O Julgamento de Páris — lenda e pintura

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XKH146463Numa história de Agatha Christie é o desconhecimento de uma personagem sobre quem foi Páris, herói troiano, confundindo-o com a cidade de Paris, que leva à solução do mistério policial.

00 Peter Paul Rubens - O Julgamento de Páris - 1639Na verdade, suponho, poucos serão os que hoje, perante uma pintura que represente O Julgamento de Páris, saberão descodificá-la e de que trata a representação. 000 Joachim Wtewael - O Julgamento de Páris

Para começar, nesta história Páris não é réu mas sim juiz. E juiz da beleza feminina. 01 Jean Baptiste Regnault - O Julgamento de Páris - 1820

Então a história, qual é? 1 Eduard Lebiedzki - O Julgamento de Páris - 1906

Páris, filho de Príamo, rei de Tróia, renegado pelo pai, de forma variada consoante as fontes, cresceu entre pastores, e adulto regressou a Tróia, sendo a sua identidade revelada. O episódio da lenda de Páris que hoje me interessa é o julgamento que terá estado na origem da guerra de Tróia.

02 Luca Giordano 1681-83Os deuses encontravam-se reunidos para celebrar as núpcias de Tétis e Peleu. Éris (a Discórdia) lançou para o meio deles uma bola de ouro, dizendo que deveria ser entregue à mais bela das três deusas: Atena, Hera e Afrodite. No Olimpo ninguém queria a responsabilidade da escolha e Zeus ordenou a Hermes que conduzisse as três deusas junto de Páris, e este julgaria a questão.

9 Joachim Wtewael - O Julgamento de Páris (2)Na presença de Páris cada uma das deusas expôs os seus argumentos para ter direito à bola de ouro. Cada uma prometeu-lhe dons especiais se decidisse a seu favor: Hera entregava-lhe o domínio de toda a Ásia: Atena prometeu-lhe a sabedoria e a vitória em todos os combates; Afrodite limitou-se a oferecer-lhe o amor de Helena de Esparta, lendária beleza por quem Páris, escreve Ovídio, estaria apaixonado . Páris decidiu que Afrodite era a mais bela.

6 Joan de Joanes - O Julgamento de Páris - 1523-1579O episódio conta-o Ovídio numa das Cartas das Heroínas, a carta que Páris envia a Helena. Infelizmente não conheço tradução em português para vos mostrar.

4 Cornelis Cornelisz. van Haarlem -O Julgamento de Páris - 1628Esta é uma lenda para os homens que preferem o amor ao poder, ao triunfo sobre os outros, e até à sabedoria. 2 Hendrick van Balen -O Julgamento de Páris

Sobretudo nos séculos XVI e XVII, ainda que posteriormente não tenha desaparecido da pintura ocidental, o assunto foi tema de variadas pinturas, pois o pretexto era excelente para pintar nus femininos. De entre o acervo que conheço, e obtive imagens de qualidade, deixo uma escolha, e estendo-a até ao inicio do século XX. As características de escola e época estão lá, e como de costume apenas o génio de algum mestre traz o fulgor a um assunto codificado.

3 Pacecco - 1645

4 Carel van savoyen -O Julgamento de Páris

8 Henri Pierre Picou -O Julgamento de Páris - sec XIX

5 Franz Floris

Da poesia com Casimiro de Brito

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Vasarely_Victor-Autoportrait_brise-1942-II

Poemas são conchas abandonadas por animais sofredores

que nelas viveram — a beleza que resta

de uns traços da humana errância.

E quando assim não é soa a falso. Ainda que algum virtuosismo de linguagem por momentos nos emocione.

É com uma comovente e profunda reflexão sobre a poesia e nós, leitores, feita por Casimiro de Brito (1938) que vos deixo.

Da poesia

Da poesia se poderá dizer que embeleza a dor,

que cicatriza com as flechas que atravessam

o corpo real,

que é uma flor de espuma que lava a cegueira das cidades.

Enquanto a dor arde e a morte se aproxima — a poesia

fornece-nos um pouco de azul.

Ironia da arte — ela sorri, altaneira quase,

do ruído da vida, do caos cumprido pelos corpos,

da tristeza e do abandono como se fossem coisa de somenos.

Mas, para quem souber ler, a poesia que nos encanta

e quase nos faz esquecer,

também nos aviva a memória para os caminhos do chão

e do ar e das águas,

por mais tortuosos que sejam,

como se ela fosse uma irmã consoladora da dor.

Serão então os poemas fragmentos iluminados da mágoa em cacos

que ficam pelo caminho? Palavras que nos lembram

que nem só de sofrimento se compõem

os percursos do homem?

