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Garden Party 1677 A1Desconheço as origens da mística que envolve a chegada do Ano Novo. A excitação e entusiasmo que se apodera de nós acaba por ser o escape para a esperança que não morre por mais que a realidade a tente extinguir. Como há dias dizia a pessoa amiga: esperança tenho sempre, o tamanho é que varia.

Bom, mas voltando ao que no blog nos ocupa: a poesia, encontro num poeta chinês, velho de quase mil anos, Su Tung P’o (1036-1101), interrogações que nunca me tinha colocado:

 

Quando um ano partiu, como o voltarás a encontrar?

Pergunto-me para onde terá ido, este ano que acabou?

 

Na simplicidade das perguntas um mundo de respostas. A cada um as suas.

Leaving the Tavern A1Deixo-vos, se à meditação o final do ano vos convidar, três poemas de Su Tung P’o, em versões da minha responsabilidade a partir da tradução inglesa de Kenneth Rexroth.

O último dia do ano

O ano a terminar

é como cobra arrastando-se no chão

Dentro em pouco já não o verás pois quase desapareceu.

Foi-se embora e com ele as preocupações.

Seria pior se o pudesses agarrar pela cauda.

Porquê tentar se daí não virá qualquer bem.

As crianças estão despertas, não conseguem adormecer.

Ficam levantadas toda a noite, rindo e brincando.

Os galos não cantam anunciando o amanhecer.

O relógio não ressoa nos gongos.

Toda a gente está a pé enquanto as velas ardem devagar,

desconsoladas e em grupo olham as estrelas lá fora.

Espero que o próximo ano seja melhor que este.

Mas sei que será exactamente o mesmo:

velhos erros e oportunidades perdidas.

Talvez na próxima noite de fim-de-ano conclua que foi melhor.

Deveria.

Sou ainda novo e cheio de confiança.

Tavern Garden 1660 A1

O fim do ano

Quando um amigo inicia uma viagem de milhares de quilómetros

e está prestes a partir, adia, adia, uma e outra vez.

Quando os homens partem, sentem que podem não voltar a encontrar-se.

Quando um ano partiu, como o voltarás a encontrar?

Pergunto-me para onde terá ido, este ano que acabou?

Certamente algum lugar bem longe do horizonte.

Partiu como um rio que corre para leste,

e desagua no mar sem esperança de retorno.

Os meus vizinhos da esquerda bebem vinho quente.

Os da direita grelham um porco gordo.

Terão um dia de alegria

em recompensa de um ano de problemas.

Deixamos o ano que acaba partir sem pena.

Deixaremos tão sem preocupação os anos chegar?

Tudo passa, tudo parte, sempre sem um olhar atrás.

E nós cada vez mais velhos e mais fracos.

The Bean Feast 1668 A1

A passagem do ano

Cai a noite. As nuvens dispersam-se e desaparecem.

O céu está puro e frio.

Silenciosamente o Rio do Paraíso transforma-se em Abóbada de Jade.

Se esta noite não gozar a vida em pleno,

Fá-lo-ei no próximo mês, no próximo ano? Quem sabe quando será!

Steen_Jan-The_Effects_of_Intemperance A1

Acompanham o artigo pinturas de Jan Steen (1626-1679) dando conta de festas de arromba, apropriadas para fechar o ano velho.

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