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vicio da poesia

Category Archives: Poetas e Poemas

Amor e desejo em três poemas de Jorge de Sena

17 Segunda-feira Mar 2014

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

≈ 3 comentários

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Edward Hopper, Jorge de Sena, Matisse

Matisse-Ronsard 08A600pxAgora que regressa às livrarias a Obra Poética de Jorge de Sena (1919-1978) (ainda que apenas a poesia reunida em livro pelo poeta em vida) tão escandalosamente ausente delas há mais e 20 anos, abro o apetite a novos leitores com dois poemas onde o amor se cumpre no corpo da amada:

… cristalino pó de amantes enlaçado.

“Conheço o sal…”

Conheço o sal da tua pele seca

depois que o estio se volveu inverno

da carne repousada em suor nocturno.

 

Conheço o sal do leite que bebemos

quando das bocas se estreitavam lábios

e o coração no sexo palpitava.

 

Conheço o sal dos teus cabelos negros

ou louros ou cinzentos que se enrolam

neste dormir de brilhos azulados.

 

Conheço o sal que resta em minhas mãos

como nas praias o perfume fica

quando a maré desceu e se retrai.

 

Conheço o sal da tua boca, o sal

da tua língua, o sal dos teus mamilos,

e o da cintura se encurvando em ancas.

 

A todo o sal conheço que é só teu,

ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,

um cristalino pó de amantes enlaçados.

Madrid, 16/1/1973

“Tu és a terra…”

Tu és a terra em que pouso.

Macia, suave, terna, e dura o quanto baste

a que teus braços como tua pernas

tenham de amor a força que me abraça.

 

És também pedra qual a terra às vezes

contra que nas arestas me lacero e firo,

mas de musgo coberta refrescando

as próprias chagas de existir contigo.

 

E sombra de árvores, e flores e frutos,

rendidos a meu gesto e meu sabor.

E uma água cristalina e murmurante

que me segreda só de amor no mundo.

 

És a terra em que pouso. Não paisagem,

não Madre Terra nem raptada ninfa

de bosques e montanhas. Terra humana

em que me pouso inteiro e para sempre.

Londres, 15/3/1973

Concluo com o relato de um daqueles intensos desejos que uma desconhecida pode desencadear no sem que fazer de uma viagem solitária, onde o inesperado é sempre um sonho escondido.

 Compartimento de comboio 1938

No comboio de Edimburgo a Londres

Que coisas se fariam — tão de seios

redonda e esbelta aqui sentada e loira

e lendo um livro idiota à minha frente!

As pernas que se juntam quanto abri-las

a duras mãos com dedos titilantes

para depois se unirem apertando

em úmidas paredes o que se entesa vendo-a…

Poemas publicados originalmente no livro Conheço o sal… e outros poemas (1974), transcritos de Poesia III, 2ª edição, Edições 70, Lisboa, 1989.

 

Abre o artigo um desenho de Matisse (1859-1964) para um livro de poemas de Ronsard, Les amours de Ronsard, escolha e ilustração do mestre, e das mais belas obras que a biblioteca contem.

Fecha com uma pintura de Edward Hopper (1882-1967) de 1938.

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Esperança segundo Czeslaw Milosz

16 Domingo Mar 2014

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

≈ 2 comentários

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Czeslaw Milosz

EsperançaHá quem diga que os olhos nos iludem

E que nada existe, apenas aparenta,

Mas justamente esses não têm esperança.

Foge à reflexão filosófica o conceito de esperança: de que forma organizamos em nós o mundo e como nesse estar entra a Esperança. Não é sentimento, não é crença; fará talvez parte da força vital que todos os dias nos leva a levantar cabeça, e quando desaparece, o fim bateu-nos à porta.

De forma admirável, como só a poesia por vezes consegue, Czeslaw Milosz (1911-2004), num poema do tempo da segunda guerra mundial dá-nos uma chave possível:

 

Esperança surge, quando se acredita / Que a Terra não é um sonho,…

 

Na versão inglesa feita pelo autor, a abertura do poema acima transcrita escreve-se assim:

 

Hope is with you when you believe / The earth is not a dream…

 

O poema publicado no livro “Ocalenic” (Salvação), 1945, integra um conjunto de vinte poemas sub-titulado O Mundo. Antecede-o o poema Fé e segue-se-lhe o poema Amor, para os quais não encontrei tradução portuguesa. Se resultar a minha tentativa de os verter em português aqui aparecerão. Por agora, com Esperança vos deixo.

