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O filósofo e o poeta

Tem sido frequente confrontar-me com a memória de mim nos outros e surgir um sentimento de estranheza, ou dizendo com Ricardo Reis, o heterónimo de Fernando Pessoa:

 

Se recordo quem fui, outrem me vejo,

E o passado é um presente na lembrança.

 

A vida vivida aos vinte anos é marca indelével no percurso de cada homem ou mulher. Sabemo-lo quando, passados os cinquenta anos, olhamos para o caminho percorrido e a evidência surge: não vamos voltar a percorrê-lo. O que ficou por fazer não mais se fará.

 

Quem fui é alguém que amo

Porém somente em sonho.

 

Ter tido vinte anos em 1974, permitiu-me e a toda uma geração, viver no furacão dos dias, as ideias e as experiências que em outras conjunturas demorariam anos a acontecer ou nem aconteceriam.

 

quem sou e quem fui

São sonhos diferentes

Ter tido vinte anos em Abril e ser estudante universitário em Portugal permitiu já saber o valor das escolhas: a escolha de divergir das ideias toleráveis e enfrentar a prisão por delito de opinião, a escolha de ir à guerra com o prémio da própria vida.

 

Ganhámos, toda uma geração, a consciência, impregnada na própria pele, de que nada vale o direito de estar vivo e livre para fazer as escolhas que a vontade de cada um ditar.

 

E a saudade que me aflige a mente

Não é de mim nem do passado visto,

Senão de quem habito

Por trás dos olhos cegos.

 

Não sei como se ensina a quem sempre viveu em liberdade e na vida caminhou com estes valores, tendo-os por tão naturais como beber água, que não são naturais. São como bonecas de porcelana, que à menor distracção ou descuido se partem e deixam de existir. Provavelmente apenas ser cerceado deles permite dar-lhes o valor, e cada geração tem que fazer a sua dolorosa aprendizagem.

 

Nada, senão o instante, me conhece.

 

Despeço-me com o poema que por entre a conversa citei.

 

 

Ricardo Reis — Poema 104

 

Se recordo quem fui, outrem me vejo,

E o passado é um presente na lembrança.

Quem fui é alguém que amo

Porém somente em sonho.

E a saudade que me aflige a mente

Não é de mim nem do passado visto,

Senão de quem habito

Por trás dos olhos cegos.

Nada, senão o instante, me conhece.

Minha mesma lembrança é nada, e sinto

Que quem sou e quem fui

São sonhos diferentes

 

26-05-1930

 

in Ricardo Reis, Poesias, edição Manuela Parreira da Silva, Assírio & Alvim, Lisboa, 2000.

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