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Com as férias em perspectiva, o sentimento da viagem surge-me em contradição. Partir, sim! Buscar o quê? Repouso pede-me o corpo. Aventura, reclama a imaginação. Não direi como Álvaro de Campos que “Nunca…Perco…Aquela náusea que é o sentimento que sabe que o corpo tem a alma,“, mas o desconforto do desconhecido ganha um peso que é ao fim e ao cabo uma espécie de “opressão [que] se infiltra no fundo do meu coração.

I

Nunca, por mais que viaje, por mais que conheça
O sair de um lugar, o chegar a um lugar, conhecido ou desconhecido,
Perco, ao partir, ao chegar, e na linha móbil que os une,
A sensação de arrepio, o medo do novo, a náusea –
Aquela náusea que é o sentimento que sabe que o corpo tem a alma,
Trinta dias de viagem, três dias de viagem, três horas de viagem –
Sempre a opressão se infiltra no fundo do meu coração.

O heterónimo de Fernando Pessoa disse muitas vezes algo do que sinto. Felizmente nunca me sinto Álvaro de Campos mas a espaços tropeço nos seus versos com um fugaz sentimento de identificação. A catarse pela poesia pode acontecer. Ler o que em silêncio cogito introduz a distância que devolve a lucidez. E se num primeiro momento domina o “Volta amanhã, realidade! / Basta por hoje, gentes! / ​Adia-te, presente absoluto! / ​Mais vale não ser que ser assim. “, há uma vontade interior que cresce e “Ergo-me de repente todos os Césares. / ​Vou definitivamente arrumar a mala. / Arre, hei de arrumá-la e fechá-la; / ​Hei de vê-la levar de aqui, / ​Hei de existir independentemente dela.” .

II

Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto
Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo.
Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,
Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.

Grandes são os desertos, minha alma!
​Grandes são os desertos.

Não tirei bilhete para a vida,
Errei a porta do sentimento,
Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse.
Hoje não me resta, em vésperas de viagem,
Com a mala aberta esperando a arrumação adiada,
Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem,
Hoje não me resta (à parte o incómodo de estar assim sentado)
Senão saber isto:
Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Grande é a vida, e não vale a pena haver vida,

Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar
Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem)
​Acendo o cigarro para adiar a viagem,
​Para adiar todas as viagens.
​Para adiar o universo inteiro.

Volta amanhã, realidade!
Basta por hoje, gentes!
​Adia-te, presente absoluto!
​Mais vale não ser que ser assim.

Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro,
​E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.

Mas tenho que arrumar mala,
​Tenho por força que arrumar a mala,
​A mala.

Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão.
Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala.
Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas,
A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino.

Tenho que arrumar a mala de ser.
​Tenho que existir a arrumar malas.
​A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte.
​Olho para o lado, verifico que estou a dormir.
​Sei só que tenho que arrumar a mala,
​E que os desertos são grandes e tudo é deserto,
​E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci.

Ergo-me de repente todos os Césares.
​Vou definitivamente arrumar a mala.
​Arre, hei de arrumá-la e fechá-la;
​Hei de vê-la levar de aqui,
​Hei de existir independentemente dela.

Grandes são os desertos e tudo é deserto,
​Salvo erro, naturalmente.
​Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!

Mais vale arrumar a mala.
​Fim.

Afinal não sou o poeta, mas alguém que anseia ir ao encontro das raízes, e vou para Tavira, sem o desejo de que “Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro, / ​E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.
Que o infinito permaneça longe de mim, desejo!

Nota talvez desnecessária

O heterónimo Álvaro de Campos criado por Fenando Pessoa, foi concebido como tendo nascido em Tavira, minha terra natal, como é sobejamente conhecido dos leitores habituais do blog.

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