Iconografia da Paixão de Cristo e um poema de Ibn Gabirol

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Pietro da Rimini (1300-1350) - Descida da cruz 1325-1330 500pxPietro da Rimini (1300-1350) – Descida da cruz 1325-1330

 

Nesta semana de Páscoa, quando a cristandade celebra a morte e ressurreição de Cristo, reúno imagens de alguns mestres antigos da pintura ocidental evocativas da Paixão de Cristo, e transcrevo um poema de Salomão Ibn Gabirol (1021-1058), judeu de Málaga ao tempo do Al-Andaluz, dando conta de um conceito de Deus.

1 Quentin MASSYS - Ecce Homo 1515 detalhe 600pxQuentin MASSYS (1465-1530) – Ecce Homo 1515

2 BAEGERT, Derick - Cristo carregando a cruz detalhe 600pxDerick BAEGERT (1440-1515) – Cristo carregando a cruz 1490

3 Gerard DAVID - Cristo pregado na cruz - 1480 600pxGerard DAVID (1460-1523) – Cristo a ser pregado na cruz 1480

4 Mestre húngaro desconhecido - Cristo cruxificado 1476 700pxMestre húngaro desconhecido – Cristo crucificado 1476

5 PLEYDENWURFF, Hans 1420-1472 Descida da cruz 1465detalhe 600pxHans PLEYDENWURFF (1420-1472) – Descida da cruz 1465

6 GIOVANNI DI PAOLO - Lamentação sobre a morte de Cristo 1430-35 detalhe 600pxGIOVANNI di PAOLO (1399-1482) – Lamentação sobre a morte de Cristo 1430-35

7 Fra Angelico Enterro de Cristo 1438-40 detalhe 600pxFra ANGELICO (1400-1455) – Enterro de Cristo 1438-40

 

 

 

São tempos difíceis os que vivemos hoje, no que à tolerância religiosa respeita. Valham-nos os sucessivos gestos simbólicos do Papa Francisco na construção de um clima de respeito e convivência com a diversidade da fé que em cada um habita.

 

Poema de Salomão Ibn Gabirol

 

Tu és o Vivente

sem que momento algum te determine

sem um tempo

sem um sopro ou uma alma

pois Tu és a alma da alma

Tua vida

não se compara à de um homem

tão semelhante ao nada

 

Quem souber teu segredo

gozará eternas delícias

 

 

Tradução de José Tolentino Mendonça

Transcrito de Rosa do Mundo, 2001 poemas para o futuro, Assírio e Alvim, Lisboa 2001.

 

Na Velhice — poema de J. F. Eichendorff

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Claude Lorrain (Claude Gellée) - Paisagem com Apolo e  as Musas 1652 600pxOs filhos leva-os a vida. Os amores?… também. E na velhice, a serenidade surge como um regresso à harmonia feliz da infância. Não será para todos, mas a alguns, o que conta Joseph Freiherr Eichendorff (1788-1837) no poema Im Alter [Na Velhice] acontece.

 

 

Na Velhice

 

Como tudo, outra vez, devém sereno!

Tal qual em minha infância era vulgar,

Mansos regatos vão nos vales correndo

Dentro da solidão crepuscular;

Mal se ouve, ao longe, o canto de um pastor,

Tinem sinos, ecoando nas quebradas

De todas as aldeias em redor,

Prazer e mágoa, ei-los afundados

Nos vales ainda luzem vagamente;

Só, para além da mata em soledade,

Nos píncaros do monte, brilha o poente

Tal como o próprio alvor da Eternidade.

 

Tradução de A. Herculano de Carvalho

Transcrito de oiro de vário tempo e lugar, Asa Editores, 2003.

Nas voltas da memória lembrei-me quanto em miúdo gostava de olhar longamente uma enorme estampa emoldurada pendurado numa parede com uma das paisagens idílicas de Claude Lorrain ou Claude Gellée (1600-1682), onde a serenidade de par com a beleza se espraiam. Com uma sua imagem abre o artigo.

