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Tag Archives: Fernando Pessoa

LIBERDADE — uma visão de Fernando Pessoa

01 Quinta-feira Jan 2015

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Fernando Pessoa

DSC_0238Abro 2015 no blog com um pequeno ensaio em forma de poema, LIBERDADE, onde Fernando Pessoa desenvolve um peculiar entendimento de liberdade individual.

Atendo-se ao elogio da inércia como exercício de liberdade, lemos uma desgarrada sequência de argumentos no inegável encanto de uma forma poética superior.

 

LIBERDADE

 

Aí que prazer

Não cumprir um dever,

Ter um livro para ler

E não o fazer!

Ler é maçada,

Estudar é nada.

O sol doura

Sem literatura.

O rio corre, bem ou mal,

Sem edição original.

E a brisa, essa,

De tão naturalmente matinal,

Como tem tempo não tem pressa.

 

Livros são papéis pintados com tinta.

Estudar é uma coisa em que está indistinta

A distinção entre nada e coisa nenhuma.

 

Quanto é melhor, quando há bruma,

Esperar por D. Sebastião,

Quer venha ou não!

 

Grande é a poesia, a bondade e as danças…

Mas o melhor do mundo são as crianças,

Flores, música, o luar, e o sol, que peca

Só quando, em vez de criar, seca.

 

O mais do que isto

É Jesus Cristo,

Que não sabia nada de finanças

Nem consta que tivesse biblioteca…

16-03-1935

 

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Fernando Pessoa — algumas meditações sobre o existir

16 Quinta-feira Out 2014

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Camões, Fernando Pessoa, Sá de Miranda

carlosmfernandes - Oleo 078 - 2004 - óleo sobre tela 80x80cmA dolorosa meditação do eu na poesia de Fernando Pessoa atinge frequentemente o sublime:

 

Cai amplo o frio e eu durmo na tardança

De adormecer —

Sou, sem lar, nem conforto, nem esperança,

Nem desejo de os ter.

 

E um choro por meu ser me inunda

A imaginação.

Saudade vaga, anónima, profunda,

Náusea da indecisão.

 

Frio do inverno duro, não se tira

Agasalho ou amor.

Dentro em meus ossos teu tremor delira.

Cessa, seja eu quem for!

19-01-1931

 

Questionando a verdade interior do eu na duplicidade do agir, ao ler esta poesia é sempre uma interrogação de nós o que fazemos, ou não fora, como o poeta escreveu, … quem lê versos lê só a própria alma… (17-03-1931).

 

As coisas que errei na vida

São as que acharei na morte,

Porque a vida é dividida

Entre quem sou e a sorte.

 

As coisas que a Sorte deu

Levou-as ela consigo,

Mas as coisas que sou eu

Guardei-as todas comigo.

 

E por isso os erros meus,

Sendo a má sorte que tive,

Terei que os buscar nos céus

Quando a morte tire os véus

À inconsciência em que estive.

21-08-1934

 

Por último, um poema menos perfeito (última quadra) e onde os versos

Falhei a tudo, mas sem galhardias, / Nada fui, nada ousei e nada fiz,

 

remetem para as reflexões de Tabacaria (15-01-1928):

Falhei em tudo. / Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada. /…

 

Este poema de 02-07-1931 afasta-se da interrogação em Tabacaria (aquele talvez) e desenvolve reflexões pela afirmativa onde os belíssimos versos:

…

Nem colhi nas urtigas dos meus dias, / A flor de parecer feliz.

…

espelham a dualidade do ser e do parecer com as imagens do amargo dos dias referidos como urtigas, e a felicidade simulada, pela flor de parecer feliz.

 

Bem, hoje que estou só e posso ver

Com o poder de ver do coração

Quanto não sou, quanto não posso ser,

Quanto, se o for, serei em vão.

 

Hoje, vou confessar, quero sentir-me

Definitivamente ser ninguém,

E de mim mesmo, altivo, demitir-me

Por não ter procedido bem.

 

Falhei a tudo, mas sem galhardias,

Nada fui, nada ousei e nada fiz,

Nem colhi nas urtigas dos meus dias,

A flor de parecer feliz.

 

Mas fica sempre, porque o pobre é rico

Em própria casa, se procurar bem,

A grande indiferença com que fico

É um sonho… Leve-o quem o trate bem.

02-07-1931

 

Em nota final, refiro quanto o verso de abertura do poema inicial

Cai amplo o frio e eu durmo na tardança / …

me ecoa, apesar da variação na abordagem, o soneto de Sá de Miranda

 

O sol é grande, caem co’a calma as aves / …

 

e outro dia transcreverei.

 

No segundo poema de Pessoa, o verso As coisas que errei na vida / …, leva-me direitinho para o soneto de Camões:

Erros meus, má fortuna, amor ardente / Em minha perdição se conjuraram / …

E assim, neste deambular poético lá vou para o multifacetado da vida, na variedade das reflexões que a poesia induz.

Seria matéria de vasta prosa perambular pelas afinidade e oposições entre estes quatro poemas, o que não cabe no formato do blog, obviamente.

 

Poemas transcritos de Fernando Pessoa, Poesia 1931-1935, edição de Manuela Parreira da Silva ed al., Assírio & Alvim, Lisboa, Julho 2006.

Abre o artigo a imagem de uma pintura (óleo s/tela) que fiz pelo ano de 2004.

