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Maus tempos 600pxContinuo com a poesia de Jorge de Sena (1919-1978), agora com um certo “ser lisboeta” em Lisboa 1971. O poema traça uma pintura que infelizmente parece ser intemporal, pois não será difícil reconhecer nele o hoje, afora as páginas literárias que não existem, substanciado na fala do taxista que o poema incorporada, e o poeta comenta.

 

O poema foi publicado no livro EXORCISMOS de 1972, e nele, a abrir, o poeta avisa:

AVISO DE PORTA DE LIVRARIA

Não leiam delicados este livro,

sobretudo os heróis do palavrão doméstico,

as ninfas machas, as vestais do puro,

os que andam aos pulinhos num pé só,

com as duas castas mãos uma atrás e outra adiante,

enquanto com a terceira vão tapando a boca

dos que andam com dois pés sem medo das palavras.

 

E quem de amor não sabe fuja dele:

qualquer amor desde o da carne àquele

que só de si se move, não movido

de prémio vil, mas alto e quase eterno.

De amor e de poesia e de ter pátria

aqui se trata: que a ralé não passe

este limiar sagrado e não se atreva

a encher de ratos este espaço livre

onde se morre em dignidade humana

a dor de haver nascido em Portugal

sem mais remédio que trazê-lo n’alma.

25/1/1972

O que de Amor o livro trata, virá depois. Agora deixo-vos com

LISBOA 1971

O chofer de taxi queixava-se da vida.

Ganha 400$00 por semana, o patrão conta

que ele se arranje do a mais com as gorjetas.

 

Os meus amigos morrem de cancro,

de tédio, de páginas literárias,

vi um rapaz sem as duas mãos que perdeu

na guerra (e o ortopedista ria-se de que ele

só queria por enquanto “calçar” uma das

que, artificiais, lhe preparou tão róseas).

As pessoas esperam com raiva surda e muita paciência

o autocarro, aumento de ordenado, a chegada

do Paracleto, bolsas da sopa do convento.

Mas o chofer de taxi contou-me que

discutira com um asno e lhe dissera:

“… V. que nesse tempo ainda andava a fugir

de colhão para colhão do seu pai

para ver se escapava a ser filho da puta…”

E é isto: andam de colhão para colhão

a ver se escapam — e muitos não escapam.

E os outros não escapam aos que não escaparam.

Lisboa, 5/8/1971

Poemas transcritos de Poesia III, 2ªedição, Edições 70, Lisboa, 1989.

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