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vicio da poesia

Category Archives: Convite à arte

Homenagem a Gogol por Marc Chagall

13 Segunda-feira Ago 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Crónicas

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Marc Chagall, Nicolau Gogol

Quem conheça a obra de Nicolau Gogol (1806-1852) apreciará a eloquência com que esta se encontra condensada na pintura que Marc Chagall (1887-1985) lhe dedicou. Encontramos nela o indizível da surpresa e de non sense que os textos de Gogol nos dão, numa harmonia de colorido em que ao amarelo solar da envolvente, que é ao fim e ao cabo o efeito da escrita no leitor,  se acrescenta o negro do humor com que o personagem pintado se veste.
Há na pintura uma atmosfera de ternura poética que emana da delicada elegância da figura humana, na sua imponderável curvatura, a que a surpresa da escala do palácio, suportado na ponta do sapato, acrescenta a dimensão de absurdo que a escrita do mestre contém.

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Poemas para o Verão: Verão na Cidade de Boris Pasternak

13 Segunda-feira Ago 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Boris Pasternak, Marc Chagall

Longe deste verão que agora desfruto, é o Verão das terras gélidas da Rússia de que nos fala este poema de Boris Pasternak (1890-1960), pertencente ao cancioneiro do Dr. Jivago, Iuri Jivago, publicado no final do romance do mesmo nome, originalmente em Itália.
Em vez de sol são aguaceiros e trovoada os protagonistas a dar a atmosfera poética de um amor tumultuoso, ainda que a poesia surja na manhã onde Só as tílias seculares, / Cheias de perfume e flor, / Nos olham com o olhar / De quem passou mal a noite.

VERÃO NA CIDADE

Conversas a meia voz,
E esse gesto impetuoso
Com que afastas os cabelos
De cima do teu pescoço.

E sob o brilho do pente
É que aparece o olhar,
Debaixo do capacete
Dos cabelos ondulados.

A noite quente, lá fora,
Faz prever um aguaceiro.
Dispersam-se os caminhantes,
Matraqueando os passeios.

Do estrondo da trovoada
Ouve-se rolar o eco.
E o vento faz ondular
As cortinas da janela.

Vem a seguir o silêncio
Mas sufoca-se, e não cessa,
Intermitente, a presença
Dos relâmpagos no céu.

Quando por fim a manhã,
Cintilante, vem secar,
Nas bermas e nas valetas,
A água da tempestade,

Só as tílias seculares,
Cheias de perfume e flor,
Nos olham com o olhar
De quem passou mal a noite.

Versos de Iuri Jivago (1957)
Tradução de David Mourão-Ferreira

 

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Fra Angelico e os frescos do convento de San Marco em Florença

10 Sexta-feira Ago 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte

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Fra Angelico

Entre os livros de arte que mais aprecio encontram-se os álbum sobre pintura a fresco. Estas pinturas, implantadas nos lugares para que foram concebidas, integrando a arquitectura, transmitem in loco uma impressão de conjunto que as torna a maior parte das vezes inesquecíveis. Concomitante com este prazer do visto, surge a vontade de apreciar o detalhe, o que se revela impossível no lugar. É então que estes álbuns mostram todo o seu valor, dando a ver o pormenor, permitindo fruir o detalhe, e no conforto de casa viajar de novo até uma experiência gratificante.

Entre a extensa lista destas obras primas a fresco vistas sobretudo em Itália, guardo uma memória de afecto por um conjunto em especial, os frescos das celas do convento de San Marco em Florença.

Pintados por volta de 1440 por Fra Angelico (1400-1455) e discípulos, vi-os pouco depois de concluído o restauro, e a impressão foi tão funda e duradoura, que ainda hoje sinto, ao lembrar-me da visita, invadir-me uma funda emoção.

O segredo da paz de espirito que aqueles frescos transmitem está provavelmente na atmosfera do lugar que as pinturas criam na austera nudez das celas, com a serenidade dos personagens, de onde está ausente qualquer tortura facial, ou histriónica representação do desgosto. Apenas a serena contemplação das cenas do nascimento, vida e paixão de Cristo. O auge talvez seja a serenidade com que a própria representação de Cristo crucificado nos olha.

