Beethoven — Quarteto de cordas op. 59 Nº1

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Visito as páginas do blog com música, perdidas no vasto arquivo que o blog já é, e surge-me o desejo de as voltar a mostrar, sobretudo aos novos leitores que nos últimos meses têm chegado às dezenas. Hoje revisito este texto sobre quartetos de cordas de Beethoven publicado originalmente em Outubro de 2011.

Há dias, de passagem, quando aqui contava a Aventura Polaca, referi os quartetos Razumovsky. É com a sensação de revelar um segredo íntimo que vos falo desta música, para deixar aqui uma interpretação de minha especial afeição.

As composições para quarteto de cordas são conversações sobre o belo e o sublime, e nessa medida, parte essencial da vida de qualquer melómano que as conheça.

Conversas entre dois violinos, uma viola e um violoncelo, como todas as conversas, uns são mais interessantes que outros, e alguns têm o privilégio  de se poderem escutar a vida inteira.

A atenção exigida ao outro, o sublinhar de uma frase musical ecoando-o com nova intenção, a entrada de uma terceira voz e uma quarta, fazendo o assunto musical divergir ligeiramente, depois o regresso ao assunto principal num uníssono de acordo, contêm, quando os interpretes são de primeira, o intenso prazer da pura beleza.

É sempre música sem assunto. Apenas o jogo da melodia ou do contraste importa, criando a atmosfera sonora do mais perfeito equilíbrio.

A primeira vez que reparei num quarteto de cordas e o identifiquei, tendo passado a fazer parte de mim, foi há trinta e muitos anos. Escutava como habitualmente o programa Em orbita, a maior parte das vezes como fundo musical enquanto estudava, quando um clik me fez pôr de lado os livros e fiquei a ouvir.

No final o locutor de serviço ao programa, anunciou a peça. Tratava-se do quarteto de cordas op. 127 de Beethoven, na interpretação do Quarteto Alban Berg.

Durante muitos anos e muitos quartetos ouvidos, as preferências foram mudando e umas paixões dando lugar a outras. No entanto, um conjunto houve que permaneceu e permanece quase como parte de mim. A ele regresso quando reencontrar o sentido da vida se torna necessário. Falo dos três quartetos op 59 de Beethoven, conhecidos como Quartetos Razumovsky.

Embora a minha preferencia não se fique apenas por um deles, e umas vezes estou mais virado para o nº3, outras para o nº1, e tantas vezes para o nº2, fiquemo-nos apenas pelo nº1.

Ao pensar escrever sobre estas maravilhas voltei a ouvi-los detalhadamente, tendo regressado a interpretações que não ouvia há anos. Detenho-me num conjunto de interpretações sublimes, cada qual com as suas peculiaridades e aproximações singulares a estas formas puras de beleza.

Talvez as possa, para facilidade de exposição, arrumar por famílias, encontrando-lhes afinidades estilísticas, que não de escola.

Falemos então, para inicio de conversa da especial sonoridade dos quartetos daquela Europa, pertença do império austro-húngaro até ao século xx, sobretudo checos e húngaros, com a emocionante rugosidade no ataque às cordas dos instrumentos. Ouvi-los transmite uma espécie de arrepio que numa volta ou outra da interpretação nos põe em pele de galinha.

Diferenciam-se estas interpretações pelo tempo e pela dinâmica, transmitindo uma vivacidade especial às interpretações quer as dos checos  Quarteto Pratzak ou Quarteto Talich ou então a interpretação do hungaro quarteto Vegh.

Com um tempero estilístico vindo do classicismo vienense, e parecendo acabado de chegar dos tempos de Haydn, temos o Quarteto Budapeste nas suas duas formações, e que fez escola nos EUA através dos seus herdeiros, o Quarteto Julliard.

Guardiães da tradição vienense temos o Quarteto Alban Berg em qualquer das suas formações, embora em geral prefira as interpretações da primeira formação.

Numa espécie de cruzamento entre as escolas austríaca e checa encontram-se os ingleses do Quarteto Lindsay. Tocando com uma entrega emocional total, vê-los no histriónico da sua interpretação, envolve-nos numa total adesão e mergulhamos na essência mesma desta música.

Chego agora aquela que foi a interpretação primeira e mais duradoura de minha paixão, a do Quarteto Italiano. Combinando a refinada articulação vienense com a paixão  própria do sul, a sua interpretação derrama uma emoção em cada nota que simultâneamente nos comove e euforiza, fazendo encontrar ali, naquela música, o caminho a seguir.

Este quarteto e esta interpretação estiveram no cume das minha preferências até que um dia me cruzei com uma gravação da radio austríaca, feita no final da WWII, a 19 de Março de 1945. Tocava o Quarteto Schneidermann. A atmosfera de entendimento e concórdia destilada pela interpretação do primeiro dos quartetos op. 59 levou-me a um completo êxtase. É ainda hoje a minha escolha primeira sobre qualquer das interpretações que atingem a excelência e que felizmente alguém gravou para nosso prazer e memória.

No seu estilo eram sem rival e inimitáveis… A sua execução  não conhecia quaisquer problemas técnicos, nem de outra natureza. Harmonia e beleza de som eram soberanas. Da sensual opulencia sonora  do conjunto, faziam suave música, quais sonâmbulos mergulhados em doces sonhos despreocupados das perigosas alturas onde se moviam. Mais ou menos isto escrevia um critico vienense, Hans Wiegel, a proposito do Quarteto Schneiderhan em 1961, quase uma década depois de o quarteto se ter dissolvido.

