Estranha coisa esta, a poesia — Fernando Namora

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kadar Bela  (1877-1955) figures in a square watercolor on cardboardA

Estranha coisa esta, a poesia,

que vai entornando mágoa nas horas

como um orvalho morno escorrendo dos vidros

numa tarde incorpórea…

 

A obra em prosa de Fernando Namora (1919-1989) é um exemplo lapidar do efémero da fama e da volubilidade do gosto das multidões. Escritor de best-sellers, vendendo de cada obra aos milhares de exemplares, esgotando edições sucessivas, repousa hoje no mais absoluto esquecimento.

Tendo começado por publicar três livros de poesia (1938, 1940, 1941), reuniu uma escolha desses poemas com alguns inéditos num único volume — As Frias Madrugadas— e só cerca de trinta anos volvidos (Marketing, 1969) voltou a publicar novos poemas.

Esta obra poética permaneceu na sombra do sucesso da prosa. Folheio-a hoje e encontro alguns poemas que vale a pena conhecer.

 

Em inicio de percurso a desilusão com as mulheres em A outra canção perdida, embora com a porta aberta à esperança:

 

Apenas, do logro,

me resta o travo

dos desejos amargos,

…e ainda às vezes

aquela esperança enganosa

de que passe

quem nunca no meu caminho passou.

 

fecho o périplo com o lânguido abandono à desilusão em Alheamento, fazendo passagem pelo esperançoso sonho do amor em Balada de sempre.

 Kadar Bela 00

A outra canção perdida

 

Das mulheres

que na minha vida passaram

ficou-me aquela lembrança

de um fio de areia

sobre o regato sedento,

de qualquer frase

que se ficou no tinteiro,

de um cigarro caro

que se não fumou além do meio,

de um grito rouco

gorado nos ouvidos,

de folhas de um diário inacabado

que o tempo desbotou,

de vinho

que não deixou nódoa no soalho…

 

Sinto a alma ávida

como sempre

e um cansaço inútil

de bater a tantas portas.

 

Apenas, do logro,

me resta o travo

dos desejos amargos,

…e ainda às vezes

aquela esperança enganosa

de que passe

quem nunca no meu caminho passou.
Kadar_Bela-Music

 

Balada de sempre

 

Espero a tua vinda,

a tua vinda,

em dia de lua cheia.

Debruço-me sobre a noite

inventando crescentes e luares.

Espero o momento da chegada

com o cansaço e o ardor de todas as chegadas.

Rasgarás nuvens, estradas,

abrindo clareiras

nas vielas de ciladas.

Saltarás por cima de mares,

de planícies e relevos

— ânsia alada

no meu desejo imaginada.

 

Mas…

enquanto deixo a janela aberta

para entrares,

o mar,

aí, além,

lambe-me os braços hirtos, braços verdes,

algas de sonho,

…e desenha ironias na areia molhada.

 

 

Alheamento

 

Meu corpo estiraçado, lânguido, ao longo do leito.

O cigarro vago azulando is dedos.

O rádio… a música… e as folhas murchas

caindo nas mãos do Outono.

E a tua presença que esvoaça

em torno do cigarro, da música, do Outono…

 

Ausência, minha doce fuga!

 

Estranha coisa esta, a poesia,

que vai entornando mágoa nas horas

como um orvalho morno escorrendo dos vidros

numa tarde incorpórea…

 

Termino com a invocação à mãe enquanto porto de abrigo para as desilusões da vida e a desistência de as enfrentar:

 

E sem uma crosta que me tornasse rijo,

nem lutei nem vivi;

fiquei quieto, absorto, em lágrimas

— e lá ao fundo esperavam-me valados

e chacais rancorosos.

Kadar_Bela-Mother_with_his_child

Poema cansado de certos momentos

 

Foi-se tudo

como areia fina esgueirando-se pelos dedos.

Mãe! aqui me tens,

metade de mim,

sem saber que metade me pertence.

