torga (1907-1995) uma lucidez que dói e ensina. Nos últimos poemas que publicou (Diário XVI) esta lucidez ganha uma dimensão sobre-humana nas reflexões poéticas com a vida em fundo e o fim que se avizinha. São poemas de despedida de quem ao partir conserva a dignidade que distingue os homens e os faz merecedores de terem vivido. Escolho três.

Solidão

Pouco a pouco, vamos ficando sós,
Esquecidos ou lembrados
Como nomes de ruas secundárias
Que a custo recordamos
Para subscritar
A urgência de um beijo epistolar
Ainda inutilmente apetecido.
Mortos sem ter morrido,
Lúcidos defuntos,
Vemos a vida pertencer aos outros.
E descobrimos, na maneira deles,
Que nada somos
Para além do seu dissimulado
Enfado
Paciente.
E que lá fora, diariamente,
Conforme arde no céu,
O sol aquece
Ou arrefece
Os versáteis e alheios sentimentos.
E que fomos riscados
No rol da humanidade
A que já não pertencemos
De maneira nenhuma.
E que tudo o que em nós era claridade
Se transformou em bruma.

Coimbra 20 de Julho de 1992

 

Termo

Pára, imaginação!
Não há mais aventura, nem poesia.
A hora é de finados,
Com versos apagados
Na lareira onde a fogueira ardia.

Pára, é a lei.
Agora é só cansaço desiludido
E memória teimosa que entristece
O nada que acontece
E o muito acontecido.

Pára, porque findou
O tempo intemporal
Do amor e da graça concedida
A quem nele, no seu barro original,
Modela a própria vida.

Coimbra, 3 de Novembro de 1993

 

Requiem por Mim

Aproxima-se o fim.
E tenho pena de acabar assim,
Em vez de natureza consumada,
Ruína humana.
Inválido do corpo
E tolhido da alma.
Morto em todos os órgãos e sentidos.
Longo foi o caminho e desmedidos
Os sonhos que dele tive.
Mas ninguém vive
Contra as leis do destino.
E o destino não quis
Que eu me cumprisse como porfiei,
E caísse de pé, num desafio.
Rio feliz a ir de encontro ao mar
Desaguar,
E, em largo oceano, eternizar
O seu esplendor torrencial de rio.

Coimbra, 10 de Dezembro de 1993

 

Este foi o último poema publicado por Miguel Torga.

A foto foi feita por mim há alguns anos num centro comercial em Lisboa.

Dia mundial da poesia em 2014

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Gentio CaripúnaUns por distracção, outros por descuido, alguns por opção, há gente que mantém a poesia fora da vida. Não sabem o que perdem.

É para esses que a poesia é lembrada em dia certo de calendário, o que acontece hoje. Para os outros, aqueles a quem a poesia embrulha a vida, será uma efeméride um pouco sem sentido: escolher apenas um dia por ano celebrar a poesia…

 

Façamos o gosto ao mundo dando conta de como a poesia é universal e comum ao género humano, com dois poema dos Índios da Amazónia mudados para português por Herberto Hélder.

 

 

Beijo

 

Beijei-te a palma da mão,

tinha o cheiro a melão-de-água.

Beijei-te a palma da mão,

e os rins ficaram-me em fogo.

 

Lamento amoroso

 

Não quero mulher que tenha

muito delgadas as pernas,

Como venenosas serpes,

de medo que elas me apertem.

 

Não quero mulher que tenha

muito comprido o cabelo,

um molho de ervas espesso

onde acaso eu me perca.

 

Quando sem vida me veres,

sobre o meu corpo não chores:

deixa que a águia ao ver-me

seja a única que me chore.

 

Quando sem vida me veres,

deita-me à floresta negra:

o tatu há-de vir ver

a cova onde meter-me.

 

Poemas publicados em Poemas Ameríndios, poemas mudados para português por Herberto Helder, Assírio & Alvim, Lisboa, 1997.

O jovem representado a abrir esta celebração anual, foi desenhado por anónimo quando da Viagem Filisófica ao Amazonas efectuada por Alexandre Rodrigues Ferreira em 1783-1792, e seria o que lhe chamaram Gentio Caripúna vivendo nas cachoeiras de cima do Rio da Madeira. Não tenho dificuldade em imaginar que partilharia os sentimentos expressos nos poemas transcritos, e vindos daquelas regiões.

Mais Jorge de Sena — hoje LISBOA 1971

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Maus tempos 600pxContinuo com a poesia de Jorge de Sena (1919-1978), agora com um certo “ser lisboeta” em Lisboa 1971. O poema traça uma pintura que infelizmente parece ser intemporal, pois não será difícil reconhecer nele o hoje, afora as páginas literárias que não existem, substanciado na fala do taxista que o poema incorporada, e o poeta comenta.

 

O poema foi publicado no livro EXORCISMOS de 1972, e nele, a abrir, o poeta avisa:

AVISO DE PORTA DE LIVRARIA

Não leiam delicados este livro,

sobretudo os heróis do palavrão doméstico,

as ninfas machas, as vestais do puro,

os que andam aos pulinhos num pé só,

com as duas castas mãos uma atrás e outra adiante,

enquanto com a terceira vão tapando a boca

dos que andam com dois pés sem medo das palavras.