 

 

Esperança

 

Esperança surge, quando se acredita

Que a Terra não é um sonho, mas um corpo vivo,

Que não mentem o ouvido, o tacto, a visão

E que todas as coisas que aqui conhecias

São como um jardim visto do portão.

 

Entrar lá não se pode. Mas ele existe com rigor.

Se melhor olhássemos e com mais sabedoria,

No jardim do mundo uma nova flor

E mais do que uma estrela se avistaria.

Há quem diga que os olhos nos iludem

E que nada existe, apenas aparenta,

Mas justamente esses não têm esperança.

Pensar que ao virar as costas

O mundo desaparecerá de repente

Como que roubado por um delinquente.

 

in “Ocalenic” (Salvação), 1945

 

Tradução de Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves, publicada em Alguns gostam de poesia, Antologia, Czeslaw Milosz e Wislawa Szymborska, Cavalo de Ferro Editores, Lisboa, 2004.

 

A foto foi feita por mim, há alguns anos, nesta cidade de Lisboa.

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Portugal – soneto de Miguel de Unamuno e homenagem de Torga ao filósofo-poeta

14 Sexta-feira Mar 2014

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Miguel de Unamuno, Miguel Torga

Jean Froissart - cerco lisboa em 1384Lermo-nos pelo olhar dos outros, quando inteligentes e despreconceituados, ajuda-nos a perspectivar uma história e um sentir colectivo que frequentemente parece perdido nestes conturbados tempos de crise.

É sabido o conhecimento, o carinho, e admiração de Don Miguel de Unamuno (1864-1936) por Portugal, pela cultura portuguesa, por terras e gentes de Portugal; o que a correspondência conhecida, trocada com grandes vultos da cultura portuguesa, e o livro Por Tierras de Portugal y de España evidenciam.

Transcrevo hoje o poema PORTUGAL dando na sua forma condensada em soneto, algo do que nos define enquanto povo: a geografia que nos desenhou e a história que deixou para as mulheres a guarda do que ficou, quais leoas de olhar desconfiado protegendo as crias, e a ansiedade expectante do que o futuro trará. Partem os homens na busca de melhor vida. Regressarão?

 

Não sei se será este PORTUGAL o poema a que Unamuno se refere em carta a Manuel Laranjeira datada de Salamanca, 08-10-1908, onde diz a certa altura:

“Voltei outra vez a um poema que comecei há três anos no Porto e a que chamo Portugal. Essa sua terra atrai-me e atrai-me sobretudo por causa das suas desgraças e prostração.“

 

PORTUGAL

 

Do atlântico mar na praia areosa

uma matrona descalça e desgrenhada

senta-se ao pé de uma serra coroada

por triste pinheiral. Nos joelhos pousa

 

os cotovelos e nas mãos a ansiosa

face, e olhos de leoa desconfiada

crava no poente; o mar dá a toada

trágica, de altos feitos sonorosa.

 

Fala de vastas terras e de azares

enquanto ela, seus pés nessas espumas

banhando, sonha no fatal império

 

que se sumiu nos tenebrosos mares,

e olha como entre agoureiras brumas

se ergue D. Sebastião, rei do mistério.

 

Salamanca, 28 IX 1910

Tradução de José Bento in Miguel de Unamuno, Antologia Poética, Assírio & Alvim, Lisboa, 2003.

 

Termino com o poema-homenagem que Miguel Torga (1907-1995) escreveu para Unamuno.

 

Unamuno

 

D. Miguel…

Fazia pombas brancas de papel

Que voavam da Ibéria ao fim do mundo…

Unamuno Terceiro!

(Foi o Cid o primeiro,

D. Quixote o segundo.)

 

Amante duma outra Dulcineia,

Ilusória, também

(Pátria, mãe,

Ideia

E namorada),

Era seu defensor quando ninguém

Lhe defendia a honra ameaçada!

 

Chamado pelo aceno da miragem,

Deixava o Escorial onde vivia,

E subia, subia,

A requestar na carne da paisagem

A alma que, zeloso, protegia.

 

Depois, correspondido,

Voltava à cela desse nosso lar

Por Filipe Segundo construído

Com granito da fé peninsular.

 

E falava com Deus em castelhano.

Contava-lhe a patética agonia

Dum espírito católico, romano,

Dentro dum corpo quente de heresia.

