Com este soneto, Tomás de Iriarte (1750-1791) leva-nos, com o não dito pela fala da narradora, dos preliminares à consumação do acto sexual, evidenciando uma mestria absoluta na técnica de contrução do poema, fazendo-nos percorrer, ao acompanhar a narração, o conjunto das emoções, receios, preconceitos e entrega ao prazer, vividos pela protagonista. Apenas uma palavra aqui, uma exclamação acolá, uma reticência, e o ambiente está criado. De Mestre!
Señor don Juan, quedito, que me enfado:
besar la mano es mucho atrevimiento;
abrazarme… don Juan, no lo consiento.
Cosquillas… ay Juanito… ¿y el pecado?
Qué malos son los ombres… mas, cuidado,
que me parece, Juan, que pasos siento…
no es nadie…, despachemos un momento.
¡Ay, qué placer… tan dulce y regalado!
Jesús, qué loca soy, quién lo creyera
que con un hombre yo… siendo cristiana
mas… que… de puro gusto… ¡ay… alma mia!
Ay, qué vergüenza, vete… ¿aún tienes gana?
Pues quando tú lo pruebes otra vez…
pero, Juanito, ¿volverás mañana?
E agora a tradução portuguesa de José Paulo Paes:
Senhor D. João, quietinho, que me enfado:
beijar a mão é muito atrevimento;
abraçar-me… isso não, que me apoquento.
Cosquinhas… ai Joãozinho… e o pecado?
Como são maus os homens… mas cuidado
que me parece ouvir passos lá dentro…
não é ninguém… apressa o teu momento.
Ai que prazer… tão doce e regalado!
Jesus, sou uma louca, quem diria
que com um homem eu… sendo cristã
mas… que… de puro gozo… ai! vida minha!
Quanta vergonha… Vai-te… Queres mais?
O que tivestes não te satisfaz?
Oh meu Joãozinho, voltas amanhã?
Noticia bibliográfica
A tradução e o poema original encontram-se publicados em Poesia Erótica em tradução, com selecção, tradução, introdução e notas de José Paulo Paes, numa edição Companhia Das Letras, 1990.
Sucedem-se os dias mundiais a propósito das mais variadas matérias. Acabam por chamar a atenção para assuntos ou realidades de que andava distraído. Não assim com o Dia Mundial do Livro. É para mim uma espécie de aniversário colectivo em que muitos amigos se festejam.
No esforço de segurar a vida tentando acreditar que vale a pena vive-la, é aos livros que recorro, qual Cartas a Lucílio, de Séneca, qual Consolação da Filosofia, de Boécio. Outros há, e na poesia são tantos, em que a alegria de estar vivo se reencontra!
Leio de forma regular desde os oito anos. À época, e estou a falar do principio dos anos sessenta do século XX, a fonte das minhas leituras era a biblioteca itinerante da Fundação Gulbenkian, materializada numa carrinha cheia de livros que às quartas-feiras estacionava no Largo da Praça e onde, ao fim da tarde, eu trocava os livros emprestados e lidos, pelos novos que seriam a alegria da semana seguinte. Encarregava-me o meu pai, nesta troca, do transporte dos livros que para ele também levara. Do que ele lia, não recordo. Apenas o nome de Balzac me vem à memória, pelo peso e tamanho dos livros. Para mim, sim, lembro os livros de contos de príncipes e princesas encantadas, encadernados a tecido com uma estampa pequena, colorida, na capa.
Foi adulto que, com enorme jubilo, encontrei no livro do século XV, Très Riches Heures du Duc de Berry (c. 1416), da autoria dos irmãos Limbourg, as imagens que inspiravam os desenhos desses livros de contos e me alimentaram a imaginação infantil com castelos e personagens fabulosos.
Hoje, à visão de qualquer livro de horas exposto em museu ou galeria, páro embevecido a olhá-los longamente. Foi com desgosto que há dias, em visita a um alfarrabista, não comprei uma belíssima copia fac.-similada em pergaminho, de uma destas obras-primas. A crise não está para aventuras.
Mas voltando à infância, poucos anos passados, com o aumento do nº de leitores, a biblioteca deixou a carrinha itinerante e instalou-se num antigo edifício no interior da cerca moura, adjacente à igreja da Misericórdia. Chegava-se lá por uma rua estreita em escadaria, da época medieval, a que também conduz ao castelo. Quando subia aquelas escadas, a minha imaginação infantil coloria-se, e via cavaleiros a descer por ali abaixo, envoltos em trajes esvoaçantes, arma em riste, a caminho de qualquer batalha ou aventura cavaleiresca de libertar formosa dama de um tirano pai que a mantinha a pão e água no alto de qualquer castelo.