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Um dos Poemas Inconjuntos de Alberto Caeiro

21 Segunda-feira Jul 2014

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Alberto Caeiro, Fernando Pessoa, Juan Gris

Juan Gris o livro

É uma especial leitura do Estoicismo vindo dos gregos, a filosofia de vida expendida por Alberto Caeiro (heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)) no poema que mais à frente transcrevo integralmente.

 

Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,

Como aceito o frio exccessivo no alto do inverno —

Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,

E encontra uma alegria no facto de aceitar —

No facto sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável.

 

Nas voltas da vida, umas vezes a aprendizagem pelo sofrimento faz-se de sopetão, outras espalha-se ao longo da existência, entremeando a alegria de estar vivo com a experiência da dor em redor; mas cedo ou tarde, incorporamos a evidência de que a nossa capacidade de determinar o destino é restrita às opções de vida que escolhemos fazer. E o resto, o mundo e o seu voltear, seguem na sua indiferença. E da aceitação desta evidência decorre uma alegria tranquila que ecoa neste poema de Fernando Pessoa assinado Alberto Caeiro.

 

Mas tem mais, o poema. Tem o corolário da reflexão desenvolvida, e difícil de aceitar para mentes formadas no racionalismo, que o mundo não é compreensível apenas pela inteligência (e que caminho é preciso percorrer até aceitar esta outra evidência…):

 

Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,

Mas nunca ao erro de querer compreender demais,

Mas nunca ao erro de querer compreender só com a inteligência,

Nunca ao defeito de exigir do mundo

Que fosse qualquer coisa que não fosse o mundo.

 

Feito o intróito, vamos ao poema completo.

 

Quando está frio no tempo frio, para mim é como se estivesse agradável,

Porque para o meu ser adequado à existência das coisas

O natural é o agradável só por ser natural.

 

Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,

Como aceito o frio excessivo no alto do inverno —

Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,

E encontra uma alegria no facto de aceitar —

No facto sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável.

 

Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece

Senão o inverno da minha pessoa e da minha vida?

O inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,

Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime,

Da mesma inevitável exterioridade a mim,

Que o calor da terra no alto do verão

E o frio da terra no cimo do inverno.

 

Aceito por personalidade

Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,

Mas nunca ao erro de querer compreender demais,

Mas nunca ao erro de querer compreender só com a inteligência,

Nunca ao defeito de exigir do mundo

Que fosse qualquer coisa que não fosse o mundo.

[24-10-1917]

 

Transcrito de Poemas Completos de Alberto Caeiro, recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha, Editorial Presença, Lisboa 1994.

Nesta edição o poema tem o nº49 dos Poemas Inconjuntos.

 

Iconografia

No livro da vida, e nas suas múltiplas perspectivas, quadra, como alegoria, a imagem desta obra cubista de Juan Gris (1887-1927), O livro.

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Ricardo Reis — Se recordo quem fui, outrem me vejo

16 Quarta-feira Abr 2014

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Fernando Pessoa, Ricardo Reis

O filósofo e o poeta

Tem sido frequente confrontar-me com a memória de mim nos outros e surgir um sentimento de estranheza, ou dizendo com Ricardo Reis, o heterónimo de Fernando Pessoa:

 

Se recordo quem fui, outrem me vejo,

E o passado é um presente na lembrança.

 

A vida vivida aos vinte anos é marca indelével no percurso de cada homem ou mulher. Sabemo-lo quando, passados os cinquenta anos, olhamos para o caminho percorrido e a evidência surge: não vamos voltar a percorrê-lo. O que ficou por fazer não mais se fará.

 

Quem fui é alguém que amo

Porém somente em sonho.

 

Ter tido vinte anos em 1974, permitiu-me e a toda uma geração, viver no furacão dos dias, as ideias e as experiências que em outras conjunturas demorariam anos a acontecer ou nem aconteceriam.

 

quem sou e quem fui

São sonhos diferentes

Ter tido vinte anos em Abril e ser estudante universitário em Portugal permitiu já saber o valor das escolhas: a escolha de divergir das ideias toleráveis e enfrentar a prisão por delito de opinião, a escolha de ir à guerra com o prémio da própria vida.

 

Ganhámos, toda uma geração, a consciência, impregnada na própria pele, de que nada vale o direito de estar vivo e livre para fazer as escolhas que a vontade de cada um ditar.

 

E a saudade que me aflige a mente

Não é de mim nem do passado visto,

Senão de quem habito

Por trás dos olhos cegos.

 

Não sei como se ensina a quem sempre viveu em liberdade e na vida caminhou com estes valores, tendo-os por tão naturais como beber água, que não são naturais. São como bonecas de porcelana, que à menor distracção ou descuido se partem e deixam de existir. Provavelmente apenas ser cerceado deles permite dar-lhes o valor, e cada geração tem que fazer a sua dolorosa aprendizagem.

 

Nada, senão o instante, me conhece.

 

Despeço-me com o poema que por entre a conversa citei.

 

 

Ricardo Reis — Poema 104

 

Se recordo quem fui, outrem me vejo,

E o passado é um presente na lembrança.

Quem fui é alguém que amo

Porém somente em sonho.

E a saudade que me aflige a mente

Não é de mim nem do passado visto,

Senão de quem habito

Por trás dos olhos cegos.

Nada, senão o instante, me conhece.

Minha mesma lembrança é nada, e sinto

Que quem sou e quem fui

São sonhos diferentes

 

26-05-1930

 

in Ricardo Reis, Poesias, edição Manuela Parreira da Silva, Assírio & Alvim, Lisboa, 2000.