Escolho apenas algumas dessas pinturas para dar corpo ao que escrevi, e talvez algum leitor, que as não conheça, movido pela curiosidade, se decida a procurar as que faltam.

O livro que a isto me trás, FRA ANGELICO The San Marco Frescoes, da autoria de Paolo Morachiello, dá conta, depois de uma introdução à história do edifício e de uma breve nota sobre Fra Angelico, do conjunto dos fresco e de cada um em particular, com o interesse adicional, que o faz único, de mostrar detalhes dos frescos em tamanho real.

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Poemas para o Verão – Visita a Alberto Caeiro com László Moholy-Nagy por companhia

09 Quinta-feira Ago 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Convite à fotografia, Poetas e Poemas

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Alberto Caeiro, Fernado Pessoa, László Moholy-Nagy

Alberto Caeiro, dos heterónimos de Fernado Pessoa, será o mais consentâneo com o estado de espírito hedonista que me invade nestas tardes de calor, onde apenas consigo a imobilidade do pasmo.

No entardecer dos dias de Verão, às vezes,
Ainda que não haja brisa nenhuma, parece
Que passa, um momento, uma leve brisa…
Mas as árvores permanecem imóveis
Em todas as folhas das suas folhas
E os nossos sentidos tiveram uma ilusão,
Tiveram a ilusão do que lhes agradaria…
Ah, os sentidos, os doentes que vêem e ouvem!
Fôssemos nós como devíamos ser
E não haveria em nós necessidade de ilusão …
Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida
E nem repararmos para que há sentidos …
…
Fragmento do poema XLI de O Guardador de Rebanhos

Mas por aqui entrado, há um filosofar poético (Cada cousa é o que é) que inevitavelmente surge, mesmo sabendo que Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra. / Não me ponho a pensar se ela sente, e o olhar espanta-se.

A espantosa realidade das cousas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada cousa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.
Basta existir para se ser completo.

Tenho escrito bastantes poemas.
Hei de escrever muitos mais, naturalmente.

Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto.

Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada.
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.

Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.

Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,
…
Fragmento de Poemas Inconjuntos

Está seguramente certo, respondo eu ao Poeta. E naquele andar em circulo do pensamento parado, a cousa volta de novo:

O que nós vemos das cousas são as cousas.
Por que veríamos nós uma cousa se houvesse outra?
Por que é que ver e ouvir seria iludirmo-nos
Se ver e ouvir são ver e ouvir?
O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa.

Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
E uma seqüestração na liberdade daquele convento
De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas
E as flores as penitentes convictas de um só dia,
Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
Nem as flores senão flores.
Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.

Poema XXIV de O Guardador de Rebanhos
Tão profunda reflexão com este calor só tem uma solução, um mergulho no mar!
E aí vou. Amanhã haverá mais poesia.

Pareceram-me compatíveis com esta poesia as fotos de László Moholy-Nagy (1895 – 1946) feitas em 1925, no âmbito da Bauhaus, e talvez contemporâneas, grosso modo, desta poesia de Alberto Caeiro.

 

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Camões – Canto IX de Os Lusíadas (fragmento)

07 Terça-feira Ago 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Camões, Hieronymous Bosch

Embora os leitores possam conhecer a aventura de Leonardo, soldado bem disposto, na Ilha dos Amores, narrada por Camões no Canto IX de Os Lusíadas, não resisto à sua transcrição.

O poeta dá conta em detalhada descrição, de como se desenvolveu o encontro entre Leonardo, soldado da armada de Vasco da Gama e a ninfa Efire quando para repouso e prémio dos valorosos marinheiros,

De longe a Ilha viram, fresca e bela, / Que Vénus pelas ondas lha levava

Ficou esta ilha conhecida por Ilha dos amores e os seus encantos descreve-os o poeta a partir da estrofe 52 do Canto IX.

Acompanhamos o detalhe da natureza na descrição do poeta, de que destaco

Os fermosos limões ali, cheirando, / Estão virgíneas tetas imitando.

Depois da descrição da ilha somos chamados a acompanhar o desembarque dos guerreiros

Nesta frescura tal desembarcavam / Já das naus os segundos Argonautas, / Onde pela floresta se deixavam / Andar as belas Deusas, como incautas.

