Soneto de Tomás de Iriarte

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Com este soneto, Tomás de Iriarte (1750-1791) leva-nos, com o não dito pela fala da narradora, dos preliminares à consumação do acto sexual, evidenciando uma mestria absoluta na técnica de contrução do poema, fazendo-nos percorrer, ao acompanhar a narração, o conjunto das emoções, receios, preconceitos e entrega ao prazer, vividos pela protagonista. Apenas uma palavra aqui, uma exclamação acolá, uma reticência, e o ambiente está criado. De Mestre!

Señor don Juan, quedito, que me enfado:

besar la mano es mucho atrevimiento;

abrazarme… don Juan, no lo consiento.

Cosquillas… ay Juanito… ¿y el pecado?

 

Qué malos son los ombres… mas, cuidado,

que me parece, Juan, que pasos siento…

no es nadie…, despachemos un momento.

¡Ay, qué placer… tan dulce y regalado!

 

Jesús, qué loca soy, quién lo creyera

que con un hombre yo… siendo cristiana

mas… que… de puro gusto… ¡ay… alma mia!

 

Ay, qué vergüenza, vete… ¿aún tienes gana?

Pues quando tú lo pruebes otra vez…

pero, Juanito, ¿volverás mañana?

 

E agora a tradução portuguesa de José Paulo Paes:

Senhor D. João, quietinho, que me enfado:

beijar a mão é muito atrevimento;

abraçar-me… isso não, que me apoquento.

Cosquinhas… ai Joãozinho… e o pecado?

 

Como são maus os homens… mas cuidado

que me parece ouvir passos lá dentro…

não é ninguém… apressa o teu momento.

Ai que prazer… tão doce e regalado!

 

Jesus, sou uma louca, quem diria

que com um homem eu… sendo cristã

mas… que… de puro gozo… ai! vida minha!

 

Quanta vergonha… Vai-te… Queres mais?

O que tivestes não te satisfaz?

Oh meu Joãozinho, voltas amanhã?

Noticia bibliográfica

A tradução e o poema original encontram-se publicados em Poesia Erótica em tradução, com selecção, tradução, introdução e notas de José Paulo Paes, numa edição Companhia Das Letras, 1990.

Comemorar Abril

Cantam amanhãs na radio, fingindo que são noticia.

Promessas de enganar tolos cobrem o ar pelo meio

vendendo com despudor

ideias de harmonia

extraídas uma vez mais

do bafiento baú

onde guardamos os sonhos que nos deram a tragédia

vivida com convicção.

 

Fecham-se as portas de Abril na mesquinhez da incúria

e na sobre-facturação dos guardiões encartados

enquanto a gente procura

as promessas consentidas

no seu caixote do lixo.

 

Sobre a mesa corre a vista

à procura do lugar sentado para o banquete

dos faustos da liberdade.

viciodapoesia

 


No Dia Mundial do Livro

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Sucedem-se os dias mundiais a propósito das mais variadas matérias. Acabam por chamar a atenção para assuntos ou realidades de que andava distraído. Não assim com o Dia Mundial do Livro. É para mim uma espécie de aniversário colectivo em que muitos amigos se festejam.

No esforço de segurar a vida tentando acreditar que vale a pena vive-la, é aos livros que recorro, qual Cartas a Lucílio, de Séneca, qual Consolação da Filosofia, de Boécio. Outros há, e na poesia são tantos, em que a alegria de estar vivo se reencontra!

Leio de forma regular desde os oito anos. À época, e estou a falar do principio dos anos sessenta do século XX, a fonte das minhas leituras era a biblioteca itinerante da Fundação Gulbenkian, materializada numa carrinha cheia de livros que às quartas-feiras estacionava no Largo da Praça e onde, ao fim da tarde, eu trocava os livros emprestados e lidos, pelos novos que seriam a alegria da semana seguinte. Encarregava-me o meu pai, nesta troca, do transporte dos livros que para ele também levara. Do que ele lia, não recordo. Apenas o nome de Balzac me vem à memória, pelo peso e tamanho dos livros. Para mim, sim, lembro os livros de contos de príncipes e princesas encantadas, encadernados a tecido com uma estampa pequena, colorida, na capa.

Foi adulto que, com enorme jubilo, encontrei no livro do século XV, Très Riches Heures du Duc de Berry (c. 1416), da autoria dos irmãos Limbourg, as imagens que inspiravam os desenhos desses livros de contos e me alimentaram a imaginação infantil com castelos e personagens fabulosos.

Hoje, à visão de qualquer livro de horas exposto em museu ou galeria, páro embevecido a olhá-los longamente. Foi com desgosto que há dias, em visita a um alfarrabista, não comprei uma belíssima copia fac.-similada em pergaminho, de uma destas obras-primas. A crise não está para aventuras.

