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Segal George (1924-2000) couple on a bedCarlos de Oliveira (1921-1981) transpôs para português sete dos sonetos de Shakespeare (1564-1616) a que chamou Sonetos de Shakespeare rescritos em português. No grupo, o soneto VI transpõe o soneto 73 de Shakespeare, e nele é de uma desolada e intensa reflexão sobre o envelhecimento numa imagem de inverno da vida que se fala. A velhice como espelho de ruína, e cinza do extinto fogo de viver. Apenas um consolo: amar quem está tão próximo da morte.

A propósito do soneto 18 de Shakespeare escrevi que poucas vezes as traduções de sonetos do mestre são satisfatórias. Hoje, com a versão do soneto 73 por Carlos de Oliveira estamos perante uma obra-prima. Com ela vos deixo.

 

Soneto VI (73)

Esta estação do ano podes vê-la

em mim: folhas caindo ou já caídas;

ramos que o frémito do frio gela;

árvore em ruína, aves despedidas.

E podes ver em mim, crepuscular,

o dia que se extingue sobre o poente,

com a noite sem astros a anunciar

o repouso da morte, gradualmente.

Ou podes ver o lume extraordinário,

morrendo do que vive: a claridade,

deitado sobre o leito mortuário

que é a cinza da sua mocidade.

Eis o que torna o amor mais forte:

amar quem está tão próximo da morte.

 

Transcrito de Obras de Carlos de Oliveira, Editorial Caminho, Lisboa, 1992.

 

SONNET 73

That time of year thou mayst in me behold

When yellow leaves, or none, or few, do hang

Upon those boughs which shake against the cold,

Bare ruined choirs, where late the sweet birds sang.

In me thou seest the twilight of such day

As after sunset fadeth in the west,

Which by and by black night doth take away,

Death’s second self, that seals up all in rest.

In me thou seest the glowing of such fire

That on the ashes of his youth doth lie,

As the death-bed whereon it must expire

Consumed with that which it was nourished by.

This thou perceiv’st, which makes thy love more strong,

To love that well, which thou must leave ere long.

Transcrito de Complete Sonnets and Poems, edited by Colin Burrow, Oxford University Press, 2002.

 

Acompanha o artigo a imagem de uma escultura de George Segal (1924-2000) — Casal na cama.

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