Ainda a poesia de Rosalia de Castro e Cantar de Emigração por Adriano Correia de Oliveira

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E0702 SEGANTINI 7997

Nos tempos das canções de intervenção, há mais de quarenta anos, foi popular o poema de Rosalia de Castro (1837-1885), transcrito no artigo anterior, [Este vai-se, aquele vai-se, …], cantado por Adriano Correia de Oliveira (1942-1982) com música de José Niza (1938-2011), Cantar de Emigração.

Era um tempo em que estava bem presente a sangria de homens levados pela emigração para terras de França em busca do pão de cada dia que Portugal não tinha.

Portugal foi frequentemente terra madrasta para os seus filhos e de novo, nestes anos recentes, os filhos vimos partir em busca do destino que o país não sabe ou não lhes quer dar.

Esta dor funda da partida ouve-se na canção, provavelmente a mais bela canção que Adriano gravou: eterno tanger da solidão de quem fica apenas com a memória dos vivos que se afastam.

Na música a flauta segue a voz de Adriano Correia de Oliveira numa pungente interpretação do poema em versão portuguesa, esta mais tocante que a transcrita no artigo anterior.

Cantar de Emigração por Adriano Correia de Oliveira com poema de Rosalia de Castro e música de José Niza.

 

 

Cantar de Emigração

 

Este parte, aquele parte,

e todos, todos se vão:

Galiza sem homens ficas

que possam cortar teu pão.

Tens em troca, órfãos e órfãs

tens campos de solidão;

tens mães que não têm filhos

filhos que não têm pais.

Coração que tens e sofre

longas ausências mortais.

Viúvas de vivos mortos

que ninguém consolará.

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Giovanni Segantini (1858-1899).

Este vai-se, aquele vai-se… e mais poemas de Rosalia de Castro

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Gustave-Courbet-The-Stonebreakers 600pxA dureza da vida estala sem contemplação na poesia de Rosalia de Castro (1837-1885). Nela não há amabilidades ou concessões ao sentimentalismo, tão só a dor de ver o mundo ao redor, a raiva e a amargura de quanto a vida é difícil quando pão e liberdade faltam, ainda que vez por outra uma nota pessoal surja.

Deixo uma curta escolha.

 

*

Este vai-se, aquele vai-se,

e todos, todos se vão:

Galiza sem homens ficas

que te possam trabalhar.

Tens, em troca, órfãos e órfãs

e campos de solidão;

e mães que não têm filhos

e filhos que não têm pais.

E tens corações que sofrem

longas ausências mortais.

Viúvas de vivos e mortos

que ninguém consolará.

 

**

Foi a Páscoa enxuta,

choveu no São João.

À Galiza a fome

logo chegará.

 

Com melancolia

olham o mar

os que noutras terras

têm de buscar pão.

 

***

Meses do inverno frios

que eu amo a todo o amar:

meses dos fartos rios

e o doce amor do lar.

 

Meses das tempestades

que imagem são da dor

que aflige as mocidades

e as vidas corta em flor.

 

Chegai, e atrás do Outono

que as folhas faz morrer,

nelas deixai que o sono

eu durma no não-ser.

 

E quando o Sol formoso

de Abril sorria outra vez,

dê luz ao meu repouso,

já não ao meu sofrer.

 

****

Dizem alguns: Minha terra!

Dizem outros: Meu carinho!

E este: Minhas lembranças!

E aquele: Oh, meus amigos!

Todos suspiram, todos,

por algum bem perdido.

Eu só não digo nada.

Eu só nunca suspiro.

Que o meu corpo de terra

e o meu cansado espírito,

aonde quer que eu vá

vão comigo.

 

*****

Mas vê que o meu coração

é uma rosa de cem folhas,

e cada folha é uma pena

que vive apegada noutra.

 

Tiras uma, tiras duas,

penas me ficam de sobra;

dez hoje, amanhã quarenta,

desfolha que te desfolha…

 

O coração me arrancaras

se me as arrancasses todas!

