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vicio da poesia

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A prostituição na poesia (3) – BE MY LOVE

30 Sábado Jan 2010

Posted by viciodapoesia in A mulher imaginada, Crónicas

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João Sampayo

Não te adoro porque não existes.

Ah!… Se eu pudesse amar-te, adorar-te.

Se eu pudesse ter-te nos meus braços,

abraçar-te, beijar-te, embriagadoramente!…


BE MY LOVE!

diz a musica que ressoa nos meus ouvidos.

Dentro de mim.

Nos meus dedos, nos meus cabelos.

Que faz vibrar todo o meu corpo.

Que não cala.

Que me absorve.

Que me dilui.


BE MY LOVE!


Ah! Como fazes vibrar toda a minha alma!

Como despertas em mim um sentimento banido, recalcado.

Como me incutes amor, sem eu estar apaixonado!…


Be my love e fica sempre ao pé de mim.

Nunca me abandones.

Nada mais tenho do que beijos para te dar…


Meu amor, como não te tenho, porque não existes,

sê a minha musica.

Be my love!

Nunca me abandones!…  Ou então parte

definitivamente.

Be my love uma vez e sempre!


Nós não somos deste mundo, os dois.

Transcendemos há muito o Transcendente.


Odeio-te pelo amor que te tenho.

Não te adoro porque não existes.


Be my love! Para ficarmos tristes

de ser felizes.

………………………………………………………………………………………………………………………………………………..


Une o teu corpo ao meu.

Sim!… TU!


Oferece-me a felicidade roxa de um momento que se compra como umas meias de seda artificial.

Supõe que me amas.

Esquece o teu lucro material.

Be my love. Apaga a luz.

…………………………………………………………………………………………………………………………………….


BE MY LOVE!…

……………………………………………………………………………………………………………………………………


Toma o teu dinheiro.

Obrigado pelo amor que me deste.

Obrigado por essa hora divinamente torpe,

em que te vendeste.

Be my love outra noite… Outra vez!

E perdoa!…


Amo-te porque não posso amar-te.

Mas não te odeio por desejar-te.

Não fiques triste!…

Aquela que eu verdadeiramente amo,

não existe.


Amo o ar livre, o sol, a lua, as estrelas,

os cais desertos,

as silhuetas e o fumo dos vapores ao longe.

Amo a dor das despedidas, os ultimos adeuses,

As lágrimas mal contidas.


O meu amor é isto e aquilo que eu não digo, mas sinto.

Que senti desfalecer dentro de mim quando ouvi cantar:


BE MY LOVE!


Quando descobri que adorava ainda aquela que eu verdadeiramente amo,

mas que não existe.

Não fiques triste!…


SÊ O MEU AMOR SINTÉTICO!


Be my love outra noite… Outra vez!

Amor sintético chama-lhe o poeta.


É na verdade um grito de amor na impossibilidade de ter a quem se ama, negando-lhe a existência repetidamente ao longo do poema: aquela que eu verdadeiramente amo não existe.

Na impossibilidade do amor correspondido, a carne não cala o desejo e procura o corpo disponível:

Une o teu corpo ao meu / Oferece-me a felicidade roxa de um momento que se compra como umas meias de seda artificial. /  Supõe que me amas

Mas lá vem, inevitável, a culpa de comprar o amor, com um insulto na forma de obrigado:  Obrigado por essa hora divinamente torpe, /  em que te vendeste.

É tramado isto do sexo a dinheiro.

Nos anos 50, quando o poema foi composto, o comércio do sexo, revestia para os homens, contornos que hoje temos dificuldade em imaginar.

Mais à frente no poema, temos a revelação de que o poeta continua a amar alguém e afoga no amor sintético a impaciência que o corpo não cala:

“O meu amor é isto e aquilo que eu não digo, mas sinto. / Quando descobri que adorava ainda aquela que eu verdadeiramente amo”.


Belíssimo poema da desolação afectiva, de um autor de quem nada sei. Histórias e dicionários de literatura passam em silêncio sobre o seu nome.

Assina João Sampayo, e publicou este livro  POEMAS SEM ÍNDICE em 1954, provavelmente em edição de autor, identificando o editor como João Fantasma.

Esta foi uma daquelas deslumbrantes descobertas de alfarrabista.

O livro, concebido como uma unidade, divide-se em 7 + 1 partes. Cada parte abre com um desenho, original suponho. Todos os desenhos vem assinados, e alguns por nomes maiores das artes plásticas portuguesas.

A abrir o livro este poema:

No princípio não era Nada porque nada

não tem princípio

Nada não tem fim

Nem nada se criou


No sétimo dia Deus descansou

e começou

por perder tempo

e seguem-se as diferentes partes:

ERA UMA VEZ  – abre com desenho de Pedro Felix Correia

AMOR SINTÉTICO  – abre com desenho de Diogo Lino Pimentel

NEO-SEBASTIANISMO – abre com desenho de José Escada

ETERNO TEMA – abre com desenho de Manuel Cargaleiro

INTERVALO MUSICAL – abre com desenho de José M. Torre do Valle

ÚLTIMA CARTA – abre com desenho de Sebastião Guimarães

INTERRUPÇÃO INOPORTUNA – abre com desenho de Manuel d’Abreu Lima

POST-PANNE – abre com desenho de António Areal


À parte a surpresa maravilhada dos poemas, o livro traz ainda um poema manuscrito como dedicatória.

Não fora os poemas, pela data de edição do livro, se encontrarem sujeitos a copyright, dá-los-ia aqui em fac-simile na totalidade.

Se por um daqueles imponderáveis, que acontecem, algum leitor tiver noticias sobre o autor, aqui fica o pedido de que as transmita.

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A prostituição na poesia (2) – Ardentes filhas do prazer, dizei-me!