Como eram e o que faziam as belas deusas, sabemos a seguir:

Algumas, doces cítaras tocavam,
Algumas, harpas e sonoras frautas;
Outras, cos arcos de ouro, se fingiam
Seguir os animais que não seguiam.

Isto era estratégia de sedução, conta-nos à frente o poeta:

Assi lho aconselhara a mestra experta:
Que andassem pelos campos espalhadas;
Que, vista dos barões a presa incerta,
Se fizessem primeiro desejadas.
Era o paraíso ali à vista:
Algumas, que na forma descoberta
Do belo corpo estavam confiadas,
Posta a artificiosa fermosura,
Nuas lavar se deixam na água pura.

Será de estupefacção, primeiro, a reacção à vista de tal espectáculo:

Mas os fortes mancebos, que na praia
Punham os pés, de terra cobiçosos
…
Começam de enxergar subitamente,
Por entre verdes ramos, várias cores,
Cores de quem a vista julga e sente
Que não eram das rosas ou das flores,
Mas da lã fina e seda diferente,
Que mais incita a força dos amores,
De que se vestem as humanas rosas,
Fazendo-se por arte mais fermosas.

Dá Veloso, espantado, um grande grito:
«Senhores, caça estranha (disse) é esta!
Se inda dura o Gentio antigo rito,
A Deusas é sagrada esta floresta.

E à estupefacção segue-se a luxúria:

De hüa os cabelos de ouro o vento leva,
Correndo, e de outra as fraldas delicadas;
Acende-se o desejo, que se ceva
Nas alvas carnes, súbito mostradas.

É Leonardo o escolhido para protagonizar a narrativa das delicias ali vividas:

Que afagos tão suaves, que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manhã e na sesta,
Que Vénus com prazeres inflamava,

por tal forma saborosos que no final o poeta não resiste ao conselho:

Milhor é exprimentá-lo que julgá-lo;
Mas julgue-o quem não pode exprimentá-lo.

(Nota: julgue-o é aqui usado com o sentido de imagine-o)

Leia-se então integralmente o episódio com Leonardo.

75
Leonardo, soldado bem disposto,
Manhoso, cavaleiro e namorado,
A quem Amor não dera um só desgosto,
Mas sempre fora dele mal tratado,
E tinha já por firme prossuposto
Ser com amores mal-afortunado,
Porém não que perdesse a esperança
De inda poder seu Fado ter mudança;

76
Quis aqui sua ventura que corria
Após Efire, exemplo de beleza
Que mais caro que as outras dar queria
O que deu, pera dar-se, a Natureza.
Já cansado, correndo, lhe dizia:
«Ó fermosura indigna de aspereza,
Pois desta vida te concedo a palma,
Espera um corpo de quem levas a alma!

77
«Todas de correr cansam, Ninfa pura,
Rendendo-se à vontade do inimigo;
Tu só de mi só foges na espessura?
Quem te disse que eu era o que te sigo?
Se to tem dito já aquela ventura
Que em toda a parte sempre anda comigo,
Oh! não na creias, porque eu, quando a cria,
Mil vezes cada hora me mentia.

78
«Não canses, que me cansas; e, se queres
Fugir-me, por que não possa tocar-te,
Minha ventura é tal, que, inda que esperes,
Ela fará que não possa alcançar-te.
Espera; quero ver, se tu quiseres,
Que sutil modo busca de escapar-te;
E notarás, no fim deste sucesso,
“Tra la spica e la man qual muro he messo.”

79
«Oh! Não me fujas! Assi nunca o breve
Tempo fuja de tua fermosura;
Que, só com refrear o passo leve,
Vencerás da Fortuna a força dura.
Que Emperador, que exército, se atreve
A quebrantar a fúria da ventura
Que, em quanto desejei, me vai seguindo,
O que tu só farás não me fugindo?

80
«Pões-te da parte da desdita minha?
Fraqueza é dar ajuda ao mais potente.
Levas-me um coração que livre tinha?
Solta-mo, e correrás mais levemente.
Não te carrega essa alma tão mesquinha
Que nesses fios de ouro reluzente
Atada levas? Ou, despois de presa,
Lhe mudaste a ventura, e menos pesa?

