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Carl Spitzweg BookwormA1cropedSabem todos quantos por uma vez procuraram uma informação ou minudência sobre a edição portuguesa em livro anterior a 1850, quanto o Dicionário Bibliografico organizado por Innocencio Francisco da Silva (1810-1876) se revelou precioso. Obra ímpar pelo rigor da informação coligida, acrescenta-se dos frequentes e saborosos comentários do seu autor a propósito de pequenos nadas que ele trata com a importância de relevantes factos. Mas são precisamente estas irrelevâncias que muitas vezes fazem dele auxiliar precioso e insubstituível.
Aconteceu-me comprar certo livro antigo, descapado, sem folha de rosto e sem qualquer possibilidade de identificação imediata do seu autor. Era um livro de poesia, talvez do virar do século XVIII para o XIX, isto tanto pelo estilo e assunto dos poemas como pela qualidade do papel e tipo da impressão.. As notas levaram-me a avançar um pouco no tempo e situar o seu autor entre os emigrados em Inglaterra durante o miguelismo, onde se incluiu o jovem Alexandre Herculano. Neste grupo, além de Herculano e Garrett não sabia de outros poetas.
Enquadrado o livro no tempo, percorri o Innocencio, como é carinhosamente conhecido entre bibliófilos e livreiros, e graças à descrição do conteúdo do índice, número de páginas e seu formato, consegui identificar o livro, o seu autor, e o ano de publicação. Tratava-se de Obras Poéticas de Francisco Evaristo Leoni (1804-1874), obra e autor que um destes dias virá ao blog.
Sem as preciosas minudências que Inocêncio acumulou e me fizeram saltar de autor para autor, excluindo-os, nunca tal livro seria identificado. Outras têm sido as ocasiões, embora de forma menos espectacular, em que a consulta do dicionário tem sido preciosa.
Mesmo entre os utilizadores do Dicionário Bibliográfico poucos saberão quem foi o homem. Lembra-lo é um gosto e um acto de justiça mínimo, tanto mais quanto parece ter sido um homem integro com a vida entregue à paixão dos livros.
Esta paixão, como ainda hoje acontece, gera bizarrias de comportamento quais o que certa tarde em Lisboa aconteceu, e Júlio César Machado (1835-1890) narra com alguma graça.
Ora leiam:

De uma ocasião, cavaqueando o Innocencio e o Meréllo, na loja do livreiro Rodrigues, da rua do Crucifixo, farejaram um livro de valia cuidando, qualquer dos dois, que o outro não houvesse dado por ele.
Principiaram então, como que ao desafio, em espertezas, procurando mutuamente afastar o competidor do lugar da maravilha.
Já um chamava o outro para a porta, e lhe narrava não sei que historia em grandes ares de confidência; já o outro consultava o relógio e lhe dizia a hora, adiantando-a, ao passo que lhe perguntava qual fosse a sua hora de jantar. . .
Nem o Meréllo nem o Innocencio arredavam um passo da baiúca do livreiro, recinto encantado da ambicionada jóia. Nisto, não se atrevendo um nem o outro a desampararem a caça, nem, tão pouco, a separarem-se, saíram juntos.
Innocencio, morava nesse tempo, ao Rato, na rua de S. Filippe Nery; o Meréllo, como que deleitando-se com a sua conversação, foi indo até lá.
Uma vez chegados, disse-lhe o autor do Diccionario Bibliographico:
—Você onde vai?
O Meréllo, titubeando, denunciou, porventura, na sua hesitação, o designio que guardava em seu ânimo, chi lo sá?! Respondeu conforme pôde:
—Eu agora . . . estou capaz de ir . . . tenho por força de ir agora. . .
—Para cima?
—Não; ali, para aquele lado. . .
Innocencio fixava-o no branco dos olhos.
—A Santa Isabel!!! accrescentou Meréllo, que, com o ganhar tempo, cobrara ânimo, e revigorara o seu espírito. Vou a Santa Isabel, e adeus, que não me posso demorar!!!
—Então, adeus! disse-lhe o Innocencio. E obrigado pela companhia.
Meréllo, em passinho de pulga, cortou para a direita, pelo largo do Rato fora, e sumiu-se detrás da esquina.
Dois olhos, porém, o acompanhavam, vigiando-o, sem falarmos nos da providência, que, talvez, naquela hora o não seguissem com tanto desvelo. . .
Eram os olhos do Innocencio, que, logo depois de fechar a porta da rua, de novo a abrira, de mansinho, encostando-a habilmente por maneira que pudesse ver sem ser visto.
Espreitado o Meréllo no rápido ápice de dobrar a esquina, aí foi logo, de corrida, de voada, o Innocencio, encostar-se meio escondido, na diligência de observar, se, efectivamente, o Meréllo seguia pela rua do Sol, a fim de cortar depois á esquerda para Santa Isabel.
Mas,—oh! confirmação da suspeita!—o Meréllo virou pela rua de S. Bento, e, deste modo, revelou a engenhosa estratégia com que estivera a ponto de levar de vencida o seu competidor.
Innocencio Francisco da Silva não pensou uma, não pensou duas, nem três vezes, e, voltando a meter-se na rua da Escola Politécnica, desceu pressuroso, aos encontrões a quem ia e vinha; ele, para o passeio; ele, para o meio da rua; zás, pás; de salto, pulo, e gangão; respirando apenas; apertando o fígado, abalado pela fúria da correria; até que, catrapuz, caía de chofre na loja do livreiro, onde, em caso imediato, se embrulhava com um vulto, que, também de repelão e de tombo súbito, penetrava ali. . . Era o Meréllo!
O Meréllo, que, suspeitoso e inquieto pelas perguntas do Innocencio, correra ao livreiro, e alcançara, pela rua de S. Bento, Calhariz e Chiado, chegar ao Pote das Almas ao mesmo tempo que o seu rival ilustre, por S. Pedro de Alcântara e S. Roque: em passo vertiginoso, de bibliófilos, ambos eles; o incomparável passo, que fez sempre a inveja do Bargossi! o andarilho Bargossi!
Com razão se diz serem mudas as dores supremas. No meio do reboliço que houve naquela loja, quando os dois alfarrabistas se atropelaram ao entrar ali, qual deles com maior ânsia, foi o Meréllo o primeiro a conseguir deitar a mão ao livro.
O Innocencio, que tinha uma tremenda língua de palmo e meio, terror do próximo, meteu-a no bucho, e, engolindo em seco, viu o outro arrecadar o livro no bolso do peito, abotoar-se à mesm’alma, pagar o livro ao Rodrigues, e sair, ficando quedo e mudo, como se, aquele caso formidando, estivesse a ponto de entupir-lhe por uma vez a fala.

