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vicio da poesia

Category Archives: Poetas e Poemas

Dois poemas eróticos de António Ramos Rosa

19 Sábado Jan 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à fotografia, Erótica, Poetas e Poemas

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António Ramos Rosa, Harry Callahan

Harry-Callahan-01Um corpo que se ama

Para quem o deseja e quem o ama
um corpo é sempre belo no seu esplendor
e tudo nele é belo porque é sagrado
e, mesmo na mais plena posse, inviolável.

Um corpo que se ama é uma nascente viva
que de cada poro irrompe irreprimivel
e toda a sua violência é a energia ardente
que gerou o universo e a fantasia dos deuses.

Tudo num corpo que se ama é adorável
na integridade viva de um mistério
na evidência assombrosa da beleza
que se nos oferece inteiramente nua.

Não há visão mais lucida do que a do desejo
e só para ela a nudez é sagrada
como uma torrente vertiginosa ou uma oferenda solar.
Esse olhar vê-o inteiro na perfeição terrestre.

Publicado em A ROSA INTACTA, Edição Labirinto, 2007

Harry-Callahan-05

SÓBRIO O TEU CORPO

Sóbrio o teu corpo me pede
penetração: nomes puros:
os de boca, braços, mãos
sobre a terra e sobre os muros.

Sóbrio o teu corpo me pede
nomes justos, nomes duros:
os de terra, fogo e punhos,
claros, acres, escuros.

Publicado em OCUPAÇÃO DO ESPAÇO, Portugália, 1963

Harry-Callahan-38

As fotos são de Harry Callahan (1912-1999)

 

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Manuel Bandeira – fantasias de poeta sobre o amor

18 Sexta-feira Jan 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Manuel Bandeira, Matisse

Matisse desenhoO poeta é um fingidor, escreveu Pessoa num poema hoje lendário, e, com efeito, os poetas não são de fiar no que propagam, se não vejamos o exemplo de hoje, com Manuel Bandeira (1886-1968), em torno da alma.

No poema ARTE DE AMAR diz-nos o poeta:

As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

enquanto noutro lugar escreve, no poema UNIDADE,

Minh’alma estava naquele instante
Fora de mim longe muito longe

Chegaste
E desde logo foi Verão

São dois poemas sobre o amor e o sexo, ou dizendo melhor, sobre o sexo e talvez sobre o amor. Em ambos é do físico que se trata, defendendo-se em ARTE DE AMAR o embaraço que é meter a alma nestas matérias, e por outro lado, em UNIDADE, aceitando que a volúpia cresce por contacto mas é a entrega da alma que permite o auge No momento fugaz da unidade.

Desfrutemos agora dos poemas depois deste desnecessário intróito.

ARTE DE AMAR

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Na outra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.

As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

UNIDADE

Minh’alma estava naquele instante
Fora de mim longe muito longe

Chegaste
E desde logo foi Verão
O Verão com as suas palmas os seus mormaços os seus ventos de sôfrega mocidade
Debalde os teus afagos insinuavam quebranto e molície
O instinto de penetração já despertado
Era como uma seta de fogo

Foi então que minh’alma veio vindo
Veio vindo de muito longe
Veio vindo
Para de súbito entrar-me violenta e sacudir-me todo
No momento fugaz da unidade.

1948

Muito antes escrevera o poeta, pondo os versos na voz de uma mulher, Vulgívaga que começa:

Não posso crer que se conceba
Do amor senão o gozo físico!
O meu amante morreu bêbado
E meu marido morreu tísico!
…
onde do sexo que degrada se fala.

Mas a obra do poeta é um mosaico, e falando da vontade de morrer que a plenitude do gozo traz consigo, encontramos este

FELICIDADE

A doce tarde morre. E tão mansa
Ela esmorece,
Tão lentamente no céu de prece,
Que assim parece, toda repouso,
Como um suspiro de extinto gozo
De uma profunda, longa esperança
Que, enfim cumprida, morre, descansa…

E enquanto a mansa tarde agoniza,
Por entre a névoa fria do mar
Toda a minh’alma foge da brisa:
Tenho vontade de me matar!

Oh, ter vontade de se matar…
Bem sei, é cousa que não se diz.
Que mais a vida me pode dar?
Sou tão feliz!

– Vem, noite mansa…

Nestas fantasias de poeta sobre o amor termino com

MULHERES

Como as mulheres são lindas!
Inútil pensar que é do vestido…
E depois não há só as bonitas:
Há as feias, certas feias em cujos olhos vejo isto:
Uma menininha que é batida e pisada e nunca sai da cozinha.