Aqui me tens,

de gestos saqueados,

onde resta a saudade de ti

e do mundo de medos.

Meus braços, vê-os, estão gastos

de pedir luz

e de roubar distâncias.

Meus braços

cruzados

em cruz de calvário dos meus degredos.

Aí que isto de correr pela vida,

desbaratando a riqueza que me deste,

de levar em cada beijo

a pureza que pariste e embalaste,

aí, mãe, só um louco ou um Messias

estendendo a face ao justo

para os homens cuspirem o fel das suas veias,

Só um louco, ou um porta ou um Cristo

poderá beijar as rosas que os espinhos sangram

e, embora rasgado, beber o perfume

e continuar cantando.

 

Mãe! tu nunca previste

as geadas e os bichos

roendo os campos adubados

e o vizinho largando a fúria dos rebanhos

pela erva menina dos meus prados.

E assim, geraste-me despido

como as ervas,

e não olhaste os picos nem as cobras,

verdes, viscosas, espreitando dos nichos.

De mão nua, entregaste-me ao destino.

Os anjos ficaram lá em cima, cobardes, ansiosos.

E sem uma crosta que me tornasse rijo,

nem lutei nem vivi;

fiquei quieto, absorto, em lágrimas

— e lá ao fundo esperavam-me valados

e chacais rancorosos.

 

Poemas transcritos de As Frias Madrugadas, Editora Arcádia, Lisboa s/d (1959).

 

São de pinturas de Bela Kadar (1877-1956) as imagens que acompanham o artigo.

Soneto LXXIII de Shakespeare reescrito por Carlos de Oliveira

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Segal George (1924-2000) couple on a bedCarlos de Oliveira (1921-1981) transpôs para português sete dos sonetos de Shakespeare (1564-1616) a que chamou Sonetos de Shakespeare rescritos em português. No grupo, o soneto VI transpõe o soneto 73 de Shakespeare, e nele é de uma desolada e intensa reflexão sobre o envelhecimento numa imagem de inverno da vida que se fala. A velhice como espelho de ruína, e cinza do extinto fogo de viver. Apenas um consolo: amar quem está tão próximo da morte.

A propósito do soneto 18 de Shakespeare escrevi que poucas vezes as traduções de sonetos do mestre são satisfatórias. Hoje, com a versão do soneto 73 por Carlos de Oliveira estamos perante uma obra-prima. Com ela vos deixo.

 

Soneto VI (73)

Esta estação do ano podes vê-la

em mim: folhas caindo ou já caídas;

ramos que o frémito do frio gela;

árvore em ruína, aves despedidas.

E podes ver em mim, crepuscular,

o dia que se extingue sobre o poente,

com a noite sem astros a anunciar

o repouso da morte, gradualmente.

Ou podes ver o lume extraordinário,

morrendo do que vive: a claridade,

deitado sobre o leito mortuário

que é a cinza da sua mocidade.

Eis o que torna o amor mais forte:

amar quem está tão próximo da morte.

 

Transcrito de Obras de Carlos de Oliveira, Editorial Caminho, Lisboa, 1992.

 

SONNET 73

That time of year thou mayst in me behold

When yellow leaves, or none, or few, do hang

Upon those boughs which shake against the cold,

Bare ruined choirs, where late the sweet birds sang.

In me thou seest the twilight of such day

As after sunset fadeth in the west,

Which by and by black night doth take away,

Death’s second self, that seals up all in rest.

In me thou seest the glowing of such fire

That on the ashes of his youth doth lie,

As the death-bed whereon it must expire

Consumed with that which it was nourished by.

This thou perceiv’st, which makes thy love more strong,

To love that well, which thou must leave ere long.

Transcrito de Complete Sonnets and Poems, edited by Colin Burrow, Oxford University Press, 2002.

 

Acompanha o artigo a imagem de uma escultura de George Segal (1924-2000) — Casal na cama.