81
«Nesta esperança só te vou seguindo:
Que ou tu não sofrerás o peso dela,
Ou, na virtude de teu gesto lindo,
Lhe mudarás a triste e dura estrela.
E, se se lhe mudar, não vás fugindo,
Que Amor te ferirá, gentil donzela,
E tu me esperarás, se Amor te fere;
E, se me esperas, não há mais que espere.»

82
Já não fugia a bela Ninfa, tanto
Por se dar cara ao triste que a seguia,
Como por ir ouvindo o doce canto,
As namoradas mágoas que dizia.
Volvendo o rosto, já sereno e santo,
Toda banhada em riso e alegria,
Cair se deixa aos pés do vencedor,
Que todo se desfaz em puro amor.

83
Oh! Que famintos beijos na floresta,
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tão suaves, que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manhã e na sesta,
Que Vénus com prazeres inflamava,
Milhor é exprimentá-lo que julgá-lo;
Mas julgue-o quem não pode exprimentá-lo.

Ilustra o artigo o painel central do tríptico de Hieronymous Bosch, O Jardim das Delícias na Terra, pintado em 1504-05.

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Juan Gris — o outro cubista, com OS OBJECTOS de Zbigniew Herbert

06 Segunda-feira Ago 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Juan Gris, Zbigniew Herbert

Apesar de ser um nome menos divulgado e a sua pintura menos conhecida, a obra de Juan Gris (1887-1927) permanece como a mais lírica de entre a pintura cubista. Integrando o grupo de Braque e Picasso em 1907, quando as primeiras manifestações cubistas surgiram, a curta vida do pintor fez com que a sua obra de maturidade se centre nesta visão da pintura, de onde a perspectiva a partir de um único ponto observador desapareceu.
Para o que me ocupa no blog, é irrelevante o efectivo papel do pintor na génese desta revolução na arte ocidental e qual a sua posição hierárquica no seio dela.
Gosto da sua pintura, do calor que a paleta transmite aos objectos das suas natureza mortas, e sobretudo da harmonia na composição/decomposição que as suas pinturas respiram.
Autor de alguns retratos abordados do ponto de vista do cubismo, neles observamos o essencial da figura humana, servindo a côr para nos transportar ao calor da personalidade retratada, qual seja o caso desta mulher com cesto que vem a seguir, ou o retrato da mulher do pintor com que o artigo abre.

Deixo-vos agora com um grupo de pinturas de objectos, a que no final OS OBJECTOS de Zbigniew Herbert (1924 – 1998) dará o complemento poético.

OS OBJECTOS

Os objectos inanimados estão sempre em ordem e nós infelizmente não temos nada a censurar-lhes. Nunca vi uma poltrona trocar de pé ou uma cama erguer-se nas pernas traseiras. E as mesas, mesmo quando estão fatigadas, não se põem de joelhos. Suspeito que os objectos se comportam assim por razões pedagógicas: para nos censurarem constantemente pela nossa instabilidade.

Tradução de Jorge Sousa Braga a partir da versão inglesa de Czeslaw Milosz. Publicado por Assírio & Alvim, Lisboa 2009

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POESIA segundo Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)

05 Domingo Ago 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Nicolas de Staël, Sophia de Mello Breyner Andresen

É na poesia de Sophia que encontramos, quase em permanência, o eco da grande poesia clássica grega.
Decantado o verso, sobra apenas o essencial que faz a palavra — Ποίηση — POESIA —, qual esta poética definição dela:

Poesia

Se todo o ser ao vento abandonamos
E sem medo nem dó nos destruímos,
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar, é porque estamos
Nus em sangue, embalando a própria dor
Em frente às madrugadas do amor.
Quando a manhã brilhar refloriremos
E a alma possuirá esse esplendor
Prometido nas formas que perdemos.

Aqui, deposta enfim a minha imagem,
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem.
No interior das coisas canto nua.

Aqui livre sou eu — eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos
Aqui sou eu em tudo quanto amei.

Não pelo meu ser que só atravessei,
Não pelo meu rumor que só perdi,
Não pelos incertos actos que vivi,

Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei.