 

******

Tal como as nuvens

que o vento leva

e agora ensombram, e agora alegram

os espaços imensos do céu,

assim as ideias

loucas que eu tenho

as imagens de múltiplas formas

de cores estranhas, de feitios incertos

agora ensombram

agora aclaram

o fundo sem fundo do meu pensamento

 

Poemas em adaptação do galego por Ernesto Guerra da Cal.

Transcritos de Rosalia de Castro, Antologia Poética e Cancioneiro Rosaliniano, Guimarães Editores, Lisboa, 1985.

Termino com o Cantar Gallego XXVII que dá bem conta dos sentimentos de galegos perante Castela e castelhanos.

A transcrição feita a partir da edição Aguilar, Rosalia de Castro, Obras Completas, Madrid, 1947, levantou-me dúvidas de ortografia do galego, que desconheço. Se algum leitor com domínio do galego identificar erros ortográficos agradeço se os referir.

Cantar Gallego XXVII

 

Castellanos de Castilla,

tratade ben ós galegos;

cando van, van como rosas;

cando vén, vén como negros!

 

Cando foi, iba sorrindo,

cando veu, viña morrendo;

a luciña d’os meus ollos,

o amantiño do meu peito.

 

Aquel, máis que neve branco,

aquel de doçuras cheyo,

aquel por quen eu vivía

e sin quen vivir non quero.

 

Foi a Castilla por pan

e saramagos lle deron;

déronlle fel por bebida,

peniñas por alimento.

 

Déronlle, en fin, canto amargo

tén â vida no seu seo…

¡Casteláns, casteláns,

tendes coraçón de ferro!

 

¡Ai!, no meu coraçonciño

xa non pode haber contento,

qu’ está de dolor ferido,

qu’ está de loito cuberto.

 

Morreu aquel qu’ eu quería

e para min n’ hai consolo:

so hai para min, Castilla,

a mala lei que che teño.

 

Permita Deus, casteláns,

casteláns que aborrezo,

que antes os galegos morran

que ir a pedirvos sustento.

 

Pois tan mal coraçón tendes,

secos fillos do deserto,

que se amargo pan vos gañan,

dádesllo envolto en veneno.

 

Aló van, mal pocadiños,

todos de esperanzas cheyos,

e volven, ¡as!, sen ventura

cun caudal de desprezos.

 

Van probes e tornan probes,

van sans e tornan enfermos,

que anque eles son como rosas,

tratádelos como negros.

 

¡Casteláns de Castela,

tendes corazón de aceiro,

alma como as penas dura,

e sen entrañas o peito!

 

En tros de palla sentados,

sen fundamentos, soberbos,

pensas que os nosos filliños

para servirvos naceron.

 

E nunca tan torpe idea,

tan criminal pensamento

coubo en máis fatuas cabezas

ni en máis fatuos sentimentos.

 

Que Castela e Casteláns,

todos nun montón, a eito,

non valen o que unha herbiña

destes nosos campos frescos.

 

Só pezoñosas charcas

detidas no ardente solo

tes, Castela, que humedezan

eses teus labios sedentos.

 

Que o mar deixoute esquecida

e lonxe de ti correron

as brandas augas que traen

de plantas sen sementeiros.

 

Nin árbores que dean sombra,

nin sombra que preste alento…

Chaira e sempre chaira,

deserto e sempre deserto…

 

Esto che tocou, coitada,

por herdanza no universo,

¡miserable fanfurriñeira!,

triste herdanza foi por certo.

 

En verdade non hai, Castela,

nada coma ti tan feo,

que aínda mellor que Castela

valera dicir inferno.

 

¿Por que aló fuches, meu ben?

¡Nunca tal houberas feito!

¡Trocar campiños floridos

por tristes campos sen rego!

 

¡Trocar tan claras fontiñas,

ríos tan murmuradores

por seco polbo que nunca

mollan as bágoas do ceo!

 

Mais, ¡ai!, de onda min te fuches

sen dó do meu sentimento,

e aló a vida che quitaron ,

aló a mortiña che deron.

 

Morriches, meu queridiño,

e para min non hai consolo,

que onde antes te vía, agora,

xa solo unta tomba vexo.

