Abelardo, o membro: uma fantasia

Etiquetas

,

Entra Agosto, chegam as férias, e neste sem-que-fazer vasculho papéis esquecidos, ou antes, vasculho ficheiros esquecidos. De entre o que encontrei surgiu esta história com Abelardo, o membro por protagonista, de que vos deixo uma versão curta.

Abelardo, o membro: uma fantasia

– Estou chateadíssima. Então não é que o Abelardo se estragou.
– Não me digas.
– Digo sim! Imagina tu que o Zé anda a ler uma história qualquer passada no Iraque. Encontrou lá descrita uma cena de sexo que o excitou e quis reproduzir. Então, quando estávamos na cama insistiu para que lhe enfiasse qualquer coisa no traseiro. Lembrei-me de lhe enfiar o Abelardo, mas qual quê? Eu bem o apertava, o esfregava e nada, o Abelardo ficava mole, fugia, escorregava, até parecia ter vida para se recusar a entrar ali. Nunca tinha acontecido comigo. Depois de tudo isto, o Zé desistiu e como calculas ficou furioso. Agora tenho bem umas semanas de jejum. E sem o Abelardo não sei como vai ser.
– Compra outro.
– Já não há. Fui à procura e desapareceu.
– Mas onde é que o compraste?
– Comprei na internet. Procurava um vibrador com o tamanho a que estava habituada e lá estava:
“Abelardo, o conforto das noites solitárias:
Dimensões: 18 x 4cm
Preço: 80 € + despesas de expedição
Fazem-se entregas em mão ou por correio em embalagem discreta.”
Decidi-me, e desde então tem sido do outro mundo. Até ao outro dia que se avariou. Como estava dentro da garantia, devolvi-o, mas responderam-me hoje dizendo que daquele modelo não havia mais. Fôra um sucesso e esgotara rapidamente. Poderiam enviar de outro tipo.
Não tenho esperança nenhuma. Este Abelardo era tão especial!
De repente pareceu-lhe ouvir uma voz dentro da cabeça:
– Pois é Alda, o vibrador que a consolou não era um vibrador qualquer, era não só especial, mas único. Guardava nele a essência da voluptuosidade desde tempos imemoriais.
– Hélia, parece-me que não me estou a sentir muito bem. Tenho a impressão de ouvir vozes na cabeça. Vou voltar para casa, tomo um chá e um Xanax e vou ver se acalmo.
– Queres que vá contigo?
– Não, não te incomodes. Apanho um táxi e vou. Táxi! Táxi!.
Parou um táxi, despediram-se e entrou. Sentada continuou a ouvir a voz. Era uma voz calma, pausada e deixava uma sensação de vir de fora do tempo: Esse vibrador, Alda, possui uma história que talvez goste de conhecer.
Indicou a morada ao taxista e encostou-se no banco. Pareceu-lhe até que adormecia.
Entretanto o taxi chegou a casa. Pagou e saiu. Sentia-se um pouco zonza, talvez por ter dormitado. Em casa tirou o casaco, descalçou-se, mudou de roupa e foi à cozinha. Pôs uma chávena com água no microondas para fazer chá. Ia buscar os comprimidos quando a voz de novo lhe apareceu:
– Não tome comprimidos, vão fazer-lhe mal. Sente-se no sofá com o chá e ouça-me.
Cada vez mais intrigada, e até um pouco assustada, sentou-se com a chávena e a saqueta do chá na mão.
– Sabe Alda, o Abelardo estragou-se porque o quis obrigar a penetrar um homem, a única coisa que nunca fez na vida e estava impedido de fazer. Agora que o devolveu ao fabricante irá certamente para o lixo e perder-se-ão, talvez para sempre, as suas virtualidades, a menos que o salve algum poder sobrenatural, o que nem será improvável a atender às vicissitudes por que passou ao longo dos séculos até lhe chegar às mãos.
– Que conversa tão estúpida. Só há vibradores há meia dúzia de anos, não conseguiu impedir-se de dizer em voz alta.
– É verdade, só há vibradores há meia dúzia de anos, mas a borracha com que este vibrador foi feito teve uma adição especial. Proveio de um lote de preservativos usados e recolhidos para reciclagem. Vai concerteza querer saber os pormenores.
– Talvez, pensou intrigada. E a voz prosseguiu:
