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vicio da poesia

Category Archives: Poesia Antiga

O sonho, pintura de Picasso, para um soneto – adivinha de Bocage

09 Domingo Mar 2014

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Bocage, Picasso

Pablo Picasso - O sonhoEm momentos de desenfado dá-me para a brejeirice. Fujam os leitores para quem a vida só vale se for sempre a sério.

Hoje cá vem um soneto de Bocage (1765-1805) em forma de adivinha, ou uma adivinha em forma de soneto, como preferirem, e cuja solução se encontra na cabeça da mulher pintada por Picasso (1881-1973) mostrada enquanto se entrega a prazeres solitários.

 

 

Soneto XIII

 

É pau, e rei dos paus, não marmelleiro,

Bem que duas gamboas lhe lombrigo;

Dá leite, sem ser arvore de figo,

Da glande o fructo tem, sem ser sobreiro:

 

Verga, e não quebra, como o zambujeiro;

Occo, qual sabugueiro tem o umbigo;

Brando às vezes, qual vime, está comsigo;

Outras vezes mais rijo que um pinheiro:

 

Á roda da raiz produz carqueja:

Todo o resto do tronco é calvo e nú;

Nem cedro, nem pau-sancto mais negreja!

 

Para carvalho ser falta-lhe um u;

Adivinhem agora que pau seja,

E quem adivinhar metta-o no cu.

 

Nota talvez desnecessária

O verso 12 só faz sentido se tivermos presente que no século XVIII tanto o som u como o som v se escreviam de igual forma com u.

 

Transcrevi este Soneto XIII da 1ª edição das Poesias Eroticas, Burlescas e Satyricas de M. M. de Barbosa du Bocage, respeitando integralmente a sua ortografia.

Trata-se de uma edição clandestina de 1854, feita em Lisboa, e datada de Bruxellas — MDCCCLXL, a qual é dos mais estimados exemplares da minha biblioteca.

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O soneto XVIII de Shakespeare

24 Segunda-feira Fev 2014

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Carlos de Oliveira, Shakespeare, Vasco Graça Moura

Miguel  Angelo - Sibila délfica detalhe

São os sonetos de Shakespeare (1564-1616) das mais belas composições poéticas que a humanidade herdou. Entre eles prezo especialmente o soneto 18, objecto de variadas interpretações. Bastam-me os dois últimos versos para o escolher entre todos. Ali se formula de forma irrepetivel o que a beleza nos pode trazer — Vida

So long as men can breathe, or eyes can see,

So long lives this, and this gives life to thee.

As tentativas de mudar para português os sonetos de Shakespeare não têm sido, no que conheço, bem sucedidas. Pontualmente um ou outro soneto surge tão só em transposição quase satisfatória. Para este soneto 18, acompanhando o original em versão modernizada, transcrevo a versão de Carlos de Oliveira (1921-1981) integrando o conjunto de sonetos de Shakespeare que o poeta traduziu e chamou de reescritos, e a versão de Vasco Graça Moura (1942) que íntegra a sua celebrada tradução integral deste opus shakespeareano.

SONNET 18

Shall I compare thee to a summer’s day?

Thou art more lovely and more temperate:

Rough winds do shake the darling buds of May,

And summer’s lease hath all too short a date:

Sometime too hot the eye of heaven shines,

And often is his gold complexion dimmed,

And every fair from fair sometime declines,

By chance, or nature’s changing course untrimmed:

But thy eternal summer shall not fade,

Nor lose possession of that fair thou ow’st,

Nor shall death brag thou wander’st in his shade,

When in eternal lines to time thou grow’st,

  So long as men can breathe, or eyes can see,

  So long lives this, and this gives life to thee.

Versão de Carlos de Oliveira

Comparar-te a um dia de verão?

Há mais ternura em ti, ainda assim:

um maio em flor às mãos do furacão,

o foral do verão que chega ao fim.

Por vezes brilha ardendo o olhar do céu;

outras, desfaz-se a compleição doirada,

perde beleza a beleza; e o que perdeu

vai no acaso, na natureza, em nada.

Mas juro-te que o teu humano verão

será eterno; sempre crescerás

indiferente ao tempo na canção;

e, na canção sem morte, viverás:

Porque o mundo, que vê e que respira,

te verá respirar na minha lira.

Versão de Vasco Graça Moura

Que és um dia de verão não sei se diga.

És mais suave e tens mais formosura:

vento agreste botões frágeis fustiga

em Maio e um verão a prazo pouco dura.

O olho do céu vezes sem conta abrasa,

outras a tez dourada lhe escurece,

todo o belo do belo se desfasa,

por caso ou pelo curso a que obedece

da Natureza; mas teu eterno verão

nem murcha, nem te tira teus pertences,

nem a morte te torna assombração

quando o tempo em eternas linhas vences:

enquanto alguém respire ou possa ver

e viva isto e a ti faça viver.

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A mulher imaginada em sonetos de Gomes Leal

21 Sexta-feira Fev 2014

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Gomes Leal, Mary Cassatt, Paul Gauguin

Mary Cassatt

Bon-vivant que foi, e ao que consta bem sucedido com as mulheres até à maturidade, Gomes Leal (1848-1921) nunca casou, e teve um final de vida trágico que faz do homem um personagem de romance soberbo. Enquanto poeta, a sua poesia, quando não ligada a assuntos de actualidade, mantém a atracção do inesperado numa oficina sem falhas: era um versificador inspirado tanto no soneto como em longos poemas narrativos.