Como deve ser bom gostar de uma feia!
O meu amor porém não tem bondade alguma.
É fraco! fraco!
Meu Deus, eu amo como as criancinhas…

És linda como uma história da carochinha…
E eu preciso de ti como precisava da mamã e do papá
(No tempo em que pensava que os ladrões moravam no morro atrás de casa e tinham cara de pau.)

Arte de Amar e Unidade constam do livro Belo Belo
Vulgívaga pode ler-se no livro Carnaval
Mulheres foi publicado no livro Libertinagem
Felicidade encontra-se no livro O Ritmo Dissoluto

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Neste café quase deserto… com Mário Dionísio

18 Sexta-feira Jan 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Maria Helena Vieira da Silva, Mário Dionísio

Vieira_da_Silva_Maria_Helena_-Interieur_a_la_spiraleNeste cruzar de poesia e quotidiano com que me entretenho e ocupo o blog, percorro por vezes caminhos inesperados, como ir ao encontro deste poema de Mário Dionísio (1916-1993), poeta e critico outrora famoso e hoje empurrado para um inglório esquecimento.

46
Neste café quase deserto
não espero hoje ninguém
senão a cor difusa duma ausência
que não magoa e sabe bem

Uma palavra ou outra incompleta se recorta
na memória um minuto preguiçosa
só mal desperta quando a porta
se abre e fecha e entra alguém
que vai sentar-se longe ou aqui perto

O sol de inverno sinto-o nos dedos
como discreta ajuda carinhosa
a esta construída sonolência
tão espontânea sei lá em tanta gente

Que longe tudo o que procuro!

Ser como os outros todos um instante que seja é tão tranquilo e diferente!

sem planos sem segredos
sem história sem passado sem futuro

O poema pertence ao livro Memória dum pintor desconhecido, de 1965, onde os ecos do pintor, que Mário Dionísio também foi, se encontram.

Cruzando ainda um desolado quotidiano, surge-nos no mesmo livro Que bela manhã de névoa, reflexão em paisagem de gélida beleza, na busca dos outros em si:
Sozinho vou falando por ruas que não há e nos meus dedos / só de névoa outros sinto aflitos sussurrando / não pode ser não pode ser

48
Que bela manhã de névoa
para ser infeliz em companhia

Está frio está bom quase ninguém
nas ruas
E se alguém passa perto vai tão longe e sem ruído que se pensa
em algodão ou asas

Que cidade é esta?

A mágoa que me resta como sempre levo-a
escondida bem no fundo da algibeira
mas vejo-a solta em flocos sobre as casas e suspensa
pairar no céu que mal se vê e enredar-se
em quase roxas chaminés e nas arvores
nuas

Um só toque de verde e vermelho de Veneza deve dar
em muito branco de prata esta frieza de tempo cego e húmida surpresa
onde algures arde uma fogueira
que enxuto faz por dentro o que por fora é água
só e arrepio de gélida beleza

Que vasto o mundo e estranho e que minuto!
E que ilusão saber alguma coisa ou não saber!

Sozinho vou falando por ruas que não há e nos meus dedos
só de névoa outros sinto aflitos sussurrando
não pode ser não pode ser

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Viver sempre também cansa. diz-nos José Gomes Ferreira

17 Quinta-feira Jan 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Crónicas, Poetas e Poemas

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José Gomes Ferreira, Pierre Soulages

Soulages_Pierre-Peinture-2005-IIToca a todos, uma vez por outra, a saturação de viver um certo quotidiano:

Tudo é igual, mecânico e exacto.

e invade-nos um desejo de parar tudo, por-lhe um fim:

Pois não era mais humano / morrer por um bocadinho, / de vez em quando, / e recomeçar depois, / achando tudo mais novo?

sem que isso tenha em si qualquer vontade de suicídio, que não temporário:

Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses

Enfim, a insatisfação humana a governar-nos a vida.

É do que nos fala o poema de José Gomes Ferreira (1900-1985)

Viver sempre também cansa.

O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinzento, negro, quase-verde…
Mas nunca tem a cor inesperada.

O mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.

As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.

Tudo é igual, mecânico e exacto.

Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.

E há bairros miseráveis sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida…

E obrigam-me a viver até à Morte!

Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois,
achando tudo mais novo?

Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima de um divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.

Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
“Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela.”