– Nestes tempos de HIV, James Bond, em quem eu habitava, a conselho insistente do estúdio cinematográfico, resolveu adoptar o uso de preservativo nas suas actividades, e assim, num dia de distracção e grande azáfama, fui levado dentro de um preservativo usado. Foi um acidente sério. Diz-se até que por causa disso o próximo James Bond será casto. O caminho até James Bond foi acidentado e cheio de peripécias. Do que aconteceu ao preservativo conto mais à frente.
Cheguei a James Bond através de uma figurante do seu primeiro filme, e com ele permaneci até à fatídica distracção. Foram tempos bons, belas mulheres, hotéis de luxo, uma vida de correria à roda do mundo, enfim, do melhor que me recordo.
Mas voltando à rapariga, ela tinha sido modelo de Picasso, e num daqueles processos porque a providência me fez passar de geração em geração, a bela moça recebeu-me do pintor e passou-me ao James.
Foi já avançado na idade que Picasso, ao ter relações com a jovem modelo, depositou nela sem o saber a essência da virilidade masculina de que era no sec XX o guardião, numa cadeia que se transmitiu entre artistas e outros homens de génio desde há séculos. Tão infausto acontecimento foi o inicio da conhecida impotência do pintor no final da vida, com as consequências visíveis na sua obra pictórica.
– Começa a interessar-me a história, disse Alda de si para si.
E a voz continuou:
– O percurso desta essência através dos tempos tem despertado curiosidades, sobretudo num Sr. Borges, que se tem esforçado por a conhecer, mas não tem sido fácil de reconstruir, e o próprio tem ainda saltos e lacunas por preencher. Também já não serei de grande ajuda pois sinto a memória a esvair-se, agora que o principal de mim desapareceu. De alguma maneira a senhora é responsável por ter enviado para o lixo parte importante e essencial da virilidade masculina tal como tem sido conhecida até aos nossos dias.
Mas voltemos ao preservativo. Como as exigências explicitas no estúdio cinematográfico eram de reciclar tudo o que fosse reciclável, o preservativo que me continha foi incluído num lote de borracha para esse fim. O lote foi vendido a um fabricante de vibradores e assim me vi dentro de uma dessas peças infernais que só funcionam a pilhas. Eu nunca precisei de pilhas para funcionar pelo que transformei um banal vibrador na peça especial que conheceu.
Cada vez mais intrigada, Alda não resiste e pergunta-se:
– Abelardo, mas Abelardo porquê? Ainda se se chamasse Picasso ou James Bond, percebia-se. E aí a voz continuou:
– O fabricante de vibradores pretendia lançar num mercado tão competitivo como é o dos acessórios de sexo, onde todos são iguais parecendo diferentes, mais um produto que, sendo igual, chamasse sobre si as atenções. Contratou os serviços de uma agência de publicidade da qual recebeu diversas propostas insatisfatórias, até que uma noite lhe ocorreu: pois é, a diferença está no nome. Tinha visto na televisão um programa de um grupo de rapazes a dar pelo nome de Gato Fedorento.
Vibrador com nome era de facto um pouco estranho mas permitia ao possuidor criar uma relação afectiva com o objecto sem precisar estar a imaginar mais nada. Entre os nomes que lhe iam surgindo nenhum parecia suficientemente apelativo até que lhe segredei:
– Abelardo.
– Abelardo? É nome de gente? Ah pois é! É aquele que foi castrado por seduzir a aluna Heloísa, e a família não gostou. É isso mesmo!
Ao outro dia deu instruções ao departamento de promoção. A nova linha de vibradores teria nome e chamar-se-ia “Abelardo, o membro”.
– Podem começar a ter ideias sobre o aspecto gráfico da embalagem, ordenou.
Embalado e anunciado, fui posto à venda na internet com outros vibradores do mesmo lote de borracha, mas os outros não me continham. Ao que sei venderam-se depressa, sem que o nome de baptismo tivesse qualquer interferência nisso. Eu fui comprado pela senhora e tivemos as alegrias de que se recorda. Entretanto aconteceu a desgraça com o seu marido, e agora acabou-se de vez Abelardo.
Alda com um estremecimento, levantou-se e disse alto:
– Vou mesmo tomar um Xanax e ver se durmo. Já ouço vozes na cabeça há tempo de mais, devo estar a ficar maluca.

