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Não sou conhecedor da história do vestir. Simplesmente a minha paixão pela pintura de retrato leva-me muitas vezes a ficar boquiaberto perante vestimentas de outrora com que as nobres pessoas se envolviam. Pasmo muitas vezes a pensar como se moveriam se na verdade se vestissem assim.
É certamente abusivo o título do artigo, pois o moderno conceito de moda, na volubilidade do gosto dos nossos dias, não é compaginável com as características da sociedade do século XVII. No entanto, a hierarquização social definida pela forma de vestir foi uma constante pelos séculos nas sociedades europeias. Há noticia na poesia satírica portuguesa do século XVIII, sobretudo, tanto de uma vontade de parecer mais do que se é, como de originalidades no vestir, verdadeiramente saborosas. No que ao século XVI se refere, há noticia de ordenações reais estipulando ao detalhe uma disciplina no traje.
Sendo a realeza o vértice da pirâmide social, é a esta que cabe a apresentação mais ofuscante da forma de surgir em público. E nesse universo reuni um pequeno grupo de pinturas onde a surpresa do traje é permanente  (a identificação da retratada consta do nome do ficheiro).

Para a nota poética do artigo, e como obviamente estas pessoas reais não podiam ser objecto de sátira, é ao século XVIII, onde ela abunda, que vou buscar dois sonetos de Nicolau Tolentino (1741-1811).

Fofo colchão, as plumas bem erguidas,
E sobre os ombros nas jocundas frentes
De enrolado cabelo aneis pendentes,
Longos chorões, belezas estendidas,

Era esta das matronas presumidas
A moda, que traziam bem contentes;
Riam-se delas as modestas gentes
Vendo pequenas poupas esquecidas.

Nisto a gentil madama aperaltada,
Grande autora de trastes esquisitos,
Nova moda lhe inventa abandalhada.

Reprova-lhe aureos leques com mil ditos.
Eis senão quando (ó moda endiabrada!)
Abanam-se com asas de mosquito.

Agora o famosissimo Colchão dentro do toucado

Chaves na mão, melena desgrenhada,
Batendo o pé na casa, a mãe ordena,
Que o furtado colchão, fofo e de penas,
A filha o ponha ali, ou a criada.

A filha, moça esbelta, e aperaltada,
Lhe diz co’a doce voz, que o ar serena:
“Sumiu-se lhe um colchão, é forte pena;
Olhe não fique a casa arruinada:”

“Tu respondes assim? Tu zombas disto?
Tu cuidas que por ter pai embarcado,
Já a mãe não tem mãos?” E dizendo isto,

Arremete-lhe à cara e ao penteado;
Eis senão quando (caso  nunca visto!)
Sai-lhe o colchão de dentro do toucado.

Sonetos gémeos no desenvolvimento da ideia e na construção poética, em ambos é o despautério do desenlace (a chave de ouro do soneto) a desencadear o riso.

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