 

Até que a madrugada o acordava

Da noite tumular.

E lá ia de novo o cavaleiro andante

Desafiar

Cada torvo gigante

Que impedia o delírio de passar.

 

Unamuno Terceiro!

Morreu louco.

O seu amor, por ser demais, foi pouco

Para rasgar o ventre da Donzela.

D. Miguel…

Fazia pombas brancas de papel,

E guardava a mais pura na lapela.

 

Publicado em Poemas Ibéricos (1ªedição em 1965).

 

Abre o artigo uma iluminura medieval figurando o cerco castelhano a Lisboa durante a crise de 1383-1385 — “Se Lisboa se não opusera todo o reino se perdera, D. João I”.

Termino com outra iluminura, desta vez pretendendo ilustrar a batalha de Aljubarrota onde Castela foi definitivamente derrotada, e figurou como heroína a célebre Padeira de Aljubarrota.

Batalha Aljubarrota

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Solidão e velhice em dois poemas de Fernanda de Castro

11 Terça-feira Mar 2014

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Fernanda de castro

foto 272 Z BW600pxQue lhe resta, coitada, / à Senhora de idade?

Resta-lhe pouco ou nada, / porém resta-lhe tudo:

uma grande saudade, / um sofrimento mudo / que é reserva e pudor,

às vezes uma flor, / e a sua dignidade.

A biografia de Fernanda de Castro (1900-1994) pesa hoje, ainda, sobre a sua obra poética, impedindo uma análise despida das leituras políticas que a biografia implica. Terá que ser a geração agora nos 30 anos, ou mais nova, para quem as contas do Estado Novo sejam assunto arrumado em livros de biblioteca, a fazer a leitura desta poesia, no seu valor literário.

 

O melhor da sua poesia surge no relato de pequenos quadros urbanos onde uma expressão de simpatia humana comove. Essa simpatia humana já se encontrava nas quadras de sabor popular surgidas no livro Danças de Roda em 1921, e que a autora escolheu deixar de fora da compilação da sua poesia reunida em Poesia (1919-1969).

Surge nesta compilação um poema narrativo, inédito até aí, Bloco 65, o qual dá conta do ambiente urbano e de vizinhança na Lisboa moderna que à época surgia. Ao lê-lo, é para a prosa poética de Irene Lisboa que a memória vai, o que vistas as datas das obras de uma e outra, poderá significar que Fernanda de Castro foi permeável à obra da escritora perseguida pelo Estado Novo. A dimensão do poema, que se estende por 60 páginas do livro, inibe no blog a sua transcrição. Fica a nota.

É a Urgente, ultimo livro de poemas publicado em 1989 pela escritora, que vou buscar dois poemas que de uma forma pungente contam da solidão e da velhice, o que à nossa volta encontramos, se pararmos para olhar e ver. Confidenciava-me há poucos anos pessoa amiga que entre as suas relações, uma mulher lhe dizia: a viver sozinha prefiro qualquer pessoa comigo para pelo menos ouvir uma porta bater.

 

Solidão

Solidão:

ouvir passos, sabendo de antemão

que ninguém vai passar,

bater à porta.

Abrir, ansiosa, a caixa do correio,

duas vezes por dia,

sabendo muito bem

que está vazia.

Olhar o telefone horas a fio,

ano após ano,

tocar a campainha

e ouvir dizer:”Desculpe, foi engano.”

Ouvir ranger a porta do ascensor,

senti-lo estremecer,

arrancar com uma espécie de estertor,

e, enfim, parar,

mas sempre noutro andar.

Pôr na mesa um talher

para alguém que vier,

sabendo muito bem

que ninguém vem.

Pôr um vestido novo,

um anel, um colar,

sabendo que ninguém vai reparar.

Ver o cabelo embranquecer aos poucos,

a pele envelhecer, perder o viço,

e ninguém dar por isso.

Morrer. E alguém ler num jornal:

Morreu Fulana. O funeral…

 

A senhora de Idade

A Senhora de idade,

de tão bons sentimentos,

tão bonitas maneiras,

vive dos rendimentos.

Vive, não, sobrevive.

A roupa está no fio,

tem, porém, o seu brio,

não se queixa a ninguém.

Vive triste, sozinha,

e pouco sai de casa

porque o barulho a arrasa.

Depois, sair com quem?

Não tem filhos, é viúva

e teme a solidão,

receia o vento, a chuva.