Epílogo

Devolvido o vibrador ao fabricante, como não funcionava foi separado para reciclagem.
Acabou incluído num lote que serviu para fabricar o boneco E.T. do filme de Spielberg do mesmo nome.
Provavelmente, e a acreditar no filme, a essência do nosso Abelardo estará agora no espaço sideral, quem sabe se ganhando nova vida entre os extra-terrestres.

Antes da viagem – poema de Eugenio Montale

Etiquetas

Os sentimentos que preludiam a viagem, são complexos e diversificados. Há dias deixei as filosóficas reflexões de Álvaro de Campos sobre o partir.

Trouxe também ao blog o incomensurável desejo de Mallarmé, de tudo deixar para trás, descrito no seu Brisa marinha.

Hoje, longe da grandiloquência, eis o prosaísmo perto do homem comum sentido Antes da viagem, e contado pelo Nobel italiano Eugenio Montale (1896-1981).

Antes da viagem

Antes da viagem perscrutam-se os horários,
as correspondências, as paragens, as dormidas
e as reservas (de quantos quartos com banho
ou duche, de uma cama ou duas, ou mesmo um flat);
consultam-se
guias Hachette e guias dos museus,
trocam-se valores, cambiam-se
francos por escudos, rublos por copeques;
antes da viagem informa-se
algum amigo ou parente, controlam-se
malas e passaportes, completa-se
o vestuário, compra-se uma recarga
de laminas de barba, dá-se eventualmente
uma olhadela ao testamento, pura
superstição, já que os desastres aéreos
em percentagem são hoje nada:

antes
da viagem está-se tranquilo, mas com a suspeita
de que a sabedoria é não nos movermos, e de que o prazer
de regressar tem afinal um custo exagerado.
E depois parte-se e tudo está OK e tudo
vai pelo melhor, e é inútil.

E agora o que será
a minha viagem?
Com excessivo cuidado a venho eu estudando
sem dela saber nada. Um imprevisto
é a única esperança. Mas dizem-me
que é tolice dizê-lo.

Tradução de David Mourão-Ferreirra

Independentemente de os leitores consultarem
guias Hachette e guias dos museus, deixo alguns posters convidando à viagem para variados destinos.

Mulheres pintadas por Paula Rego

Etiquetas

Estas mulheres pintadas por Paula Rego (1935) são outras que não as musas inspiração dos poetas que povoam o blog.

Mulheres fora da poesia, talvez assomem uma que outra vez em alguns poemas de Herberto Hélder.

À dureza da vida que as fez assim, juntaram continuar meninas. E os sonhos estão lá, num prodígio pictórico em que a variação de escala joga um papel essencial.

A estas mulheres, conhecêmo-las. Até talvez nos tenham acompanhado na vida mas não as vemos.

Mulheres, qual uma Joaquina que longo tempo nos serviu e a quem, certo Natal ofereci um colar de contas de fantasia: foi a primeira vez que alguém lhe ofereceu algo para por em si que não fosse apenas cobrir-se por higiene ou pudor.

Duras na expressão, talvez também no afecto, que razões terão para ser diferentes? O mundo que para a beleza abre passadeiras vermelhas, a estas, confina-as num qualquer vão de escada, físico ou mental, teimando em não as ver.

E eis que Paula Rego no-las mostra com toda a força inescapável da Arte.

Estas pinturas são de algum modo o equivalente da Carta da corcunda ao serralheiro, que Fernando Pessoa nos deixou, e forçam-nos a olhar o que nem sempre queremos ver.

Nevermore – soneto de Paul Verlaine

Etiquetas

,

É a um exercício de reflexão sobre os limites e resultados da tradução de poesia que convido o leitor que simultaneamente leia fluentemente francês.

São três as leituras em português que transcrevo de um famoso soneto de Paul Verlaine (1844-1896), Nevermore.

As opções dos tradutores dividem-se entre a fidelidade verbal ao texto e a captação da ideia numa reconstrução em português.
A polémica é antiga e permanece. Qual delas é a opção legítima? Por mim, apenas o talento poético do tradutor permite criar na nossa língua um poema que pareça ter-lhe sempre pertencido, o que, com rara felicidade, acontece nestas três traduções, embora a tradução de charmant por vibrante, no penúltimo verso, feita por Fernando Pinto do Amaral me pareça discutível.

