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Pablo Picasso - O sonhoEm momentos de desenfado dá-me para a brejeirice. Fujam os leitores para quem a vida só vale se for sempre a sério.

Hoje cá vem um soneto de Bocage (1765-1805) em forma de adivinha, ou uma adivinha em forma de soneto, como preferirem, e cuja solução se encontra na cabeça da mulher pintada por Picasso (1881-1973) mostrada enquanto se entrega a prazeres solitários.

 

 

Soneto XIII

 

É pau, e rei dos paus, não marmelleiro,

Bem que duas gamboas lhe lombrigo;

Dá leite, sem ser arvore de figo,

Da glande o fructo tem, sem ser sobreiro:

 

Verga, e não quebra, como o zambujeiro;

Occo, qual sabugueiro tem o umbigo;

Brando às vezes, qual vime, está comsigo;

Outras vezes mais rijo que um pinheiro:

 

Á roda da raiz produz carqueja:

Todo o resto do tronco é calvo e nú;

Nem cedro, nem pau-sancto mais negreja!

 

Para carvalho ser falta-lhe um u;

Adivinhem agora que pau seja,

E quem adivinhar metta-o no cu.

 

Nota talvez desnecessária

O verso 12 só faz sentido se tivermos presente que no século XVIII tanto o som u como o som v se escreviam de igual forma com u.

 

Transcrevi este Soneto XIII da 1ª edição das Poesias Eroticas, Burlescas e Satyricas de M. M. de Barbosa du Bocage, respeitando integralmente a sua ortografia.

Trata-se de uma edição clandestina de 1854, feita em Lisboa, e datada de Bruxellas — MDCCCLXL, a qual é dos mais estimados exemplares da minha biblioteca.

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