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Poemas são conchas abandonadas por animais sofredores

que nelas viveram — a beleza que resta

de uns traços da humana errância.

E quando assim não é soa a falso. Ainda que algum virtuosismo de linguagem por momentos nos emocione.

É com uma comovente e profunda reflexão sobre a poesia e nós, leitores, feita por Casimiro de Brito (1938) que vos deixo.

Da poesia

Da poesia se poderá dizer que embeleza a dor,

que cicatriza com as flechas que atravessam

o corpo real,

que é uma flor de espuma que lava a cegueira das cidades.

Enquanto a dor arde e a morte se aproxima — a poesia

fornece-nos um pouco de azul.

Ironia da arte — ela sorri, altaneira quase,

do ruído da vida, do caos cumprido pelos corpos,

da tristeza e do abandono como se fossem coisa de somenos.

Mas, para quem souber ler, a poesia que nos encanta

e quase nos faz esquecer,

também nos aviva a memória para os caminhos do chão

e do ar e das águas,

por mais tortuosos que sejam,

como se ela fosse uma irmã consoladora da dor.

Serão então os poemas fragmentos iluminados da mágoa em cacos

que ficam pelo caminho? Palavras que nos lembram

que nem só de sofrimento se compõem

os percursos do homem?

Que nos recordam os vales da alegria,

os prazeres, os momentos mas delicados?

Poemas são conchas abandonadas por animais sofredores

que nelas viveram — a beleza que resta

de uns traços da humana errância.

O repouso do sobressalto.

Poema publicado em Fragmentos de Babel seguido de Arte Poética, Quasi Edições, Fevereiro de 2007.

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