São as cores mediterrânicas da pintura tardia de Nicolas de Staël (1914-1955) que escolho para acompanhar a Poesia de Sophia.

 

 

 

 

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Poemas para o Verão: poema de Wallace Stevens

04 Sábado Ago 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Maria Helena Vieira da Silva, Wallace Stevens

A noite de Verão é como uma perfeição de pensamento. escreveu Wallace Stevens (1879-1955) no poema que hoje arquivo.

Não sei de outra forma mais exacta para exprimir o que em noites de Verão por vezes acontece, como hoje. Corre uma brisa suave que o som do saxofone de Ben Webster embala. O ar quente envolve-se de um acre, potente e delicioso cheiro a resina de pinheiro, e num quase mágico momento o tempo pára. Não há antes nem depois, apenas a harmonia de um céu onde a lua esplende, o cheiro inebria os sentidos, e o  som do saxofone decanta a emoção. É o Verão, são as ferias de Verão!

E o mundo estava calmo. A verdade num mundo calmo, / No qual não há outro sentido, a própria verdade / / Está calma, ela própria é verão e noite, …

Leia-se o poema na totalidade:

A casa estava silenciosa e o mundo estava calmo.
O leitor tornava-se no livro, e a noite de verão

Era como a essência consciente do livro.
A casa estava silenciosa e o mundo estava calmo.

As palavras eram pronunciadas como se não houvesse livro,
A não ser o leitor inclinado sobre a página,

A desejar inclinar-se, a desejar extremamente ser
O letrado para quem o seu livro é verdadeiro, para quem

A noite de verão é como uma perfeição de pensamento.
A casa estava silenciosa porque assim tinha de estar.

O silêncio fazia parte do sentido, parte do espirito:
Era a perfeição no seu acesso à página.

E o mundo estava calmo. A verdade num mundo calmo,
No qual não há outro sentido, a própria verdade

Está calma, ela própria é verão e noite, ela própria
É o leitor em tardia vigília, inclinado, lendo.

In Transport to Summer (1947), tradução de David Mourão-Ferreira.

Não sei de melhor companhia pictórica para este poema que alguma pintura de Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992) com que acompanhei o artigo e de quem escolho uma das suas bibliotecas para fecho.

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Verão com pintura: Pietr Mondrian (1872-1944)

03 Sexta-feira Ago 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte

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Pietr Mondrian

Neste enlevo de nada fazer, caminho, nado e a espaços leio. Guardo algum tempo para o blog e apeteceu-me pintura, mostrar no blog mais pintura, não em conexão com poesia, mas parte do museu imaginário que me acompanha.

Na pintura de Pietr Mondrian (1872-1944) anterior à primeira guerra mundial surge numa primeira etapa a deliberada abstractização do real, a que se segue um desligar de quaisquer referências identificáveis, recorrendo à representação repetitiva de formas elementares e a uma paleta quase sempre mono ou bi-cromática a que apenas a variação de tonalidade se acrescenta.
As pinturas deste período conservam ao primeiro olhar uma frescura e modernidade que as faz parecer dos nossos dias.
Pinturas de harmonia, levando a imaginação e percorrê-las no labirinto da sua composição, deixo-vos com uma pequena escolha.

Termino com uma pintura de 1908 que permite ver a evolução pictórica do mestre até às pinturas dos anos 1911-14 mostradas antes.

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Abelardo, o membro: uma fantasia

02 Quinta-feira Ago 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Prosas

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carlos mendonça lopes, Tom Wesselmann

Entra Agosto, chegam as férias, e neste sem-que-fazer vasculho papéis esquecidos, ou antes, vasculho ficheiros esquecidos. De entre o que encontrei surgiu esta história com Abelardo, o membro por protagonista, de que vos deixo uma versão curta.