 

Triste como a mesma noite,

farto de dolor o peito,

pídolle a Deus que me mate,

porque xa vivir non quero.

 

Mais en tanto non me mata,

casteláns que aborrezo,

hei, para vergonza,

heivos de cantar xemendo:

 

¡Casteláns de Castela,

tratade ben ós galegos:

cando van, van como rosas;

cando vén, vén como negros!

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Gustave Courbet (1819-1877).

Mamografia de mármore — um poema de Inês Lourenço

Venus de Willendorf 500pxNa poesia de Inês Lourenço (1942) saborear as palavras, qual gourmet da língua, é a outra dimensão que torna alguns poemas irresistíveis, sendo a sua poesia um itinerário amargo pelo nosso tempo, a que uma cultura herdada ajuda a dar coerência e revelar as peculiaridades. Propondo-me noutra ocasião fazer-lhe uma visita mais circunstanciada, transcrevo hoje apenas um poema onde as características que enunciei se revelam.

 

Mamografia de mármore

 

Deliciam-me as palavras

dos relatórios médicos, os nomes cheios

de saber oculto e míticos lugares

como região sacro-lombar ou o tendão de Aquiles.

 

Numa mamografia de rastreio,

a incidência crânio-caudal seria

um bom título para uma tese teológica.

 

Alguns poetas falam disso. Pneumotórax

de Manuel Bandeira ou Electrocardiograma

de Nemésio, para não referir os vermelhos de hemoptise

de Pessanha ou as engomadeiras tísicas

de Cesário.

 

Mas nenhum(a) falou (ou fala)

de mamografia de rastreio. Versos dignos

só os de mamilo róseo desde o tempo

de Safo ou de Penélope. E, de Afrodite

enquanto deusa, só restaram óleos e

mamografias de mármore.

 

Publicado inicialmente em Coisas que Nunca, Lisboa, &etc, 2010.

Transcrito de Inês Lourenço, O Segundo Olhar poemas escolhidos, Companhia das Ilhas, Lages do Pico, 2015.

Nota Iconográfica

Abre o artigo uma fotografia da escultura conhecida como Vénus de Willendorf.

Trata-se de uma peça pré-histórica encontrada na Áustria. Possui 11cm e guarda-se no Museu de História Natural de Viena (Naturhistorisches Museum Wien). Segundo o catálogo do museu a escultura terá 29.500 anos.

Umberto Eco, na sua História da Beleza, escolheu-a para abrir a galeria das representações de Vénus Nua ao longo dos séculos. (A edição portuguesa da obra refere erroneamente que a escultura se encontra no Museu de Arte Antiga de Viena.).

 

Ricardo Reis — Nunca a alheia vontade, inda que grata, cumpras por própria

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George de La Tour (1593-1652)- Ler a Sina (1632-1635) 600pxDe vez em quando Pessoa: hoje um convite assinado Ricardo Reis para a afirmação do eu independente.

Num mundo amplamente condicionante das escolhas de cada um por modas, juízos sociais e pressões afectivas, afirmar o eu é uma tarefa que só na aparência se tem por conseguida. Antes de escolher, olhamo-nos no espelho dos outros, por mais que nos confortemos com a ilusão da nossa singularidade.

 

 

116

Nunca a alheia vontade, inda que grata,

Cumpras por própria. Manda no que fazes,

Nem de ti mesmo servo.

Ninguém te dá quem és. Nada te mude.

Teu íntimo destino involuntário

Cumpre alto. Sê teu filho

 

19-11-1930

 

 

Diz-se neste poema o mesmo que José Régio (1901-1969) exclamava em 1925 no poema Cântico Negro:

 

Ninguém me diga: “vem por aqui”!

 

 

Não sei por onde vou,

 

Não sei para onde vou

 

–  Sei que não vou por aí!

 

 

No tempo em que as fábulas eram prezadas como veículos de aprendizagem de valores e comportamentos, era popular uma versão simplificada da fábula de La Fontaine sobre O velho, o rapaz, e o burro, dando exactamente conta do sem sentido de governarmos o nosso comportamento pela opinião dos outros.