O soneto XVIII de Shakespeare

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Miguel  Angelo - Sibila délfica detalhe

São os sonetos de Shakespeare (1564-1616) das mais belas composições poéticas que a humanidade herdou. Entre eles prezo especialmente o soneto 18, objecto de variadas interpretações. Bastam-me os dois últimos versos para o escolher entre todos. Ali se formula de forma irrepetivel o que a beleza nos pode trazer — Vida

So long as men can breathe, or eyes can see,

So long lives this, and this gives life to thee.

As tentativas de mudar para português os sonetos de Shakespeare não têm sido, no que conheço, bem sucedidas. Pontualmente um ou outro soneto surge tão só em transposição quase satisfatória. Para este soneto 18, acompanhando o original em versão modernizada, transcrevo a versão de Carlos de Oliveira (1921-1981) integrando o conjunto de sonetos de Shakespeare que o poeta traduziu e chamou de reescritos, e a versão de Vasco Graça Moura (1942) que íntegra a sua celebrada tradução integral deste opus shakespeareano.

SONNET 18

Shall I compare thee to a summer’s day?

Thou art more lovely and more temperate:

Rough winds do shake the darling buds of May,

And summer’s lease hath all too short a date:

Sometime too hot the eye of heaven shines,

And often is his gold complexion dimmed,

And every fair from fair sometime declines,

By chance, or nature’s changing course untrimmed:

But thy eternal summer shall not fade,

Nor lose possession of that fair thou ow’st,

Nor shall death brag thou wander’st in his shade,

When in eternal lines to time thou grow’st,

  So long as men can breathe, or eyes can see,

  So long lives this, and this gives life to thee.

Versão de Carlos de Oliveira

Comparar-te a um dia de verão?

Há mais ternura em ti, ainda assim:

um maio em flor às mãos do furacão,

o foral do verão que chega ao fim.

Por vezes brilha ardendo o olhar do céu;

outras, desfaz-se a compleição doirada,

perde beleza a beleza; e o que perdeu

vai no acaso, na natureza, em nada.

Mas juro-te que o teu humano verão

será eterno; sempre crescerás

indiferente ao tempo na canção;

e, na canção sem morte, viverás:

Porque o mundo, que vê e que respira,

te verá respirar na minha lira.

Versão de Vasco Graça Moura

Que és um dia de verão não sei se diga.

És mais suave e tens mais formosura:

vento agreste botões frágeis fustiga

em Maio e um verão a prazo pouco dura.

O olho do céu vezes sem conta abrasa,

outras a tez dourada lhe escurece,

todo o belo do belo se desfasa,

por caso ou pelo curso a que obedece

da Natureza; mas teu eterno verão

nem murcha, nem te tira teus pertences,

nem a morte te torna assombração

quando o tempo em eternas linhas vences:

enquanto alguém respire ou possa ver

e viva isto e a ti faça viver.

A mulher imaginada em sonetos de Gomes Leal

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Mary Cassatt

Bon-vivant que foi, e ao que consta bem sucedido com as mulheres até à maturidade, Gomes Leal (1848-1921) nunca casou, e teve um final de vida trágico que faz do homem um personagem de romance soberbo. Enquanto poeta, a sua poesia, quando não ligada a assuntos de actualidade, mantém a atracção do inesperado numa oficina sem falhas: era um versificador inspirado tanto no soneto como em longos poemas narrativos.

Abundam na poesia de Gomes Leal as imagens de mulher sonhada ou desejada. Escolho hoje três sonetos onde na variedade de cenários o sonho da mulher surge. Une-os o desejo do poeta de fruir uma virgindade casta e sonhando o prazer do pecado, como à época era entendido. Enquadra esta poesia a mentalidade burguesa de final do século XIX, quando foi sucesso sem limites, e dela nos dá uma leitura esclarecedora.

 

Abro com A Jovem Miss:

 

A Jovem Miss

 

Ela é tão loura, lírica, franzina,

Tão mimosa, quieta, virginal,

Como uma bela virgem dum missal,

Toda dourada, e preciosa, e fina.