Abelardo, o membro: uma fantasia

– Estou chateadíssima. Então não é que o Abelardo se estragou.
– Não me digas.
– Digo sim! Imagina tu que o Zé anda a ler uma história qualquer passada no Iraque. Encontrou lá descrita uma cena de sexo que o excitou e quis reproduzir. Então, quando estávamos na cama insistiu para que lhe enfiasse qualquer coisa no traseiro. Lembrei-me de lhe enfiar o Abelardo, mas qual quê? Eu bem o apertava, o esfregava e nada, o Abelardo ficava mole, fugia, escorregava, até parecia ter vida para se recusar a entrar ali. Nunca tinha acontecido comigo. Depois de tudo isto, o Zé desistiu e como calculas ficou furioso. Agora tenho bem umas semanas de jejum. E sem o Abelardo não sei como vai ser.
– Compra outro.
– Já não há. Fui à procura e desapareceu.
– Mas onde é que o compraste?
– Comprei na internet. Procurava um vibrador com o tamanho a que estava habituada e lá estava:
“Abelardo, o conforto das noites solitárias:
Dimensões: 18 x 4cm
Preço: 80 € + despesas de expedição
Fazem-se entregas em mão ou por correio em embalagem discreta.”
Decidi-me, e desde então tem sido do outro mundo. Até ao outro dia que se avariou. Como estava dentro da garantia, devolvi-o, mas responderam-me hoje dizendo que daquele modelo não havia mais. Fôra um sucesso e esgotara rapidamente. Poderiam enviar de outro tipo.
Não tenho esperança nenhuma. Este Abelardo era tão especial!
De repente pareceu-lhe ouvir uma voz dentro da cabeça:
– Pois é Alda, o vibrador que a consolou não era um vibrador qualquer, era não só especial, mas único. Guardava nele a essência da voluptuosidade desde tempos imemoriais.
– Hélia, parece-me que não me estou a sentir muito bem. Tenho a impressão de ouvir vozes na cabeça. Vou voltar para casa, tomo um chá e um Xanax e vou ver se acalmo.
– Queres que vá contigo?
– Não, não te incomodes. Apanho um táxi e vou. Táxi! Táxi!.
Parou um táxi, despediram-se e entrou. Sentada continuou a ouvir a voz. Era uma voz calma, pausada e deixava uma sensação de vir de fora do tempo: Esse vibrador, Alda, possui uma história que talvez goste de conhecer.
Indicou a morada ao taxista e encostou-se no banco. Pareceu-lhe até que adormecia.
Entretanto o taxi chegou a casa. Pagou e saiu. Sentia-se um pouco zonza, talvez por ter dormitado. Em casa tirou o casaco, descalçou-se, mudou de roupa e foi à cozinha. Pôs uma chávena com água no microondas para fazer chá. Ia buscar os comprimidos quando a voz de novo lhe apareceu:
– Não tome comprimidos, vão fazer-lhe mal. Sente-se no sofá com o chá e ouça-me.
Cada vez mais intrigada, e até um pouco assustada, sentou-se com a chávena e a saqueta do chá na mão.
– Sabe Alda, o Abelardo estragou-se porque o quis obrigar a penetrar um homem, a única coisa que nunca fez na vida e estava impedido de fazer. Agora que o devolveu ao fabricante irá certamente para o lixo e perder-se-ão, talvez para sempre, as suas virtualidades, a menos que o salve algum poder sobrenatural, o que nem será improvável a atender às vicissitudes por que passou ao longo dos séculos até lhe chegar às mãos.
– Que conversa tão estúpida. Só há vibradores há meia dúzia de anos, não conseguiu impedir-se de dizer em voz alta.
– É verdade, só há vibradores há meia dúzia de anos, mas a borracha com que este vibrador foi feito teve uma adição especial. Proveio de um lote de preservativos usados e recolhidos para reciclagem. Vai concerteza querer saber os pormenores.
– Talvez, pensou intrigada. E a voz prosseguiu:
– Nestes tempos de HIV, James Bond, em quem eu habitava, a conselho insistente do estúdio cinematográfico, resolveu adoptar o uso de preservativo nas suas actividades, e assim, num dia de distracção e grande azáfama, fui levado dentro de um preservativo usado. Foi um acidente sério. Diz-se até que por causa disso o próximo James Bond será casto. O caminho até James Bond foi acidentado e cheio de peripécias. Do que aconteceu ao preservativo conto mais à frente.