Nunca mais parei de ler. Quando por volta dos catorze anos deixei de encontrar na biblioteca os livros que supunha interessarem-me, passei a comprá-los logo que conseguia juntar o dinheiro suficiente. Assim continuei, e acabei por quase submergir em livros.
Os livros sobrevivem-nos sempre, e agora, chegada a altura das escolhas, decidi passar a outros parte dos livros que por anos me acompanharam. Não ofereço, vendo-os. Quem decide gastar o seu dinheiro num livro, provavelmente deseja-o, e estimá-lo-á. Espero reduzir a biblioteca pessoal a poucos milhares de livros e continuar a ter espaço para os novos livros que chegam.
Hoje, ao toque do carteiro, pensei, mais cartas das Finanças! Afinal não. Para minha grande alegria, era o livro com a edição inglesa dos poemas de Anna Akhmatova, há muito esperado, e que a certa altura julguei perdido, que chegava. Terei ocasião de falar dele, da poetisa e dos seus poemas, mais tarde no blog.
Acredito com Umberto Eco que os livros como os conhecemos não serão substituídos por eBooks no tempo da minha vida. Os suportes variarão, todos teremos as nossa preferências no acto de leitura, mas a criação pela palavra e a sua transmissão entre os homens não vai terminar.
Reflexo da mutação dos tempos que atravessamos, decidi-me finalmente pela edição de parte do que tenho escrito, e assinalo este Dia Mundial do Livro de 2012 com o envio para publicação em eBook do livro da fermosa benfeitoria (rimas obscenas). A distribuição do livro estará a cargo de uma empresa dos EUA, e como as rimas são acompanhadas da reprodução de pinturas eróticas japonesas da minha colecção, aguardo a confirmação de aceitação, tendo em conta a censura visual exercida sobre a comunicação electrónica pública no pais da liberdade.
O livro, com uma abertura que remete para a pintura e um epílogo em diálogo com a religião, contém no corpo rimas que evocam alguma da poesia erótica da tradição europeia publicada ao longo dos séculos.
Quando o livro se encontrar disponível para compra, darei noticia no blog.
Releio o que escrevi acima e duas evidências ressaltam: por um lado ao falar de livros é a palavra alegria que sobressai; por outro, seria diferente o texto, e seria eu outra pessoa, se a vida não tivesse cruzado no meu caminho a Fundação Calouste Gulbenkian enquanto cidadão.
Através dela encontrei os livros, são edições da Fundação os livros que me salvaram e devolvem o sentido do viver, foi na colecção de arte da Fundação, exposta no seu museu, que abri os olhos para o belo artístico, aí incluídos tanto os livros de horas, como os livros persas por cujas iluminuras me apaixonei; foi finalmente na Fundação que as experiências musicais marcantes me aconteceram, quais os encontros com a música da vanguarda do século XX e a música antiga, e que outro dia virá à conversa, agora que Montserrat Figueras partiu para encantar os anjos no céu.
São do livro Très Riches Heures du Duc de Berry as imagens que acompanham o artigo.
Para esta Primavera que tarda, resolvi-me à transcrição de um belo poema de Rainer Maria Rilke (1875-1926), escrito em francês e traduzido por Maria Gabriela Llansol.
PRIMAVERA
I
Ó seiva das ramagens
de todas as árvores, ergue-se
a tua melodia,
acompanhando o canto
da nossa voz demasiado breve.
A diversidade das figuras
do teu antiquissimo abandono é tal
que só, durante umas breves medidas,
ó fecunda natureza,
te conseguimos acompanhar.
Quando a nossa voz se calar,
outras virão…
Mas, neste momento, que hei-de eu fazer,
para te fazer chegar o meu imenso
coração que te completa?
II
Tudo se prepara para mostrar
a alegria que esplende;
a terra, e tudo o mais, a postos
para nos deslumbrar. Brevemente.
Estamos no melhor lugar
para tudo olhar e entender;
teremos mesmo que dizer “basta” –
e fazer recuar o encantamento.
Se, ao menos, estivéssemos no seu âmago envolvente!