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Vida e Destino com Ricardo Reis

13 Domingo Abr 2014

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Fernando Pessoa, Gerhard Richter, Ricardo Reis

Gerhard Richter Abstracção 1990 (2)

A realidade

Sempre é mais ou menos

Do que nós queremos.

 

Parafraseando Camilo Castelo Branco, diria que os leitores do blog são bons e pacientes, mas também querem não ser tentados a perder essas excelentes qualidades, por isso deixo de lado as obscuridades poéticas com que me tenho ocupado, e dei exemplo nos últimos artigos, e regresso a Fernando Pessoa na forma do seu heterónimo Ricardo Reis.

Num pequeno grupo de poemas criados de 1916 a 1933, lemos diferentes pontos de vista sobre vida e destino consubstanciáveis nos versos Com que vida encherei os poucos breves / Dias que me são dados?

e que abrem o primeiro poema escolhido.

Mais à frente duas reflexões sobre carpe diem — goza o dia —no poema 61 de 1923:

Goza este dia como / Se a Vida fosse nele.,

e no poema 144 de 1933:

No mesmo hausto / Em que vivemos, morreremos. Colhe / O dia, porque és ele.

Oscilando entre desejar o gozo do efémero e a consciência de viver uma vida Que nem quero nem amo, / Minha porque sou ela. (Poema 145), acontece a recomendação Vê de longe a vida. / Nunca a interrogues. / Ela nada pode /Dizer-te. (Poema 34).

Porque a vida, felizmente, não nos surge sempre da mesma cor, terminemos com um desejo:

Sob a leve tutela / De deuses descuidosos, /Quero gastar as concedidas horas / Desta fadada vida. (poema 170),  

Conduzi a dança, ninfas singelas / Até ao amplo gozo / Que tomais da vida. (poema171).

Feito o intróito, seguem-se os poemas.

Gerhard Richter Abstracção 1991

67

 

Com que vida encherei os poucos breves

Dias que me são dados? Será minha

A minha vida ou dada

A outros ou a sombras?

 

À sombra de nós mesmos quantas vezes

Inconscientes nos sacrificamos,

E um destino cumprimos

Nem nosso nem alheio!

 

Porém nosso destino é o que for nosso,

Quem nos deu o acaso, ou, alheio fado,

Anônimo a um anônimo,

Nos arrasta a corrente.

 

Ó deuses imortais, saiba eu ao menos

Aceitar sem querê-lo, sorridente,

O curso áspero e duro

Da strada permitida.

 

5-5-1925

Gerhard Richter Abstracção 1994 (2)

61

De uma só vez recolhe

As flores que puderes.

Não dura mais que até à noite o dia.

Colhe de que lembrares.

 

A vida é pouco e cerca-a

A sombra e o sem-remédio.

Não temos regras que compreendamos,

Súbditos sem governo.

 

Goza este dia como

Se a Vida fosse nele.

Homens nem deuses fadam, nem destinam

Senão que  ignoramos.

 

24-10-1923

Gerhard Richter Abstracção 1992

144

Uns, com os olhos postos no passado,

Vêem o que não vêem; outros, fitos

Os mesmos olhos no futuro, vêem

O que não pode ver-se.

 

Porque tão longe ir pôr o que está perto —

O dia real que vemos? No mesmo hausto

Em que vivemos, morreremos. Colhe

O dia, porque és ele.

 

28-8-1933

Gerhard Richter Abstracção 1993 (2)

145

Súbdito inútil de astros dominantes,

Passageiros como eu, vivo uma vida

Que nem quero nem amo,

Minha porque sou ela.

 

No ergástulo de ser quem sou, contudo,

De em mim pensar me livro, olhando no atro

Os astros que dominam,

Submisso de os ver brilhar.

 

Vastidão vã que finge de infinito

(Como se o infinito se pudesse ver!) —

Dá-me ela a liberdade?

Como, se ela a não tem?

 

19-11-1933

Gerhard Richter Abstracção 1995 (3)

34

Segue o teu destino,

Rega as tuas plantas,

Ama as tuas rosas.

O resto é a sombra

De árvores alheias.

 

A realidade

Sempre é mais ou menos

Do que nós queremos.

Só nós somos sempre

Iguais a nós-próprios.

 

Suave é viver só.

Grande e nobre é sempre

Viver simplesmente.

Deixar a dor nas aras

Como ex-voto aos deuses.

 

Vê de longe a vida.

Nunca a interrogues.

Ela nada pode

Dizer-te. A resposta

Está além dos Deuses.

 

Mas serenamente

Imita o Olímpo

No teu coração.

Os deuses são deuses

Porque não se pensam.

 

1-7-1916

Gerhard Richter Abstracção 1994 (3)

170

Sob a leve tutela

De deuses descuidosos,

Quero gastar as concedidas horas

Desta fadada vida.

 

Nada podendo contra

O ser que me fizeram,

Desejo ao menos que me haja o Fado

Dado a paz por destino.

 

Da verdade não quero

Mais que a vida; que os deuses

Dão vida e não verdade, nem talvez

Saibam qual a verdade.

171

Sob estas árvores ou aquelas árvores

Conduzi a dança,

Conduzi a dança, ninfas singelas

Até ao amplo gozo

Que tomais da vida. Conduzi a dança

E sê quasi humanas

Com o vosso gozo derramado em ritmos

Em ritmos solenes

Que a vossa alegria torna maliciosos

Para nossa triste

Vida que não sabe sob as mesmas árvores

Conduzir a dança…

Gerhard Richter Abstracção 1995

in Ricardo Reis, Poesias, edição Manuela Parreira da Silva, Assírio & Alvim, Lisboa, 2000.