Mas voltando à infância, poucos anos passados, com o aumento do nº de leitores, a biblioteca deixou a carrinha itinerante e instalou-se num antigo edifício no interior da cerca moura, adjacente à igreja da Misericórdia. Chegava-se lá por uma rua estreita em escadaria, da época medieval, a que também conduz ao castelo. Quando subia aquelas escadas, a minha imaginação infantil coloria-se, e via cavaleiros a descer por ali abaixo, envoltos em trajes esvoaçantes, arma em riste, a caminho de qualquer batalha ou aventura cavaleiresca de libertar formosa dama de um tirano pai que a mantinha a pão e água no alto de qualquer castelo.

Nunca mais parei de ler. Quando por volta dos catorze anos deixei de encontrar na biblioteca os livros que supunha interessarem-me, passei a comprá-los logo que conseguia juntar o dinheiro suficiente. Assim continuei, e acabei por quase submergir em livros.

Os livros sobrevivem-nos sempre, e agora, chegada a altura das escolhas, decidi passar a outros parte dos livros que por anos me acompanharam. Não ofereço, vendo-os. Quem decide gastar o seu dinheiro num livro, provavelmente deseja-o, e estimá-lo-á. Espero reduzir a biblioteca pessoal a poucos milhares de livros e continuar a ter espaço para os novos livros que chegam.

Hoje, ao toque do carteiro, pensei, mais cartas das Finanças! Afinal não. Para minha grande alegria, era o livro com a edição inglesa dos poemas de Anna Akhmatova, há muito esperado, e que a certa altura julguei perdido, que chegava. Terei ocasião de falar dele, da poetisa e dos seus poemas, mais tarde no blog.

Acredito com Umberto Eco que os livros como os conhecemos não serão substituídos por eBooks no tempo da minha vida. Os suportes variarão, todos teremos as nossa preferências no acto de leitura, mas a criação pela palavra e a sua transmissão entre os homens não vai terminar.
Reflexo da mutação dos tempos que atravessamos, decidi-me finalmente pela edição de parte do que tenho escrito, e assinalo este Dia Mundial do Livro de 2012 com o envio para publicação em eBook  do livro  da fermosa benfeitoria (rimas obscenas). A distribuição do livro estará a cargo de uma empresa dos EUA, e como as rimas são acompanhadas da reprodução de pinturas eróticas japonesas da minha colecção, aguardo a confirmação de aceitação, tendo em conta a censura visual exercida sobre a comunicação electrónica pública no pais da liberdade.

O livro, com uma abertura que remete para a pintura e um epílogo em diálogo com a religião, contém no corpo rimas que evocam alguma da poesia erótica da tradição europeia publicada ao longo dos séculos.

Quando o livro se encontrar disponível para compra, darei noticia no blog.

Releio o que escrevi acima e duas evidências ressaltam: por um lado ao falar de livros é a palavra alegria que sobressai; por outro, seria diferente o texto, e seria eu outra pessoa, se a vida não tivesse cruzado no meu caminho a Fundação Calouste Gulbenkian enquanto cidadão.
Através dela encontrei os livros, são edições da Fundação os livros que me salvaram e devolvem o sentido do viver, foi na colecção de arte da Fundação, exposta no seu museu, que abri os olhos para o belo artístico, aí incluídos tanto os livros de horas, como os livros persas por cujas iluminuras me apaixonei; foi finalmente na Fundação que as experiências musicais marcantes me aconteceram, quais os encontros com a música da vanguarda do século XX e a música antiga, e que outro dia virá à conversa, agora que Montserrat Figueras partiu para encantar os anjos no céu.

São do livro Très Riches Heures du Duc de Berry as imagens que acompanham o artigo.

A Primavera segundo Rilke

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Para esta Primavera que tarda, resolvi-me à transcrição de um belo poema de Rainer Maria Rilke (1875-1926), escrito em francês e traduzido por Maria Gabriela Llansol.

PRIMAVERA

I

Ó seiva das ramagens

de todas as árvores, ergue-se

a tua melodia,

acompanhando o canto

da nossa voz demasiado breve.

 

A diversidade das figuras

do teu antiquissimo abandono é tal

que só, durante umas breves medidas,

ó fecunda natureza,

te conseguimos acompanhar.

 

Quando a nossa voz se calar,

outras virão…

Mas, neste momento, que hei-de eu fazer,

para te fazer chegar o meu imenso

coração que te completa?

 

II

Tudo se prepara para mostrar

a alegria que esplende;

a terra, e tudo o mais, a postos

para nos deslumbrar. Brevemente.