O excelente lugar, que é o nosso,
está ligeiramente demasiado exposto
a esse jogo tão comovente.é um facto.
III
A seiva sobe nos capilares
e, sem prevenir, mostra aos velhos
o ano íngreme que não hão-de escalar
e que, dentro deles, iça as velas para a partida.
O corpo (magoado por este rompante
da natureza bruta, que desconhece
que essas artérias, onde ela ainda ferve,
suportam mal um capitão impaciente)
nega-se a tão inesperada aventura;
e enquanto para sobreviver se contrai,
desconfiado, o corpo facilita à terra dura
o seu biscate de morte.
IV
É a seiva que dá cabo
dos velhos e dos hesitantes
quando de súbito, flutua nas ruas
um nada malsão que corrói a atmosfera.
Todos esses que já não têm força
para erguer no céu as asas
são convidados ao divórcio
que os confunde com o pó da terra.
É a doçura que os abre
com a sua suprema ponta afiada,
e, aos que ainda resistem, um afago sobrevém
para os deitar ao nada.
V
Para que serviria a doçura
se não fosse capaz,
terna e inefável,
de nos causar pânico?
Está tão para além
de qualquer violencia
que, quando se solta,
ninguém lhe apara o golpe.
VI
No inverno, a morte homicida
entra pelas casas adentro,
à procura da irmã, à procura do pai,
para os enfeitar de violino.
Mas quando a terra se agita
sob a enxada da Primavera,
é plas ruas que ela anda,
a dizer “olá” a quem passa.
VII
É da costela de Adão
que Eva foi tirada;
mas, quando a sua vida se acaba,
para onde vai ela, moribunda?
Adão será a sua tumba?
Será preciso, quando está cansada,
arranjar um lugar, só para ela,
num homem impermeável?
Profunda reflexão sobre a brevidade da vida em contraste com a imperturbável perenidade da natureza,
I
…
C’est pendant quelques mesures
seulement que nous suivons
les multiples figures
de ton long abandon,
ô abondante nature,
Quand il faudra nous taire,
d’autres continueront…
Mais à présent comment faire
pour te rendre mon
grand coeur complémentaire?
é também da morte que nos fala, sobretudo nas três quadras de III, e ainda nesta belíssima forma de referir a visita da morte: leur joue du violon.
VI
En hiver, la morte meurtrière
entre dans les maisions;
elle cherche la soeu, le père,
et leur joue du violon.
Temos ainda em IV e V uma ambivalência na doçura que salva para a vida, ou conduz à morte:
sont invités au divorce / qui à la terre les mêle.
Termina o poema com a enigmática interrogação do destino do homem e da mulher:
C‘est de la côte d’Adam
qu’on a retiré Ève;
mais quand sa vie s’achève,
oú va-t-elle, mourant?
Adam serait-il son tombeau?
Faut-il, lorsqu’elle se lasse,
lui ménager une place
dans un homme bien clos?
Passando com a maior leveza do trivial ao transcendente, a leitura da poesia de Rilke introduz-nos no mistério da palavra, estimulando no leitor a busca da multiplicidade de sentidos envolvidos no dizer poético.
Nota
O poema encontra-se no livro FRUTOS E APONTAMENTOS, tradução livre por Maria Gabriela Llansol, dos poemas de Rainer Maria Rilke escritos em francês.
É uma edição Relógio d’Água, 1996.
Optei por acompanhar os curtos comentários ao poema com o original francês para que, pelo menos os leitores que dominam a língua, tenham a percepção das, por vezes controversas, opções da tradutora.
Está aparentemente esclarecido o mistério genético dos girassóis mutantes pintados por Van Gogh, fazendo fé numa noticia de hoje.
Esclarecido o fenómeno cientifico, permanece o mistério da arte no esplendor da sua imorredoira atracção.
Motivo de paixão, algumas das pinturas de girassóis de Van Gogh foram e continuam ser a porta de entrada para a fruição plástica desde a mais tenra idade.
Nas minhas primeiras tentativas de pintar a óleo, foi uma jarra com três girassóis que tentei passar à tela, procurando concretizar o fascínio que as reproduções conhecidas das pinturas de Van Gogh lançavam.
Anos vai, no auge do poderio financeiro do Japão, foi noticia de espanto pelo mundo, o valor astronómico por que uma das pinturas de girassóis de Van Gogh foi comprada em leilão, e a seguir encerrada num cofre para ser protegida de roubos. Triste destino para a beleza! Parece-me, até, que esta venda foi o pontapé de saída para outras vendas por valores absurdos no mercado da arte, tendo levado pessoas a pensar que investir em arte apenas valia ou vale a pena olhando ao nome do artista.