Acompanham os poemas imagens de pinturas de Gerhard Richter (1932), tituladas todas abstracção, e pintadas entre 1990 e 1995.

Gerhard Richter Abstracção 1995 (2)

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De vez em quando, PESSOA. Hoje, DÁ A SURPRESA DE SER.

29 Sexta-feira Nov 2013

Posted by viciodapoesia in Crónicas, Poetas e Poemas

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Fernando Pessoa

A pretexto do poema Glosa de Sophia de Mello Breyner Andressen que vem no artigo seguinte, republico este artigo onde no final se encontra o poema de Fernando Pessoa glosado por Sophia nesse seu poema.

HOJE QUE A TARDE É CALMA e o céu tranquilo,

E a noite chega sem que eu saiba bem,

Quero considerar-me e ver aquilo

Que sou, e o que sou o que é que tem.

Leio o poeta em mim:

Como alguém distraído na viagem, / Segui por dois caminhos par a par. / Fui com o mundo parte da paisagem; / Comigo fui sem ver nem recordar.

Retomo o poema:

Olho por todo o meu passado e vejo / Que fui quem foi aquilo em torno meu, / Salvo o que o vago e incógnito desejo / De ser eu mesmo de meu ser me deu.

Chegados aqui, onde hoje estou, conheço / Que sou diverso no que informe estou. / No meu próprio caminho me atravesso. / Não conheço quem fui no que hoje sou.

De novo constato: não gosto da poesia de Fernando Pessoa. Não gosto no sentido em que me deleito com a lírica de Camões. No entanto, a poesia de Pessoa tem-me revelado mais sobre mim que provavelmente qualquer outra escrita.

AQUI, NESTE SOSSEGO e apartamento, / Nesta quieta solidão sem fim, / Sem cuidado ou tormento / Que ocupe este momento, / Da vida e mundo volto-me p’ra mim.

 

Tão breve sombra do que pude ser / Me encontro, tão perdida semelhança / Com minha vida por acontecer, …

Interrompo o poema aqui. Esta leitura incomoda-me. Mas volto sempre lá, privilégio tão só da arte, continuar irresistível. Mas não transforma a leitura num prazer. Daí definitivamente afirmar “não gosto da poesia de Fernando Pessoa” sabendo que sem ela, eu, provavelmente, seria outra pessoa.

Nos meus vinte anos, ortónimo e heterónimos foram, durante quase um ano, minha leitura de cabeceira. Pegava-lhes, lia um pouco e largava incomodado. No dia seguinte não resistia e voltava a eles. Hoje:


CONVERSO ÀS VEZES comigo / E esse diálogo a sós / Com o impossivel amigo / Que sonha cada um de nós,

 

Vai de clareira em abrigo / Ouvido, visto, veloz / Das expressões que consigo / Das sombras a que dá voz.

 

E a perfeita consonância / De quem fala com quem ouve / Aquece a lume de infância /

A casa em que ainda chove, / E eu durmo a alada distância / Da conversa que não houve.

Mas engana-se quem suponha que tanto o poeta como eu apenas olhamos para o umbigo. De mim calo por pudor, mas ao poeta, faminto do relevo tapado,  Ó fome, quando é que eu como?, veja-se como o deixou aquela loura nos idos de Setembro de 1930:


 

DÁ A SURPRESA DE SER

É alta, de um louro escuro.

Faz bem só pensar em ver

Seu corpo meio maduro.


Seus seios altos parecem

(Se ela estivesse deitada)

Dois montinhos que amanhecem

Sem ter que haver madrugada.


E a mão do seu braço branco

Assenta em palmo espalhado

Sobre a Saliência do flanco

Do seu relevo tapado.


Apetece como um barco.

Tem qualquer coisa de gomo.

Meu Deus, quando é que eu embarco?

Ó fome, quando é que eu como?

Não sei se o poeta comeu, mas aquele pobre moço, de quem a seguir conto a história, não comeu, apenas sonhou, e vejam o que aconteceu:

Fodê-la era o seu sonho recorrente.

Extasiado,

pensava na maravilha

de poder ainda um dia

gozar tamanha ventura.

E assim, mal acordava

voltava a dormir sorrindo

envolto na fantasia

de sonhar a alegria

que em vida nunca teria.

Em vão a fome e a sede

o chamaram à razão.

Morreu abraçado ao sonho

num sossego de ilusão.

Despeço-me com a convicção que sonhos destes valem a morte que trazem.

Noticia bibliográfica:

Os poemas transcritos foram publicados pela 1ªvez nas edições seguintes:

AQUI, NESTE SOSSEGO e apartamento (15-5-1923) – Poemas de Fernando Pessoa, tomo III 1921-1930, edição crítica, vol I, IN-CM, 2001 (transcrição parcial)

CONVERSO ÀS VEZES COMIGO(25.11-1924)  – Poemas de Fernando Pessoa, tomo III 1921-1930, edição crítica, vol I, IN-CM, 2001

DÁ A SURPRESA DE SER (10-9-1930) – Poesias, 1942

HOJE QUE A TARDE É CALMA(1-8-1931)  – Revista de Portugal nº4, 1938 (transcrição parcial)

As transcrições foram efectuadas da edição em 3 volumes da Poesia de Fernando Pessoa publicada pela Assírio & Alvim e preparada por Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas e Madalena Dine.