 

Estamos no melhor lugar

para tudo olhar e entender;

teremos mesmo que dizer “basta” –

e fazer recuar o encantamento.

 

Se, ao menos, estivéssemos no seu âmago envolvente!

O excelente lugar, que é o nosso,

está ligeiramente demasiado exposto

a esse jogo tão comovente.é um facto.

 

III

A seiva sobe nos capilares

e, sem prevenir, mostra aos velhos

o ano íngreme que não hão-de escalar

e que, dentro deles, iça as velas para a partida.

 

O corpo (magoado por este rompante

da natureza bruta, que desconhece

que essas artérias, onde ela ainda ferve,

suportam mal um capitão impaciente)

 

nega-se a tão inesperada aventura;

e enquanto para sobreviver se contrai,

desconfiado, o corpo facilita à terra dura

o seu biscate de morte.

 

IV

É a seiva que dá cabo

dos velhos e dos hesitantes

quando de súbito, flutua nas ruas

um nada malsão que corrói a atmosfera.

 

Todos esses que já não têm força

para erguer no céu as asas

são convidados ao divórcio

que os confunde com o pó da terra.

 

É a doçura que os abre

com a sua suprema ponta afiada,

e, aos que ainda resistem, um afago sobrevém

para os deitar ao nada.

 

V

Para que serviria a doçura

se não fosse capaz,

terna e inefável,

de nos causar pânico?

 

Está tão para além

de qualquer violencia

que, quando se solta,

ninguém lhe apara o golpe.

 

VI

No inverno, a morte homicida

entra pelas casas adentro,

à procura da irmã, à procura do pai,

para os enfeitar de violino.

 

Mas quando a terra se agita

sob a enxada da Primavera,

é plas ruas que ela anda,

a dizer “olá” a quem passa.

 

VII

É da costela de Adão

que Eva foi tirada;

mas, quando a sua vida se acaba,

para onde vai ela, moribunda?

 

Adão será a sua tumba?

Será preciso, quando está cansada,

arranjar um lugar, só para ela,

num homem impermeável?

Profunda reflexão sobre a brevidade da vida em contraste com a imperturbável perenidade da natureza,

I

C’est pendant quelques mesures

seulement que nous suivons

les multiples figures

de ton long abandon,

ô abondante nature,

 

Quand il faudra nous taire,

d’autres continueront…

Mais à présent comment faire

pour te rendre mon

grand coeur complémentaire?

é também da morte que nos fala, sobretudo nas três quadras de III, e ainda nesta belíssima forma de referir a visita da morte: leur joue du violon.

VI

En hiver, la morte meurtrière

entre dans les maisions;

elle cherche la soeu, le père,

et leur joue du violon.

Temos ainda em IV e V uma ambivalência na doçura que salva para a vida, ou conduz à morte:

sont invités au divorce  / qui à la terre les mêle.

Termina o poema com a enigmática interrogação do destino do homem e da mulher:

C‘est de la côte d’Adam

qu’on a retiré Ève;

mais quand sa vie s’achève,

oú va-t-elle, mourant?

 

Adam serait-il son tombeau?

Faut-il, lorsqu’elle se lasse,

lui ménager une place

dans un homme bien clos?

Passando com a maior leveza do trivial ao transcendente, a leitura da poesia de Rilke introduz-nos no mistério da palavra, estimulando no leitor a busca da multiplicidade de sentidos envolvidos no dizer poético.

Nota

O poema encontra-se no livro FRUTOS E APONTAMENTOS, tradução livre por Maria Gabriela Llansol, dos poemas de Rainer Maria Rilke escritos em francês.

É uma edição Relógio d’Água, 1996.

Optei por acompanhar os curtos comentários ao poema com o original francês para que, pelo menos os leitores que dominam a língua, tenham a percepção das, por vezes controversas, opções da tradutora.

Girassóis, Van Gogh, o mistério genético e um soneto de Camões

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Está aparentemente esclarecido o mistério genético dos girassóis mutantes pintados por Van Gogh, fazendo fé numa noticia de hoje.

Esclarecido o fenómeno cientifico, permanece o mistério da arte no esplendor da sua imorredoira atracção.

Motivo de paixão, algumas das pinturas de girassóis de Van Gogh foram e continuam ser a porta de entrada para a fruição plástica desde a mais tenra idade.

Nas minhas primeiras tentativas de pintar a óleo, foi uma jarra com três girassóis que tentei passar à tela, procurando concretizar o fascínio que as reproduções conhecidas das pinturas de Van Gogh lançavam.

