Venus de Willendorf 500pxNa poesia de Inês Lourenço (1942) saborear as palavras, qual gourmet da língua, é a outra dimensão que torna alguns poemas irresistíveis, sendo a sua poesia um itinerário amargo pelo nosso tempo, a que uma cultura herdada ajuda a dar coerência e revelar as peculiaridades. Propondo-me noutra ocasião fazer-lhe uma visita mais circunstanciada, transcrevo hoje apenas um poema onde as características que enunciei se revelam.

 

Mamografia de mármore

 

Deliciam-me as palavras

dos relatórios médicos, os nomes cheios

de saber oculto e míticos lugares

como região sacro-lombar ou o tendão de Aquiles.

 

Numa mamografia de rastreio,

a incidência crânio-caudal seria

um bom título para uma tese teológica.

 

Alguns poetas falam disso. Pneumotórax

de Manuel Bandeira ou Electrocardiograma

de Nemésio, para não referir os vermelhos de hemoptise

de Pessanha ou as engomadeiras tísicas

de Cesário.

 

Mas nenhum(a) falou (ou fala)

de mamografia de rastreio. Versos dignos

só os de mamilo róseo desde o tempo

de Safo ou de Penélope. E, de Afrodite

enquanto deusa, só restaram óleos e

mamografias de mármore.

 

Publicado inicialmente em Coisas que Nunca, Lisboa, &etc, 2010.

Transcrito de Inês Lourenço, O Segundo Olhar poemas escolhidos, Companhia das Ilhas, Lages do Pico, 2015.

Nota Iconográfica

Abre o artigo uma fotografia da escultura conhecida como Vénus de Willendorf.

Trata-se de uma peça pré-histórica encontrada na Áustria. Possui 11cm e guarda-se no Museu de História Natural de Viena (Naturhistorisches Museum Wien). Segundo o catálogo do museu a escultura terá 29.500 anos.

Umberto Eco, na sua História da Beleza, escolheu-a para abrir a galeria das representações de Vénus Nua ao longo dos séculos. (A edição portuguesa da obra refere erroneamente que a escultura se encontra no Museu de Arte Antiga de Viena.).

 

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