 

O velho, o rapaz, e o burro

 

O mundo ralha de tudo,

Tenha ou não tenha razão,

Quero contar uma história

Em prova desta asserção.

 

Partia um velho campónio

Do seu monte ao povoado;

Levava um neto que tinha,

No seu burrico montado.

 

Encontra uns homens que dizem:

“Olha aquela que tal é!

Montado o rapaz, que é forte,

E o velho, trôpego, a pé!

 

— Tapemos a boca ao mundo,

O velho disse; — rapaz,

Desce do burro, que eu monto,

E vem caminhando atrás.”

 

Monta-se, mas dizer ouve,

“Que patetice tão rata!

O tamanhão, de barrinha,

E o pobre pequeno à pata!

 

— Eu me apeio, diz, prudente,

O velho de boa fé;

Vá o burro sem carrego,

E vamos ambos a pé.”

 

Apeiam-se, e outros lhes dizem:

“Toleirões, calcando a lama!

De que lhes serve o burrinho?

Dormem com ele na cama?

 

— Rapaz, diz o bom do velho,

Se de irmos a pé murmuram,

Ambos no burro montemos,

A ver se inda nos censuram.”

 

Montam, mas ouvem de um lado:

“Apeiem-se almas de breu,

Querem matar o burrinho?

Aposto que não é seu!

 

— Vamos ao chão, diz o velho,

Já não sei que hei-de fazer!

O mundo está de tal sorte,

Que se não pode entender.

 

É mau se monto no burro,

Se o rapaz monta, mau é;

Se ambos montamos é mau,

E é mau se vamos a pé!

 

De tudo me têm ralhado;

Agora que mais me resta?

Peguemos no burro às costas,

Façamos inda mais esta!

 

Pegam no burro; o bom velho

Pelas mãos o ergue do chão,

Pega-lhe o rapaz nas pernas,

E assim caminhando vão.

 

“Olhem dois loucos varridos!

Ouvem com grande sussurro, —

Fazendo mundo às avessas,

Tornados burros do burro!”

 

O velho então pára, e exclama:

“Do que observo me confundo!

Por mais que a gente se mate,

Nunca tapa a boca do mundo.

 

Rapaz, vamos como dantes,

Sirvam-nos estas lições:

É mais que tolo quem dá

Ao mundo satisfações.”

 

Nota bibliográfica e iconográfica

 

Ricardo Reis (nascimento fictício em 19 de Setembro de 1887), Poesia, edição de Manuela Parreira da Silva, Assírio & Alvim, Lisboa, 2000. O número do poema é o da edição mencionada.

O poema de José Régio foi publicado em Poemas de Deus e do Diabo (1925), e pode ser encontrado no blog acompanhado de uma sua retumbante leitura por João Villaret.

A versão da fábula de La Fontaine, transcrita de uma edição das suas fábulas recreadas em português (Ed. Minerva, Lisboa, s/d), vem atribuída a Curvo Semedo (1766-1838). Infelizmente, nas edições das obras deste poeta que conheço, não encontrei tal versão.

A fábula de La Fontaine (1621-1695) abre o Livro III das Fábulas e chama-se O Moleiro, o Filho e o Burro. Filinto Elísio (1734-1819) traduziu a fábula integralmente em verso branco e consta da edição das suas Obras Completas, Vol VI, Paris, 1818.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de George de La Tour (1593-1652), A Cartomante.

Jogo de olhares e manifestação simultânea de crendice e velhacaria: enquanto a cartomante prende a atenção do rapaz, ávido de saber o que o espera na vida, as duas jovens aproveitam para o roubar. A composição desenvolve-se de forma magistral entre a linguagem dos olhares e a linguagem das mãos, devolvendo todas as cambiantes do significado da cena. Cena de costumes e armadilha exemplar do jovem aprendiz das ratoeiras da vida.

As Portas — poema de Ruth Fainlight

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Anna Margit- Guardian of Flame 500pxAbro ao acaso a antologia Rosa do Mundo: apenas um poema por poeta, de tempos imemoriais ao século XX, num percurso pelo mundo. Sem enquadramentos literários ou considerações avulsas sobre o seu significado, tão só a força da poesia ao encontro do leitor.

