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vicio da poesia

Category Archives: Poesia Antiga

A depressão contada num poema do século XVI

09 Sábado Abr 2016

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Bernardim Ribeiro, Erich Heckel, Francisco Sá de Miranda

Erich Heckel - RetratoNada quero, tudo enjeito, / o maior bem me aborrece, / o prazer me entristece — assim começa o poema do século XVI português, de autor anónimo, que a seguir transcrevo.

Lido tal qual, este poderia ser o início de conversa numa qualquer consulta a psicólogo. O desenvolvimento do poema provavelmente conduziria a diagnóstico de depressão, pois até consideração da hipótese de suicídio contém: se morro acaba o mal, / … / se vivo, o padecer / desta dor é tão mortal / que me não posso valer. Vemos assim que a depressão não será unicamente doença dos nossos dias.

Poema

 

Nada quero, tudo enjeito,

o maior bem me aborrece,

o prazer me entristece

e o viver, porque é sujeito

a quem dele assim se esquece:

se morro acaba o mal,

fim não queria ver;

se vivo, o padecer

desta dor é tão mortal

que me não posso valer.

 

Neste mal-estar repartido entre si e o desencanto do mundo, termino com um poema de Francisco Sá de Miranda (1481-1558) — Cantiga XXXVI — escrito pela mesma época. No entanto, com Sá de Miranda estamos completamente afastados de sintomas de depressão, apenas um infinito desconsolo: E já vivi de esperança /E agora de choro vivo!

 

Cantiga XXXVI

 

Entre temor e desejo,

Vã esperança e vã dor,

Entre amor e desamor

Meu triste coração vejo.

 

Nestes estremos, cativo

Ando, sem fazer mudança;

E já vivi de esperança

E agora de choro vivo!

Contra mim mesmo pelejo;

vem duma dor outra dor

e dum desejo maior

nasce outro môr desejo.

 

(Modernizei a ortografia; conservei môr cujo significado é maior segundo o dicionário de Moraes)

Nota bibliográfica

O poema de autor anónimo foi transcrito da edição Obras de Bernardim Ribeiro com organização e notas de Hélder Macedo e Maurício Matos, Editorial Presença, Lisboa, 2010. O original encontra-se no Cancioneiro de Ferrara, e integra um grupo de poemas anónimos que os autores da recolha classificam de Escola Bernardiniana.

O poema de Francisco Sá de Miranda foi transcrito de Poesias de Francisco Sá de Miranda, edição de Carolina Michaëlis de Vasconcelos, reprodução fac-símile do exemplar com data de 1885 da Biblioteca Nacional, INCM, Lisboa, 1989.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Erich Heckel (1883-1970).

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Da Grécia Antiga, um Hino Órfico à Noite em versão de Herberto Hélder

01 Sexta-feira Abr 2016

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga, Poetas e Poemas

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Antero de Quental, Álvaro de Campos, Fernando Pessoa, Herberto Helder

Paul Klee - Cacodemonic 1916 550pxApenas a Noite, material ou simbólica, nos permite o encontro connosco na verdadeira intimidade do Eu.

Da aproximação do Eu à Noite deram conta os poetas; Fernando Pessoa/Álvaro de Campos com o poema Excertos de Duas Odes: Vem, Noite antiquíssima idêntica,… deu-o de forma genial, tal como genial é a versão de Herberto Hélder para um Hino Órfico à Noite vindo da antiga Grécia: …/ ó Felicidade e Encantamento, Rainha das vigílias, Mãe do sonho, /…, e que a seguir transcrevo.

Este poema, entre outras leituras, torna claro o apelo à harmonia que a noite permite: …/ escuta, ó Indulgente Antiga, a imploração terrena, / e aparece com teu rosto obscuro e lento no meio dos vivos terrores do mundo.

Outras menos encantadas invocações à noite haverá, mas não deixo de referir ainda, e mantendo-me na poesia em português, o genial poema de Antero de Quental, Per Amica Silentia Lunae: Eu amo a noite às horas sossegadas/…, recolhido no volume póstumo, Raios de Extinta Luz.

 

Hino Órfico à Noite

 

Cantarei a criadora dos homens e deuses — cantarei a Noite.

Noite, fonte universal.

Ó forte divindade ardendo com as estrelas, Sol negro,

invadida pela paz e o tranquilo e múltiplo sono,

ó Felicidade e Encantamento, Rainha das vigílias, Mãe do sonho,

e Consoladora, onde as misérias repousam as campânulas de sangue,

ó Embalador, Cavaleira, Luz Negra, Amiga Geral,

ó Incompleta, alternadamente terrestre e celeste,

ó Arredondada no meio das forças tenebrosas,

leve afastando a luz da casa dos mortos e de novo te afastando tu própria.