Mas voltando aos girassóis, a atenção de poetas tem-se demorado nesta inflorescência, dando conta da complexidade de emoções que tais flores provocam. Pretexto para subtilezas em casos de amor, a ele não escapou no longínquo século XVI o génio de Camões, o que me permite acrescentar a esta nota um seu soneto.
No soneto, o poeta comparando-se ao girassol, cujo comportamento descreve na primeira parte, chama a amada de Meu Sol e diz-lhe como vê-la o faz viver :
Mostrando-lhe esse rosto que dá vida,, e … em não vos vendo, entristecida / Se murcha, e se consome em grão tormento /
Uma admirável erva se conhece
Que vai ao Sol seguindo de hora em hora
Logo que ele do Eufrates se vê fora,
E quando está mais alto, então floresce
Mas quando ao oceano o carro desce
Toda a sua beleza perde Flora
Porque ela se emurchece, e se descora
Tanto co’a luz ausente se entristece.
Meu Sol, quando alegrais esta alma vossa,
Mostrando-lhe esse rosto que dá vida,
Cria flores em seu contentamento
Mas logo, em não vos vendo, entristecida
Se murcha, e se consome em grão tormento
Nem há quem vossa ausência sofrer possa.
Transcrevi a versão do soneto XXVIII da Centúria II (incluindo as virgulas) publicada por Manuel de Faria Y Sousa na sua edição das Rimas Varias de Camões (1685), com modernização da ortografia.
Pintados nos anos 1916-1919, a serie sobre nenúfares de Claude Monet (1840 – 1926) constitui o apogeu na forma de captar o intangivel da luz na água, dando conta das texturas e da mutabilidade da paisagem no imóvel da tela.
Um dos fascínios do meu fotografar é tentar captar a forma como a luz varia a nossa percepção da realidade circundante.
Neste fascínio compreendo os impressionistas e sobretudo Claude Monet, cuja incansável demanda foi guardar na tela a imperceptível mutação da paisagem provocada pela luz. Lembrado das suas pinturas de nenúfares, certo entardecer dei comigo a fotografar um lago cheio de nenúfares, e de tal forma fascinado, que bem entrada a noite ainda fotografava sem flash, tentando conservar a variedade do colorido que o sol ao desaparecer, foi deixando em redor.
Fotografias entretanto esquecidas, reencontrei-as hoje ao vasculhar o arquivo fotográfico e eis algumas.
São conhecidas as pinturas de George Grosz (1893-1959) ferozmente criticas de sociedade alemã ao tempo da República de Weimer.
Tomando como pretexto a presença de cães de estimação, eis algumas dessas pinturas. É uma classe média nos seus ócios que nos surge, quase sempre caricata no ufano ostensivo da sua condição.
Termino com o soneto de Franz Werfel (1890-1945), O homem belo e radiante.
Poeta do expressionismo alemão, casado com Alma Mahler, e tal como George Grosz exilado nos EUA depois da chegada de Hitler ao poder.
Em dois curtos poemas, Cristina Campo (1923-1977) e Wislawa Szymborska (1923-2012), nascidas no mesmo ano, cada uma à sua maneira conduz-nos pelo que de essencial a vida tem e nos faz.
Em tempos de existência diferentes, enquanto Wislawa Szymborska refere: Tu és bela – digo à vida – / mais esplêndida não podias, com Cristina Campo percorremos o depois: Ficou para trás, quente, a vida, / …
Na ironia mansa que perpassa em tanta da sua poesia Wislawa Szymborska guia-nos pelos nadas eternos da existência:
Só para não te ofender, / te irritar, descontrolar. / Eu saltito sorridente / há uns bons cem mil anos.
Allegro ma non troppo de Wislawa Szymborska
Tu és bela – digo à vida –
mais esplêndida não podias,
de rouxinóis e de rãs,
de formigas e sementes.
E tento ser-lhe agradável,
bajulá-la, olhá-la nos olhos.
Sou sempre a primeira a saudá-la,
de humilde expressão na fronte.
Vou-lhe saltando ao caminho,
da esquerda, da direita,
e fascinada me elevo,
e de enlevo me estatelo.
