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Não é de hoje, nem de ontem, uma espécie de insatisfação entre o quotidiano vivido e o desejo do que afinal nos importa mais, levando o pensamento a confortar-se com o amanhã que virá.

Na forma lapidar do epigrama, e fazendo uso de uma espécie de redução ao absurdo sobre o onde o amanhã se encontra, Marcial (40-102) exorta-nos a viver ontem o que desejamos, pois o hoje pode já ser tarde, fazendo-nos lembrar que o amanhã pode não existir.

 

Marcial, Livro V, epigrama 58

 

“É amanhã que vou viver, é amanhã” — dizes, Póstumo, sempre.

Diz-me cá: esse amanhã, Póstumo, quando é que chega?

A que distância fica esse amanhã? onde pára? ou aonde se deve procurar?

Se calhar junto dos Partos ou dos Arménios se esconde?

Esse amanhã já tem a idade de Príamo ou Néstor.

Esse amanhã, diz-me cá, por quanto se pode comprar?

É amanhã que vais viver? Viver hoje, Póstumo, já é tarde:

sensato é quem, Póstumo, viveu ontem.

 

Tradução de Paulo Sérgio Ferreira

in Marcial, Epigramas, vol II, Edições 70, Lisboa, 2000.

 

Depois da tradução a partir do original latino, entrego o leitor à versão de David Mourão-Ferreira onde o intemporal do poema se capta, transmitindo-nos na sua verdade poética a reflexão sobre a urgência de viver o que importa para lá da espuma dos dias.

 

Marcial, Livro V, epigrama 58

 

“Amanhã”, dizes tu. “Viverei amanhã.”

Quando virá, porém, esse tal amanhã?

Ah! que sabemos nós do dia de amanhã?

Em que reino se esconde o rosto de amanhã?

Que idade tem ao certo o vulto de amanhã?

É coisa que se venda? É coisa que se compre?

Que certeza tens tu de estar vivo amanhã?

 

Tarde já é viver no próprio dia de hoje.

Mais sábio é começar a vivermos desde ontem.

 

in Vozes da Poesia Europeia — I

Colóquio Letras, nº163, Jan-Abr 2003.

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