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Foi publicado no final do séc. XIX um folheto anónimo – CRYPTINAS – com 11 poesias jocosas do género deste

Guardanapo

O jornal que muitas vezes

Diz coisas que metem dó,

E constitue as delicias

Dos amantes de noticias,

Leem-no muitos fregueses,

Mas é com um olho só.

atribuídas a  João de Deus . O assunto dos poemas entre brejeiro e irónico, onde apenas neste GUARDANAPO existe uma insinuação escatológica, chocou as boas consciências. Valem hoje os poemas pela fluência da rima, onde alguns mantêm a graça, como EQUIVOCO  ou CARECA.

À época, ouviu-se um coro de indignação e repúdio, pois aqueles poemas manchavam a reputação do poeta. E de então para cá o silêncio sobre tal folheto tem sido regra.

A edição deve ter sido muito pequena e o folheto é hoje praticamente inencontrável. Nem a Biblioteca Nacional de Portugal possui qualquer exemplar.

Nos anos 80 do séc. XX a editora & etc publicou uma reedição do folheto rapidamente esgotada. Hoje tambem esta edição é rarídade bibliográfica e procurada como peça de colecção.

A raridade do folheto leva-me a deixar aquí uma cópia em pdf.


link para o folheto: CRYPTINAS – JOÃO DE DEUS


Com ela espero de alguma forma contribuir para uma visão menos edulcorada, e porventura mais verdadeira, desta glória nacional com honras de panteão.


Noticia bibliográfica


É sabido quanto da vida de João de Deus foi vida de estúrdia e de boémia, por mais que as santas almas ponham os olhos em alvo e teçam loas à obra do poeta assimilando-a àquela famosa CARTA em verso:

Maria! Ver-te à porta a fazer meia,

Olhando para mim de vez em quando,

É o que nesta vida me recreia.


Ainda que justas, e o poema mereça, a obra do poeta não é apenas isso.

Quem ler hoje a obra poética de João de Deus vê como, ao lado de criações sublimes, existem verdadeiras banalidades, há que ser sincero. Uma antologia com as diferentes facetas da obra é hoje necessária, por inexistente.

A desatenção com que João de Deus sempre viu as suas criações, tantas vezes espontâneas, distribuindo-as por amigos e não cuidando da sua conservação na forma em que as concebeu, torna a tarefa de edição especialmente melindrosa e susceptível de um coro de críticas.

De resto, foi o que aconteceu quando Teófilo Braga meteu mãos à tarefa de reunir as poesias de João de Deua publicadas e dispersas, no que viria a ser o livro Campo de Flores, e pretendeu ser essa uma “EDIÇÃO AUTHENTICA E DEFINITIVA”.

Esta 1ª edição de Campo de Flores publicada em 1893, afinal não foi definitiva. A 2ª edição três anos depois, pouco após a morte do poeta em 1896, surge modificada com a adição de mais de uma centena de poemas e a reintrodução de pelo menos mais dois poemas deixados de fora da 1ªedição por autoria duvidosa.

Esta 2ª edição que se reclamava de “NE  VARIETUR” afinal foi modificada e também ela se viu acrescentada pela 3ªedição, ao que julgo saber, de mais alguns poemas.

E de todas elas CRYPTINAS ficou sempre de fora.

A obra poética de João de Deus sofreu em vida do autor tratos de polé, e por ausência de uma edição crítica, desconhecemos hoje se o corpus de Campo de Flores reúne todos os poemas de João de Deus, e mais, se dos poemas que lá estão, são todos efectivamente do poeta ou há algum que não lhe pertença, e ainda se na sua forma, correspondem à vontade do autor.

João de Deus por sua iniciativa nunca publicou qualquer livro. Sobre a iniciativa de publicação em jornais e revistas não possuo informação. A recolha das poesias de João de Deus foi inicialmente feita por um amigo (José António Garcia Blanco) para uma edição em livro que se viria a traduzir na publicação de Flores do Campo em 1868, tinha o poeta à data 38 anos e passava pelas maiores dificuldades.

Este Flores do Campo foi recebido com enorme aplauso do público e da crítica, e  teve 2ªedição em 1876, publicada pela Livraria Universal do Porto. Esta nova edição vinha corrigida e muito aumentada em relação à primeira. No mesmo ano, o mesmo editor publicou o volume Folhas Soltas. Este editor foi alvo de verdadeiras injúrias por parte de Teófilo Braga no prefácio da 1ªedição de Campo de Flores.