O resto do texto, o crime, é de minha responsabilidade.

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O moderno Adão – pintura de Sandor Bortnyik e fragmento de Bernardo Soares

26 Terça-feira Nov 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Bernardo Soares, Fernando Pessoa, Sandor Bortnyik

Sandor Bortnyik  - O novo Adão 1924

Não é só o facto de que o nosso traje se torna uma parte de nós. É também a complicação d’esse traje e a sua curiosa qualidade de não ter quasi nenhuma relação com os elementos da elegância natural do corpo nem com as dos seus movimentos.

Fragmentário e inapreensível, o Livro do Desasocego é obra em que por vezes mergulho. E de lá recolhi esta reflexão do heterónimo de Fernando Pessoa, Bernardo Soares, a pretexto do vestir.

As questões de aparência que há dias interroguei a propósito do retrato de Antonietta Gonzalez regressam hoje pela mão dos caprichos da moda.

Assunto tratado habitualmente como futilidade social, mereceria certamente uma atenção nas suas componentes psicológicas, na medida em que permite ou impede uma integração e reconhecimento de grupo.

No jogo entre a afirmação da individualidade e a necessidade de aceitação no grupo social com que nos identificamos se movem as escolhas do vestir de cada um de nós. E aí entra a moda do tempo em que vivemos.

Nos nossos dias é matéria de preocupação individual, negócio mundial, e idiossincrasia geográfica, a tal ponto que consoante os escalões etários se encontra um vestir em Berlim ou Nova Iorque que devolve uma imagem da cidade e é factor de integração entre quem a elas acorre vindo das diferentes partes do mundo.

Matéria vasta, e abordável de variados pontos de vista, aqui paro com a totalidade da reflexão pessoana na voz de Bernardo Soares, cujo fragmento citei a abrir.

 Trata-se do fragmento 119, transcrito da edição crítica de Livro do Desasocego preparada por Jerónimo Pizzaro, Tomo I, INCM, Lisboa 2010. Conservei a ortografia do texto.

                [1915?]

As coisas / modernas / são

(1) A evolução dos espelhos.

(2) Os guarda-fatos.

Passámos a ser creaturas vestidas, de corpo e alma.

E, como a alma corresponde sempre ao corpo, um traje espiritual estabeleceu-se. Passámos a ter a alma essencialmente vestida, assim como passámos — homens, corpos — à categoria de animaes vestidos.

Não é só o facto de que o nosso traje se torna uma parte de nós. É também a complicação d’esse traje e a sua curiosa qualidade de não ter quasi nenhuma relação com os elementos da elegância natural do corpo nem com as dos seus movimentos.

Se me pedissem que explicasse o que é este meu estado de alma, atravez de uma razão social, eu responderia mudamente apontando para um espelho, para um cabide e para uma caneta com tinta.


O moderno Adão que abre o artigo foi pintado pelo húngaro Sandor Bortnyik (1893-1976), e  de quem há tempos deixei no blog a pintura de um fabuloso motociclista.

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De vez em quando Pessoa — hoje, uma Canção e mais alguns poemas

11 Segunda-feira Nov 2013

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Fernando Pessoa, Marc Chagall

Marc chagall The poetEntre a actividade e o sossego — a lida e a calma chamou-lhe o poeta — enchemos a solidão com o que conseguimos: a banalidade da vida social, as compras inúteis, as viagens em busca de coisa nenhuma, o sossego de um hobbie; e o sabor é sempre o mesmo: Sol nulo dos dias vãos, / Cheios de lida e de calma, …

Por vezes há um tentar enganar a solidão na ilusão de uma alma gémea, procurando Que ao menos a mão, roçando / A mão que por ela passe, / Com externo calor brando / O frio da alma disfarce!

Acontece que a cabeça nos acompanha sempre, não há volta a dar-lhe, e a vida, muitas vezes, acaba por saber ao desencanto dorido de que fala Fernando Pessoa na sua arqui-conhecida Canção que tenho vindo a citar, um dos poucos poemas que publicou em vida, e que hoje trago ao blog:

 

CANÇÃO

Sol nulo dos dias vãos,

Cheios de lida e de calma,

Aquece ao menos as mãos

A quem não entras na alma!

 

Que ao menos a mão, roçando

A mão que por ela passe,

Com externo calor brando

O frio da alma disfarce!

 

Senhor, já que a dor é nossa

E a fraqueza que ela tem,

Dá-nos ao menos a força

De a não mostrar a ninguém!

15-01-1920

 

A perfeição formal do poema, o acerto psicológico no desenvolvimento do assunto, aliados à originalidade expressiva em versos de profundo impacto na melodia da rima, fazem deste CANÇÃO um obra-prima absoluta, e com ela regresso ao convívio do blog depois destas semanas de ausência.

Regista a edição da Poesia 1918-1930 de Fernando Pessoa, neste 15 de Janeiro de 1920, além deste Canção, a composição de mais 2 poemas, dando os três conta do mesmo estado de espírito. Cito as duas primeiras estrofes do poema MADRUGADAS onde o peso do quotidiano — O novo dia trazer-me o mesmo dia do fim / Do mundo e da dor — encontra na forma de uma ode o peso da sua expressão.

 

MADRUGADAS

I

Em toda a noite o sono não veio. Agora

Raia do fundo

Do horizonte, encoberta e fria, a manhã.

Que faço eu no mundo?

Nada que a noite acalme ou levante a aurora,

Cousa séria ou vã.