A terrível Fatalidade é a mãe de todas as coisas,

ó Noite Maravilhosa, Constelação Calma, Ternura Secreta do Tempo,

escuta, ó Indulgente Antiga, a imploração terrena,

e aparece com teu rosto obscuro e lento no meio dos vivos terrores do mundo.

 

Versão de Herberto Hélder

Transcrito de Rosa do Mundo, 2001 Poemas para o Futuro, Assírio & Alvim, Lisboa, 2001.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Paul Klee (1879-1940).

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Poesia Popular de Portugal

26 Sábado Mar 2016

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Gauguin - Cristo Amarelo 1889 600pxNas sociedades ocidentais, para os não-judeus, os valores cristãos cresceram connosco, e nessa medida, dialogamos nas nossa recusas e certezas com o cristianismo. Não pensamos fora dele.

E se a cultura de erudição trabalha os conceitos com refinada exigência, a cultura popular encontra uma linguagem que permite transmitir com a maior simplicidade os valores da fé. São exemplo as variadas orações populares de invocação aos diversos santos do catolicismo, a Deus, à Virgem, a Jesus, qual seja a transcrita a seguir:

 

Oração Popular a Jesus

 

Senhor, fazei

Da minha boca porta,

Da minha garganta escada,

Da minha alma, assento,

Do meu coração, morada!

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Paul Gauguin (1848-1903), O Cristo Amarelo pintado em 1889, na qual a dimensão da religiosidade popular se espraia: por um lado na alacridade da paleta e rugosidade do desenho, por outro na composição, com a contemplação da imagem de Cristo crucificado por três camponesas em oração.

Esta mesma pintura leva-me irresistivelmente a uma outra poesia popular de Portugal onde a consciência profunda da fusão entre Deus e a terra-mãe se espelha, tal qual como nesta pintura o amarelo, qual sol que ilumina e alimenta o mundo, é o mesmo que mostra o corpo de Jesus crucificado e a terra que se avista na paisagem.

 

 

Poema

 

Eu na terra fui nascido,

E eu na terra fui criado,

A terra me há-de comer

Depois de ser sepultado.

 

1

A terra é a minha mãe,

Não no posso duvidar

E para esta me criar

Tudo da terra me vem.

Eu à terra quero bem,

A terra bem me tem querido,

Eu na terra tenho vivido

E na terra é que hei-de ter fim,

Sei que a terra que é assim,

Eu na terra fui nascido.

 

2

Eu na terra é que semeio

De todo o meu alimento,

Da terra tiro o sustento

E na terra é que passeio;

Da própria terra me veio

Água para ser baptizado,

A mesma água me tem dado

Tudo quanto é preciso,

Tenho pena se a terra piso

E eu na terra fui criado.

 

3

Deus à terra me mandou

Com o uso da razão,

A terra me deu o pão

E o pão é que me criou.

Ao dispôr da terra estou,

Visto na terra viver;

A terra me há-de valer

Enquanto nela for vivendo

E depois, quando morrendo,

A terra me há-de comer.

 

4

O corpo da criatura

É só terra e nada mais,

Os nossos restos mortais

Estão sujeitos à sepultura.

Isto é a verdade pura,

Tudo na terra é criado,

Depois torna ao mesmo estado

Visto na terra viver,

E a terra me há-de comer

Depois de ser sepultado.

 

 

Poemas transcritos de Rosa do Mundo, 2001 poemas para o futuro, Assírio e Alvim, Lisboa 2001.

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Iconografia da Paixão de Cristo e um poema de Ibn Gabirol

25 Sexta-feira Mar 2016

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Derick BAEGERT, Fra Angelico, Gerard David, GIOVANNI di PAOLO, Hans PLEYDENWURFF, Ibn Gabirol, Pietro da Rimini, Quentin MASSYS

Pietro da Rimini (1300-1350) - Descida da cruz 1325-1330 500pxPietro da Rimini (1300-1350) – Descida da cruz 1325-1330

 

Nesta semana de Páscoa, quando a cristandade celebra a morte e ressurreição de Cristo, reúno imagens de alguns mestres antigos da pintura ocidental evocativas da Paixão de Cristo, e transcrevo um poema de Salomão Ibn Gabirol (1021-1058), judeu de Málaga ao tempo do Al-Andaluz, dando conta de um conceito de Deus.