29 Sexta-feira Jan 2010

Posted by viciodapoesia in A mulher imaginada

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Antero de Quental, Camões

METEMPSICOSE

Ardentes filhas do prazer, dizei-me!

Vossos sonhos quais são, depois da orgia?

Acaso nunca a imagem fugidia

Do que foste em vós se agita e freme?


Noutra vida e outra esfera, aonde geme

Outro vento, e se acende um outro dia,

Que corpo tínheis? Que matéria fria

Vossa alma incendiou, com fogo estreme?


Vós fostes, nas florestas, bravas feras,

Arrastando, leoas ou panteras,

De dentadas de amor um corpo exangue…


Mordei pois esta carne palpitante,

Feras feitas de gaze flutuante…

Lobas! Leoas! Sim, bebei meu sangue!

Sem que o comércio venal seja explicitamente referido, há um amor despido de sentimento neste soneto de Antero de Quental (1842-1891) que permite supor as  Ardentes filhas do prazer como as damas de aluguer de Camões, aqui vistas como devoradoras fêmeas selvagens, lobas ou leoas, bravas feras arrastando… de dentadas de amor um corpo exangue, ainda que vestidas com o requinte da gaze flutuante de alcova.

O poeta recusa-lhes origem humana, daí chamar ao soneto METEMPSICOSE, transmigração da alma de um corpo para outro.

E o nosso autor pergunta Que corpo tinheis? depois de já se ter interrogado: Noutra vida, noutra esfera, que matéria fria vossa alma incendiou, com fogo estreme?

Deixadas as perguntas, ao homem que o poeta é, apenas o desejo e a orgia importa, e grita:

Mordei esta carne palpitante, bebei meu sangue!

Acalmada a carne, surge o intelecto e a reflexão, e com eles o poema e a interrogação a abrir: Ardentes filhas do prazer, dizei-me! Vossos sonhos quais são.

Não direi que estamos perante a velha história do cliente inexperiente que, depois de satisfeito, se interessa pela vida da prostituta enquanto pessoa, num rebate sincero de simpatia humana. Direi antes que estamos perante a perplexidade eterna da razão face à força da carne para fazer valer os seus direitos.

Força essa transmitida no poema por vocábulos como feras, dentadas, exangue, sangue, num resultado poético global em que a precisão da forma se alia à concisão do soneto, sem paralelo na poesia portuguesa.


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A prostituição na poesia (1)

28 Quinta-feira Jan 2010

Posted by viciodapoesia in A mulher imaginada

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Afonso Lopes Vieira, Camões

Damas de aluguer lhes chamou Camões numa carta que, entre outras coisas, dava conta do ambiente de baixa boémia na Lisboa de meados do séc.XVI.

Baixa boémia, a expressão não é minha mas de Hernâni Cidade, quando comenta parte da carta onde se lê:

…

Quanto é ao que toca a estoutras damas de aluguer, há muito que escrever delas. Alguns dirão que, como quer que nestas não há aí mais que pagar e andar, não pode haver engano. Neste jogo digo que é ao contrário, porque vereis estar um rosto que é a castidade de Lucrécia luxuriosa, uma tez de alabastro, uns olhos de mordifuge, um nariz de manteiga crua, uma boca de pucarinho de Estremoz; mas o pueri, latet… (*)

Muito haveria que conversar sobre esta e as outras cartas do poeta, mas, por agora, ela é apenas o pretexto directo de uma poesia de Afonso Lopes Vieira:

Damas de Aluguer

Damas de aluguer

são remédio santo

para o que ama tanto

a quem o não quere.

Deixe o seu cuidado

a pobre alma terna,

ame na taberna

do Malcozinhado!


Ao sol que aí faz

rebrilhem seus nomes:

a Chiquita Gomes

mais a Antónia Brás.

Damas de má nota,

que a Glória vos queira:

Maria Caldeira,

Beatriz da Mota.


Forte espadachim

das vielas de Alfama,

com essa má fama

mais te admiro em mim.

Parecem amargos

os fados beninos,

mas versos divinos

não querem os cargos.


Nem no paço estrelas,

nem em Ceuta as mouras

Como estas senhoras

lhe parecem belas.

Ah! Se amado fosse!

Mas assim só quere

ninfas de água doce,

damas de aluguer.

O amor à venda que atravessa sociedades urbanas histórica e geograficamente, não podia ser indiferente à poesia.


E na poesia portuguesa, desde tempos tão recuados como as primeiras cantigas de escárnio e maldizer, até bem entrado o séc. XX, o sexo a contado se faz presente.

Da prostituta ao cliente, a poesia capta modos de ver e de sentir num leque diversificado em que o homem se vê a si na impotência do amor.

Desse percurso imaginado iremos deixando alguns picos de notável realização poética.

Notícia bibliográfica.

O poema Damas de Aluguer de Afonso Lopes Vieira (1878-1946) foi publicado em 1940 no livro Onde a terra se acaba [e o mar começa. Todo o poema é uma referência directa ao conteúdo da carta de Camões e vem inserido num grupo de poesias “NO SIGNO DE CAMÕES” constituindo-se como uma homenagem singular ao poeta.

O extracto da carta de Camões (152? – 1580) e nota, pertence à Carta III na forma publicada por Hernâni Cidade na edição das Obras Completas de Luís de Camões editadas pela Livraria Sá da Costa em 1946.

(*)pueri, latet… querendo significar que, sob tão formosas aparências, se oculta algo de perigoso.


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História para Crianças Grandes – Adão e Eva – A versão de José Régio

27 Quarta-feira Jan 2010

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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José Régio

Ainda que o romance “O Príncipe com Orelhas de Burro” de José Régio tenha sido sub-titulado História para crianças grandes, não é sobre ele que trato.

Com este título de “História para Crianças Grandes” fechou o poeta a 2ª edição do seu livro “Poemas de Deus e do Diabo”.