 

E quem de amor não sabe fuja dele:

qualquer amor desde o da carne àquele

que só de si se move, não movido

de prémio vil, mas alto e quase eterno.

De amor e de poesia e de ter pátria

aqui se trata: que a ralé não passe

este limiar sagrado e não se atreva

a encher de ratos este espaço livre

onde se morre em dignidade humana

a dor de haver nascido em Portugal

sem mais remédio que trazê-lo n’alma.

25/1/1972

O que de Amor o livro trata, virá depois. Agora deixo-vos com

LISBOA 1971

O chofer de taxi queixava-se da vida.

Ganha 400$00 por semana, o patrão conta

que ele se arranje do a mais com as gorjetas.

 

Os meus amigos morrem de cancro,

de tédio, de páginas literárias,

vi um rapaz sem as duas mãos que perdeu

na guerra (e o ortopedista ria-se de que ele

só queria por enquanto “calçar” uma das

que, artificiais, lhe preparou tão róseas).

As pessoas esperam com raiva surda e muita paciência

o autocarro, aumento de ordenado, a chegada

do Paracleto, bolsas da sopa do convento.

Mas o chofer de taxi contou-me que

discutira com um asno e lhe dissera:

“… V. que nesse tempo ainda andava a fugir

de colhão para colhão do seu pai

para ver se escapava a ser filho da puta…”

E é isto: andam de colhão para colhão

a ver se escapam — e muitos não escapam.

E os outros não escapam aos que não escaparam.

Lisboa, 5/8/1971

Poemas transcritos de Poesia III, 2ªedição, Edições 70, Lisboa, 1989.

Shakespeare — soneto 28 em traduções de Carlos de Oliveira e Vasco Graça Moura

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Fragonard,_Inspiration 1769Há um sofrimento de amor na distância do(a) amado(a) que ao rescrever o soneto 28 de Shakespeare (1564-1616), Carlos de Oliveira (1921-1981) torna explícito. Não assim a versão de Vasco Graça Moura (1942) que, ao procurar respeitar a rima e utilizar um preciosismo de linguagem de sabor antigo, conserva a ambiguidade que o original também autoriza.

 

Eis as duas versões seguidas do original.

 

 

Soneto 28 reescrito por Carlos de Oliveira

 

Como voltar feliz ao meu trabalho

se a noite não me deu nenhum sossego?

A noite, o dia, cartas dum baralho

sempre trocadas neste jogo cego.

Eles dois, inimigos de mãos dadas,

me torturam, envolvem no seu cerco

de fadiga, de dúbias madrugadas:

e tu, quanto mais sofro mais te perco.

Digo ao dia que brilhas para ele,

Que desfazes as nuvens do seu rosto;

digo à noite sem estrelas que és o mel

na sua pele escura: o oiro, o gosto.

  Mas dia a dia alonga-se a jornada

  e cada noite a noite é mais fechada.

 

Transcrito de Obras de Carlos de Oliveira, Editorial Caminho, Lisboa, 1992.

 

Soneto 28 em versão de Vasco Graça Moura

 

Posso voltar à leda condição

sem ter descanso ao menos que me anime?

O dia oprime e vir a noite é vão,

a noite ao dia, o dia à noite oprime,

reinos adversos que em consentimento

se dão as mãos a torturar-me-me e basta,

um por fadiga, o outro por lamento

de mais penar que mais de ti me afasta.

Que és claro digo ao dia a ver se agrado,

que lhe dás graça indo as nuvens altas,

e à noite lisonjeio o turvo estado,

que a não haver estrelas tu a esmaltas.

  Longas penas diárias traz-me o dia,

  maior pena noturna a noite cria.

 

Transcrito de Os Sonetos de Shakespeare versão integral, Desenhos de Jorge Martins, Bretrand Editora, Lisboa, 2007.

 

SONNET 28

 

How can I then return in happy plight,

That am debarred the benefit of rest?

When day’s oppression is not eased by night,

But day by night and night by day oppressed?

And each (though enemies to either’s reign)

Do in consent shake hands to torture me,

The one by toil, the other to complain

How far I toil, still farther off from thee.

I tell the day to please him thou art bright,

And dost him grace when clouds do blot the heaven;

So flatter I the swart-complexioned night,

When sparkling stars twire not thou gild’st the even.

  But day doth daily draw my sorrows longer,

  And night doth nightly make grief’s length seem stronger.

 

Transcrito de Complete Sonnets and Poems, edited by Colin Burrow, Oxford University Press, 2002.

 

Acompanha o artigo a imagem de uma pintura de Jean-Honoré Fragonard (1732-1806) — Inspiração.