Que nos recordam os vales da alegria,

os prazeres, os momentos mas delicados?

Poemas são conchas abandonadas por animais sofredores

que nelas viveram — a beleza que resta

de uns traços da humana errância.

O repouso do sobressalto.

Poema publicado em Fragmentos de Babel seguido de Arte Poética, Quasi Edições, Fevereiro de 2007.

Matsuo Bashö — de volta com alguns Haiku

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Okada_Kenzo-To_Point 1962Talvez só estejamos maduros para a poesia após uma vasta vivência. A aprendizagem da vida pela experiência acaba por nos fazer saber separar o essencial do acessório, e aí, como necessidade do espirito humano, surge a poesia na sua contenção verbal a mostrar-nos o que do mundo vale a pena perceber.

São forma superior deste relato vivencial e reflexivo o Haiku japonês. Mesmo para os não conhecedores da língua japonesa, as aproximações a esta poesia feitas em línguas ocidentais lançam frequentemente faíscas de emoção.

De Matsuo Bashô (1644-1694), eis alguns Haiku em versões de Luísa Freire.

*

Que belo que é

não pensar ao ver um raio:

“A vida é fugaz”.

**

Aqui o silencio —

somente a voz da cigarra

penetra os rochedos.

***

Começo de outono;

quer o mar, quer as campinas,

tudo é um só verde.

****

Entrega ao Salgueiro

o tédio e todo o desejo

do teu coração.

*****

Esvai-se o som na noite;

sobe o perfume das flores —

um sino tocou.

******

Tudo o que me cerca

e encontra o meu olhar

é fresco e é novo.

*******

Varrendo o jardim,

a neve ficou esquecida

pela vassoura.

Poemas publicados em Imagens Orientais, Assírio & Alvim, Lisboa, 2003.

Acompanha esta poesia uma imagem da pintura de Kenzo Okada (1902-1982).

Pesquisando no blog por Haiku, encontrará o leitor curioso outros poemas e também considerações sobre a técnica do Haiku.

 

De vez em quando Pessoa — hoje Os Jogadores de Xadrez de Ricardo Reis

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Dominic Nahr - Gaza City, Palestinian TerritoriesOuvi dizer que outrora, quando a Pérsia / Tinha não sei qual guerra.

Serve-nos a televisão com o jantar, notícias das catástrofes do mundo e do andamento que os políticos lhes dão.

Ardiam casas, saqueadas eram

As arcas e as paredes,

Violadas, as mulheres eram postas

Contra os muros caídos,

Trespassadas de lanças, as crianças

Eram sangue nas ruas…

Mas onde estavam, perto da cidade,

E longe do seu ruído,

Inda que nas mensagens do ermo vento

Lhes viessem os gritos,

E, ao refletir, soubessem desde a alma

Que por certo as mulheres

E as tenras filhas violadas eram

Nessa vitória próxima,

Fabio Bucciarelli  - Aleppo, SyriaSaber isto o espectador, acrescenta-lhe a ilusão de, ao saber o que acontece, participar na sua resolução: inclui-se na chamada opinião pública.

Inda que, no momento que o pensavam,

Uma sombra ligeira

Lhes passasse na fronte alheada e vaga,

Breve seus olhos calmos

Volviam sua atenta confiança

Ao tabuleiro velho.

Os jogadores de xadrez jogavam

O jogo de xadrez.

E, na verdade, esta ilusão de assim interferir nos destinos do mundo, permite ganhar a tranquilidade de consciência e dormir em sossego.

Dominic Nahr  - Heglig, SudanQuão longe estamos da indiferença levada aos limites por Fernando Pessoa no poema do heterónimo Ricardo Reis, Os Jogadores de Xadrez, que tenho vindo a citar?

Desde muito novo me debato com a pontual evidência experiencial deste poema e a liminar recusa da indiferença pelo destino do mundo que me rodeia e em que vivo.

Ah! sob as sombras que sem qu’rer nos amam,

Com um púcaro de vinho

Ao lado, e atentos só à inútil faina

Do jogo do xadrez,

Mesmo que o jogo seja apenas sonho

E não haja parceiro,

Imitemos os persas desta história,

E, enquanto lá por fora,

Ou perto ou longe, a guerra e a pátria e a vida

Chamam por nós, deixemos

Que em vão nos chamem, cada um de nós

Sob as sombras amigas

Sonhando, ele os parceiros, e o xadrez

A sua indiferença.

Micah Albert - Nairobi, KenyaSoberba interrogação sobre nós e o mundo nos faz este poema! Aí fica na totalidade.