Que marinho este cavalo!
que silvestre é esta amora! –
nunca em tal houvera crido
se não tivesse nascido.
– Não encontro – digo à vida –
nada a que possa igualar-te.
Ninguém fará outra pinha,
nem melhor nem menos bem.
Louvo-te a generosidade, a criatividade,
a decisão e o rigor –
e mais ainda – e mais além –
a magia – a negra e a branca.
Só para não te ofender,
te irritar, descontrolar.
Eu saltito sorridente
há uns bons cem mil anos.
Arranho a vida pela bainha de uma folhita:
Terá parado? Ouviria?
Só uma vez, por um momento,
esqueceu-se de para onde ia?
Tradução de Júlio Sousa Gomes
Na desolada inquietação que acompanha a poesia de Cristina Campo lemos os restos, o que ficou:
Parece que hoje é o dia da Poesia para aqueles que não a lêem. Assinalemos tão auspiciosa data com um dos poemas da minha vida: Ode à Poesia de Pablo Neruda (1904-1973).
Para quem se interroga sobre questões utilitárias como por exemplo: Poesia? Para que serve? Pablo Neruda acompanha-o nesta ode:
…
Yo te pedí que fueras utilitaria y útil, como metal o harina, dispuesta a ser arado, herramienta, pan y vino, dispuesta, Poesía, a luchar cuerpo a cuerpo y a caer desangrándote.
…
E mais à frente responde. E em resultado permanece no coração dos homens que o leram.
Acompanham a poesia de Neruda algumas pinturas de Kazimir Malevich (1878-1935) representando trabalhadores manuais.
Não fora a sua extensão, acrescentaria o poema O Homem Invisível com que abre o livro Odes Elementares onde esta Ode à Poesia se contém. Fica o alvitre para um leitor curioso o procurar e este excerto:
…
eu não tenho importância
nem tempo
para os meus assuntos,
de noite e de dia
tenho que apontar tudo o que se passa,
e não esquecer ninguém.
É certo que de repente
me canso,
fico a olhar as estrelas,
estendo-me na relva, passa
um insecto cor de violino,
pouso o braço
sobre um pequeno seio
ou enlaço a cintura
da minha amada,
e vejo o veludo
cruel
da noite que estremece
com as suas constelações geladas,
então
sinto subir à minha alma
a onda dos mistérios,
a infância,
o pranto nos recantos,
a adolescência triste
e o sono invade-me,
durmo
…
(Tradução de Luis Pignatelli)
ODE À POESIA
Quase cinquenta anos
a caminhar
contigo, Poesia.
Ao princípio
enleavas-me os pés
e eu caía de borco
na terra escura
ou enterrava os olhos
no charco
para ver as estrelas.
Mais tarde estreitaste-me
com os dois braços da amante
e subiste
pelo meu sangue
como uma trepadeira.
No minuto seguinte
convertias-te em taça.
Belo
foi
ires escorrendo sem te consumires,
ires entregando a tua água inesgotável,
ires vendo que uma gota
caía sobre um coração queimado
e dessas mesmas cinzas revivia.
Porém
nem isso me bastou.
Tanto andei contigo
que te perdi o respeito.
Deixei de ver-te como
náiade vaporosa,
pus-te a fazer de lavadeira,
a vender pão nas padarias,
a fiar com as simples tecedeiras,
a bater o ferro na metalurgia.
E vieste comigo
andando pelo mundo,
mas já não eras
a florida
estátua da minha infância.
Falavas
agora
com voz férrea.
As tuas mãos
foram duras como pedras.
O teu coração
foi um abundante
manancial de sinos,
fizeste para mim pão com fartura,
ajudaste-me
a não cair de borco,
procuraste-me
companhia,
não uma mulher,
não um homem,
mas milhares, milhões.
Juntos, Poesia,
fomos
ao combate, à greve,
ao desfile, aos portos,
à mina,
e eu ri-me quando saíste
com a testa suja de carvão
ou coroada com serrim fragrante
das serrações.
Já não dormíamos na estrada.
Esperavam-nos grupos
de operários com camisas
recém-lavadas e bandeiras vermelhas.
E tu, Poesia,
até aí tão desgraçadamente tímida,
marchaste
à cabeça
e todos
se habituaram ao teu traje
de estrela quotidiana,
pois mesmo que algum relâmpago denunciasse a tua família
tu cumpriste a tarefa,
andando passo a passo com os homens.