Na impossibilidade de facultar a algum interessado a audição de todas as gravações que referi (se algum pretender detalhes pode perguntar por e-mail), deixo esta interpretação do Quarteto Schneidermann. Possa algum leitor/ouvinte sentir o milagre que me aconteceu, espero!

Op. 59 nº1:  1 – Allegro

Op. 59 nº1:  2 – Allegretto vivace e sempre scherzando

Op. 59 nº1:  3 – Adagio molto e mesto

Op. 59 nº1:  4 – Allegro

Uma Ode ao orgasmo simultâneo escrita no século XVIII por José Anastácio da Cunha

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Vladimir BAKANOV-ROSSINE (1888-1942)Não é aqui o lugar para discutir as actuais teorias de sexólogos sobre a irrelevância da simultaneidade de orgasmo para o prazer do sexo, de que nos fala o poema de hoje. Trata-se antes de dar a conhecer uma expressão poética desse prazer, velha de cerca de 250 anos.

Ode

Já quasi até morria

C’os olhos nos da amada.

E ela que se sentia

Não menos abrasada:

– “Ai, caro Atfes! – dizia –

Não morras inda, espera

Que eu contigo morrer também quisera”

A ansia com que acabava

A vida, Atfes, refreia,

E, enquanto a dilatava,

Morte maior o anseia.

Os olhos não tirava

Dos do ídolo querido,

Nos quais bebia o Néctar diluído.


Quando a gentil Pastora,

Sentindo já chegada

Do doce gôsto a hora,

Com a vista perturbada

Disse, tremendo: – “Agora

Morre, que eu morro, amor”

– “E eu – disse ele – contigo”

Viram-se desta sorte

Os dois finos amantes

Mortos ambos de um tal corte;

E os golpes penetrantes

Desta casta de morte

Tanto lhe agradaram,

Que para mais morrer recuscitaram.

Este poema de José Anastácio da Cunha (1744 – 1787), O Lente Penitenciado, na certeira expressão de Aquilino foi publicado pela 1ª vez por Hernâni Cidade na edição da obra poética do autor, em 1930. Encontrava-se inédito no manuscrito nº 678 da Biblioteca Municipal do Porto. Talvez valha a pena referir, apenas, como este poema deita por terra a ideia feita da passividade da mulher durante o sexo, tão divulgada até tempos bem perto de nós.

Afinal, quantas vezes não foi ouvida:

Ai, …(ponha aqui o nome quem quiser) …!

Não morras inda, espera

com a variante hoje do verbo vir em vez do verbo morrer.

Brevemente haverá mais pois,

Desta casta de morte / Tanto lhe agradaram, / Que para mais morrer recuscitaram.

A pintura de Vladimir BAKANOV-ROSSINE (1888-1942) que abre o artigo dá certamente conta do arco-íris  do prazer relatado no poema.


Fernando Pessoa — algumas meditações sobre o existir

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carlosmfernandes - Oleo 078 - 2004 - óleo sobre tela 80x80cmA dolorosa meditação do eu na poesia de Fernando Pessoa atinge frequentemente o sublime:

 

Cai amplo o frio e eu durmo na tardança

De adormecer —

Sou, sem lar, nem conforto, nem esperança,

Nem desejo de os ter.

 

E um choro por meu ser me inunda

A imaginação.

Saudade vaga, anónima, profunda,

Náusea da indecisão.

 

Frio do inverno duro, não se tira

Agasalho ou amor.

Dentro em meus ossos teu tremor delira.

Cessa, seja eu quem for!

19-01-1931

 

Questionando a verdade interior do eu na duplicidade do agir, ao ler esta poesia é sempre uma interrogação de nós o que fazemos, ou não fora, como o poeta escreveu, … quem lê versos lê só a própria alma… (17-03-1931).

 

As coisas que errei na vida

São as que acharei na morte,

Porque a vida é dividida

Entre quem sou e a sorte.

 

As coisas que a Sorte deu

Levou-as ela consigo,

Mas as coisas que sou eu

Guardei-as todas comigo.

 

E por isso os erros meus,

Sendo a má sorte que tive,

Terei que os buscar nos céus

Quando a morte tire os véus

À inconsciência em que estive.

21-08-1934

 

Por último, um poema menos perfeito (última quadra) e onde os versos

Falhei a tudo, mas sem galhardias, / Nada fui, nada ousei e nada fiz,

 

remetem para as reflexões de Tabacaria (15-01-1928):

Falhei em tudo. / Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada. /…

 

Este poema de 02-07-1931 afasta-se da interrogação em Tabacaria (aquele talvez) e desenvolve reflexões pela afirmativa onde os belíssimos versos:

Nem colhi nas urtigas dos meus dias, / A flor de parecer feliz.

espelham a dualidade do ser e do parecer com as imagens do amargo dos dias referidos como urtigas, e a felicidade simulada, pela flor de parecer feliz.

 

Bem, hoje que estou só e posso ver

Com o poder de ver do coração

Quanto não sou, quanto não posso ser,

Quanto, se o for, serei em vão.

 

Hoje, vou confessar, quero sentir-me

Definitivamente ser ninguém,

E de mim mesmo, altivo, demitir-me

Por não ter procedido bem.