Anos vai, no auge do poderio financeiro do Japão, foi noticia de espanto pelo mundo, o valor astronómico por que uma das pinturas de girassóis de Van Gogh foi comprada em leilão, e a seguir encerrada num cofre para ser protegida de roubos. Triste destino para a beleza! Parece-me, até, que esta venda foi o pontapé de saída para outras vendas por valores absurdos no mercado da arte, tendo levado pessoas a pensar que investir em arte apenas valia ou vale a pena olhando ao nome do artista.

Mas voltando aos girassóis, a atenção de poetas tem-se demorado nesta inflorescência, dando conta da complexidade de emoções que tais flores provocam. Pretexto para subtilezas em casos de amor, a ele não escapou no longínquo século XVI o génio de Camões, o que me permite acrescentar a esta nota um seu soneto.

No soneto, o poeta comparando-se ao girassol, cujo comportamento descreve na primeira parte, chama a amada de Meu Sol e diz-lhe como vê-la o faz viver :

Mostrando-lhe esse rosto que dá vida,, e em não vos vendo, entristecida / Se murcha, e se consome em grão tormento /

Uma admirável erva se conhece

Que vai ao Sol seguindo de hora em hora

Logo que ele do Eufrates se vê fora,

E quando está mais alto, então floresce

 

Mas quando ao oceano o carro desce

Toda a sua beleza perde Flora

Porque ela se emurchece, e se descora

Tanto co’a luz ausente se entristece.

 

Meu Sol, quando alegrais esta alma vossa,

Mostrando-lhe esse rosto que dá vida,

Cria flores em seu contentamento

 

Mas logo, em não vos vendo, entristecida

Se murcha, e se consome em grão tormento

Nem há quem vossa ausência sofrer possa.

Transcrevi a versão do soneto XXVIII da Centúria II (incluindo as virgulas) publicada por Manuel de Faria Y Sousa na sua edição das Rimas Varias de Camões (1685), com modernização da ortografia.

Os nenufares de Claude Monet e uma homenagem fotográfica

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Pintados nos anos 1916-1919, a serie sobre nenúfares de Claude Monet (1840 – 1926) constitui o apogeu na forma de captar o intangivel da luz na água, dando conta das texturas e da mutabilidade da paisagem no imóvel da tela.

Um dos fascínios do meu fotografar é tentar captar a forma como a luz varia a nossa percepção da realidade circundante.

Neste fascínio compreendo os impressionistas e sobretudo Claude Monet, cuja incansável demanda foi guardar na tela a imperceptível mutação da paisagem provocada pela luz. Lembrado das suas pinturas de nenúfares, certo entardecer dei comigo a fotografar um lago cheio de nenúfares, e de tal forma fascinado, que bem entrada a noite ainda fotografava sem flash, tentando conservar a variedade do colorido que o sol ao desaparecer, foi deixando em redor.

Fotografias entretanto esquecidas, reencontrei-as hoje ao vasculhar o arquivo fotográfico e eis algumas.

 

 

 

 

 

 

 

George Grosz – The lady and the dog e poema de Franz Werfel

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São conhecidas as pinturas de George Grosz (1893-1959) ferozmente criticas de sociedade alemã ao tempo da República de Weimer.

Tomando como pretexto a presença de cães de estimação, eis algumas dessas pinturas. É uma classe média nos seus ócios que nos surge, quase sempre caricata no ufano ostensivo da sua condição.

 

 

 

 

 

Termino com o soneto de Franz Werfel (1890-1945), O homem belo e radiante.

Poeta do expressionismo alemão, casado com Alma Mahler, e tal como George Grosz exilado nos EUA depois da chegada de Hitler ao poder.

 

O homem belo e radiante

Os amigos com quem vou conversando,

Outrora tristes, irradiam prazer,

Nos meus belos passeios, dá gosto ver

Como me dão o braço, ar venerando.

 

Ah, dignidade não é para o meu semblante,

Não lhe basta ser sério e equilibrado,

Pois mil sorrisos, em voo renovado,

Surgem da sua imagem cintilante.

 

Eu sou um corso em praças soalheiras,

Festa de verão com mulheres e bazar,

Meu olhar baixa, ante o brilho profundo.

 

Quero sentar-me em relvados e eiras

E com a terra na noite penetrar,

Oh, Terra, noite, sorte, Oh, estar no mundo!

Tradução de João Barrento

A vida e duas poetisas: Cristina Campo e Wislawa Szymborska

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Em dois curtos poemas, Cristina Campo (1923-1977)  e  Wislawa Szymborska (1923-2012), nascidas no mesmo ano, cada uma à sua maneira conduz-nos pelo  que de essencial a vida tem e nos faz.

