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Whistler - retrato da mãe do pintorMuitos amaram os momentos de teu alegre encanto, / Muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor, / Mas apenas um homem amou … as mágoas do teu rosto que mudava;

É um magoado apaixonado quem assim fala, lembrando o efeito do passar do tempo no contraponto com a constância do seu amor.

São versos do poema When You Are Old de William Butler Yeats (1865-1939) em tradução do poeta José Agostinho Baptista, que a seguir transcrevo na totalidade.

 

Quando Fores Velha

 

Quando fores velha, grisalha, vencida pelo sono,

Dormitando junto à lareira, toma este livro,

Lê-o devagar, e sonha com o doce olhar

Que outrora tiveram teus olhos, e com as suas sombras profundas;

 

Muitos amaram os momentos de teu alegre encanto,

Muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor,

Mas apenas um homem amou tua alma peregrina,

E amou as mágoas do teu rosto que mudava;

 

Inclinada sobre o ferro incandescente,

Murmura, com alguma tristeza, como o Amor te abandonou

E em largos passos galgou as montanhas

Escondendo o rosto numa imensidão de estrelas.

 

When You Are Old

 

When you are old and grey and full of sleep,

And nodding by the fire, take down this book,

And slowly read, and dream of the soft look

Your eyes had once, and of their shadows deep;

 

How many loved your moments of glad grace,

And loved your beauty with love false or true,

But one man loved the pilgrim soul in you,

And loved the sorrows of your changing face;

 

And bending down beside the glowing bars,

Murmur, a little sadly, how Love fled

And paced upon the mountains overhead

And hid his face amid a crowd of stars.

Este poema de Yeats reelabora o assunto de um dos sonetos a Helena escritos por Píerre Ronsard (1524-1585).

O conjunto desta pouco mais de centena de poemas de Ronsard à amada(?) Helena (Hélène de Surgères) é um universo de grande densidade erótica, afastado do mundo poético de Yeats, onde talvez o único ponto de contacto seja este mesmo escrito para a memória de uma paixão desdenhada.O assunto pedido de empréstimo por Yeats a Ronsard consta do soneto 24 a Helena:

 

 

Soneto 24 a Helena

 

Quando fordes bem velha ao serão, à candela,

sentada ao pé do lume a dobar, e fiando,

cantando versos meus, direis maravilhando:

“celebrou-me Ronsard no tempo em que fui bela.”

 

Nem criada tereis que acaso ouvindo ela

tal nova, em seus afãs  já quase dormitando,

de o meu nome soar não esperte, abençoando

vosso nome em louvor que eterno se revela.

 

Em terra eu estarei, fantasma já sem osso,

entre mirtos e sombra a repousar num fosso;

vós sereis à lareira, idosa e encolhida,

 

chorando o meu amor e o vosso vão desdém

pois, crede-me, vivei sem ver se amanhã vem:

colhei desde hoje mesmo as rosas desta vida.

 

Original

 

Quand vous serez bien vieille, au soir à la chandelle,

Assise auprès du feu, dévidant et filant,

Direz chantant mes vers, en vous émerveillant :

« Ronsard me célébrait du temps que j’étais belle.»

 

Lors vous n’aurez servante oyant telle nouvelle,

Déjà sous le labeur à demi sommeillant,

Qui au bruit de mon nom ne s’aille réveillant,

Bénissant votre nom de louange immortelle.

 

Je serai sous la terre, et fantôme sans os

Par les ombres myrteux je prendrai mon repos;

Vous serez au foyer une vieille accroupie,

 

Regrettant mon amour et votre fier dédain.

Vivez, si m’en croyez, n’attendez à demain:

Cueilllez dès aujourd’hui les roses de la vie.

 

A história oficial destes talvez platónicos amores de um Ronsard com mais de cinquenta anos por uma Hélène de Surgères vinte e alguns anos mais nova, deixa muito a desejar, quando pretende que a letra dos poemas .é apenas retórica, embora, diga-se, estejam escritos como presente, dando conta de um desejo, e não como passado, qual em poemas de Amores acontece, relatando o acontecido. Vamos então ao soneto à Helena amante(?):

Beija-me, minha amante, beija-me mais, estreita-

me, bafo contra bafo, e aquece-me esta vida,

dá-me assim beijos mil e mais mil de seguida,

amor quer tudo inúmero, amor leis não aceita.

 

Beija e beija outra vez, ó boca tão perfeita,

porque te hás-de guardar, sendo em livor jazida,

pra beijar (de Plutão a dama ou a válida)

sem coração, nem já imagem que deleita?

 

De teus beiços de rosa em vida me cobrindo,

balbucia a beijar-me, a boca entreabrindo,

mil sons a entrecortar, morrendo entre meus braços.

 

Eu morrerei nos teus, e, tu ressuscitada,

eu ressuscitarei, juntemos nossos passos:

o dia mesmo curto é mais do que a noitada.

 

Original

 

Maîtresse, embrasse-moi, baise-moi, serre-moi,

Haleine contre haleine, échauffe-moi la vie,

Mille et mille baisers donne-moi je te prie,

Amour veut tout sans nombre, amour n’a point de loi.

 

Baise et rebaise-moi ; belle bouche pourquoi

Te gardes-tu là-bas, quand tu seras blêmie,

A baiser (de Pluton ou la femme ou l’amie),

N’ayant plus ni couleur, ni rien semblable à toi ?

 

En vivant presse-moi de tes lèvres de roses,

Bégaie, en me baisant, à lèvres demi-closes

Mille mots tronçonnés, mourant entre mes bras.

 

Je mourrai dans les tiens, puis, toi ressuscitée,

Je ressusciterai ; allons ainsi là-bas,

Le jour, tant soit-il court, vaut mieux que la nuitée.

Ainda uma breve nota sobre as explícitas referências clássicas no soneto 24: à ode I-XI de Horácio conhecida por Carpe diem —… vivei sem ver se amanhã vem: / colhei desde hoje mesmo as rosas desta vida.—; e ao carme  V de Catulo —… beijos mil e mais mil…—.

As versões rimadas dos sonetos de Ronsard são do poeta Vasco Graça Moura.

 

A pintura que abre o artigo, de James McNeill Whistler (1834-1903), interessa-me não tanto por figurar a mãe do pintor, mas sobretudo pela forma com faz uma certa leitura da velhice: o vasto negrume que envolve uma imobilidade talvez doente, num físico que a vida secou. É um quadro onde alguma harmonia na forma convive com uma desolada serenidade de onde a alegria partiu, e nessa medida dá uma velhice possivel.

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