 

Falhei a tudo, mas sem galhardias,

Nada fui, nada ousei e nada fiz,

Nem colhi nas urtigas dos meus dias,

A flor de parecer feliz.

 

Mas fica sempre, porque o pobre é rico

Em própria casa, se procurar bem,

A grande indiferença com que fico

É um sonho… Leve-o quem o trate bem.

02-07-1931

 

Em nota final, refiro quanto o verso de abertura do poema inicial

Cai amplo o frio e eu durmo na tardança / …

me ecoa, apesar da variação na abordagem, o soneto de Sá de Miranda

 

O sol é grande, caem co’a calma as aves / …

 

e outro dia transcreverei.

 

No segundo poema de Pessoa, o verso As coisas que errei na vida / …, leva-me direitinho para o soneto de Camões:

Erros meus, má fortuna, amor ardente / Em minha perdição se conjuraram / …

E assim, neste deambular poético lá vou para o multifacetado da vida, na variedade das reflexões que a poesia induz.

Seria matéria de vasta prosa perambular pelas afinidade e oposições entre estes quatro poemas, o que não cabe no formato do blog, obviamente.

 

Poemas transcritos de Fernando Pessoa, Poesia 1931-1935, edição de Manuela Parreira da Silva ed al., Assírio & Alvim, Lisboa, Julho 2006.

Abre o artigo a imagem de uma pintura (óleo s/tela) que fiz pelo ano de 2004.

Cântico Maior, 8, 6-7

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Suite VollardNo culminar do imperecível cântico ao amor que é o conjunto de poemas de Cântico dos Cânticos ou Cântico Maior de Salomão, lemos os versos 8, 6-7, onde se canta a sem medida do amor, a sua força, a sua dignidade sem preço.

Trago ao blog algumas das versões que conheço entre traduções próximas do original e versões um tanto livres. Abro com a tradução de José Nunes Carreira, tradução integral do mais fidedigno original conhecido. Segue-se-lhe a versão da Bíblia Protestante. Depois, uma concisa versão de Herberto Helder a qual não inclui os versos finais sobre o sem-preço do amor. Leremos a seguir uma tradução do hebraico por Haroldo de Campos, com algumas belas opções vocabulares, a começar pela opção por sinete em vez de selo para dar a medida de como o amor se grava em nós. Termino com a tradução mais bela que conheço, por José Tolentino Mendonça, a qual, à fidelidade ao original alia soluções poéticas de enorme encanto.

 

Tradução de José Nunes Carreira

6

Faz de mim um selo

em teu coração estampado,

um sinete em teu braço.

Pois forte como a Morte é o Amor,

feroz como os infernos a paixão.

Seus dardos, dardos de fogo;

suas chamas…

7

Águas diluvianas não conseguem

extinguir o amor.

Torrentes não o levam de enxurrada.

Se alguém quisesse dar

por amor toda a fazenda

de sua casa,

só desprezo iria achar.

 

Versão da Bíblia

Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo

sobre o teu braço, porque o amor é forte como

a morte, e duro como a sepultura o ciúme;

as suas brasas são brasas de fogo, labaredas

do Senhor.

 

As muitas águas não poderiam apagar este amor,

nem os rios afogá-lo: ainda que alguém desse

toda a fazenda de sua casa por este amor,

certamente a desprezariam.

 

Versão de Herberto Helder

Põe-me como um selo em teu coração,

como um selo no teu braço.

Porque o amor é forte como a morte,

o amor único mais forte que a eternidade dos mortos.

As suas feições são como flechas de fogo,

uma chama de Deus.

 

As grandes águas não poderão extinguir o amor,

nem submergi-lo os rios

 

Tradução do hebraico de Haroldo de Campos

6

Grava-me como um sinete    sobre o teu coração

como um sinete    sobre o teu braço

pois forte como a morte    o amor

como o amargume do Sheol    o ciúme

Suas chamas    são chamas    de fogueira

o fogo ardente do Senhor

7

Altas águas    não poderão

apagar o amor

e torrentes de rios    não o afogarão

Um homem que ofereça     todos os seus bens de mais preço

para obter favor de amor

sobre ele o desprezo    o menosprezo

 

Tradução do hebraico de José Tolentino Mendonça

6

grava-me como selo no teu coração    como selo em teu braço

porque forte como a morte é o amor    voraz a paixão como o abismo

seus ardores são chamas de fogo    labaredas do Senhor

7

por maiores que sejam as águas    jamais apagarão o amor

rio nenhum o poderá submergir

entregasse alguém     toda a riqueza de sua casa para comprar o amor    

seria ainda tratado com desprezo.

 

Notícia bibliográfica

Tradução de José Nunes Carreira in Cantigas de Amor do Oriente Antigo, Edições Cosmos, Lisboa, 1999.

Versão da Bíblia, in edição autónoma de O Cântico dos Cânticos, Estúdios Cor, Lisboa, 1966.

Versão de Herberto Helder in O Bebedor Noturno, poemas mudados para português, Assírio & Alvim, Lisboa, 2010.

Tradução de Haroldo de Campos in Éden um Tríptico Bíblico, Editora Perspectiva, S. Paulo, 2004.

Tradução de José Tolentino Almeida in Cântico dos Cânticos, Edições Cotovia, Lisboa, 1997.

Da amizade segundo Aristóteles

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jules-et-jim-poster do filme 600pxVoltei a ver um destes dias o filme de François Truffaut (1932-84), Jules e Jim (1962), que gira à volta de uma amizade entre dois homens onde uma mulher aparece.  