Cheguei a James Bond através de uma figurante do seu primeiro filme, e com ele permaneci até à fatídica distracção. Foram tempos bons, belas mulheres, hotéis de luxo, uma vida de correria à roda do mundo, enfim, do melhor que me recordo.
Mas voltando à rapariga, ela tinha sido modelo de Picasso, e num daqueles processos porque a providência me fez passar de geração em geração, a bela moça recebeu-me do pintor e passou-me ao James.
Foi já avançado na idade que Picasso, ao ter relações com a jovem modelo, depositou nela sem o saber a essência da virilidade masculina de que era no sec XX o guardião, numa cadeia que se transmitiu entre artistas e outros homens de génio desde há séculos. Tão infausto acontecimento foi o inicio da conhecida impotência do pintor no final da vida, com as consequências visíveis na sua obra pictórica.
– Começa a interessar-me a história, disse Alda de si para si.
E a voz continuou:
– O percurso desta essência através dos tempos tem despertado curiosidades, sobretudo num Sr. Borges, que se tem esforçado por a conhecer, mas não tem sido fácil de reconstruir, e o próprio tem ainda saltos e lacunas por preencher. Também já não serei de grande ajuda pois sinto a memória a esvair-se, agora que o principal de mim desapareceu. De alguma maneira a senhora é responsável por ter enviado para o lixo parte importante e essencial da virilidade masculina tal como tem sido conhecida até aos nossos dias.
Mas voltemos ao preservativo. Como as exigências explicitas no estúdio cinematográfico eram de reciclar tudo o que fosse reciclável, o preservativo que me continha foi incluído num lote de borracha para esse fim. O lote foi vendido a um fabricante de vibradores e assim me vi dentro de uma dessas peças infernais que só funcionam a pilhas. Eu nunca precisei de pilhas para funcionar pelo que transformei um banal vibrador na peça especial que conheceu.
Cada vez mais intrigada, Alda não resiste e pergunta-se:
– Abelardo, mas Abelardo porquê? Ainda se se chamasse Picasso ou James Bond, percebia-se. E aí a voz continuou:
– O fabricante de vibradores pretendia lançar num mercado tão competitivo como é o dos acessórios de sexo, onde todos são iguais parecendo diferentes, mais um produto que, sendo igual, chamasse sobre si as atenções. Contratou os serviços de uma agência de publicidade da qual recebeu diversas propostas insatisfatórias, até que uma noite lhe ocorreu: pois é, a diferença está no nome. Tinha visto na televisão um programa de um grupo de rapazes a dar pelo nome de Gato Fedorento.
Vibrador com nome era de facto um pouco estranho mas permitia ao possuidor criar uma relação afectiva com o objecto sem precisar estar a imaginar mais nada. Entre os nomes que lhe iam surgindo nenhum parecia suficientemente apelativo até que lhe segredei:
– Abelardo.
– Abelardo? É nome de gente? Ah pois é! É aquele que foi castrado por seduzir a aluna Heloísa, e a família não gostou. É isso mesmo!
Ao outro dia deu instruções ao departamento de promoção. A nova linha de vibradores teria nome e chamar-se-ia “Abelardo, o membro”.
– Podem começar a ter ideias sobre o aspecto gráfico da embalagem, ordenou.
Embalado e anunciado, fui posto à venda na internet com outros vibradores do mesmo lote de borracha, mas os outros não me continham. Ao que sei venderam-se depressa, sem que o nome de baptismo tivesse qualquer interferência nisso. Eu fui comprado pela senhora e tivemos as alegrias de que se recorda. Entretanto aconteceu a desgraça com o seu marido, e agora acabou-se de vez Abelardo.
Alda com um estremecimento, levantou-se e disse alto:
– Vou mesmo tomar um Xanax e ver se durmo. Já ouço vozes na cabeça há tempo de mais, devo estar a ficar maluca.

Epílogo

Devolvido o vibrador ao fabricante, como não funcionava foi separado para reciclagem.
Acabou incluído num lote que serviu para fabricar o boneco E.T. do filme de Spielberg do mesmo nome.
Provavelmente, e a acreditar no filme, a essência do nosso Abelardo estará agora no espaço sideral, quem sabe se ganhando nova vida entre os extra-terrestres.

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