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Sandor Bortnyik  - O novo Adão 1924

Não é só o facto de que o nosso traje se torna uma parte de nós. É também a complicação d’esse traje e a sua curiosa qualidade de não ter quasi nenhuma relação com os elementos da elegância natural do corpo nem com as dos seus movimentos.

Fragmentário e inapreensível, o Livro do Desasocego é obra em que por vezes mergulho. E de lá recolhi esta reflexão do heterónimo de Fernando Pessoa, Bernardo Soares, a pretexto do vestir.

As questões de aparência que há dias interroguei a propósito do retrato de Antonietta Gonzalez regressam hoje pela mão dos caprichos da moda.

Assunto tratado habitualmente como futilidade social, mereceria certamente uma atenção nas suas componentes psicológicas, na medida em que permite ou impede uma integração e reconhecimento de grupo.

No jogo entre a afirmação da individualidade e a necessidade de aceitação no grupo social com que nos identificamos se movem as escolhas do vestir de cada um de nós. E aí entra a moda do tempo em que vivemos.

Nos nossos dias é matéria de preocupação individual, negócio mundial, e idiossincrasia geográfica, a tal ponto que consoante os escalões etários se encontra um vestir em Berlim ou Nova Iorque que devolve uma imagem da cidade e é factor de integração entre quem a elas acorre vindo das diferentes partes do mundo.

Matéria vasta, e abordável de variados pontos de vista, aqui paro com a totalidade da reflexão pessoana na voz de Bernardo Soares, cujo fragmento citei a abrir.

 Trata-se do fragmento 119, transcrito da edição crítica de Livro do Desasocego preparada por Jerónimo Pizzaro, Tomo I, INCM, Lisboa 2010. Conservei a ortografia do texto.

                [1915?]

As coisas / modernas / são

(1) A evolução dos espelhos.

(2) Os guarda-fatos.

Passámos a ser creaturas vestidas, de corpo e alma.

E, como a alma corresponde sempre ao corpo, um traje espiritual estabeleceu-se. Passámos a ter a alma essencialmente vestida, assim como passámos — homens, corpos — à categoria de animaes vestidos.

Não é só o facto de que o nosso traje se torna uma parte de nós. É também a complicação d’esse traje e a sua curiosa qualidade de não ter quasi nenhuma relação com os elementos da elegância natural do corpo nem com as dos seus movimentos.

Se me pedissem que explicasse o que é este meu estado de alma, atravez de uma razão social, eu responderia mudamente apontando para um espelho, para um cabide e para uma caneta com tinta.


O moderno Adão que abre o artigo foi pintado pelo húngaro Sandor Bortnyik (1893-1976), e  de quem há tempos deixei no blog a pintura de um fabuloso motociclista.

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