1 Quentin MASSYS - Ecce Homo 1515 detalhe 600pxQuentin MASSYS (1465-1530) – Ecce Homo 1515

2 BAEGERT, Derick - Cristo carregando a cruz detalhe 600pxDerick BAEGERT (1440-1515) – Cristo carregando a cruz 1490

3 Gerard DAVID - Cristo pregado na cruz - 1480 600pxGerard DAVID (1460-1523) – Cristo a ser pregado na cruz 1480

4 Mestre húngaro desconhecido - Cristo cruxificado 1476 700pxMestre húngaro desconhecido – Cristo crucificado 1476

5 PLEYDENWURFF, Hans 1420-1472 Descida da cruz 1465detalhe 600pxHans PLEYDENWURFF (1420-1472) – Descida da cruz 1465

6 GIOVANNI DI PAOLO - Lamentação sobre a morte de Cristo 1430-35 detalhe 600pxGIOVANNI di PAOLO (1399-1482) – Lamentação sobre a morte de Cristo 1430-35

7 Fra Angelico Enterro de Cristo 1438-40 detalhe 600pxFra ANGELICO (1400-1455) – Enterro de Cristo 1438-40

 

 

 

São tempos difíceis os que vivemos hoje, no que à tolerância religiosa respeita. Valham-nos os sucessivos gestos simbólicos do Papa Francisco na construção de um clima de respeito e convivência com a diversidade da fé que em cada um habita.

 

Poema de Salomão Ibn Gabirol

 

Tu és o Vivente

sem que momento algum te determine

sem um tempo

sem um sopro ou uma alma

pois Tu és a alma da alma

Tua vida

não se compara à de um homem

tão semelhante ao nada

 

Quem souber teu segredo

gozará eternas delícias

 

 

Tradução de José Tolentino Mendonça

Transcrito de Rosa do Mundo, 2001 poemas para o futuro, Assírio e Alvim, Lisboa 2001.

 

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Na Velhice — poema de J. F. Eichendorff

19 Sábado Mar 2016

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Claude Gellée, Claude Lorrain, Eichendorff

Claude Lorrain (Claude Gellée) - Paisagem com Apolo e  as Musas 1652 600pxOs filhos leva-os a vida. Os amores?… também. E na velhice, a serenidade surge como um regresso à harmonia feliz da infância. Não será para todos, mas a alguns, o que conta Joseph Freiherr Eichendorff (1788-1837) no poema Im Alter [Na Velhice] acontece.

 

 

Na Velhice

 

Como tudo, outra vez, devém sereno!

Tal qual em minha infância era vulgar,

Mansos regatos vão nos vales correndo

Dentro da solidão crepuscular;

Mal se ouve, ao longe, o canto de um pastor,

Tinem sinos, ecoando nas quebradas

De todas as aldeias em redor,

Prazer e mágoa, ei-los afundados

Nos vales ainda luzem vagamente;

Só, para além da mata em soledade,

Nos píncaros do monte, brilha o poente

Tal como o próprio alvor da Eternidade.

 

Tradução de A. Herculano de Carvalho

Transcrito de oiro de vário tempo e lugar, Asa Editores, 2003.

Nas voltas da memória lembrei-me quanto em miúdo gostava de olhar longamente uma enorme estampa emoldurada pendurado numa parede com uma das paisagens idílicas de Claude Lorrain ou Claude Gellée (1600-1682), onde a serenidade de par com a beleza se espraiam. Com uma sua imagem abre o artigo.

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Este vai-se, aquele vai-se… e mais poemas de Rosalia de Castro

13 Domingo Mar 2016

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Courbet, Rosalia de Castro

Gustave-Courbet-The-Stonebreakers 600pxA dureza da vida estala sem contemplação na poesia de Rosalia de Castro (1837-1885). Nela não há amabilidades ou concessões ao sentimentalismo, tão só a dor de ver o mundo ao redor, a raiva e a amargura de quanto a vida é difícil quando pão e liberdade faltam, ainda que vez por outra uma nota pessoal surja.

Deixo uma curta escolha.

 

*

Este vai-se, aquele vai-se,

e todos, todos se vão:

Galiza sem homens ficas

que te possam trabalhar.

Tens, em troca, órfãos e órfãs

e campos de solidão;

e mães que não têm filhos

e filhos que não têm pais.

E tens corações que sofrem

longas ausências mortais.

Viúvas de vivos e mortos

que ninguém consolará.

 

**

Foi a Páscoa enxuta,

choveu no São João.

À Galiza a fome

logo chegará.

 

Com melancolia

olham o mar

os que noutras terras

têm de buscar pão.

 

***

Meses do inverno frios

que eu amo a todo o amar:

meses dos fartos rios

e o doce amor do lar.

 

Meses das tempestades

que imagem são da dor

que aflige as mocidades

e as vidas corta em flor.

 

Chegai, e atrás do Outono

que as folhas faz morrer,

nelas deixai que o sono

eu durma no não-ser.