 Em tempos de existência diferentes, enquanto Wislawa Szymborska  refere: Tu és bela – digo à vida –  / mais esplêndida não podias, com Cristina Campo percorremos o depois: Ficou para trás, quente, a vida, / …

Na ironia mansa que perpassa em tanta da sua poesia Wislawa Szymborska guia-nos pelos nadas eternos da existência:

Só para não te ofender, / te irritar, descontrolar. / Eu saltito sorridente  / há uns bons cem mil anos.

Allegro ma non troppo de Wislawa Szymborska

Tu és bela – digo à vida –

mais esplêndida não podias,

de rouxinóis e de rãs,

de formigas e sementes.

 

E tento ser-lhe agradável,

bajulá-la, olhá-la nos olhos.

Sou sempre a primeira a saudá-la,

de humilde expressão na fronte.

 

Vou-lhe saltando ao caminho,

da esquerda, da direita,

e fascinada me elevo,

e de enlevo me estatelo.

 

Que marinho este cavalo!

que silvestre é esta amora! –

nunca em tal houvera crido

se não tivesse nascido.

 

– Não encontro – digo à vida –

nada a que possa igualar-te.

Ninguém fará outra pinha,

nem melhor nem menos bem.

 

Louvo-te a generosidade, a criatividade,

a decisão e o rigor –

e mais ainda – e mais além –

a magia – a negra e a branca.

 

Só para não te ofender,

te irritar, descontrolar.

Eu saltito sorridente

há uns bons cem mil anos.

 

Arranho a vida pela bainha de uma folhita:

Terá parado? Ouviria?

Só uma vez, por um momento,

esqueceu-se de para onde ia?

 

Tradução de Júlio Sousa Gomes

Na desolada inquietação que acompanha a poesia de Cristina Campo  lemos os restos, o que ficou:

Ficou a caricia que não encontro

Vamos ao poema

Ficou para trás, quente, a vida,

a marca colorida dos meus olhos, o tempo

em que ardiam no fundo de cada vento

mãos vivas cercando-me…

 

Ficou a caricia que não encontro

senão entre dois sonos, a infinita

minha sabedoria em pedaços. E tu, palavra

que transfiguravas o sangue em lágrimas.

 

Nem sequer um rosto trago

comigo, já trespassado em outro rosto

como esperança no vinho e consumado

em acesos silencios…

 

                                    Volto sozinha

entre dois sonos lá’trás, vejo a oliveira

rósea nas talhas cheias de água e lua

do longo inverno. Torno a ti que gelas

 

na minha leve túnica de fogo.

 

Tradução de José Tolentino Mendonça

 

 

As imagens reproduzem pinturas de Paul Klee

 

Uma ode à poesia de Pablo Neruda

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Parece que hoje é o dia da Poesia para aqueles que não a lêem. Assinalemos tão auspiciosa data com um dos poemas da minha vida: Ode à Poesia de Pablo Neruda (1904-1973).

Para quem se interroga sobre questões utilitárias como por exemplo: Poesia? Para que serve? Pablo Neruda acompanha-o nesta ode:

Yo te pedí que fueras
utilitaria y útil,
como metal o harina,
dispuesta a ser arado,
herramienta,
pan y vino,
dispuesta, Poesía,
a luchar cuerpo a cuerpo
y a caer desangrándote.

E mais à frente responde. E em resultado permanece no coração dos homens que o leram.

Acompanham a poesia de Neruda algumas pinturas de Kazimir Malevich (1878-1935) representando trabalhadores manuais.

Não fora a sua extensão, acrescentaria o poema O Homem Invisível com que abre o livro Odes Elementares onde esta Ode à Poesia se contém. Fica o alvitre para um leitor curioso o procurar e este excerto:

eu não tenho importância

nem tempo

para os meus assuntos,

de noite e de dia

tenho que apontar tudo o que se passa,

e não esquecer ninguém.

É certo que de repente

me canso,

fico a olhar as estrelas,

estendo-me na relva, passa

um insecto cor de violino,

pouso o braço

sobre um pequeno seio

ou enlaço a cintura

da minha amada,

e vejo o veludo

cruel

da noite que estremece

com as suas constelações geladas,

então

sinto subir à minha alma

a onda dos mistérios,

a infância,

o pranto nos recantos,

a adolescência triste

e o sono invade-me,

durmo

(Tradução de Luis Pignatelli)

ODE À POESIA

Quase cinquenta anos

a caminhar

contigo, Poesia.

Ao princípio

enleavas-me os pés

e eu caía de borco

na terra escura

ou enterrava os olhos

no charco

para ver as estrelas.

Mais tarde estreitaste-me

com os dois braços da amante

e subiste

pelo meu sangue

como uma trepadeira.

No minuto seguinte

convertias-te em taça.