O filme de algum modo retoma com mais profundidade e outras implicações o assunto da deliciosa comédia de Ernst Lubitch (1892-1947), Uma mulher para dois (Design for Living, 1933): um acordo de “ménàge à trois” que não corre pelo melhor.

design for living poster 600pxNo filme de Truffaut, situado na Paris de ante 1ª guerra mundial, dois jovens amigos vagamente escritores, um francês, um alemão, vivem na boémia do tempo. Nas relações que se sucedem, surge uma mulher que com eles acaba a partilhar a amizade. Criatura peculiar, por quem os dois poderiam apaixonar-se, a certa altura o alemão pretende-a só para si. Casam. A guerra rebenta e coloca cada um dos homens em campo inimigo.

O filme passa ao lado deste conflito amizade/política, que fora admiravelmente retratado em A vida do coronel Blimp (The Life and Death of Colonel Blimp, 1943) da dupla britânica Michael Powell (1905-90) e Emeric Pressburger1902-88).

the-life-and-death-of-colonel-blimp-movie-poster-1943Ambos saídos ilesos da guerra, os amigos do filme de Truffaut retomam contacto. O alemão permanece casado numa relação quase em ruínas onde laivos de paixão permanecem. O que foi um casamento com amigo ao lado, transforma-se, com a chegada do francês, numa complexa relação de pertença onde a amizade entre os dois homens é posta à prova num conflito que a paixão atravessa. Mulher voluntariosa, a protagonista, vivia um entendimento da entrega ao amor ditada por uma exigente e continuada atenção à sua pessoa e aos seus caprichos, onde apenas a sua vontade reinasse como condição de harmonia. Termina o filme, e se nele encontramos uma elegia da amizade, fica-nos também o sabor do mistério da mulher nesta relação entre sexos.

 Amigos e amizade são relações afectivas que todos tomamos por conhecidas. A presença quase universal do Facebook no nosso quotidiano, e o seu apelo à formação de círculos de amigos, dá conta, na sua variedade de relações, de quanto o conceito de amizade hoje surge algo difuso.

Nem sempre todos entendemos por amizade o mesmo conteúdo de uma relação.

Com alguns fragmentos de Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.) onde o filósofo discorre sobre o conceito de amizade e as suas diversas formas, talvez consigamos articular com mais precisão e clareza a variedade do que nas relações humanas tomamos por amizade.

As transcrições vão semeadas de reticências, as quais respeitam ao desenvolvimento justificativo das afirmações transcritas, que pela sua extensão omiti.

Aristóteles, Ética a Nicómaco, Livro VIII, III

O desejo de amizade nasce depressa mas a amizade não.

Os motivos pelos quais a amizade nasce distinguem-se segundo três formas essenciais; de acordo com esses três motivos, assim também são as respectivas formas de amizade.

Os que definem a sua amizade com base na utilidade não são amigos por aquilo que eles próprios são, mas pelo bem que daí pode resultar para ambos. De modo semelhante, acontece com os que definem a sua amizade com base no prazer, pois não se gosta de pessoas divertidas pelas qualidades de carácter que têm mas por serem agradáveis.

Os que têm a amizade com base na utilidade gostam uns dos outros pelo bem que os outros lhes fazem; os que têm uma amizade com base no prazer, gostam uns dos outros pelo próprio prazer que lhes dá.

Estas formas de amizade são, portanto, meramente acidentais. Porque não se gosta do outro apenas por aquilo que ele é, mas por ser vantajoso ou ser agradável. Estes laços de amizade são os que mais facilmente se rompem, sobretudo se os que por eles estão envolvidos com outros, não ficarem os mesmos e se tiverem tornado diferentes ao longo do tempo. Isto é, deixam de ser amigos, quando o prazer acaba ou deixa de haver vantagem.

Mas a amizade perfeita existe entre os homens de bem e os que são semelhantes a respeito da excelência. … E por serem homens de bem são amigos dos outros pelo que os outros são. … Na verdade querem para os seus amigos o bem que querem para si próprios. E são desta maneira por gostarem dos amigos como eles são na sua essência, e não por motivos acidentais. A amizade entre eles permanece durante o tempo em que forem homens de bem;

Tais amizades são, de facto, raras, porque são poucos os homens desta estirpe. Além do mais, é preciso tempo e cumplicidade, pois, tal como diz o provérbio, não é possível que duas pessoas se conheçam uma à outra sem antes terem comido juntas a mesma quantidade de sal. Nem se pode reconhecer alguém como amigo antes de cada um se ter mostrado ao outro digno de amizade e merecedor de confiança. Pessoas que depressa produzem provas (exteriores) de amizade entre si querem ser amigos, mas não podem sê-lo logo. É preciso primeiro que se tornem dignos da amizade e se possa reconhecer neles essa mesma dignidade. O desejo de amizade nasce depressa, mas a amizade não.

Tradução do Grego e notas de António C. Caeiro, Quetzal Editores, Lisboa, 2004.

As Fadas – Poema de Antero de Quental (1842-1891)

Para os novos leitores do blog recordo este post antigo.

viciodapoesia's avatarvicio da poesia

Nestes tempos de Verão,  quando as férias apelam à fantasia, aqui  fica  um convite para viajar ao mundo encantado das fadas com a inspiração de Antero de Quental.