Outras traduções são ainda possíveis para a infinita nostalgia que se desprende deste Ah!

– Ah ! les premières fleurs, qu’elles sont parfumées !
Et qu’il bruit avec un murmure charmant
Le premier oui qui sort de lèvres bien-aimées !

Vamos então às traduções. O original encontra-se integralmente no final do artigo.

Nevermore

Doces recordações, que me quereis? O Outono
Fazia o tordo voar num lânguido ar de sono
E, monótono, o Sol lançava do seu trono
Ao bosque desmaiado uma luz de abandono.

Íamos sós os dois, sonhando, o pensamento
E o cabelo a esvoaçar na quimera do vento.
E eis que ela, olhos em mim, num enternecimento,
“Qual foi na vida”, disse,”o teu melhor momento?”

Trinava a doce voz, em vibrações amenas;
Um sorriso discreto eu lhe volvi apenas
E a sua mão beijei, devotamente.

— Ah! as primeiras flor’s, como são perfumadas!
E como se ouve soar, que murmúrio atraente
Tem o primeiro sim nas bocas bem-amadas!

Tradução de Pedro da Silveira

E agora a versão de Herculano de Carvalho

Nevermore

Reviver, reviver, que me queres tu? O Outono
Fazia o tordo abrir as asas pelo céu morno
E, monótono, o Sol lançava um raio em torno
Do bosque amarelando, à brisa, em abandono.

Os dois íamos sós e num sonho absorvente,
Eu e ela, o cabelo e o pensamento ao vento.
De súbito, voltando o olhar de encantamento:
“Qual teu dia melhor?” disse a voz de oiro quente.

A voz doce e sonora, em fresco timbre, angélica,
Um sorriso discreto à pergunta deu réplica,
E beijei sua mão branca devotamente.

— Aí! as primeiras flores e os botões perfumados!
E como soa num murmúrio comovente
O “sim” primeiro, ao vir de lábios bem-amados.

Termino com a versão de Fernando Pinto do Amaral

Nevermore

Ah, lembrança, lembrança, que me queres? O Outono
Fazia voar os tordos plo ar desmaiado
E o sol dardejava um monótono raio
No bosque amarelado onde a nortada ecoa.

A sonhar caminhávamos os dois, a sós,
Ela e eu, pensamento e cabelos ao vento.
De repente, fitou-me em olhar comovente:
“Qual foi o teu mais belo dia?” disse a voz

De oiro vivo, sonora, em fresco timbre angélico.
Um sorriso discreto deu-lhe a minha réplica
E então, como um devoto, beijei-lhe a mão branca.

— Ah! as primeiras flores, como são perfumadas!
E como em nós ressoa o murmúrio vibrante
Desse primeiro sim dos lábios bem-amados!

Nevermore

Souvenir, souvenir, que me veux-tu ? L’automne
Faisait voler la grive à travers l’air atone,
Et le soleil dardait un rayon monotone
Sur le bois jaunissant où la bise détone.

Nous étions seul à seule et marchions en rêvant,
Elle et moi, les cheveux et la pensée au vent.
Soudain, tournant vers moi son regard émouvant
” Quel fut ton plus beau jour? ” fit sa voix d’or vivant,

Sa voix douce et sonore, au frais timbre angélique.
Un sourire discret lui donna la réplique,
Et je baisai sa main blanche, dévotement.

– Ah ! les premières fleurs, qu’elles sont parfumées !
Et qu’il bruit avec un murmure charmant
Le premier oui qui sort de lèvres bien-aimées !

Meio-Dia de Gabriele D’Annunzio com pintura de Georges Seurat

Etiquetas

,

Depois de Hesíodo, nos próximos tempos, mas com incerta cadência, vão aparecer alguns poemas numa espécie de elegia para o verão: sentimentos, lugares e acontecimentos com o Verão num papel de protagonista. Hoje é o poema Meio-Dia de Gabriele D’Annunzio (1863-1938) onde uma intensa comunhão com a natureza se vive.

Meio-Dia

No seu auge o dia.
Sobre o mar etrusco
paira um verde pálido
como o dessepulto
bronze das estátuas.
Tudo tão tranquilo
que à roda não vibra
nem da brisa o hálito;
sequer um arbusto
se move na áspera,
solitária praia.