 

Não há graça mais casta e feminina

Do que a dela! — Seu riso angelical

Cria em nós todo um mundo de moral,

Melhor que tudo o que Platão ensina!

 

Por isso, e, pela sua castidade,

Deve ser gozo intenso, na verdade,

Sentir fundir-se em nós seus olhos régios…

 

E o gozo de a beijar, trémula, amante,

Deve ser quasi estranho! — e semelhante

Ao de fazer terríveis sacrilégios.

 

Sonhada a virgem angelical a quem apetece beijar, trémula, amante, passemos ao gosto do exótico em dois devaneios em forma de soneto. Em ambos, a seriedade e convicção com que o assunto se desenvolve é rematada de forma inesperada com o banal da realidade e das suas necessidades.

Mulher com flores nas mãos 1899

Phantasias

 

Tenho, às vezes, desejos delirantes

De a todos te roubar, meu lírio amado!…

E levar-te, em voo arrebatado,

Aos países fantásticos, distantes.

 

À Índia, China, ou ao Iran, e os meus instantes

Passá-los a teus pés, grave e encruzado,

Num tapete chinês aveludado,

Com flores ideais e extravagantes.

 

Nossa vida seria, — ó pomba minha! —

Mais leve do que a asa da andorinha,

E, nas horas calmosas, eu e tu…

 

Olhando o mar sereno, o mar unido,

Comeríamos os dois arroz cozido…

— Embalados num junco de bambu!

 

Se neste soneto passamos da fantasia etérea ao arroz cozido, vejamos onde nos leva A Selvagem:

Te Nave Nave Fenua 1892

A Selvagem

 

Às vezes, como os grandes fantasistas,

Sinto o desejo intenso das viagens…

E ir sozinho habitar entre os selvagens,

Como num ermo os ásperos trapistas.

 

As grandes, vastas, límpidas paisagens,

Que sabem ver os imortais artistas…

Teriam novos tons, novas imagens,

Longe do mundo avaro e as suas vistas!

 

Com uma virgem — flor dessas montanhas —

Entre os mil sons das árvores estranhas,

Dos coqueiros, bambús … fôra feliz!…

 

Dormiria em seus braços nus, lustrosos,

E ouviria, entre uns beijos voluptuosos,

— Tilintar-lhe as argolas do nariz.

Quando te casarás 1892

Os sonetos foram transcritos do livro Claridades do Sul, 2ª edição (revista e aumentada), Lisboa, 1901.

Modernizei a ortografia sempre que a eufonia do verso não saiu prejudicada. Conservei a pontuação da edição.

 

Iconografia

À bela jovem, e talvez virgem, pintada por Mary Cassatt no início do artigo, acrescentei as taitianas pintadas por Paul Gauguin, razão da troca de um futuro de banqueiro em França pela vida de paraíso nos confins do Pacífico, materializando talvez fantasias equivalentes aos devaneios poéticos que acabámos de ler.

Contos primitivos 1902

O tempo seca a beleza — dois poemas de Cecília Meireles

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Johann Georg Meyer (German, 1813–1880). Sitting Girl (Reflecting), 1872 detalheO tempo, esse grande escultor, escreveu uma vez Marguerite Yourcenar: fórmula lapidar que dá conta de como o seu passar nos forma e transforma dia-a-dia.

Somos em cada momento o que o tempo, ou a vida, como se preferir, faz de nós.

Eu não tinha este rosto de hoje, escreve Cecília Meireles (1901-1964) a abrir o seu poema Retrato, e nele reflecte sobre a mudança em nós que o passar do tempo traz, tantas vezes sem que nos apercebamos delas até que súbito o espelho da verdade no-las impõe:

Eu não dei por esta mudança, / … / — Em que espelho ficou perdida / a minha face?

 

Retrato

 

Eu não tinha este rosto de hoje,

assim calmo, assim triste, assim magro,

nem estes olhos tão vazios,

nem o lábio amargo.