 

Os Jogadores de Xadrez

 

Ouvi dizer que outrora, quando a Pérsia

Tinha não sei qual guerra,

Quando a invasão ardia na Cidade

E as mulheres gritavam,

Dois jogadores de xadrez jogavam

O seu jogo contínuo.

 

À sombra de ampla árvore fitavam

O tabuleiro antigo,

E, ao lado de cada um, esperando os seus

Momentos mais folgados,

Quando havia movido a pedra, e agora

Esperava o adversário,

Um púcaro com vinho refrescava

Sobriamente a sua sede.

 

Ardiam casas, saqueadas eram

As arcas e as paredes,

Violadas, as mulheres eram postas

Contra os muros caídos,

Trespassadas de lanças, as crianças

Eram sangue nas ruas…

Mas onde estavam, perto da cidade,

E longe do seu ruído,

Os jogadores de xadrez jogavam

O jogo de xadrez.

 

Inda que nas mensagens do ermo vento

Lhes viessem os gritos,

E, ao refletir, soubessem desde a alma

Que por certo as mulheres

E as tenras filhas violadas eram

Nessa vitória próxima,

Inda que, no momento que o pensavam,

Uma sombra ligeira

Lhes passasse na fronte alheada e vaga,

Breve seus olhos calmos

Volviam sua atenta confiança

Ao tabuleiro velho.

 

Quando o rei de marfim está em perigo,

Que importa a carne e o osso

Das irmãs e das mães e das crianças?

Quando a torre não cobre

A retirada da rainha alta,

Pouco importa a vitória.

E quando a mão confiada leva o xeque

Ao rei do adversário,

Pouco pesa na alma que lá longe

Estejam morrendo filhos.

 

Mesmo que, de repente, sobre o muro

Surja a sanhuda face

Dum guerreiro invasor, e breve deva

Em sangue ali cair

O jogador solene de xadrez,

O momento antes desse

É ainda entregue ao jogo predileto

Dos grandes indif’rentes.

 

Caiam cidades, sofram povos, cesse

A liberdade e a vida.

Os haveres tranquilos e avitos

Ardem e que se arranquem,

Mas quando a guerra os jogos interrompa,

Esteja o rei sem xeque,

E o de marfim peão mais avançado

Pronto a comprar a torre.

 

Meus irmãos em amarmos Epicuro

E o entendermos mais

De acordo com nós-próprios que com ele,

Aprendamos na história

Dos calmos jogadores de xadrez

Como passar a vida.

 

Tudo o que é sério pouco nos importe,

O grave pouco pese,

O natural impulso dos instintos

Que ceda ao inútil gozo

(Sob a sombra tranqüila do arvoredo)

De jogar um bom jogo.

 

O que levamos desta vida inútil

Tanto vale se é

A glória, a fama, o amor, a ciência, a vida,

Como se fosse apenas

A memória de um jogo bem jogado

E uma partida ganha

A um jogador melhor.

 

A glória pesa como um fardo rico,

A fama como a febre,

O amor cansa, porque é a sério e busca,

A ciência nunca encontra,

E a vida passa e dói porque o conhece…

O jogo do xadrez

Prende a alma toda, mas, perdido, pouco

Pesa, pois não é nada.

 

Ah! sob as sombras que sem qu’rer nos amam,

Com um púcaro de vinho

Ao lado, e atentos só à inútil faina

Do jogo do xadrez,

Mesmo que o jogo seja apenas sonho

E não haja parceiro,

Imitemos os persas desta história,

E, enquanto lá por fora,

Ou perto ou longe, a guerra e a pátria e a vida

Chamam por nós, deixemos

Que em vão nos chamem, cada um de nós

Sob as sombras amigas

Sonhando, ele os parceiros, e o xadrez

A sua indiferença.

 

1-6-1916

 

Transcrevi a versão proposta por Manuela Parreira da Silva em Ricardo Reis, Poesia, Assírio & Alvim, Lisboa, 2000.

 

As fotos que acompanham o artigo pertencem à selecção 2013 de WorldPress Photo, e podem ser encontradas com informação sobre os seus autores seguindo este link AQUI.

 

A mulher segundo o zodíaco de Vinicius de Moraes

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Zodíaco

O fascínio do simbólico como explicação do incompreensível é de todas as épocas e civilizações. Encontramos o circulo zodiacal dividido em 12 partes, da China à Europa, com uma simbologia apenas pontualmente divergente. Enquanto fonte de explicação dos homens, a sua associação a animais retira das particularidades cinésicas destes, o grosso da explicação comportamental dos humanos nascidos no período associado a cada signo zodiacal.