 

E quando o Sol formoso

de Abril sorria outra vez,

dê luz ao meu repouso,

já não ao meu sofrer.

 

****

Dizem alguns: Minha terra!

Dizem outros: Meu carinho!

E este: Minhas lembranças!

E aquele: Oh, meus amigos!

Todos suspiram, todos,

por algum bem perdido.

Eu só não digo nada.

Eu só nunca suspiro.

Que o meu corpo de terra

e o meu cansado espírito,

aonde quer que eu vá

vão comigo.

 

*****

Mas vê que o meu coração

é uma rosa de cem folhas,

e cada folha é uma pena

que vive apegada noutra.

 

Tiras uma, tiras duas,

penas me ficam de sobra;

dez hoje, amanhã quarenta,

desfolha que te desfolha…

 

O coração me arrancaras

se me as arrancasses todas!

 

******

Tal como as nuvens

que o vento leva

e agora ensombram, e agora alegram

os espaços imensos do céu,

assim as ideias

loucas que eu tenho

as imagens de múltiplas formas

de cores estranhas, de feitios incertos

agora ensombram

agora aclaram

o fundo sem fundo do meu pensamento

 

Poemas em adaptação do galego por Ernesto Guerra da Cal.

Transcritos de Rosalia de Castro, Antologia Poética e Cancioneiro Rosaliniano, Guimarães Editores, Lisboa, 1985.

Termino com o Cantar Gallego XXVII que dá bem conta dos sentimentos de galegos perante Castela e castelhanos.

A transcrição feita a partir da edição Aguilar, Rosalia de Castro, Obras Completas, Madrid, 1947, levantou-me dúvidas de ortografia do galego, que desconheço. Se algum leitor com domínio do galego identificar erros ortográficos agradeço se os referir.

Cantar Gallego XXVII

 

Castellanos de Castilla,

tratade ben ós galegos;

cando van, van como rosas;

cando vén, vén como negros!

 

Cando foi, iba sorrindo,

cando veu, viña morrendo;

a luciña d’os meus ollos,

o amantiño do meu peito.

 

Aquel, máis que neve branco,

aquel de doçuras cheyo,

aquel por quen eu vivía

e sin quen vivir non quero.

 

Foi a Castilla por pan

e saramagos lle deron;

déronlle fel por bebida,

peniñas por alimento.

 

Déronlle, en fin, canto amargo

tén â vida no seu seo…

¡Casteláns, casteláns,

tendes coraçón de ferro!

 

¡Ai!, no meu coraçonciño

xa non pode haber contento,

qu’ está de dolor ferido,

qu’ está de loito cuberto.

 

Morreu aquel qu’ eu quería

e para min n’ hai consolo:

so hai para min, Castilla,

a mala lei que che teño.

 

Permita Deus, casteláns,

casteláns que aborrezo,

que antes os galegos morran

que ir a pedirvos sustento.

 

Pois tan mal coraçón tendes,

secos fillos do deserto,

que se amargo pan vos gañan,

dádesllo envolto en veneno.

 

Aló van, mal pocadiños,

todos de esperanzas cheyos,

e volven, ¡as!, sen ventura

cun caudal de desprezos.

 

Van probes e tornan probes,

van sans e tornan enfermos,

que anque eles son como rosas,

tratádelos como negros.

 

¡Casteláns de Castela,

tendes corazón de aceiro,

alma como as penas dura,

e sen entrañas o peito!

 

En tros de palla sentados,

sen fundamentos, soberbos,

pensas que os nosos filliños

para servirvos naceron.

 

E nunca tan torpe idea,

tan criminal pensamento

coubo en máis fatuas cabezas

ni en máis fatuos sentimentos.

 

Que Castela e Casteláns,

todos nun montón, a eito,

non valen o que unha herbiña

destes nosos campos frescos.

 

Só pezoñosas charcas

detidas no ardente solo

tes, Castela, que humedezan

eses teus labios sedentos.

 

Que o mar deixoute esquecida

e lonxe de ti correron

as brandas augas que traen

de plantas sen sementeiros.

 

Nin árbores que dean sombra,

nin sombra que preste alento…

Chaira e sempre chaira,

deserto e sempre deserto…

 

Esto che tocou, coitada,

por herdanza no universo,

¡miserable fanfurriñeira!,

triste herdanza foi por certo.

 

En verdade non hai, Castela,

nada coma ti tan feo,

que aínda mellor que Castela

valera dicir inferno.

 

¿Por que aló fuches, meu ben?

¡Nunca tal houberas feito!

¡Trocar campiños floridos

por tristes campos sen rego!

 

¡Trocar tan claras fontiñas,

ríos tan murmuradores

por seco polbo que nunca

mollan as bágoas do ceo!