É um poema em 25 quartetos rimados com rima aabb, numa mestria técnica prodigiosa, em que a fluencia da musica das palavras nunca se perde. A cadência da rima aproxima-nos da mais pura tradição portuguesa.

O poema, contando a história primeira dos homens na sua versão cristã, deixa ver o calor do desejo no moço poeta, que em poemas da maturidade arricou tornar mais explícito.

História para Crianças Grandes

Estava um homem sentado,

Nu, inocente e enlevado,

Com o seu sorriso mais lindo,

E leões aos pés dormindo.

 

Havia em roda arvoredos,

Roseirais sobre rochedos,

Mansinhos tigres reais

– E outras maravilhas mais.

 

O homem nu que sorria

Sentia-se de harmonia

Com essa doçura toda

De tudo o que estava em roda.

 

E, fitos nos horizontes,

Os seus olhos eram fontes

De água bem pura – água virgem

Nunca distante da origem …

 

Mas, em tudo o que lá estava,

Certo Senhor governava,

Um senhor de barbas claras

Ondulando como as searas.

 

Este Senhor disse um dia

Ao Homem nu que sorria:

– “Há um fruto singular

Que nunca deves provar…”

 

O homem de riso brando

Ouviu, e ficou pensando,

Sim, que nunca provaria

Do estranho fruto que havia.

 

Dias depois a seu lado,

O Homem viu assombrado,

Erguer-se uma Mulher nua

Branca e cheia como a lua.

 

Amaram-se os dois, gozando

Os dias que iam passando

Entre os aromas e os hinos,

– Candidos como meninos…

 

Mas a mulher duma vez,

Não sei que contratos fez

Com um bicho que ia de-rastros,

De olhos a arder como os astros…

 

Sei que, na palma da mão,

Trouxe ao seu amigo Adão

Um belo fruto, bem belo!,

Vermelho, branco, amarelo…

 

Sorrindo disse-lhe: “Come!”

E o Homem, que tinha fome,

Viu um Bicho vir ao lado,

Sobre si mesmo deitado…

 

(Tudo o que vivia fôra

Criação de Deus … E agora,

Tendo isto bem na memória,

Sigamos a Velha História: )

 

O Homem lembrou-se então

Do que dissera o Papão:

“- Há um fruto singular

Que nunca deves provar…”

 

Mas o tal Bicho de-rastros

Que tinha nos olhos astros

Já ensinara à Mulher

O modo de o convencer.

 

E os dois comeram do fruto,

Com o mesmo olhar impoluto

Com que ali tinham vivido

Do seu Amor sem sentido.

 

Mas logo que o acabaram,

Brancos e frios, notaram

Que logo tudo mudara

Num segundo que passara…

 

E o Homem sentiu-se mal

Pelo facto natural

De estar sempre vestido

Tal como tinha nascido!

 

E a vergonha, o espanto, o medo,

Deixaram-no mudo e qêdo,

Enquanto a Mulher pensava

No Bicho mau que os olhava…

 

Então, de espada de fogo,

Certo Arcanjo surgiu logo,

E essa espada flamejante

Os mandou seguir adiante.

 

E o Homem viu-se acusado

Do que assim se tinha dado,

Quando isso tudo só era

– Porque assim acontecera.

 

Ao seu lado, a Companheira

Chorava de tal maneira

Que pedras, feras e céus

Lhe respondiam: Adeus…!

 

E os dois míseros rolaram

Nas trevas que os arrastaram

Para mundos inclementes

Onde há o ranger dos dentes…

 

Outra História então começa

Que não tenho na cabeça;

Mas em tudo o que eu disser

Se pode reconhecer

 

Que a tragédia continua

Entre o Bicho, a Mulher nua,

O Homem nu, o Papão,

E o Tal de espada na mão…

E assim, a criança que ainda exista em cada leitor, sente em si o renascer do mistério do amor por descobrir, seja ou não uma tragédia entre Bicho, Homem, Mulher, e Papão, mais o Tal de espada na mão.


 

 

Noticia bibliográfica:

Esta versão do poema foi transcrita da 2ª edição de “POEMAS DE DEUS E DO DIABO”. Não sei se terá sido a última versão publicada em vida pelo poeta, uma vez que poemas houve em que sucessivas edições trouxeram alterações. Esta é a que possuo.

Esta 2ªedição publicada em 1943, diferente da 1ª edição, vem corrigida e seguida de um posfácio. Das correcções em relação à 1ª edição não posso dar conta, pois trata-se de raríssima edição que não possuo e pertence ao restrito numeros de livros da bibliografia portuguesa do século XX que atinge em leilão valores astronómicos.

Não sei por isso, que correcções contém esta 2ªedição. No entanto existe a menção de que vem acrescentada de pelo menos um  poema. Foi este História para Crianças Grandes o poema acrescentado no final do livro, ou foi originalmente publicado na 1ªedição?

A duvida justifica-se porque o livro traz outro poema sobre o mesmo assunto, Adão e Eva chamado, e talvez, em livro de estreia, o poeta não tivesse arriscado publicar dois poemas sobre o mesmo assunto.

Neste Adão e Eva varia a forma, mas as preocupações são as mesmas, ainda que uma vez por outra o desenvolvimento do assunto peque por alguma retórica, p. ex.:

Assim as almas se entregaram, / Como os corpos se tinham entregado. /

Assim duas metades se amoldaram / Ante as barbas, que tremeram, /

Do velho Pai desprezado!

Adão e Eva

Olhámo-nos um dia,

E cada um de nós sonhou que achara

O par que a alma e a carne lhe pedia.

– E cada um de nós sonhou que o achara…

E entre nós dois

Se deu, depois, o caso da maçã e da serpente,

.. Se deu, e se dará continuamente:

Na palma da tua mão,

Me ofertaste, e eu mordi, o fruto do pecado.