 

Com os olhos da febre vã da vigília

Vejo com horror

O novo dia trazer-me o mesmo dia do fim

Do mundo e da dor —

Um dia igual aos outros, da eterna família

De serem assim.

…

Não me despeço sem acrescentar mais um registo desta desolada quietação com que a vida por vezes nos surge. Desta feita é um poema de 10-08-1929, agora em verso alexandrino:

 

AQUI NA ORLA DA PRAIA, mudo e contente do mar,

Sem nada já que me atraia, nem nada que desejar,

Farei um sonho, terei meu dia, fecharei a vida,

E nunca terei agonia, pois dormirei de seguida.

 

A vida é como uma sombra que passa por sobre um rio

Ou como um passo na alfombra de um quarto que jaz vazio;

O amor é um sono que chega para o pouco que se é;

A glória concede e nega; não tem verdades a fé.

 

Por isso na orla morena da praia calada e só,

Tenho a alma feita pequena, livre de mágoa e de dó;

Sonho sem quasi já ser, perco sem nunca ter tido,

E comecei a morrer muito antes de ter vivido.

 

Dêem-me, onde aqui jazo, só uma brisa que passe,

Não quero nada do acaso, senão a brisa na face;

Dêem-me um vago amor de quanto nunca terei

Não quero gozo nem dor, não quero vida nem lei.

 

Só, no silêncio cercado pelo som brusco do mar

Quero dormir sossegado, sem nada que desejar,

Quero dormir na distância de um ser que nunca foi seu,

Tocado do ar sem fragrância da brisa de qualquer céu.

10-08-1929

 

Acabemos este itinerário onde a solidão conduz a um persistente sentimento da inutilidade da vida com um soneto de 31-08-1929

 

Nas grandes horas em que a insónia avulta

Como um novo universo doloroso,

E a mente é clara como um ser que insulta

O uso confuso com que o dia é ocioso,

 

Cismo, embebido em sombras de repouso

Onde habitam fantasmas e a alma é oculta,

Em quanto errei e quanto ou dor ou gozo

Me foram nada, como frase estulta.

 

Cismo, cheio de nada, e a noite é tudo,

Meu coração, que fala estando mudo,

Repete seu monótono torpor

 

Na sombra, no delírio da clareza,

E não há Deus, nem ser, nem Natureza,

E a própria mágoa melhor fora dor.

 

Escolhi deliberadamente poemas onde a rima e o rigor de formas tradicionais como a quadra heptasilábica, o verso alexandrino e o soneto estão presentes, de modo a tornar evidente quanto estas não são impeditivas da expressão de profundas reflexões, e bem pelo contrário, o espartilho da forma obriga à concisão verbal e capta o leitor de forma intensa.

 A pintura de Marc Chagall que abre o artigo chama-se O Poeta.

Notícia bibliográfica

Os poemas foram transcritos de Fernando Pessoa, Poesia 1918-1930, edição de Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas e Madalena Dine, Assírio & Alvim, Lisboa, 2005

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De vez em quando Pessoa — hoje Os Jogadores de Xadrez de Ricardo Reis

04 Quarta-feira Set 2013

Posted by viciodapoesia in Cânone XXI, Convite à fotografia, Poetas e Poemas

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Fernando Pessoa, Ricardo Reis

Dominic Nahr - Gaza City, Palestinian TerritoriesOuvi dizer que outrora, quando a Pérsia / Tinha não sei qual guerra.

…

Serve-nos a televisão com o jantar, notícias das catástrofes do mundo e do andamento que os políticos lhes dão.

Ardiam casas, saqueadas eram

As arcas e as paredes,

Violadas, as mulheres eram postas

Contra os muros caídos,

Trespassadas de lanças, as crianças

Eram sangue nas ruas…

Mas onde estavam, perto da cidade,

E longe do seu ruído,

…

Inda que nas mensagens do ermo vento

Lhes viessem os gritos,

E, ao refletir, soubessem desde a alma

Que por certo as mulheres

E as tenras filhas violadas eram

Nessa vitória próxima,

…

Fabio Bucciarelli  - Aleppo, SyriaSaber isto o espectador, acrescenta-lhe a ilusão de, ao saber o que acontece, participar na sua resolução: inclui-se na chamada opinião pública.

…

Inda que, no momento que o pensavam,

Uma sombra ligeira

Lhes passasse na fronte alheada e vaga,

Breve seus olhos calmos

Volviam sua atenta confiança

Ao tabuleiro velho.

…

Os jogadores de xadrez jogavam

O jogo de xadrez.

E, na verdade, esta ilusão de assim interferir nos destinos do mundo, permite ganhar a tranquilidade de consciência e dormir em sossego.

Dominic Nahr  - Heglig, SudanQuão longe estamos da indiferença levada aos limites por Fernando Pessoa no poema do heterónimo Ricardo Reis, Os Jogadores de Xadrez, que tenho vindo a citar?

Desde muito novo me debato com a pontual evidência experiencial deste poema e a liminar recusa da indiferença pelo destino do mundo que me rodeia e em que vivo.

Ah! sob as sombras que sem qu’rer nos amam,

Com um púcaro de vinho

Ao lado, e atentos só à inútil faina

Do jogo do xadrez,

Mesmo que o jogo seja apenas sonho

E não haja parceiro,

Imitemos os persas desta história,

E, enquanto lá por fora,

Ou perto ou longe, a guerra e a pátria e a vida

Chamam por nós, deixemos

Que em vão nos chamem, cada um de nós

Sob as sombras amigas

Sonhando, ele os parceiros, e o xadrez

A sua indiferença.