 

Mais, ¡ai!, de onda min te fuches

sen dó do meu sentimento,

e aló a vida che quitaron ,

aló a mortiña che deron.

 

Morriches, meu queridiño,

e para min non hai consolo,

que onde antes te vía, agora,

xa solo unta tomba vexo.

 

Triste como a mesma noite,

farto de dolor o peito,

pídolle a Deus que me mate,

porque xa vivir non quero.

 

Mais en tanto non me mata,

casteláns que aborrezo,

hei, para vergonza,

heivos de cantar xemendo:

 

¡Casteláns de Castela,

tratade ben ós galegos:

cando van, van como rosas;

cando vén, vén como negros!

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Gustave Courbet (1819-1877).

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A valsa — poema de Casimiro de Abreu

11 Quinta-feira Fev 2016

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Casimiro de Abreu, Píerre-Auguste Renoir

Renoir - Dance in the City 1883 A1É sobretudo música o que nos entra na alma ao ler a poesia de Casimiro de Abreu (1839-1860), seja na esfuziante alegria de ambiente brasileiro: paisagens e amores; seja nos doridos poemas de saudade, ou na pungente poesia da morte anunciada aos vinte anos (o poeta morreu aos vinte e um anos). Em todos, é a fluência melódica do verso que seduz à primeira leitura. Muitos são os poemas que apetece transcrever. Decido-me por um, A Valsa, de atípica construção na obra do poeta. É uma vertiginosa cadência de palavras a cuja leitura irresistivelmente dançamos, levados pelo ritmo ternário do poema. Mais tarde, meio-século mais tarde, já no século XX, Almada Negreiros compõe, na mesma linha, mas com a modernidade temática do seu tempo, Rondel do Alentejo, que anteriormente transcrevi.

 

A valsa

 

Tu, ontem,

Na dança

Que cansa,

Voavas

Co’as faces

Em rosas

Formosas

De vivo,

Lascivo

Carmim;

Na valsa

Tão falsa,

Corrias,

Fugias,

Ardente,

Contente,

Tranqüila,

Serena,

Sem pena

De mim!

Quem dera

Que sintas

As dores

De amores

Que louco

Senti!

Quem dera

Que sintas!…

— Não negues,

Não mintas…

— Eu vi!…

 

Valsavas:

— Teus belos

Cabelos,

Já soltos,

Revoltos,

Saltavam,

Voavam,

Brincavam

No colo

Que é meu;

E os olhos

Escuros

Tão puros,

Os olhos

Perjuros

Volvias,

Tremias,

Sorrias,

P’ra outro

Não eu!

Quem dera

Que sintas

As dores

De amores

Que louco

Senti!

Quem dera

Que sintas!…

— Não negues,

Não mintas…

— Eu vi!…

 

Meu Deus!

Eras bela

Donzela,

Valsando,

Sorrindo,

Fugindo,

Qual silfo

Risonho

Que em sonho

Nos vem!

Mas esse

Sorriso

Tão liso

Que tinhas

Nos lábios

De rosa,

Formosa,

Tu davas,

Mandavas

A quem ?!

Quem dera

Que sintas

As dores

De amores

Que louco

Senti!

Quem dera

Que sintas!…

— Não negues,

Não mintas,..

— Eu vi!…

 

Calado,

Sózinho,

Mesquinho,

Em zelos

Ardendo,

Eu vi-te

Correndo

Tão falsa

Na valsa

Veloz!

Eu triste

Vi tudo!

Mas mudo

Não tive

Nas galas

Das salas,

Nem falas,

Nem cantos,

Nem prantos,

Nem voz!

Quem dera

Que sintas

As dores

De amores

Que louco

Senti!

Quem dera

Que sintas!…

— Não negues

Não mintas…

— Eu vi!

 

Na valsa

Cansaste;

Ficaste

Prostrada,

Turbada!

Pensavas,

Cismavas,

E estavas

Tão pálida

Então;

Qual pálida

Rosa

Mimosa

No vale

Do vento

Cruento

Batida,

Caída

Sem vida.

No chão!

Quem dera

Que sintas

As dores

De amores

Que louco

Senti!

Quem dera

Que sintas!…

— Não negues,

Não mintas…

Eu vi!

 

Rio — 1858.

 

Transcrito de As Primaveras, Novíssima edição acrescentada de Novas Poesias e da Scena Dramatica O Camões e o Jáo e Dois Romances em Prosa, Lisboa, Imprensa de J. G. de Sousa Neves,1875.

Na transcrição do poema modernizei a ortografia.