Apetece-lhe, às vezes,

ver os barcos no rio,

os pombos no Rossio,

mas não, custa-lhe a andar,

o calçado está caro

e cada mês que passa

o dinheiro é mais raro.

Mas de que vive então?

De alguns copos de leite,

de chá e de tisanas,

de pão e duma sopa,

a mesma, quase a mesma,

semanas e semanas.

Vai à missa, ao domingo,

e às vezes, quando há sol

ou cheira a maresia,

compra um fruto, uma flor,

para ter companhia.

Que lhe resta, coitada,

à Senhora de idade?

Resta-lhe pouco ou nada,

porém resta-lhe tudo:

uma grande saudade,

um sofrimento mudo

que é reserva e pudor,

às vezes uma flor,

e a sua dignidade.

Foi feita por mim a foto que abre o artigo.

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Café — poema de Saúl Dias

07 Sexta-feira Mar 2014

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Júlio, Saúl Dias

Julio - Espera 1930Saúl Dias pseudónimo como poeta de Júlio Maria dos Reis Pereira (1903-1983), irmão de José Régio, viu a sua obra como poeta ficar escondida na sombra gigantesca do irmão, sobressaindo a sua obra plástica. Nesta  (assinada Júlio) há, sobretudo nas aguarelas e desenhos, uma magia e um quase pudor que desencadeia uma imensa ternura. Não assim nos óleos até aos trinta anos onde a crueza do mundo, na agressividade do colorido se impõe.

É na linha desta pintura onde a magia dos desenhos e aguarelas espreita, o poema Café, de 1934 suponho, que mais à frente transcrevo.

Julio - Aspiracao 1926 Por entre os vapores etílicos 

as garrafas dos álcoois e absintos,

em garbos áticos,

oferedam viáticos…

 sonha-se o amor:

julio - A menina e o poeta

 

E ela vem sempre /como naquela hora / estranha, delicada / e debruada a encanto.

Julio - Menina

Café

 

Quando,

à hora do Jazz,

a minha cabeça rola

pelo tecto pintado do café.

a parede em frente é uma visão de escola

onde um menino de bibe e gola

sonha com aquilo que não é.

 

E até os criados

têm ares purificados

como ascetas dum branco ritual.

E os mármores das mesas,

Com desenhos obscenos,

surdinam várias rezas…

 

E as garrafas dos álcoois e absintos,

em garbos áticos,

oferedam viáticos…

 

E há toalhas brancas e há velas acesas!

 

E ela vem sempre

(só a cabeça dela,

que o corpo

perdeu-o, porventura,

nalgum escuro quarto de aluguer).

Ela vem sempre,

Como naquele dia,

serena e amavia,

única e excepcional.

 

O pianista

comeu os dentes do piano

e canta, de pernas para o ar,

uma canção azul.

O violinista adormeceu de pé numa cadeira

e o violino dá som sem ninguém lhe tocar.

 

E ela vem sempre

como naquela hora

estranha, delicada

e debruada a encanto.

Pura como a água, suave como um manto.

 

O dia é Dia Santo…

 

Termino com uma pequena amostra da pintura de Júlio (dos Reis Pereira)  onde ora a influência de Chagall ora a influência de George Grosz se observa.

 

A qualidade e resolução das imagens é a possível entre o material que circula na net, e infelizmente é muito baixa.

 Julio - À janela 1923

 

Julio - Nocturno 1929

 

Julio - O Velho e a menina

 

 

Julio - O burguês e a menina 1931Julio - Serie poeta tinta da china 1960

Julio - Nocturno 1927Julio - Serie poeta Aguarela

 

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Curta visita à poesia de Jorge Sousa Braga

03 Segunda-feira Mar 2014

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Bosh, Gauguin, Goya, Jorge Sousa Braga, Leonardo da Vinci, Picasso

The Cure of Folly (Extraction of the Stone of Madness) 200px

Todos aqueles que nos primeiros dias de Março perscrutavam atentamente o céu ficaram desapontados. Este ano as andorinhas chegarão atrasadas, devido a uma greve dos controladores de voo.

 

Os livros vêm habitualmente ao meu encontro, e aconteceu uma destas tardes de novo. Tencionava sair mas com a invernia lá fora era tudo o que não me apetecia. Peguei ao acaso num livro da estante: era a poesia reunida de Jorge Sousa Braga (1957). Comecei a ler e por um par de horas gozei o que não esperava com a pensada saída para a rua.