Abundam na poesia de Gomes Leal as imagens de mulher sonhada ou desejada. Escolho hoje três sonetos onde na variedade de cenários o sonho da mulher surge. Une-os o desejo do poeta de fruir uma virgindade casta e sonhando o prazer do pecado, como à época era entendido. Enquadra esta poesia a mentalidade burguesa de final do século XIX, quando foi sucesso sem limites, e dela nos dá uma leitura esclarecedora.

 

Abro com A Jovem Miss:

 

A Jovem Miss

 

Ela é tão loura, lírica, franzina,

Tão mimosa, quieta, virginal,

Como uma bela virgem dum missal,

Toda dourada, e preciosa, e fina.

 

Não há graça mais casta e feminina

Do que a dela! — Seu riso angelical

Cria em nós todo um mundo de moral,

Melhor que tudo o que Platão ensina!

 

Por isso, e, pela sua castidade,

Deve ser gozo intenso, na verdade,

Sentir fundir-se em nós seus olhos régios…

 

E o gozo de a beijar, trémula, amante,

Deve ser quasi estranho! — e semelhante

Ao de fazer terríveis sacrilégios.

 

Sonhada a virgem angelical a quem apetece beijar, trémula, amante, passemos ao gosto do exótico em dois devaneios em forma de soneto. Em ambos, a seriedade e convicção com que o assunto se desenvolve é rematada de forma inesperada com o banal da realidade e das suas necessidades.

Mulher com flores nas mãos 1899

Phantasias

 

Tenho, às vezes, desejos delirantes

De a todos te roubar, meu lírio amado!…

E levar-te, em voo arrebatado,

Aos países fantásticos, distantes.

 

À Índia, China, ou ao Iran, e os meus instantes

Passá-los a teus pés, grave e encruzado,

Num tapete chinês aveludado,

Com flores ideais e extravagantes.

 

Nossa vida seria, — ó pomba minha! —

Mais leve do que a asa da andorinha,

E, nas horas calmosas, eu e tu…

 

Olhando o mar sereno, o mar unido,

Comeríamos os dois arroz cozido…

— Embalados num junco de bambu!

 

Se neste soneto passamos da fantasia etérea ao arroz cozido, vejamos onde nos leva A Selvagem:

Te Nave Nave Fenua 1892

A Selvagem

 

Às vezes, como os grandes fantasistas,

Sinto o desejo intenso das viagens…

E ir sozinho habitar entre os selvagens,

Como num ermo os ásperos trapistas.

 

As grandes, vastas, límpidas paisagens,

Que sabem ver os imortais artistas…

Teriam novos tons, novas imagens,

Longe do mundo avaro e as suas vistas!

 

Com uma virgem — flor dessas montanhas —

Entre os mil sons das árvores estranhas,

Dos coqueiros, bambús … fôra feliz!…

 

Dormiria em seus braços nus, lustrosos,

E ouviria, entre uns beijos voluptuosos,

— Tilintar-lhe as argolas do nariz.

Quando te casarás 1892

Os sonetos foram transcritos do livro Claridades do Sul, 2ª edição (revista e aumentada), Lisboa, 1901.

Modernizei a ortografia sempre que a eufonia do verso não saiu prejudicada. Conservei a pontuação da edição.

 

Iconografia

À bela jovem, e talvez virgem, pintada por Mary Cassatt no início do artigo, acrescentei as taitianas pintadas por Paul Gauguin, razão da troca de um futuro de banqueiro em França pela vida de paraíso nos confins do Pacífico, materializando talvez fantasias equivalentes aos devaneios poéticos que acabámos de ler.

Contos primitivos 1902

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Alguns Fragmentos de Novalis

06 Quinta-feira Fev 2014

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Caspar David Friedrich, Novalis

Caspar David FRIEDRICH 00Existe em nós

um sentido especial para a poesia,

uma disposição poética.

A poesia é absolutamente pessoal,

e por isso indefinível.

Quem não souber nem sentir

de forma imediata

o que é a poesia,

nunca poderá aprendê-lo.

Poesia é poesia.

Diferente, como a noite do dia,

da arte da fala e da palavra.

 

“O fragmento tem um ideal: uma alta condensação, não de pensamento, ou de sabedoria, ou de verdade (como na máxima), mas de música: ao ‘desenvolvimento’ opor-se-ia o ‘tom’, qualquer coisa de articulado e de cantado, uma dicção…“. Citei Roland Barthes a abrir uma escolha de fragmentos de Novalis.

 

 

Ser completo, ser uma pessoa —

é a finalidade

e a pulsão

do ser humano.

Caspar David FRIEDRICH 06

É na oposição à totalidade que o fragmento se situa, quais pedras do mosaico infinito da vida. Dá ele conta de intuições, vestígios, por vezes ilumina um enigma, outras acontece ser veículo de alegorias.

O leitor apreciador de fragmentos é um leitor de começos ( como bem observa João Barrento no ensaio/introdução aos Fragmentos de Novalis (1772-1801) que traduziu, e hoje transcrevo), melancólico por excelência, para quem o perambular é o propósito:

 

 

Procuramos por toda a parte

o que está para lá das coisas,

e o que encontramos

são apenas coisas.

 

 

Quando procuramos o que está para lá das coisas, o que procuramos é a verdade:

 

 

O ser humano afirma-se pela verdade.

Se renuncia à verdade, renuncia a si próprio.