Micah Albert - Nairobi, KenyaSoberba interrogação sobre nós e o mundo nos faz este poema! Aí fica na totalidade.

 

Os Jogadores de Xadrez

 

Ouvi dizer que outrora, quando a Pérsia

Tinha não sei qual guerra,

Quando a invasão ardia na Cidade

E as mulheres gritavam,

Dois jogadores de xadrez jogavam

O seu jogo contínuo.

 

À sombra de ampla árvore fitavam

O tabuleiro antigo,

E, ao lado de cada um, esperando os seus

Momentos mais folgados,

Quando havia movido a pedra, e agora

Esperava o adversário,

Um púcaro com vinho refrescava

Sobriamente a sua sede.

 

Ardiam casas, saqueadas eram

As arcas e as paredes,

Violadas, as mulheres eram postas

Contra os muros caídos,

Trespassadas de lanças, as crianças

Eram sangue nas ruas…

Mas onde estavam, perto da cidade,

E longe do seu ruído,

Os jogadores de xadrez jogavam

O jogo de xadrez.

 

Inda que nas mensagens do ermo vento

Lhes viessem os gritos,

E, ao refletir, soubessem desde a alma

Que por certo as mulheres

E as tenras filhas violadas eram

Nessa vitória próxima,

Inda que, no momento que o pensavam,

Uma sombra ligeira

Lhes passasse na fronte alheada e vaga,

Breve seus olhos calmos

Volviam sua atenta confiança

Ao tabuleiro velho.

 

Quando o rei de marfim está em perigo,

Que importa a carne e o osso

Das irmãs e das mães e das crianças?

Quando a torre não cobre

A retirada da rainha alta,

Pouco importa a vitória.

E quando a mão confiada leva o xeque

Ao rei do adversário,

Pouco pesa na alma que lá longe

Estejam morrendo filhos.

 

Mesmo que, de repente, sobre o muro

Surja a sanhuda face

Dum guerreiro invasor, e breve deva

Em sangue ali cair

O jogador solene de xadrez,

O momento antes desse

É ainda entregue ao jogo predileto

Dos grandes indif’rentes.

 

Caiam cidades, sofram povos, cesse

A liberdade e a vida.

Os haveres tranquilos e avitos

Ardem e que se arranquem,

Mas quando a guerra os jogos interrompa,

Esteja o rei sem xeque,

E o de marfim peão mais avançado

Pronto a comprar a torre.

 

Meus irmãos em amarmos Epicuro

E o entendermos mais

De acordo com nós-próprios que com ele,

Aprendamos na história

Dos calmos jogadores de xadrez

Como passar a vida.

 

Tudo o que é sério pouco nos importe,

O grave pouco pese,

O natural impulso dos instintos

Que ceda ao inútil gozo

(Sob a sombra tranqüila do arvoredo)

De jogar um bom jogo.

 

O que levamos desta vida inútil

Tanto vale se é

A glória, a fama, o amor, a ciência, a vida,

Como se fosse apenas

A memória de um jogo bem jogado

E uma partida ganha

A um jogador melhor.

 

A glória pesa como um fardo rico,

A fama como a febre,

O amor cansa, porque é a sério e busca,

A ciência nunca encontra,

E a vida passa e dói porque o conhece…

O jogo do xadrez

Prende a alma toda, mas, perdido, pouco

Pesa, pois não é nada.

 

Ah! sob as sombras que sem qu’rer nos amam,

Com um púcaro de vinho

Ao lado, e atentos só à inútil faina

Do jogo do xadrez,

Mesmo que o jogo seja apenas sonho

E não haja parceiro,

Imitemos os persas desta história,

E, enquanto lá por fora,

Ou perto ou longe, a guerra e a pátria e a vida

Chamam por nós, deixemos

Que em vão nos chamem, cada um de nós

Sob as sombras amigas

Sonhando, ele os parceiros, e o xadrez

A sua indiferença.

 

1-6-1916

 

Transcrevi a versão proposta por Manuela Parreira da Silva em Ricardo Reis, Poesia, Assírio & Alvim, Lisboa, 2000.

 

As fotos que acompanham o artigo pertencem à selecção 2013 de WorldPress Photo, e podem ser encontradas com informação sobre os seus autores seguindo este link AQUI.

 

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Heterónimos de Fernando Pessoa – a carta a Adolfo Casais Monteiro

31 Sexta-feira Maio 2013

Posted by viciodapoesia in Prosa

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Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Bernardo Soares, Fernando Pessoa, Heterónimos de Fernando Pessoa, Ricardo Reis

Era uma vezOs leitores do blog conhecem, certamente, os heterónimos de Fernando Pessoa. Talvez não conheçam, no entanto, como o poeta os pensou e referiu a Adolfo Casais Monteiro numa carta famosa, datada de Lisboa em 13 de Janeiro de 1935, e publicada pela primeira vez em 1937 na Revista Presença, após a morte do poeta, portanto.

É neste pressuposto que transcrevo parcialmente para o blog, tão relevante documento.