 

Numa tentativa de leitura fiel da natureza humana feminina nascida sob cada um dos signos do zodíaco seguido no ocidente, compôs Vinicius de Moraes(1913-1980) 12 poemas que foram pela primeira vez publicados no primeiro número de 1971 de Manchete, como presente de Ano Novo aos leitores da revista.

 

Estes poemas forma posteriormente editados em livro, Um signo uma mulher, sob os cuidados de Pedro Moacir Maia, em Setembro de 1975, em Buenos Aires.

 

 

ÁRIES

Branca, preta ou amarela

A ariana zela.

 

Tem caráter dominador

Mas pode ser convencida

E aí, então, fica uma flor:

Cordata … e nada convencida.

 

Porque o seu denominador

É o amor.

 

Eu cá por mim não tenho nenhum preconceito racial:

Mas sou ariano!

 

 

TOURO

O que é que brilha sem

Ser ouro? — A mulher de Touro!

É a companheira perfeita

Quando levanta ou quando deita.

Mas é mulher exclusivista

Se não tem tudo, faz a pista.

Depois, que dona-de-casa …

E à noite ainda manda brasa.

Sua virtude: a paciência

Seu dia bom: a sexta-feira

Sua cor propícia: o verde

As flores dos seus pendores:

Rosa, flor de macieira.

 

 

GÉMEOS

A mulher de Gêmeos

Não sabe o que quer

Mas tirante isso

É boa mulher.

 

A mulher de Gêmeos

Não sabe o que diz

Mas tirante isso

Faz o homem feliz.

 

A mulher de Gêmeos

Não sabe o que faz

Mas por isso mesmo

É boa demais …

 

 

CÂNCER

Você nunca avance

Em mulher de Câncer.

 

Seu planeta ê a Lua

E a Lua, é sabido

Só vive na sua.

 

É muito apegada

E quando pegada

Pega da pesada.

 

É mulher que ama

Com muito saber

No tocante à cama

Não sei lhe dizer …

 

 

LEÃO

A mulher de Leão

Brilha na escuridão.

 

A mulher de Leão, mesmo sem fome

Pega, mata e come.

 

A mulher de Leão não tem perdão.

 

As mulheres de Leão

Leoas são.

 

Poeta, operário, capitão

Cuidado com a mulher de Leão!

 

São ciumentas e antagônicas

Solares e dominicais

Igneas, áureas e sardônicas

E muito, muito liberais.

 

 

VIRGEM

Se Florence Nightingale era Virgem

Não sei. .. mas o mal é de origem.

 

A mulher de Virgem aceita a amante

Isto é: desde que não a suplante.

 

Sexo de consumo, pães-de-minuto

Nada disso lhe há de faltar

O condomínio é absoluto

A Virgem é mulher do lar.

 

Opala, safira, turquesa

São suas pedras astrais

Na cuca, muita esperteza

Na existência, muita paz.

 

 

LIBRA

A mulher de Libra

Não tem muita fibra

Mas vibra.

 

Quer ver uma libriana contente?

Dê-lhe um presente.

 

Quando o marido a trai

A mulher de Libra

Balança mas não cai.

 

Se você a paparica

Ela fica.

 

Com librium ou sem librium

Salve, venusina

Que guarda o equilíbrio

Na corda mais fina.

 

 

ESCORPIÃO

Mulher de Escorpião

Comigo não!

É a Abelha Mestra

É a Viúva Negra

Só vai de vedete

Nunca de extra.

Cria o chamado conflito

de personalidades.

É mãe tirana

Mulher tirana

Irmã tirana

Filha tirana

Neta tirana

tirana tirana.

Agora, de cama diz –

que é boa paca.

 

 

SAGITÁRIO

As mulheres sagitarianas

São abnegadas e bacanas

Mas não lhe venham com grossuras

Nem injustiças ou censuras

Porque ela custa mas se esquenta

E pode ser muito violenta.

Aí, o homem que se cuide …

—Também, quem gosta de censura!

 

 

CAPRICÓRNIO

A capricorniana ê capricomial

Como a cabra de João Cabral.

Eu amo a mulher de Capricórnio

Porque ela nunca lhe põe os próprios.

 

A caprina é tão ciumenta

Que até os ciúmes ela inventa.

Mulher fiel está aí: é cabra

Só que com muito abracadabra.

 

Suas flores: a papoula e o cânhamo

De onde vêm o ópio e a maconha

Ela é uma curtição medonha

Por isto nos capricorniamos.

 

 

AQUÁRIO

Se o que se quer é a boa esposa

A aquariana pousa.