 

Belo

foi

ires escorrendo sem te consumires,

ires entregando a tua água inesgotável,

ires vendo que uma gota

caía sobre um coração queimado

e dessas mesmas cinzas revivia.

Porém

nem isso me bastou.

Tanto andei contigo

que te perdi o respeito.

Deixei de ver-te como

náiade vaporosa,

pus-te a fazer de lavadeira,

a vender pão nas padarias,

a fiar com as simples tecedeiras,

a bater o ferro na metalurgia.

E vieste comigo

andando pelo mundo,

mas já não eras

a florida

estátua da minha infância.

Falavas

agora

com voz férrea.

As tuas mãos

foram duras como pedras.

O teu coração

foi um abundante

manancial de sinos,

fizeste para mim pão com fartura,

ajudaste-me

a não cair de borco,

procuraste-me

companhia,

não uma mulher,

não um homem,

mas milhares, milhões.

Juntos, Poesia,

fomos

ao combate, à greve,

ao desfile, aos portos,

à mina,

e eu ri-me quando saíste

com a testa suja de carvão

ou coroada com serrim fragrante

das serrações.

Já não dormíamos na estrada.

Esperavam-nos grupos

de operários com camisas

recém-lavadas e bandeiras vermelhas.

 

E tu, Poesia,

até aí tão desgraçadamente tímida,

marchaste

à cabeça

e todos

se habituaram ao teu traje

de estrela quotidiana,

pois mesmo que algum relâmpago denunciasse a tua família

tu cumpriste a tarefa,

andando passo a passo com os homens.

Eu pedi-te que fosses

utilitária e útil,

como metal ou farinha,

pronta a ser arado,

ferramenta

pão e vinho,

pronta, Poesia,

a lutar corpo a corpo

e a cair esvaída em sangue.

 

E agora,

Poesia,

obrigado, esposa,

irmã ou mãe

ou noiva,

obrigado, onda do mar,

flor branca e bandeira,

motor de música,

grande pétala de oiro,

sino submarino,

celeiro inesgotável,

obrigado

 terra de cada um

 dos meus dias,

 vapor celeste e sangue

 dos meus anos,

 porque me acompanhaste

 da mais enrarecida altura

 à simples mesa

 dos pobres,

 porque puseste na minha alma

 sabor ferruginoso

 e fogo frio,

 porque me ergueste

 à altura insigne

 dos homens vulgares,

 Poesia,

 porque a teu lado

 enquanto me gastava

 tu foste sempre

 aumentando essa frescura firme,

 esse ímpeto cristalino,

 como se o tempo

 que a pouco e pouco me converte em terra

 fosse deixar correr eternamente

as águas do meu canto.

Tradução de Fernando Assis Pacheco

 

ODE À POESIA (original)

Cerca de cincuenta años             
caminando
contigo, Poesía.
Al principio
me enredabas los pies
y caía de bruces
sobre la tierra oscura
o enterraba los ojos
en la charca
para ver las estrellas.
Más tarde te ceñiste
a mí con los dos brazos de la amante
y subiste
en mi sangre
como una enredadera.
Luego
te convertiste
en copa.

Hermoso
fue
ir derramándote sin consumirte,
ir entregando tu agua inagotable,
ir viendo que una gota
caída sobre un corazón quemado
y desde sus cenizas revivía.
Pero no me bastó tampoco.
Tanto anduve contigo
que te perdí el respeto.
Dejé de verte como
náyade vaporosa
te puse a trabajar de lavandera,
a vender pan en las panaderías,
a hilar con las sencillas tejedoras,
a golpear hierros en la metalurgia.
Y seguiste conmigo
andando por el mundo,
pero tú ya no eras
la florida
estatua de mi infancia.
Hablabas
ahora
con voz férrea.
Tus manos
fueron duras como piedras.
Tu corazón
fue un abundante
manantial de campanas,
elaboraste pan a manos llenas,
me ayudaste a no caer de bruces,
me buscaste
compañía,
no una mujer,
no un hombre,
sino miles, millones.
Juntos, Poesía,
fuimos
al combate, a la huelga,
al desfile, a los puertos,
a la mina,
y me reí cuando saliste
con la frente manchada de carbón
o coronada de aserrrín fragante
de los aserraderos.
Y no dormíamos en los caminos.
Nos esperaban grupos
de obreros con camisas
recién lavadas y banderas rojas.

Y tú, Poesía,
antes tan desdichadamente tímida,
a la cabeza
fuiste
y todos
se acostumbraron a tu vestidura
de estrella cotidiana,
porque aunque algún relámpago delató tu familia
cumpliste tu tarea,
tu paso entre los pasos de los hombres.
Yo te pedí que fueras
utilitaria y útil,
como metal o harina,
dispuesta a ser arado,
herramienta,
pan y vino,
dispuesta, Poesía,
a luchar cuerpo a cuerpo
y a caer desangrándote.

