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Lambretta 550pxEcoando as glosas de Camões e Francisco Rodrigues Lobo ao mote Descalça vai para a fonte / Lianor pela verdura / Vai fermosa e não segura, (ver aqui artigo no blog), escreveu António Gedeão (1906-1997) uma saborosa viagem motard de uma Leonor com namorado.

Ao realismo da aventura e dos sentimentos que desencadeia, onde o poeta faz uso de um léxico variado que se diria serem termos sem poesia, acrescenta-se uma irrepreensível forma tradicional em redondilha.

Ainda que o poema escrito no final dos anos 50 evoque a popular motoreta italiana, ele dá conta da vertigem e prazer da velocidade sobre rodas que desde essa época não esmoreceu.

Ícone de liberdade, continua, mal chegada a adolescência, a povoar o imaginário com as aventuras do desconhecido, paisagens e amores incluídos.

Lambretta 1963

Deixo-vos com o poema.

 

Poema da auto-estrada

 

Voando vai para a praia

Leonor na estrada preta.

Vai na brasa, de lambreta.

 

Leva calções de pirata,

vermelho de alizarina,

modelando a coxa fina,

de impaciente nervura.

Como guache lustroso,

amarelo de idantreno,

blusinha de terileno

desfraldada na cintura.

 

Fuge, fuge, Leonoreta:

Vai na brasa, de lambreta.

 

Agarrada ao companheiro

na volúpia da escapada

pincha no banco traseiro

em cada volta da estrada.

Grita de medo fingido,

que o receio não é com ela,

mas por amor e cautela

abraça-o pela cintura.

Vai ditosa e bem segura.

 

Como um rasgão na paisagem

corta a lambreta afiada,

engole as bermas da estrada

e a rumorosa folhagem.

Urrando, estremece a terra,

bramir de rinoceronte,

enfia pelo horizonte

como um punhal que se enterra.

Tudo foge à sua volta,

o céu, as nuvens, as casas,

e com os bramidos que solta,

lembra um demónio com asas.

 

Na confusão dos sentidos

já nem percebe, Leonor,

se o que lhe chega aos ouvidos

são ecos de amor perdidos

se os rugidos do motor.

 

Fuge, fuge, Leonoreta

Vai na brasa, de lambreta.

 

Poema publicado pela primeira vez em Máquina de Fogo (1961) e transcrito de Antonio Gedeão, Obra Completa, 2ªedição, Relógio d’Água, Lisboa 2007.

Para os amantes do cinema clássico de Hollywood termino com o poster do filme Roman Holiday (1953), em português, Férias em Roma, de William Wyler, onde a princesa (Audrey Hepburn) se passeia, não em Lambretta mas em Vespa, suponho, guiada pelo jornalista Gregory Peck.

Saborosa comédia romântica com actualidade continuada sobre se um jornalista deve ou não divulgar publicamente o que sabe quando tem relevância pública, e quais as razões a que deve atender para não o fazer.

Para os interessados, o filme pode ser encontrado grátis online.

roman-holiday poster 600px

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