Os leitores conhecedores da topografia de Lisboa, e uma vez que as ruas conservam o mesmo nome, podem, ao ler o texto, reconstruir o percurso dos dois ávidos bibliófilos.

Termino com um fragmento do perfil biográfico de Inoccencio Francisco da Silva traçado por A. A. Teixeira de Vasconcellos (1816-1878) na Revista Contemporânea de Portugal e Brasil.

O sr. Innocencio Francisco da Silva, nasceu em Lisboa a 28 de Setembro de 1810. Seu pai, comerciante pouco abastado e oficial de ordenanças, foi o mestre que lhe deu as primeiras noções do saber humano…
Desde 1825 até 1830 estudou desenho, humanidades, lingua francesa, e frequentou durante dois anos o curso da aula do comércio, intercalando estes trabalhos com leituras dos principais filósofos do século passado.
De 1830 a 1833 seguiu o curso matemático da Academia Real de Marinha. No primeiro e no segundo ano obteve prémios. No terceiro em que não os havia mereceu distinção honrosa.
Nessa época entrara em Lisboa o duque da Terceira, vitorioso das tropas realistas, e principiara a organizar a guarnição que devia defender dos inimigos ainda numerosos, tão preciosa conquista. O sr. Innocencio assentou praça no 4.° Batalhão Movel, no qual serviu de oficial inferior com satisfação e louvor dos seus chefes.
Seu pai, cuja fortuna diminuira ainda antes de 1830, estava então velho, cego e paralítico. Os encargos da familia pesavam todos sobre o jovem voluntário liberal, cuja inteligência, instrucção e ânimo determinado, o habilitavam a cumpri-los todos. Aproveitando os estudos anteriores dedicou-se a leccionar estudantes da Academia de Marinha e da Aula de Comercio, c neste exercicio obteve excelentes créditos desde 1834 até 1837. De certo não eram menores os que tinha como cidadão, pois que os seus camaradas da Guarda Nacional, por esse tempo o elegeram capitão.
Obteve então um amigo que o administrador geral de Lisboa convidasse o sr. Innocencio para ser amanuense extraordinário ou temporário da sua secretaria, com vencimento de dez tostões nos dias úteis. Nesta colocação se conservou até 1842, em que o despacharam amanuense de segunda classe, vindo só a alcançar em 1851 acesso à primeira. Nos vinte e cinco anos que tem passado no governo civil a escrever mais de vinte e seis mil cartas e ofícios, soube o sr. Innocencio adquirir e conservar o conceito dos chefes, e merecer-lhes louvores, assim pelo serviço feito na repartição de fazenda, onde esteve até 1848, como pelo que prestou na repartição da policia, segurança e salubridade publica, a que hoje pertence. Há pouco foi-lhe conferida a graduação de oficial, porém sem accesso.
Durante muitos anos foi o sr. Innocencio preparando os materiais para a sua obra, manuseando larga cópia de livros, adquirindo grande porção deles, estudando os modelos bibliográficos, investigando as questões e dúvidas que a cada passo lhe surgiam, e lutando com difficuldades que teriam desanimado qualquer espirito menos vigoroso e persistente.
Em Outubro de 1858, saiu á luz da Imprensa Nacional, a expensas do governo português, o primeiro volume do Diccionario Bibliographico, e já a esse tempo a Academia Real das Sciencias, escolhera o autor para seu sócio correspondente.
O instituto de Coimbra, o Instituto Historico e Geographico do Brasil, e não sei quantas outras sociedades literárias abriram espontaneamente as suas portas ao ilustre bibliógrafo
português, e há poucos dias a Academia Real das Sciencias resolveu chamá-lo ao grêmio dos seus sócios efectivos, onde o conceito público o julgava desde muito tempo colocado.

Lisboa, 17 de Maio de 1862
A. A. Teixeira de Vasconcellos.

A imagem de abertura mostra uma pintura famosa de Carl Spitzweg (1808-1885).

Encerro o artigo com o retrato do homem em gravura a ponta de aço.

Innocencio Francisco da Silva - Perfil

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