Revela-nos o poema segredos só conhecidos de poucos adultos, apenas daqueles que ainda sabem que a Cinderela casa mesmo com o Principe e acreditam que:  a fortuna da gente / Está às vezes somente / Numa palavra que diz; / Por uma palavra, engraça / Uma fada com quem passa, / E torna-o logo feliz.

Mas cuidado, pois as fadas quando se zangam:  têm vinganças terriveis! /Semeiam coisas horriveis, / Que nascem logo no chão… / Linguas de fogo que estalam! / Sapos com asas que falam! / Um anão preto! Um dragão!

 Ou deitam sortes na gente… / O nariz faz-se serpente, / A dar pulos, a crescer… / É-se morcego ou veado… / E anda-se assim encantado…

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É amanhã que vou viver — um epigrama de Marcial

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Não é de hoje, nem de ontem, uma espécie de insatisfação entre o quotidiano vivido e o desejo do que afinal nos importa mais, levando o pensamento a confortar-se com o amanhã que virá.

Na forma lapidar do epigrama, e fazendo uso de uma espécie de redução ao absurdo sobre o onde o amanhã se encontra, Marcial (40-102) exorta-nos a viver ontem o que desejamos, pois o hoje pode já ser tarde, fazendo-nos lembrar que o amanhã pode não existir.

 

Marcial, Livro V, epigrama 58

 

“É amanhã que vou viver, é amanhã” — dizes, Póstumo, sempre.

Diz-me cá: esse amanhã, Póstumo, quando é que chega?

A que distância fica esse amanhã? onde pára? ou aonde se deve procurar?

Se calhar junto dos Partos ou dos Arménios se esconde?

Esse amanhã já tem a idade de Príamo ou Néstor.

Esse amanhã, diz-me cá, por quanto se pode comprar?

É amanhã que vais viver? Viver hoje, Póstumo, já é tarde:

sensato é quem, Póstumo, viveu ontem.

 

Tradução de Paulo Sérgio Ferreira

in Marcial, Epigramas, vol II, Edições 70, Lisboa, 2000.

 

Depois da tradução a partir do original latino, entrego o leitor à versão de David Mourão-Ferreira onde o intemporal do poema se capta, transmitindo-nos na sua verdade poética a reflexão sobre a urgência de viver o que importa para lá da espuma dos dias.

 

Marcial, Livro V, epigrama 58

 

“Amanhã”, dizes tu. “Viverei amanhã.”

Quando virá, porém, esse tal amanhã?

Ah! que sabemos nós do dia de amanhã?

Em que reino se esconde o rosto de amanhã?

Que idade tem ao certo o vulto de amanhã?

É coisa que se venda? É coisa que se compre?

Que certeza tens tu de estar vivo amanhã?

 

Tarde já é viver no próprio dia de hoje.

Mais sábio é começar a vivermos desde ontem.

 

in Vozes da Poesia Europeia — I

Colóquio Letras, nº163, Jan-Abr 2003.

Num vergel mui deleitoso — poema de Frei Diego de Valência

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William-Adolphe-Bouguereau 500pxAfasto-me das graves matérias com que ultimamente tenho ocupado o blog, para dar conta de mais uma inventiva forma de falar poeticamente do amor e do prazer de o fruir.

O poema, incluído no século XV por Baena no seu Cancioneiro, foi considerado, na autorizada opinião de Menendez Pelayo, o melhor poema de amor deste cancioneiro.

É, pois, a voz e inspiração de Diego de Valência (c.1350-c.1412), franciscano e homem tido no seu tempo como sábio de vários saberes, que vos trago. Autor de poemas filosóficos e teológicos, não fugiu ao erótico e mesmo ao burlesco e obsceno.

Pelo que deixou escrito, os saberes do amor não lhe deviam ser estranhos, ainda que no poema de hoje, talvez para salvar aparências, refira:

A entrada do vergel

a mim foi sempre defesa,

mas, amigos, não me pesa

por bem saber o que há nele;

 

Encontramos a abrir o poema um vergel [pomar, jardim, horto] por metáfora do sexo de uma jovem mulher onde:

 

Maçãs e muitas romãs / o cercam por toda a parte; / não há homem que se farte / de suas frutas temporãs; / …

 

Não é de forma alguma abusiva a leitura do poema como metáfora do acto sexual e do seu prazer, e nela sou acompanhado por outros.

Ao ler o poema com esta chave, e em remate do gozo erótico, conclui o nosso autor:

 

é mais doce do que o mel

o orvalho que dele mana,

que toda a tristeza sana

o prazer que mana dele.

 

Temos assim que para início do acto o nosso poeta nos conta:

 

Num vergel mui deleitoso / entrei por minha ventura, / onde achei toda a doçura / e prazer muito gostoso;

 

Em tempos sem contraceptivos, o risco de gravidez está presente, e o nosso poeta lembra-o logo a seguir:

 

e causado por natura, / de morar mui perigoso.

 

No resto segue o detalhe dos prazeres com imagens de fruta — não há homem que se farte — e harmonias concorrentes com o canto dos pássaros — que fazem dormir de amores. —, acrescentando em remate a explícita referência de quanta doçura emana das fontes onde o prazer vive, e que referi antes.

 

Frei Diego de Valência (c.1350-c.1412)

 

1.9.6.1 — Estes versos fez o dito Mestre Frei Diego por amor e louvores de uma donzela que era mui formosa e respalndecente, da qual estava mui enamorado.

