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DSC_0238Abro 2015 no blog com um pequeno ensaio em forma de poema, LIBERDADE, onde Fernando Pessoa desenvolve um peculiar entendimento de liberdade individual.

Atendo-se ao elogio da inércia como exercício de liberdade, lemos uma desgarrada sequência de argumentos no inegável encanto de uma forma poética superior.

 

LIBERDADE

 

Aí que prazer

Não cumprir um dever,

Ter um livro para ler

E não o fazer!

Ler é maçada,

Estudar é nada.

O sol doura

Sem literatura.

O rio corre, bem ou mal,

Sem edição original.

E a brisa, essa,

De tão naturalmente matinal,

Como tem tempo não tem pressa.

 

Livros são papéis pintados com tinta.

Estudar é uma coisa em que está indistinta

A distinção entre nada e coisa nenhuma.

 

Quanto é melhor, quando há bruma,

Esperar por D. Sebastião,

Quer venha ou não!

 

Grande é a poesia, a bondade e as danças…

Mas o melhor do mundo são as crianças,

Flores, música, o luar, e o sol, que peca

Só quando, em vez de criar, seca.

 

O mais do que isto

É Jesus Cristo,

Que não sabia nada de finanças

Nem consta que tivesse biblioteca…

16-03-1935

 

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