Bonança, calor,
em tudo silêncio.
O Verão, maduro,
cobre-me a cabeça,
como sendo um fruto
que a mim me pertença,
e colher eu deva
com a minha mão,
e sugar eu deva
com a minha boca.
Nem um só vestígio
de humana presença.
Nada que se ouça,
se me ponho à escuta.
Longe a dor dos homens.
Nem já tenho nome.
Sinto que o meu rosto
se doura de um ouro
que é meridiano;
e que a minha loura
barba já reluz
como a própria areia.
Mesmo o delicado
desenho da onda
na orla da praia
me está no palato,
na palma da mão
regendo-me o tacto.
Toda a minha força
na areia se expande,
no mar se difunde:
minha veia, o rio;
minha fronte, o monte;
o bosque, o meu púbis;
meu suor, a nuvem.
E vivo na flor
de esteva das dunas,
nas pinhas, nos bagos
dos juncos; nas algas,
na flora marinha;
nas coisas exíguas,
nas coisas imensas;
na areia contínua,
de cumes longínquos.
Só ardo e rebrilho.
E nem tenho nome.
Montanhas e ilhas,
bosques e baías
perderam os nomes
que outrora lhes dei
ou tinham outrora
em lábios humanos.
E eu próprio sem nome
nem destino humano:
já só Meio-Dia
agora me chamo.
Vivo em tudo, tácito,
tal e qual a Morte.

Toda a minha vida
se tornou divina.

Tradução de David Mourão-Ferreira

Acompanha o poema a pintura solar de Georges Seurat (1859-1891), génio de curta vida que no espaço de nove anos (1882-1891) produziu um conjunto de pinturas imperecíveis, onde a alegria do mundo se exprime.
Inventor da técnica pontilhista, com um absoluto domínio cientifico da teoria das cores, é a sobreposição de pontos de cores puras a responsável pela textura e efeito das suas pinturas resplandecendo modernidade.

Depois deste conjunto explorando as possibilidades do contraste em diagonal no preenchimento da superfície pictórica, escolhi este segundo grupo onde a horizontal na definição da paisagem surge no seu potencial pictórico.

Termino dando conta, em complemento da pintura inicial, da evolução da técnica aplicada à figura humana.

Partir, e Álvaro de Campos na bagagem

Etiquetas

, ,

Com as férias em perspectiva, o sentimento da viagem surge-me em contradição. Partir, sim! Buscar o quê? Repouso pede-me o corpo. Aventura, reclama a imaginação. Não direi como Álvaro de Campos que “Nunca…Perco…Aquela náusea que é o sentimento que sabe que o corpo tem a alma,“, mas o desconforto do desconhecido ganha um peso que é ao fim e ao cabo uma espécie de “opressão [que] se infiltra no fundo do meu coração.

I

Nunca, por mais que viaje, por mais que conheça
O sair de um lugar, o chegar a um lugar, conhecido ou desconhecido,
Perco, ao partir, ao chegar, e na linha móbil que os une,
A sensação de arrepio, o medo do novo, a náusea –
Aquela náusea que é o sentimento que sabe que o corpo tem a alma,
Trinta dias de viagem, três dias de viagem, três horas de viagem –
Sempre a opressão se infiltra no fundo do meu coração.

O heterónimo de Fernando Pessoa disse muitas vezes algo do que sinto. Felizmente nunca me sinto Álvaro de Campos mas a espaços tropeço nos seus versos com um fugaz sentimento de identificação. A catarse pela poesia pode acontecer. Ler o que em silêncio cogito introduz a distância que devolve a lucidez. E se num primeiro momento domina o “Volta amanhã, realidade! / Basta por hoje, gentes! / ​Adia-te, presente absoluto! / ​Mais vale não ser que ser assim. “, há uma vontade interior que cresce e “Ergo-me de repente todos os Césares. / ​Vou definitivamente arrumar a mala. / Arre, hei de arrumá-la e fechá-la; / ​Hei de vê-la levar de aqui, / ​Hei de existir independentemente dela.” .

II

Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto
Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo.
Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,
Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.

Grandes são os desertos, minha alma!
​Grandes são os desertos.