 

Eu não tinha estas mãos sem força,

tão paradas e frias e mortas;

eu não tinha este coração

que nem se mostra.

 

Eu não dei por esta mudança,

tão simples, tão certa, tão fácil:

— Em que espelho ficou perdida

a minha face?

Nas voltas da vida por vezes O tempo seca a beleza, belo verso com que Cecília Meireles abre o poema Canção do Amor-Perfeito. Ao lê-lo, na sua concisa e bela sinceridade fazemos o percurso do seu passar:

 

O tempo seca a saudade,/ … / Deixa algum retrato, apenas,

O tempo seca o desejo / e suas velhas batalhas.

 
Canção do Amor-Perfeito

 

O tempo seca a beleza,

seca o amor, seca as palavras.

Deixa tudo solto, leve,

desunido para sempre

como as areias nas águas.

 

O tempo seca a saudade,

seca as lembranças e as lágrimas.

Deixa algum retrato, apenas,

vagando seco e vazio

como estas conchas das praias.

 

O tempo seca o desejo

e suas velhas batalhas.

Seca o frágil arabesco,

vestígio do musgo humano,

na densa turfa mortuária.

 

Esperarei pelo tempo

com suas conquistas áridas.

Esperarei que te seque,

não na terra, Amor-Perfeito,

num tempo depois das almas.

 

Retrato pertence ao livro Viagem de 1939, e livro da sua consagração como poeta. Canção do Amor-Perfeito íntegra o livro Retrato Natural publicado em 1949.

Transcrevi a partir da edição portuguesa da Antologia Poética, escolha de Cecília Meireles em 1963 e publicada pela primeira vez a seguir à morte da poetisa.

 

O retrato da rapariga que reflete depois da leitura foi pintado pelo alemão Johann Georg Meyer (1813-1880).

Um poema de Iosif Brodskii (Joseph Brodsky)

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Vieira da Silva (1908 – 1992) - A saida luminosa 1983-86

É um poema sobre Separação que escolho para pela primeira vez trazer ao blog a poesia de Iosif Brodskii, ou Joseph Brodsky (1940-1996) como é talvez mais conhecido no ocidente.

Russo de nascimento, expulso da União Soviética em 1972, Prêmio Nobel em 1990, fixou-se nos Estados Unidos, e, auto-didacta, aprendeu inglês, tendo ganho um domínio da língua que lhe permitiu escrever nela com domínio absoluto, tal como já acontecerá com Nabokov.

 

Voltando ao poema de hoje, é à reflexão sobre a dimensão do amor e do seu fim que ele nos desafia:

Esquecemos quem uma vez foi uma paixão?

… o tempo, ao dar de caras com a memória, reconhece a invalidez dos seus direitos.

 

Ao recordar, recordamos como?

Tu tiveste sorte: onde estarias para sempre — salvo talvez

numa fotografia — de sorriso trocista, sem uma ruga, jovem, alegre?

 

E ao recordar significa que o amor permanece? Memória é amor?

 

Não me interpretes mal: a tua voz, o teu corpo, o teu nome

já não mexem com nada cá dentro. Não que alguém os destruísse,

só que um homem, para esquecer uma vida, precisa pelo menos

de viver outra ainda. E eu há muito que gastei tudo isso.

 

Tantas perguntas…; o poema aí fica.

 

Querida, hoje saí de casa já muito ao fim da tarde

para respirar o ar fresco que vinha do oceano.

O sol fundia-se como um leque vermelho no teatro

e uma nuvem erguia a cauda enorme como um piano.

 

Há um quarto de século adoravas tâmaras e carne no braseiro,

tentavas o canto, fazias desenhos num bloco-notas,

divertias-te comigo, mas depois encontraste um engenheiro

e, a julgar pelas cartas, tornaste-te aflitivamente idiota.

 

Ultimamente têm-te visto em igrejas da capital e da província,

em missas de defuntos pelos nossos comuns amigos; agora

não param (as missas). E alegra-me que no mundo existam ainda

distâncias mais inconcebíveis que a que nos separa.