Quem trai a verdade, trai-se a si próprio.

E isto não significa mentir,

mas agir contra as convicções.

Caspar David FRIEDRICH 05

Meditado que está o sentido da verdade, termino com alguns fragmentos sobre o amor:

 

Caspar David FRIEDRICH 00A

 

Todo o objecto amado

é o centro de um paraíso.

 

*

 

O amor é a finalidade final

da história do mundo —

o ámen do universo.

 
*

 

Todo o encantamento é uma loucura

artificialmente provocada.

Toda a paixão é um encantamento

e uma rapariga atraente

uma feiticeira mais real

do que se julga.

 

 

Notícia bibliográfica

Novalis, Fragmentos são Sementes, Selecção, tradução e ensaio de João Barrento, Roma Editora, Lisboa, 2006.

 

Caspar David FRIEDRICH 00B1

 

Acompanham o artigo algumas pinturas de Caspar David Friedrich (1774-1840).

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Sonetos de Reis Quita

03 Segunda-feira Fev 2014

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga, Poesia Portuguesa antiga

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Alexandre Cabanel, Carlo Saraceni, Charles-Joseph Natoire, Domingos dos Reis Quita

carlo-saraceni-1600 AEntre as tristezas e as alegrias do amor correm os sonetos de Domingos dos Reis Quita (1728-1770) que escolhi para, pelo mundo, alegrarem os corações dos que amam, na evidência que o sentimento é perene, e que perdido um, outro virá. Pergunta o poeta: Mas quem pode viver de amor isento[?]

 

Comecemos a viagem com o entusiasmo que, em alegoria, os amores de Marte e Vénus dão conta.

carlo-saraceni-1600Encontra-se o nosso poeta empolgado na espera da noite e de um encontro amoroso, pois Entre sombras o dia luminoso / Já se desmaia, já se desfigura.

entusiasma-se uma vez que Já o feliz instante vem chegando, / Já me vejo nos braços da alegria, / Que estou há tantas horas suspirando.

A coisa corre, e afinal a noite passa num ápice: Mas ai, que já lá vem o claro dia!

 

Soneto XXXIII

 

Entre sombras o dia luminoso

Já se desmaia, já se desfigura.

Já vai por toda a terra a noite escura

Espalhando o descanso deleitoso.

 

Já não se escuta mais que o som gostoso

Desta sonora fonte que murmura.

E já vai pouco a pouco a mágoa dura

Fugindo deste coração saudoso.

 

Já o feliz instante vem chegando,

Já me vejo nos braços da alegria,

Que estou há tantas horas suspirando.

 

Agora zombarei da tirania,

Do martírio que estive suportando:

Mas ai, que já lá vem o claro dia!

 

Não terá sido este amor eterno, e veremos a seguir o poeta em angustiosos tormentos, semelhando tenebroso inverno a que os compara. Mas, se no suceder das estações ao rigor invernal sucederá o esplendor da primavera, para as suas lágrimas não vê consolo:

 

Tudo de triste passa a ser contente, / Só nos meus olhos nunca têm desvio / As lágrimas que choro tristemente.

 

como nos conta no Soneto XXIV que segue.

 

Soneto XXIV

 

Tudo cheio de horror e sentimento,

Mostra o rigor do inverno congelado.

O ar de densas nuvens carregado,

Furiosas, desatando chuva e vento.

 

Despojada do verde luzimento

Se vê toda a campina deste prado;

O rio corre turvo, e despenhado;

Tudo parece igual a meu tormento!

 

Mas passado o rigor do inverno frio,

O nublado ar se vê resplandecente,

Florece o campo, e claro corre o rio.

 

Tudo de triste passa a ser contente,

Só nos meus olhos nunca têm desvio

As lágrimas que choro tristemente.

 

E é no meio de todo este imenso desgosto que o homem, passeando, medita, e como tantos de nós, olhando o mar espera encontrar alivio:

 

Os olhos pelas águas estendia, / Porque alívio a seu mal nelas buscava,

 

e nestes belos versos, Em lágrimas banhado assim dizia:

 

Os suspiros, as lágrimas que choro / Levai, ondas, levai, ligeiro vento, / Para onde me levastes quem adoro.

 

 

Soneto XXXIII

 

Ao longo de uma praia um triste dia,

Já quando a luz do sol se desmaiava,

O saudoso Alcino caminhava

Com seus cuidados só por companhia.

 

Os olhos pelas águas estendia,

Porque alívio a seu mal nelas buscava,

E entre os tristes suspiros que exalava,

Em lágrimas banhado assim dizia:

 

Os suspiros, as lágrimas que choro

Levai, ondas, levai, ligeiro vento,

Para onde me levastes quem adoro.

 

Oh, se podeis ter dó do meu tormento,

Que me torneis o bem, só vos imploro,

Que pusestes em longo apartamento*.

 

*[afastamento]

 

Continuemos com estas emoções do coração, espalhadas por suaves versos, mas agora noutro registo.

Inveja o nosso poeta no Soneto LIX o amigo que, no abrigo da cabana, goza delícias de amor e mesa, e para si tão só e sempre esperanças que Ligeiras folhas são, que o vento leva.

 

Soneto LIX

 

Em sonoros chuveiros desatado

Desça o frígido inverno tormentoso.

Que Aristo satisfeito, e venturoso,

Descansa em tecto rústico abrigado.

 

Alegre come o novo grão dourado,

De seu trabalho fruto deleitoso.