E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo…

O poema foi publicado pela primeira vez em 1931 na revista Presença, e é o poema com que o poeta abre a edição da sua poesia completa: Poeta Militante.

 

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Pintura de David Hockney lida poeticamente por Ana Hatherly

13 Domingo Jan 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Ana Hatherly, David Hockney

Hockney_David-A_Bigger_SplashEmbora sejam até frequentes os poemas escritos a pretexto de pinturas, os poemas que hoje me ocupam têm na ligação poesia-pintura matéria de reflexão adicional. Trata-se de pinturas de David Hockney (1937) e de uma reflexão poética de Ana Hatherly (1929) sobre elas, tanto mais relevante quanto Ana Hatherly é uma notável artista plástica.

É na suposta fidelidade ao real que estas pinturas procuram, que Ana Hatherly se detém:

Porque o real / que esta pintura pinta / e que ele quer que se sinta / é um real que se mente

Nesta reflexão poética em torno da verdade da arte e do real que mente, ou do contrario disto, é a representação das palmeiras a evidência desta dicotomia:

como as magras palmeiras / postas ali para o olhar subir / um pouco / para o longe / para um céu azul que não existe / a não ser como ameaça / latente / na cruel esterilidade / dum real que não mente

Sendo uma pintura de inegável apelo visual na simplicidade da sua geometria e no equilíbrio do colorido, ganhou a dimensão icónica de um mundo que o cinema nos anos sessenta glosou como triunfo da modernidade.

Hoje não nos importa O que esta pintura quer tornar patente. Sabemos já, depois da crise de 2008 que este mundo acabou. Podemos olhá-la como oásis de sonhos perdidos.

Sobre “A Bigger Splash” de David Hockney

É uma tela de 2,44×2,44m
em que o real imaginado
está devidamente enquadrado

Tudo seria plano
como planeado
se não houvesse o splash
a perturbação que anima
a placidez geométrica do fotograma
do freeze-frame
que esta pintura muda
quer ser
e afinal não é

Porque o real
que esta pintura pinta
e que ele quer que se sinta
é um real que se mente
nesta pintura rente

É uma pintura que por nós entra
fina e quase débil
como as magras palmeiras
postas ali para o olhar subir
um pouco
para o longe
para um céu azul que não existe
a não ser como ameaça
latente
na cruel esterilidade
dum real que não mente

O que esta pintura quer tornar patente
não interessa:
É preciso desconfiar des imagens
diz o próprio artista
e num quadro
o sentido vem de toda a parte

E acrescenta:
Amanhã o público
vai querer outra coisa
além do que eu vi

Mas o que é a arte
senão artificio da verdade?

O problema é que
os filósofos modernos
segundo ele
brincaram demais
com a máquina fotográfica

Continua Ana Hatherly a sua reflexão poética pela pintura de David Hockney tomando as palmeiras como pretexto na ironia demolidora com que comenta estas pinturas:

as palmeiras surgem / nos quadros de Hockney / como esguios / inativos espanadores

Hockney_David-A_Lawn_Being_Sprinkled

As Palmeiras de Hockney

Outrora
a palmeira queria dizer
imortalidade
triunfo
e às vezes martírio

Agora
as palmeiras surgem
nos quadros de Hockney
como esguios
inativos espanadores

Agora
a poeira
transformada em chuva ácida
inutiliza
a diligência
das meneantes palmas

E o azul das piscinas
transformado
em estático caleidoscópio
tornou-se um sal vítreo
onde os corpos se partem

Hockney_David-Portrait_of_Nick_Wilder

É a subversão da natureza posta ao serviço da estética naquelas palmeiras de brincar, o que parece desencadear a ironia de Ana Hatherly nesta diatribe contra o real representado. No entanto, são pinturas que na sua opção de classe nos interrogam de múltiplas formas sobre a nossa civilização urbana.

Os poemas foram publicados no livro Itinerários, edição quasi, 2003

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A Prostituição na poesia (6) – As putas da Avenida de Fernando Assis Pacheco

12 Sábado Jan 2013

Posted by viciodapoesia in A mulher imaginada, Convite à arte, Poetas e Poemas

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Egon Schiele, Fernando Assis Pacheco

Dos muchachas en una manta de flecosA cidade transformou-se e a avenida da Liberdade já não é o que era quando Fernando Assis Pacheco (1937-1995) escreveu o soneto As putas da Avenida.

Hoje percorre a avenida o luxo da alta costura e das marcas com que o dinheiro se perfuma, escondendo os cheiros da sua origem. Mas as artérias não se libertam tão facilmente da vida que durante anos a elas se agarrou e, avançada a noite, regressam os ecos deste passado contado com mão de mestre na concisão do soneto.