– O meu nome é Adão…

E em que furor sagrado

Os nossos corpos nus e desejosos

Como serpentes brancas se enroscaram,

Tentando ser um só!

Ó beijos angustiados e raivosos

Que as nossas pobres bocas se atiraram

Sobre um leito de terra, cinza e pó!

Ó abraços que os braços apertaram,

Dedos que se misturaram!

Ó ansia que sofreste, ó ansia que sofri,

Sêde que nada mata, ânsia sem fim!

– Tu de entrar em mim,

Eu de entrar em ti.

Assim toda te deste,

E assim todo me dei:

Sobre o teu longo corpo agonizante,

Meu inferno celeste,

Cem vezes morri, prostrado…

Cem vezes ressuscitei

Para uma dor mais vibrante

E um prazer mais torturado.

E enquanto as nossas bocas se esmagavam,

E as doces curvas do teu corpo se ajustavam

Às curvas fortes do meu,

Os nossos olhos muito perto, imensos

No desespero desse abraço mudo,

Confessaram-se tudo!

… Enquanto nós pairávamos, suspensos

Entre a terra e o céu.

Assim as almas se entregaram,

Como os corpos se tinham entregado.

Assim duas metades se amoldaram

Ante as barbas, que tremeram,

Do velho Pai desprezado!

E assim Eva e Adão se conheceram:

Tu conheceste a força dos meus pulsos,

A miséria do meu ser,

Os recantos da minha humanidade,

A grandeza do meu amor cruel,

As veias de oiro que o meu barro trouxe…

Eu os teus nervos convulsos,

O teu poder,

A tua fragilidade,

Os sinais da tua pele,

O gosto do teusangue doce…

Depois…

Depois o quê, amor? Depois, mais nada,

– que Jeová não sabe perdoar!

O Arcanjo entre nós dois abrira a longa espada…

Continuaremos a ser dois,

E nunca nos pudemos penetrar!

 

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De Camões, 2 sonetos de amor

18 Segunda-feira Jan 2010

Posted by viciodapoesia in Cânone XXI

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Camões

Quase toda a lírica de Camões é uma sublime declaração de amor.  Daquele amor que “…é fogo que arde sem se ver”, que “É um contentamento descontente”, “É nunca contentar-se de contente” e por aí adiante, qual seja:

Amor é fogo que arde sem se ver;

É ferida que dói e não se sente;

É um contentamento descontente;

É dor que desatina sem doer;


É um não querer mais que bem querer;

É solitário andar por entre a gente;

É nunca contentar-se de contente;

É cuidar que se ganha em se perder;


É querer estar preso por vontade;

É servir a quem vence, o vencedor;

É ter com quem nos mata lealdade.


Mas como causar pode seu favor

Nos corações humanos amizade,

Se tão contrário a si é o mesmo Amor?


Hesitei sobre qual dos poemas de Camões escolher para estrear a presença do poeta no blog. De entre as dezenas que fazem a minha memória de leitor, a escolha caiu nesta inesquecível forma de dizer o que é amar.

Insatisfeito, pois queria mais, não resisti a acrescentar um canto do amor ausente. Verdade de sentimento que,  enquanto a mágoa de perder a quem se ama cruzar o mundo, será um bálsamo na consolação da ausência, fazendo presente em nós aquela


“Alma minha gentil, que te partiste”.

Num tom de resignada saudade, o poeta expandindo o que lhe vai na alma, mostra-nos mais à frente no poema, a verdade do sentimento a transbordar no pedido:

“Roga a Deus, … que tam cedo me leve a ver-te”

pondo fim à desolada aceitação de

“Viva eu cá na terra sempre triste.”

Ainda que recordação da morte da amada, o soneto não será o poema da maior dor, mas é certamente a mais sublime declaração de amor em poesia.


Alma minha gentil, que te partiste

Tão cedo desta vida, descontente,

Repousa lá no Céu eternamente

E viva eu cá na terra sempre triste.


Se lá no assento etéreo, onde subiste,

Memória desta vida se consente,

Não te esqueças daquele amor ardente

Que já nos olhos meus tão puro viste.


E se vires que pode merecer-te

Alguma cousa a dor que me ficou

Da mágoa, sem remédio, de perder-te,


Roga a Deus, que teus anos encurtou,

Que tão cedo de cá me leve a ver-te,

Quão cedo de meus olhos te levou.


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Canção do Nu de Afonso Duarte

15 Sexta-feira Jan 2010

Posted by viciodapoesia in Erótica

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Afonso Duarte, Carlos Oliveira, Manuel Alegre

Dificilmente ao nome de Afonso Duarte associaremos uma poesia erótica. Não conhecendo, ou conhecendo superficialmente a sua poesia, o erotismo será algo que não pensaremos lá encontrar.

Não será bem assim, ainda que poucos sejam os poemas em que as alegrias do corpo se manifestam.

É sobretudo nos poemas agrupados em Ritual do Amor que uma aproximação ao erotismo na sua poesia se poderá fazer. São poemas escritos por volta de 1912, quando o poeta tinha 28 anos, e da vida talvez já conhecesse os prazeres. No entanto, o gozo do corpo aparece nesta recolha consideravelmente matizado.

Canção do Nu, o poema que aqui trago, foi incluído nesta recolha na sua edição de 1929, quando o poeta reuniu em Os 7 Poemas Líricos o conjunto da sua poesia publicada em livro e a que entretanto tinha surgido em revistas ou se encontrava inédita. Este poema foi publicado no nº 9 da revista Contemporânea em 1923

O poeta esteve sem publicar poesia quase vinte anos, entre 1929 e 1947. Nesse ano publicou Ossadas. E com este livro inicia-se uma espécie de 2ªparte da sua produção poética. É sobre esta poesia que as apreciações críticas abundam, afinando todas pelo elogio justíssimo.