Eu pedi-te que fosses
utilitária e útil,
como metal ou farinha,
pronta a ser arado,
ferramenta
pão e vinho,
pronta, Poesia,
a lutar corpo a corpo
e a cair esvaída em sangue.
E agora,
Poesia,
obrigado, esposa,
irmã ou mãe
ou noiva,
obrigado, onda do mar,
flor branca e bandeira,
motor de música,
grande pétala de oiro,
sino submarino,
celeiro inesgotável,
obrigado
terra de cada um
dos meus dias,
vapor celeste e sangue
dos meus anos,
porque me acompanhaste
da mais enrarecida altura
à simples mesa
dos pobres,
porque puseste na minha alma
sabor ferruginoso
e fogo frio,
porque me ergueste
à altura insigne
dos homens vulgares,
Poesia,
porque a teu lado
enquanto me gastava
tu foste sempre
aumentando essa frescura firme,
esse ímpeto cristalino,
como se o tempo
que a pouco e pouco me converte em terra
fosse deixar correr eternamente
as águas do meu canto.
Tradução de Fernando Assis Pacheco
ODE À POESIA (original)
Cerca de cincuenta años caminando contigo, Poesía. Al principio me enredabas los pies y caía de bruces sobre la tierra oscura o enterraba los ojos en la charca para ver las estrellas. Más tarde te ceñiste a mí con los dos brazos de la amante y subiste en mi sangre como una enredadera. Luego te convertiste en copa.
Hermoso fue ir derramándote sin consumirte, ir entregando tu agua inagotable, ir viendo que una gota caída sobre un corazón quemado y desde sus cenizas revivía. Pero no me bastó tampoco. Tanto anduve contigo que te perdí el respeto. Dejé de verte como náyade vaporosa te puse a trabajar de lavandera, a vender pan en las panaderías, a hilar con las sencillas tejedoras, a golpear hierros en la metalurgia. Y seguiste conmigo andando por el mundo, pero tú ya no eras la florida estatua de mi infancia. Hablabas ahora con voz férrea. Tus manos fueron duras como piedras. Tu corazón fue un abundante manantial de campanas, elaboraste pan a manos llenas, me ayudaste a no caer de bruces, me buscaste compañía, no una mujer, no un hombre, sino miles, millones. Juntos, Poesía, fuimos al combate, a la huelga, al desfile, a los puertos, a la mina, y me reí cuando saliste con la frente manchada de carbón o coronada de aserrrín fragante de los aserraderos. Y no dormíamos en los caminos. Nos esperaban grupos de obreros con camisas recién lavadas y banderas rojas.
Y tú, Poesía, antes tan desdichadamente tímida, a la cabeza fuiste y todos se acostumbraron a tu vestidura de estrella cotidiana, porque aunque algún relámpago delató tu familia cumpliste tu tarea, tu paso entre los pasos de los hombres. Yo te pedí que fueras utilitaria y útil, como metal o harina, dispuesta a ser arado, herramienta, pan y vino, dispuesta, Poesía, a luchar cuerpo a cuerpo y a caer desangrándote.
Y ahora, Poesía, gracias, esposa, hermana o madre o novia, gracias, ola marina, azahar y bandera, motor de música, largo pétalo de oro, campana submarina, granero inextinguible, gracias, tierra de cada uno de mis días, vapor celeste y sangre de mis años, porque me acompañaste desde la más enrarecida altura hasta la simple mesa de los pobres, porque pusiste en mi alma sabor ferruginoso y fuego frío, porque me levantaste hasta la altura insigne de los hombres comunes, Poesía, porque contigo mientras me fui gastando tú continuaste desarrollando tu frescura firme, tu ímpetu cristalino, como si el tiempo que poco a poco me convierte en tierra fuera a dejar corriendo eternamente las aguas de mi canto.
Noticia bibliográfica:
Esta Ode à Poesia foi, que eu saiba, traduzida duas vezes para português, ambas as traduções feitas por poetas, e publicadas na mesma editora, Publicações D.Quixote.
Uma, a tradução de Fernando Assis Pacheco encontra-se na Antologia Breve publicada na saudosa colecção cadernos de poesia. A outra consta da tradução feita por Luis Pignatelli (1935-1993) de Odes Elementales, publicada em 1977 com o titulo Odes Elementares.
Nada como a experiencia para nos revelar quanto estamos errados com as nossas ideias feitas.