AS PUTAS DA AVENIDA

Eu vi gelar as putas da Avenida
ao griso da Janeiro e tive pena
do que elas chamam em jargão a vida
com um requebro triste de açucena

vi-as às duas e às três falando
como se fala antes de entrar em cena
o gesto já compondo a voz de mando
do director fatal que lhes ordena

essa pose de flor recém-cortada
que para as mais batidas não é nada
senão fingirem lírios da Lorena

mas a todas o griso ia aturdindo
e eu que do trabalho vinha vindo
calçando as luvas senti tanta pena

Este soneto de Fernando Assis Pacheco encontra-se no livro Variações em Sousa de 1987, republicado em A Musa Irregular, 3ªedição com as correcções do autor, por Assírio & Alvim, Lisboa, 2006.

 

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Noticia ao entardecer – Gabino Alejandro Carriedo

11 Sexta-feira Jan 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Francis Bacon, Gabino Alejandro Carriedo

Bacon_Francis-Study_for_a_Portrait_March_1991A este poema, Noticia ao entardecer, vindo da Madrid do após-guerra, leio-o como eco da devastação de alma que socialmente nos atravessa.

Noticia ao entardecer

Devia ter-te escrito há tempos uma carta
dizendo entre outras coisas: “na província chove,
minha irmã foi para freira,
eu perdi o emprego”.
Possivelmente responderias com a tua letra
miúda sobre o papel:
“Lamento isso da tua irmã
mas alegro-me com a chuva
que é boa para as colheitas”.
Há tempos, amigo, devia ter-te escrito
para te contar coisas de importância:
por exemplo que estou bastante só
depois daquele amor;
por exemplo que durmo muitas horas
para me esquecer de que existo;
por exemplo que estou bastante triste
mas que em algum país haverá eleições
antes do mês de Janeiro.
Terias respondido com a tua letra:
“Não me agrada o teu estado” ou “é preciso
que sacudas o tédio”.
Terias respondido com a tua letra
miúda sobre o papel:
“Eu conheci um senhor que estava morto…”
Ter-me-ias dito que não importa nada,
não importa estar triste ou solitário
se na província chove,
se as colheitas foram boas este Verão
haverá por aí dinheiro em abundância.
Dir-me-ias: “Amigo, o que importa
é ter vontade; quem quer pode”.
(Eu conheci um senhor que estava morto…)
O tal senhor que estava morto, estava
somente um pouco ferido. Disseram-no
os jornais. Até recordo a data.
Ressuscitou, é certo, mas estava
somente um pouco ferido.
Em troca sinto-me destruído, descentrado;
não tenho remédio; passeio,
Vou à taverna e escrevo
cartas que nunca saem de Madrid.
Não falo com ninguém, nunca pergunto
como acabou a festa.
Diz-me se ainda é possível escrever cartas.
Diz-me se ainda é possível estar mais morto.

A poesia de Gabino Alejandro Carriedo (1923-1981) é um daqueles segredos bem guardados e que vale a pena desvendar. Poesia transversal a escolas, lida hoje surge como nossa contemporânea, tanto na oficina como nos temas onde um “eu e o mundo” se reflecte.

O poema Noticia ao entardecer foi publicado na antologia Poesia Espanhola do Após-Guerra, com escolha e tradução do poeta Egito Gonçalves, editada por Portugália Editora em Lisboa, no inicio dos anos sessenta do século XX.

 

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O Complexo do Armário – Poema de Isabel Meyrelles

11 Sexta-feira Jan 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Isabel Meyrelles, Magritte

Magritte_Rene-The_Key_to_the_Fieldds_La_Clef_de_champsRegressado de férias, com a vida a procurar equilibrar-se no escorregadio deste nosso quotidiano, às vezes a sugestão oferecida por Isabel Meyrelles (1929) em O Complexo do Armário ganha apetitosas cores. Partilho-a com quem a não conheça.

