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A dança 1988 acrilico sobre papel

XXXVI

 

Vive em cada minuto

a tua eternidade

— sem luto

nem saudade.

 

Vive-a pleno e forte

num frenesim

de arremesso.

 

Para que a tua morte

seja sempre um fim

e nunca um começo.

 

Poema XXXVI de Sonâmbulo (1941-42-43).

 

 

Carnaval, tempo de música, de dança, de divertimento, quando os interditos ficam fora do agir, traz consigo o sabor da vida fácil e :

 

Tu que rodopias, leve,

no desdobrar de seda

que paira neste vento de música

que só as pétalas entendem…

 

levas-me ao regaço da memória quando o gozo era simples e sem sobressaltos de tristeza,

 

Tu que…

            (Ah! tu que me pesas nos braços

como se trouxesses um esqueleto de lágrimas

e uma bola de metal no coração

ferrugenta do meu remorso.)

 

Agora que esquartejei o poema de José Gomes Ferreira (1900-1985), convido-vos à sua leitura integral, sem os meandros que à memória me trouxe.

 

VIII

 

Toda a gente me inveja

porque ando contigo nos braços…

 

Tu que pareces um perfume desenhado de mulher

vestida de pólen

e dois olhos que são dois instrumentos modernos

a auxiliarem a melodia do jazz…

 

Tu que rodopias, leve,

no desdobrar de seda

que paira neste vento de música

que só as pétalas entendem…

 

Tu que…

            (Ah! tu que me pesas nos braços

como se trouxesses um esqueleto de lágrimas

e uma bola de metal no coração

ferrugenta do meu remorso.)

 

Poema VIII de Cabaré (1933),

 

Poemas transcritos de Poeta Militante, 1º volume, Moraes Editores, Lisboa, 1977.

A imagem de abertura traz uma pintura de Paula RegoA dança.

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