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foto 272 Z BW600pxQue lhe resta, coitada, / à Senhora de idade?

Resta-lhe pouco ou nada, / porém resta-lhe tudo:

uma grande saudade, / um sofrimento mudo / que é reserva e pudor,

às vezes uma flor, / e a sua dignidade.

A biografia de Fernanda de Castro (1900-1994) pesa hoje, ainda, sobre a sua obra poética, impedindo uma análise despida das leituras políticas que a biografia implica. Terá que ser a geração agora nos 30 anos, ou mais nova, para quem as contas do Estado Novo sejam assunto arrumado em livros de biblioteca, a fazer a leitura desta poesia, no seu valor literário.

 

O melhor da sua poesia surge no relato de pequenos quadros urbanos onde uma expressão de simpatia humana comove. Essa simpatia humana já se encontrava nas quadras de sabor popular surgidas no livro Danças de Roda em 1921, e que a autora escolheu deixar de fora da compilação da sua poesia reunida em Poesia (1919-1969).

Surge nesta compilação um poema narrativo, inédito até aí, Bloco 65, o qual dá conta do ambiente urbano e de vizinhança na Lisboa moderna que à época surgia. Ao lê-lo, é para a prosa poética de Irene Lisboa que a memória vai, o que vistas as datas das obras de uma e outra, poderá significar que Fernanda de Castro foi permeável à obra da escritora perseguida pelo Estado Novo. A dimensão do poema, que se estende por 60 páginas do livro, inibe no blog a sua transcrição. Fica a nota.

É a Urgente, ultimo livro de poemas publicado em 1989 pela escritora, que vou buscar dois poemas que de uma forma pungente contam da solidão e da velhice, o que à nossa volta encontramos, se pararmos para olhar e ver. Confidenciava-me há poucos anos pessoa amiga que entre as suas relações, uma mulher lhe dizia: a viver sozinha prefiro qualquer pessoa comigo para pelo menos ouvir uma porta bater.

 

Solidão

Solidão:

ouvir passos, sabendo de antemão

que ninguém vai passar,

bater à porta.

Abrir, ansiosa, a caixa do correio,

duas vezes por dia,

sabendo muito bem

que está vazia.

Olhar o telefone horas a fio,

ano após ano,

tocar a campainha

e ouvir dizer:”Desculpe, foi engano.”

Ouvir ranger a porta do ascensor,

senti-lo estremecer,

arrancar com uma espécie de estertor,

e, enfim, parar,

mas sempre noutro andar.

Pôr na mesa um talher

para alguém que vier,

sabendo muito bem

que ninguém vem.

Pôr um vestido novo,

um anel, um colar,

sabendo que ninguém vai reparar.

Ver o cabelo embranquecer aos poucos,

a pele envelhecer, perder o viço,

e ninguém dar por isso.

Morrer. E alguém ler num jornal:

Morreu Fulana. O funeral…

 

A senhora de Idade

A Senhora de idade,

de tão bons sentimentos,

tão bonitas maneiras,

vive dos rendimentos.

Vive, não, sobrevive.

A roupa está no fio,

tem, porém, o seu brio,

não se queixa a ninguém.

Vive triste, sozinha,

e pouco sai de casa

porque o barulho a arrasa.

Depois, sair com quem?

Não tem filhos, é viúva

e teme a solidão,

receia o vento, a chuva.

Apetece-lhe, às vezes,

ver os barcos no rio,

os pombos no Rossio,

mas não, custa-lhe a andar,

o calçado está caro

e cada mês que passa

o dinheiro é mais raro.

Mas de que vive então?

De alguns copos de leite,

de chá e de tisanas,

de pão e duma sopa,

a mesma, quase a mesma,

semanas e semanas.

Vai à missa, ao domingo,

e às vezes, quando há sol

ou cheira a maresia,

compra um fruto, uma flor,

para ter companhia.

Que lhe resta, coitada,

à Senhora de idade?

Resta-lhe pouco ou nada,

porém resta-lhe tudo:

uma grande saudade,

um sofrimento mudo

que é reserva e pudor,

às vezes uma flor,

e a sua dignidade.

Foi feita por mim a foto que abre o artigo.

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