 

Se o que se quer é uma outra coisa

A aquariana ousa.

 

Se o que se quer é muito amor

A aquariana

É mulher macho sim senhor.

 

Porém não são possessivas

Nem procuram dominar

Ou são meigas e passivas

Ou botam para quebrar.

 

 

PEIXES

Mulher de Peixe . .. peixe é

Em águas paradas não dá pé

Porque desliza como a enguia

Sempre que entra numa fria.

Na superfície é sinhazinha

E festiva como a sardinha

Mas quando fisga um namorado

Ele está frito, escabechado.

É uma mulher tão envolvente

Que na questão do Paraíso

Há quem suspeite seriamente

Que ela era a mulher e a serpente.

Seu Id: aparentar juízo

Seu Ego: a omissão, o orgulho

Sua pedra astral: a ametista

Seu bem: nunca ser bagulho

Sua cor: o amarelo brilhante

Seu fim: dar sempre na vista.

Elogio da sombra — poema de Jorge Luis Borges

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Thomson_Ann-Windlass 1983São emocionante poesia e comovedora lição os poemas em que Jorge Luís Borges (1899-1986) nos fala da sua cegueira, e como com ele vemos o mundo sem luz.

Dos poemas  publicados em 1975 no livro La Rosa Profunda, quais 1972, Al Espejo, Mis Libros, e sobretudo os pungentes El Ciego e Un Ciego, à serena aceitação em On His Blindness, publicado em Los Conjurados, 1985, apreendemos novos significados para a luz e para o ver.

Mais de um olhar o mundo que olhar-se a si trata, no entanto, este Elogio da sombra, publicado em 1969 a fechar o livro do mesmo nome, que a seguir transcrevo, e onde da progressiva cegueira diz:  “Esta penumbra é lenta e não dói; / flui por um manso declive / e é parecida com a eternidade.“.

Mas há mais, há a infinita sabedoria dos versos que abrem o poema:

A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão) / pode ser o tempo de nossa felicidade. / O animal está morto  ou quase morto. / Restam o homem e sua alma.“.

E continua com o relato factual: “Vivo entre formas luminosas e vagas / que ainda não são a treva.“, dando conta da sua eximia arte de dizer as profundas verdades com ar de conversa trivial.

As pistas de reflexão saltam em cada nova leitura, qual palimpsesto, e poderia por aqui continuar, mas entrego-vos ao prazer da leitura do poema em tradução e no original espanhol.

Elogio da sombra

A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão)

pode ser o tempo de nossa felicidade.

O animal está morto  ou quase morto.

Restam o homem e sua alma.

Vivo entre formas luminosas e vagas

que ainda não são a treva.

Buenos Aires,

que dantes se espraiava em arrabaldes

rumo à planície sem fim,

voltou a ser a Recoleta, o Retiro,

as confusas ruas do bairro Once

e as vacilantes casas velhas

que ainda chamamos o Sul.

Houve sempre na minha vida demasiadas coisas;

Demócrito de Abdera arrancou os olhos para pensar;

o tempo foi o meu Demócrito.

Esta penumbra é lenta e não dói;

flui por um manso declive

e é parecida com a eternidade.

Os meus amigos não têm rosto,

as mulheres são o que foram há tantos anos,

as esquinas podem ser outras,

não há letras nas páginas dos livros.

Tudo isto deveria amedrontar-me,

mas é uma doçura e um regresso.

Das gerações de textos que há na terra

só terei lido uns poucos,

os que ainda hoje leio na memória,

lendo-os e transformando-os.

Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte

convergem os caminhos que me trouxeram

ao meu secreto centro.

Esses caminhos foram ecos e passos,

mulheres, homens, agonias, ressurreições,

dias e noites,

devaneios e sonhos,

cada ínfimo instante de outrora

e dos outroras do mundo,

a firme espada do dinamarquês e a lua do persa,

os actos dos mortos,

o partilhado amor, as palavras,

Emerson e a neve e tantas coisas.

Agora posso esquecê-las. Chego ao meu centro,

à minha álgebra e à minha chave,

ao meu espelho.

Em breve saberei quem sou.

Tradução de Fernando Pinto do Amaral

Elogio de la Sombra

La vejez (tal es el nombre que los otros le dan)

puede ser el tiempo de nuestra dicha.

El animal ha muerto o casi ha muerto.

Quedan el hombre y su alma.

Vivo entre formas luminosas y vagas

que no son aún la tiniebla.

Buenos Aires,

que antes se desgarraba en arrabales

hacia la llanura incesante,

ha vuelto a ser la Recoleta, el Retiro,

las borrosas calles del Once

y las precarias casas viejas

que aún llamamos el Sur.