Deixo aqui, porque sintética e clara, uma apreciação de Manuel Alegre, retomando em grande parte o que escreveram Carlos de Oliveira e João José Cochofel na primeira edição da Obra Poética de Afonso Duarte em 1956.

Na primeira parte da obra poética de Afonso Duarte, reunida em Os 7 Poemas Líricos, é a natureza que se faz presente, e o canto das coisas simples, e de alguma maneira essenciais, na vida dos homens.

De Romanceiro das águas, recolha cheia de uma poesia cristalina regando a natureza e o viver, destaco Águas Passadas

“Interroguei as águas caudalosas / Sobre o que seja esta ânsia de viver;  – Viver? É a vida sempre em despedida”.

Ou então de O Cântaro de Barro de onde nos sai:

“ Da terra mãe fiz o vaso / que bastasse à minha sede … E como sabia amar, / A gosto de rapariga, … foi cheio do gosto dela / Que eu me dei a modelar”

e mais à frente temos o cântaro:

“ Ora vede/ … / Se não é o corpo dela / Da cintura para cima?/ E em ar de dança do Povo / Os braços ergue à cabeça;”

Continuava as citações pelo Rimance que se segue, todo ele a merecer destaque, mas o espaço do artigo e paciência do eventual leitor têm limites, por isso termino com este Vitral, soneto/imagem de adolescente desejada – Seu corpo esguio, uma anfora com fala:

 

Vitral

Franzina, é como um choupo à luz da Lua;

É a noite escura o seu olhar de mágoa.

Uma ogiva os seus braços quando amua,

Modelo foi dos cantarinhos de água.

 

Dizem os seios que a farão mãezinha;

Oh! Que linda menina casadoira!

São os seios da virgem donzelinha,

Dois novelos saltando à dobadoira.

 

Seus lábios, duas pétalas de rosa;

Abrem as rosas como a boca enlaça…

Em beijo a boca é uma flor ciosa.

 

Num lago a Lua: o seu andar embala;

São suas mãos às que eu imploro a graça,

Seu corpo esguio, uma ânfora com fala.


 

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A mulher grávida — poema de Jaime Cortesão

13 Quarta-feira Jan 2010

Posted by viciodapoesia in A mulher imaginada, Convite à fotografia

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carlos mendonça lopes, Jaime Cortesão

“Pesa um silencio d’alto sobre o mundo” e o poeta submisso ao milagre da vida, ergue-nos esta mulher símbolo, sem forma, sem beleza outra que ser a maravilha da origem do mundo

A mulher grávida

Eu sou a mulher pejada.

Minha boca apetecida,

Com outra boca colada,

Deu beijos para dar Vida.

 

Em mim é santo o Desejo,

É santo por ser fecundo:

Puz toda a alma num beijo,

E fui a origem do mundo.

 

Olhai: caminho por entre

Todo o povo sem receio,

Pois trago um filho no ventre

E uma fonte em cada seio.

 

Quem sentir vida tam alta

Não se furte, não a esconda;

Vêde-a … em meu ventre se exalta,

Sobe toda numa onda.

 

Um filho todas as vezes,

Que é de mãe enternecida,

Trá-lo o ventre nove meses

E o coração toda a vida.

 

Que imenso poder eu tenho

– Dar vida por ser o amor;

Não há poeta tamanho,

Nem génio mais criador!

 

E por meu ventre sagrado

Vou falar: escutai bem.

Fala o verbo revelado

No meu instinto de mãe.

 

Eu vejo para além da vista,

Ouço pra além dos ouvidos:

Oh! Que terra nunca vista,

Que heróis jamais concebidos!

 

Ouço em mim vozes estranhas,

A minha Alma deita luz …

Trago nas minhas entranhas

Outro menino Jesus.

 

Meu Filho amostra-me a face,

Faze-te Aurora nascida,

Embora a luz me queimasse,

Inda que eu perdesse a Vida.

 

Sou o Céu da Madrugada,

A minha carne anda em brilho;

Sinto-me ébria de Alvorada

Rompe o Sol: nasce o meu filho!

O poema é de Jaime Cortesão (1884 – 1960) e foi publicado em 1914 no livro Glória Humilde.

A poesia de Jaime Cortesão ressuma uma sensualidade embrulhada por vezes numa aura mística ligando o sexo ao transcendente da condição humana.

Em Glória Humilde há um esforço de aproximação e ligação à natureza, onde se procura dar a ver o carácter sagrado dos gestos essenciais da vida. Mas é sobretudo no livro Divina Voluptuosidade fazendo supor ao leitor a eternidade no paraíso como uma espécie de orgasmo perpétuo, que chegamos ao carácter sagrado do sexo, de alguma forma aflorado neste canto à gravidez enquanto origem do mundo.

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Um soneto de Antero de Quental

11 Segunda-feira Jan 2010

Posted by viciodapoesia in Cânone XXI

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António Sérgio, Antero de Quental, Fernando Pessoa, João de Deus, Oliveira Martins

Por mais ligados à matéria que nos sintamos, cedo ou tarde a experiência metafísica bate-nos à porta.

É recente em mim a presença de Deus. Não um Deus cosido a qualquer catecismo, mas um Deus explicação do transcendente, como o de Antero de Quental, de quem trago hoje um soneto.

Em Antero de Quental, poeta-filósofo que foi, e mestre maior do soneto em português, a presença de Deus é recorrente.

Dos seus sonetos disse Oliveira Martins no prefácio que acompanhou a edição em livro:

[Hão-de] encontrar um acolhimento amoroso em todas as almas de eleição, e durar enquanto houver corações aflitos, e enquanto se falar a linguagem portuguesa.

