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Matisse desenhoO poeta é um fingidor, escreveu Pessoa num poema hoje lendário, e, com efeito, os poetas não são de fiar no que propagam, se não vejamos o exemplo de hoje, com Manuel Bandeira (1886-1968), em torno da alma.

No poema ARTE DE AMAR diz-nos o poeta:

As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

enquanto noutro lugar escreve, no poema UNIDADE,

Minh’alma estava naquele instante
Fora de mim longe muito longe

Chegaste
E desde logo foi Verão

São dois poemas sobre o amor e o sexo, ou dizendo melhor, sobre o sexo e talvez sobre o amor. Em ambos é do físico que se trata, defendendo-se em ARTE DE AMAR o embaraço que é meter a alma nestas matérias, e por outro lado, em UNIDADE, aceitando que a volúpia cresce por contacto mas é a entrega da alma que permite o auge No momento fugaz da unidade.

Desfrutemos agora dos poemas depois deste desnecessário intróito.

ARTE DE AMAR

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Na outra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.

As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

UNIDADE

Minh’alma estava naquele instante
Fora de mim longe muito longe

Chegaste
E desde logo foi Verão
O Verão com as suas palmas os seus mormaços os seus ventos de sôfrega mocidade
Debalde os teus afagos insinuavam quebranto e molície
O instinto de penetração já despertado
Era como uma seta de fogo

Foi então que minh’alma veio vindo
Veio vindo de muito longe
Veio vindo
Para de súbito entrar-me violenta e sacudir-me todo
No momento fugaz da unidade.

1948

Muito antes escrevera o poeta, pondo os versos na voz de uma mulher, Vulgívaga que começa:

Não posso crer que se conceba
Do amor senão o gozo físico!
O meu amante morreu bêbado
E meu marido morreu tísico!

onde do sexo que degrada se fala.

Mas a obra do poeta é um mosaico, e falando da vontade de morrer que a plenitude do gozo traz consigo, encontramos este

FELICIDADE

A doce tarde morre. E tão mansa
Ela esmorece,
Tão lentamente no céu de prece,
Que assim parece, toda repouso,
Como um suspiro de extinto gozo
De uma profunda, longa esperança
Que, enfim cumprida, morre, descansa…

E enquanto a mansa tarde agoniza,
Por entre a névoa fria do mar
Toda a minh’alma foge da brisa:
Tenho vontade de me matar!

Oh, ter vontade de se matar…
Bem sei, é cousa que não se diz.
Que mais a vida me pode dar?
Sou tão feliz!

– Vem, noite mansa…

Nestas fantasias de poeta sobre o amor termino com

MULHERES

Como as mulheres são lindas!
Inútil pensar que é do vestido…
E depois não há só as bonitas:
Há as feias, certas feias em cujos olhos vejo isto:
Uma menininha que é batida e pisada e nunca sai da cozinha.

Como deve ser bom gostar de uma feia!
O meu amor porém não tem bondade alguma.
É fraco! fraco!
Meu Deus, eu amo como as criancinhas…

És linda como uma história da carochinha…
E eu preciso de ti como precisava da mamã e do papá
(No tempo em que pensava que os ladrões moravam no morro atrás de casa e tinham cara de pau.)

Arte de Amar e Unidade constam do livro Belo Belo
Vulgívaga pode ler-se no livro Carnaval
Mulheres foi publicado no livro Libertinagem
Felicidade encontra-se no livro O Ritmo Dissoluto

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