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Sete anos de pastor Jacob servia — Génesis, Camões e António Sardinha

20 Quarta-feira Jan 2016

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga, Poetas e Poemas

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António Sardinha, Biblia, Camões, Génesis, Rafael

RAFFAELLO Sanzio - encontro de raquel com jacob 1518-19SONETO de Jacob, pastor antigo,

— soneto de Rachel, serrana bela…

Oh quantas vezes o relembro e digo,

pensando em ti, como se foras ela!

 

Sirvo-me desta primeira quadra de um soneto de António Sardinha (1888-1925) para chegar às origens do relato do amor de homem por mulher na cultura ocidental, o que aconteceu por via do primeiro livro da Bíblia, Génesis. Não falo de Adão e Eva, pois essa é a história da necessidade biológica do sexo e do seu impulso irresistível quaisquer que sejam as consequências, mas da história de Jacob, e do que este aceita fazer para possuir a mulher que quer, neste caso a prima Raquel:

Para obter Raquel, Jacob trabalhou durante sete anos e, pelo amor que lhe tinha, aqueles sete anos pareceram-lhe apenas alguns dias.

 

Conta-se a história em Génesis, capítulo 29.

 

Génesis

29.15

Jacob já estava há um mês em casa de Labão, quando este lhe disse: “É certo que tu és meu parente. Mas até agora tens trabalhado para mim de graça. Diz-me que salário queres.”

29.16

Labão tinha duas filhas, a mais velha chamava-se Lia e a mais nova, Raquel.

29.17

Lia tinha uns olhos muito ternos. Mas Raquel era bonita e elegante.

29.18

Jacob gostava muito de Raquel e por isso respondeu: “Aceito trabalhar para ti, durante sete anos, para casar com Raquel a tua filha mais nova.”

29.19

Labão respondeu: “Está bem. É melhor casá-la contigo que casá-la com outro qualquer. Podes continuar em minha casa.”

29.20

Para obter Raquel, Jacob trabalhou durante sete anos e, pelo amor que lhe tinha, aqueles sete anos pareceram-lhe apenas alguns dias.

 

Camões sintetizou o caso num popular soneto:

 

Sete anos de pastor Jacob servia

Labão, pai de Raquel, serrana bela;

mas não servia ao pai, servia a ela,

e a ela só por prémio pretendia.

 

Os dias na esperança de um só dia,

passava, contentando-se com vê-la;

porém o pai, usando de cautela,

em lugar de Raquel lhe dava Lia.

 

Vendo o triste pastor que com enganos

lhe fora assi negada a sua pastora,

como se a não tivesse merecida,

 

começa de servir outros sete anos,

dizendo: “Mais servira se não fora

para tão longo amor tão curta a vida”.

 

Como se vê pelo soneto, a coisa não correu como prometido, e o pai de Raquel começou por roer a corda.

Vejamos, pois, o que de facto aconteceu, com a continuação do relato bíblico:

 

29.21

Depois disse a Labão: “Dá-me a minha mulher, para eu casar com ela, pois já acabou o tempo combinado.”

29.22

Labão convidou toda a gente do lugar e ofereceu um banquete.

29.23

Mas à noite, em vez de Raquel, Labão levou Lia para o quarto dos noivos e foi com ela que Jacob dormiu.

29.24

Labão deu à sua filha Lia a escrava Zilpa, para ficar ao serviço dela.

29.25

Pela manhã, quando Jacob se deu conta de que era Lia foi reclamar a Labão: “Que é que me fizeste? Por amor de Raquel andei a trabalhar para ti. Porque é que me enganaste?”

29.26

Labão respondeu: “Cá na nossa terra não é costume casar a filha mais nova antes da mais velha.

29.27

Mas depois dos sete dias de lua de mel podemos dar-te também a outra em casamento, desde que te comprometas a trabalhar para mim outros sete anos mais.”

29.28

Jacob assim fez. Passaram os sete dias da lua de mel e Labão deu-lhe também a sua filha Raquel como esposa.

29.29

A Raquel, Labão deu Bilá, sua escrava, para ficar ao serviço dela.

29.30

Jacob dormiu também com Raquel e esta era a sua preferida. E durante mais sete anos Jacob ficou ao serviço de Labão.

 

Está assim elucidado o sucesso que levou ao soneto de Camões acima transcrito.

Aqui chegados talvez valha a pena conhecer a história desde o início, e como Jacob conheceu Raquel:

Génesis:

29.4

Jacob perguntou aos pastores: “Amigos, donde são?” E eles responderam: “Somos de Haran.”

29.5

Jacob perguntou de novo: “Por acaso conhecem Labão, descendente de Naor?” “Conhecemos, sim”, responderam eles.

29.6

Jacob perguntou ainda: “Ele está bem?” “Está sim. Olha! A filha dele, Raquel vem aí com o rebanho”, indicaram os pastores.