Tinha para mim que acariciar seios cuja beleza acrescida decorria de cirurgia plástica, arrefeceria o prazer desde que o facto fosse conhecido. A experiência mostrou-me que perante uma intervenção bem feita o prazer explode intacto ao tacto destas maravilhas.
Nasce dentro das mãos este desejo / De toda te palpar e possuir:
Não será difícil imaginar que a bela de quem o poema fala poderia semelhar-se a alguma das belas do século XV cujos retratos há dias aqui deixei, qual seja por exemplo a bela Simonetta Vespucci pintada por Pietro di Cosimo cerca de 1520, ou a Fornarina, causa inventada da morte precoce de Rafael e que pela mesma época este pintou:
A tradução do poema é de David Mourão-Ferreira e foi publicada em Vozes da Poesia Europeia – II (Colóquio Letras nº 164). Os conhecedores da língua francesa encontram no final do post o poema em francês moderno com os dois versos (29 e 30) que David Mourão-Ferreira não traduziu:
[29]Tétin qui t’enfles, et repousses / [30] Ton gorgias de deux bons pouces
O poema chama-se em francês Le blason du beau tétin. O “blason”, género poético sem equivalente preciso em português, que eu saiba, é um curto poema celebrando uma parte do corpo feminino, constituindo-se essa parte como brasão ou emblema (blason) digno de ser cantado. Conhecido na poesia francesa em meados do século XV, ressurgiu e fez moda pela pena do nosso poeta de hoje Clément Marot (1497 – 1544). Este “blason” da bela teta foi estendido por outros poetas em imitação e emulação de Marot, nos anos que se seguiram ao seu aparecimento (1535), ao elogio de outras partes do corpo feminino das belas amadas dos poetas que as cantaram.
Depois de largo silêncio, vamos encontrá-lo de novo no século XX em poemas de Paul Eluard e André Breton, nomeadamente. Mas é um poema de Georges Brassens (1921-1981) , Le blason, que me atrai. Sendo uma elegia à “merveillette fente” como lhe chamou Pierre de Ronsard (1524-1585), de caminho vitupera a língua francesa pela homonimía de possuir para tal amiga do homem o mesmo termo que para idiota [con]. Infelizmente não conheço tradução portuguesa desta poema de Brassens, cantado pelo poeta no disco Mourir pour des idées (1962). Deixo-vos, pois, o poema e a interpretação do grande Brassens a cuja poesia e música espero regressar.
LE BLASON
Ayant avec lui toujours fait bon ménage, J’eusse aimé célébrer, sans être inconvenant, Tendre corps féminin, ton plus bel apanage, Que tous ceux qui l’ont vu disent hallucinant.
Ç’eût été mon ultime chant, mon chant du cygne Mon dernier billet doux, mon message d’adieu. Or, malheureusement, les mots qui le désignent Le disputent à l’exécrable, à l’odieux.
C’est la grande pitié de la langue française, C’est son talon d’Achille et c’est son déshonneur, De n’offrir que des mots entachés de bassesse À cet incomparable instrument de bonheur.
Alors que tant de fleurs ont des noms poétiques, Tendre corps féminin, c’est fort malencontreux Que ta fleur la plus douce et la plus érotique Et la plus enivrante en ait un si scabreux.
Mais le pire de tous est un petit vocable De trois lettres, pas plus, familier, coutumier, Il est inexplicable, il est irrévocable, Honte à celui-là qui l’employa le premier.
Honte à celui-là qui, par dépit, par gageure, Dota du même terme, en son fiel venimeux, Ce grand ami de l’homme et la cinglante injure, Celui-là, c’est probable, en était un fameux.
Misogyne à coup sûr, asexué sans doute, Au charme de Vénus absolument rétif, Était ce bougre qui, toute honte bu’, toute, Fit ce rapprochement, d’ailleurs intempestif.
La malepeste soit de cette homonymie! C’est injuste, madame, et c’est désobligeant Que ce morceau de roi de votre anatomie Porte le même nom qu’une foule de gens.
Fasse le ciel qu’un jour, dans un trait de génie, Un poète inspiré, que Pégase soutient, Donne, effaçant d’un coup des siècles d’avanie, À cette vrai’ merveille un joli nom chrétien.
En attendant, madame, il semblerait dommage, Et vos adorateurs en seraient tous peinés, D’aller perdre de vu’ que, pour lui rendre hommage, Il est d’autres moyens et que je les connais,