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Miguel  Angelo - Sibila délfica detalhe

São os sonetos de Shakespeare (1564-1616) das mais belas composições poéticas que a humanidade herdou. Entre eles prezo especialmente o soneto 18, objecto de variadas interpretações. Bastam-me os dois últimos versos para o escolher entre todos. Ali se formula de forma irrepetivel o que a beleza nos pode trazer — Vida

So long as men can breathe, or eyes can see,

So long lives this, and this gives life to thee.

As tentativas de mudar para português os sonetos de Shakespeare não têm sido, no que conheço, bem sucedidas. Pontualmente um ou outro soneto surge tão só em transposição quase satisfatória. Para este soneto 18, acompanhando o original em versão modernizada, transcrevo a versão de Carlos de Oliveira (1921-1981) integrando o conjunto de sonetos de Shakespeare que o poeta traduziu e chamou de reescritos, e a versão de Vasco Graça Moura (1942) que íntegra a sua celebrada tradução integral deste opus shakespeareano.

SONNET 18

Shall I compare thee to a summer’s day?

Thou art more lovely and more temperate:

Rough winds do shake the darling buds of May,

And summer’s lease hath all too short a date:

Sometime too hot the eye of heaven shines,

And often is his gold complexion dimmed,

And every fair from fair sometime declines,

By chance, or nature’s changing course untrimmed:

But thy eternal summer shall not fade,

Nor lose possession of that fair thou ow’st,

Nor shall death brag thou wander’st in his shade,

When in eternal lines to time thou grow’st,

  So long as men can breathe, or eyes can see,

  So long lives this, and this gives life to thee.

Versão de Carlos de Oliveira

Comparar-te a um dia de verão?

Há mais ternura em ti, ainda assim:

um maio em flor às mãos do furacão,

o foral do verão que chega ao fim.

Por vezes brilha ardendo o olhar do céu;

outras, desfaz-se a compleição doirada,

perde beleza a beleza; e o que perdeu

vai no acaso, na natureza, em nada.

Mas juro-te que o teu humano verão

será eterno; sempre crescerás

indiferente ao tempo na canção;

e, na canção sem morte, viverás:

Porque o mundo, que vê e que respira,

te verá respirar na minha lira.

Versão de Vasco Graça Moura

Que és um dia de verão não sei se diga.

És mais suave e tens mais formosura:

vento agreste botões frágeis fustiga

em Maio e um verão a prazo pouco dura.

O olho do céu vezes sem conta abrasa,

outras a tez dourada lhe escurece,

todo o belo do belo se desfasa,

por caso ou pelo curso a que obedece

da Natureza; mas teu eterno verão

nem murcha, nem te tira teus pertences,

nem a morte te torna assombração

quando o tempo em eternas linhas vences:

enquanto alguém respire ou possa ver

e viva isto e a ti faça viver.

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