Tinham passado 25 anos desde a publicação em livro da primeira recolha de poemas de João de Deus. A crescente notoriedade do poeta e o apreço público envolvendo a Cartilha Maternal e o seu empenhamento cívico, levaram a que Teófilo Braga se propusesse reunir e editar as poesias do poeta, uma vez que este não se empenhava em fazê-lo. Os contornos desta colaboração ainda hoje não são perfeitamente claros.

Desta colaboração resultou a 1ªedição de Campo de Flores. A polémica que se seguiu à publicação desta 1ªedição, ainda em vida do autor, respeitando a omissões de poemas e modificações em relação a versões conhecidas de algumas poesias, trouxe à luz os poemas acrescentados nas edições seguintes.

As escolhas editoriais de Teófilo Braga quanto a títulos, pequenos arranjos de formas verbais e outras, continuaram a suscitar dúvidas a quem conheceu de perto o poeta, com ele privou e de alguma forma seguiu as vicissitudes da sua vida e da sua obra.

É por tudo isto que uma edição crítica da obra poética se torna necessário. Uma edição que nos dê, na medida do possível, os poemas como o poeta os criou.

Seria uma edição crítica que, ao percorrer com olhos de hoje documentos e testemunhos, permitiria ver quais das variantes existentes para cada poema, em manuscrito quando existir, e nas suas edições conhecidas na imprensa ou em livro, se encontra mais próxima da vontade do autor.

Uma edição critica que, ancorada em sólidos critérios de crítica literária, separe o que é do poeta do que eventualmente foi acrescentado ou modificado por copistas ou editores menos escrupulosos, isto sem preconceitos ou ideias feitas sobre uma imagem que se queira transmitir.

A associação de João de Deus ás crianças e à Cartilha Maternal, por onde também aprendi a ler, torna qualquer mexida na sua obra especialmente vulnerável a mal entendidos. Talvez por isso ninguém tenha querido correr o risco de tentar a edição crítica necessária. Os poderes públicos financiam uma pleiade de instituições associadas ao nome e á obra do poeta, algumas das quais depositárias de espólio. É a estas instituições que cabe a iniciativa de promover uma edição com estas características.

Agora sobre o folheto CRYPTINAS  e o que sobre ele circula.

Percorrendo histórias e dicionários de literatura portuguesa não encontrei referência a tal folheto, ou seja, tendo em conta apenas essas fontes o folheto nunca teria existido.

Foi num opúsculo publicado por Trindade Coelho e Alfredo Cunha em resposta à 1ª edição de Campo de Flores, o qual acrescenta 56 poesias dispersas ao corpus de Campo de Flores, que encontrei referência explícita ao folheto CRYPTINAS, com a descrição do seu conteúdo. Essa descrição coincide integralmente com o folheto que aqui divulgo.

Acontece que na apreciada e nunca demais elogiada, Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica editada por Natália Correia, se encontram dois poemas “Omissão” e “Ao Quaresma (Manuel)” com indicação de que provêm de  CRYPTINAS. Ora, esses poemas  não constam do folheto aqui divulgado.

Significará isto que existiu outro folheto CRYPTINAS com conteúdo diferente? Se assim foi, não encontrei até hoje traço da sua existência.

A ausência de referências bibliográficas na  Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica impede o conhecimento da origem editorial destes dois poemas. A haver lapso, os poemas “Omissão” e “Ao Quaresma (Manuel)” serão também de João de Deus? Dúvidas que a edição crítica da obra poética de João de Deus viria resolver.

Termino com o poema ULTIMO SUSPIRO publicado pela primeira vez no opúsculo de Trindade Coelho e Alfredo Cunha acima referido, espelho de uma certa bonomia na amargura, marca de água do poeta.


ULTIMO SUSPIRO

Fui a semana passada

Visitar o hospital

E vi n’uma enfermaria

O pobre de Portugal;

Perguntei-lhe o que sentia,

– uma fraqueza geral,

E nesta edade avançada

É um achaque mortal:

Vem Oliveira Martins,

Vara-me d’uma estocada!

Vem Augusto ‘zé da Cunha,

Ferra-me uma punhalada!

Isto não é caramunha

Que tudo foi com bons fins,

Porque um e outro supunha,

Tanto Augusto ‘zé da Cunha

Como Oliveira Martins,

Que sendo a morte fatal,

Abreviando-me a vida

Me abreviavam o mal. –

E já com a voz sumida

E no arranque final:

– Tratem-me do funeral

Que a lebre está corrida…

30-12-893


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