 

Não me interpretes mal: a tua voz, o teu corpo, o teu nome

já não mexem com nada cá dentro. Não que alguém os destruísse,

só que um homem, para esquecer uma vida, precisa pelo menos

de viver outra ainda. E eu há muito que gastei tudo isso.

 

Tu tiveste sorte: onde estarias para sempre — salvo talvez

numa fotografia — de sorriso trocista, sem uma ruga, jovem, alegre?

Pois o tempo, ao dar de caras com a memória, reconhece a invalidez

dos seus direitos. Fumo no escuro e respiro as algas podres.

1989

 

Tradução de Carlos Leite,

in Paisagem com Inundação, Edições Cotovia, Lisboa 2001.

Vieira da Silva (1908 – 1992) - Memória segunda 1985
Abre o artigo a imagem de uma pintura de Vieira da Silva (1908–1992) — A saida luminosa, 1983-86. Fecha o artigo outra pintura de Vieira da Silva, Memória segunda. 1985.

Herberto Helder – (a carta da paixão)

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Louis Jean François Lagrenée  -  Allegory of Peace 1779 (pormenor) 650pxHá versos que iluminam uma vida. Esta mão que escreve a ardente melancolia / da idade com que abre (a carta da paixão) de Herberto Helder (1930) encontra-se entre os muitos versos do poeta que ao lerem-nos, nos ensinam. Logo, a música das palavras, depois a magia que no mundo eles podem desvendar, e, sobretudo, o mistério da vida onde mergulhamos tantas vezes de olhos fechados ou abertos, mas sem ver, e na insondável alquimia da língua descobrimos como

A paixão é voraz, o silêncio

alimenta-se

fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te

toda no cometa que te envolve as ancas como um beijo.

É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a

entre os braços. …

Deixo-vos com a totalidade desta carta da paixão.

Herberto Helder – (a carta da paixão)

Esta mão que escreve a ardente melancolia

da idade

é a mesma que se move entre as nascenças da cabeça,

que à imagem do mundo aberta de têmpora

a têmpora

ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra

a sua queimadura desde os seus recessos negros

onde se formam

as estações até ao cimo,

nas sedas que se escoam com a largura

fluvial

da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas

e o silêncio todo branco.

Os dedos.

A montanha desloca-se sobre o coração que se alumia: a língua

alumia-se: O mel escurece dentro da veia

jugular talhando

a garganta. Nesta mão que escreve afunda-se

a lua, e de alto a baixo, em tuas grutas

obscuras, essa lua

tece as ramas de um sangue mais salgado

e profundo. E o marfim amadurece na terra

como uma constelação. O dia leva-o, a noite

traz para junto da cabeça: essa raiz de osso

vivo. A idade que escrevo

escreve-se

num braço fincado em ti, uma veia

dentro

da tua árvore. Ou um filão ardido de ponto a ponta

da figura cavada

no espelho. Ou ainda a fenda

na fronte por onde começa a estrela animal.

Queima-te a espaçosa

desarrumação das imagens. E trabalha em ti

o suspiro do sangue curvo, um alimento

violento cheio

da luz entrançada na terra. As mãos carregam a força

desde a raiz

dos braços a força

manobra os dedos ao escrever da idade, uma labareda

fechada, a límpida

ferida que me atravessa desde essa tua leveza

sombria como uma dança até

ao poder com que te toco. A mudança. Nenhuma

estação é lenta quando te acrescentas na desordem, nenhum

astro

é tao feroz agarrando toda a cama. Os poros

do teu vestido.

As palavras que escrevo correndo

entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso,

arterial.

E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado.

A paixão é voraz, o silêncio

alimenta-se

fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te

toda

no cometa que te envolve as ancas como um beijo.

Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem

nos quartos.

É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a

entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel

relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta

pelo meio

o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras

um pouco loucas

engolfadas, entre as mãos sumptuosas.

A doçura mata.