Não tirei bilhete para a vida,
Errei a porta do sentimento,
Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse.
Hoje não me resta, em vésperas de viagem,
Com a mala aberta esperando a arrumação adiada,
Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem,
Hoje não me resta (à parte o incómodo de estar assim sentado)
Senão saber isto:
Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Grande é a vida, e não vale a pena haver vida,

Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar
Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem)
​Acendo o cigarro para adiar a viagem,
​Para adiar todas as viagens.
​Para adiar o universo inteiro.

Volta amanhã, realidade!
Basta por hoje, gentes!
​Adia-te, presente absoluto!
​Mais vale não ser que ser assim.

Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro,
​E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.

Mas tenho que arrumar mala,
​Tenho por força que arrumar a mala,
​A mala.

Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão.
Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala.
Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas,
A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino.

Tenho que arrumar a mala de ser.
​Tenho que existir a arrumar malas.
​A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte.
​Olho para o lado, verifico que estou a dormir.
​Sei só que tenho que arrumar a mala,
​E que os desertos são grandes e tudo é deserto,
​E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci.

Ergo-me de repente todos os Césares.
​Vou definitivamente arrumar a mala.
​Arre, hei de arrumá-la e fechá-la;
​Hei de vê-la levar de aqui,
​Hei de existir independentemente dela.

Grandes são os desertos e tudo é deserto,
​Salvo erro, naturalmente.
​Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!

Mais vale arrumar a mala.
​Fim.

Afinal não sou o poeta, mas alguém que anseia ir ao encontro das raízes, e vou para Tavira, sem o desejo de que “Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro, / ​E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.
Que o infinito permaneça longe de mim, desejo!

Nota talvez desnecessária

O heterónimo Álvaro de Campos criado por Fenando Pessoa, foi concebido como tendo nascido em Tavira, minha terra natal, como é sobejamente conhecido dos leitores habituais do blog.

Stéphane Mallarmé — Brisa marinha

Etiquetas

,

Às vezes, na sobrecarga dos dias invade-nos um desejo imenso de evasão, uma vontade de partir, em que apenas o mar é consolação.
É do que nos fala este poema de Stéphane Mallarmé (1842-1898), Brisa marinha, para o qual vos deixo duas versões em português, ambas satisfatórias mas sem a música desolada que se ouve no original, o qual acrescento para os leitores fluentes em francês.

A pintura de Paul Gauguin (1848-1903) a acompanhar explica-se pela biografia do pintor, aquele que definitivamente partiu, deixando tudo, em busca do paraíso.

Brisa marinha (Brise marine)

A carne é triste e eu, aí! já li todos os livros.
Fugir! Fugir p’ra longe. Oiço as aves aos gritos
Ébrias na espuma ignota e sob o céu, em bando!
Nada, nem vãos jardins nos olhos se espelhando
Retém meu coração que se embebe de mar,
Oh noite! nem a luz da candeia a alumiar
O deserto papel que a brancura defende;
Nem mesmo jovem mãe que seu filho amamente.
Hei-de partir! Vapor em marítimas crises,
Iça o ferro e faz rumo a exóticos países.

Um tédio triste, em cruel e inútil esperar,
Crê no supremo adeus dos lenços a acenar.
Que os mastros, porventura, atraindo presságios,
São os mesmos que um vento inclina nos naufrágios.
Soltos no mar, no mar, sem ilhas nem esteiros.
Mas ouve, coração, cantar os marinheiros.

Tradução de Herculano de Carvalho

Brisa marinha (Brise marine)

Triste carne, aí de mim! Já li os livros todos.
Fugir! Longe fugir! As aves sinto a modos
De ser ébrias de espuma entre o mistério e os céus!
Nada, nem os jardins espelhados nos meus
Olhos, o coração retém quase afogado,
Ó noites! nem da lâmpada a ausente claridade
No branco do papel que o vazio rejeita
E nem a jovem mãe que ao peito o filho aleita.
Hei-de partir! Veleiro a mastrear, tu, larga
As amarras, demanda outra exótica plaga!

Um Tédio, desolado por esperanças cruéis,
Crê ainda nos lenços molhados dos adeus!
E talvez que esses mastros atraindo os presságios
Sejam dos que o tufão verga sobre os naufrágios
Perdidos, já sem mastros, em estéreis ilhéus …
Mas os marujos cantam, ouve, coração meu!