Siempre en mi vida fueron demasiadas las cosas;

Demócrito de Abdera se arrancó los ojos para pensar;

el tiempo ha sido mi Demócrito.

Esta penumbra es lenta y no duele;

fluye por un manso declive

y se parece a la eternidad.

Mis amigos no tienen cara,

las mujeres son lo que fueron hace ya tantos años,

las esquinas pueden ser otras,

no hay letras en las páginas de los libros.

Todo esto debería atemorizarme,

pero es una dulzura, un regreso.

De las generaciones de los textos que hay en la tierra

sólo habré leído unos pocos,

los que sigo leyendo en la memoria,

leyendo y transformando.

Del Sur, del Este, del Oeste, del Norte,

convergen los caminos que me han traído

a mi secreto centro.

Esos caminos fueron ecos y pasos,

mujeres, hombres, agonías, resurrecciones,

días y noches,

entresueños y sueños,

cada ínfimo instante del ayer

y de los ayeres del mundo,

la firme espada del danés y la luna del persa,

los actos de los muertos,

el compartido amor, las palabras,

Emerson y la nieve y tantas cosas.

Ahora puedo olvidarlas. Llego a mi centro,

a mi álgebra y mi clave,

a mi espejo.

Pronto sabré quién soy.

O prazer na sobriedade dos livros e poema de Xenófanes de Cólofon

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Veronese - Bodas de CanaãAbrir o pacote e receber um livro tamanho 12x19cm, espessura pouco mais que um centímetro, que cabe na mão e se segura com prazer, encadernação em pele, lisa, azul escuro, título em dourado a um terço da altura, abrir, papel creme, mate, sedoso ao toque, a mancha impressa, em caracteres legíveis sem esforço, começar a ler e, de súbito, entrar no mundo da Grécia antiga, conversar com os seus poetas sobre temperança e excesso nos prazeres, a mesquinhez e heroísmo dos homens, a vida em sociedade e a sua organização política, os caprichos dos deuses e a incerteza da vida, ser jovem e ser velho, os filhos, os trabalhos da terra, a sobrevivência, ser rico ou pobre, em suma a aprendizagem do viver, tudo isto recebi. Vinha numa edição da Editorial Gredos. São livros da sua Biblioteca Classica. Um mundo para saborear no que já conheço e para descobrir no que não sei que existe. Desses prazeres e surpresas ir-vos-ei dando conta. Por agora o prazer é meu.

De tudo o que referi nos fala, entre outros, também Xenófanes de Cólofon (séc. VI-V a. C.). Dele vos deixo um poema. Não a tradução integral em espanhol de um seu fragmento , que agora leio, mas  os versos1-18 em bela tradução portuguesa de Maria Helena da Rocha Pereira, publicado na sua antologia de Cultura Grega, Hélade.

Agora está o solo puro, e as mãos de todos nós

e os cálices. Um põe-nos as coroas entretecidas,

e outro oferece-nos numa taça a essência fragrante.

O crater está repleto de boa disposição.

Está já pronto outro vinho, que garante que jamais

abandona ao barro o cheiro a mel da sua flor.

No meio, uma árvore de incenso desprende um sacro aroma;

a água está fresca, doce e pura.

Aqui temos os fulvos pães e a mesa sumptuosa,

carregada de queijo e de pingue mel.

Ao meio, o altar está todo coberto de flores.

A música festiva domina o ambiente.

Ao deus devem os homens sensatos entoar primeiro um hino,

com ditos de bom augúrio e palavras puras.

Depois de fazer as libações e preces para procederem

com justiça — pois isso é a primeira lisa —

não é insolente beber até ao ponto de se poder voltara casa

sem ajuda de um escravo, a menos que se seja muito idoso.

(fragmento 1, ed. Diels-Kranz, versos 1-18)

Abre o artigo uma imagem da pintura de Paolo Veronese (1528-1588), As Bodas de Canaã, certa vez contemplada por horas no Louvre  onde se guarda. Acrescento agora alguns detalhes desta gigantesca obra-prima.

Ao leitor deixo a liberdade do confronto entre o que vê e leu, a história, a arte, e a sabedoria que a vida acaba por nos trazer.

Veronese - Bodas de Canaã detalhe 1

Veronese - Bodas de Canaã detalhe 2

Veronese - Bodas de Canaã detalhe 3

Retratos femininos por Modigliani com poema de Amalia Bautista no final

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82Na minha paixão pela pintura de retrato ocupam um lugar especial as obras de Modigliani (1884-1920).