A luz salta às golfadas.

A terra é alta.

Tu és o nó de sangue que me sufoca.

Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões

da madeira fria. És uma faca cravada na minha

vida secreta. E como estrelas

duplas

consanguíneas, luzimos de um para o outro

nas trevas.

Transcrito de PHOTOMATON & VOX, 4ª edição, Assírio & Alvim, Lisboa 2006

A imagem é um fragmento da pintura de Louis Jean François Lagrenée (1724-1805)  – Alegoria da Paz (1770), da colecção do Museu Jean Paul Getty de Los Angeles, EUA.

Dois retratos de mulher por William Carlos Williams

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Ernst Ludwig Kirchner (German, 1880–1938) 3014 de Fevereiro, Dia de Namorados, que a nossa sociedade mediatizada e sufocada pela publicidade transformou em obrigação de comemorar — mesmo quando entre apaixonados Dia de Namorados são todos os dias — e simultaneamente criou uma desmesurada angústia, sobretudo feminina e adolescente, quando o namorado não existe para celebrar o auspicioso dia. Adiante.

Ernst Ludwig Kirchner (German, 1880–1938) 21O nosso tempo é o que é, e com o nosso comportamento lá o vamos alimentando, hoje com pequeninos corações vermelhos, amanhã com enfeites de outra cor, seguramente.

Deixemo-nos de preâmbulos e passemos à poesia com dois retratos femininos por William Carlos Williams (1883-1963): um Retrato proletário e um Retrato de uma senhora. É a condição social a diferenciar tudo nestes poemas. Para o Retrato proletário apenas os sinais exteriores do vestir desenham o ser humano, num pudor de linguagem que liberta a imaginação para desenhar a mulher por detrás da jovem que procura o prego no sapato:

 Ragazza nel prato; la fligia Langre

Retrato proletário

 

Uma jovem alta sem chapéu

de avental

 

Parada na rua com o cabelo

puxado para trás

 

Um pé com a peúga tocando

a calçada

 

O sapato na mão. Examinando-o

atentamente

 

Retira a palmilha

à procura do prego

 

Que a magoava tanto

 

Tradução do poeta José Agostinho Baptista,

in Antologia Breve, Assírio & Alvim, Lisboa, 1995.

Ernst Ludwig Kirchner (German, 1880–1938). Dodo with a Feather Hat (Dodo mit Federhut), 1911Para o Retrato de uma senhora, é o tapa-destapa que incita o desejo do corpo, o pretexto para o retrato.

Tendo como mote as figuras femininas do século XVIII francês, pintadas por Watteau e Fragonard, e de algum modo arquétipos, até há pouco tempo, da feminilidade na ociosidade do seu viver, cuja  preocupação única seria o cuidado do corpo numa vida sem-que-fazer; eram figuras de mulher onde uma quase evanescência se cristalizava e as peculiaridades de comportamento se aceitavam. Foram modelos de excelência para ajudar à divagação dos homens, e à afirmação de um preciso conceito de masculinidade social. E é exactamente nas sociedades do Novo Mundo que este modelo regressa como paradigma de um viver mítico onde a fantasia em torno ao Dia dos Namorados se enquadra.

 Signora nel bosco; ritrato di Nina Hard a sinistra

Retrato de uma senhora

 

Suas coxas são macieiras

cujas flores tocam o céu.

Que céu? O céu

onde Watteau dependurou

uma sandália de mulher.

E seus joelhos

são uma brisa do sul

— ou uma rajada de neve.

Mas ah! que espécie

de homem era Fragonard?

— como se isso respondesse

a alguma coisa. Ah, sim, abaixo

dos joelhos — pois a canção

cai desse jeito, é um

desses dias brancos de verão,

a erva alta dos tornozelos

adeja por sobre a praia —

Que praia?

Ah, talvez pétalas. Como

saberia eu?

Que praia? Que praia?

Eu disse pétalas de macieira.

