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Caravaggio - O Amor supera tudo (Amor vincit omnia) 500pxAinda que raramente, o cinema tem contribuído para a divulgação de poesia junto de largas camadas de público a ela habitualmente alheio. Não falo de O Clube dos Poetas Mortos que fez da poesia o centro do argumento, mas concretamente, hoje, de um poema de W. H. Auden (1907-1973) recitado em Quatro Casamentos e um Funeral, numa cena que se crava fundo na memória de quem alguma vez a viu. Recordo-a: na cerimónia fúnebre de despedida do membro de um casal gay, o companheiro lê o poema Funeral Blues. Nele, os três primeiros versos da terceira estrofe:

 

He was my North, my South, my East and West,

My working week and my Sunday rest,

My noon, my midnight, my talk, my song;

I thought that love would last for ever: I was wrong.

 

ganham a dimensão de definição absoluta do amor, que é, independentemente de questões de género.

O poema foi, na publicação inicial em livro (Another Time, 1940) o terceiro de um conjunto de quatro intitulado Quatro canções de cabaré para Miss Heldi Anderson.

Do conjunto transcrevo a seguir o segundo poema, O Tell Me the Truth About Love, ou como escolhe a tradução portuguesa que se lerá, Ó Contem-me a Verdade do Amor:

 

Estou quase nos trinta e cinco,

E continuo inocente

Sobre essa criatura estranha

Que tanto incomoda a gente.

 

Há, neste poema, a mesma atmosfera de sátira, estendida à incompreensão expectante sobre o amor e a sua impossibilidade, decorrente das vicissitudes da vida, que atravessa todo o ciclo.

 

 

Ó Contem-me a Verdade do Amor

 

Há quem diga que o amor é um rapazinho

E quem diga que é uma ave;

Dizem que faz girar o mundo sozinho

Há quem ache um erro grave:

Mas quando quis saber pelo meu vizinho

Que me pareceu entendido,

A sua mulher ficou muito sentida

E disse que era proibido.

 

Será que parece um pijama

Ou um presunto numa estância termal,

Será que o cheiro lembra um lama

Ou tem um perfume floral?

Será áspero como arame farpado

Ou suave como um macio cobertor,

Será cortante ou polido nos lados?

Ó contém-me a verdade do amor.

 

Os livros de história referem-se-lhe

Em crípticos traços românticos,

E é um assunto vulgar

Nos navios transatlânticos;

Já vi o tema abordado

Em relatos suicidários,

E até o vi escrevinhado

Em guias ferroviários.

 

Uiva ele tal lobo esfaimado,

Ou ribomba tal banda da armada,

Será o seu som fielmente imitado

Num serrote ou num Steinway de cauda,

Será que gosta do estilo Clássico

Ou que nas festas é provocador,

Calar-se-á a meu mando tácito?

Ó contém-me a verdade do amor.

 

Procurei na casa de Verão

Mas não o achei desta guisa,

No ar revigorante de Brighton,

Nem em Maidenhead, no Tamisa,

Não entendo a voz da roseira,

Nem sei do melro a canção,

Mas não estava na capoeira

Nem debaixo do colchão.

 

É mestre em caretas sortidas,

Entontece num carrossel,

Ou passa o tempo em corridas,

Brincando com fios de cordel,

Tem ideias sobre o dinheiro,

Defende da pátria o louvor,

Apraz-lhe o humor grosseiro?

Ó contém-me a verdade do amor.

 

Dizem-me que há sempre lembrança

Dos sentimentos que inspira,

Procuro-o desde criança,

E nunca o tive na mira.

Estou quase nos trinta e cinco,

E continuo inocente

Sobre essa criatura estranha

Que tanto incomoda a gente.

 

E quando vier, virá sem avisar

Enquanto eu limpar o nariz,

Vê-lo-ei à porta quando eu acordar,

Ou no autocarro a pisar-me os pés,

Virá como muda a temperatura,

Com lisura ou tortura ou pior,

Mudará minha vida futura?

Ó contém-me a verdade do amor.

 

Tradução de Margarida Vale de Gato

in Outro Tempo, Relógio d’Água Editores, Lisboa, Maio de 2003.

 

Antes da publicação desta tradução, tinha Maria de Lurdes Guimarães publicado uma outra do mesmo poema a partir da recolha tardia, feita pelo poeta, de um conjunto avulso de poemas a que este O Tell Me the Truth About Love dá título (Diz-me A Verdade Acerca do Amor, dez poemas, Relógio d’Água Editores, Lisboa, 1994).

Termino com o poema original publicado inicialmente no livro Another Time, 1940.

 

O Tell Me the Truth About Love

 

Some say that love’s a little boy,

And some say it’s a bird,

Some say it makes the world go round,

And some say that’s absurd,

And when I asked the man next door,

Who looked as if he knew,

His wife got very cross indeed,

And said it wouldn’t do.

 

Does it look like a pair of pyjamas,

Or the ham in a temperance hotel?

Does its odour remind one of llamas,

Or has it a comforting smell?

Is it prickly to touch as a hedge is,

Or soft as eiderdown fluff?

Is it sharp or quite smooth at the edges?

O tell me the truth about love.

 

Our history books refer to it

In cryptic little notes,

It’s quite a common topic on

The Transatlantic boats;

I’ve found the subject mentioned in

Accounts of suicides,

And even seen it scribbled on

The backs of railway guides.

 

Does it howl like a hungry Alsatian,

Or boom like a military band?

Could one give a first-rate imitation

On a saw or a Steinway Grand?

Is its singing at parties a riot?

Does it only like Classical stuff?

Will it stop when one wants to be quiet?

O tell me the truth about love.

 

I looked inside the summer-house;

It wasn’t even there;

I tried the Thames at Maidenhead,

And Brighton’s bracing air.

I don’t know what the blackbird sang,

Or what the tulip said;

But it wasn’t in the chicken-run,

Or underneath the bed.

 

Can it pull extraordinary faces?

Is it usually sick on a swing?

Does it spend all its time at the races,

or fiddling with pieces of string?

Has it views of its own about money?

Does it think Patriotism enough?

Are its stories vulgar but funny?

O tell me the truth about love.

 

When it comes, will it come without warning

Just as I’m picking my nose?

Will it knock on my door in the morning,

Or tread in the bus on my toes?

Will it come like a change in the weather?

Will its greeting be courteous or rough?

Will it alter my life altogether?

O tell me the truth about love.

Janeiro 1938

 

Transcrito de Collected Poems, edição de Edward Mendelson, Faber and Faber, 1994. Nesta edição o poema integra, na Part IV, um grupo de doze poemas, sem o título inicial do conjunto de quatro.

 

Notas finais

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Caravaggio (1571-1610), O Amor tudo vence, Amor vincit omnia.

Trata-se de uma inversão de parte do verso 69 da Bucólica X de Virgílio (70 a.C-19 a.C): omnia vincit amor: et nos cedamus Amori. (O Amor tudo vence: e nós submetamo-nos ao amor.).

Encontra o leitor o verso tanto na tradução em prosa de Bucólicas de Virgílio por Maria Isabel Ribeiro Gonçalves, Verbo, 1996, como na edição de Bucólicas profusamente anotada e comentada de João Pedro Mendes, Construção e Arte das Bucólicas de Virgílio, Almedina, Coimbra, 1997.

Com este conjunto de 4 poemas de Auden compôs Benjamin Britten (1913-1976) um ciclo para voz e piano, Cabaret Songs. O leitor interessado encontra interpretações no YouTube.

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