 

São familiares aos leitores do blog traduções poéticas de Jorge Sousa Braga, frequentemente grandes poemas em português, mas da sua poesia original nunca aqui falei.

 

Há sobretudo três  motivos que me fazem gostar de muitos dos poemas que escreveu: a concisão do verso, a cultura que subjaz aos poemas, e o não fugir no assunto à crueza da vida. O modo corrosivo de ecos surrealizantes como nos conta a vida em alguns dos poemas acrescenta um sabor irresistível a esta poesia. Em vários poemas da reduzida escolha de hoje o absurdo reina em grande esplendor. Os poemas dispensam comentários de intermediação e aí ficam.

Leonardo da Vinci - Mona Lisa100px

Resolvido o enigma do sorriso da Gioconda: um dos meninos do Botticelli surpreendeu-a, de noite, com um dedo acariciando o baixo ventre.

Um levantino apaixonou-se pelo crepúsculo e estabeleceu aí residência permanente. Vive agora num avião que se desloca em sentido inverso ao da rotação da terra.

As autoridades marítimas investigam o misterioso desaparecimento da linha do horizonte ao longo de toda a costa atlântica.

Alguns enxames de abelhas invadiram o Museu do Louvre e exploraram cuidadosamente todas as naturezas-mortas com flores, não tendo deixado um único grão de pólen.

 

Les Demoiselles d'Avignon - 1907-19 150px

As demoiselles de Avignon foram surpreendidas numa rusga da polícia, nas imediações do museu.

 

Um homem disfarçado de arco-íris assaltou em pleno dia uma agência bancária mesmo no centro da cidade; alvejado a tiro na perseguição que depois lhe foi movida pela polícia, desfez-se numa bátega de chuva.

 

Um homem que se propusera pintar o Monte Branco de azul e que para o efeito comprara várias latas de tinta e um pincel desapareceu no meio de um violento nevão.

 

Passara quarenta anos de binóculos assestados, a seguir as migrações das aves e a tomar estranhos apontamentos num caderno. A última vez que foi visto voava a meia altura em direcção ao sul.

 

Deixara de acreditar nas ciências tradicionais, desde que se sentara em frente de uma montanha e gritava morango e a montanha lhe devolverá cinquenta alperces, e ele gritara vermelho e a montanha lhe devolvera rosa rosa rosa, um rosa cada vez mais ténue.

 

Goya - Os fusilamentos 175px

Cansados de estarem sempre na mesma posição, os fuzilados de Goya resolveram inverter os papéis e são agora eles que seguram os fusos.

Gauguin_Paul-The_Spirit_of_the_Dead_Keep_Watch 200px

Uma das vahinêes do Gauguin estava perdendo a cor de pêra-abacate. O conservador do museu decidiu proporcionar-lhe umas curtas férias de restabelecimento no Taiti.

in A greve dos controladores de voo

 

Escrito na margem de um rio

Nunca ouvi dizer

que alguém tivesse morrido

afogado em esperma

 

Streape-tease

 

Quanto mais me dispo

menos nu

me sinto

in Plano para salvar Veneza

 

De novo o silêncio

O silêncio é como se fosse água. Daquela água pura da montanha que se bebe directamente pelo coração.

 

O guarda-rios

É tão difícil guardar um rio

quando ele corre

dentro de nós

 

Cataratas

Nenhum rio consegue voar durante muito tempo. Uns segundos no máximo e ei-los que se despenham de muitos metros de altura. Ainda mal refeitos da queda, começam logo a correr a uma velocidade vertiginosa. E de novo se despenham. E só desistem quando se lhes depara o mar pela frente.

 

A última pincelada

Viveu em tempos um pintor que nunca conseguia acabar de pintar uma ave, fosse ela uma cegonha ou uma garça. Quando se preparava para dar a ultima pincelada, ela levantava voo.

 

E o pintor ficava muito tempo ainda a persegui-la com o pincel no céu azul…

 

Foz

Com água no bico

aves marinhas combatem

o incêndio do crepúsculo

 

Sete da manhã

o sol acorda

com olheiras enormes

 

Celas

Lua cheia:

com esta moeda de oiro

posso comprar um sorriso

in Os pés luminosos

 

Canção

Este esperma é puro

como a água de um iceberg

 

Colhido por masturbacao

centrifugado capacitado…

 

Bebe deste esperma simples

ou com gelo e limão

 

Só assim conseguirás

a redenção.