Amor e desejo em três poemas de Jorge de Sena

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Matisse-Ronsard 08A600pxAgora que regressa às livrarias a Obra Poética de Jorge de Sena (1919-1978) (ainda que apenas a poesia reunida em livro pelo poeta em vida) tão escandalosamente ausente delas há mais e 20 anos, abro o apetite a novos leitores com dois poemas onde o amor se cumpre no corpo da amada:

… cristalino pó de amantes enlaçado.

Conheço o sal…”

Conheço o sal da tua pele seca

depois que o estio se volveu inverno

da carne repousada em suor nocturno.

 

Conheço o sal do leite que bebemos

quando das bocas se estreitavam lábios

e o coração no sexo palpitava.

 

Conheço o sal dos teus cabelos negros

ou louros ou cinzentos que se enrolam

neste dormir de brilhos azulados.

 

Conheço o sal que resta em minhas mãos

como nas praias o perfume fica

quando a maré desceu e se retrai.

 

Conheço o sal da tua boca, o sal

da tua língua, o sal dos teus mamilos,

e o da cintura se encurvando em ancas.

 

A todo o sal conheço que é só teu,

ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,

um cristalino pó de amantes enlaçados.

Madrid, 16/1/1973

“Tu és a terra…”

Tu és a terra em que pouso.

Macia, suave, terna, e dura o quanto baste

a que teus braços como tua pernas

tenham de amor a força que me abraça.

 

És também pedra qual a terra às vezes

contra que nas arestas me lacero e firo,

mas de musgo coberta refrescando

as próprias chagas de existir contigo.

 

E sombra de árvores, e flores e frutos,

rendidos a meu gesto e meu sabor.

E uma água cristalina e murmurante

que me segreda só de amor no mundo.

 

És a terra em que pouso. Não paisagem,

não Madre Terra nem raptada ninfa

de bosques e montanhas. Terra humana

em que me pouso inteiro e para sempre.

Londres, 15/3/1973

Concluo com o relato de um daqueles intensos desejos que uma desconhecida pode desencadear no sem que fazer de uma viagem solitária, onde o inesperado é sempre um sonho escondido.

 Compartimento de comboio 1938

No comboio de Edimburgo a Londres

Que coisas se fariam — tão de seios

redonda e esbelta aqui sentada e loira

e lendo um livro idiota à minha frente!

As pernas que se juntam quanto abri-las

a duras mãos com dedos titilantes

para depois se unirem apertando

em úmidas paredes o que se entesa vendo-a…

Poemas publicados originalmente no livro Conheço o sal… e outros poemas (1974), transcritos de Poesia III, 2ª edição, Edições 70, Lisboa, 1989.

 

Abre o artigo um desenho de Matisse (1859-1964) para um livro de poemas de Ronsard, Les amours de Ronsard, escolha e ilustração do mestre, e das mais belas obras que a biblioteca contem.

Fecha com uma pintura de Edward Hopper (1882-1967) de 1938.

Esperança segundo Czeslaw Milosz

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EsperançaHá quem diga que os olhos nos iludem

E que nada existe, apenas aparenta,

Mas justamente esses não têm esperança.

Foge à reflexão filosófica o conceito de esperança: de que forma organizamos em nós o mundo e como nesse estar entra a Esperança. Não é sentimento, não é crença; fará talvez parte da força vital que todos os dias nos leva a levantar cabeça, e quando desaparece, o fim bateu-nos à porta.

De forma admirável, como só a poesia por vezes consegue, Czeslaw Milosz (1911-2004), num poema do tempo da segunda guerra mundial dá-nos uma chave possível:

 

Esperança surge, quando se acredita / Que a Terra não é um sonho,…

 

Na versão inglesa feita pelo autor, a abertura do poema acima transcrita escreve-se assim:

 

Hope is with you when you believe / The earth is not a dream…

 

O poema publicado no livro “Ocalenic” (Salvação), 1945, integra um conjunto de vinte poemas sub-titulado O Mundo. Antecede-o o poema Fé e segue-se-lhe o poema Amor, para os quais não encontrei tradução portuguesa. Se resultar a minha tentativa de os verter em português aqui aparecerão. Por agora, com Esperança vos deixo.

 

 

Esperança

 

Esperança surge, quando se acredita

Que a Terra não é um sonho, mas um corpo vivo,

Que não mentem o ouvido, o tacto, a visão

E que todas as coisas que aqui conhecias

São como um jardim visto do portão.

 

Entrar lá não se pode. Mas ele existe com rigor.

Se melhor olhássemos e com mais sabedoria,

No jardim do mundo uma nova flor

E mais do que uma estrela se avistaria.

Há quem diga que os olhos nos iludem

E que nada existe, apenas aparenta,

Mas justamente esses não têm esperança.

Pensar que ao virar as costas

O mundo desaparecerá de repente

Como que roubado por um delinquente.

 

inOcalenic” (Salvação), 1945

 

Tradução de Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves, publicada em Alguns gostam de poesia, Antologia, Czeslaw Milosz e Wislawa Szymborska, Cavalo de Ferro Editores, Lisboa, 2004.

 

A foto foi feita por mim, há alguns anos, nesta cidade de Lisboa.