Tradução de José Augusto Seabra

Brise marine

La chair est triste, hélas ! et j’ai lu tous les livres.
Fuir ! là-bas fuir! Je sens que des oiseaux sont ivres
D’être parmi l’écume inconnue et les cieux !
Rien, ni les vieux jardins reflétés par les yeux
Ne retiendra ce coeur qui dans la mer se trempe
Ô nuits ! ni la clarté déserte de ma lampe
Sur le vide papier que la blancheur défend
Et ni la jeune femme allaitant son enfant.
Je partirai ! Steamer balançant ta mâture,
Lève l’ancre pour une exotique nature !

Un Ennui, désolé par les cruels espoirs,
Croit encore à l’adieu suprême des mouchoirs !
Et, peut-être, les mâts, invitant les orages,
Sont-ils de ceux qu’un vent penche sur les naufrages
Perdus, sans mâts, sans mâts, ni fertiles îlots …
Mais, ô mon coeur, entends le chant des matelots !

 

Poemas para o verão: Hesíodo (séc VIII a.C,) a abrir

Etiquetas

, ,

Verão, quando é “o vinho melhor / mais ardentes as mulheres e moles os homens;” segundo a sabedoria de Hesíodo nos seus mais de 2700 anos, é também tempo de poesia. E para este Verão reuni um grupo variado de poemas onde, da Rússia à América, a estação nos surge.

Dou a primazia a um fragmento do poema Trabalhos e Dias de Hesíodo (séc VIII a.C,) o mais antigo poeta grego cujo nome se conhece, e bastas vezes referido no blog.

Quando o cardo floresce e a sonora cigarra,
pousada nas árvores, espalha o melodioso canto,
pela fricção das asas, na penosa estação do calor,
nessa altura são mais gordas as cabras e o vinho melhor,
mais ardentes as mulheres e moles os homens;
Siriús abrasa-lhes a cabeça e os joelhos,
fica-lhes ressequida a pele pelo calor. É tempo então
de gozar a sombra de uma rocha, o vinho bíblino,
um pão de qualidade, leite de cabra que já não amamenta,
carne de vitela apascentada nos bosques, que ainda não pariu,
e de cabritos tenros. Bebe então o vinho rubro,
sentado à sombra, saciado o coração com o festim,
o rosto voltado de frente para a frescura do Zéfiro;
e de uma fonte que corre perene e límpida,
deita três partes de água e a quarta de vinho

Trabalhos e Dias (582-596)
Tradução de José Ribeiro Ferreira
Edição INCM, Lisboa 2005

A abrir o artigo vem um desenho de Bruegel (1525-1569) conhecido por Verão.

Termino com a pintura de um seguidor, Abel Grimmer (1570-1619) – Verão, feita provavelmente meio século mais tarde.

Veja o leitor as diferenças como exercício de Verão.

Moda feminina no século XVII e dois sonetos de Nicolau Tolentino

Etiquetas

, ,

Não sou conhecedor da história do vestir. Simplesmente a minha paixão pela pintura de retrato leva-me muitas vezes a ficar boquiaberto perante vestimentas de outrora com que as nobres pessoas se envolviam. Pasmo muitas vezes a pensar como se moveriam se na verdade se vestissem assim.
É certamente abusivo o título do artigo, pois o moderno conceito de moda, na volubilidade do gosto dos nossos dias, não é compaginável com as características da sociedade do século XVII. No entanto, a hierarquização social definida pela forma de vestir foi uma constante pelos séculos nas sociedades europeias. Há noticia na poesia satírica portuguesa do século XVIII, sobretudo, tanto de uma vontade de parecer mais do que se é, como de originalidades no vestir, verdadeiramente saborosas. No que ao século XVI se refere, há noticia de ordenações reais estipulando ao detalhe uma disciplina no traje.
Sendo a realeza o vértice da pirâmide social, é a esta que cabe a apresentação mais ofuscante da forma de surgir em público. E nesse universo reuni um pequeno grupo de pinturas onde a surpresa do traje é permanente  (a identificação da retratada consta do nome do ficheiro).

Para a nota poética do artigo, e como obviamente estas pessoas reais não podiam ser objecto de sátira, é ao século XVIII, onde ela abunda, que vou buscar dois sonetos de Nicolau Tolentino (1741-1811).