Y ahora,
Poesía,
gracias, esposa,
hermana o madre
o novia,
gracias, ola marina,
azahar y bandera,
motor de música,
largo pétalo de oro,
campana submarina,
granero
inextinguible,
gracias,
tierra de cada uno
de mis días,
vapor celeste y sangre
de mis años,
porque me acompañaste
desde la más enrarecida altura
hasta la simple mesa
de los pobres,
porque pusiste en mi alma
sabor ferruginoso
y fuego frío,
porque me levantaste
hasta la altura insigne
de los hombres comunes,
Poesía,
porque contigo
mientras me fui gastando
tú continuaste
desarrollando tu frescura firme,
tu ímpetu cristalino,
como si el tiempo
que poco a poco me convierte en tierra
fuera a dejar corriendo eternamente
las aguas de mi canto.

Noticia bibliográfica:

Esta Ode à Poesia foi, que eu saiba, traduzida duas vezes para português, ambas as traduções feitas por poetas, e publicadas na mesma editora,  Publicações D.Quixote.

Uma, a tradução de Fernando Assis Pacheco encontra-se na Antologia Breve publicada na saudosa colecção cadernos de poesia. A outra consta da tradução feita por Luis Pignatelli (1935-1993) de Odes Elementales, publicada em 1977 com o titulo Odes Elementares.

 

A bela teta segundo Clément Marot e Le blason de Georges Brassens

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Nada como a experiencia para nos revelar quanto estamos errados com as nossas ideias feitas.

Tinha para mim que acariciar seios cuja beleza acrescida decorria de cirurgia plástica, arrefeceria o prazer desde que o facto fosse conhecido. A experiência mostrou-me que perante uma intervenção bem feita o prazer explode intacto ao tacto destas maravilhas.

Nasce dentro das mãos este desejo / De toda te palpar e possuir:

O elogio poético explicito dos seios não é muito frequente. Recuo ao século XVI, a um francês pouco mais velho que Camões, para encontrar uma explicita elegia às tetas, agora chamadas seios.

A bela teta

Teta perfeita, branca como um ovo,

Teta de cetim feita, cetim novo,

Teta da qual a rosa tem vergonha,

Teta melhor que tudo o que se sonha,

Teta dura, nem teta, mas enfim

Comparável a bola de marfim,

E no centro da qual somente esteja

Um rubi de morango ou de cereja

Que ninguém vê nem toca por enquanto,

Mas que aposto ser tal como eu o canto:

Teta de bico pois tão encarnado

Que parece por agora sossegado,

Quer ela vá correndo ou vá andando,

Quer ela vá partindo ou vá saltando:

Teta do lado esquerdo, tão matreira,

Sempre longe da sua companheira,

Teta que és testemunha e viva imagem

De compostura tal da personagem

Que só de ver-te assim como te vejo

Nasce dentro das mãos este desejo

De toda te palpar e possuir:

Mas é preciso eu próprio me impedir

De mais me aproximar, pois não duvido

Depois desse desejo outro surgido…

Ó teta nem modesta nem vistosa,

Teta madura, teta apetitosa,

Teta que noite e dia ouço gritar:

“Depressa me casai, quero casar!”

Com justiça, feliz se vai dizer

Aquele que de leite te há-de encher,

Fazendo de uma teta de donzela

Teta de dona inteiramente bela.

Não será difícil imaginar que a bela de quem o poema fala poderia semelhar-se a alguma das belas do século XV cujos retratos há dias aqui deixei, qual seja por exemplo a bela Simonetta Vespucci pintada por Pietro di Cosimo cerca de 1520, ou a Fornarina, causa inventada da morte precoce de Rafael e que pela mesma época este pintou:

A tradução do poema é de David Mourão-Ferreira e foi publicada em Vozes da Poesia Europeia – II (Colóquio  Letras nº 164). Os conhecedores da língua francesa encontram no final do post o poema em francês moderno com os dois versos (29 e 30) que David Mourão-Ferreira não traduziu:

 [29]Tétin qui t’enfles, et repousses  / [30] Ton gorgias de deux bons pouces

O poema chama-se em francês Le blason du beau tétin. O “blason”, género poético sem equivalente preciso em português, que eu saiba, é um curto poema celebrando uma parte do corpo feminino, constituindo-se essa parte como brasão ou emblema (blason) digno de ser cantado. Conhecido na poesia francesa em meados do século XV, ressurgiu e fez moda pela pena do nosso poeta de hoje Clément Marot (1497 – 1544). Este “blason” da bela teta foi estendido por outros poetas em imitação e emulação de Marot, nos anos que se seguiram ao seu aparecimento (1535), ao elogio de outras partes do corpo feminino das belas amadas dos poetas que as cantaram.