45Com um vocabulário mínimo no desenho, e que se repete de retrato para retrato (o alongado de cabeças e pescoço, o desenho do contorno de olhos, nariz e boca) vemos pessoas com quem poderíamos conversar, e até olhando com algum detalhe, como a vida lhes correu e que esperam dela. Isto se a imaginação para aí caminhar.

61Não sendo o caso, fica a suavidade da paleta cromática na predominância das cores de terra, a infinita tristeza e o magoado olhar que quase todas estas mulheres transportam.

29

84

221

118

124Nesta pintura da essência do rosto que dá uma vida, encontro contraponto num poema de Amalia Bautista (1962), Al Cabo, que vos deixo em tradução de Joaquim Manuel Magalhães.

Ao Fim

Ao fim são muito poucas as palavras

que nos doem a sério e muito poucas

as que conseguem alegrar a alma.

São também muito poucas as pessoas

que tocam nosso coração e menos

ainda as que o tocam muito tempo.

E ao fim são pouquíssimas as coisas

que em nossa vida a sério nos importam:

poder amar alguém, sermos amados

e não morrer depois dos nossos filhos.

O poema foi publicado pela primeira vez em 1999 no livro Cuentamelo Otra Vez, do qual há dias aqui deixei um outro com o mesmo nome do livro.

Termino com o original em castelhano.

Al Cabo

Al cabo, son muy pocas las palabras

que de verdad nos duelen, y muy pocas

las que consiguen alegrar el alma.

Y son también muy pocas las personas

que mueven nuestro corazon, y menos

aún las que lo mueven mucho tiempo.

Al cabo, son poquíssimas las cosas

que de verdad importan en la vida:

poder querer a alguien, que nos quieran

y no morri después que nuestros hijos.

224Nota bibliográfica

A tradução de Joaquim Manuel Magalhães foi publicada na antologia de poetas espanhóis contemporâneos, em edição bilingue, Trípticos Espanhóis, 3º, Relógio d’Água Editores, Lisboa, 2004.

O original foi transcrito da obra poética reunida de Amalia Bautista, Tres Deseos, Renacimiento, Sevilha, 2006.

Lydia, the Tattooed Lady

Peter Lavely -  homem da tribo Yawalapili - Brasil 1988Peter Lavely –  homem da tribo Yawalapili – Brasil 1988

Que parte de nós, seres dotados de pensamento e razão, é atraída por mutilações corporais decorrentes de motivações religiosas ou estéticas, continua a ser-me motivo de interrogação.

Entre a compressão dos pés das meninas na China ou da cabeça entre os Mangbetu e a furacão das orelhas que entre nós de forma generalizada se pratica, vai evidentemente um abismo no sofrimento imposto.

Lydia Jovem MangbetuMulher e criança Mangbetu com cabeça deformada deliberadamente

Há depois as inserções de objectos estranhos, como um prato no lábio inferior que certa tribo em África praticava, e era o melhor da minha colecção de cromos na infância com exemplos dos costumes de raças humanas; ou pendurezas diversas no nariz, essas um pouco mais espalhadas, para chegarmos às nossas hipercivilizadas sociedades de hoje onde alguma popularidade existe para a colocação dos chamados piercings nas partes moles do corpo, com atracção especial pelos órgãos com alguma participação na actividade sexual, a começar pela língua.

Lydia - Portrait of a india rajasthan woman withher henna tattoo

E as pinturas, que desde sempre nos criaram a ilusão do outro e por isso mesmo efémeras, como no teatro ou nos palhaços.

PHOTO NUDE 020A

São caso diferente as pinturas permanentes no corpo como as tatuagens, que afinal, são ao que queria chegar hoje.

Lydia - Tatood girl

As tatuagens são um mundo de oportunidades: do arabesco mínimo à paisagem com recantos secretos, as possibilidades têm apenas como limite a imaginação. Mas desenganem-se aqueles que supõem ser entusiasmo recente, isso de tatuagens sobre o corpo. Demonstro-o com uma velha canção de Harol Arlen (música) e Yip Harbourg (letra), surgida pela primeira vez no filme dos Irmãos Marx, Os Marx no Circo, em 1939. Nela seguimos uma espécie de viagem ao mundo geográfico, histórico e cultural, pelas tatuagens de Lydia, a dama tatuada.

E como diz a canção: You can learn a lot from Lydia!

Lydia world map

A letra é uma graça, e a interpretação que vos trago, de Bobby Short (1924–2005), cantor residente do Café Carlyle de New York, durante 35 anos, e tornado uma lenda viva, absolutamente imperdível.

Lydia, the Tattooed Lady

Oh Lydia, oh Lydia, say, have you met Lydia?