 

Tatuagem

Tinha uma rosa negra tatuada

num dos grandes lábios. E o

 

Púbis religiosamente depilado

como se de ervas daninhas se tratasse

in A ferida aberta

 

A erva da fortuna

A erva da fortuna cresce como por encanto nas orelhas dos políticos, o primeiro-ministro proclama a amnistia para os cucos dos relógios, o degelo nas relações internacionais restabelece o nível das águas nas albufeiras, o ministro da energia esfrega as mãos de contente. Embora o boletim meteorológico seja controlado pelo governo, nuvens cor de chumbo toldam frequentemente o horizonte, os pescadores de águas turvas procuram o alto mar, uma chuva de impostos cai de imprevisto, ah a chuva na primavera, escrevem os poetas.

 

As andorinhas podem passar livremente a fronteira. Os policias oferecem grinaldas aos condutores de veículos mal estacionados. O cio invade a assembleia. Os deputados bombardeiam-se com pólen. Um nostálgico do outono argumenta: a primavera de Praga também foi de lagartas nas estradas.

in De manhã vamos todos acordar com uma pérola no cu

 

Os poemas foram originalmente publicados nos livros mencionados e transcritos de O Poeta Nu [poesia reunida], Assírio & Alvim, Lisboa, 2007.

 

As imagens respeitam às pinturas assunto dos poemas excepto para Gauguin em que nenhuma das pinturas do Taiti é explicitamente referida e é escolha minha.

O poeta é profissionalmente médico obstetra e não neuro-cirurgião. A escolha de A extração da pedra da loucura, pintura de Hieronymous Bosch (1450-1516) para abrir o artigo decorre apenas das pistas que a sua poesia me enviou para ler o mundo.

 

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Tu que pareces um perfume desenhado de mulher — José Gomes Ferreira

02 Domingo Mar 2014

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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José Gomes Ferreira, Paula Rego

A dança 1988 acrilico sobre papel

XXXVI

 

Vive em cada minuto

a tua eternidade

— sem luto

nem saudade.

 

Vive-a pleno e forte

num frenesim

de arremesso.

 

Para que a tua morte

seja sempre um fim

e nunca um começo.

 

Poema XXXVI de Sonâmbulo (1941-42-43).

 

 

Carnaval, tempo de música, de dança, de divertimento, quando os interditos ficam fora do agir, traz consigo o sabor da vida fácil e :

 

Tu que rodopias, leve,

no desdobrar de seda

que paira neste vento de música

que só as pétalas entendem…

 

levas-me ao regaço da memória quando o gozo era simples e sem sobressaltos de tristeza,

 

Tu que…

            (Ah! tu que me pesas nos braços

como se trouxesses um esqueleto de lágrimas

e uma bola de metal no coração

ferrugenta do meu remorso.)

 

Agora que esquartejei o poema de José Gomes Ferreira (1900-1985), convido-vos à sua leitura integral, sem os meandros que à memória me trouxe.

 

VIII

 

Toda a gente me inveja

porque ando contigo nos braços…

 

Tu que pareces um perfume desenhado de mulher

vestida de pólen

e dois olhos que são dois instrumentos modernos

a auxiliarem a melodia do jazz…

 

Tu que rodopias, leve,

no desdobrar de seda

que paira neste vento de música

que só as pétalas entendem…

 

Tu que…

            (Ah! tu que me pesas nos braços

como se trouxesses um esqueleto de lágrimas

e uma bola de metal no coração

ferrugenta do meu remorso.)

 

Poema VIII de Cabaré (1933),

 

Poemas transcritos de Poeta Militante, 1º volume, Moraes Editores, Lisboa, 1977.

A imagem de abertura traz uma pintura de Paula Rego – A dança.

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Miradoiro — poema de António Manuel Couto Viana

28 Sexta-feira Fev 2014

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Antonio Manuel Couto Viana

Miradouro

Hoje, que a luz banha Lisboa e o cheiro da Primavera começa a soprar, da janela onde vejo o rio, ocorre-me este poema de António Manuel Couto Viana (1923-2010), Miradoiro, pérola no descrever do sentimento que a paisagem inspira.

A foto, fi-la, anos vai, ao olhar Lisboa a partir de Alcochete, na margem sul do rio Tejo.