…
Aí por 1912, salvo erro (que nunca pode ser grande), veio-me à ideia escrever uns poemas de índole pagã. Esbocei umas coisas em verso irregular (não ao estilo Álvaro de Campos, mas num estilo de meia regularidade), e abandonei o caso. Esboçara-se-me, contudo, numa penumbra mal urdida, um vago retrato da pessoa que estava a fazer aquilo. (Tinha nascido, sem que eu soubesse, o Ricardo Reis.)
Ano e meio, ou dois anos, depois lembrei-me um dia de fazer uma partida ao Sá-Carneiro – de inventar um poeta bucólico, de espécie complicada, e apresentar-lho, já me não lembro como, em qualquer espécie de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta, mas nada consegui. Num dia em que finalmente desistira — foi em 8 de Março de 1914 —, acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, “O Guardador de Rebanhos”. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive. E tanto assim que, escritos que foram esses trinta e tantos poemas, imediatamente peguei noutro papel e escrevi, a fio também, os seis poemas que constituem “Chuva Oblíqua”, de Fernando Pessoa. Imediatamente e totalmente… Foi o regresso de Fernando Pessoa Alberto Caeiro a Fernando Pessoa ele só. Ou melhor, foi a reacção de Fernando Pessoa contra a sua inexistência como Alberto Caeiro.
Aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de lhe descobrir — instintiva e subconscientemente — uns discípulos. Arranquei do seu falso paganismo o Ricardo Reis latente, descobri-lhe o nome, e ajudei-o a si mesmo, porque nessa altura já o via. E, de repente, e em derivação oposta à de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo indivíduo. Num jacto, e à maquina de escrever, sem interrupção nem emenda, surgiu a “Ode Triunfal” de Álvaro de Campos — a Ode com esse nome e o homem com o nome que tem.
Criei, então, uma coterie inexistente. Fixei aquilo tudo em moldes de realidade. Graduei as influências, conheci as amizades, ouvi dentro de mim, as discussões e as divergências de critérios, e em tudo isto me parece que fui eu, çriador de tudo, o menos que ali houve. Parece que tudo se passou independentemente de mim. E parece que assim ainda se passa. Se algum dia eu puder publicar a discussão estética entre Ricardo Reis e Álvaro de Campos, verá como eles são diferentes e como eu não sou nada na matéria.
…
Mais uns apontamentos nesta matéria… Eu vejo diante de mim, no espaço incolor mas real do sonho, as caras, os gestos de Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Construí-lhes as idades e as vidas. Ricardo Reis nasceu em 1887 (não me lembro do dia e mês, mas tenho-os algures), no Porto, é médico e está presentemente no Brasil. Alberto Caeiro nasceu em 1889 e morreu em 1915; nasceu em Lisboa, mas viveu quase toda a sua vida no campo. Não teve profissão nem educação quase alguma. Álvaro de Campos nasceu em Tavira, no dia 15 de Outubro de 1890 (à 1.30 da tarde, diz-me o Ferreira Gomes, e é verdade, pois, feito o horóscopo para essa hora, está certo). Este, como sabe, é engenheiro naval (por Glasgow), mas agora está aqui em Lisboa em inactividade. Caeiro era de estatura média, e, embora realmente frágil (morreu tuberculoso), não parecia tão frágil como era. Ricardo Reis é um pouco, mas muito pouco, mais baixo, mais forte, mais seco. Álvaro de Campos é alto (1m,75 de altura — mais 2 cm do que eu), magro e um pouco tendente a curvar-se. Cara rapada todos — o Caeiro louro sem cor, olhos azuis; Reis de um vago moreno mate; Campos entre branco e moreno, tipo vagamente de judeu português, cabelo porém liso e normalmente apartado ao lado, monóculo. Caeiro, como disse, não teve mais educação que quase nenhuma — só instrução primária; morreram-lhe cedo o pai e a mãe, e deixou-se ficar em casa, vivendo de uns pequenos rendimentos. Vivia com uma tia velha, tia-avó. Ricardo Reis, educado num colégio de jesuítas, é, como disse, médico; vive no Brasil desde 1919, pois se expatriou espontaneamente por ser monárquico. É um latinista por educação alheia, e um semi-helenista por educação própria. Álvaro de Campos teve uma educação vulgar de liceu; depois foi mandado para a Escócia estudar engenharia, primeiro mecânica e depois naval. Numas férias fez a viagem ao Oriente de onde resultou o “Opiário”. Ensinou-lhe latim um tio beirão que era padre.
Como escrevo em nome desses três?… Caeiro por pura e inesperada inspiração, sem saber ou sequer calcular que iria escrever. Ricardo Reis, depois de uma deliberação abstracta, que subitamente se concretiza numa ode. Campos, quando sinto um súbito impulso para escrever e não sei o quê. (O meu semi-heterónimo Bernardo Soares, que aliás em muitas coisas se parece com Álvaro de Campos, aparece sempre que estou cansado ou sonolento, de sorte que tenha um pouco suspensas as qualidades de raciocínio e de inibição; aquela prosa [Livro do Desassossego] é um constante devaneio. É um semi-heterónimo porque, não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas simples mutilação dela. Sou eu, menos o raciocínio e a afectividade. A prosa, salvo o que o raciocínio dá de tenue à minha, é igual a esta, e o português perfeitamente igual; ao passo que Caeiro escrevia mal o português, Campos razoavelmente mas com lapsos, como dizer “eu próprio” em vez de “eu mesmo”, etc., Reis melhor do que eu, mas com um purismo que considero exagerado. O difícil para mim, é escrever a prosa de Reis — ainda inédita — ou de Campos. A simulação é mais fácil, até porque é mais espontânea, em verso).
…

Transcrevi o texto da edição da Correspondência de Fernando Pessoa editada por Manuela Parreira da Silva e publicada por Assírio & Alvim, Lisboa 1999.

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