 

Tradução do poeta Odylo Costa, filho,

in Cantiga Incompleta, Livraria José Olympio Editora, Rio, 1971.

 

Para o poema Retrato de uma senhora, ocupam-se os estudiosos a dilucidar qual o papel da referência a Watteau, uma vez que a pintura tomada como pretexto é O baloiço de Fragonard. Questão que me parece de somenos, mas para leitores curiosos, e para a pintura de Fragonard, remeto para o artigo do blog com o poema de Jorge de Sena sobre o assunto onde se encontram também as reproduções dos dois quadros de Fragonard com baloiço.

 

Nota sobre as imagens

As imagens reproduzem pinturas de Ernst Ludwig Kirchner (1880-1938).

Meditação idiota na hora de deitar-se sózinho por Juan Luis Panero

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Hotel by a Railroad 1955A secura pungente dos seus processos de sentimentalização, o expressionismo radical de uma redução do vivido a escassos pontos de dor essenciais (a solidão, a viagem, o fracasso, o álcool, os amores vividos e perdidos), dão forma a uma visão magoadíssima da condição individual do humano.

É com esta penetrante e belíssima síntese da obra poética de Juan Luis Panero (1942-2013) por Joaquim Manuel Magalhães que introduzo os leitores no poema Meditación idiota a la hora de acostarse solo em tradução do poeta José Bento.

Eleven AM 1926

Meditação idiota na hora de deitar-se sózinho

 

Se disseste, e tens repetido tantas vezes,

que o teu único amor é uma mala,

para que te queixas e protestas

enquanto olhas o tecto sobre tua cama solitária.

Vítima, juiz e enfim carrasco,

podes ainda sentir que estremeces porque alguém te ama,

mas tu escolheste, de certo modo, esse destino,

e agora deves pagar o preço.

Tu que pronunciaste “amo-te” tantas vezes,

para te rires depois da tua frase,

– o que esperas?, a quem pedes em vão?

Se quando encontras alguém que comparte teus dias,

tuas noites mais terríveis, tua soma de fracassos,

te mete medo dizer-lhe “continuemos sempre juntos”,

embora seja uma frase, embora não o creias,

– que final é o teu?, que esperas tu?

E se também te queixas das farsas grotescas

que amiúde, inúteis, constróis

com frívolas histórias, palavras mercenárias,

– o que pretendes? que pedes à vida?

A vida não é um jogo, deves tê-lo compreendido,

e se há algo evidente é que já envelheceste.

Conforma-te e aguenta e não peças milagres,

que o vodka te acompanhe ao silêncio e ao sono.

Aos pés da tua cama, como cadela no cio,

a morte, serviçal, dá-te as boas noites.

 

in Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea, selecção e tradução de José Bento, Assírio & Alvim, Lisboa, 1985.

Chair CarAcompanham o artigo imagens de pinturas de Edward Hopper (1862-1967).

Maus tempos — poema de Hermann Hesse

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Bosch - Jardim das Delicias (fragmento)Onde está o tempo / em que uma luz, um lar por nós ardia? /

Dá-me a tua mão. / Talvez seja longo este caminho ainda.

 

Os tempos não vão de feição para optimismos por este Portugal onde o inverno parece instalado para além do calendário, espalhando um frio de alma que demora a expulsar. Maus tempos estes que ecoam num antigo poema de Hermann Hesse (1877-1962) escrito a pretexto de outra circunstâncias, e que hoje evoco.

 

 

Maus tempos

 

Agora nos calamos

E já não mais cantamos.

Nosso passo é pesado.

É a noite, o seu tempo é chegado.

 

Dá-me a tua mão,

Talvez que seja longo este caminho ainda.

E a neve cai, a neve!

O inverno em terra estranha nunca finda.

 

Onde está o tempo

em que uma luz, um lar por nós ardia?

Dá-me a tua mão.

Talvez seja longo este caminho ainda.

 

Tradução de Jorge de Sena, in Poesia do Século XX, Fora do Texto Editora, Coimbra, 1994.