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Damas de aluguer lhes chamou Camões numa carta que, entre outras coisas, dava conta do ambiente de baixa boémia na Lisboa de meados do séc.XVI.

Baixa boémia, a expressão não é minha mas de Hernâni Cidade, quando comenta parte da carta onde se lê:

Quanto é ao que toca a estoutras damas de aluguer, há muito que escrever delas. Alguns dirão que, como quer que nestas não há aí mais que pagar e andar, não pode haver engano. Neste jogo digo que é ao contrário, porque vereis estar um rosto que é a castidade de Lucrécia luxuriosa, uma tez de alabastro, uns olhos de mordifuge, um nariz de manteiga crua, uma boca de pucarinho de Estremoz; mas o pueri, latet… (*)

Muito haveria que conversar sobre esta e as outras cartas do poeta, mas, por agora, ela é apenas o pretexto directo de uma poesia de Afonso Lopes Vieira:

Damas de Aluguer

Damas de aluguer

são remédio santo

para o que ama tanto

a quem o não quere.

Deixe o seu cuidado

a pobre alma terna,

ame na taberna

do Malcozinhado!


Ao sol que aí faz

rebrilhem seus nomes:

a Chiquita Gomes

mais a Antónia Brás.

Damas de má nota,

que a Glória vos queira:

Maria Caldeira,

Beatriz da Mota.


Forte espadachim

das vielas de Alfama,

com essa má fama

mais te admiro em mim.

Parecem amargos

os fados beninos,

mas versos divinos

não querem os cargos.


Nem no paço estrelas,

nem em Ceuta as mouras

Como estas senhoras

lhe parecem belas.

Ah! Se amado fosse!

Mas assim só quere

ninfas de água doce,

damas de aluguer.

O amor à venda que atravessa sociedades urbanas histórica e geograficamente, não podia ser indiferente à poesia.


E na poesia portuguesa, desde tempos tão recuados como as primeiras cantigas de escárnio e maldizer, até bem entrado o séc. XX, o sexo a contado se faz presente.

Da prostituta ao cliente, a poesia capta modos de ver e de sentir num leque diversificado em que o homem se vê a si na impotência do amor.

Desse percurso imaginado iremos deixando alguns picos de notável realização poética.

Notícia bibliográfica.

O poema Damas de Aluguer de Afonso Lopes Vieira (1878-1946) foi publicado em 1940 no livro Onde a terra se acaba [e o mar começa. Todo o poema é uma referência directa ao conteúdo da carta de Camões e vem inserido num grupo de poesias “NO SIGNO DE CAMÕES” constituindo-se como uma homenagem singular ao poeta.

O extracto da carta de Camões (152? – 1580) e nota, pertence à Carta III na forma publicada por Hernâni Cidade na edição das Obras Completas de Luís de Camões editadas pela Livraria Sá da Costa em 1946.

(*)pueri, latet querendo significar que, sob tão formosas aparências, se oculta algo de perigoso.


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