 

Num vergel mui deleitoso

entrei por minha ventura,

onde achei toda a doçura

e prazer muito gostoso;

a entrada foi escura

e causado por natura,

de morar mui perigoso.

 

Em muito espessa montanha

este vergel foi plantado,

por toda a parte cercado

por ribeira muito estranha:

quem alguma vez se banha

em sua fonte perenal,

pelo curso natural,

tanta doçura o engana.

 

Maçãs e muitas romãs

o cercam por toda a parte;

não há homem que se farte

de suas frutas temporãs;

mas, amigos, não são sãs

para quem delas muito usa,

pois gozando-as não se escusa

a que não faltem maçãs.

 

Calhandras e ruisenhores

nele cantam noite e dia,

fazendo alta melodia

além variações multicolores;

e outras aves melhores

papagaios, filomelas;

cantam sereias serenas

que fazem dormir de amores.

 

A entrada do vergel

a mim foi sempre defesa,

mas, amigos, não me pesa

por bem saber o que há nele;

é mais doce do que o mel

o orvalho que dele mana,

que toda a tristeza sana

o prazer que mana dele.

 

(Cancioneiro de Baena)

Tradução de José Bento, Antologia da Poesia Espanhola das Origens ao Século XIX, Assírio & Alvim, Lisboa 2001.

Acrescento o original castelhano:

 

Este dezir fixo e ordenó el  dicho Maestro Fray Diego por amor e loores de una donzella que era muy fermosa e muy resplandeciente, de la cual era muy enamorado.

 

En un vergel deleitoso

fui entrar por mi ventura,

do fallé toda dulçura

e plazer muy sabroso;

……………………………….

la entrada fue escura,

obrado fue por natura

de morar muy peligroso.

 

En muy espesa montaña

este verger fue plantado,

de todas partes cercado

de ribera muy estraña;

al que una vez se baña

en su fuente perenal,

segun curso natural,

a duçura lo engaña.

 

Pumas e muchas milgranas

lo cercan de toda parte,

non sé home que se farte

de las sus frutas tempranas;

mas, amigos, non son sanas

para quien de ellas mucho usa,

que usando non se escusa

que non menguen las mançanas.

 

Calandras e ruiseñores

en él cantan noche e día,

e fazen grant melodía

en deslayos e discores,

e otras aves mejores,

papagayos, filomenas,

en él cantan las serenas

que adormecen con amores.

 

La entrada del vergel

a mí fué siempre defesa,

mas, amigos, non me pesa

por saber cuanto es en él;

es mas dulce que la miel

el rocío que d’él mana,

que toda tristeza sana

el plazer que sale d’él.

 

Versão sumariamente modernizada por Álvaro Alonso em Poesía de Cancionero, Ediciones Cátedra, Madrid, 1999.

Alguma poesia de Adélia Prado

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Tamayo Rufino - Homem e mulher 1981Esconde-se no relato do trivial que o quotidiano contém, e constitui a substância aparente da poesia de Adélia Prado (1935), uma sabedoria dos seres e da vida que em cada poema, numa volta da história contada, salta para uma compreensão profunda do que é existir.

Poesia que de morte e vida se constrói, e do sentimento de o viver, em seres humanos crentes de Deus e do inexplicável mistério que o mundo consigo carrega.

Mais que interrogar-se, cada poema constata perspectivas diversas do mosaico humano que no mundo passa, e a quem lê transmite uma como que verdade essencial.

Alguns fragmentos um pouco ao acaso:

Tamayo Rufino - A janela indiscreta 1975

No erotismo contido do poema Bairro:

com aquela cara de invencível fraqueza

para os pecados capitais.

 

 

Na memória da mulher que uma vez o foi no poema O Vestido:

Eu o quis com paixão e o vesti como um rito,

meu vestido de amante.

Ficou meu cheiro nele, meu sonho, meu corpo ido.

 

Na morte de quem amamos em As mortes sucessivas:

Quando meu pai morreu, nunca mais me consolei.

Busquei retratos antigos, procurei conhecidos,

parentes, que me lembrassem sua fala,

seu modo de apertar os lábios e ter certeza.

 

Na identificação de pertença ao mundo que nos coube no poema Linhagem:

Todos extremamente pecadores, arrependidos

até à pública confissão de seus pecados

que um deles pronunciou como se fosse todos:

‘Todo homem erra. Não adianta dizer eu

porque eu. Todo homem erra.

Quem não errou vai errar.’

 

 

Numa espécie de oração popular de aflição em Responsório:

 

Santo António

procurai para mim a carteira perdida,

vós que estais desafadigado,

gozando junto de Deus a recompensa dos justos.

Estão nela a paga do meu trabalho por um mês,

documentos e um retrato

onde apareço cansada, com uma cara

que ninguém olhará mais de uma vez

 

Poderia continuar por aí fora. Deixo-vos os poemas citados.

Tamayo Rufino - Homem e a sua sombra 1971Bairro

 

O rapaz acabou de almoçar

e palita os dentes na coberta.

O passarinho recisca e joga no cabelo do moço

excrementos e casca de alpiste.

Eu acho feio palitar os dentes,

o rapaz só tem escola primária

e fala errado que arranha.

Mas tem um quadril de homem tão sedutor

que eu fico amando ele perdidamente.

Rapazes desses

gostam muito de comer ligeiro:

bife com arroz, rodela de tomate,

e ir ao cinema

com aquela cara de invencível fraqueza

para os pecados capitais.