Este prefácio, para quem não conheça o perfil de Antero, é na sua justeza e concisão, o lugar onde podemos aproximar-nos do homem e do poeta.

Por outro lado, o estudo de António Sérgio na edição que preparou dos Sonetos, embora estimulante nas suas interpretações, deixa pouco espaço para uma leitura pela via do sentimento.

Para os curiosos da biografia do poeta aqui fica um endereço da rede com uma biografia de confiança

Poeta do transcendente em mim, visão perfeita daquele verso de Fernando Pessoa O que em mim sente stá pensando, de resto coincidente com a caracterização que já Oliveira Martins fazia  de Antero no prefácio aos seus Sonetos

“É um poeta que sente, mas é um raciocínio que pensa. Pensa o que sente; sente o que pensa.”,

os seus sonetos acompanham-nos pela vida logo que os conhecemos.

Enviando por carta a João de Deus o soneto que escolhi, diz-lhe Antero:

E agora aí vai um soneto. Será talvez o primeiro de que gostes por mais alguma coisa que só pela forma.

 

O meu pessimismo tem-se desvanecido com esta vida contemplativa no meio da boa natureza. Reconheci que andar por toda a parte a proclamar, com voz lúgubre, que o mundo é vão, era ainda uma última vaidade… lá vai o soneto –

 

Na mão de Deus, na sua mão direita,

Descansou afinal meu coração.

Do palácio encantado da Ilusão

Desci a passo e passo a escada estreita.

 

Como as flores mortais, com que se enfeita

A ignorãncia infantil, despojo vão,

Depus do Ideal e da Paixão

A forma transitória e imperfeita.

 

Como criança, em lobrega jornada,

Que a mãe leva no colo agasalhada,

E atravessa, sorrindo vagamente,

 

Selvas, mares, areias do deserto…

Dorme o teu sono, coração liberto,

Dorme na mão de Deus eternamente.

 

 

 

É ainda numa carta a João de Deus datada de Vila do Conde que no inicio desse mesmo ano, a 13 de janeiro de 1882, dá conta do estado de espírito que o anima –

“Eu dou-me aqui bem, apesar de viver completamente só. Quando quero falar, vou ao Porto conversar com Oliveira Martins. Se tu ali estivesses também, tinha tudo quanto desejo.

Aqui as praias são amplas e belas, e por elas passeio ou me estendo ao sol, com a voluptuosidade que só conhecem os poetas e os lagartos, adoradores da luz.”

Estes extractos são esclarecedores do ânimo do poeta e a placidez que transparece nas cartas reflecte-se no poema.

Como estamos longe do pessimismo de tanta da sua poesia, numa aceitação da harmonia do mundo qual “criança ... Que a mãe leva no colo… E atravessa sorrindo… Selvas, mares, areias do deserto…”

Fiquemos por agora com este Deus em poesia que nos permite dormir o sono com o coração liberto.

 

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CRYPTINAS seguido de ULTIMO SUSPIRO de JOÃO DE DEUS com uma nota bibliográfica

06 Quarta-feira Jan 2010

Posted by viciodapoesia in Raros/Curiosos

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João de Deus

Foi publicado no final do séc. XIX um folheto anónimo – CRYPTINAS – com 11 poesias jocosas do género deste

Guardanapo

O jornal que muitas vezes

Diz coisas que metem dó,

E constitue as delicias

Dos amantes de noticias,

Leem-no muitos fregueses,

Mas é com um olho só.

atribuídas a  João de Deus . O assunto dos poemas entre brejeiro e irónico, onde apenas neste GUARDANAPO existe uma insinuação escatológica, chocou as boas consciências. Valem hoje os poemas pela fluência da rima, onde alguns mantêm a graça, como EQUIVOCO  ou CARECA.

À época, ouviu-se um coro de indignação e repúdio, pois aqueles poemas manchavam a reputação do poeta. E de então para cá o silêncio sobre tal folheto tem sido regra.

 

A edição deve ter sido muito pequena e o folheto é hoje praticamente inencontrável. Nem a Biblioteca Nacional de Portugal possui qualquer exemplar.

 

Nos anos 80 do séc. XX a editora & etc publicou uma reedição do folheto rapidamente esgotada. Hoje tambem esta edição é rarídade bibliográfica e procurada como peça de colecção.

 

 

A raridade do folheto leva-me a deixar aquí uma cópia em pdf.

 

link para o folheto: CRYPTINAS – JOÃO DE DEUS

 

Com ela espero de alguma forma contribuir para uma visão menos edulcorada, e porventura mais verdadeira, desta glória nacional com honras de panteão.

 

Noticia bibliográfica

 

É sabido quanto da vida de João de Deus foi vida de estúrdia e de boémia, por mais que as santas almas ponham os olhos em alvo e teçam loas à obra do poeta assimilando-a àquela famosa CARTA em verso:

Maria! Ver-te à porta a fazer meia,

Olhando para mim de vez em quando,

É o que nesta vida me recreia.

…


Ainda que justas, e o poema mereça, a obra do poeta não é apenas isso.

 

Quem ler hoje a obra poética de João de Deus vê como, ao lado de criações sublimes, existem verdadeiras banalidades, há que ser sincero. Uma antologia com as diferentes facetas da obra é hoje necessária, por inexistente.

A desatenção com que João de Deus sempre viu as suas criações, tantas vezes espontâneas, distribuindo-as por amigos e não cuidando da sua conservação na forma em que as concebeu, torna a tarefa de edição especialmente melindrosa e susceptível de um coro de críticas.

De resto, foi o que aconteceu quando Teófilo Braga meteu mãos à tarefa de reunir as poesias de João de Deua publicadas e dispersas, no que viria a ser o livro Campo de Flores, e pretendeu ser essa uma “EDIÇÃO AUTHENTICA E DEFINITIVA”.