O Complexo do Armário

Se é infeliz,
insone, angustiado,
cardíaco, dipsomaníaco,
melancólico
ou hipocondríaco,
se anda deprimido
pelo tempo morto dos sonhos
e se acredita
que um na mão
vale mais
que dois a voar,
faça como eu:
arranje um armário.
O meu tem protecção
contra o nevoeiro, as traças,
a amnésia.
possui o tudo-é-d’esgo(s)to,
ar condicional
e muros acolchoados
para cabeças sensíveis.
Previ também
uns ganchos no tecto
para o excedente dos bolsos:
óculos, amores mortos,
sapatos velhos,
casa dos antepassados
e várias outras coisas
de que não direi o nome.
Para as horas de ócio,
escolhi um pedaço de mar,
a biblioteca de Babel,
a praça St. Germain des Prés
às 5 da manhã
e uma florestado Plistoceno
com inúmeros mamutes
e macairódus,
sem esquecer o fundo sonoro ad hoc,
rugidos, uivos
e barridos extremamente típicos.
Muito repousante.
Experimente
e depois diga se gostou.

Lido este convite a desligar de tudo e encontrar o casulo ou armário onde guardar o que a vida nos deixou, na espera de que o ócio de prazer ainda seja possível, me despeço.

Noticia bibliográfica

O poema foi originalmente escrito em francês e publicado em Le Livre du Tigre em 1977.

A tradução portuguesa é da autora e a transcrição provém de POESIA, Quasi Edições, 2004.

Este livro, POESIA, reúne a poesia da autora, e contém a abrir um pequeno estudo de Perfecto E. Cuadrado, onde este enquadra, na biografia da artista, a obra escultórica e poética, filha do surrealismo.

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Sonhar, com Alberto Lacerda, a abrir 2013

03 Quinta-feira Jan 2013

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Alberto Lacerda, Fernand Leger

Adão e Eva

Completaram-se três anos de blog. Foram três anos de continuada alegria: escrever para o blog, pensar sobre de que falar aqui, rever o que pela vida me encantou e aqui dar noticia, percorrer caminhos de descoberta levado pela vontade de saber mais e dessas novidades deixar o eco, tudo isso foi um imenso prazer, acarinhado pelos leitores que se multiplicaram ao passar dos meses. Chegado 2013 e a aventura vai continuar. Espero tê-los, a vós leitores, por companhia.

Recebamos 2013 com o optimismo que cada novo ano merece, e façamos dele, e da nossa vida, um tempo de inesquecível felicidade.

Feliz Ano Novo, e deixo-vos com Sonhar de Alberto Lacerda (1928-2007).

Sonhar

Quero mais do que nunca
Sonhar
Habitar um espaço que existe
Entre presença e ausência
Ausência
Serenamente exaltante
Presença
Nao minha
Quase nada

Quero regressar ao sonho
Espaço
Que se me abre apenas
Quando sei abrir-me
Abandonar-me

À circular
Linha extasiada do horizonte

Boston
23 de Outubro 90

Poema publicado no livro Átrio, edição INCM, Lisboa 1997

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Poema de Amor – Natércia Freire, com pintura de Matisse

29 Sábado Dez 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Matisse, Natércia Freire

Matisse conversa 1908As mulheres são quem faz do mundo um lugar onde apetece viver. Sabem do amor, numa ciência provavelmente inata, todo o alfabeto, e nós homens, com elas, temos apenas que aprender.

Hoje, vou a Natércia Freire (1920-2004) e ao seu Poema de Amor buscar a palavra poética que dá corpo ao que afirmei:

Teu rosto, no meu rosto, descansado. /  Meu corpo, no teu corpo, adormecido.
…
Meu rosto, no teu rosto de horizontes, / Meu corpo, no teu corpo, a flutuar.

É a total entrega, levando à fusão pelo amor, o que este poema nos trás, a nós, Românticos amantes, viajantes eternos, que nem sempre fazemos ou somos capazes, do que de nós se espera:

olham por nós na hora que se esvai!

Feitas as apresentações, passemos ao poema:

Poema de amor

Teu rosto, no meu rosto, descansado.
Meu corpo, no teu corpo, adormecido.
Bater de asas, tão longe, noutro tempo,
sem relógio nem espaço proibido.

Oh, que atónitos olhos nos contemplam,
nos sorriem, nos dizem: Sossegai!
Românticos amantes, viajantes eternos,
olham por nós na hora que se esvai!

Que música de prados e de fontes!
Que riso de águas vem para nos levar?
Meu rosto, no teu rosto de horizontes,
Meu corpo, no teu corpo, a flutuar.

À ironia da escolha da pintura de Matisse (1869-1964) com que abro o artigo, acrescento a opulência da beleza feminina, tal com vista pelo Mestre na idade madura, em 1935, O Nu Rosa, pintura que me incendeia a imaginação desde a adolescência.

Matisse - O nu rosa 1935

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