Vê no curvo tonel ferver cheiroso

O roxo mosto a Baco consagrado.

 

Só tu, mísero Alcino, nada alcanças:

Em teu rebanho o lobo o dente ceva,

E debaixo do colmo não descansas.

 

Mas cerca-te da forte e escura treva

Sempre o fruto de tuas esperanças:

Ligeiras folhas são, que o vento leva.

 

Embrulhado em nova paixão, clama agora o poeta por uma Márcia que lhe fugiu. De caminho reflete como o amor apenas conduz à dor, neste Soneto LXVI: [Amor] São estes os teus bosques consagrados / Onde só vejo peitos lacerados, / Corações em extremas agonias?

Soneto LXVI

 

Aonde, amor cruel, aonde me guias?

São estes os teus bosques consagrados

Onde só vejo peitos lacerados,

Corações em extremas agonias?

 

Só respondem as duras penedias

A míseros gemidos em vão dados;

Olhos formosos, rostos delicados

São ministros das tuas tiranias.

 

Já me rasgam o peito em mil pedaços:

Marcia me disparou acerbos tiros,

Lá vai fugindo com velozes passos.

 

Suspende, ó ninfa, os apressados giros,

Deixa cruel, ao menos, que em teus braços

Amintas lance os últimos suspiros.

 

Por mais que suspirar nos braços de Márcia o poeta deseje, se ela foge, outra aparece, pois, sabemos bem, sem uma Márcia nos braços não pode um homem viver:

 

quem pode viver de amor isento, / Vendo naquele rosto soberano /De tais olhos o doce movimento?

Natoire - Cabeça de mulher 530Por isso, no Soneto XX com que concluo esta viagem sentimental, aí o temos, de novo apaixonado:

Finalmente outra vez vejo perdida / Às mãos do amor, a doce liberdade

 

Soneto XX

 

Finalmente outra vez vejo perdida

Às mãos do amor, a doce liberdade

Que já livrei da sua crueldade

Como quem de um naufrágio salva a vida.

 

Já no meu coração nova ferida

Abrem os duros golpes da saudade;

E já vive outra vez minha vontade

De esperanças aéreas revestida.

 

Nunca cuidei que visse, amor tirano,

Tão depressa quebrado o juramento

Que fiz no puro altar do desengano.

 

Mas quem pode viver de amor isento,

Vendo naquele rosto soberano

De tais olhos o doce movimento?

 

Termino com o Soneto LXIX inspirado no episódio da Ilha dos Amores de Os Lusíadas.

No mundo de delícias e suspiros, que o amor permite e o desejo empolga, coloca o nosso poeta os marinheiros portugueses do Gama:

 

Na ilha das delícias aportavam / Já cansados, os lusos navegantes. / Os prazeres, as taças espumantes / Em magnífica mesa [as ninfas] preparavam.

 

No entanto Vasco da Gama ardendo em fogo, descarta os gestos convulsos [d]as bacantes / [que] Lascivos ditirambos alternavam.

 

pois, o herói, que de ardores se alimenta, / Sem que toque os vivificos manjares, / Só em Vénus os olhos apascenta.

Alexandre Cabanel (French, 1823–1889) Nascimento de venus 1875 A

Aí o têm, o soneto:

 

Soneto LXIX

 

Na ilha das delícias aportavam

Já cansados, os lusos navegantes.

Os prazeres, as taças espumantes

Em magnífica mesa preparavam.

 

Os amores de mirtos enramavam

Douradas serpentinas rutilantes,

E com os gestos convulsos as bacantes

Lascivos ditirambos alternavam.

 

Eis que o trovão do bronze rompe os ares,

O vitorioso Gama se apresenta

À bela deusa que nasceu dos mares.

 

Mas o herói, que de ardores se alimenta,

Sem que toque os vivificos manjares,

Só em Vénus os olhos apascenta.

 

Noticia bibliográfica

Os Sonetos foram transcritos do Tomo I da 2ªedição correcta e aumentada com as Obras Póstumas e Vida do Autor, Lisboa, na Tipografia Rollandiana, 1781.

Modernizei a ortografia e simplifiquei a pontuação.

Conservei Florece, em uso na época,em vez de Floresce, forma corrente hoje.

 

Nota sobre as imagens

Abre o artigo com o pormenor de uma pintura de Carlo Saraceni (1579-1620) a que se segue a pintura na totalidade. Pelo meio, o retrato da bela jovem foi desenhado por Charles-Joseph Natoire (1700-1777) e será presumivelmente contemporâneo do poeta. No final uma possivel imagem da deusa nascida dos mares (Vénus) onde o olhar de Vasco da Gama se apascenta…, pintada por Alexandre Cabanel (1823–1889).

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Soneto de Correia Garção para um Feliz 2014

31 Terça-feira Dez 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Correia Garção, Píerre-Auguste Renoir

Renoir - Dance in the City 1883 A1Deste 2013 que termina me despeço com uma floração de amores tal como contada por Correia Garção (1724-1772).

Planta beijos e colhe amores o nosso poeta de hoje. Feliz certamente terá sido. Escolho para acompanhamento visual de semelhante prodígio, pares felizes dançando, no que pode ser a antecipação da festa de muitos leitores. São imagens de pinturas daquele que ficou conhecido como o pintor da gente feliz: Píerre-Auguste Renoir (1841-1919).