Lydia The Tattooed Lady.

She has eyes that folks adore so,

and a torso even more so.

Lydia, oh Lydia, that encyclo-pidia.

Oh Lydia The Queen of Tattoo.

On her back is The Battle of Waterloo.

Beside it, The Wreck of the Hesperus too.

And proudly above waves the red, white, and blue.

You can learn a lot from Lydia!

 

La-la-la…la-la-la.

La-la-la…la-la-la.

 

When her robe is unfurled she will show you the world,

if you step up and tell her where.

For a dime you can see Kankakee or Paree,

or Washington crossing The Delaware.

 

La-la-la…la-la-la.

La-la-la…la-la-la.

 

Oh Lydia, oh Lydia, say, have you met Lydia?

Lydia The Tattooed Lady.

When her muscles start relaxin’,

up the hill comes Andrew Jackson.

Lydia, oh Lydia, that encyclo-pidia.

Oh Lydia The Queen of them all.

For two bits she will do a mazurka in jazz,

with a view of Niagara that nobody has.

And on a clear day you can see Alcatraz.

You can learn a lot from Lydia!

 

La-la-la…la-la-la.

La-la-la…la-la-la.

 

Come along and see Buffalo Bill with his lasso.

Just a little classic by Mendel Picasso.

Here is Captain Spaulding exploring the Amazon.

Here’s Godiva, but with her pajamas on.

 

La-la-la…la-la-la.

La-la-la…la-la-la.

 

Here is Grover Whelan unveilin’ The Trilon.

Over on the west coast we have Treasure Isle-on.

Here’s Nijinsky a-doin’ the rhumba.

Here’s her social security numba.

 

La-la-la…la-la-la.

La-la-la…la-la-la.

 

Lydia, oh Lydia, that encyclo-pidia.

Oh Lydia The Champ of them all.

She once swept an Admiral clear off his feet.

The ships on her hips made his heart skip a beat.

And now the old boy’s in command of the fleet,

for he went and married Lydia!

 

I said Lydia…

(He said Lydia…)

They said Lydia…

We said Lydia, la, la!

 

Verão, mulheres e Caymmi no final

06Estes dias de verão abrasador têm uma vantagem obvia: as mulheres. Ocorre-me a cada passo ao andar na rua, um fragmento do poema de Roger Wolfe (1962):

Mulheres

No verão nunca sei muito bem

se é que as mulheres vão tirando a roupa

ou não a chegam a pôr.

Em qualquer caso põem-me doido. …

E se a algumas se aplica o que escrevi anos atrás:

Ei-las que esplendem:

ancas, mamas e barrigas,

e a cintura perdida,

apertadas sob as malhas

da ilusão

e da moda.

a outras, vê-las compensa-nos amplamente da fealdade do mundo.

Estando a trabalhar na cidade, parte do dia ando na rua. É então que o inevitável acontece: surgem de todos os lados, entre semi-despidas ou semi-vestidas como diz o poeta de hoje, e evidentemente mexem com o juízo do homem que vai trabalhar.

Isto mesmo cantava Dorival Caymmi (1914-2008) naquela beleza de canção A vizinha do lado, que aqui fica para quem não conheça.

 

A vizinha do lado

A vizinha quando passa

Com seu vestido grená

Todo mundo diz que é boa

Mas como a vizinha não há

Ela mexe co’as cadeiras pra cá.

Ela mexe co’as cadeiras pra lá.

Ele mexe com o juízo

Do homem que vai trabalhar

 

Há um bocado de gente

Na mesma situação

Todo mundo gosta dela

Na mesma doce ilusão

A vizinha quando passa

Que não liga pra ninguém

Todo mundo fica louco

E o seu vizinho também

 

A vizinha quando passa

Com seu vestido grená

Todo mundo diz que é boa

Mas como a vizinha não há

Ela mexe co’as cadeiras pra cá.

Ela mexe co’as cadeiras pra lá.

Ele mexe com o juízo

Do homem que vai trabalhar

 

Ela mexe co’as cadeiras pra cá.

Ela mexe co’as cadeiras pra lá.

Ele mexe com o juízo

Do homem que vai trabalhar

 

Há um bocado de gente

Na mesma situação

Todo mundo gosta dela

Na mesma doce ilusão

A vizinha quando passa

Que não liga pra ninguém

Todo mundo fica louco

E o seu vizinho também.

Mas se acontece trabalhar no escritório com a janela aberta, surgem, por vezes, o que parecem alucinações – veja-se esta pintura:

07Por hoje despeço-me. Amanhã voltamos ao sério.