Me põe tão íntima, simples,

tão à flor da pele o amor,

o samba-canção,

o facto de que vamos morrer

e como é bom a geladeira,

o crucifixo que mamãe lhe deu,

o cordão de ouro sobre o frágil peito

Ele esgravata os dentes com o palito,

esgravata é meu coração de cadela.

 

in O coração disparado, 1978

Tamayo Rufino - Mulher compondo o cabelo 1944

O Vestido

 

No armário do meu quarto escondo de tempo e traça

meu vestido estampado em fundo preto.

É de seda macia desenhada em campânulas vermelhas

à ponta de longas hastes delicadas.

Eu o quis com paixão e o vesti como um rito,

meu vestido de amante.

Ficou meu cheiro nele, meu sonho, meu corpo ido.

É só tocá-lo, e volatiliza-se a memória guardada:

eu estou no cinema e deixo que segurem minha mão.

De tempo e traça meu vestido me guarda.

 

in Bagagem, 1976

Tamayo Rufino - Três personagens 1970

As mortes sucessivas

 

Quando minha irmã morreu eu chorei muito

e me consolei depressa. Tinha um vestido novo

e moitas no quintal onde eu ia existir.

Quando minha mãe morreu, me consolei mais lento.

Tinha uma perturbação recém-achada:

meus seios conformavam dois montículos

e eu fiquei muito nua,

cruzando os braços sobre eles é que eu chorava.

Quando meu pai morreu, nunca mais me consolei.

Busquei retratos antigos, procurei conhecidos,

parentes, que me lembrassem sua fala,

seu modo de apertar os lábios e ter certeza.

Reproduzi o encolhido do seu corpo

em seu último sono e repeti as palavras

que ele disse quando toquei seus pés:

‘deixa, tá bom assim’.

Quem me consolará desta lembrança?

Meus seios se cumpriram

e as moitas onde existo

são pura sarça ardente de memória.

 

in Bagagem, 1976

Tamayo Rufino - Familia brincando 1971

Linhagem

 

Minha árvore genealógica

me transmitiu fidalguias,

gestos memoráveis:

meu pai, no dia do seu próprio casamento,

largou minha mãe sozinha e foi pro baile.

Minha mãe tinha um vestido só, mas

que porte, que pernas, que meias de seda mereceu!

Meu avô paterno negociava com tomates verdes,

não deu certo. Derrubou mato pra fazer carvão,

até ao fim da vida, os poros pretos de cinza:

‘Não me enterrem na Jaguara. Na Jaguara, não.’

Meu avô materno teve um pequeno armazém,

uma pedra no rim,

sentiu cólica e frio em demasia,

no cofre de pau guardava queijo e moedas.

Jamais pensaram em escrever um livro.

Todos extremamente pecadores, arrependidos

até à pública confissão de seus pecados

que um deles pronunciou como se fosse todos:

‘Todo homem erra. Não adianta dizer eu

porque eu. Todo homem erra.

Quem não errou vai errar.’

Esta sentença não lapidar, porque eivada

dos soluços próprios da hora em que foi chorada,

permaneceu inédita, até eu,

cuja mãe e avós morreram cedo,

de parto, sem discursar,

a transmitisse a meus futuros,

enormemente admirada

de uma dor razão alta,

de uma dor dão funda,

de uma dor tão bela,

entre tomates verdes e carvão,

bolor de queijo e cólica.

 

in O coração disparado, 1978

Tamayo Rufino - Anuncio de cortesia 1934

Responsório

 

Santo António

procurai para mim a carteira perdida,

vós que estais desafadigado,

gozando junto de Deus a recompensa dos justos.

Estão nela a paga do meu trabalho por um mês,

documentos e um retrato

onde apareço cansada, com uma cara

que ninguém olhará mais de uma vez

a não ser vós, que já em vida

vos apiedáveis dos tormentos humanos:

sumiu a agulha da bordadeira,

sumiu o namorado,

o navio no alto-mar,

sumiu o dinheiro no ar.

Tenho que comprar coisas, pagar contas,

dívidas de existir neste planeta convulso.

Prometo-vos uma vela de cera,

um terço do meu salário

e outro que rezarei

pra entoar vossos louvores, ó Martelo dos Hereges,

cuja língua restou fresca

entre vossos ossos intacta.

Servo do Senhor, procurai para mim a carteira perdida

e, se tal aprouver a Deus para a salvação da minha alma,

procurai antes me ensinar

a viver como vós,

como um pobre de Deus,

Amen!

 

in O Pelicano, 1987

Tamayo Rufino - Duas mulheres em repouso 1984

Termino com uma peculiar visão de como Deus é a medida de tudo:

 

Tamayo Rufino - Cabeça que sorri 1973

Parâmetro

 

Deus é mais belo que eu.

E não é jovem.

Isto, sim, é consolo

 

in A faca no peito, 1988

Tamayo Rufino - Fantasma 1982

Acompanham o artigo imagens de pintura de Rufino Tamayo (1899-1991).

Elogio do Homem – fragmento de Antígona de Sófocles

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Très Riches Heures 06Assistimos hoje, nas tragédias aéreas e outras em que mortes acontecem, à angústia e ansiedade dos familiares das vítimas em recuperar os corpos dos seus e providenciar-lhes sepultura. É algo que parece uma necessidade humana interior, e funciona com castigo insuportável ser impedido de o fazer.