Renoir - Dance at Bougival 1883 A1

De beijos um cestinho Amor enchia,

E, depostos os duros passadores,

Quais semeiam o trigo os lavradores

Num campo os semeou todos um dia.

 

Daí a pouco com prazer se via

A seara ferver toda em Amores,

Que aos centos rebentavam entre as flores,

De que o travesso deus folgava e ria.

 

Eu, que bem por acaso ali me achava,

Um deles colho, e sobre o peito o prendo,

Sem recear o mal que me aguardava:

 

Pois as tenras raízes estendendo,

Pouco a pouco no coração mas crava

Donde novos amores vão nascendo.

Renoir - Dance in the Country 1883 A1

Por agora despeço-me. Encontrar-nos-emos aqui no próximo ano.

Que aos leitores 2014 traga semelhante floração, fazendo do ano que se inicia um Feliz Ano Novo.

A todos desejo que no próximo ano repitam o que de bom este ano tiveram e acrescentem o que dos sonhos mais desejem.

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No final do ano com poesia de Su Tung P’o

30 Segunda-feira Dez 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Jan Steen, Su Tung P'o

Garden Party 1677 A1Desconheço as origens da mística que envolve a chegada do Ano Novo. A excitação e entusiasmo que se apodera de nós acaba por ser o escape para a esperança que não morre por mais que a realidade a tente extinguir. Como há dias dizia a pessoa amiga: esperança tenho sempre, o tamanho é que varia.

Bom, mas voltando ao que no blog nos ocupa: a poesia, encontro num poeta chinês, velho de quase mil anos, Su Tung P’o (1036-1101), interrogações que nunca me tinha colocado:

 

Quando um ano partiu, como o voltarás a encontrar?

Pergunto-me para onde terá ido, este ano que acabou?

 

Na simplicidade das perguntas um mundo de respostas. A cada um as suas.

Leaving the Tavern A1Deixo-vos, se à meditação o final do ano vos convidar, três poemas de Su Tung P’o, em versões da minha responsabilidade a partir da tradução inglesa de Kenneth Rexroth.

O último dia do ano

O ano a terminar

é como cobra arrastando-se no chão

Dentro em pouco já não o verás pois quase desapareceu.

Foi-se embora e com ele as preocupações.

Seria pior se o pudesses agarrar pela cauda.

Porquê tentar se daí não virá qualquer bem.

As crianças estão despertas, não conseguem adormecer.

Ficam levantadas toda a noite, rindo e brincando.

Os galos não cantam anunciando o amanhecer.

O relógio não ressoa nos gongos.

Toda a gente está a pé enquanto as velas ardem devagar,

desconsoladas e em grupo olham as estrelas lá fora.

Espero que o próximo ano seja melhor que este.

Mas sei que será exactamente o mesmo:

velhos erros e oportunidades perdidas.

Talvez na próxima noite de fim-de-ano conclua que foi melhor.

Deveria.

Sou ainda novo e cheio de confiança.

Tavern Garden 1660 A1

O fim do ano

Quando um amigo inicia uma viagem de milhares de quilómetros

e está prestes a partir, adia, adia, uma e outra vez.

Quando os homens partem, sentem que podem não voltar a encontrar-se.

Quando um ano partiu, como o voltarás a encontrar?

Pergunto-me para onde terá ido, este ano que acabou?

Certamente algum lugar bem longe do horizonte.

Partiu como um rio que corre para leste,

e desagua no mar sem esperança de retorno.

Os meus vizinhos da esquerda bebem vinho quente.

Os da direita grelham um porco gordo.

Terão um dia de alegria

em recompensa de um ano de problemas.

Deixamos o ano que acaba partir sem pena.

Deixaremos tão sem preocupação os anos chegar?

Tudo passa, tudo parte, sempre sem um olhar atrás.

E nós cada vez mais velhos e mais fracos.

The Bean Feast 1668 A1

A passagem do ano

Cai a noite. As nuvens dispersam-se e desaparecem.

O céu está puro e frio.

Silenciosamente o Rio do Paraíso transforma-se em Abóbada de Jade.

Se esta noite não gozar a vida em pleno,

Fá-lo-ei no próximo mês, no próximo ano? Quem sabe quando será!

Steen_Jan-The_Effects_of_Intemperance A1

Acompanham o artigo pinturas de Jan Steen (1626-1679) dando conta de festas de arromba, apropriadas para fechar o ano velho.

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Prazer e idade em Ovídio para uma pintura de L.-J.- F. Lagrenée

17 Terça-feira Dez 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Erótica, Poesia Antiga

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Louis-Jean-François Lagrenée, Ovídio

NM 840Poucas vezes a pintura cristalizou em gesto a ternura, o desejo, o encanto do outro, o amor, como L.J. F. Lagrenée (1724-1805) neste par amoroso adolescente. Este enlevo só foge com a idade se o deixarmos. A rotina, a certeza do outro dando por adquirido um patamar de paixão, são inimigas constantes da continuidade de uma relação no tempo. Se factores externos, que muitas vezes não controlamos, contribuem para o fim de uma ligação amorosa, componentes há que estão ao alcance de ambos: é seguir os concelhos de Ovídio que, no fragmento de Arte de Amar a seguir transcrito, mostra já saber da existência do ponto G, expectativa e angústia do seu fruir nos nossos dias.

Livro II, versos 717-728

Acredita no que te digo: não deve apressar-se o prazer de Vénus,

mas sim, discretamente, fazer por retardá-lo e demorá-lo.