Esta 1ª edição de Campo de Flores publicada em 1893, afinal não foi definitiva. A 2ª edição três anos depois, pouco após a morte do poeta em 1896, surge modificada com a adição de mais de uma centena de poemas e a reintrodução de pelo menos mais dois poemas deixados de fora da 1ªedição por autoria duvidosa.

Esta 2ª edição que se reclamava de “NE  VARIETUR” afinal foi modificada e também ela se viu acrescentada pela 3ªedição, ao que julgo saber, de mais alguns poemas.

E de todas elas CRYPTINAS ficou sempre de fora.

 

A obra poética de João de Deus sofreu em vida do autor tratos de polé, e por ausência de uma edição crítica, desconhecemos hoje se o corpus de Campo de Flores reúne todos os poemas de João de Deus, e mais, se dos poemas que lá estão, são todos efectivamente do poeta ou há algum que não lhe pertença, e ainda se na sua forma, correspondem à vontade do autor.

João de Deus por sua iniciativa nunca publicou qualquer livro. Sobre a iniciativa de publicação em jornais e revistas não possuo informação. A recolha das poesias de João de Deus foi inicialmente feita por um amigo (José António Garcia Blanco) para uma edição em livro que se viria a traduzir na publicação de Flores do Campo em 1868, tinha o poeta à data 38 anos e passava pelas maiores dificuldades.

Este Flores do Campo foi recebido com enorme aplauso do público e da crítica, e  teve 2ªedição em 1876, publicada pela Livraria Universal do Porto. Esta nova edição vinha corrigida e muito aumentada em relação à primeira. No mesmo ano, o mesmo editor publicou o volume Folhas Soltas. Este editor foi alvo de verdadeiras injúrias por parte de Teófilo Braga no prefácio da 1ªedição de Campo de Flores.

 

Tinham passado 25 anos desde a publicação em livro da primeira recolha de poemas de João de Deus. A crescente notoriedade do poeta e o apreço público envolvendo a Cartilha Maternal e o seu empenhamento cívico, levaram a que Teófilo Braga se propusesse reunir e editar as poesias do poeta, uma vez que este não se empenhava em fazê-lo. Os contornos desta colaboração ainda hoje não são perfeitamente claros.

 

Desta colaboração resultou a 1ªedição de Campo de Flores. A polémica que se seguiu à publicação desta 1ªedição, ainda em vida do autor, respeitando a omissões de poemas e modificações em relação a versões conhecidas de algumas poesias, trouxe à luz os poemas acrescentados nas edições seguintes.

As escolhas editoriais de Teófilo Braga quanto a títulos, pequenos arranjos de formas verbais e outras, continuaram a suscitar dúvidas a quem conheceu de perto o poeta, com ele privou e de alguma forma seguiu as vicissitudes da sua vida e da sua obra.

 

É por tudo isto que uma edição crítica da obra poética se torna necessário. Uma edição que nos dê, na medida do possível, os poemas como o poeta os criou.

Seria uma edição crítica que, ao percorrer com olhos de hoje documentos e testemunhos, permitiria ver quais das variantes existentes para cada poema, em manuscrito quando existir, e nas suas edições conhecidas na imprensa ou em livro, se encontra mais próxima da vontade do autor.

Uma edição critica que, ancorada em sólidos critérios de crítica literária, separe o que é do poeta do que eventualmente foi acrescentado ou modificado por copistas ou editores menos escrupulosos, isto sem preconceitos ou ideias feitas sobre uma imagem que se queira transmitir.

 

A associação de João de Deus ás crianças e à Cartilha Maternal, por onde também aprendi a ler, torna qualquer mexida na sua obra especialmente vulnerável a mal entendidos. Talvez por isso ninguém tenha querido correr o risco de tentar a edição crítica necessária. Os poderes públicos financiam uma pleiade de instituições associadas ao nome e á obra do poeta, algumas das quais depositárias de espólio. É a estas instituições que cabe a iniciativa de promover uma edição com estas características.

 

Agora sobre o folheto CRYPTINAS  e o que sobre ele circula.

Percorrendo histórias e dicionários de literatura portuguesa não encontrei referência a tal folheto, ou seja, tendo em conta apenas essas fontes o folheto nunca teria existido.

Foi num opúsculo publicado por Trindade Coelho e Alfredo Cunha em resposta à 1ª edição de Campo de Flores, o qual acrescenta 56 poesias dispersas ao corpus de Campo de Flores, que encontrei referência explícita ao folheto CRYPTINAS, com a descrição do seu conteúdo. Essa descrição coincide integralmente com o folheto que aqui divulgo.

Acontece que na apreciada e nunca demais elogiada, Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica editada por Natália Correia, se encontram dois poemas “Omissão” e “Ao Quaresma (Manuel)” com indicação de que provêm de  CRYPTINAS. Ora, esses poemas  não constam do folheto aqui divulgado.

Significará isto que existiu outro folheto CRYPTINAS com conteúdo diferente? Se assim foi, não encontrei até hoje traço da sua existência.

A ausência de referências bibliográficas na  Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica impede o conhecimento da origem editorial destes dois poemas. A haver lapso, os poemas “Omissão” e “Ao Quaresma (Manuel)” serão também de João de Deus? Dúvidas que a edição crítica da obra poética de João de Deus viria resolver.

Termino com o poema ULTIMO SUSPIRO publicado pela primeira vez no opúsculo de Trindade Coelho e Alfredo Cunha acima referido, espelho de uma certa bonomia na amargura, marca de água do poeta.

 

ULTIMO SUSPIRO

Fui a semana passada

Visitar o hospital

E vi n’uma enfermaria

O pobre de Portugal;

Perguntei-lhe o que sentia,

– uma fraqueza geral,

E nesta edade avançada

É um achaque mortal:

Vem Oliveira Martins,

Vara-me d’uma estocada!