Do acaso de hoje trago o poema As Portas de  Ruth Fainlight (1931) em tradução de Ana Hatherly.

 

As Portas

 

Há o trabalho de dar à luz.

Já o conheci — às vezes

lembro até o esforço de nascer.

Para vir está ainda

o trabalho de deixar a vida. Vi como é difícil

para alguns, enquanto outros,

que estavam presentes num momento

a seguir desapareceram. Passei

a porta da carne. Agora, a espera — quanto ainda? —

para aprender a última tarefa

antes de atravessar a porta da terra.

 

in Rosa do Mundo, 2001 Poemas para o Futuro, Assírio & Alvim, Lisboa, 2001.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Anna Margit (1913-1991).

Agora és um animal que pensa — poema de Daniel Faria

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Haring_Keith- Apocalypse 3 500pxAmei a vida

Como se fora um castigo

 

Cantei-a

Como se fora um feitiço

 

 

Intensa meditação sobre a morte em diálogo com Deus, da leitura da obra poética de Daniel Faria (1971-1999) saímos com uma estranha sensação onde a serenidade se enlaça à branda aceitação do destino.

Transcrevo alguns poemas.

 

 

*

Mas tu existes.

Os dias somam ruína à ruína

E o a vir multiplicará

A miséria.

Apodreço não adubando a terra

E cada dia somado a cada hora

Não completa o tempo.

Sei que existes e multiplicarás

A tua falta.

Somarei a tua ausência à minha escuta

E tu redobrarás a minha vida.

 

 

**

Agora és um animal que pensa

Amanhã um animal que dorme

Mas tens uma noite inteira para dormires do mesmo lado

 

Hoje és um dia que começa outra vez

Como se hoje pudesses plantar o dia que não acaba

Um animal que come a sombra diurna daquilo que é pensado

 

És um alimento

Agora és um alimento que dorme

Do mesmo lado da mão direita de quem colhe

 

Como se hoje pudesses plantar-te no que frutifica

E igualares-te no silêncio a uma pedra fechada

Uma pedra em sua natureza humilde de coisa que vive

Em seu mistério de coisa que sem sementes se propaga

 

Agora és um animal que se propaga no sono

Que pesa menos do que o sonho ou um pássaro

Um animal que se eleva em seu instinto de máquina

 

És agora uma máquina montada para a morte

Uma avaria dentro dela que lentamente desgasta.

E fabricas um homem que se afasta

 

Do mundo

 

 

Ezequiel  (Ez12, 1-20)

 

Arruma as tuas alegrias

E faz as malas como se fosses emigrante

 

Leva contigo todas as coisas

E parte de dia como se fosses emigrante

Para que possas levar também a luz

 

Abre a cal. O flanco do muro

Porque vais como emigrante e precisas

De regressar

 

Na parede faz uma abertura

Para que os que passam vejam o teu rosto

E não digam: vai beber ao poço

Vai visitar um parente no estrangeiro

Ninguém chora por razões assim

 

Parte de tarde, dobrando a luz

Cobrindo o rosto de cinza e sombra

Porque és um povo que abandona a tua casa

E nos teus passos eu arraso o teu país

 

 

Cigarra

 

Amei a vida

Como se fora um castigo

 

Cantei-a

Como se fora um feitiço

 

Agora chora

Esse canto calado

Sacie-te a voz

Agasalhe-te o pranto

 

Que fizeste no Verão?

Vendeste o teu canto?

 

Não vendi

Dei-o às aves

A qualquer viandante

 

Oh leva-me flores

Quando já o meu corpo

Caído não cante

 

Poemas transcritos de Daniel Faria, Poesia, Edição de Vera Vouga, Edições quasi, 2003.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Keith Haring (1958-1990), Apocalipse 3.