Quando descobrires o ponto onde a mulher se excita ao ser tocada,

não seja o pudor a impedir-te de o tocar;

verás os seus olhos a brilhar de fogo cintilante,

como tantas vezes o sol reflete a luz na superfície da água;

far-se-ão ouvir queixumes, far-se-á ouvir um encantador sussurro

e doces gemidos e palavras apropriadas ao prazer.

Mas não deixes para trás a tua parceira, desfraldando mais largas velas,

nem seja mais rápido o ritmo dela que o teu;

avançai para a meta ao mesmo tempo; então, será pleno o prazer,

quando par a par, jazerem, vencidos, a mulher e o homem.

Aqui está a provável origem do mito da indispensabilidade do orgasmo simultâneo para um prazer pleno, coisa que numa tarde de amor se revela bem secundária, quando o ir e vir nos permite permanecer no que sexólogo chamam estado de  plateaux ou parecido.

NM 840

Mas continuemos que há mais conselhos, desta vez sobre carpe diem, gozar o dia que passa. Consta do Livro III, agora dedicado às mulheres, neste precioso Arte de Amar, e transcrevo os versos 59-66.

Tende desde já na lembrança que a velhice há-de chegar;

e não deixeis, por isso, esvair-se tempo algum na ociosidade;

enquanto vos for consentido e conservardes, ainda, a idade da Primavera,

gozai; vão-se os anos, do mesmo modo que a água corrente;

nem a onda que passou voltará de novo a ser chamada,

nem a hora que passou logra tornar atrás.

Há que aproveitar a idade. Com passo rápido se escapa a idade,

e não é tão boa a que vem depois, quão boa foi a que veio antes.

Felizmente no tempo que nos é dado viver a Primavera é longeva, mas a certa altura vai dando sinais de querer partir.

Transcrevi da tradução de Carlos Ascenso André, Arte de Amar, Livros Cotovia, Lisboa, 2006.

A pintura de Louis-Jean-François Lagrenée pertence à colecção do Museu Nacional da Suécia, e aqui a deixo na totalidade.

NM 840

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Quando fores velha — entre W. B. Yeats e Pierre Ronsard

09 Segunda-feira Dez 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga, Poetas e Poemas

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James McNeill Whistler, Pierre Ronsard, W. B. Yeats

Whistler - retrato da mãe do pintorMuitos amaram os momentos de teu alegre encanto, / Muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor, / Mas apenas um homem amou … as mágoas do teu rosto que mudava;

É um magoado apaixonado quem assim fala, lembrando o efeito do passar do tempo no contraponto com a constância do seu amor.

São versos do poema When You Are Old de William Butler Yeats (1865-1939) em tradução do poeta José Agostinho Baptista, que a seguir transcrevo na totalidade.

 

Quando Fores Velha

 

Quando fores velha, grisalha, vencida pelo sono,

Dormitando junto à lareira, toma este livro,

Lê-o devagar, e sonha com o doce olhar

Que outrora tiveram teus olhos, e com as suas sombras profundas;

 

Muitos amaram os momentos de teu alegre encanto,

Muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor,

Mas apenas um homem amou tua alma peregrina,

E amou as mágoas do teu rosto que mudava;

 

Inclinada sobre o ferro incandescente,

Murmura, com alguma tristeza, como o Amor te abandonou

E em largos passos galgou as montanhas

Escondendo o rosto numa imensidão de estrelas.

 

When You Are Old

 

When you are old and grey and full of sleep,

And nodding by the fire, take down this book,

And slowly read, and dream of the soft look

Your eyes had once, and of their shadows deep;

 

How many loved your moments of glad grace,

And loved your beauty with love false or true,

But one man loved the pilgrim soul in you,

And loved the sorrows of your changing face;

 

And bending down beside the glowing bars,

Murmur, a little sadly, how Love fled

And paced upon the mountains overhead

And hid his face amid a crowd of stars.

Este poema de Yeats reelabora o assunto de um dos sonetos a Helena escritos por Píerre Ronsard (1524-1585).

O conjunto desta pouco mais de centena de poemas de Ronsard à amada(?) Helena (Hélène de Surgères) é um universo de grande densidade erótica, afastado do mundo poético de Yeats, onde talvez o único ponto de contacto seja este mesmo escrito para a memória de uma paixão desdenhada.O assunto pedido de empréstimo por Yeats a Ronsard consta do soneto 24 a Helena:

 

 

Soneto 24 a Helena

 

Quando fordes bem velha ao serão, à candela,

sentada ao pé do lume a dobar, e fiando,

cantando versos meus, direis maravilhando:

“celebrou-me Ronsard no tempo em que fui bela.”

 

Nem criada tereis que acaso ouvindo ela

tal nova, em seus afãs  já quase dormitando,

de o meu nome soar não esperte, abençoando

vosso nome em louvor que eterno se revela.

 

Em terra eu estarei, fantasma já sem osso,

entre mirtos e sombra a repousar num fosso;

vós sereis à lareira, idosa e encolhida,

 

chorando o meu amor e o vosso vão desdém

pois, crede-me, vivei sem ver se amanhã vem:

colhei desde hoje mesmo as rosas desta vida.

 

Original

 

Quand vous serez bien vieille, au soir à la chandelle,

Assise auprès du feu, dévidant et filant,

Direz chantant mes vers, en vous émerveillant :

« Ronsard me célébrait du temps que j’étais belle.»

