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Marc chagall The poetEntre a actividade e o sossego — a lida e a calma chamou-lhe o poeta — enchemos a solidão com o que conseguimos: a banalidade da vida social, as compras inúteis, as viagens em busca de coisa nenhuma, o sossego de um hobbie; e o sabor é sempre o mesmo: Sol nulo dos dias vãos, / Cheios de lida e de calma,

Por vezes há um tentar enganar a solidão na ilusão de uma alma gémea, procurando Que ao menos a mão, roçando / A mão que por ela passe, / Com externo calor brando / O frio da alma disfarce!

Acontece que a cabeça nos acompanha sempre, não há volta a dar-lhe, e a vida, muitas vezes, acaba por saber ao desencanto dorido de que fala Fernando Pessoa na sua arqui-conhecida Canção que tenho vindo a citar, um dos poucos poemas que publicou em vida, e que hoje trago ao blog:

 

CANÇÃO

Sol nulo dos dias vãos,

Cheios de lida e de calma,

Aquece ao menos as mãos

A quem não entras na alma!

 

Que ao menos a mão, roçando

A mão que por ela passe,

Com externo calor brando

O frio da alma disfarce!

 

Senhor, já que a dor é nossa

E a fraqueza que ela tem,

Dá-nos ao menos a força

De a não mostrar a ninguém!

15-01-1920

 

A perfeição formal do poema, o acerto psicológico no desenvolvimento do assunto, aliados à originalidade expressiva em versos de profundo impacto na melodia da rima, fazem deste CANÇÃO um obra-prima absoluta, e com ela regresso ao convívio do blog depois destas semanas de ausência.

Regista a edição da Poesia 1918-1930 de Fernando Pessoa, neste 15 de Janeiro de 1920, além deste Canção, a composição de mais 2 poemas, dando os três conta do mesmo estado de espírito. Cito as duas primeiras estrofes do poema MADRUGADAS onde o peso do quotidiano — O novo dia trazer-me o mesmo dia do fim / Do mundo e da dor — encontra na forma de uma ode o peso da sua expressão.

 

MADRUGADAS

I

Em toda a noite o sono não veio. Agora

Raia do fundo

Do horizonte, encoberta e fria, a manhã.

Que faço eu no mundo?

Nada que a noite acalme ou levante a aurora,

Cousa séria ou vã.

 

Com os olhos da febre vã da vigília

Vejo com horror

O novo dia trazer-me o mesmo dia do fim

Do mundo e da dor —

Um dia igual aos outros, da eterna família

De serem assim.

Não me despeço sem acrescentar mais um registo desta desolada quietação com que a vida por vezes nos surge. Desta feita é um poema de 10-08-1929, agora em verso alexandrino:

 

AQUI NA ORLA DA PRAIA, mudo e contente do mar,

Sem nada já que me atraia, nem nada que desejar,

Farei um sonho, terei meu dia, fecharei a vida,

E nunca terei agonia, pois dormirei de seguida.

 

A vida é como uma sombra que passa por sobre um rio

Ou como um passo na alfombra de um quarto que jaz vazio;

O amor é um sono que chega para o pouco que se é;

A glória concede e nega; não tem verdades a fé.

 

Por isso na orla morena da praia calada e só,

Tenho a alma feita pequena, livre de mágoa e de dó;

Sonho sem quasi já ser, perco sem nunca ter tido,

E comecei a morrer muito antes de ter vivido.

 

Dêem-me, onde aqui jazo, só uma brisa que passe,

Não quero nada do acaso, senão a brisa na face;

Dêem-me um vago amor de quanto nunca terei

Não quero gozo nem dor, não quero vida nem lei.

 

Só, no silêncio cercado pelo som brusco do mar

Quero dormir sossegado, sem nada que desejar,

Quero dormir na distância de um ser que nunca foi seu,

Tocado do ar sem fragrância da brisa de qualquer céu.

10-08-1929

 

Acabemos este itinerário onde a solidão conduz a um persistente sentimento da inutilidade da vida com um soneto de 31-08-1929

 

Nas grandes horas em que a insónia avulta

Como um novo universo doloroso,

E a mente é clara como um ser que insulta

O uso confuso com que o dia é ocioso,

 

Cismo, embebido em sombras de repouso

Onde habitam fantasmas e a alma é oculta,

Em quanto errei e quanto ou dor ou gozo

Me foram nada, como frase estulta.

 

Cismo, cheio de nada, e a noite é tudo,

Meu coração, que fala estando mudo,

Repete seu monótono torpor

 

Na sombra, no delírio da clareza,

E não há Deus, nem ser, nem Natureza,

E a própria mágoa melhor fora dor.

 

Escolhi deliberadamente poemas onde a rima e o rigor de formas tradicionais como a quadra heptasilábica, o verso alexandrino e o soneto estão presentes, de modo a tornar evidente quanto estas não são impeditivas da expressão de profundas reflexões, e bem pelo contrário, o espartilho da forma obriga à concisão verbal e capta o leitor de forma intensa.

 A pintura de Marc Chagall que abre o artigo chama-se O Poeta.

Notícia bibliográfica

Os poemas foram transcritos de Fernando Pessoa, Poesia 1918-1930, edição de Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas e Madalena Dine, Assírio & Alvim, Lisboa, 2005

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