 

Miradoiro

 

Frágeis, acenam alvos lenços d’asas

As gaivotas que a brisa, mansa, embala.

O rio azula, emoldurado em casas

— Que lindo quadro para pôr na sala!

 

No lírico perfil fogem veleiros,

Onde embarquei uns restos de ansiedade;

E, no cais, os guindastes e os cargueiros

São prática e viril realidade.

 

É mentira, talvez,

Assinar com meu nome esta poesia:

O Tejo foi quem na fez…

Cheira a limos, a sal, a maresia!

 

Poema publicado no livro No Sossego da Hora, 1949, Prémio Antero de Quental.

Transcrito de Líricas Portuguesas, 3ªSérie, Volume II, selecção e apresentação de Jorge de Sena, Edições 70, Lisboa 1983.

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Estranha coisa esta, a poesia — Fernando Namora

26 Quarta-feira Fev 2014

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Bela Kadar, Fernando Namora

kadar Bela  (1877-1955) figures in a square watercolor on cardboardA

Estranha coisa esta, a poesia,

que vai entornando mágoa nas horas

como um orvalho morno escorrendo dos vidros

numa tarde incorpórea…

 

A obra em prosa de Fernando Namora (1919-1989) é um exemplo lapidar do efémero da fama e da volubilidade do gosto das multidões. Escritor de best-sellers, vendendo de cada obra aos milhares de exemplares, esgotando edições sucessivas, repousa hoje no mais absoluto esquecimento.

Tendo começado por publicar três livros de poesia (1938, 1940, 1941), reuniu uma escolha desses poemas com alguns inéditos num único volume — As Frias Madrugadas— e só cerca de trinta anos volvidos (Marketing, 1969) voltou a publicar novos poemas.

Esta obra poética permaneceu na sombra do sucesso da prosa. Folheio-a hoje e encontro alguns poemas que vale a pena conhecer.

 

Em inicio de percurso a desilusão com as mulheres em A outra canção perdida, embora com a porta aberta à esperança:

 

…

Apenas, do logro,

me resta o travo

dos desejos amargos,

…e ainda às vezes

aquela esperança enganosa

de que passe

quem nunca no meu caminho passou.

 

fecho o périplo com o lânguido abandono à desilusão em Alheamento, fazendo passagem pelo esperançoso sonho do amor em Balada de sempre.

 Kadar Bela 00

A outra canção perdida

 

Das mulheres

que na minha vida passaram

ficou-me aquela lembrança

de um fio de areia

sobre o regato sedento,

de qualquer frase

que se ficou no tinteiro,

de um cigarro caro

que se não fumou além do meio,

de um grito rouco

gorado nos ouvidos,

de folhas de um diário inacabado

que o tempo desbotou,

de vinho

que não deixou nódoa no soalho…

 

Sinto a alma ávida

como sempre

e um cansaço inútil

de bater a tantas portas.

 

Apenas, do logro,

me resta o travo

dos desejos amargos,

…e ainda às vezes

aquela esperança enganosa

de que passe

quem nunca no meu caminho passou.
Kadar_Bela-Music

 

Balada de sempre

 

Espero a tua vinda,

a tua vinda,

em dia de lua cheia.

Debruço-me sobre a noite

inventando crescentes e luares.

Espero o momento da chegada

com o cansaço e o ardor de todas as chegadas.

Rasgarás nuvens, estradas,

abrindo clareiras

nas vielas de ciladas.

Saltarás por cima de mares,

de planícies e relevos

— ânsia alada

no meu desejo imaginada.

 

Mas…

enquanto deixo a janela aberta

para entrares,

o mar,

aí, além,

lambe-me os braços hirtos, braços verdes,

algas de sonho,

…e desenha ironias na areia molhada.

 

 

Alheamento

 

Meu corpo estiraçado, lânguido, ao longo do leito.

O cigarro vago azulando is dedos.

O rádio… a música… e as folhas murchas

caindo nas mãos do Outono.

E a tua presença que esvoaça

em torno do cigarro, da música, do Outono…

 

Ausência, minha doce fuga!

 

Estranha coisa esta, a poesia,

que vai entornando mágoa nas horas

como um orvalho morno escorrendo dos vidros

numa tarde incorpórea…

 

Termino com a invocação à mãe enquanto porto de abrigo para as desilusões da vida e a desistência de as enfrentar:

 

…

E sem uma crosta que me tornasse rijo,

nem lutei nem vivi;

fiquei quieto, absorto, em lágrimas

— e lá ao fundo esperavam-me valados

e chacais rancorosos.