Essa é a motivação de Antígona na tragédia do mesmo nome de Sófocles (497/6-406/5 a.C.) ao desobedecer à ordem de Creonte, dando sepultura ao irmão morto, e com isso enfrentando o castigo de ser emparedada viva.

Além da terrível consequência pessoal com origem na motivação afectiva, são vastas para o homem enquanto ser social as implicações que atravessam o conflito vivido no desenrolar da tragédia.

Confrontam-se nela a fonte do poder e o seu exercício, a necessidade de obediência à lei para a estabilidade de uma sociedade organizada, e os limites da vontade de quem manda, exigindo o equilíbrio entre exercício legítimo de poder e arbítrio.

Pelo meio temos, numa fala do coro que permanece entre os mais famosos poemas do legado grego, o registo de quanto o ser humano é capaz, recordando no final que apenas a morte nos faz parar.

Très Riches Heures 03Como refere Maria Helena da Rocha Pereira (MHRP) em nota à sua tradução que abaixo transcrevo, na ode o coro celebra as conquistas do homem: a navegação, a agricultura, a caça, a pesca, a domesticação dos animais, a fala, o pensamento, a política, a construção de casas, a medicina.

De então para cá, se o essencial das conquistas que propiciam a continuidade da espécie se mantém, é sobretudo na luta contra a doença que nos nossos dias as aptidões humanas se mostram mais efectivas, e seriam permanente motivo de espanto e admiração se por pouco parássemos a olhar para trás, sem necessidade de recuar muito no tempo.

Très Riches Heures 09O texto de Antígona (442 a.C.) de Sófocles tem feito correr rios de tinta, ocupado pensadores, e estimulado a criação artística. Leitores curiosos encontram em Antigonas de George Steiner um panorama desta vastidão. Acresce que a peça é de leitura compulsiva e de avassalador efeito, pelo menos na tradução de MHRP.

Termino citando Ruy Belo num poema que há pouco tempo trouxe ao blog:

O desafio de antígona e de prometeu

é hoje ainda o nosso desafio

embora como um rio o tempo haja corrido

Do sono da desperta Grécia  vv. 27-29

Très Riches Heures 10Se já referi a tradução de MHRP, que mais à frente virá, fazendo justiça ao poema com uma fiel tradução a partir do grego, começo  no entanto, com uma outra versão, pela mão da inspiração poética de David Mourão-Ferreira:

 

Elogio do Homem

 

Inúmeras são do mundo as maravilhas,

mas nenhuma que ao homem se compare:

é vê-lo sobre as ondas, entre as ilhas,

as águas percorrer do branco mar;

ou é vê-lo, diante da mãe-Terra,

sem pausa revolvê-la com seus potros,

fazendo que dos grãos que a terra encerra

em frutos se desdobrem todos, todos!

 

Ele, só, captura com seus laços,

ou com redes que faz entrelaçadas,

os pássaros ligeiros dos espaços,

os peixes que se ocultam entre as vagas…

E consegue os cavalos ir domando,

adrede utilizando suas manhas;

ao bicho mais feroz torná-lo manso,

como acontece ao touro das montanhas.

 

Sob tectos, se abriga da friagem;

sob tectos, das chuvas inclementes…

E vede: o pensamento, a linguagem

sua conquista são exclusivamente.

É o Ser dos recursos infindáveis:

até contra o futuro se faz forte;

e cura-se de males incuráveis…

Aquilo que o detém? Somente a Morte.

 

Antígona vv. 332-62

 

Tradução de David Mourão-Ferreira in Vozes da poesia europeia – I

Très Riches Heures 07E agora a tradução da Prof. Rocha Pereira:

 

Coro

 

Muitos prodígios há: porém nenhum

maior do que o homem.

Esse, co’o sopro invernoso do Noto (1),

passando entre as vagas

fundas como abismos,

o cinzento mar ultrapassou. E a terra

imortal, dos deuses a mais sublime,

trabalha-a sem fim,

volvendo o arado, ano após ano,

com a raça dos cavalos laborando.

 

E das aves as tribos descuidadas,

a raça das feras,

em côncavas redes

a fauna marinha, apanha-as e prende-as

o engenho do homem.

Dos animais do monte, que no mato

habitam, com arte se apodera;

domina o cavalo

de longas crinas, o jugo lhe põe,

vence o touro indomável das alturas.

 

A fala e o alado pensamento,

as normas que regulam as cidades

sozinho aprendeu;

da geada do céu, da chuva inclemente

e sem refúgio, os dardos evita,

de tudo capaz.

Na vida não avança sem recursos.

Ao Hades somente

não pode fugir.

De doenças invencíveis os meios

de escapar já com outros meditou.

 

Da sua arte o engenho subtil

p’ra além do que se espera, ora o leva

ao bem, ora ao mal;

se da terra preza as leis e dos deuses

na justiça faz fé, grande é a cidade;

mas logo a perde

quem por audácia incorre no erro.

 

(1) vento sul

 

Fragmento de Antígona, vv. 332-371

 

Sófocles, Antígona, 3ª edição, INIC, Coimbra, 1992.

Très Riches Heures 02Acompanham o artigo algumas das iluminuras dos irmãos Limbourg para o livro Les Très Riches Heures du Duc de Berry (1416) dando conta de tarefas do calendário agrícola: sementeiras, colheitas, vindima.