St. Valentine’s Day segundo Adília Lopes

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Maria Noma Bliss - CoupleNa poesia de Adília Lopes (1960), obsessivamente prosaica na formulação, frequentemente epigramática no conteúdo, atravessada pela ausência do par, e onde o desconsolo de viver é uma constante, surge esta floração sobre o amor para o Dia dos Namorados:

 

 

St. Valentine’s Day

 

To Michael

 

Roses are red

Violetas are blue

Love is gold

To the happy few

 

in A mulher-a-dias, & etc, 2002

 

Transcrito de Dobra, Poesia Reunida 1983-2014, Assírio & Alvim, 2014.

W. H. Auden — Ó Contem-me a Verdade do Amor

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Caravaggio - O Amor supera tudo (Amor vincit omnia) 500pxAinda que raramente, o cinema tem contribuído para a divulgação de poesia junto de largas camadas de público a ela habitualmente alheio. Não falo de O Clube dos Poetas Mortos que fez da poesia o centro do argumento, mas concretamente, hoje, de um poema de W. H. Auden (1907-1973) recitado em Quatro Casamentos e um Funeral, numa cena que se crava fundo na memória de quem alguma vez a viu. Recordo-a: na cerimónia fúnebre de despedida do membro de um casal gay, o companheiro lê o poema Funeral Blues. Nele, os três primeiros versos da terceira estrofe:

 

He was my North, my South, my East and West,

My working week and my Sunday rest,

My noon, my midnight, my talk, my song;

I thought that love would last for ever: I was wrong.

 

ganham a dimensão de definição absoluta do amor, que é, independentemente de questões de género.

O poema foi, na publicação inicial em livro (Another Time, 1940) o terceiro de um conjunto de quatro intitulado Quatro canções de cabaré para Miss Heldi Anderson.

Do conjunto transcrevo a seguir o segundo poema, O Tell Me the Truth About Love, ou como escolhe a tradução portuguesa que se lerá, Ó Contem-me a Verdade do Amor:

 

Estou quase nos trinta e cinco,

E continuo inocente

Sobre essa criatura estranha

Que tanto incomoda a gente.

 

Há, neste poema, a mesma atmosfera de sátira, estendida à incompreensão expectante sobre o amor e a sua impossibilidade, decorrente das vicissitudes da vida, que atravessa todo o ciclo.

 

 

Ó Contem-me a Verdade do Amor

 

Há quem diga que o amor é um rapazinho

E quem diga que é uma ave;

Dizem que faz girar o mundo sozinho

Há quem ache um erro grave:

Mas quando quis saber pelo meu vizinho

Que me pareceu entendido,

A sua mulher ficou muito sentida

E disse que era proibido.

 

Será que parece um pijama

Ou um presunto numa estância termal,

Será que o cheiro lembra um lama

Ou tem um perfume floral?

Será áspero como arame farpado

Ou suave como um macio cobertor,

Será cortante ou polido nos lados?

Ó contém-me a verdade do amor.

 

Os livros de história referem-se-lhe

Em crípticos traços românticos,

E é um assunto vulgar

Nos navios transatlânticos;

Já vi o tema abordado

Em relatos suicidários,

E até o vi escrevinhado

Em guias ferroviários.

 

Uiva ele tal lobo esfaimado,

Ou ribomba tal banda da armada,

Será o seu som fielmente imitado

Num serrote ou num Steinway de cauda,

Será que gosta do estilo Clássico

Ou que nas festas é provocador,

Calar-se-á a meu mando tácito?

Ó contém-me a verdade do amor.

 

Procurei na casa de Verão

Mas não o achei desta guisa,

No ar revigorante de Brighton,

Nem em Maidenhead, no Tamisa,

Não entendo a voz da roseira,

Nem sei do melro a canção,

Mas não estava na capoeira

Nem debaixo do colchão.

 

É mestre em caretas sortidas,

Entontece num carrossel,

Ou passa o tempo em corridas,

Brincando com fios de cordel,

Tem ideias sobre o dinheiro,

Defende da pátria o louvor,

Apraz-lhe o humor grosseiro?

Ó contém-me a verdade do amor.

 

Dizem-me que há sempre lembrança

Dos sentimentos que inspira,

Procuro-o desde criança,

E nunca o tive na mira.

