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Dominic Nahr - Gaza City, Palestinian TerritoriesOuvi dizer que outrora, quando a Pérsia / Tinha não sei qual guerra.

Serve-nos a televisão com o jantar, notícias das catástrofes do mundo e do andamento que os políticos lhes dão.

Ardiam casas, saqueadas eram

As arcas e as paredes,

Violadas, as mulheres eram postas

Contra os muros caídos,

Trespassadas de lanças, as crianças

Eram sangue nas ruas…

Mas onde estavam, perto da cidade,

E longe do seu ruído,

Inda que nas mensagens do ermo vento

Lhes viessem os gritos,

E, ao refletir, soubessem desde a alma

Que por certo as mulheres

E as tenras filhas violadas eram

Nessa vitória próxima,

Fabio Bucciarelli  - Aleppo, SyriaSaber isto o espectador, acrescenta-lhe a ilusão de, ao saber o que acontece, participar na sua resolução: inclui-se na chamada opinião pública.

Inda que, no momento que o pensavam,

Uma sombra ligeira

Lhes passasse na fronte alheada e vaga,

Breve seus olhos calmos

Volviam sua atenta confiança

Ao tabuleiro velho.

Os jogadores de xadrez jogavam

O jogo de xadrez.

E, na verdade, esta ilusão de assim interferir nos destinos do mundo, permite ganhar a tranquilidade de consciência e dormir em sossego.

Dominic Nahr  - Heglig, SudanQuão longe estamos da indiferença levada aos limites por Fernando Pessoa no poema do heterónimo Ricardo Reis, Os Jogadores de Xadrez, que tenho vindo a citar?

Desde muito novo me debato com a pontual evidência experiencial deste poema e a liminar recusa da indiferença pelo destino do mundo que me rodeia e em que vivo.

Ah! sob as sombras que sem qu’rer nos amam,

Com um púcaro de vinho

Ao lado, e atentos só à inútil faina

Do jogo do xadrez,

Mesmo que o jogo seja apenas sonho

E não haja parceiro,

Imitemos os persas desta história,

E, enquanto lá por fora,

Ou perto ou longe, a guerra e a pátria e a vida

Chamam por nós, deixemos

Que em vão nos chamem, cada um de nós

Sob as sombras amigas

Sonhando, ele os parceiros, e o xadrez

A sua indiferença.

Micah Albert - Nairobi, KenyaSoberba interrogação sobre nós e o mundo nos faz este poema! Aí fica na totalidade.

 

Os Jogadores de Xadrez

 

Ouvi dizer que outrora, quando a Pérsia

Tinha não sei qual guerra,

Quando a invasão ardia na Cidade

E as mulheres gritavam,

Dois jogadores de xadrez jogavam

O seu jogo contínuo.

 

À sombra de ampla árvore fitavam

O tabuleiro antigo,

E, ao lado de cada um, esperando os seus

Momentos mais folgados,

Quando havia movido a pedra, e agora

Esperava o adversário,

Um púcaro com vinho refrescava

Sobriamente a sua sede.

 

Ardiam casas, saqueadas eram

As arcas e as paredes,

Violadas, as mulheres eram postas

Contra os muros caídos,

Trespassadas de lanças, as crianças

Eram sangue nas ruas…

Mas onde estavam, perto da cidade,

E longe do seu ruído,

Os jogadores de xadrez jogavam

O jogo de xadrez.

 

Inda que nas mensagens do ermo vento

Lhes viessem os gritos,

E, ao refletir, soubessem desde a alma

Que por certo as mulheres

E as tenras filhas violadas eram

Nessa vitória próxima,

Inda que, no momento que o pensavam,

Uma sombra ligeira

Lhes passasse na fronte alheada e vaga,

Breve seus olhos calmos

Volviam sua atenta confiança

Ao tabuleiro velho.

 

Quando o rei de marfim está em perigo,

Que importa a carne e o osso

Das irmãs e das mães e das crianças?

Quando a torre não cobre

A retirada da rainha alta,

Pouco importa a vitória.

E quando a mão confiada leva o xeque

Ao rei do adversário,

Pouco pesa na alma que lá longe

Estejam morrendo filhos.

 

Mesmo que, de repente, sobre o muro

Surja a sanhuda face

Dum guerreiro invasor, e breve deva

Em sangue ali cair

O jogador solene de xadrez,

O momento antes desse

É ainda entregue ao jogo predileto

Dos grandes indif’rentes.

 

Caiam cidades, sofram povos, cesse

A liberdade e a vida.

Os haveres tranquilos e avitos

Ardem e que se arranquem,

Mas quando a guerra os jogos interrompa,

Esteja o rei sem xeque,

E o de marfim peão mais avançado

Pronto a comprar a torre.

 

Meus irmãos em amarmos Epicuro

E o entendermos mais

De acordo com nós-próprios que com ele,

Aprendamos na história

Dos calmos jogadores de xadrez

Como passar a vida.

 

Tudo o que é sério pouco nos importe,

O grave pouco pese,

O natural impulso dos instintos

Que ceda ao inútil gozo

(Sob a sombra tranqüila do arvoredo)

De jogar um bom jogo.

 

O que levamos desta vida inútil

Tanto vale se é

A glória, a fama, o amor, a ciência, a vida,

Como se fosse apenas

A memória de um jogo bem jogado

E uma partida ganha

A um jogador melhor.

 

A glória pesa como um fardo rico,

A fama como a febre,

O amor cansa, porque é a sério e busca,

A ciência nunca encontra,

E a vida passa e dói porque o conhece…

O jogo do xadrez

Prende a alma toda, mas, perdido, pouco

Pesa, pois não é nada.

 

Ah! sob as sombras que sem qu’rer nos amam,

Com um púcaro de vinho

Ao lado, e atentos só à inútil faina

Do jogo do xadrez,

Mesmo que o jogo seja apenas sonho

E não haja parceiro,

Imitemos os persas desta história,

E, enquanto lá por fora,

Ou perto ou longe, a guerra e a pátria e a vida

Chamam por nós, deixemos

Que em vão nos chamem, cada um de nós

Sob as sombras amigas

Sonhando, ele os parceiros, e o xadrez

A sua indiferença.

 

1-6-1916

 

Transcrevi a versão proposta por Manuela Parreira da Silva em Ricardo Reis, Poesia, Assírio & Alvim, Lisboa, 2000.

 

As fotos que acompanham o artigo pertencem à selecção 2013 de WorldPress Photo, e podem ser encontradas com informação sobre os seus autores seguindo este link AQUI.

 

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