29.7

Jacob disse: “Ainda é bastante cedo. Ainda não é tempo de recolher o rebanho. Dêem-lhe de beber e levem-no outra vez a pastar,”

29.8

…

29.9

Enquanto estava a falar com eles, chegou Raquel com a ovelhas do seu pai, pois era ela a pastora

29.10

Ao ver Raquel filha do seu tio Labão, com o rebanho do seu tio, Jacob aproximou-se e retirou a pedra de cima do poço e deu água ao rebanho do seu tio Labão.

29.11

Depois saudou Raquel com um beijo e não pôde conter as lágrimas.

29.12

Jacob anunciou a Raquel que ele era parente do pai dela pois era filho de Rebeca. E ela foi a correr levar a notícia ao pai.

29.13

Labão ao ouvir falar do seu sobrinho, Jacob, correu ao encontro dele, abraçou-o, beijou-o e conduziu-o para sua casa. Jacob contou-lhe então tudo o que tinha acontecido.

29.14

E Labão exclamou: “Realmente tu és da minha própria familia.” E Jacob ficou em casa dele.

 

A imagem que abre o artigo mostra uma pintura de Rafael executada em 1518-19 dando conta do encontro entre Jacob e Raquel junto ao poço. Pela mesma época (1515-25) Palma Vecchio ilustrava como segue o beijo destes no poço (Génesis 29.11).

PALMA VECCHIO - O beijo de Raquel e Jacob 1515-25 a

Volto agora ao sonetos abertura onde António Sardinha (1888-1925), partindo de Camões, nos leva, não pela história bíblica, mas pelo desolado da sua existência na ausência da sua amada:

O que eu servira, p’ra viver contigo, / — tão doce, tão airosa e tão singela!

/ Assim, distante do teu rosto amigo, / em torturar-me a ausência se desvela!

E neste eterno retomar do já dito se tecem as voltas da poesia.

Deixo-o, leitor, com o soneto citado. À obra poética de António Sardinha volto outro dia.

 

Velho motivo

 

SONETO de Jacob, pastor antigo,

—soneto de Rachel, serrana bela…

Oh quantas vezes o relembro e digo,

pensando em ti, como se foras ela!

 

O que eu servira, p’ra viver contigo,

—tão doce, tão airosa e tão singela!

Assim, distante do teu rosto amigo,

em torturar-me a ausência se desvela!

 

E vou sofrendo a minha pena amarga,

—pena que não me deixa nem me larga,

bem mais cruel que a de Jacob pastor!

 

Rachel não era dele e sempre a via,

enquanto que eu não vejo, noite e dia

aquela que me tem por seu senhor!

 

Nota bibliográfica

 

A transcrição do episódio bíblico foi feita a partir de “a BÍBLIA para todos, edição literária“, editada por Temas e Debates e Círculo de Leitores, 2009.

Na transcrição do episódio bíblico introduzi o número dos versículos, os quais não aparecem na edição citada onde o texto é corrido, por forma a permitir o seu cotejo com outras edições do texto.

Luís de Camões, Lírica Completa II, edição de Maria de Lurdes Saraiva, INCM, Lisboa, 1980.

António Sardinha, Chuva da Tarde, sonetos de amor, Lvmen, Coimbra, 1923.

(Conservei a ortografia de Raquel e a maiúscula inicial em Soneto da edição original.)

Nota final

O relato bíblico da história de Jacob, Raquel e Lia mais as suas escravas, continua, fixando no texto sagrado uma situação poligâmica: decorrendo da incapacidade de Raquel para ter filhos por um lado, e dos ciúmes de Lia, por outro, Jacob acaba também por procriar com as escravas destas, Bilá e Zilpa.

Não sei como cristãos em geral, e António Sardinha, em particular, fervoroso católico que era, e certamente conhecedor do episódio bíblico, lidam com a legitimação da poligamia que o episódio explicitamente cauciona.

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Estâncias para Música — poema de Lord Byron

06 Quarta-feira Jan 2016

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Lord Byron, Matisse

matisse.lecon-musiqueMúsica e Poesia cruzam-se de variadas formas. A mais imediata, talvez, será a melodia que um poema transmite na cadência da sua leitura, prendendo o leitor antes da atenção às variadas possibilidades significantes do seu conteúdo.

Outra das relações, frequente e apetecível, é a sobreposição a um poema de uma partitura musical, criando uma obra com uma nova individualidade estética diferente das suas partes musical e poética, sendo talvez o caso mais notável desta genialidade tripartida o último andamento da IX Sinfonia de Beethoven onde a música do compositor incorpora em simbiose o poema de Schiller, Ode an die Freude, Ode à Alegria.