Estou quase nos trinta e cinco,

E continuo inocente

Sobre essa criatura estranha

Que tanto incomoda a gente.

 

E quando vier, virá sem avisar

Enquanto eu limpar o nariz,

Vê-lo-ei à porta quando eu acordar,

Ou no autocarro a pisar-me os pés,

Virá como muda a temperatura,

Com lisura ou tortura ou pior,

Mudará minha vida futura?

Ó contém-me a verdade do amor.

 

Tradução de Margarida Vale de Gato

in Outro Tempo, Relógio d’Água Editores, Lisboa, Maio de 2003.

 

Antes da publicação desta tradução, tinha Maria de Lurdes Guimarães publicado uma outra do mesmo poema a partir da recolha tardia, feita pelo poeta, de um conjunto avulso de poemas a que este O Tell Me the Truth About Love dá título (Diz-me A Verdade Acerca do Amor, dez poemas, Relógio d’Água Editores, Lisboa, 1994).

Termino com o poema original publicado inicialmente no livro Another Time, 1940.

 

O Tell Me the Truth About Love

 

Some say that love’s a little boy,

And some say it’s a bird,

Some say it makes the world go round,

And some say that’s absurd,

And when I asked the man next door,

Who looked as if he knew,

His wife got very cross indeed,

And said it wouldn’t do.

 

Does it look like a pair of pyjamas,

Or the ham in a temperance hotel?

Does its odour remind one of llamas,

Or has it a comforting smell?

Is it prickly to touch as a hedge is,

Or soft as eiderdown fluff?

Is it sharp or quite smooth at the edges?

O tell me the truth about love.

 

Our history books refer to it

In cryptic little notes,

It’s quite a common topic on

The Transatlantic boats;

I’ve found the subject mentioned in

Accounts of suicides,

And even seen it scribbled on

The backs of railway guides.

 

Does it howl like a hungry Alsatian,

Or boom like a military band?

Could one give a first-rate imitation

On a saw or a Steinway Grand?

Is its singing at parties a riot?

Does it only like Classical stuff?

Will it stop when one wants to be quiet?

O tell me the truth about love.

 

I looked inside the summer-house;

It wasn’t even there;

I tried the Thames at Maidenhead,

And Brighton’s bracing air.

I don’t know what the blackbird sang,

Or what the tulip said;

But it wasn’t in the chicken-run,

Or underneath the bed.

 

Can it pull extraordinary faces?

Is it usually sick on a swing?

Does it spend all its time at the races,

or fiddling with pieces of string?

Has it views of its own about money?

Does it think Patriotism enough?

Are its stories vulgar but funny?

O tell me the truth about love.

 

When it comes, will it come without warning

Just as I’m picking my nose?

Will it knock on my door in the morning,

Or tread in the bus on my toes?

Will it come like a change in the weather?

Will its greeting be courteous or rough?

Will it alter my life altogether?

O tell me the truth about love.

Janeiro 1938

 

Transcrito de Collected Poems, edição de Edward Mendelson, Faber and Faber, 1994. Nesta edição o poema integra, na Part IV, um grupo de doze poemas, sem o título inicial do conjunto de quatro.

 

Notas finais

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Caravaggio (1571-1610), O Amor tudo vence, Amor vincit omnia.

Trata-se de uma inversão de parte do verso 69 da Bucólica X de Virgílio (70 a.C-19 a.C): omnia vincit amor: et nos cedamus Amori. (O Amor tudo vence: e nós submetamo-nos ao amor.).

Encontra o leitor o verso tanto na tradução em prosa de Bucólicas de Virgílio por Maria Isabel Ribeiro Gonçalves, Verbo, 1996, como na edição de Bucólicas profusamente anotada e comentada de João Pedro Mendes, Construção e Arte das Bucólicas de Virgílio, Almedina, Coimbra, 1997.

Com este conjunto de 4 poemas de Auden compôs Benjamin Britten (1913-1976) um ciclo para voz e piano, Cabaret Songs. O leitor interessado encontra interpretações no YouTube.