Vem Augusto ‘zé da Cunha,

Ferra-me uma punhalada!

Isto não é caramunha

Que tudo foi com bons fins,

Porque um e outro supunha,

Tanto Augusto ‘zé da Cunha

Como Oliveira Martins,

Que sendo a morte fatal,

Abreviando-me a vida

Me abreviavam o mal. –

E já com a voz sumida

E no arranque final:

– Tratem-me do funeral

Que a lebre está corrida…

30-12-893

 

 

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O nascimento da Poesia

04 Segunda-feira Jan 2010

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Diogo de Sousa, Fr. Diogo Camacho

Temos para inicio desta viagem poética na blogosfera uma JORNADA ÀS CORTES DO PARNASO da autoria de DIOGO DE SOUSA. A jornada descrita em poema de 965 versos, inicia a sua segunda parte com o relato do Nascimento da Poesia:

Depois de aquele caso desestrado

que aconteceu a Dafne sem ventura

ficou perdido Apolo d’esquentado.

 

E foi em tamanho aumento esta quentura

que lhe inchou com os carnais desejos

(falando com perdão) toda a natura.

 

Andava mariscando aos caranguejos

Dona pobreza, e consigo tinha

Piolhos lendes, pulgas, persovejos.

 

Apolo viu-a, e como teso vinha

chegou-se a ela, conta-lhe seus males

e o remédio lhe pede que convinha.

 

Faltavam-lhe à senhora então reales;

pediu-lhos, deu-lhos e ambos se encontraram

sem pifaros, tambores e atabales.

 

Todo dia depois se retoçaram

sob uma pouca de erva e verde rama

que ambos com as unhas arrancaram.

 

Ficou prenhe de Apolo a pobre dama

porque para emprenhar são escusados

travesseiros, lençois, colchões ou cama.

 

Depois de nove meses passados,

na minguante da lua, noite fria

a Pobreza pariu com dous mil brados.

 

Nasceu a rapariga Poesia

filha de Apolo, filha da Pobreza

muito mais pobre que ela em demasia.

O poema prossegue com as venturas e desventuras da dama e seus consortes poetas  entre outros acontecimentos relevantes como podereis ler no final deste artigo.

A primeira parte do poema relata-nos a viagem do poeta até ao Parnaso desde que a 23 de Maio encontrando-se pescando à cana no rio Mondego se cruzou com Apolo e as nove musas. Na sequência deste encontro, e pelos serviços prestados,  vendo-o o deus inclinado à poesia:

“Quis-me fazer a mim tão grande nela / Que me invejassem todos os modernos / De Itália, França, Portugal, Castela.”

Despachados “Correos pelo mundo, que os poetas / ás cortes do Parnaso convocassem”

despediram-se as musas “… e me mandaram / que fosse aquelas cortes tão famosas.”

Obediente para lá segue o poeta e nós com ele, numa leitura variada de gentes paisagens e acontecimentos até ao final da primeira parte quando chega ao Parnaso

“… sem que esperem / as musas lá por mi, nem se lembraram / que me mandaram ir para me verem.

Contudo num palheiro me alojaram / c’um poeta marfuz mui negro e longo / cujo cheiro e suor muito gavaram.

Era eu de Portugal, ele do Congo / de seu rei negro único privado / amigo sobremodo de mondongo.

Com ele estive sempre acamarado / nas cortes, onde quis Phebo divino / que eu fosse então poeta laureado, / que depois seria outro tão mofino.”

E assim se conclui a primeira parte do poema. À curiosidade do eventual leitor deixo a pesquisa do significado de Mondongo.

O poema, conhecido em diversos manuscritos conservados inéditos e objecto de três edições impressas, truncadas, no século XVIII, foi  alvo da curiosidade de alguns literatos ao longo dos tempos, e ainda que publicado por Hermano Saraiva como anexo à sua “Vida Ignorada de Camões” em transcrição da versão manuscrita do Cancioneiro Fernandes Tomás, conheceu finalmente uma edição crítica modelar da responsabilidade de Valeria Tocco publicada em Itália em 1996.

De acordo com esta edição, o poema teria sido escrito entre 1614 e 1621. Dos dados compulsados pela autora, Diogo de Sousa possivelmente cristão-novo, originário de Coimbra ou arredores, após servir no exército ter-se-á licenciado em (Direito?) e exercido em (Coimbra?). Provavelmente por este motivo, para iludir a censura inquisitorial e para não se expôr em excesso, terá feito circular este seu poema burlesco sob o pseudónimo de Fr. Diogo Camacho.

A autora faz sobressair a singularidade do argumento e destaca a originalidade da inserção de elementos picarescos no poema quais sejam, o estatuto do narrador traduzido na autobiografia fictícia do anti-heroi que, não obstante a sua condição, ascende ao Parnaso, e os cenários em que na primeira parte a viagem decorre. Descarta com isto a filiação desta Jornada nas Viagens ao Parnaso criadas em Itália ao longo do século XVI, bem como a afinidade, imitação ou inspiração próxima na Viaje del Parnaso de Cervantes publicada em 1614.

Relevo as fascinates considerações de crítica histórico-literária que acompanham a edição crítica do poema, e aqui deixo na totalidade esta composição satírica em que a visão crítica da sociedade coeva, e em particular a sociedade literária, são o assunto desta parodia em estilo joco-sério.

Eis a totalidade do poema em formato pdf:

Jornada ás Cortes do Parnaso – Prólogo

Jornada ás Cortes do Parnaso – Primeira Parte

Jornada ás Cortes do Parnaso – Segunda Parte

Bibliografia

Tocco, Valeria – Diogo de Sousa, Jornada às Cortes do Parnaso, Edizione critica, studio introduttivo e commento a cura di Valeria Tocco, Bari, Adriatica Editrice, 1996

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