Fofo colchão, as plumas bem erguidas,
E sobre os ombros nas jocundas frentes
De enrolado cabelo aneis pendentes,
Longos chorões, belezas estendidas,

Era esta das matronas presumidas
A moda, que traziam bem contentes;
Riam-se delas as modestas gentes
Vendo pequenas poupas esquecidas.

Nisto a gentil madama aperaltada,
Grande autora de trastes esquisitos,
Nova moda lhe inventa abandalhada.

Reprova-lhe aureos leques com mil ditos.
Eis senão quando (ó moda endiabrada!)
Abanam-se com asas de mosquito.

Agora o famosissimo Colchão dentro do toucado

Chaves na mão, melena desgrenhada,
Batendo o pé na casa, a mãe ordena,
Que o furtado colchão, fofo e de penas,
A filha o ponha ali, ou a criada.

A filha, moça esbelta, e aperaltada,
Lhe diz co’a doce voz, que o ar serena:
“Sumiu-se lhe um colchão, é forte pena;
Olhe não fique a casa arruinada:”

“Tu respondes assim? Tu zombas disto?
Tu cuidas que por ter pai embarcado,
Já a mãe não tem mãos?” E dizendo isto,

Arremete-lhe à cara e ao penteado;
Eis senão quando (caso  nunca visto!)
Sai-lhe o colchão de dentro do toucado.

Sonetos gémeos no desenvolvimento da ideia e na construção poética, em ambos é o despautério do desenlace (a chave de ouro do soneto) a desencadear o riso.

Cecco Angiolieri – Soneto LXXXVI

Etiquetas

,

À época de Cecco Angiolieri (1260-1320) a cultura em Siena, de onde era natural, atingia um pico e rivalizava com Florença no que ao domínio das artes respeita. Entre as obras-primas que nos chegaram deste curto século, destacam-se a pintura de Duccio, dos Lorenzetti, sobretudo os frescos do bom e mau governo, e a pintura de Simone Martini, a cuja obra voltarei a propósito de Laura e Petrarca, mas de quem hoje escolho o famoso cavaleiro solitário para ilustração deste artigo.

Com a mordacidade e o desbocado herdado da poesia goliárdica, os sonetos de Cecco Angiolieri (1260-1320) são no seu conjunto pouco conhecidos hoje. Contemporâneo de Dante, com quem polemicou poeticamente, da sua poesia reúnem-se hoje 129 sonetos, alguns dos quais com autoria questionada. Registo no blog a existência do poeta com o seu provavelmente mais famoso soneto, o nº86, no original italiano e na tradução portuguesa de Herculano de Carvalho.

A linearidade da argumentação na enumeração do uso do poder, e a clareza do discurso dispensam a intermediação interpretativa. Apenas a constância com que os defeitos (e virtudes) humanas atravessam os séculos vale a pena destacar.

Soneto LXXXVI

Se fora fogo, eu abrasava o mundo,
Se fora vento eu o arrasaria,
Se eu fora a água então o afogaria,
Se fora Deus, mandava-o pró profundo.

Se fora papa, em delírio jucundo
A todos os cristãos eu prenderia,
Se fora imperador, o que faria?
Golpeava a todos o pescoço, fundo.

Se fora morte, ao meu pai procurava,
Se fosse vida, o não queria mais
E coisa igual com minha mãe se dava.

Se fosse Cecco, como o sou de mais,
As mais linda mulheres p’ra mim guardava
E deixaria as feias para os mais.

Tradução de Herculano de Carvalho

Original do Soneto LXXXVI

S’i fosse fuoco, arderei ‘l mondo;
s’i fosse vento, lo tempestarei;
s’i fosse acqua, i’ l’annegherei;
s’i fosse Dio, mandereil’ en profondo;

s’i fosse papa, allor serei giocondo,
ché tutti cristiani imbrigarei;
s’i fosse ‘mperator, ben lo farei;
a tutti tagliarei lo capo a tondo.

S’i fosse morte, andarei a mi’ padre;
s’i fosse vita, non starei con lui;
similemente faria da mi’ madre.

Si fosse Cecco com’i’ sono e fui,
torrei le donne giovani e leggiadre:
le zoppe e vecchie lasserei altrui.