 

Lors vous n’aurez servante oyant telle nouvelle,

Déjà sous le labeur à demi sommeillant,

Qui au bruit de mon nom ne s’aille réveillant,

Bénissant votre nom de louange immortelle.

 

Je serai sous la terre, et fantôme sans os

Par les ombres myrteux je prendrai mon repos;

Vous serez au foyer une vieille accroupie,

 

Regrettant mon amour et votre fier dédain.

Vivez, si m’en croyez, n’attendez à demain:

Cueilllez dès aujourd’hui les roses de la vie.

 

A história oficial destes talvez platónicos amores de um Ronsard com mais de cinquenta anos por uma Hélène de Surgères vinte e alguns anos mais nova, deixa muito a desejar, quando pretende que a letra dos poemas .é apenas retórica, embora, diga-se, estejam escritos como presente, dando conta de um desejo, e não como passado, qual em poemas de Amores acontece, relatando o acontecido. Vamos então ao soneto à Helena amante(?):

Beija-me, minha amante, beija-me mais, estreita-

me, bafo contra bafo, e aquece-me esta vida,

dá-me assim beijos mil e mais mil de seguida,

amor quer tudo inúmero, amor leis não aceita.

 

Beija e beija outra vez, ó boca tão perfeita,

porque te hás-de guardar, sendo em livor jazida,

pra beijar (de Plutão a dama ou a válida)

sem coração, nem já imagem que deleita?

 

De teus beiços de rosa em vida me cobrindo,

balbucia a beijar-me, a boca entreabrindo,

mil sons a entrecortar, morrendo entre meus braços.

 

Eu morrerei nos teus, e, tu ressuscitada,

eu ressuscitarei, juntemos nossos passos:

o dia mesmo curto é mais do que a noitada.

 

Original

 

Maîtresse, embrasse-moi, baise-moi, serre-moi,

Haleine contre haleine, échauffe-moi la vie,

Mille et mille baisers donne-moi je te prie,

Amour veut tout sans nombre, amour n’a point de loi.

 

Baise et rebaise-moi ; belle bouche pourquoi

Te gardes-tu là-bas, quand tu seras blêmie,

A baiser (de Pluton ou la femme ou l’amie),

N’ayant plus ni couleur, ni rien semblable à toi ?

 

En vivant presse-moi de tes lèvres de roses,

Bégaie, en me baisant, à lèvres demi-closes

Mille mots tronçonnés, mourant entre mes bras.

 

Je mourrai dans les tiens, puis, toi ressuscitée,

Je ressusciterai ; allons ainsi là-bas,

Le jour, tant soit-il court, vaut mieux que la nuitée.

Ainda uma breve nota sobre as explícitas referências clássicas no soneto 24: à ode I-XI de Horácio conhecida por Carpe diem —… vivei sem ver se amanhã vem: / colhei desde hoje mesmo as rosas desta vida.—; e ao carme  V de Catulo —… beijos mil e mais mil…—.

As versões rimadas dos sonetos de Ronsard são do poeta Vasco Graça Moura.

 

A pintura que abre o artigo, de James McNeill Whistler (1834-1903), interessa-me não tanto por figurar a mãe do pintor, mas sobretudo pela forma com faz uma certa leitura da velhice: o vasto negrume que envolve uma imobilidade talvez doente, num físico que a vida secou. É um quadro onde alguma harmonia na forma convive com uma desolada serenidade de onde a alegria partiu, e nessa medida dá uma velhice possivel.

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Ó gloria de mandar! Ó vã cobiça – a fala do Velho do Restelo em Os Lusíadas

04 Quarta-feira Dez 2013

Posted by viciodapoesia in Cânone XXI, Convite à arte, Poesia Antiga

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Camões, Os Lusíadas, Turner

Turner slave-ship

Contrariamente à voz corrente, guardei do estudo de Os Lusíadas no Liceu, a memória de longos trechos e um gosto pelo poema, sempre renovado de cada vez que nele me perco.

Em Os Lusíadas, poema épico à maneira dos clássicos Ilíada, Odisseia e Eneida, conta Camões (1524(?)-1580) a história de Portugal até à sua época e o detalhe da aventura da descoberta do caminho por mar até à Índia.

Como dispositivo narrativo para descrever a história passada de Portugal ao rei de Calecute nos Cantos III e IV, coloca o poeta o relato na boca de Vasco da Gama, o chefe da armada que descobriu o caminho maritImo para a Índia:

Canto III

III

Prontos estavam todos escutando

O que o sublime Gama contaria,

Quando depois de um pouco estar cuidando,

Alevantado o rosto, assim dizia:

– “Mandas-me, ó Rei, que conte declarando

Da minha gente a grã genealogia;

Nao me mandas contar estranha história,

Mas mandas-me louvar dos meus a glória.

 

Ao longo do Canto III assistimos ao relato dos acontecimentos respeitando à formação de Portugal e consolidação geográfica do território até final da primeira dinastia. É nesse canto que encontramos o episódio de Inês de Castro

 

Estava linda Inês …

 

No Canto IV são relatadas as peripécias das conquistas e derrotas no norte de África até à preparação e partida das naus que viriam a descobrir o caminho para a Índia através do oceano Atlântico.