Kadar_Bela-Mother_with_his_child

Poema cansado de certos momentos

 

Foi-se tudo

como areia fina esgueirando-se pelos dedos.

Mãe! aqui me tens,

metade de mim,

sem saber que metade me pertence.

Aqui me tens,

de gestos saqueados,

onde resta a saudade de ti

e do mundo de medos.

Meus braços, vê-os, estão gastos

de pedir luz

e de roubar distâncias.

Meus braços

cruzados

em cruz de calvário dos meus degredos.

Aí que isto de correr pela vida,

desbaratando a riqueza que me deste,

de levar em cada beijo

a pureza que pariste e embalaste,

aí, mãe, só um louco ou um Messias

estendendo a face ao justo

para os homens cuspirem o fel das suas veias,

Só um louco, ou um porta ou um Cristo

poderá beijar as rosas que os espinhos sangram

e, embora rasgado, beber o perfume

e continuar cantando.

 

Mãe! tu nunca previste

as geadas e os bichos

roendo os campos adubados

e o vizinho largando a fúria dos rebanhos

pela erva menina dos meus prados.

E assim, geraste-me despido

como as ervas,

e não olhaste os picos nem as cobras,

verdes, viscosas, espreitando dos nichos.

De mão nua, entregaste-me ao destino.

Os anjos ficaram lá em cima, cobardes, ansiosos.

E sem uma crosta que me tornasse rijo,

nem lutei nem vivi;

fiquei quieto, absorto, em lágrimas

— e lá ao fundo esperavam-me valados

e chacais rancorosos.

 

Poemas transcritos de As Frias Madrugadas, Editora Arcádia, Lisboa s/d (1959).

 

São de pinturas de Bela Kadar (1877-1956) as imagens que acompanham o artigo.

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Soneto LXXIII de Shakespeare reescrito por Carlos de Oliveira

25 Terça-feira Fev 2014

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Carlos de Oliveira, George Segal, Shakespeare

Segal George (1924-2000) couple on a bedCarlos de Oliveira (1921-1981) transpôs para português sete dos sonetos de Shakespeare (1564-1616) a que chamou Sonetos de Shakespeare rescritos em português. No grupo, o soneto VI transpõe o soneto 73 de Shakespeare, e nele é de uma desolada e intensa reflexão sobre o envelhecimento numa imagem de inverno da vida que se fala. A velhice como espelho de ruína, e cinza do extinto fogo de viver. Apenas um consolo: amar quem está tão próximo da morte.

A propósito do soneto 18 de Shakespeare escrevi que poucas vezes as traduções de sonetos do mestre são satisfatórias. Hoje, com a versão do soneto 73 por Carlos de Oliveira estamos perante uma obra-prima. Com ela vos deixo.

 

Soneto VI (73)

Esta estação do ano podes vê-la

em mim: folhas caindo ou já caídas;

ramos que o frémito do frio gela;

árvore em ruína, aves despedidas.

E podes ver em mim, crepuscular,

o dia que se extingue sobre o poente,

com a noite sem astros a anunciar

o repouso da morte, gradualmente.

Ou podes ver o lume extraordinário,

morrendo do que vive: a claridade,

deitado sobre o leito mortuário

que é a cinza da sua mocidade.

Eis o que torna o amor mais forte:

amar quem está tão próximo da morte.

 

Transcrito de Obras de Carlos de Oliveira, Editorial Caminho, Lisboa, 1992.

 

SONNET 73

That time of year thou mayst in me behold

When yellow leaves, or none, or few, do hang

Upon those boughs which shake against the cold,

Bare ruined choirs, where late the sweet birds sang.

In me thou seest the twilight of such day

As after sunset fadeth in the west,

Which by and by black night doth take away,

Death’s second self, that seals up all in rest.

In me thou seest the glowing of such fire

That on the ashes of his youth doth lie,

As the death-bed whereon it must expire

Consumed with that which it was nourished by.

This thou perceiv’st, which makes thy love more strong,

To love that well, which thou must leave ere long.

Transcrito de Complete Sonnets and Poems, edited by Colin Burrow, Oxford University Press, 2002.

 

Acompanha o artigo a imagem de uma escultura de George Segal (1924-2000) — Casal na cama.

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