Depois de largo silêncio, vamos encontrá-lo de novo no século XX em poemas de Paul Eluard e André Breton, nomeadamente. Mas é um poema de Georges Brassens (1921-1981) , Le blason, que me atrai. Sendo uma elegia  à “merveillette fente” como lhe chamou Pierre de Ronsard (1524-1585), de caminho vitupera a língua francesa pela homonimía de possuir para tal amiga do homem o mesmo termo que para idiota [con]. Infelizmente não conheço tradução portuguesa desta poema de Brassens, cantado pelo poeta no disco Mourir pour des idées (1962). Deixo-vos, pois, o poema e a interpretação do grande Brassens a cuja poesia e música espero regressar.

LE BLASON

Ayant avec lui toujours fait bon ménage,
J’eusse aimé célébrer, sans être inconvenant,
Tendre corps féminin, ton plus bel apanage,
Que tous ceux qui l’ont vu disent hallucinant.

Ç’eût été mon ultime chant, mon chant du cygne
Mon dernier billet doux, mon message d’adieu.
Or, malheureusement, les mots qui le désignent
Le disputent à l’exécrable, à l’odieux.

C’est la grande pitié de la langue française,
C’est son talon d’Achille et c’est son déshonneur,
De n’offrir que des mots entachés de bassesse
À cet incomparable instrument de bonheur.

Alors que tant de fleurs ont des noms poétiques,
Tendre corps féminin, c’est fort malencontreux
Que ta fleur la plus douce et la plus érotique
Et la plus enivrante en ait un si scabreux.

Mais le pire de tous est un petit vocable
De trois lettres, pas plus, familier, coutumier,
Il est inexplicable, il est irrévocable,
Honte à celui-là qui l’employa le premier.

Honte à celui-là qui, par dépit, par gageure,
Dota du même terme, en son fiel venimeux,
Ce grand ami de l’homme et la cinglante injure,
Celui-là, c’est probable, en était un fameux.

Misogyne à coup sûr, asexué sans doute,
Au charme de Vénus absolument rétif,
Était ce bougre qui, toute honte bu’, toute,
Fit ce rapprochement, d’ailleurs intempestif.

La malepeste soit de cette homonymie!
C’est injuste, madame, et c’est désobligeant
Que ce morceau de roi de votre anatomie
Porte le même nom qu’une foule de gens.

Fasse le ciel qu’un jour, dans un trait de génie,
Un poète inspiré, que Pégase soutient,
Donne, effaçant d’un coup des siècles d’avanie,
À cette vrai’ merveille un joli nom chrétien.

En attendant, madame, il semblerait dommage,
Et vos adorateurs en seraient tous peinés,
D’aller perdre de vu’ que, pour lui rendre hommage,
Il est d’autres moyens et que je les connais,

Et que je les connais.

Terminemos com o original deste elogio dos seios

Le blason du beau tétin

Tétin refait, plus blanc qu’un œuf, (1)

Tétin de satin blanc tout neuf,

Toi qui fait honte à la rose

Tétin plus beau que nulle chose,

Tétin dur, non pas tétin voire (2)

Mais petite boule d’ivoire

Au milieu duquel est assise

Une fraise ou une cerise

Que nul ne voit, ne touche aussi,

Mais je gage qu’il en est ainsi.

Tétin donc au petit bout rouge,

Tétin qui jamais ne se bouge,

Soit pour venir, soit pour aller,

Soit pour courir, soit pour baller (3)

Tétin gauche, tétin mignon,

Toujours loin de son compagnon,

Tétin qui portes témoignage

Du demeurant du personnage, (4)

Quand on te voit, il vient à maints

Une envie dedans les mains (5)

De te tâter, de te tenir :

Mais il se faut bien contenir

D’en approcher, bon gré ma vie,

Car il viendrait une autre envie.

Ô tétin, ni grand ni petit,

Tétin mûr, tétin d’appétit,

Tétin qui nuit et jour criez

«Mariez moi tôt, mariez !»

Tétin qui t’enfles, et repousses

Ton gorgias de deux bons pouces : (6)

A bon droit heureux on dira

Celui qui de lait t’emplira,

Faisant d’un tétin de pucelle,

Tétin de femme entière et belle.

(1) refait : nouvellement formé

(2) voire : qui n’est pas, à vrai dire, un tétin

(3) baller : danser

(4) demeurant : de tout le reste de la personne

(5) trois syllabes

(6) décolleté, haut de la robe, corsage