Turner grand-canal

Como é sabido, as matérias primas e artigos de luxo produzidos no Oriente e sumamente apreciados pelos poderosos ocidentais, o equivalente da alta costura francesa, perfumes e champanhe, etc, de hoje, chegavam às cortes e sociedades europeias por terra, vendidas através da Republica de Veneza, à qual aportavam por demoradas e perigosas viagens através de territórios em grandes parte desérticos. A descoberta de uma via marítima para a realização deste comércio, controlada por Portugal, deu ao país a riqueza e o esplendor de que ainda não se refez no século XXI.

Mas voltando a Camões e ao seu poema, no final do canto IV encontra-se a mais intemporal e por isso mesmo eterna, formulação poética da ambivalência entre ambição humana e gosto pela aventura e risco, conhecida como a fala do Velho do Restelo. Por tal modo famosa que passou para o imaginário popular o epíteto de Velho do Restelo para todo aquele que perante desafios repletos de riscos, aconselham prudência e tento na ambição.

Antes de se ouvir o velho, é ainda Vasco da Gama quem fala, relatando como a população de Lisboa acorreu à praia do Restelo, onde hoje se encontra a famosa Torre de Belém, precisamente a assinalar esta partida, despedindo-se de quem partia.

São versos de uma pungência e actualidade tais que voltaram a ser sentidos e chorados quando do cais da Rocha em Lisboa partiam os navios carregados de soldados para combater nas guerras de África nos anos 60 do século XX.

Feita a descrição nas estrofes LXXXVIII a XCIII, segue-se a entrada na narrativa do velho do Restelo e a sua intemporal reflexão sobre a gloria de mandar, a vã cobiça, por tal forma que

 

 

Nenhum cometimento alto e nefando, / Por fogo, ferro, água, calma e frio,

Deixa intentado a humana geração! / Mísera sorte! Estranha condição!”

 

 

Canto IV
XCIV
Mas um velho de aspeito venerando,
Que ficava nas praias, entre a gente,
Postos em nós os olhos, meneando
Três vezes a cabeça, descontente,
A voz pesada um pouco alevantando,
Que nós no mar ouvimos claramente,
Cum saber só de experiências feito,
Tais palavras tirou do experto peito:
XCV
— “Ó gloria de mandar! Ó vã cobiça
Desta vaidade a quem chamamos fama!
Ó fraudulento gosto que se atiça
 Cūa aura popular que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles experimentas!
XCVI
“Dura inquietação de alma e da vida,
Fonte de desemparos e adultérios,
Sagaz consumidora conhecida
De fazendas, de reinos e de impérios!
Chamam-te ilustre, chamam-te subida,
Sendo dina de infames vitupérios;
Chamam-te Fama e Gloria soberana,
Nomes com quem se o povo néscio engana!
XCVII
“A que novos desastres determinas
De levar estes Reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas
Debaxo dalgum nome preminente?
Que promessas de reinos e de minas
 De ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhe prometerás? Que historias?
Que triunfos? Que palmas? Que vitórias?
XCVIII
“Mas ó tu, geração daquele insano,
Cujo pecado e desobediência
Não somente do Reino soberano
Te pôs neste desterro e triste ausência,
Mas inda doutro estado mais que humano,
Da quieta e da simples inocência,
Idade de ouro, tanto te privou,
Que na de ferro e de armas te deitou:
XCIX
“Já que nesta gostosa vaidade
 Tanto enlevas a leve fantasia,
Já que à bruta crueza e feridade
Puseste nome esforço e valentia,
Já que prezas em tanta quantidade
O desprezo da vida, que devia
De ser sempre estimada, pois que já
 Temeu tanto perdê-la quem a dá,
C
“Não tens junto contigo o Ismaelita,
Com quem sempre terás guerras sobejas?
Não segue ele do Arábio a lei maldita,
Se tu pola de Cristo só pelejas?
Não tem cidades mil, terra infinita,
Se terras e riquezas mais desejas?
Não é ele por armas esforçado,
Se queres por vitórias ser louvado?
CI
“Deixas criar às portas o inimigo
Por ires buscar outro de tão longe,
Por quem se despovoe o Reino antigo,
Se enfraqueça e se vá deitando a longe!
Buscas o incerto e incógnito perigo,
Porque a fama te exalte e te lisonge,
Chamando-te senhor, com larga cópia,
Da Índia, Pérsia, Arábia e de Etiópia!
CII
“Ó! Maldito o primeiro que no mundo
Nas ondas vela pôs em seco lenho!
Dino da eterna pena do Profundo,
Se é justa a justa lei que sigo e tenho!
Nunca juízo algum, alto e profundo,
Nem cítara sonora ou vivo engenho
Te dê por isso fama nem memória,
Mas contigo se acabe o nome e glória!
CIII
“Trouxe o filho de Jápeto do céu
O fogo que ajuntou ao peito humano,
Fogo que o mundo em armas acendeu,
Em mortes, em desonras. Grande engano!
Quanto melhor nos fora, Prometeu,
E quanto pera o mundo menos dano,
Que a tua estátua ilustre não tivera
Fogo de altos desejos que a movera!
CIV
“Não cometera o moço miserando
O carro alto do pai, nem ora vazio
O grande arquitector co filho, dando
Um, nome ao mar, e o outro, fama ao rio.
Nenhum cometimento alto e nefando,
Por fogo, ferro, água, calma e frio,
Deixa intentado a humana geração!
Mísera sorte! Estranha condição!”

 

 

As imagens que acompanham o artigo são de pinturas de Turner (1755-1851): Naufrágio de navio de escravos e O grande canal de Veneza.

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