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Os sentimentos que preludiam a viagem, são complexos e diversificados. Há dias deixei as filosóficas reflexões de Álvaro de Campos sobre o partir.

Trouxe também ao blog o incomensurável desejo de Mallarmé, de tudo deixar para trás, descrito no seu Brisa marinha.

Hoje, longe da grandiloquência, eis o prosaísmo perto do homem comum sentido Antes da viagem, e contado pelo Nobel italiano Eugenio Montale (1896-1981).

Antes da viagem

Antes da viagem perscrutam-se os horários,
as correspondências, as paragens, as dormidas
e as reservas (de quantos quartos com banho
ou duche, de uma cama ou duas, ou mesmo um flat);
consultam-se
guias Hachette e guias dos museus,
trocam-se valores, cambiam-se
francos por escudos, rublos por copeques;
antes da viagem informa-se
algum amigo ou parente, controlam-se
malas e passaportes, completa-se
o vestuário, compra-se uma recarga
de laminas de barba, dá-se eventualmente
uma olhadela ao testamento, pura
superstição, já que os desastres aéreos
em percentagem são hoje nada:

antes
da viagem está-se tranquilo, mas com a suspeita
de que a sabedoria é não nos movermos, e de que o prazer
de regressar tem afinal um custo exagerado.
E depois parte-se e tudo está OK e tudo
vai pelo melhor, e é inútil.

E agora o que será
a minha viagem?
Com excessivo cuidado a venho eu estudando
sem dela saber nada. Um imprevisto
é a única esperança. Mas dizem-me
que é tolice dizê-lo.

Tradução de David Mourão-Ferreirra

Independentemente de os leitores consultarem
guias Hachette e guias dos museus, deixo alguns posters convidando à viagem para variados destinos.

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