No mundo da chamada canção popular, os textos escritos para ser musicados revelam-se muitas vezes como poemas notáveis, pequenas jóias de intensa penetração humana, como são, nomeadamente, tantas das canções de Cole Porter.

Há por outro lado elaboradas reflexões poéticas sobre determinadas peças musicais espalhadas pela obra de alguns poetas, qual seja, por exemplo, Fernando Guimarães.

Num registo diferente surge o livro Arte de Música de Jorge de Sena em torno de algumas obras musicais em interpretações específicas. Entre os novos, o livro de Manuel de Freitas, Büchlein für Johann Sebastian Bach (2003), sobre alguns intérpretes da música de J. S. Bach, em momentos precisos de audição,  dá-nos conta de como a música cruza a circunstância do poeta, e da emoção que desprende surge uma compreensão mais profunda de si e do mundo.

Todos estes poemas, referidos de passagem, são relatos de busca da beleza no intangível que a música produz.

É diferente o poema de Lord Byron (1788-1824) que hoje transcrevo, Estâncias para Música. Nele a música, criação humana por excelência, é assimilada ao que de mais belo o poeta encontra na natureza: a beleza feminina, o mar e o vento, o luar, e o suave dormir de uma criança na sua confiante entrega ao mundo, traduzindo uma outra leitura do que é o entendimento subjacente à poesia impregnada da música: o caminho mais curto para o divino.

Estâncias para Música

 

Muita mulher tem beleza

nenhuma a tua magia;

e a tua voz tal riqueza,

que nem a da melodia

por sobre as águas do mar:

quando, num encantamento,

sonhando adormece o vento

E a onda para um momento

e desfalece a brilhar…

 

E a lua no céu fiando

a sua teia, a sorrir;

e o mar brandamente arfando

qual criancinha a dormir:

assim, dentro da minha alma,

eu me inclino, ao encontrar-te,

me suspendo, a escutar-te,

me curvo, para adorar-te:

com funda emoção, mas calma.

 

Tradução de Luiz Cardim

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Amor e um poema medieval na despedida de 2015

30 Quarta-feira Dez 2015

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Jacopo da Lentini, Matisse

Matisse - Standing Nude with Raised Arms 1947 500pxAmor! Sentimento de todas as idades e de todas as épocas, motivo maior e perene na poesia, é certamente adequado para a leitura final deste ano de graça de 2015, na esperança que 2016 traga em si, em avalanche, amor suficiente para saciar a humanidade sedenta dele, e se houver rateio, que os leitores do blog sejam satisfeitos em primeiro lugar.

 

Feliz 2016 a todos!

 

O poema de encerramento do ano, um soneto de amor, chega-nos da Sicília, da primeira metade do século XIII, escrito por Jacopo (ou Giacomo) da Lentini (c.1210 – c.1260), considerado o inventor do soneto.

Desde então, ainda que com lento desenvolvimento até ao esplendor renascentista, o soneto não deixou de ser a forma de excelência para exprimir as dores e alegrias das paixões humanas, com um pico absoluto nos sonetos de Camões.

Falando do fogo do amor que abrasa, da alegria, do prazer, e da dor, este soneto inicial tem lá tudo o que posteriormente foi apenas glosado, por vezes de forma sublime.

 

 

Soneto XXXIV

 

Quem nunca tivesse visto o fogo

Não acreditava que pudesse queimar.

Ao descobrir o seu fulgor

Acharia que era coisa de folgar.

 

Mas se lá pusesse a mão,

Saberia quanto o fogo queima!

Eu toquei no fogo de amor,

Fogo que abrasa: Ah, se esta fogueira,

 

Ardesse em vós, minha Senhora,

Vós que pareceis dar prazer,

Vós que não dais senão dor!

 

Por certo o amor faz vilania

Não te unindo, tu que escarneces,

A mim, teu escravo sem alegria.

 

Tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo

in Rosa do Mundo, 2001 Poemas para o Futuro, Assírio & Alvim, 2001.

 

Original do poema

 

Soneto XXXIV

 

[C]hi non avesse mai veduto foco

no crederia che cocere potesse,

anti li sembraria solazzo e gioco

lo so isprendor[e], quando lo vedesse.

 

Ma s’ello lo tocasse in alcun loco,

be·lli se[m]brara che forte cocesse:

quello d’Amore m’à tocato un poco,

molto me coce – Deo, che s’aprendesse!

 

Che s’aprendesse in voi, [ma]donna mia,

che mi mostrate dar solazzo amando,

e voi mi date pur pen’e tormento.

 

Certo l’Amor[e] fa gran vilania,

che no distringe te che vai gabando,

a me che servo non dà isbaldimento.

 

Edição de Roberto Antonelli, Roma, 1979

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