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Por um mecanismo informático cujo segredo estará ao alcance de poucos, o Facebook insiste em mostrar-me, na minha qualidade de administrador da página viciodapoesia, páginas dedicadas à culinária moderna, com o pretexto de que têm, o que chamam, um desempenho igual à minha.
Não é coisa que me preocupe ou incomode, e sobretudo trouxe-me a ideia de mostrar aos leitores do vicio da poesia não culinária moderna, mas a antiquíssima sopa da pedra ou sopa de pedra.
A sopa da pedra é, para quem não sabe, uma sopa de sustancia, com hortaliças e carne, tradicional da culinária portuguesa, sobretudo no Ribatejo, e em Almeirim em particular, onde a pedra é de lei; e presença literária num dos contos tradicionais portugueses.
Esta sopa da pedra terá sido expediente de um frade mendicante para obter alimento junto dos mais renitentes, tal como a tradição a conta. A lenda mereceu a Júlio César Machado (1835-1890) um ligeiro reenquadramento, voltando a contá-la num dos seus livros de prosas avulsas.
A graça e frescura do estilo com que esta arqui-conhecida estória está contada, leva-me à sua transcrição, em ortografia modernizada.

Sopa de pedra por Júlio César Machado

Foram dois rapazes, da tropa, dois pobres moços, dois tristes soldados, aboletados para casa de um grande somítico, em Peniche.
Apressou-se logo em lhes ir dizendo o homem:
—Ó filhos, vocemecês vêem para cá! Ora, que ideia! Não lhes posso dar senão água e lume.
—Água e quê?
—E lume.
—Já não é mau.
—Está visto, que não é mau. Mas advirto-os desde já, para saberem a tempo com o que podem
contar, e não me azoinarem depois com pedidos…
—Diz bem.
—Tenho razão ou não tenho?
—Tem, tem razão.
—Cada um dá o que pode.
—Está bem de ver!
—Não é assim!?
—É.
—Pois aí está. Água e lume têm vocês aqui. O mais arranjem-o.
—Sim, senhor
—Estamos entendidos.

Puseram água ao lume. Depois, disse um para o outro:
—Ó Rufino, vai buscar a coisa, hein?
—A água já ferve ?
—Não, mas para haver tempo de se lavar.
—Ah ! Isso, sim. E para o dono da casa:
—Com licença!
—Você vai sair?
—É um instante. Faz favor de não fechar a porta.
—Não fechar a porta! Deus me livre disso! A porta quer-se sempre fechada.
—Vou ali buscar uma coisa, e já volto.
Dali a nada voltou com uma pedra.
—Vá, disse-lhe o outro; lava-a, que a água já principia a ferver.
O soldado lavou a pedra muito bem lavada, em três águas, como se faz ao arroz, depois escorreu-a, limpou-a, e meteu-a na panela.
O somítico estava pasmado. E mais pasmado ficou, quando os viu deitarem sal na panela e provarem.
—Que tal está? perguntou um dos aboletados.
—Não está má.
—Não o deve estar, porque a pedra parece boa.
—Ah! Isso é ela. De boa qualidade.
—Precisa ferver.
—É o que precisa. E se tivesse uma hortaliça qualquer, uma cabecinha de nabo, umas cenouras, estava obra
—Homens, lá por isso não seja a dúvida! Ponderou o dono da casa. Tomem vocês lá duas cenouras, e duas cabeças de nabo, e mesmo também a rama, se querem.
—Pois venha lá isso.
Meteram os vegetais para dentro da panela.
Daí a bocado provaram.
—Que tal vai?
—Vai bem. Está mesmo boa. Por mais um nadinha, ficaria óptima!
—Que nadinha é? perguntou o avarento.
—Um bocadinho de toucinho, ou banha de porco … respondeu um dos soldados.
—Pois, tire lá: mas, hão de dar-me a provar, porque tenho curiosidade de vêr o que sai daí.
—Sai uma sopa só fina!
—Mas, isso, é sopa de pedra?
—É sim, senhor. Também se faz de seixos. Mas, esta, é mais corda.
—E a primeira vez que tal vejo!
—Há-de gostar.
Foi-se o soldado ao toucinho, cortou-lhe um naco, deitou-o no caldo da hortaliça e deixou ferver.
—Cheira, cheira, isso já.
—E bem
—Cheira bem, cheira bem.
—Ora! pois é pitéu. E então em levando um anexim, que lhe falta, é de uma pessoa lamber o prato…
—O que é que falta?
—Um pedacinho de chouriço, ou mesmo linguiça. Isso então fica maravilha!
—Homem, disse o somítico, lá por causa de um apêndice tão fácil de achar á mão, não deixe essa extraordinária comida de chegar a ser o que se diga perfeita …
Juntou-se-lhe o chouriço.
Coseu, coseu…
Deitava um cheiro …
—Ó senhores, que cheiro! disse o unhas de fome.
—Cheira muito bem, meu senhor, e melhor há-de saber! redarguiu um dos aboletados.
E o outro aboletado:
—Está pronta. Está na conta própria. Agora, em querendo, vamos a ela… Isto com pão, é melhor ainda, se é possível; mas, mesmo sem pão é boa!
O somitico foi buscar um pão.
—Vamos já a isto… Estou com vontade de saborear essa historia…
—Esta historia é mais bonita que a da carochinha, e com isto se diz tudo! Ora, muito bem . .
Uma vez partido o pão à mão …
—Sim! ponderou o outro soldado. Isso é que é de preceito para este caso. Há-de ser por força à mão…
—Sim, sim … Pois seja à mão.
—Mas por força.
—Acredito! basta vocês dizerem!
—Agora despeja-se-lhe o caldo em cima, guardando de reserva o pão suficiente para machucar no toucinho, acompanhado com as ervas… Que tal?! Boa?
—Está óptima! exclamava o homem. Eslá excelente. Vocês são o diabo! Não à gente como são os soldados, para estas coisas! Como vocês fazem sopa de um pedregulho, e fica uma delícia por esta maneira! Não se acredita! Parece bruxaria!
—E para vocemecê vêr
—Cá me fica!…

Bom apetite!

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